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07 setembro 2008

O tudo e o nada


Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

Largamos um dos centros de Lusaca – neste caso o hoteleiro, onde se situam as unidades de maior qualidade. O trânsito, como referi, é caótico, não só em termos de intensidade, como de condução.
Ao fim de 15 minutos chegamos aos chamados compounds, o equivalente em português dos nossos bairros sociais. O que nos rodeia é difícil de descrever: estradas de terra batida e em pior estado do que as de qualquer monte alentejano que se preze; mini-buses como enxames de insectos tontos, parando em qualquer lado para largar ou recolher passageiros, retomando a marcha sem preocupação por quem circula; de ambos os lados da estrada, um renque de bancadas onde se vende tudo – cebolas, batatas, limões, peixe seco, pedaços de carne colocados em cima de folhas de papel, tudo exposto às moscas e à poeira que se cola com uma camada fina; centenas de pessoas circulando num vaivém ininterrupto, sentadas à beira da estrada, respirando este ar que se entranha nas gargantas.
Continuamos a circular por estes carreiros, alguns dos quais ficarão intransitáveis quando chegarem as chuvas, transformando-se em rios sem utilidade – não circulam barcos, não circulam carros. O automóvel, que não está preparado para estes percursos, geme, esforça a suspensão, exige mais do automatismo das mudanças. Ao fim de vinte minutos chegamos ao Lyland Compound.
Desaguamos num recinto que se poderia assemelhar ao pátio de uma casa agrícola. No centro ressalta um edifício parecido com os nossos celeiros, de onde saem sons ritmados, perfeitos de afinação e simultaneidade, essencialmente femininos. Entramos a meio de uma missa católica, rezada num dos dialectos, assistida por algumas dezenas de locais – homens mulheres, crianças, jovens – celebrada por dois padres acolitados por quatro rapazes, trajados totalmente a rigor na sua função. Passa pouco das cinco da tarde de um dia de semana.
Uma coisa é saber da labuta dos missionários (neste caso combonianos), outra é ver o que fazem e onde fazem o seu trabalho. Olhar para um missionário é ter uma visão dupla: o que deixam e o que encontram. Sabemos todos o que fica para trás: o conforto, o acesso às lojas, ao cinema, às esplanadas, ao convívio com a família ou amigos, a disponibilidade permanente dos livros, discos, cultura; a possibilidade (quase sempre) de uma boa refeição a tempo e horas.
Calculo o que deixaram, vi um pouco do que encontraram: não vislumbrei (ou não imaginei) cinemas, livrarias, restaurantes, estradas em condições, interlocutores à altura para discutir uma obra publicada, uma tendência política, um caminho da Igreja; não descortinei uma mesa numa praça onde se vira a cara ao sol e se enfrenta os dias que se avizinham. Ali, pela pequena visita que fiz, não há nada daquilo que para nós é um mínimo indispensável, e não me refiro a luxos, vidas ricas e excessivas, benesses que só o muito dinheiro pode oferecer. Falo do trivial, do simples, do quotidiano.
Estou certo de que a minha mente estava formatada para achar que um missionário largava tudo para se entregar à inexistência da maioria das coisas. Não sei exactamente o que fazem aqui em Lusaca, porque a nossa conversa com o Padre Horácio, de Lamego, foi curta. Mas sei que vão ao encontro da miséria, da pobreza, da exclusão, da ignorância tal como nós a entendemos, da descrença ou da desesperança, da doença e do desconforto.
Com a convicção que me vem da alma e não da evidência, com a certeza que se gera mais na percepção do que no facto, estou agora convencido que o missionário deixa atrás de si um nada para se entregar a uma plenitude. E isso talvez lhe dê uma felicidade cuja dimensão temos dificuldade, ainda, em imaginar.

Que interessa ao Homem perder o mundo inteiro, se com isso ganhar a sua Vida?



06 setembro 2008

Para os meus amigos da (Uni)Lever


Não sei como estará a marca OMO em Portugal, mas em Lusaca, há dois ou três dias, estava um pouco amolgada...


05 setembro 2008

Ir a Lusaca e voltar


Atravessamos a fronteira na zona do lago Kariba, que nos garantem ter menos movimento, vedado que está o trânsito a pesados nesta estrada que cruza uma reserva. Até cerca de 40km da Zâmbia seguimos a estrada que todos os camiões provenientes da África do Sul, Moçambique, Zimbabué tomam para rumar a norte. Encontrar-se-ão na estrema do país, formando longas filas para vencer os obstáculos burocraticamente complicados na passagem de um lado para o outro.
Os procedimentos para atravessar a linha que separa os países, embora cumpridos de forma simpática pelos funcionários diligentes, são totalmente obsoletos à luz dos nossos critérios ocidentais: longos cadernos preenchidos à mão - pelo próprio transeunte - sem qualquer controlo, carimbos sucessivos em documentos vários, perguntas importantes cujas respostas não são validadas e, por fim, de cá para lá, o pagamento de 50 dólares americanos pelo meu visto, pois sou turista. Uma forma expedita de ganhar divisas a troco de um recibo bonito, como um selo holográfico, carimbado em duplicado.
Estando bem acompanhado, nunca temi pela minha segurança, muito menos pela minha não passagem para o o país vizinho. Mas, o facto é que persiste a sensação (formatada pela nossa facilidade de circulação no espaço Schengen) de que uma resposta mal dada, um sorriso entendido a desoras ou uma desconfiança provocada por um diálogo que os locais não entendem poderão provocar um pequeno incidente, onde a razão da força esmagaria a força da razão, com a mesma dificuldade com que um elefante tropeçaria numa lêndea ao sol de inverno.
Durante alguns quilómetros, já em solo zambiano, temos a noção de uma vegetação semelhante à que deixámos para trás – vastidão, mato, cores secas verde e castanha, alguns cabeços povoados por árvores que crescem nesta zona de África. A aproximação a Lusaca realça as diferenças: do lado zimbabueano, uma natureza selvagem, espontânea, bonita. Do lado da Zâmbia, uma natureza igualmente selvagem, mas desorganizada, anárquica, com grandes vestígios, junto de alguns aglomerados populacionais, de sujidade e descuido.
Facilmente nos apercebemos de que a Zâmbia é um país que não vive a crise profunda do seu vizinho: há uma profusão imensa de carros em circulação, sinal de acesso fácil a combustível; as lojecas de beira de estrada, embora degradadas, estão abertas e em funcionamento; há bancadas de venda de produtos ao longo do percurso, um ror de mini-buses (os nossos pães de forma) evita os infindáveis pedidos de boleia ao longo das vias.

Devido a características próprias, mas também devido às cerimónias fúnebres do presidente Mwanawasa, que se realizaram na 4ª feira e que provocaram o encerramento de algumas ruas, o trânsito na cidade é caótico, lento, desrespeitador das convenções mundiais – um amarelo obriga a passagem sob risco de embate por trás, um vermelho depende…
Tenho o dia 3 de Setembro livre – pelo menos até ao fim da tarde. Refiro ao Sr. Eurico Marques, emigrante nestas paragens há 50 anos, rotário e natural da Figueira da Foz – e que foi de uma amabilidade inestimável aquando da nossa chegada – que talvez vá passear a pé pela cidade, munido de um mapa, de máquina fotográfica e de curiosidade pelos motivos de interesse que sempre existem numa capital africana. Recomenda-me fortemente que não o faça, dado o carácter aparentemente violento das gentes locais. Convida-me, como alternativa, para um programa bem menos agressivo, se exceptuarmos o excesso ponderal de que ainda sofro: um churrasco, um braai em linguagem africander, em casa de um sul-africano, caçador de caça grossa, e que conheci no MOTH (Members of the Tin Hat) de volta de uma bebida generosa.
No dia seguinte lá estávamos, em casa do Chris e da sua segunda esposa, uma ucraniana de Odessa e aqui residente há mais de vinte anos. Ainda o relógio não batera o meio-dia e meia hora e já eu me servia de um uísque, bebida que me acompanharia durante o almoço, até meio da tarde. Precavido, previdente e cauteloso, só a primeira dose foi correcta; todas as outras foram sub-standard, porque a sobriedade é uma característica a manter, estejamos na África profunda, na cosmopolita Londres – ou no pacato Monte Estoril. Os outros convivas (mais dois sul-africanos, um deles casado com uma russa) provocaram, pela amostra da manhã, um aumento no vidrão local. O que comemos? Vaca, porco e salsichas de Kudu (um primo do antílope), carnes limpas e suculentas, grelhadas ao ar livre e borrifadas com cerveja, enquanto os convivas peroravam sobre o futuro da nação e sobre a entrega de África aos locais.
Lusaca é uma cidade relativamente feia – bem menos interessante do que Harare – mas com outra pujança. Enquanto aqui, na capital do Zimbabué se têm de procurar legumes por montes e vales, pesquisando aturadamente os melhores preços da cebola ou do tomate, havendo, para além disso, um excesso de inexistências (passe a contradição) de bens essenciais, lá há de tudo, como na botica. Fomos a um supermercado normal, e senti-me no Harrod’s, quando ainda não era do egípcio. É extraordinário como a trivialidade se transforma em luxo: deambulámos pelos topos de gôndola, circulámos pelos corredores dos enlatados e das farinhas com um salivar disfarçado, porque a sobriedade, repito, é uma atitude a manter.
O regresso, ontem de manhã, voltou a ser pelo lago Kariba, onde a presença de quatro elefantes na beira da estada atrasou um pouco a partida após um almoço caro e de pouca qualidade. Acabamos por fazer os últimos quase 200 quilómetros de noite, o que é uma façanha arriscada: as estradas não têm luz, os carros não têm faróis, alguns circulam com os quatro piscas ligados, ou apenas um, ou com os máximos, porque é a forma de iluminação que as avarias e as falta de dinheiro provocam nos veículos. Há o quase desespero de se manterem visíveis pelos que passam na mesma estrada - e qualquer subterfúgio é bom, desde que eficaz; na beira, gente que pede boleia, que vende um peixe, raspadinhas para carregar os telemóveis, um bocado qualquer de legume. Se considerarmos a cor dos locais e a iluminação que (não) existe, facilmente percebemos os elevados riscos ocupacionais.

02 setembro 2008

Vou-me embora, vou para o Norte



À hora a que a maioria dos meus leitores me visitar estarei a caminho de Lusaca, na Zâmbia, onde ficarei até 5ª feira. Conto regressar à vossa convivência, ao vivo e em directo (já que tentarei programar um post diário), na próxima 6ª feira, que a hora de chegada se adivinha ao sol-posto.

Será uma viagem curta, com cerca de dia e meio, para conhecer a capital que foi palco de acordos que geraram independências de novos países africanos.

Viajarei de carro, e à volta prevê-se uma paragem no Lago Kariba, no noroeste do Zimbabué, já na fronteira com a Zâmbia.




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