05 abril 2019

Textos dos dias que correm

Autocrítica

«Um verdadeiro jornalista explica muito bem aquilo que não sabe.» «Jornalista: uma pessoa cujo trabalho consiste em separar o grão da casca, e em fazer publicar a casca.»

De vez em quando, um pouco de autocrítica não faz mal a ninguém. Inclusive aos jornalistas. Como neste caso, a cunhar estas duas frases, tão sarcásticas, estão precisamente dois famosos jornalistas. A primeira é de Leo Longanesi, criador de jornais e senhor de uma pena fustigadora. A segunda é de um conhecido jornalista americano, Elbert Hubbard.

O difícil é contradizer totalmente os dois, depois de folhear todos os dias as páginas de jornais e revistas. Não se trata de juntar sal às feridas, como também é evidente que todo o excesso de crítica, no fim, se autodestrói.

Pensemos, com efeito, como é preciosa a imprensa livre, a informação diversificada, a documentação disponível a todos, em particular nos nossos dias. Antes de tudo, deve-se reconhecer, sem hesitações, que a imprecisão domina, e muitas vezes corre a par com a presunção de explicar e saber tudo.

Um dito hebraico diz que «o sábio sabe o que diz, enquanto que o estúpido diz o que sabe». Há uma arrogância na ignorância que é, muitas vezes, irrecuperável. Mas devemos também fazer outra consideração.

Não raramente, o gosto pelo escândalo, o alimentar-se das cascas, o deleitar-se na falsidade, oferecem um subtil prazer partilhado por muitos. Cai, assim, não só a procura da verdade, mas também o respeito pela dignidade própria e dos outros.

A intempérie histórica em que vivemos perdeu, infelizmente, o sobressalto moral, o remorso, a seriedade e a severidade, que não são nem pedantismo, nem hipocrisia.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 03.04.2019

04 abril 2019

Do elogio

Não fui educado no, e para o elogio. Como é normal na natureza humana, não eduquei no, e para o elogio. Para efeitos desta pequena dissertação interessa-me pouco as consequências desse modo de educar: sei o peso que isso teve em mim, sei o peso que teve naqueles que me competiu educar; o que está feito não tem conserto, apenas pode servir de lamentação saudável e honesta ou de aprendizagem para o futuro. Mas a história do elogio não é apenas de pais para filhos, mas de amigo para amigo, de cônjuge para cônjuge, de colega de trabalho para colega de trabalho.

Olho para trás. Talvez eu tenha crescido numa época em que se dava pouca importância às crianças, em que se achava que elas não deviam ser salientes nem ter o poder de perorar sobre tudo. Talvez eu tenha crescido num meio cheio de pudores de vocabulário: não se dizia vermelho nem se dizia lábios, como não se dizia ovários nem virilha. E também não se dizia amor - pelo que a expressão amo-te estava reservada para o cinema ou para a literatura - ou simplesmente para as pessoas com menor pudor expressivo. Talvez então possa pensar que havia um pudor qualquer de linguagem no elogio: dizer-se muito bem!, ou de facto tens muito jeito!, estava vedado aos que também não diziam amo-te. Eu sei que não é verdade, mas a argumentação dá-me jeito. 

Não elogiar uma criança não é a mesma coisa que não elogiar um adulto. Não elogiar um filho não é, por isso, a mesma coisa que não elogiar a pessoa com quem se vive. Não se elogia uma criança porque não se tem feitio para isso ou se acha que as crianças não devem ter elogios. Ora, elogiar um adulto não obedece a nenhuma teoria educativa: é um acto de delicadeza, de incentivo, de simpatia ou da mais elementar justiça. Mas elogiar um adulto - o adulto com quem se vive, por exemplo - é colocá-lo num patamar mais elevado do que o nosso. É reconhecer algo no outro que merece uma certa admiração. E talvez esteja aí um dos motivos para não se elogiar o próximo: não queremos colocar o outro a um nível superior ao nosso. Não queremos vê-lo elevar-se relativamente à nossa normalidade. 

Elogiar pode ser um acto de generosidade ou de reconhecimento. Não o fazer a um adulto pode significar uma estratégia, sobretudo - algo que acontece em muitos casos - quando se é particularmente generoso nos elogios aos que nos são menos próximos. A inveja não é só desejar o que os outros têm; pode ser simplesmente, como ouvi no outro dia, não nos regozijarmos com o sucesso do outro. Ainda estou para perceber o que nos leva, na verdade, à parcimónia no elogio. É de graça e tem vantagens, pelo que...

JdB

03 abril 2019

Duas Últimas

Evgeny Kissin, cujo nome conheço bem é, indiscutivelmente, um grande pianista. Vou presumir que La Campanella, de Liszt, não é uma obra para meninos. Ver esta interpretação é ver algo que se aproxima da perfeição.



Não sei quem é Nobuyuki Tsujii - confesso que não fui ver de onde é nem que idade tem. Imagino que no mundo civilizado de hoje, cheio de tecnologia de diagnóstico, os pais deste rapaz teriam ouvido a informação terrível: o vosso filho nascerá cego; para além disso tem síndrome de Down.  Talvez os pais não quisessem ter este filho pelos motivos mais egoístas, por não acreditarem que a vida nasce a partir do momento da concepção, por acharem que um ser humano assim ia ser uma fardo para eles ou para a sociedade, que seria para sempre infeliz. Talvez a mãe fizesse um aborto... 

Deixo-vos com La Campanella. A mesma obra que Evgeny Kissin interpreta acima. Agora tocada por um pianista cego e com síndrome de Down. Não sei se há grande diferença na interpretação, imagino que haja pormenores aos quais não chegarei. Mas a grande diferença está entre aquilo que poderia ter sido um morte anunciada e uma vida feliz, a tocar Liszt nos concertos Promenade de 2013. 

JdB 




02 abril 2019

Duas Últimas

Vale a pena ouvir este youtube (enviado por mão amiga) desde o início, para se perceber a história. Os versos, de 1934, tirei-os daqui.

JdB



Ao Excelentíssimo Senhor Ministro da Agricultura

Exposição

Porque julgamos digna de registo,
a nossa exposição, Sr. Ministro,
erguemos até vós humildemente,
uma toada uníssona e plangente,
em que evitámos o menor  deslize,
e em que damos razão da nossa crise.
Senhor, em vão esta província inteira,
desmoita,  lavra, atalha a sementeira,
suando até à fralda da camisa.
Mas falta-nos a matéria orgânica precisa,
na terra que é delgada e sempre fraca.
A matéria em questão, chama-se caca.

Precisamos de merda, senhor Soisa,
e nunca precisamos de outra coisa…

Se os membros desse ilustre Ministério
querem tomar o nosso caso bem a sério;
se é nobre o sentimento que os anima,
mandem cagar-nos toda a gente em cima
dos maninhos torrões de cada herdade,
e mijem-nos também, por caridade…

O Senhor Oliveira Salazar,
quando tiver vontade  de cagar,
venha até nós, solicito, calado,
busque um terreno que estiver lavrado,
deite as calças abaixo, com sossego,
ajeite o cu bem apontado ao rego,
e como Presidente do Conselho,
queira espremer-se até ficar vermelho.
A nação confiou-lhe os seus destinos…
Então comprima, aperte os intestinos.
e ai..se lhe escapar um traque não se importe…
quem sabe se o cheirá-lo não dará sorte…
Quantos porão as suas esperanças
num traque do  Ministro das Finanças…
e também, quem vive aflito e sem  recursos,
ja nao distingue os traques, dos discursos…
Não precisa falar, tenha a certeza,
que a nossa maior fonte de riqueza,
desde as grandes herdades às courelas,
provem da merda que juntarmos nelas .

Precisamos de merda, senhor Soisa,
e nunca precisamos de outra coisa,

adubos de potassa, cal, azote;
tragam-nos merda pura do bispote,
e de todos os penicos portugueses,
durante pelo menos uns seis meses.
Sobre o montado, sobre a terra campa,
continuamente eles nos despejem trampa.
Ah terras alentejanas, terras nuas,
desesperos de arados e charruas
quem as compra ou arrenda ou quem as herda
sempre a paixão nostálgica da merda…

Precisamos de merda senhor Soisa,
e nunca precisamos de outra coisa…

Ah, merda grossa e fina , merda boa,
das inúteis retretes de Lisboa.
Como é triste saber que todos vós
andais cagando, sem pensar em nós…
Se querem fomentar a agricultura,
mandem vir muita gente com soltura…
Nós daremos o trigo em larga escala,
pois até nos faz conta a merda rala…
Ah, venham todas as merdas à vontade,
não faremos questão da qualidade,
formas normais ou formas esquisitas.
E desde o cagalhão às caganitas,
desde a pequena poia, à grande bosta,
tudo o que vier a gente gosta,

Precisamos de merda, Senhor Soisa ,
e nunca precisamos de outra coisa…

João Vasconcelos e Sá

01 abril 2019

Do auto-conhecimento

Daniel Goleman definiu o auto-conhecimento como um dos cinco componentes da inteligência emocional. O termo é auto-explicativo, pelo que não vale a pena debruçarmo-nos mais sobre ele. 

Ao longo da minha vida fiz vários exercícios de avaliação de auto-conhecimento, nomeadamente em contexto profissional, (também) através de uma ferramenta a que se chamava avaliação 360º. A pessoa em questão avaliava-se a si própria segundo certos critérios, e depois era avaliada - segundo os mesmos critérios - por subordinados, pares e superiores. Lembro-me de um colega, de um nível hierárquico acima do meu, ficar desoladamente surpreendido por perceber que tinha uma ideia de si próprio que não correspondia - ou correspondia muito pouco - à ideia que os outros tinham de si. Não sendo um homem arrogante, considerava que tinha características que, afinal não tinha - ou que a generalidade das pessoas não via...

Todos nós conhecemos pessoas que têm uma ideia errada de si própria, tanto num sentido como noutro. Pode ser um desvio de percepção, como pode ser uma fuga à auto-análise ou um erro propositado, qualquer que seja o motivo. Para essas pessoas o processo de emenda, de correcção, de melhoria pode ser mais difícil, porque partem de uma base errada - ou de base nenhuma... É muito difícil melhorar-se se não se sabe (ou não quer saber-se) em quê. Ou se se acha que pouco há a melhorar. 

Na semana passada jantei com amigos. Um deles, com quem me dou muito bem apesar de ser amizade bastante recente, tem um nível de auto-conhecimento que pode ser quase humorístico. Dizia-me ele: ao contrário da maioria de vocês, eu sou uma pessoa que... , sendo que depois referia aquilo que ele entendia conseguir fazer (irrelevante para o ponto em questão), ao contrário, segundo ele, da generalidade dos outros. A frase em si nada tem de interessante, não fosse o caso de ele ser ver de forma totalmente invertida: ele seria dos que não conseguiria fazer aquilo que acha que conseguiria fazer. A frase tem a graça (sendo inócua) por ser totalmente desprovida de verdade. Ele teria dificuldade em fazer aquilo, mas entende que conseguiria - melhor ainda, que conseguiria, ao contrário de todos os amigos.

Sendo amigo dele, o ponto é humorístico. Não só é curioso o facto de ele se conhecer tão mal, como é curioso o facto de ele estar a mencionar uma qualidade. Isto é, não disse: ao contrário da maioria de vocês, eu tenho um distúrbio obsessivo-compulsivo. O que ele disse foi que tinha uma qualidade que era rara no grupo de amigos. Tanta falta de auto-conhecimento e (de certa forma) vaidade é, no mínimo, interessante. Como é interessante o facto de numa pessoa inteligente e com experiência de vida. Conhecermo-nos bem tem muito que se lhe diga.

JdB 

31 março 2019

IV Domingo da Quaresma

EVANGELHO – Lc 15,1-3.11-32

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
os publicanos e os pecadores
aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem.
Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo:
«Este homem acolhe os pecadores e come com eles».
Jesus disse-lhes então a seguinte parábola:
«Um homem tinha dois filhos.
O mais novo disse ao pai:
‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’.
O pai repartiu os bens pelos filhos.
Alguns dias depois, o filho mais novo,
juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante
e por lá esbanjou quanto possuía,
numa vida dissoluta.
Tendo gasto tudo,
houve uma grande fome naquela região
e ele começou a passar privações.
Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra,
que o mandou para os seus campos guardar porcos.
Bem desejava ele matar a fome
com as alfarrobas que os porcos comiam,
mas ninguém lhas dava.
Então, caindo em si, disse:
‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância,
e eu aqui a morrer de fome!
Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe:
Pai, pequei contra o Céu e contra ti.
Já não mereço ser chamado teu filho,
mas trata-me como um dos teus trabalhadores’.
Pôs-se a caminho e foi ter com o pai.
Ainda ele estava longe, quando o pai o viu:
encheu-se de compaixão
e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos.
Disse-lhe o filho:
‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti.
Já não mereço ser chamado teu filho’.
Mas o pai disse aos servos:
‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha.
Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés.
Trazei o vitelo gordo e matai-o.
Comamos e festejemos,
porque este meu filho estava morto e voltou à vida,
estava perdido e foi reencontrado’.
E começou a festa.
Ora o filho mais velho estava no campo.
Quando regressou,
ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças.
Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo.
O servo respondeu-lhe:
‘O teu irmão voltou
e teu pai mandou matar o vitelo gordo,
porque ele chegou são e salvo’.
Ele ficou ressentido e não queria entrar.
Então o pai veio cá fora instar com ele.
Mas ele respondeu ao pai:
‘Há tantos anos que eu te sirvo,
sem nunca transgredir uma ordem tua,
e nunca me deste um cabrito
para fazer uma festa com os meus amigos.
E agora, quando chegou esse teu filho,
que consumiu os teus bens com mulheres de má vida,
mataste-lhe o vitelo gordo’.
Disse-lhe o pai:
‘Filho, tu estás sempre comigo
e tudo o que é meu é teu.
Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos,
porque este teu irmão estava morto e voltou à vida,
estava perdido e foi reencontrado’».

30 março 2019

Textos dos dias que correm

O automóvel

«Os homens metem no seu automóvel tanto amor-próprio como gasolina.» «O automóvel tornou-se agora como um artigo de vestuário, sem o qual nos sentimos nus, incertos e incompletos.»

Juntei hoje duas afirmações de autores diferentes que cruzei na leitura de um só ensaio. Ambas as declarações, apesar de terem origens diferentes, convergem para um único símbolo, típico da nossa civilização, o adorado automóvel.

Quer o escritor e jornalista francês Pierre Daninos, quer o famoso investigador canadiano dos “mass media” Marshall McLuhan delineiam o aspeto mítico deste objeto de grande sucesso na publicidade e que se tornou emblema do nosso tempo, além de componente decisiva para a economia e, infelizmente, também da degeneração ambiental.

Como sugere Daninos, ao automóvel muitos reservam um amor que muitas vezes não dedicam aos seus semelhantes. Basta apenas assistir ao ritual da manutenção da sua máquina, à histeria que os atinge quando se avaria, à mutação humana que se regista quando estão ao volante e se abandonam a furores homéricos dirigidos aos outros que atentam contra a sua majestade.

O automóvel faz de tal maneira parte da vida de uma pessoa, que McLuhan tem razão quando diz que ele é uma roupa sem a qual não se entra no mundo e não se tem segurança.

Tudo isto faz-nos compreender um elemento de ordem geral, o da dependência das coisas, que, se por um lado, é justa e real, por outro pode transformar-se em subordinação e em servidão, ao ponto de confundir a escala dos valores e a própria dignidade. Uma consequência, portanto, mais séria do que à primeira vista pode parecer.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 26.03.2019

29 março 2019

Poemas dos dias que correm

Alguns Poemas Com Endereço

Venha cá você, palavra alma! 
Diga "boa-noite!" a esta senhora
Não lhe mexa na mala
Não lhe toque na lama.
Não lhe faça mal!
(Estas crianças!) Vá-se embora...

Jorge
Podes vir.
Mamã, enfim, morta.

O homem que pedala, que ped'alma
Com o passado a tiracolo
Ao ar vivaz abre as narinas:
Tem o provir na pedaleira.

Alexandre O'Neill, in 'Abandono Vigiado' 

***

A Morte, esse Lugar-Comum

É trivial a morte e há muito se sabe 
fazer - e muito a tempo! - o trivial. 
Se não fui eu quem veio no jornal, 
foi uma tosse a menos na cidade... 

A caminho do verme, uma beldade 
— não dirias assim, Gomes Leal? — 
vai ser coberta pela mesma cal 
que tapa a mais intensa fealdade. 

Um crocitar de corvo fica bem 
neste anúncio de morte para alguém 
que não vê n'alheia sorte a própria sorte... 

Mas por que não dizer, com maior nojo, 
que um menino saiu do imenso bojo 
de sua mãe, para esperar a morte?... 


Alexandre O'Neill, in 'Abandono Vigiado' 

28 março 2019

Da estranheza de ouvir Shakespeare em francês

Na semana passada fui ver Romeu e Julieta de Gounod à Gulbenkian. Do alto da minha ignorância, e se me tivessem perguntado o que compôs o músico francês (Paris 1818 - 1893), teria respondido sem hesitar: uma ave-Maria... Compôs mais, muito mais, mas não é a contabilidade musical que aqui me traz. 

À saída perguntei a opinião a amigos que também haviam assistido ao concerto. Nenhum dos dois gostara, e um deles disse-me uma frase enigmática que não explorei, porque entretanto se interpôs uma multidão e, posteriormente, uma ceia: Faltou ali Shakespeare... 

Romeu e Julieta é, de facto, uma obra de Shakespeare. Na ópera de Gounod, no caso vertente com uma encenação moderna e uma história que pode desviar-se um pouco (muito ligeiramente, penso eu) do original, os protagonistas falam em francês. Por outro lado, para mim ópera tem três línguas: italiano, alemão e russo, cada uma com as suas peculiaridades. O francês associo-o à opereta. Assim sendo, ouvir uma ópera em francês já pode ser um motivo de estranheza. Se lhe associarmos a estranheza de ouvir uma peça de Shakespeare em francês...

Não tenho a certeza de o meu raciocínio estar certo. Ouviria de bom grado o Hamlet em português ou em inglês, mas estranharia ouvi-lo em francês. Não há lógica na estranheza, porque um francês poderia dizer o mesmo se ouvisse o Hamlet em português (presumindo que entenderia o texto).  O que significa, então, faltar Shakespeare à ópera de Gounod? Não sei, e talvez a frase nada tenha de críptico, mas apenas de desilusão inexplicável de forma simples. A língua em que uma determinada obra é cantada / falada afecta a percepção e apreciação que fazemos dela? O D. Quixote tem de ser sempre falado em castelhano, nunca em alemão? Mas o Guerra e Paz, obra russa, pode ser falado em inglês? E se for em americano? E para um japonês é esteticamente normal ouvi-lo na sua língua natal? 

JdB

27 março 2019

Vai um gin do Peter’s ?

SALVA POR NAPOLEÃO E VICTOR HUGO  –  NOTRE-DAME DE PARIS

O grande escritor, que marcou o século XIX francês, usou a sua arma mais poderosa – a pena – para interessar os seus compatriotas pelo restauro da Catedral mais antiga e especial de Paris. Usou-a como metáfora de um apelo mais amplo, que se estendia também a França, empobrecida e humilhada pelos anos da Revolução e pela derrota nas Guerras Napoleónicas. Considerava que tudo deveria partir da Catedral e indignava-se com o estado de degradação a que chegara aquele templo precursor do gótico, citando o lema latino ‘Tempus edax, homo edacior,' que traduzia por «o Tempo é cego, mas o homem é insensível.»

Esse alerta deu corpo ao famoso romance de Victor Hugo – «Notre-Dame de Paris» –, publicado em 1831. Hoje, é mais conhecido pelo título que adquiriu, pouco depois, na tradução inglesa – «O Corcunda de Notre-Dame» (‘The Hundchback of Notre-Dame’). A trama mereceu filmes, inspirou músicas, animou palcos de teatro, pôs a Catedral na moda e fez mudar mentalidades. 

Ilustração do livro, a evocar um cenário para desfiar o romance, em palco.
A sua narrativa aventurosa evoca a história de França, com a Catedral no epicentro. 

Os próprios diálogos das personagens e as reflexões lapidares, ao longo do texto, fizeram furor e alastraram-se por toda a sociedade como fogo na pradaria. Seguem algumas apanhadas, ora no original, ora na versão inglesa:  

- Il ne suffit pas, de passer sa vie, il faut la gagner. 
- Les modes ont fait plus de mal que les révolutions.
- When a man understands the art of seeing, he can trace the spirit of an age and the features of a king even in the knocker on a door.
- When you get an idea into your head you find it in everything.
- Nothing makes a man so adventurous as an empty pocket.
- He reached for his pocket, and found there, only reality.
 - Il semblait au jeune homme que la vie avait un but unique: savoir.
- La beauté est parfaite, / La beauté peut tout, / La beauté est la seule chose qui n'existe pas à demi.


   SOBRE O SOFRIMENTO:

- Au dedans de moi est l’hiver, la glace, le désespoir, j’ai la nuit dans l’âme.
- L'excès de la douleur, comme l'excès de la joie, est une chose violente qui dure peu.
- A one-eyed man is much more incomplete than a blind man, for he knows what it is that's lacking.
- … Pour une mère qui a perdu son enfant, c'est toujours le premier jour. Cette douleur-là ne vieillit pas.
- ...Mothers are often fondest of the child which has caused them the greatest pain.
- He had preferred to incur her anger rather than cause her pain. He had kept all the pain for himself. 

Ilustração da primeira edição do romance, que conta com personagens nas franjas da sociedade:
a arrebatadora cigana Esmeralda e Quasimodo, o corcunda criado em Notre-Dame de Paris.

   SOBRE A CATEDRAL E O FITO DO LIVRO:

- Inspirons, s'il est possible, à la nation l'amour de l'architecture nationale. C'est là, l'auteur le déclare, un des buts principaux de ce livre ; c'est là un des buts principaux de sa vie. (…) Depuis l'origine des choses jusqu'au quinzième siècle de l'ère chrétienne inclusivement, l'architecture est le grand-livre de l'humanité, l'expression principale de l'homme à ses divers états de développement, soit comme force, soit comme intelligence.
- He therefore turned to mankind only with regret. His cathedral was enough for him. It was peopled with marble figures of kings, saints and bishops who at least did not laugh in his face and looked at him with only tranquillity and benevolence.

Como bom romântico, Victor Hugo (1802-1885) ousou tomar para heroína do seu romance aquela jóia arquitectónica debilitada, que urgia recuperar, em nome da História, da Cultura e da riqueza espiritual impregnada em oito séculos de pedra rendilhada. ‘Papa Hugo’ – como é carinhosamente chamado, no seu país – ainda conseguiu despertar a afeição dos franceses pelo legado da Idade Média, especialmente desvalorizado e até apoucado, durante os séculos XVII e XVIII.  

Mas V. Hugo não foi o primeiro, nem o último, a trazer a Catedral dos poetas para a literatura. Desde a sua edificação, serviu de musa a incontáveis escritores e artistas plásticos, sobretudo de língua francesa. Um, viveu ali uma experiência mística que lhe mudou a vida. Era o dia de Natal de 1886… como narra o artigo gentilmente cedido pelo autor:  

«A catedral de Notre-Dame, em Paris, construída há cerca de 850 anos numa ilha no meio do rio Sena é mais do que uma igreja e uma obra de arte, é um monumento da engenharia dedicado a Nossa Senhora.

Cada um é tocado por Deus a seu modo e a seu tempo. Por exemplo, o grande escritor francês Paul Claudel (1868 – 1955) escreve o seu encontro com esta catedral quando tinha 18 anos: «...o meu estado habitual continuava a ser a sensação de asfixia e de desespero. Eu era esse miúdo infeliz que, no dia 25 de Dezembro de 1886, foi a Notre-Dame de Paris ver as cerimónias do Natal. Tinha começado a escrever e pareceu-me que iria encontrar nos ofícios católicos, apreciados com superior diletantismo, a inspiração e o assunto para uns exercícios decadentes. Foi com essas disposições que, acotovelado e empurrado pela multidão, assisti, com um prazer medíocre, à missa solene. Depois, como não tinha nada melhor para fazer, voltei para as vésperas. Os meninos de coro de túnicas brancas e os alunos do seminário menor de Saint-Nicolas-du-Chardonnet cantavam o que, soube mais tarde, era o “Magnificat”. Eu estava em pé, no meio da multidão, perto do segundo pilar na entrada do coro, do lado direito da sacristia. E foi então que o acontecimento que dominou toda a minha vida ocorreu. Num instante, o meu coração foi tocado e ACREDITEI. Acreditei com tanta força de adesão, com tal arrebatamento de todo o meu ser, com uma convicção tão poderosa, com uma tal certeza que não deixava espaço para qualquer espécie de dúvida, que desde então todos os livros, todos os raciocínios, todos os azares de uma vida agitada, não conseguiram abalar a minha fé, nem, sequer, tocá-la. Experimentei, de repente, o sentimento inebriante da inocência, da eterna filiação de Deus, uma revelação inefável» (“Ma Conversion”, Oeuvres en Prose, 1913).

Para um escritor, está bem. Não serei eu a tirar valor a todas as conversões e a todos os acontecimentos históricos que tiveram lugar nesta catedral, mas ela tem igualmente uma faceta tecnológica que merece ser contada.

Até àquela época, os edifícios mais altos tinham 15 ou 20 metros de altura e estavam parcialmente abrigados por árvores ou pelas construções circundantes. Em contrapartida, o telhado de Notre Dame eleva-se a 43 metros de altura, as torres têm 69 metros e a flecha alta chega quase aos 100 metros. A subida de 20 para 43 metros foi a ocasião de os construtores descobrirem os efeitos do que hoje chamamos a camada limite atmosférica, isto é, o progressivo aumento da velocidade do vento com a altura ao solo.
Na Idade Média, o projecto de uma catedral já se baseava em cálculos relativamente sofisticados, mas a grandeza do desafio não dispensava a verificação experimental. Uma das técnicas consistia em pintar as paredes com cal, para detectar o aparecimento de fissuras: onde elas aparecessem, as tensões eram demasiado grandes e devia-se reforçar a estrutura. Em Notre-Dame, verificou-se que se produziam fissuras na base das paredes quando sopravam ventos mais fortes e compreendeu-se que isso era devido a uma força lateral aplicada na parte superior do edifício. Ao mesmo tempo, constatou-se que a catedral era mais escura que o habitual, porque as únicas janelas ficavam a grande altura.

Assim, decidiu-se apoiar lateralmente a parte superior do edifício com arcos botantes e abrir grande janelas mais abaixo. Tinha surgido o estilo gótico na arquitectura!

Os construtores de catedrais da Idade Média mantinham entre si um estreito contacto, de modo que a notícia correu por toda a Europa em poucos meses e as modificações de Notre-Dame começaram a ser aplicadas a todas as grandes igrejas em construção, incluindo algumas menos altas, que não precisariam deste sistema de apoio. Em poucos meses, em toda a Europa se passou a construir no estilo gótico. 

Os quase 850 anos da catedral de Notre-Dame presenciaram muitas histórias decisivas da vida da Igreja e do mundo. Durante a Revolução Francesa, em nome da cultura, deitaram abaixo a flecha de quase 100m de altura, destruíram 28 estátuas [correspondiam a reis, que foram decapitados] do interior e todas as estátuas do exterior à excepção de uma. Ao longo destes séculos, houve tempo para partir muita coisa, mas também houve tempo para reconstruir este triunfo do engenho humano sobre a força da camada limite atmosférica. Em honra de Nossa Senhora.»

José Maria C.S. André, publicado a 10-II-2019,
em media e blogs anglo-portugueses


Embora a Cidade das Luzes abunde em templos dedicados a Maria, designados também de ‘Notre-Dame’, apenas o da l’  Île de la Cité merece levar o nome da capital gaulesa. No terreiro em frente à sua fachada principal, está assinalado o ponto zero, referencial de contagem de todas as estradas de França. É caso para dizer que todos os caminhos vão dar a ‘Notre-Dame de Paris’.  

Na estrela de oito pontas, em bronze, está gravado o «Point zéro des routes de France», ali colocado em 1924.
Fotogr. de Jean-Pierre Bazard, Wikimedia Commons // CC BY-SA 3.0

Antes de Victor Hugo, Napoleão já tinha salvo parcialmente a Catedral, ao conter a onda de vandalização que se seguiu à Tomada da Bastilha. Além de a devolver ao culto cristão, depois de ter sido reduzida a armazém, elegeu-a para ali realizar a cerimónia onde se auto-proclamou imperador. Ajudou, assim, a pôr cobro à razia feroz dos anos da Revolução Francesa. 

Nas curiosidades da Catedral, iniciada em 1163, encontra-se a famosa «floresta» instalada no telhado, porque os toros que lhe dão forma transpuseram para aquele remate cimeiro todo um bosque das redondezas. Num gesto de modernidade muito precoce, reciclou pórticos românicos de outros templos, para os adaptar em estilo e dimensão à nova estrutura gótica. A maioria dos monstros nas gárgulas superiores surgiram nas obras de restauro do segundo quartel do século XIX – as tais instigadas por Victor Hugo. Já no século XX, após o fim da Primeira Guerra, foi decidido introduzir no galo catavento, situado no topo do pináculo a 93 metros de altura, relíquias dos Santos Patronos da cidade (S.Dinis e Sta.Genoveva) e uma partícula da coroa de espinhos, para servir de «pára-raios espiritual» (assim desejado e dito pelo Cardeal Verdier), no coração de França. O implante das relíquias no corpo do galo metálico só ficou pronto no agitado ano de 1935, já perto da outra Guerra Mundial. Na visita virtual, que segue, vê-se o arrojo e a beleza dos arcos botantes ao 4:56 minuto:


Quem não treme com o aviso forte de Victor Hugo à sua geração, confrontando-a com os tempos áureos dos fazedores de catedrais: «Nos pères avaient un Paris de pierre, nos fils auront un Paris de plâtre [gesso]»? Mais de cem anos depois da morte do romancista, aquele mau presságio ressoa com um realismo assustador. Resta-nos, ao menos, continuar a apreciar e cuidar do património maravilhoso que tivemos o privilégio de herdar, nós que deixaremos às gerações vindouras um mundo meio plastificado e demasiado virtual, abaixo de gesso… 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

26 março 2019

Desejar ser

"A mais poderosa inclinação e o mais poderoso apetite do homem é desejar ser. Bem nos conhecia este natural o demónio, quando esta foi a primeira pedra sobre que fundou a ruína a nossos primeiros pais. A primeira coisa que lhe disse e que lhe prometeu foi que seriam: Eritis (Gén. 3,5), e este eritis, este sereis foi o que destruiu o mundo. Não está o erro em desejarem os homens ser, mas está em não desejarem ser o que importa. Uns desejam ser ricos, outros desejam ser nobres, outros desejam ser sábios, outros desejam ser poderosos, outros desejam ser conhecidos e afamados, e quase todos desejam tudo isto, e todos erram. Só uma coisa devem os homens desejar ser, que é ser santos. Assim emendou Deus o sereis do demónio com outro sereis, dizendo: Sancti eritis, quia Ego sanctus sum . O demónio disse: Sereis como Deus, sendo sábios; e Deus disse: Sereis como Deus, sendo santos. E vai tanto de um sereis a outro sereis, que o sereis do demónio não só nos tirou o ser como Deus, mas tirou-nos também o ser, porque nos tirou o ser santos, e o sereis de Deus, exortando-nos a ser santos, como ele é, não só nos restitui o ser como Deus, senão também o ser. Quando Moisés perguntou a Deus o que era, respondeu Deus definindo-se: Ego sum qui sum (Êx. 3,14): Eu sou o que sou — porque só Deus tem por essência o ser. Agora diz a todos os homens por boca do mesmo Moisés: Se sois tão amigos e tão ambiciosos de ser, sede santos, e sereis, porque tudo o que não é ser santo, é não ser. Sede rei, sede imperador, sede papa: se não sois santo, não sois nada. Pelo contrário, ainda que sejais a mais vil e mais desprezada criatura do mundo, se sois santo, sois tudo o que pode chegar a ser o maior e mais bem afortunado homem, porque sois como aquele que só é e só tem ser, que é Deus. Todo o outro ser, por maior que pareça, não é, porque vem a parar em não ser. Só o ser santo é o verdadeiro ser, porque é o que só é, e o que há-de permanecer por toda a eternidade."


Padre António Vieira

25 março 2019

Dos cuidadores informais - um outro olhar

Há algumas semanas participei, na sede do CDS, num encontro sobre cuidadores informais. Fi-lo enquanto presidente da Acreditar, até porque eu próprio, devo dizê-lo, não tenho experiência nessa matéria, para além daquela que nos cabe enquanto filhos disponíveis para pais mais ou menos idosos ou necessitados. Do ponto de vista da carga do trabalho (e excluo, daqui, o gosto com que se faz tudo) realizar tarefas pontuais ou vagamente continuadas é diferente de cuidar. Também é cuidar, mas no entanto...

O Estado tem uma relação com os cuidadores informais que assenta, forçosa e naturalmente, em coisas tangíveis: tempo de reforma, possibilidade de subcontratação ou de recorrer a uma rede de cuidados existente, folgas, direitos, etc. Desse ponto de vista, a existência do cuidador informal tem uma coluna de deveres muitíssimo maior do que a coluna de direitos. É forçoso, portanto, que se faça algo para mitigar a grande fragilidade e sobrecarga (tantas vezes sem contrapartidas, a não ser o amor) a que esta "classe" de pessoas está sujeita. Pessoas (e convivo de muito perto com uma), como já o disse aqui no estabelecimento aquando do encontro na sede do CDS, sem tempo próprio, presas a um dever e a uma responsabilidade, a um gesto contínuo, permanente (e ironicamente desgastante) de amor que não é valorizado pelo Estado.

O cuidador informal apresenta-se à sociedade de duas formas - e é assim que devemos vê-lo. Em frente a uma repartição dos ministérios que o tutelam apresenta-se com um cartão de cidadão, com uma folha de horas trabalhadas, com um histórico de contribuições para a segurança social, com uma folha modesta no que toca à previsão de reforma. Leva as despesas de saúde não reembolsadas, os fins de semana registados como de trabalho, as consultas de psiquiatria ou os episódios de desgaste em que atirou um copo à parede ou se sentou no chão a chorar. O Estado regista o que há a registar, e contabiliza o número de consultas de psiquiatria, mas não as causas que as geraram. O cuidador informal fala de amor, mas o Estado não sabe bem o que isso é.

O cuidador informal também se apresenta a cada um de nós, essa massa imensa de gente que não faz parte da máquina burocrática do Estado, totalmente despido. Uma mão aponta para a cabeça, a outra para o coração. Atentar nas mãos do cuidador é identificar o que é importante na sua actividade: o discernimento e o amor. Com o primeiro toma as melhores decisões, rodeia-se de quem o ajude, define o caminho que parece mais certo. Com o segundo - o amor - toma também decisões, porque o cuidador informal não tem uma tabuada à frente, precisa do coração para decidir com a cabeça. O segundo, o amor, é o combustível que o faz seguir em frente.

Ora, olhar para o cuidador não é olhar para um prisioneiro do amor, para um refém do altruísmo ou do dever. Olhar para o cuidador é olhar para um ser humano cheio de boas intenções, crivado de falhas, tentado pelo egoísmo (a que cede) ou vencido pela exaustão. Só há cuidador quando há alguém de quem se cuida. Nesse sentido a palavra (ou a função) é relacional e envolve os dois numa espécie de dança em que ambos têm uma função - ainda que nem sempre clara ou definida. A nós, a quem está de fora, cabe-nos olhar para o cuidador e perceber que nem tudo deve ser feito em nome daquele de quem se cuida, ou que o cuidador é uma espécie de marioneta sem vontade própria, sem angústias próprias, sem dúvidas próprias ou cansaços próprios, porque o importante - o verdadeiramente importante - é aquele de quem se cuida. O cuidador não é uma simples peça numa máquina - mas uma peça sem a qual a máquina não funciona. No limite, proteger o cuidador é proteger a relação, é proteger, também, aquele de quem se cuida.

Sobre o cuidador não pode cair o peso de uma frase mortífera: tudo tem de fazer-se em nome de quem precisa.O cuidador tem necessidades que o Estado não provê. E por vezes precisa de coisas simples: um toque, uma palavra, um incentivo, uma concordância, uma disponibilidade.

JdB

24 março 2019

III Domingo da Quaresma

EVANGELHO – Lc 13,1-9

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
vieram contar a Jesus
que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus,
juntamente com o das vítimas que imolavam.
Jesus respondeu-lhes:
«Julgais que, por terem sofrido tal castigo,
esses galileus eram mais pecadores
do que todos os outros galileus?
Eu digo-vos que não.
E se não vos arrependerdes,
morrereis todos do mesmo modo.
E aqueles dezoito homens,
que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou?
Julgais que eram mais culpados
do que todos os outros habitantes de Jerusalém?
Eu digo-vos que não.
E se não vos arrependerdes,
morrereis todos de modo semelhante.
Jesus disse então a seguinte parábola:
«Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha.
Foi procurar os frutos que nela houvesse,
mas não os encontrou.
Disse então ao vinhateiro:
‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira
e não os encontro.
Deves cortá-la.
Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’
Mas o vinhateiro respondeu-lhe:
‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano,
que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo.
Talvez venha a dar frutos.
Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano».

23 março 2019

Pensamentos Impensados *

Antigamente era costume pôr a roupa lavada, ao Sol a corar, isto é, para ficar mais branca; daí... a brancura dos nossos costumes.

O milho roxo é um cereal killer?

O Kama Sutra, se estiver em formato de "livre de poche" passa a ser livro deboche?

De uma pessoa que caia 10 vezes se diz que está em decadência.

Qual a diferença entre Luis XV e Noé? O primeiro disse "après moi le déluge"; Noé disse "après le déluge moi".

Parece que o vidro não pode ser considerado um sólido pois ao fim de séculos deforma-se; assim sendo, pode formular-se o seguinte postulado: afirmar-se que o vidro é um sólido, não é líquido.

Uma paisagem com vacas é sempre bucólica; é dessas vacas que se faz o osso buco.

SdB (I)

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* publicado originalmente em 11 de Janeiro de 2010

22 março 2019

Poemas dos dias que correm

Quero a Fome de Calar-me

Quero a fome de calar-me. O silêncio. Único
Recado que repito para que me não esqueça. Pedra
Que trago para sentar-me no banquete

A única glória no mundo — ouvir-te. Ver
Quando plantas a vinha, como abres
A fonte, o curso caudaloso
Da vergôntea — a sombra com que jorras do rochedo

Quero o jorro da escrita verdadeira, a dolorosa
Chaga do pastor
Que abriu o redil no próprio corpo e sai
Ao encontro da ovelha separada. Cerco

Os sentidos que dispersam o rebanho. Estendo as direcções, estudo-lhes
A flor — várias árvores cortadas
Continuam a altear os pássaros. Os caminhos
Seguem a linha do canivete nos troncos

As mãos acima da cabeça adornam
As águas nocturnas — pequenos
Nenúfares celestes. As estrelas como as pinhas fechadas

Caem — quero fechar-me e cair. O silêncio
Alveolar expira — e eu
Estendo-as sobre a mesa da aliança

Daniel Faria, in "Dos Líquidos"

***

A Festa do Silêncio

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

António Ramos Rosa, in "Volante Verde"

21 março 2019

Sobre o destemor

Apanhei a notícia a meio, pelo que não afianço a fiabilidade da reprodução. Aparentemente os títulos de alguns livros estrangeiros estão a ser traduzidos de forma diferente do que já foram. Lembro-me de um exemplo: Three Man in a Boat, de Jerome K. Jerôme, estaria a ser traduzido por Três Homens num Barco, porque as gerações actuais já teriam dificuldade em perceber o título de sempre: Três Homens num Bote. O que é um bote?

Na mesma linha de raciocínio, já não faz sentido cantar-se o Fado das Caldas (letra de Vicente da Camara): quem sabe o significado de milorde aguisalhada?

***

Alguém terá dito (e talvez tenha sido um economista, um magnata ou ninguém, que posso ter sonhado) que os tempos de guerra são ideais para se fazerem grandes negócios - ou grandes fortunas. Mas também são um tempo ideal para a criação de uma linguagem própria e datada: obus, artilharia pesada, flanco, furriel, cavilha de granada. No dia em que o mundo for um sucedâneo infindo de tempos de paz, alferes miliciano e varíola serão termos pertencentes ao mesmo léxico, agrupados no mesmo verbete: palavras em desuso ou português arcaico. Acontece o mesmo com as palavras herói, destemor, audácia, só que, neste caso, o arquivo no verbete acima referido é injusto, porque a heroicidade não é monopólio das guerras. Poderá não haver furriéis, mas haverá sempre destemor, pese embora a expressão ter sido colada injustamente ao aspecto físico da situação. Na guerra o corpo conta muito.

***

Não tendo passado pela experiência da guerra (embora tenha convivido durante 18 meses com algum vocabulário de guerra) não tendo sido rapaz, jovem, homem dado a murros nem estalos, nem tendo sido posto à prova no que concerne à defesa física de alguém próximo, a ideia do destemor físico diz-me tanto como a baleia de bossa. Sei que existe, imagino que seja importante para o equilíbrio da natureza, mas gosto mais do meu cão, um setter inglês com uma mistura singularmente humana de alegria e necessidade de atenção. E, nessa linha de raciocínio, aprecio outros géneros de destemor claramente subvalorizados no mundo moderno: o destemor de reconhecer erros ou de pedir desculpa, o destemor de sair da zona de conforto, o destemor de reconhecer obsessões, manias incomodativas ou adições, o destemor de pedir ajuda ou uma opinião, o destemor do low profile por convicção (que não por feitio) numa era de evidências.

Em mim há ainda o gosto pela ideia aristotélica, expressa na Ética a Nicómaco, da posição virtuosamente intermédia entre dois excessos: a generosidade como intermédio entre o esbanjamento e a avareza, a coragem como intermédio entre o medo e a audácia. Um gosto que deriva, talvez, de ser uma ideia fora de moda, desfasada num tempo que desdenha o equilíbrio como maçador. 

***

Já não há milordes, já não se sabe o que é aguisalhada, um dia não se saberá o que é bote ou varíola. Mas destemor haverá sempre, mesmo em tempo de paz. Talvez sobretudo em tempo de paz.

JdB  

20 março 2019

Duas Últimas e poemas dos dias que correm

Camilo Pessanha nasceu filho ilegítimo em 1867. Era opiómano, viveu em Macau e escreveu (ou escreveram-lhe) um livro chamado Clepsidra, que era um relógio de água que, medindo o tempo através do escoamento de água de um vaso, servia para controlar o tempo de oradores ou de oradores, já não sei bem. De Piazzolla sei pouco, a não ser que era argentino e compunha tangos que, para mim, não chegam aos calcanhares dos cantados / compostos por Gardel, carregadinhos de sensualidade. Mas sei que compôs uma obra bonita, chamada Oblivion, que pode traduzir-se por olvido. Não me parece que Astor e Camilo se tivessem cruzado - talvez no céu em que ambos acreditariam de forma diferente, porque um bandonéon é diferente de um cachimbo de ópio. Ou não, sei lá eu...

JdB

***

Olvido

Desce por fim sobre o meu coração
O olvido. Irrevocável. Absoluto.
Envolve-o grave como véu de luto.
Podes, corpo, ir dormir no teu caixão.
A fronte já sem rugas, distendidas
As feições, na imortal serenidade,
Dorme enfim sem desejo e sem saudade
Das coisas não logradas ou perdidas.
O barro que em quimera modelaste
Quebrou-se-te nas mãos. Viça uma flor...
Pões-lhe o dedo, ei-la murcha sobre a haste...
Ias andar, sempre fugia o chão,
Até que desvairavas, do terror.
Corria-te um suor, de inquietação...

Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'




19 março 2019

Textos dos dias que correm

Guerra santa

«A guerra santa é feita de dez partes: uma parte consiste em guerrear contra o inimigo, as outras nove estão na guerra contra si próprio.»

O termo árabe “jihad”, usado para indicar a “guerra santa”, tem na realidade uma génese “ascética”: denota, com efeito, antes de tudo, a luta contra si próprio.

É isto que nos ensina com aquele aforisma Sufyan ibn ‘Unaynah, grande mestre muçulmano que viveu em Meca, onde morreu em 814. Dele se diz que aos quatro anos sabia o Corão de memória e que vivia só de um pão ao dia.

Propus aquele seu moto porque se adapta bem à substância de toda a espiritualidade e à prática quaresmal, permitindo-nos também descobrir a genuína religiosidade do Islão, tantas vezes deformada por lugares comuns ocidentais e comportamentos insensatos de certos adeptos seus (minoritários mas turbulentos e, infelizmente, perigosos).

A eles (mas não só) poder-se-ia aplicar outra frase deste místico: «Um tempo em que as pessoas precisam de pessoas como aquelas, é um mau tempo».

Mas regressemos à advertência, sempre verdadeira e necessária, sobre o controlo de si, sobre o domínio das paixões, sobre a vitória em relação aos vícios.

Séneca tinha já declarado que «comandar-se a si próprio é a mais alta forma de comando». A ascese tem aqui o seu núcleo, e é um compromisso muitas vezes desatendido, na convicção de que são outros os deveres primários da espiritualidade.

«Vencer-se a si próprio é a mais bela vitória», dizia-se na antiguidade pagã. Esta deveria ser também a marca de uma moral cristã que tem em si motivações ainda mais altas para vencer orgulho e egoísmo.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 18.03.2019

18 março 2019

Do vegetarianismo como fonte de tristeza



Declaração prévia: a fotografia acima, que ilustra o texto abaixo, não é mais do que um exercício de tentativa de humor. Não pretende apoucar ninguém que tenha sido afectado pela anorexia, nem pretende diminuir as pessoas que fazem opções alimentares com base em juízos ponderados.

***

As teorias mais falíveis e, por isso, as que menos se prestam a discussões, são as elaboradas de forma impulsiva, baseadas em percepções, embirrações ou fetiches. Estas teorias não se combatem porque não se sabe onde está a argumentação que as sustenta.  O pensamento que desenvolverei abaixo podia, por isso, assentar numa patetice apenas, numa ideia vestida de embirração. Pelo contrário, tem por trás um raciocínio que, embora não infalível, tem o seu quê (ainda que pouco) de lógico e pensado, o que abre uma brecha na muralha... Eu explico:

Ontem ao pequeno almoço, lamentando não poder deglutir duas torradas de pão saloio barradas de generosa manteiga, dei por mim com uma certeza partilhada em voz alta: não conheço vegetarianos (menos ainda adeptos do veganismo) que aparentem um ar verdadeiramente feliz. Aliás, acho que revelam todos um semblante triste, talvez flácido, pouco enérgico, nada vivaz. 

O vegetariano (e incluirei aqui os adeptos do veganismo, por facilidade de exposição) assentam a sua conduta alimentar na recusa. Tudo neles está pendurado numa palavra: não. Poderão eles alegar que comem vegetais e frutas, e que isso é dizer sim - pelo menos aos vegetais e frutas. Acontece que estes dois alimentos, embora abundantes e propiciando uma abundância de receitas (falam-me no alho francês à Braz e no bife de tofu) são uma minoria de entre a variedade de géneros que podem comer-se. Significa isto que à maioria das coisas que existem na natureza, o vegetariano diz não. Diz não ao bife, diz não ao entrecosto ou às lulas, diz não à pescada cozida ou ao salmão grelhado, à chanfana ou ao franguinho da Guia. O vegetariano diz não, e não e não. Recusa quase tudo.  

Entre o vegetariano e a velha solteirona há semelhanças assinaláveis - a recusa feita quase religião. O vegetariano diz não às favas com chouriço como a velha solteirona diz não ao beijo carregado de paixão e demora. Ambos, acantonados cada um na sua trincheira, dizem não ao prazer saudável, ao pequenino excesso, àquilo que, num caso, une mais as pessoas - uma mesa onde se almoçou ou jantou. Ambos fazem da recusa, do não proferido com um ar de horror, um hábito de vida. São os animais que morrem para dar comida, são os corpos enleados para gerar prazer. A tudo isto se diz que não, em nome de uma ética forte ou de um combate da devassidão. Este combate, feito em nome de valores muito próprios, é um combate árido, que esmaece as feições porque o corpo e a alma, para se habituarem à recusa, hibernam em permanência, fogem do sol e refugiam-se numa aparente seriedade onde não entra a sensualidade, porque é pecado, ou o pargo legítimo, porque foi pescado ainda vivo.

Gostaria que me apresentassem um comediante vegetariano para, num exercício de humildade saudável, eu reconhecer a inutilidade da minha certeza. Até lá, até ser esmagado pelo peso da evidência, ergo bem alto a bandeira da minha convicção: ser vegetariano (como ser puritano) torna as pessoas tristes. 

JdB

17 março 2019

II Domingo da Quaresma

EVANGELHO – Lc 9,28b-36

Evangelho de Nosso senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago
e subiu ao monte, para orar.
Enquanto orava,
alterou-se o aspecto do seu rosto
e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente.
Dois homens falavam com Ele:
eram Moisés e Elias,
que, tendo aparecido em glória,
falavam da morte de Jesus,
que ia consumar-se em Jerusalém.
Pedro e os companheiros estavam a cair de sono;
mas, despertando, viram a glória de Jesus
e os dois homens que estavam com Ele.
Quando estes se iam afastando,
Pedro disse a Jesus:
«Mestre, como é bom estarmos aqui!
Façamos três tendas:
uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias».
Não sabia o que estava a dizer.
Enquanto assim falava,
veio uma nuvem que os cobriu com a sua sombra;
e eles ficaram cheios de medo, ao entrarem na nuvem.
Da nuvem saiu uma voz, que dizia:
«Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O».
Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou sozinho.
Os discípulos guardaram silêncio
e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que tinham visto.

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