quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Textos dos dias que correm

O passarinho

«Se eu puder impedir um coração de se quebrar, não terei vivido em vão. Se aliviar a dor de uma vida ou curar um sofrimento, ou ajudar um passarinho caído a voltar ao ninho, não terei vivido em vão.»

É, em absoluto, uma das poetisas que me é mais querida, a americana Emily Dickinson, que viveu no século XIX em isolamento na casa paterna de uma cidadezinha do Massachussets.

Os seus versos são sempre límpidos, ainda que nem sempre fáceis, e revelam uma intensa espiritualidade que se confia aos grandes temas bíblicos e à contemplação da natureza, a partir do microcosmo do jardim da família.

Escolhi hoje alguns versos que refletem uma mensagem imediata e cristã. Não se vive em vão, não porque realizaste grandes projetos, não porque as multidões te aclamaram, e também não por teres deixado livros que ganham pó nas bibliotecas.

A verdadeira herança que assegura a eternidade é o amor que se semeou, mesmo nos pequenos gestos como é o de suster um passarinho recém-nascido, ou acariciar a quem está em sofrimento e talvez não o saiba exprimir.

Sobretudo gostaria de sublinhar a frase «impedir um coração de se quebrar». Demasiadas vezes passamos pelo próximo com a segurança e o distanciamento de um príncipe que não quer saber do povo.

Não nos damos conta das perguntas mudas, das pessoas frágeis que empurramos, dos sentimentos delicados que ignoramos e, até, desprezamos. Reencontrar a finura da alma, sem afetação mas com doçura, permitirá aos outros e a nós confessar que não vivemos em vão.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 17.09.2019

A saúde que não se deseja *

O post de hoje é longo e repescado de memórias com 11 anos. Setembro é o mês de sensibilização para a oncologia pediátrica - daí a campanha Setembro Dourado em tantos países do mundo. Por outro lado, o board da Childhood Cancer International, uma confederação mundial de associações de pais e crianças / jovens com cancro receberá em Outubro um novo membro. Chama-se Daniel e vem do Zimbabwe, de uma organização chamada Kidzcan, curiosamente (ou não, porque não há coincidências) a mesma organização que conheci esta semana, mas em 2008. Talvez ele fosse uma das pessoas que trabalhava num contentor, juntamente com a sobrevivente que me abraçou fortemente e disse you're an angel... Se querem perceber do que falo leiam o texto abaixo.

JdB   

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O cancro pediátrico é um drama em qualquer parte do mundo: o confronto com uma doença que se julga de velhos, o desconhecimento dos seus efeitos numa criança, o choque e o horror da palavra que se conjuga com a antevisão de um luto, as estatísticas lidas desequilibradamente em função do estado de espírito, a sensação de impotência, o pânico da dor e do sofrimento, a certeza obsessiva da incapacidade do sistema de saúde, a procura desesperada de alternativas supostamente mais eficazes e menos nocivas, o vocabulário técnico e de compreensão difícil, as noites em claro, as lágrimas que correm até ao limite da resistência, a esperança e a descrença lado a lado.

Falo do que sei por experiência própria e por aquilo que vou vendo, sabendo, intuindo. Com o diagnóstico que se ouve a nossa boca abre-se de espanto, de pavor, de incapacidade de soltar uma frase. Começa então uma aventura com um final imprevisto, porque não há autor da história para decidir o destino dos personagens: umas vezes o herói vai ao encontro do pôr-do-sol com um sorriso nos lábios, outras fica no local da batalha, porque a vida e o mundo estão longe de ser o paradigma da justiça.

Ser-se criança no Zimbabué é difícil – porque é difícil ser-se o que quer que seja neste país, se exceptuarmos os poderosos. Ser-se Pai (no duplo sentido da maternidade / paternidade) é um desafio, porque as dificuldades com que se luta diariamente são de monta: a escassez de bens essenciais, a fome (não se imagina o que se deve passar nas zonas rurais), um sistema financeiro incompreensível para qualquer doutorado, uma inflação de 3500% que destrói qualquer vislumbre ingénuo de planeamento caseiro, ordenados mensais inferiores à moeda que damos aos arrumadores de carros.

Hoje estive num hospital grande de Harare, onde visitei a ala das crianças com cancro. Era dia de chegada de novos doentes, e imaginei o que ia na cabeça daquelas mães para quem tudo isto é de uma violência sem nome, porque não têm apoios, o serviço de saúde não funciona, não têm dinheiro para utilizar num sistema de transportes que de qualquer forma é inexistente. Falei com dois médicos novos, pediatras, cujo salário mensal ronda o equivalente aos três dólares mensais. Como sobrevivem? Fazendo biscates por fora, envergando a camisola da missão que se escolhe, não do emprego que se tem.

Neste hospital funciona uma escola. As fornadas de licenciados são lentas, não por dificuldade intelectual de quem aprende, mas pela inexistência de gente que ensine. Os salários são tão baixos que os profissionais desertam. É por isso que a ala de que falo não tem oncologista pediátrico – está na Pensilvânia a trabalhar.

A falta de dinheiro sente-se em tudo: no gabinete do pediatra a quem ainda não deram um telefone nem uma linha de internet; no líquido desinfectante dos médicos que vem numa garrafa de 33 cl e é doseado pela tampa; na ausência de idas ao estrangeiro para assistir a uma conferência, tomar contacto com o outro mundo; na ausência de reagentes, o que torna o diagnóstico um exercício de adivinhação; na inexistência de drogas para o cumprimento dos protocolos de quimioterapia; na incapacidade de retenção de pessoal técnico qualificado; no desaparecimento de amostras para exames; no sonho ingénuo de ter exames básicos – ressonâncias magnéticas, TACs, etc. A falta de dinheiro sente-se ainda no resultado de tudo isto: crianças que morrem, devido, exclusivamente, à ausência de tratamentos adequados mínimos. Eu conheci um potencial exemplo: rapariga, quatro anos, leucemia, uma cara de chocolate a olhar para a mãe com uns olhos mansos e redondos, sentada numa cama sem perceber o que se estava a passar.

Conheci também a Kidzcan, uma organização zimbabueana ligada à Igreja (de Inglaterra / Escócia, presumo) que faz o impossível e o errado: substituir-se ao Estado. Quais as prioridades? Arranjar os medicamentos (uma actividade exercida no máximo sigilo e segurança para que nada aconteça), apostar no diagnóstico correcto (a ausência de diagnóstico precoce aumenta brutalmente a mortalidade infantil), apoiar as crianças. Paralelamente a isto ajudam os médicos no que podem, fazem angariação de fundos num país cujo tecido empresarial é inexistente ou mais frágil do que um pergaminho, garantem o transporte das crianças para os tratamentos. Como não há dinheiro, ou a criança fica abandonada no hospital porque os pais fogem espavoridos, ou regressa num estado terminal, quando pouco mais há a fazer do que garantir a qualidade na morte.

Peço desculpa pela dimensão do post de hoje, sobretudo não tendo a criatividade ligeira das noites de karaoke ou a descrição paisagística dos safaris em reservas. Quem teve a coragem e a paciência para chegar aqui, pode imaginar o que foi a minha manhã. Tudo foi compensado com a ternura da responsável da Kidzcan (uma sobrevivente) que, ao terminar a reunião nas instalações da associação (um cubículo com 15 metros quadrados), fez questão de me abraçar fortemente, agradecer a minha visita e dizer:

- You’re an angel ...

JdB

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 * publicado originalmente a 16 de Setembro de 2008

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Textos dos dias que correm

Vista de um quarto para séniores (iphone, 16.09.2019)

A janela

Ao final de cada dia, logo após a oração de vésperas, o monge de sandálias – andava sempre de sandálias – aproximava-se, a um ritmo certo, da grande janela, no fundo do coro. O mosteiro era uma ilha de vida silenciosa. Àquela hora, as montanhas cobertas de vegetação estendiam uma crescente sombra sobre o antigo edifício erguido, alguns séculos antes, num vale fértil, junto a um pequeno riacho.

Todos esperávamos esse momento. O monge levantava uma ponta do hábito e com um pé apoiado, dava um impulso para subir ao banco encostado à parede. De baixa estatura e rechonchudo, estendia os braços para puxar o fio através do qual se enrolava uma cortina sobre a janela. O sol declinava no horizonte, manso e previsível. E naquele gesto tão simples, naquele esforço tão repetido, mas sempre necessário, a luz espalhava-se pelas paredes altas de granito, incidia sobre os recantos escondidos, dava vida às velhas imagens e iluminava, de novo, os cadeirais onde todos os dias a comunidade monástica se reunia para rezar.

Perante o milagre da luz, fechávamos os olhos. E tudo recomeçava em cada entardecer. Havia ainda muita história para escrever. Mas naquele momento era apenas o silêncio levemente estremecido pelo rugir do vento nas frestas da grande janela. Bendito seja Deus!

As mãos do monge eram herdeiras de uma antiga sabedoria. Elas condensavam o ritual de uma comunidade que, todos os dias, procurava a Luz.

No início de mais um ano, Senhor ajuda-nos a ser como esse monge.


P. Nélio Pita, CM
Publicado pelo SNPC em 16.09.2019

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Duas Últimas

Tomei conhecimento com esta obra musical através da publicação no Linkedin de um amigo. Soube depois, também através dele, que esta obra tinha sido um improviso. Talvez seja mais correcto referir o que vem no youtube: an unrehearsed modal composition that he recorded for his "Everybody Digs Bill Evans" LP in 1958. Seja um improviso ou apenas uma peça musical não ensaiada (são coisas diferentes, eu sei..) é sempre obra de mestre. 

Espero que gostem de Peace Piece, de Bill Evans.

JdB

domingo, 15 de setembro de 2019

24º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Lc 15,1-32

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
os publicanos e os pecadores
aproximaram-se todos de Jesus, para O ouvirem.
Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo:
«Este homem acolhe os pecadores e come com eles».
Jesus disse-lhes então a seguinte parábola:
«Quem de vós, que possua cem ovelhas
e tenha perdido uma delas,
não deixa as outras noventa e nove no deserto,
para ir à procura da que anda perdida, até a encontrar?
Quando a encontra, põe-na alegremente aos ombros
e, ao chegar a casa,
chama os amigos e vizinhos e diz-lhes:
'Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida'.
Eu vos digo:
Assim haverá mais alegria no Céu
por um só pecador que se arrependa,
do que por noventa e nove justos,
que não precisam de arrependimento.
Ou então, qual é a mulher
que, possuindo dez dracmas e tendo perdido uma,
não acende uma lâmpada, varre a casa
e procura cuidadosamente a moeda até a encontrar?
Quando a encontra, chama as amigas e vizinhas e diz-lhes:
'Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida'.
Eu vos digo:
Assim haverá alegria entre os Anjos de Deus
por um pecador que se arrependa».

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Do passado e da felicidade

No ano passado, num casamento, fui abordado por uma sorridente senhora da minha idade: 

não se lembra de mim? 

Sofro, hoje em dia, de uma falha incomodativa: não fixo caras e, se "desenquadro" a pessoa em questão, não há hipótese de a reconhecer. Porém, estava certo de que nunca a tinha visto. Sorriu mais abertamente e elucidou:

sou fulana...

Abri a cara num sorriso grande e estivemos na iminência de um abraço. Não via fulana há 45 anos, talvez. Rimo-nos, contámos coisas, relembrámos pessoas e épocas. Agradeci-lhe muito o facto de, impulsionada pela irmã a quem eu tinha perguntado por ela, me ter vindo falar.

Tive um gosto enorme em ter revisto fulana? Nem por isso: o gosto adveio, muito simplesmente, de naquele sorriso que trocámos eu ter revivido uma época feliz. Fulana foi o veículo que permitiu o regresso a um passado que me deu muito prazer. Em bom rigor não troquei nenhum sorriso ou nenhum beijo com fulana. O meu sorriso, o meu sinal de afecto, foi para uma época que dista 45 anos - ou mais. Beijei o intangível através do beijo ao tangível. 

A felicidade é sempre um movimento do corpo sobre o passado, porque não podemos sorrir para o futuro, que não sabemos se existe. Sorrimos para o nascimento de um neto, para a alegria de um filho, para a amabilidade de um amigo: esse sorriso é sempre, decorrido um nanossegundo, sobre o passado, porque o presente é terreno de passagem. Tudo em nós já foi, nunca será, escassamente é.  

Olhar sobre o passado - mesmo que o passado seja a semana anterior à presente - é olhar sobre o certo, o conhecido, o existente. A nossa felicidade (ou o seu contrário) é sempre um exercício de memória, de recordação. A ideia de felicidade do professor Zandinga, que previa o futuro, é uma arma para iludir néscios. Somos felizes porque lembramos, não porque prevemos. Somos felizes porque temos passado, não porque desejamos futuro.

JdB   

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Duas Últimas *



Olho de Lince

(Luís Severo)

Eu vinha de um lugar onde nada se parecia
Com o teu passo calmo de Alvalade ao fim do dia
Tentavas explicar mas poucas vezes te ouvia
Vivia para sonhar a minha própria mania

Mas lá me apaixonei pelos teus jeitos de raposa
Iludido com a cidade começaste a fazer troça
Eu quase com dezoito a respirar extasiado
Só queria absorver o mundo contigo ao lado

Corremos Portugal no Verão
E em Setembro eu não quis dar-te razão
Dizias que é bom ter olho de lince
Não vá a quimera morrer nessa contenda
Não feches teu olho de lince
Que isto aqui é Lisboa, cada qual que se defenda

Fui para a tua faculdade e ficamos mais parecidos
Se soltava uma farpa era mel para os teus ouvidos
Vá lá não sejas prato para os tontos dos teus amigos
Dizias-me em segredo com os teus olhos decididos

Que à mesa do café tu só tens de ter certezas
Se não tens não faz mal ou imitas ou inventas
Com o teu ar natural quem dirá que não tens norte
Para ti banalidade é sempre palavra forte

Aproximou-se noutro Verão
E aos poucos já te ia dando razão
Dizias que é bom ter olho de lince
Não vá a quimera morrer nessa contenda
Não feches teu olho de lince
Que isto aqui é Lisboa, cada qual que se defenda

Mas quando me trocaste finalmente aceitei
Que é melhor andar à toa sem me olhar a ninguém
Bati com a cabeça uns três anos aos caídos
Até que um novo amor me devolveu os sentidos
E hoje longe do coração
Eu só te lembro para lembrar esta lição
Que é bom ter olho de lince
Não vá a quimera morrer nessa contenda
Não feches o olho de lince
Que isto aqui é Lisboa, cada qual que se defenda

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* por sugestão da minha filha

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Vai um gin do Peter’s ?

Com o tempo de Verão a arrastar-se Setembro adentro, os programas de praia ainda apetecem, embora possam ganhar em originalidade e dar lugar a paisagens invulgares para a maioria dos portugueses, mais familiarizados com a beira-mar salgada. 

As enseadas lindas junto a rios e afluentes formam praias pomposamente chamadas de fluviais, que vale a pena experimentar, até porque muitas ainda são pouco frequentadas. Com águas menos agitadas, costumam ter variedades náuticas, a começar pelas simples gaivotas, o remo, a canoagem e mesmo modalidades mais radicais. 

Aqui vão 10 sugestões, que excluem as barragens mais badaladas. Seguem em sequência geográfica, de Sul para Norte, começando no Algarve: 

PRAIA DO PEGO FUNDO, num desvio do Guadiana, mais exactamente na margem da ribeira de Cadavais, já a chegar a Alcoutim. Além de bonita, a temperatura da água é especialmente quente, acima dos 25º C.  



PRAIA DO PEGO DAS PIAS, em Odemira na fantástica costa vicentina, com acesso restrito a quem esteja disposto a percorrer 3 km a pé ou de bicicleta para chegar às lagoas naturais formadas pela sinuosa ribeira do Torgal. As quedas de água entremeiam com o relvado fresco e grupos de rochas escarpadas. A paisagem mantém um ar selvagem e quase virgem. 



PRAIA DO GAMEIRO, no rio Raia junto a Mora, em ambiente alentejano, a praia pertence ao Parque Ecológico do Gameiro.



PRAIA DO ALAMAL, num recorte do rio Tejo mesmo à vista do bonito Castelo de Belver, no Gavião. Tem um passadiço de 2 km, que permite aproveitar a vegetação frondosa da zona.



PRAIA DO AGROAL, na nascente do rio Nabão junto a Ourém, são atribuídas propriedades medicinais à sua água, como uma terma em céu aberto.



PRAIA DO MALHADAL, numa zona mais ampla de um afluente do rio Zêzere – a Ribeira de Isna – nas imediações de Proença-a-Nova. A ponte do século XVI contracena com a ponte flutuante mais recente, para divertir os banhistas. 



PRAIA DE LORIGA, perto da Serra da Estrela, em Seia, está situada num vale glaciar, que mantém a água cristalina, embora compreensivelmente fria e com o acesso menos fácil. 



PRAIA DO ADAÚFE, a vinte minutos de Braga, no rio Cávado, inclui percurso pedonal, pequenas cascatas e núcleos rochosos.

© Imagem de Cláudio Abdo


PRAIA DA CONGIDA, ainda em Trás-os-Montes, com vista para Espanha, na povoação que quase todos conhecemos como metáfora de lugares recônditos: Freixo de Espada a Cinta. Corresponde à albufeira criada pela barragem de Saucelle no rio Douro.

© Imagem de Jorge Ribeiro



PRAIA DO AZIBO, numa albufeira do rio Azibo, em Macedo de Cavaleiros - Nordeste transmontano. É considerada uma das Sete Maravilhas naturais de Portugal, além de ser das mais prestigiadas da Europa a nível de praias de água de doce. 

Albufeira do rio Azibo
Neste elenco aplica-se à letra o dito de que os últimos podem acabar por ser os primeiros, porque o areal do Azibo também foi eleito a praia fluvial do ano. Acrescenta assim mais uma atracção a Trás-os-Montes, que era a província portuguesa onde Miguel Torga se sentia em casa, rodeado por aquela natureza agreste e monumental, em simultâneo. Que o digam as arribas de pedra e os socalcos nas margens do Douro ou o Gerês ou o Parque Natural de Montesinho ou a vegetação que circunda a barragem do Rabagão ou o recorte do rio Côa ou as suas cidades de ecos antiquíssimos ou... No fundo, Portugal tem tanto para explorar, entre continente e ilhas, que o difícil é escolher.     

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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terça-feira, 10 de setembro de 2019

Da liberdade e da falta dela

Farnsworth House, Plano, Illinois, EUA (projecto de Mies van der Rohe)

Esta casa foi construída para a Dra. Edith Farnsworth, como casa de campo e aproximou-se, tanto quanto possível, da ideia de "quase nada", preconizada pelo seu arquitecto: a redução de todos os elementos à sua essência. 

Num certo sentido, é a ideia máxima de liberdade: num espaço totalmente aberto, não há as restrições que são dadas pelas portas ou pelas paredes. Mies van der Rohe ambicionava espaço amplos, muito amplos, que lhe permitissem uma total independência, sem qualquer constrangimento, sem que nada lhe dissesse para onde ir, por onde ir. Mas, num certo sentido, Farnsworth House é uma enorme prisão, pela total ausência de privacidade. Mesmo na arquitectura, nada mais sequestrador do que uma total liberdade.

Em Farnsworth House não há paredes nem portas. É por isso que é o conceito da casa - ausência de paredes, de portas, total transparência - que manda em quem lá está. A liberdade é eliminada pela liberdade. É só uma questão de quantidade de liberdade.

JdB

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Poemas dos dias que correm

Ausência

Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
Ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
Magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
Por isso, de deixar alguns sinais - um peso
Nos olhos, no lugar da tua imagem, e
Um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
Tivessem roubado o tacto. São estas as formas
Do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
As coisas simples também podem ser complicadas,
Quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade.
Porém, é o sonho que me traz a tua memória; e a
Realidade aproxima-me de ti, agora que
Os dias correm mais depressa, e as palavras
Ficam presas numa refracção de instantes,
Quando a tua voz me chama de dentro de
Mim - e me faz responder-te uma coisa simples,
Como dizer que a tua ausência me dói.

Nuno Júdice

***

Perfilados de medo

Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...

Alexandre O’Neill

domingo, 8 de setembro de 2019

23º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Lc 14,25-33

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
seguia Jesus uma grande multidão.
Jesus voltou-Se e disse-lhes:
«Se alguém vem ter comigo,
sem Me preferir ao pai, à mãe,
à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs
e até à própria vida,
não pode ser meu discípulo.
Quem não toma a sua cruz para Me seguir,
não pode ser meu discípulo.
Quem de entre vós, que, desejando construir uma torre,
Não se senta primeiro a calcular a despesa,
para ver se tem com que terminá-la?
Não suceda que, depois de assentar os alicerces,
se mostre incapaz de a concluir
e todos os que olharem comecem a fazer troça, dizendo:
'Esse homem começou a edificar,
mas não foi capaz de concluir'.
E qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei
e não se senta primeiro a considerar
se é capaz de se opor, com dez mil soldados,
àquele que vem contra com ele com vinte mil?
Aliás, enquanto o outro ainda está longe,
mand
a-lhe uma delegação a pedir as condições de paz.
Assim, quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens,
não pode ser meu discípulo».

sábado, 7 de setembro de 2019

Duas Últimas

Praia del Rey, 6 de Setembro de 2019, por volta das 16.00h

Estive a banhos esta semana. Na minha velhice e mau feitio, encontro na praia dois defeitos: as pessoas e a areia. Normalmente até vou a praias que não são tão populares assim, onde as pessoas falam de uma certa maneira, se cumprimentam de uma certa maneira, chama os filhos e os cônjuges de uma certa maneira; e, no fundo, me revejo nessas certas maneiras. Mas não gosto de muita gente, de confusão, de encontrões. A areia, por seu lado, não me atrai porque se agarra às pernas e aos pés. Se eu tivesse de escolher uma praia sem areia ou sem pessoas não hesitaria - antes a areia... Perceberão, assim, o meu gosto de ter estado na praia fotografada acima. Areia havia; já gente...

Deixo-vos com um samba bonito e um video bem disposto e bem cantado, próprio destes tempos de verão. 

JdB 





sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Poemas dos dias que correm

Solidão

A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios...

Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira

***

O Homem que Contempla

Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Textos dos dias que correm

Deus para lá da misericórdia

O entendimento que habitualmente se tem de misericórdia, fazendo desta uma reação a algo de negativo, diminui a grandeza do que a misericórdia é como ato. Entendida a misericórdia em termos divinos, imediatamente esta diminuição da sua grandeza implica que Deus seja visto como reativo, o que diminui ontologicamente Deus.

Ora, a misericórdia não se entende no que é a sua grandeza própria se não for intuída primeiro como ato divino e como ato divino paradigmático. Não é propriamente Deus isso que precise de um pretexto negativo para ter como ato – reativo – misericórdia.

A referência que o termo tem ao étimo «coração» não implica uma qualquer comoção inspirada na emotividade humana e projetada sobre Deus, mas que o ato de bem próprio de Deus tem como fonte o âmago – coração – de Deus: tal ato não é superficial, como o são todos os atos reativos, cuja razão os transcende, mas tão profundo quanto é o mais fundo do ser de Deus.

É, aliás, esta referência cordial que permite que se compreenda o que significa que «Deus cria a partir do nada»: cria sem o “nada” que não seja este seu coração; basta-lhe a grandeza ontológica infinita do «coração» para criar, não precisa de mais coisa alguma, matéria ou espírito.

Sendo assim, o grande ato de misericórdia consiste precisamente em “retirar” o absoluto do ser do seu absoluto relativo nada (não é um jogo de palavras), quer dizer, de isso que é o «coração» de Deus: o coração de Deus é o «nada» de que tudo é tirado, corresponde a um infinito metafísico de possibilidade, de que tudo pode tomar o ser, segundo o fiat de Deus.

O grande ato de misericórdia é, então, e nunca é demais relembrá-lo, o ato da criação do ser mundano. Tão santa misericórdia é, que Deus proclama tudo o que põe em mundano ser como bom, seja ato já concretizado ou possibilidade de ato a concretizar, segundo o mesmo absoluto de misericórdia com que foi posto no ser. Percebe-se que o mal é o que é posto em ser segundo a perversão do princípio – único – da misericórdia. É isto o pecado.

Ora, o que o texto sagrado de Job nos mostra é que a misericórdia de Deus como possibilidade oferta a Job encontrou na ação deste uma resposta perfeita. O próprio Deus proclama Job como bom, isto é, sem pecado; misericordioso ao modo de Deus, portanto.

Todavia, por causa da maldade presente no mundo e maximamente personificada na figura do Satã, que lança a pública dúvida sobre a bondade de Job como pura bondade, fazendo desta uma mera resposta comercial à bondade de Deus, Job tem de ser posto à prova, sem que possa ser de outro modo, que nunca permitiria que Job se manifestasse como realmente bom (a própria palavra de Deus fora posta em causa e Deus não pode usar de violência, sob pena de não ser Deus).

Conhece-se a narrativa longa da provação total de Job e da sua permanência como fidelidade em ato ao bem que Deus em si pôs, isto é, como fidelidade à misericórdia criadora de Deus: Job chega a mostra-se mais misericordioso para com uma falsa imagem de Deus que primeiro lhe aparece do que esta mesma imagem, assim provando que era bom e que Deus era bom porque o tinha feito e proclamado bom.

O que é fundamental perceber-se é que Job era mesmo bom, impecado, misericordioso, a seu modo, como Deus, a seu modo. Então, a misericórdia com que Deus trata Job não se deve a qualquer falta de Job, mas à necessidade lógica – e é a única divina – de Deus ser como é, misericordioso, independentemente do mais.

A misericórdia de Deus para com Job não responde a uma qualquer forma de dom que compense uma carência qualquer, antes, à continuidade de um dom que é o mesmo desde que Deus criou o mundo, como ato que transcende o entendimento do que possa ser a misericórdia como ato de relação entre criador e criatura, pois precede a criatura.

Então, em Deus, a misericórdia é algo de diverso, não apenas de diferente, do que é na criatura, mesmo naquela paradigmatizada em Job (Maria, também). Deus está para lá desta misericórdia pós-criação. Esta misericórdia segunda, a da relação com as criaturas, é a forma manifesta – a manifestação é a própria criação – do que Deus é como absoluto de ato – de ser –, como riqueza de tal modo grande que só encontra plenitude no dom da diferença, dom que coincide com isso a que se chama amor, posto em ato por isso a que se chama vontade.

De notar, que estes são apenas nomes que damos a realidades que, mesmo de algum modo vivendo-as, não dominamos. É a esta mesma misericórdia como ato de vontade como ato de amor, quer dizer, em que criamos o outro pelo bem que em seu sentido operamos, que os seres humanos são todos convidados.

Estamos muito longe de um ato reativo ou de um Deus de fracos e de doentes, esse que foi criado à imagem e semelhança dos cobardes e que foi criticado por Nietzsche. Não é este o Deus de Job e não é este o Job de Deus.

Que Job sou eu?


Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Publicado pelo SNPC em 04.09.2019

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Duas Últimas

Setembro é, como escrevi ontem, mês de lembranças. Ontem também, numa pesquisa neste estabelecimento, encontrei um post que escrevi em Fevereiro de 2011. O post não se referia aos Magna Carta, mas é como se fosse, porque a época era a mesma. E há 9 anos escrevi isto:

Corria o ano de 1975, talvez, e eu passava férias numa casa onde não havia luz eléctrica, tudo se fazendo, maioritariamente, ao cheiro do petróleo. Sempre que descrevia as características próprias daquele sítio, a pergunta era fatal: e o que fazem vocês o dia todo? A resposta, essa, proferia-a com a alegria simples de quem encontrou um paraíso setembrino: nada! E era isso, no fundo, que (também) tornava aqueles dias tão inesquecíveis. A não obrigação da televisão ou das noitadas, a tranquilidade de uma noite sem programa. As semanas corriam num remanso de relógio lento, na companhia de cigarros fumados às escondidas, jogos de pingue-pongue, idas à vila para ver televisão, ou a Badajoz para comprar caramelos solano e bisnagas de leite condensado.

Revivalismos de Setembro.

JdB



terça-feira, 3 de setembro de 2019

Dos setembros

Desde 1971 - ou 72, talvez - que o mês de Setembro me é favorável, afectivamente favorável. Já lá vão quase 50 anos mas, na verdade, não tenho uma profusão imensa de acontecimentos setembrinos a reportar. Tenho, isso sim, momentos - episódicos ou continuados - muito marcantes. Eu conto brevemente, para não afugentar os meus benevolentes leitores.

Entre os 13 e os 25 anos, talvez, passei grande parte do mês de Setembro no Alentejo, em casa de parentes e amigos. Desse tempo recordo muita coisas: a ausência de luz eléctrica, o cheiro dos candeeiros a petróleo, a rotina de acendê-los, a ausência de televisão, os cigarros às escondidas, a mata (uma vegetação verdejante mas estranha, dado o facto de se estar no coração do Alentejo) e o adro - sobretudo o adro - onde tanta coisa se passava, sem que nos mexêssemos muito. Era um tempo familiar - e era ali que me sentia em família, por motivos que não vêm agora ao caso. 

Os setembros alentejanos eram tempos lentos, demorados. Uso estes dois adjectivos porque tenho vindo a ler livros sobre a aceleração do mundo, a rapidez da vida, a hiper-conectividade, e o que isso tem de implicação para um determinado modelo de vida. Qual o antídoto? A lentidão, a demora, tudo o que permita fugir-se ao ruído, a uma sociedade sonoramente desorganizada que não permite a contemplação das coisas. Aqueles setembros eram lentos - o tempo ainda era lento. Foram tempos muito felizes e os meus anfitriões daqueles dias sabem que lhes devo isso.

A alegria do setembro continuado está explicada acima. Porém, hoje, mas há 11 anos, eu subia ao monte sagrado de Ngomakurira, nos arredores de Harare. Poucos episódios instantâneos (no sentido de se terem verificado num dia) me causaram uma impressão tão duradoura. (Poderão ler a crónica aqui) Eu sei que o meu estado de espírito naquele tempo era propício, mas nada me tinha preparado para aquele dia - a caminhada, a vista, a comoção da beleza, o sossego interior; e ainda, porque não há coincidências, o facto de ter conhecido uma pessoa que não mais voltei a ver, e que numa conversa de 15 minutos me levou a falar de crianças com cancro e me mostrou a ala pediátrica local.  

Montanha sagrada de Ngomakurira, 3 de Setembro de 2008

Os supermercados estão cheios de regresso às aulas, campanha que faz sentido agora. O meu regresso é outro, ainda que com encanto semelhante, para quem gosta de voltar à escola.

JdB

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