segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Textos dos dias que correm

A santidade dos humildes que emerge da tragédia

Correm imagens, na internet, nas páginas dos jornais, na televisão, o quadro da tragédia é observado, lucidamente, passionalmente, de cada ângulo. Acontece sempre assim, numa sociedade em que a comunicação, por vezes bisbilhoteira, superficial, insinuante, é muitas vezes manifestação de resistência, informação, apelo às consciências, poderosa quanto as forças sísmicas.

Redes sociais e meios de comunicação manifestam uma magnitude igual, e talvez superior, à dos 6,5 da Escala de Richter. Não nos restituem a vida, não fazem renascer as casas, as coisas com que vivíamos e que são fruto do labor e sede de afetos e memórias, a cama, a mesa, a cozinha, as paredes… Mas lançam-nos na realidade agónica, e portanto dolorosa e combativa, permitem-nos e sugerem-nos participação.

Neste rio de imagens e palavras, uma pergunta: de onde vem esta gente? Os sobreviventes, os que vivem agora em abrigos, os ceifados pela perda de filhos, mulheres, maridos, pais, amigos? Como fazem para conseguirem estar tão quentes e ao mesmo tempo sóbrios, estoicos, a sofrer e a controlar a dor para resistir à morte, à cegueira do sismo, à face cruel e desesperante do mistério mágico do mundo.

Depois aparece o pai de Giorgia, de quatro anos, rastreada, ela e a família, por um cão da equipa cinotécnica da polícia e resgatada pelos bombeiros, 16 horas após ter sido soterrada, na sequência de demorada escavação apenas à força das mãos. Vimo-la nos braços daquele que o jornalista corretamente define como seu socorrista, mas que nós sabemos ser seu salvador.

O seu rabo-de-cavalo depressa se torna símbolo da vida que continua. E o pai, entrevistado depois, lágrimas contidas, dor intensa e composta, agradece o destino que lhe salvou a vida da filha. Que sorte… Mas a outra, sugere timidamente a jornalista… Infelizmente a outra menina, a irmã de 10 anos encontrada sobre o corpo de Giorgia para a proteger… Não ousa continuar. Ele olha, ele e todos nós nos olhos, vemos os seus olhos como quando o divino possui um homem, um divino não antigo, um divino moderno, do pós-calvário, manso e bom antes de ser poderoso: infelizmente ela não conseguiu, responde. Como pensando que foi justo assim, em vez de uma agonia e um futuro de enfermidade.

Alguém nos protege, lá em cima. Protege os dois, aquela que milagrosamente foi salva e aquela que partiu. O vivo e o morto. Estou confundido e maravilhado pela forma como, numa tragédia e no pranto, olhando para um telejornal, repentinamente nos surge, manso e flagrante, o heroísmo e a santidade dos humildes.



A partir de texto de Roberto Mussapi
In "Avvenire"
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado aqui em 26.08.2016

domingo, 28 de agosto de 2016

XXII Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 14,1.7-14

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus entrou, a um sábado,
em casa de um dos principais fariseus
para tomar uma refeição.
Todos O observavam.
Ao notar como os convidados escolhiam os primeiros lugares,
Jesus disse-lhes esta parábola:
«Quando fores convidado para um banquete nupcial,
não tomes o primeiro lugar.
Pode acontecer que tenha sido convidado
alguém mais importante que tu;
então, aquele que vos convidou a ambos, terá que te dizer:
‘Dá o lugar a este’;
e ficarás depois envergonhado,
se tiveres de ocupar o último lugar.
Por isso, quando fores convidado,
vai sentar-te no último lugar;
e quando vier aquele que te convidou, dirá:
‘Amigo, sobre mais para cima’;
ficarás então honrado aos olhos dos outros convidados.
Quem se exalta será humilhado
e quem se humilha será exaltado».
Jesus disse ainda a quem O tinha convidado:
«Quando ofereceres um almoço ou um jantar,
não convides os teus amigos nem os teus irmãos,
nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos,
não seja que eles por sua vez te convidem
e assim serás retribuído.
Mas quando ofereceres um banquete,
convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos;
e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te:
ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos.

sábado, 27 de agosto de 2016

Pensamentos Impensados

Opções
Para vergonha da nossa sociedade, há pessoas que preferem estar presas, pois cá fora não têm que comer; chama-se cadeia alimentar.

Querem ser iguais
As deputadas do Bloco de Esquerda que se ponham a fancos com a igualdade de género; qualquer dia passará a dizer-se pérolas a porcas.

Para pequenos males...
Se vir um micróbio com soluços pregue-lhe um susto, dizendo que vai buscar penicilina.

Promoções
Para se chegar ao ponto cardeal é preciso passar-se por ponto bispo?

Políticas
CGTP convoca caracóis, tartarugas e cagados para marcha lenta.

Justiças
Há cerca de dois mil anos uma execução provocou uma vítima imortal.

Guinness
O corredor mais rápido do mundo é o corredor da minha casa; percorro-o em 5 segundos.

Bebidas 
O/A vodka foi inventado/a num país chamado Pielo-Russa.

SdB (I) 

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Queimadas *

Por Harare inteiro, sobretudo nos subúrbios, onde há vegetação, se sente o cheiro da terra queimada. Adormeço, muitas vezes com esse odor que me entra suavemente pelo quarto adentro. Traz-me à memória vaga o encanto de uma lareira, onde as chamas são sempre diferentes, onde os nossos olhos se perdem horas infindas enquanto a mente devaneia por outros lugares. É um cheiro que não me cansa, não me sufoca, se entranha mansamente nas minhas rotinas diárias.

Um dia, movido pela curiosidade que sempre entusiasma alguns ignorantes, perguntei a uma rapariga de cá o verdadeiro motivo das queimadas. Respondeu-me mencionando a renovação da terra, a necessidade de a tornar mais fértil, o carácter purificador e regenerador do fogo. No fundo, disse-me, to make a new green grass grow.

Há uma ou duas semanas troquei mensagens assertivas com pessoas de quem me sinto muito amigo. Algumas palavras tiveram contornos de dureza – não aquela que se serve de objectos de arremesso, mas a que nos faz olhar o outro nos olhos e verbalizar a franqueza, a diferença, o desacordo, a vontade de reparação, a certeza do seguir viagem. No fundo, fizemos uma queimada, porque a terra se regenerou, esfumando-se os vestígios do desalinhamento de pensamentos na cinza que a brisa levou. Cresceu uma nova green grass na maneira como nos relacionamos.

Lembrei-me então de uma toada lindíssima, chamada Whispering Grass, interpretada pela voz não menos bonita da Sandy Denny. 



Why do you whisper, green grass
Why tell the trees what ain't so?
Whispering grass
The trees don't have to know
Why tell them all your secrets
Who kissed there long ago?
Whispering grass
The trees don't need to know

Do filme Orgulho e Preconceito, parece-me que noutro videoclip fornece as imagens à música, não gostei da sequência de uma das cenas – olhares que se cruzam, que se perdem, mãos que se entrelaçam e se afastam, encontros e desencontros de duas pessoas entre varandas, salões, danças inacabadas, beijos interrompidos. O verdadeiro encanto das coisas está na possibilidade que nos oferece de uma visão muito única, muito nossa. E eu gostei de ver, naqueles pouco mais de quatro minutos, tantas coisas que dizem respeito à vida.

JdB

* Adaptado de um post de 21 de Agosto de 2008

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Poemas dos dias que correm

insinceridade

quis-nos aos dois enlaçados
meu amor ao lusco-fusco
mas sem saber o que busco:
há poentes desolados
e o vento às vezes é brusco

nem o cheiro a maresia
a rebate nas marés
na costa de lés a lés
mais tempo nos duraria
do que a espuma a nossos pés

a vida no sol-poente
fica assim num triste enleio
entre melindre e receio
de que a sombra se acrescente
e nós perdidos no meio

sem perdão e sem disfarce,
sem deixar uma pegada
por sobre a areia molhada,
a ver o dia apagar-se
e a noite feita de nada

por isso afinal não quero
ir contigo ao lusco-fusco,
meu amor, nem é sincero
fingir eu que assim te espero,
sem saber bem o que busco.

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

***

Escavação

Numa ânsia de ter alguma cousa,
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E a minh'alma perdida não repousa.

Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente à fôrça de sonhar...

Mas a vitória fulva esvai-se logo...
E cinzas, cinzas só, em vez do fogo...
- Onde existo que não existo em mim?

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Um cemitério falso sem ossadas,
Noites d'amor sem bôcas esmagadas -
Tudo outro espasmo que princípio ou fim...

Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Textos dos dias que correm

O grito e o eco

«O grito solitário não tem valor, por muito amplo que seja o seu eco», escreveu José Carlos Mariátegui, escritor peruano de forte impacto social que morreu com apenas 39 anos, em 1930, em Lima.

Estas palavras tocam-me, até porque durante as férias é fácil ouvir no silêncio das montanhas um grito solitário que se espalha pelos vales, transportado pelas ondas sonoras do eco.

O autor sul-americano recorda-nos um princípio que vale um pouco para todos, e não só para os grandes da história. Se alguém retém exclusivamente para si o tesouro de inteligência e de humanidade que recebeu e o faz brilhar apenas sobre o cume isolado da sua interioridade ou de um cenáculo restrito, no fim torna-se semelhante àqueles que enterram em lugares inacessíveis um tesouro de ouro que a muitos poderia matar a fome.

O isolamento altivo e desdenhoso não é uma tentação só do intelectual, mas é também, muitas vezes, o resultado comum de muito egoísmo ou indolência e até de soberba.

Os grandes artistas, os fundadores, os santos desceram sempre do cume da sua criatividade, da torre de marfim da sua experiência, da floresta mística, para oferecer as suas obras a quem vivia no cinzentismo do dia a dia ou na miséria, fazendo assim florescer a beleza, a verdade, o amor. Ainda que pequena seja a nossa voz e o seu eco, não a enclausuremos entre quatro paredes.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In "Avvenire"
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado aqui em 22.08.2016

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Duas Últimas

Ouvi há dias uma interessante conferência sobre um tema deveras complexo, de difícil aceitação e por isso tantas e tantas vezes fonte de inquietação, incompreensão e revolta: “o sofrimento, um mistério que interpela o homem”.

No dizer da esclarecida conferencista, o sofrimento é a maior causa de controvérsia e de séria divisão entre crentes e não crentes. Não é de facto novidade que há nesta questão muitas perguntas de difícil, senão mesmo impossível, resposta.

Da informação passada, que foi bastante, retive a que me parece essencial:

- Que Jesus não veio acabar com o sofrimento, nem sequer explicá-lo. Ao sofrer cruelmente pelo homem, mostrou em causa própria que o mesmo tem um sentido, que pode abrir portas em nome de um bem maior.

- Que há em tudo uma fresta, uma fenda onde a luz pode entrar. Se pedirmos e deixarmos, naturalmente.

- Que o sofrimento não é desejável, mas também que o homem não deve fugir dele a qualquer preço. Se o fizer, está a fugir de si mesmo, a negar a sua própria condição.

- Que o homem sofre mais e faz sofrer muito mais os outros quando renega Deus.

Desculpem tema tão pesado em tempo de férias, mas não me apeteceu falar das estafadas causas para a falta de medalhas (ou para a abundância de diplomas) nos JO do Rio.

A superior música de Leonard Cohen que acompanha este texto fez também parte da conferência a que assisti.

Espero que apreciem.


fq

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Pensamento Impensado

Jogos olímpicos

Nos últimos 30/45 dias, as palavras mais ouvidas e lidas foram fogos/incêndios e medalhas.

Os fogos foram uma tragédia fruto da incompetência e desleixo de todos os governos, e do lóbi dos incêndios. Quanto às medalhas, não houve governante, pivô, analista, crítico, desportista, etc. que não falasse nelas, e o resultado viu-se: uma medalha de bronze. E Agora? Vão pendurar caricas ao pescoço?

A nossa representação foi digna e com bons resultados, mas a distância que vai da presença até à medalha é superior aos 42 Km da Maratona. Penso que Portugal enviou para o Rio de Janeiro a nata dos atletas, mas enquanto a nossa nata é feita com leite magro, a dos outros provém do leite gordo.

SdB (I)

Vai um gin do Peter’s?

Recordando momentos emblemáticos vividos em Cracóvia, no final de Julho, Francisco surpreendeu as centenas de milhares de jovens ali reunidos, recorrendo às características dos teenagers para descrever a misteriosa preferência de Deus pela Humanidade. Parecia estar a referir-se a um óptimo chefe de gangue, daqueles a quem não falta personalidade nem carisma. Assim, defendeu que há carradas de teimosia no amor de Deus, para frisar que nunca desiste, da mesma forma que um surfista capaz não se deixa intimidar com ondas agigantadas, nem desiludir com marés incertas ou um mar irritantemente flat. Confidenciou-lhes: «Deus conta contigo por aquilo que és, não pelo que tens ou pelo teu passado, porque é ‘obstinado’ no amor.» 

Papa Francisco | Jornada Mundial da Juventude, Cracóvia, Polónia | 28.7.2016  | © 2016 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.
Mostrou como o suposto egocentrismo dos adolescentes é, afinal, uma réplica mal conseguida da ternura infinita por que ansiamos e acaba por esbarrar no limite do amor humano, até mesmo no da mãe mais atenta. Só Deus consegue corresponder ao clamor mais fundo da alma humana: «Ajudar-nos-á pensar que Ele nos ama mais do que nos amamos a nós mesmos, que crê em nós mais do que quanto acreditamos em nós mesmos, que sempre nos apoia como o mais irredutível dos nossos fãs. Aguarda-nos sempre com esperança, mesmo quando nos fechamos nas nossas tristezas e dores, remoendo continuamente as injustiças recebidas e o passado».

Depois de retratar o Pai incansável no amor por nós, era a hora de interpelar a gente nova sobre o que se esperava deles. Assim, Francisco traça o perfil do filho: «Somos os filhos amados de Deus, sempre. Compreendeis então que não se aceitar, viver descontente e pensar de modo negativo significa não reconhecer a nossa identidade mais verdadeira? É como voltar-se para o outro lado enquanto Deus quer pousar o seu olhar sobre mim, é querer apagar o sonho que Ele tem para mim.»


Nascido numa parte do globo onde a festa é rija e colorida, o Papa latino-americano explorou a génese da verdadeira alegria. Afrontou logo a típica armadilha da juventude, atraída por um modelo de felicidade frágil e falacioso. Sim, há muito sofrimento reprimido entre os mais novos, sujeitos aos imprevistos de quem está a crescer e a ter de aguentar fases chatas em que mal se reconhecem. Quantas vezes o mito da boa disposição juvenil esconde os altos e baixos de tantos que navegam ao sabor dos entusiasmos do momento. Entalados entre euforias e decepções, julgam ser os únicos a enfrentar marés-vivas psicológicas, com picos de triunfalismo e cavas abruptas de fracasso. À turbulência do crescimento soma-se uma solidão assustadora, que facilmente degenera em crise de identidade e desespero. Por isso, Francisco foi claríssimo, deixando alertas expressivos contra o perigo do desânimo: «Afeiçoar-nos à tristeza, não é digno da nossa estatura espiritual. Antes pelo contrário; é um vírus que infecta e bloqueia tudo, que fecha todas as portas, que impede de reiniciar a vida, de recomeçar. Deus, por seu lado, é obstinadamente esperançoso: acredita sempre que podemos levantar-nos e não se resigna a ver-nos apagados e sem alegria».

Como bom pedagogo, o Papa voltou ciclicamente ao principal, explicando como a parte de leão cabe a Deus, enquanto ao ser humano basta aceitar a mão que lhe é estendida, vezes sem conta, ao longo da vida: «Deus ama-nos assim como somos, e nenhum pecado, defeito ou erro Lhe fará mudar de ideia. Para Jesus – assim no-lo mostra o Evangelho –, ninguém é inferior e distante, ninguém é insignificante, mas todos somos prediletos e importantes: tu és importante»

Conhecedor dos valores na ordem do dia, Francisco usou a linguagem dos mais novos: 

- «Deus conta contigo por aquilo que és, não pelo que tens: a seus olhos, não vale mesmo nada a roupa que vestes ou o telemóvel que usas; não lhe importa se andas na moda ou não, importas-lhe tu. A seus olhos, tu vales; e o teu valor é inestimável».

- «Não vos detenhais à superfície das coisas e desconfiai das liturgias mundanas do aparecer, da maquilhagem da alma para parecer melhor. Em vez disso, instalai bem a conexão mais estável: a de um coração que vê e transmite o bem sem se cansar. E aquela alegria que gratuitamente recebestes de Deus, gratuitamente dai-a porque muitos esperam por ela».

O versículo das Bem-Aventuranças que serviu de divisa à 31ª Jornada Mundial da Juventude
- «Não tenhais medo de lhe dizer "sim" com todo o entusiasmo do coração, de lhe responder generosamente, de o seguir. Não deixeis anestesiar a alma, mas apostai no amor formoso, que requer também a renúncia, e um "não" forte ao doping do sucesso a todo o custo e à droga de pensar só em si mesmo e nas próprias comodidades».

Ciente dos desafios mais prementes da actualidade, fustigada por nacionalismos xenófobos, o Papa convidou aquela multidão mansa de jovens a reacreditar num planeta aberto à espantosa diversidade de seres humanos. Como antídoto à corrente céptica e de militância ateísta que se vai insinuando, sobretudo no Ocidente rico, propôs: «Poderão considerar-vos sonhadores, porque acreditais numa humanidade nova, que não aceita o ódio entre os povos, não vê as fronteiras dos países como barreiras e guarda as suas próprias tradições, sem egoísmos nem ressentimentos. (…) Não desanimeis! Com o vosso sorriso e os vossos braços abertos, pregais esperança e sois uma bênção para a única família humana, que aqui tão bem representais.»

«(O) olhar de Jesus, (que) não se resigna perante os fechamentos, mas procura o caminho da unidade e da comunhão (e) não se detém nas aparências, mas vê o coração, (permite) fazer crescer outra humanidade, sem esperar louvores, mas buscando o bem por si mesmo, felizes por conservar o coração limpo e lutar pacificamente pela honestidade e pela justiça.» 

Relembrou ainda um conselho simples, que considera demasiado esquecido numa sociedade avessa às soluções antigas, de provas dadas, e tenta antes inventar alternativas para se desintoxicar psíquica e espiritualmente. Falava do sacramento do perdão: «Queridos jovens, não vos envergonheis de lhe levar tudo, especialmente as fraquezas, as fadigas e os pecados na Confissão: Ele saberá surpreender-vos com o seu perdão e a sua paz. (…) A memória de Deus «não é um "disco rígido" que grava e armazena todos os nossos dados, mas um coração terno e rico em compaixão, que se alegra em eliminar definitivamente todos os nossos vestígios de mal. Tentemos, também nós agora, imitar a memória fiel de Deus e guardar o bem que recebemos nestes dias.»

Via Sacra na JMJ em Cracóvia
Na mensagem passada na homilia do último dia, focou-se no futuro, no que importa levar da experiência daquelas Jornadas inesquecíveis para a maioria. Sugeriu truques práticos e fáceis de aplicar:

 - «Lembremo-nos disto, no início de cada dia. Far-nos-á bem dizê-lo na oração, todas as manhãs: "Senhor, agradeço-vos porque me amais; fazei-me enamorar da minha vida"; não dos meus defeitos, que hão-de ser corrigidos, mas da vida, que é um grande dom: é o tempo para amar e ser amado».

- «A JMJ – poderíamos dizer – começa hoje e continua amanhã, em casa, porque é lá que Jesus te quer encontrar a partir de agora. (…) O Senhor não quer ficar apenas nesta bela cidade ou em belas recordações, mas deseja ir a tua casa, habitar a tua vida de cada dia: o estudo e os primeiros anos de trabalho, as amizades e os afectos, os projetos e os sonhos. Como lhe agrada que tudo isto seja levado a Ele na oração! Como espera que, entre todos os contactos e os "chat" de cada dia, esteja em primeiro lugar o fio de ouro da oração! Como deseja que a sua Palavra fale a cada uma das tuas jornadas, que o seu Evangelho se torne teu e seja o teu "navegador" nas estradas da vida.»

Depois de propor uma bússola para o dia-a-dia, anunciou o local das próximas Jornadas: em 2019, o Papa espera reencontrar a gente nova na capital do Panamá – aquela língua de terra entre a Colômbia e a Costa Rica, conhecida pelo célebre Canal e pejada de praias de coqueiros, areia branca e água azul turquesa transparente. Uma escolha muito apetitosa.

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)




domingo, 21 de agosto de 2016

XXI Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 13,22-30

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus dirigia-Se para Jerusalém
e ensinava nas cidades e aldeias por onde passava.
Alguém Lhe perguntou:
«Senhor, são poucos os que se salvam?»
Ele respondeu:
«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita,
porque Eu vos digo
que muitos tentarão entrar sem o conseguir.
Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta,
vós ficareis fora e batereis à porta, dizendo:
‘Abre-nos, senhor’;
mas ele responder-vos-á: ‘Não sei donde sois’.
Então começareis a dizer:
‘Comemos e bebemos contigo
e tu ensinaste nas nossas praças’.
Mas ele responderá:
‘Repito que não sei donde sois.
Afastai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade’.
Aí haverá choro e ranger de dentes,
quando virdes no reino de Deus
Abraão, Isaac e Jacob e todos os Profetas,
e vós a serdes postos fora.
Hão-de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul,
e sentar-se-ão à mesa do reino de Deus.
Há últimos que serão dos primeiros
e primeiros que serão dos últimos».

sábado, 20 de agosto de 2016

Pensamentos Impensados

Sem decorações
Cavaco Silva, se lhe têm dado tempo, teria condecorado Miguel de Vasconcelos, Buiça, Zé do Telhado, Alves dos Reis... deixem-me respirar!

Piadas antigas
O que se segue podia muito bem ter sido dito por um político:
Mais vale um homem todavia nunca que outro sem comparação jamais; e não só porque ora essa é boa, mas a dar-se o caso que assim seja, em questões de absolutamente não há nada como realmente.

Alturas
Nalgumas empresas o CEO é o limite.

Sai uma bejeca
As conversas são como as cervejas: quanto mais frescas melhor.

Imobiliárias
A penitenciária, para efeitos de IMI, é considerada condomínio fechado.

Registos
Uma fotografia vale mais do que mil palavras; um dicionário também.

Trânsito
A4 cortada, ficaram duas A5

Pancadas
Unha negra é considerado medida de tempo.

SdB (I)


quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Poemas dos dias que correm

Poeminha sobre o Trabalho

Chego sempre à hora certa,
contam comigo, não falho,
pois adoro o meu emprego:
o que detesto é o trabalho.

Millôr Fernandes, in "Pif-Paf" 


***

Poema dum Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos,
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só

António Ramos Rosa, in 'O Grito Claro'




quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Livros dos dias que correm



"O ócio (…) não consiste em fazer nada, mas sim em fazer muitas das coisas não reconhecidas pelas formulações dogmáticas da classe dominante." (p. 11).

"Observem por momentos um desses cavalheiros atarefados, rogo-vos. Ele semeia urgência e colhe indigestões; deposita uma vasta quantidade de trabalho a render juros, e recebe em troca uma medida considerável de desarranjos nervosos. Ou se ausenta de toda e qualquer companhia, vivendo como um recluso num torreão, com os seus chinelos e o seu pesado tinteiro; ou se mistura com as pessoas com modos bruscos e amargos, todo o seu sistema nervoso tolhido por contracções, para descarregar a sua dose de mau humor antes de regressar ao trabalho. Pouco importa que trabalhe tanto ou tão bem, um indivíduo assim é uma mancha perversa nas vidas dos outros. Que seriam mais felizes com a sua morte." (pp. 27-28).

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Duas Últimas

Mais uma sugestão do meu filho, na sua playlist de Verão. Eu, pelo título, é mais saudade do Outono que tende a demorar-se, tal é o meu incómodo com o calor que me derrete energia, criatividade, decência e bons costumes. Não quero chuva, confesso, mas uma brisa fresca, uma humidadezinha, um ar menos seco e uma relva menos amarela.

Sejam felizes, ainda que cheios de calor.

JdB



Retirado do álbum "Canto" (2014)
Música: Marisa Monte
Letra: Arnaldo Antunes
Animação: Nicolau.pt

CHUVA NO MAR

Coisas transformam-se em mim,
É como chuva no mar,
Se desmancha assim em
Ondas a me atravessar,
Um corpo sopro no ar
Com um nome p’ra chamar,
É só alguém batizar,
Nome p’ra chamar de
Nuvem, vidraça, varal,
Asa, desejo, quintal,
O horizonte lá longe,
Tudo o que o olho alcançar
E o que ninguém escutar,
Te invade sem parar,
Te transforma sem ninguém notar,
Frases, vozes, cores,
Ondas, frequências, sinais,
O mundo é grande demais.
Coisas transformam-se em mim,
Por todo o mundo é assim.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria

Hoje, mas há 22 anos, baptizava-se na Igreja de Santo António do Estoril uma criança que, estou certo, já nascera consagrada a Nossa Senhora.

JdB

***

Consagração a Nossa Senhora

Ó Senhora minha, ó minha Mãe, eu me ofereço todo a Vós, e em prova da minha devoção para convosco, Vos consagro neste dia e para sempre, os meus olhos, os meus ouvidos, a minha boca, o meu coração e inteiramente todo o meu ser.
E porque assim sou Vosso, ó incomparável Mãe, guardai-me e defendei-me como propriedade vossa.
Lembrai-Vos que Vos pertenço, terna Mãe, Senhora Nossa.
Ah, guardai-me e defendei-me como coisa própria Vossa.


***

EVANGELHO – Lc 1, 39-56

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naqueles dias,
Maria pôs-se a caminho
e dirigiu-se apressadamente para a montanha,
em direcção a uma cidade de Judá.
Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel.
Quando Isabel ouviu a saudação de Maria,
o menino exultou-lhe no seio.
Isabel ficou cheia do Espírito Santo
e exclamou em alta voz:
«Bendita és tu entre as mulheres
e bendito é o fruto do teu ventre.
Donde me é dado
que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?
Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos
a voz da tua saudação,
o menino exultou de alegria no meu seio.
Bem-aventurada aquela que acreditou
no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito
da parte do Senhor».
Maria disse então:
«A minha alma glorifica o Senhor
e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador,
porque pôs os olhos na humildade da sua serva:
de hoje em diante me chamarão bem-aventurada
todas as gerações.
O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas:
Santo é o seu nome.
A sua misericórdia se estende de geração em geração
sobre aqueles que O temem.
Manifestou o poder do seu braço
e dispersou os soberbos.
Derrubou os poderosos de seus tronos
e exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bens
e aos ricos despediu de mãos vazias.
Acolheu a Israel, seu servo,
lembrado da sua misericórdia,
como tinha prometido a nossos pais,
a Abraão e à sua descendência para sempre».
Maria ficou junto de Isabel cerca de três meses
e depois regressou a sua casa.

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