segunda-feira, 6 de julho de 2020

Carta a um anjo

Nasceste hoje, mas há vinte e seis anos.

Ontem almocei com amigos. A meio telefona-me alguém que me diz: não sei se sabe que morreu fulana. Fulana era rapariga da minha idade, família de amigos próximos, mãe de gente que nos é próxima. Havia um certo anúncio desta morte, mas, mesmo assim...

A meio da tarde telefono a um amigo para lhe dar os parabéns. Começo com a frase trivial: então a família, está toda de saúde? Esperaria ouvir possíveis diagnósticos de covid ou maçadas de confinamento, coisas tão em voga hoje em dia. De lá veio a história impactante de uma filha com um problema de saúde potencialmente muito grave. 

Nada disto é uma surpresa, que a vida ensinou-me que a distância que vai de uma família feliz a uma família destroçada é um fio de cabelo. Em mim ressoa ainda a conversa sobre os desígnios de Deus, sobre se é do Céu que nos chegam acontecimentos semelhantes de dramas e sofrimento. Cada vez mais acredito que não pode ser; que seria impossível ser.

Eu sei que é um lugar-comum falar na fragilidade da vida, na necessidade de não perdermos de vista o essencial para nos agarrarmos a um acessório que tem um brilho imediato mas fugaz, temporário, sem persistência. A vida já nos ensinou tudo; por vezes teimamos em desvalorizar os sinais que nos dizem que todos os dias deveriam ser dias de empenho intenso, não em manifestações histriónicas de gente contentinha, mas na arrumação da vida, na perseguição das coisas importantes, no olhar fixado num horizonte de paz e concórdia. Afinal, nas armadilhas do destino, uma frase proferida pode ser a última frase que alguém nos ouve. Que frase queremos dizer; que frase gostaríamos de ouvir?

O tempo que nos resta, que resta aos que nos estão próximos é uma incógnita que nenhuma fórmula resolvente decifra. Na certeza dessa variável há uma dimensão simultânea de sabedoria e sobressalto que nos impele a sermos mais atentos, mais profundos, mais conscientes. A sermos melhores, no fundo. A ganhar o céu no quotidiano, nas pequenas coisas, nos gestos simples. Os dois telefonemas de hoje são um alerta. Ou mais um alerta.

Olha por nós, e por aqueles de nós que passam tempos menos fagueiros.     

Na sua bondade sem fim
Quis Deus olhar para mim
Dar-me um pouco do que é seu
Deu-me uma estrela pequena
A quem chamou Madalena
Que é uma das santas do Céu


J (em nome de todos os que te lembram) 

domingo, 5 de julho de 2020

14º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Mt 11,25-30

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, Jesus exclamou:
"Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra,
porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes
e as revelaste aos pequeninos.
Tudo me foi dado por meu Pai.
Sim, Pai, Eu Te bendigo,
porque assim foi do teu agrado.
Ninguém conhece o Filho senão o Pai
e ninguém conhece o Pai senão o Filho
e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
Vinde a Mim,
todos os que andais cansados e oprimidos,
e Eu vos aliviarei.
Tomai sobre vós o meu jugo
e aprendei de Mim,
que sou manso e humilde de coração,
e encontrareis descanso para as vossas almas.
Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve".

sexta-feira, 3 de julho de 2020

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Textos dos dias que correm - o vírus a matar a mística

Caminho de Santiago reabre: Muito muda, mas o essencial permanece

Experiência humana não só mística ou religiosa: o Caminho de Santiago constitui desde sempre um percurso de partilha e compreensão mútua entre os peregrinos do mundo que o atravessam por aventura, busca pessoal, percurso interior, ou uma modalidade diferente de turismo “slow” em contacto com a natureza, a cultura, a gastronomia e a hospitalidade locais, adentrando-se nas encantadoras paisagens entre meseta e montanha, os parques nacionais, a costa atlântica, os rios e os prados verdes. Cada pessoa tem o seu motivo para se deixar atrair pela magia reconstituinte do Caminho.

Mas agora, todos têm de adaptar-se às novas medidas de higiene e segurança com as quais a rede pública de albergues, em Espanha, inicia desde hoje, primeiro de julho, a reabertura gradual, no mesmo dia em que reabrem também a catedral de Santiago, onde se acredita estar sepultado o apóstolo S. Tiago Maior, e o centro de acolhimento ao peregrino. Na era pós- Covid-19 muito muda, mas o essencial permanece intocado.

Antes de tudo, a mochila do peregrino. O Conselho Jacobeu aprovou uma série de recomendações para quantos querem percorrer o itinerário, um dos bens culturais mais significativos de Espanha, que se prepara para o Ano Santo compostelano, em 2021. Na “nova normalidade” da prevenção, sempre alta, contra o vírus, a partilha conjuga-se exclusivamente em ternos de emoções, não de espaços ou utensílios.

Por isso, são recomendados termos pessoais para água e alimentos, talheres que possam ser esterilizados e reutilizados, a par de um kit com máscaras, gel e aerossol desinfetante. E uma caneta, para anotar etapas e apontamentos de viagem. Entre os conselhos: privilegiar o pagamento com aplicações pelo telemóvel ou cartão, sem esquecer dinheiro à vista para os donativos aos albergues de acolhimento.

Recomenda-se, sobretudo, que antes de pôr pés (ou bicicleta, ou cavalo) ao caminho, se consulte a disponibilidade dos espaços de acolhimento, na aplicação IGN, dado que nem todos os albergues estarão abertos na primeira semana, e os que se encontram em funcionamento oferecerão 50% a 75% da capacidade. Prevê-se que todos estejam disponíveis a partir de 1 de setembro. As novas regras obrigam à limpeza de espaços comuns pelo menos seis vezes por dia.

Aos peregrinos sugere-se a desinfeção de bancos e mesas das áreas de repouso antes da utilização, e de higienizar as mãos antes de abrir as janelas. A mochila deve ser deixada do lado de fora dos recintos fechados, evitando o contacto com as de outros peregrinos, depois de a ter sanificado com desinfetante e fechada num plástico limpo. Também as bicicletas devem ser deixadas afastadas umas das outras e desinfetadas quando se retoma o itinerário, após a pausa.

As máscaras e a distância de segurança são obrigatórias nos miradouros, e, obviamente, dentro e fora das estruturas de hospitalidade. É também importante planear antecipadamente as refeições, porque é provável que as cozinhas e refeitórios dos albergues estejam encerradas.

Recorde-se, por fim, que nas estruturas do Caminho não são administrados tratamentos médicos, pelo que, em caso de necessidade, é preciso dirigir-se a um centro de saúde, «com as máximas medidas de proteção para ti e para quem te assiste». «Que o cansaço não te faça esquecer as medidas de prevenção». Em caso de sintomas como tosse seca, febre ou dificuldade respiratória deve ser contactado o número de emergência indicado para cada região. E destaca-se também o conselho de ativar, por segurança, a aplicação Alertcops, para assinalar o seu itinerário. A lista de recomendações é uma síntese das orientações para os albergues publicada pela Secretaria de Estado para o Turismo.

As entidades turísticas da Galiza dão as boas-vindas a partir de hoje aos caminhantes da via que desde a Idade Média une Santiago à Europa.


Paolo Del Vecchio
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 01.07.2020

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Vai um gin do Peter’s ?

VÉUS DE PEDRA E TRANSPARENTES… SEM ALQUIMIA  

A qualidade da escultura exposta na Capela de Sansevero, em Nápoles, alimentou lendas de alquimia e druidas, por se considerar impossível atingir o efeito de transparência no véu que cobre o corpo do Crucificado.  Correu que o mecenas da figura daquele «Cristo Velato» – Raimondo di Sangro – era alquimista e teria passado ao escultor o segredo da transubstanciação de tecido em pedra, através de processos químicos. Como se se tratasse do simples recurso a um linho leve, cabendo depois o mérito do resultado a uma receita prodigiosa. Por azar, o truque teria morrido com os sábios de setecentos, pelo que não poderia repetir-se a façanha… nem comprová-la.  



O que os factos sustentam é a intervenção inicial do grande escultor Antonio Corradini (1688-1752), a quem a obra foi adjudicada. Começou por conceber um modelo em barro, mas morreu antes de conseguir transpô-lo para pedra. Por isso, o trabalho posterior sobre um bloco único de mármore foi executado por Giuseppe Sammartino, que o concluiu em 1753. Tornou-se, assim, numa obra-prima a quatro mãos, num crescendo invulgar de virtuosismo e sentido artístico. Maravilhou o célebre mestre do neoclássico Antonio Canova (1757-1822), que a tentou comprar, em vão. Afirmou mesmo que estaria disposto a oferecer 10 anos de vida – sendo que a longevidade, à época, rondava os 33 anos (*) (embora Canova tenha dobrado a média) – para ter produzido um tal morto envolto num manto que desliza e se enovela em infinitas pregas. 

A movimentação exuberante daquele véu vaporoso, num frenesim que a menor brisa poderia agitar, transmite um irónico sopro de vitalidade à figura inerte que envolve, prefigurando a etapa que antecede uma nova vida inaugurada pela Ressurreição. A agitação do panejamento faz jus ao título misterioso da escultura – o «Cristo (ainda) Velado». Encontra-se velado ou encoberto num estádio intermédio de morte passageira, onde já irrompem sinais de vida em potência, pois nada se contrapõe mais à fixidez do cadáver do que a mais ínfima possibilidade de se mover. Assim, o torvelinho enérgico formado pelo véu concentra a mensagem-mor do conjunto, evocando a iminência da hora de o Crucificado se erguer e reduzir a morte a uma breve passagem.  






Cem anos depois, outro véu em pedra impôs-se, ainda que sem a mestria do de Corradini e Sammartino. Igualmente de autoria italiana, enquadra-se na moda do século XIX das esculturas encobertas por organzas, voiles, tules e tramas de renda, naturalmente num despique apenas comportável entre os melhores ateliers, pela dificuldade da proeza. Nesse boom tridimensional, sobressai a «Virgem Velada» de Giovanni Strazza (1818-1875). Tal como a figura de Cristo, também a imagem da Mãe é esculpida a partir de um mono bloco. Em 1856, a peça em mármore de Carrara rumou até ao Canadá para ser entregue ao Bispo de Terra Nova e Labrador, John Thomas Mullock, que terá exclamado ao vê-la: «it is a perfect gem of art». Em 1862, foi transferida do Paço Episcopal para o Convento ao lado, pertencente às Irmãs da Apresentação. 



Para lá dos italianos na pole position da escultura – como Michelangelo, Bernini, Canova, della Robbia (e há dois) Verrochio, etc.– é impressionante confirmar a quantidade de outros menos conhecidos pela carreira, mas com peças isoladas extraordinárias. Se cada pessoa é insubstituível, talvez os artistas sejam dos que melhor evidenciam essa marca individual única e imprescindível de cada ser humano na História da humanidade. A aplicação do princípio a uma escala nacional exemplifica bem o seu alcance: o que seria do património artístico mundial sem o contributo de Itália?  

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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 (*)  Segundo o estudo da OCDE «How was life? — Global Well-Being since 1820», que foi publicado em Outubro de 2014. Os resultados daquele relatório, que integrou uma equipa de historiadores de economia (sobretudo alemães e holandeses), são impressionantes e não deixam dúvidas sobre os avanços nos últimos 2 séculos: a longevidade aumentou dos 33 anos, em 1820 para os 80, em 2000; o número de habitantes do planeta multiplicou-se por sete; a população cresceu 8cm em altura; a percentagem de alfabetizadas saltou de 20% para 80%; o número dos países democráticos, que não chegava a uma dezena, disparou consideravelmente.   
Para a consulta aos dados mais capilares sobre cada país europeu recomenda-se o portal CLIO-INFRA.EU.  Aí se percebe a aproximação de Portugal aos parâmetros dos outros parceiros UE, (só) a partir do segundo quartel do século XX. Por exemplo, em 1920, os portugueses viviam em média até aos 35-36 anos, menos 23 anos do que os noruegueses (os segundos com maior longevidade, a nível mundial). Hoje, essa diferença esbateu-se para 2 anos.

terça-feira, 30 de junho de 2020

Da racionalidade na religião

No número de Maio - Junho de 2020 da revista Brotéria, João Carlos Paiva (da Faculdade de Ciências da UP) e o Pe. Pinto de Magalhães SJ assinam um artigo intitulado As Causas dos Santos e a Ciência, onde abordam a temática dos milagres para processos de canonização na Igreja Católica. Já aqui escrevi sobre esse assunto; discordo do processo que, seguindo regras do tempo de João Paulo II, parece ter-se mantido no séc. XVI. A santidade das pessoas cujas vidas conhecemos, porque nos são contemporâneas, não podem ser validadas por senhoras que não cegam quando lhes salta óleo quente para os olhos. As vidas dos candidatos devem ser escrutinadas, mas não podem estar dependentes deste tipo de pequeninos enigmas caseiros.

Sexta-feira passada, num almoço clubístico cuja regularidade fora interrompida pela pandemia, falou-se de religião: o que são os milagres, em que se manifesta a intervenção de Deus nos acontecimentos, o que é Fátima. Aduzi argumentos que já aqui escrevi: o milagre não é a cura milagrosa do corpo, mas a conversão (no sentido mais lato do termo) do coração. Nessa linha de pensamento, o milagre de Fátima não é a aparição de Nossa Senhora, mas o ponto de chegada ou de partida de milhares de vidas que se transformaram naquele recinto. Por outro lado, não acredito num Deus interventivo nas ocorrências terrenas: Deus não está nos terramotos, nas grandes tragédias, nas doenças individuais ou colectivas. Deus pôs o mundo em movimento e permite que as coisas aconteçam, mas o que ocorre é causado, ou pelo homem, ou pela natureza. Numa atitude que pode parecer um pouco excessiva, se assim não fosse eu teria alguma dificuldade em perceber os critérios de Deus...

Almocei um dia com um jornalista de esquerda, agnóstico, que estaria numa barricada oposta à minha nalguns combates mais fracturantes da sociedade. Achei curioso quando me perguntou, num tom não provocador, se se podia ser católico sem a necessidade da fé. Para ele o interessante era o ritual, não o transcendente; queria o espectáculo visível, não os bastidores indesvendáveis. Hoje, no meu passeio matinal junto ao mar dei por mim a pensar se não estaria a ficar (também) demasiadamente racional, descurando o lado misterioso das coisas. Afinal, segundo me contaram (e não afianço a explicação correcta ou o entendimento correcto da mesma) a obrigatoriedade dos milagres nos processos de canonização assentava na ideia de que nem tudo era explicável racionalmente. Não quero perder esta suspensão voluntária da incredulidade que está, de certa forma, por trás da fé. Mas também não quero embarcar numa prática religiosa que assenta numa fezada, em devoções a relíquias, em pés de atleta curados inexplicavelmente, em êxtases ou epifanias de trazer por casa. 

JdB        

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Sermões para os dias que correm *



Maria Bethânia é uma fantástica declamadora. Conhecia-a, sobretudo, a recitar (ou declamar, ou apenas dizer) Fernando Pessoa e os seus heterónimos. Gostei de ouvir este sermão, sobre o qual, penso eu, já aqui publiquei um excerto. Nestes tempos de lucidez muito duvidosa, é sempre bom ouvir o Pe. António Vieira a reforçar que somos o sal da terra. No fundo, como se fosse uma resposta à barbárie estúpida de quem anda a pichar estátuas sem saber o que está a fazer.

JdB

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* sugerido por mão amiga

domingo, 28 de junho de 2020

13º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Mt 10,37-42

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos:
"Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim,
não é digno de Mim;
e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim,
não é digno de Mim.
Quem não toma a sua cruz para Me seguir,
não é digno de Mim.
Quem encontrar a sua vida há-de perdê-la;
e quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la.
Quem vos recebe, a Mim recebe;
e quem Me recebe, recebe Aquele que Me enviou.
Quem recebe um profeta por ele ser profeta,
receberá a recompensa de profeta;
e quem recebe um justo por ele ser justo,
receberá a recompensa de justo.
E se alguém der de beber,
nem que seja um copo de água fresca,
a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo,
em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa".

AMBIENTE

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Moleskine desinteressante

Repito-vos que não sei de onde sois (Lc 13, 27)

Oiço este trecho na homilia de domingo passado. Seria assim que Deus se dirigira no paraíso aos que, praticantes da iniquidade, lá entrassem. Sussurro para quem está ao meu lado: será que Deus não conhece alguém que chegue ao Céu?  A pergunta será despropositada, mas por vezes estes pequenos raciocínios deixam-me a pensar: que pedagogia devo eu tirar deste trecho? Que se praticar a iniquidade vou para o céu mas o Criador me dirá (por duas vezes, como vem neste passo de Lucas) que não sabe de onde sou?

***

A morte de cada homem diminui-me, porque eu faço parte da humanidade; eis porque nunca pergunto por quem dobram os sinos: é por mim. A frase de John Donne tem várias traduções e nem sequer sei se esta é a mais correcta. Foi a que me saltou de imediato no computador. 

Tenho pensado na morte de Pedro Lima, o actor que se suicidou no passado fim de semana. Entre jornais, revistas e televisões não vi nada de elevado. Apenas vi porcaria, exploração ad nauseam de uma tragédia. À cabeça da manada, para citar uns versos de fado, a CMTV (não sei se há, como vi escrito por aí, aproveitamento para um ataque da Cofina à TVI), à qual só falta referir o tamanho da faca, o local e preço de compra, a direcção do movimento com que o actor se golpeou várias vezes, a quantidade de sangue jorrado. Ler os comentários dos jornais é contemplar uma cloaca, para usar uma expressão que encontrei por aí. Entre a admiração bacoca pelo actor e a crítica mais feroz ao que ele fez, nada se aproveita. Não há um módico de pudor nem de respeito. Aliás, ler os comentários dos jornais é perceber a dimensão da descarga de bílis de parte substantiva da nossa população.

Tenho pena da mulher e dos filhos do actor; tenho pena do sofrimento dele, daquilo por que ele passou até chegar a este ponto. Mas não sei o que dizer da Ministra da Cultura que se referiu a ele como "emblemático protagonista" ou do Presidente da República que achou que ele, Pedro Lima, irradiava felicidade. Faz-nos pensar, não só num claro provincianismo que nos assola, mas no que as pessoas veem num actor de telenovela que sofria de depressão que o conduziu ao suicídio. Felicidade?

JdB

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Textos dos dias que correm

Espiritualidade cristã em tempo de isolamento, pelo cardeal Tolentino

Uma espiritualidade em tempos de pandemia, o que é, ou melhor, o que pode ser? Porque, no fundo, estamos no improviso. É interessante que, muitas vezes, na coreografia, na dança, se usa o improviso; não gostamos muito, porque preferimos uma vida conduzida por um guião; um improviso faz-nos viver o aberto; e para começar a falar do que é a espiritualidade em tempos de isolamento provocado pela pandemia, tenho de dizer isto: o futuro chegou de supetão, o futuro chegou achando-nos impreparados. Nenhum de nós sabe como lidar com esta situação. Sentimo-nos, todos, mais vulneráveis, mais precários.

À primeira vista, dizemos: aquilo que nos aconteceu é uma distopia; é uma calamidade; é o contrário da graça. E, contudo, em termos de fé, temos de olhar para este cronos, que parece devorar a nossa força e a nossa esperança, como a possibilidade de um káiros, a possibilidade de uma graça.

Este é um tempo de kénosis, de esvaziamento, um tempo de silêncio, um tempo em que, talvez, sintamos uma incerteza muito grande, um tempo de crise, um tempo em que parece que a vida vem menos. Um tempo precário.

Mas eu lembraria que a mesma raiz etimológica aproxima as duas palavras: precare, rezar, em latim, e precarium, o destino daquilo que é frágil. A espiritualidade não se constrói com a força. Jesus ensinou-nos isso com o mistério da sua Páscoa. Porque tudo tem de passar pelo mistério da cruz. E, por isso, este tempo, que parece só de calamidade, temos de o interpretar de um ponto de vista teológico e espiritual como um tempo de graça.

Como é que este pode ser um tempo de graça? Na oração que o papa organizou, na praça de S. Pedro, sexta-feira [27 de março de 2020], que muito nos impactou, ele escolheu ler o texto do Evangelho da tempestade acalmada. E no meio da tempestade, os discípulos perguntam a Jesus: Senhor, não te importas que morramos? É uma pergunta. E este é o tempo das perguntas, e das perguntas fundamentais. Se eu tivesse de sublinhar um ponto muito positivo desta experiência exigente que estamos a viver, é a qualidade das perguntas que escutamos.

É como se vencêssemos a banalidade, e as perguntas que ouvimos fazer uns aos outros são muito mais intensas, muito mais carregadas de sentido.

É curioso que aqui, em Itália, no início da pandemia, abriram-se gabinetes de apoio psicológico. E muitos idosos telefonavam, dizendo isto: eu não consigo rezar. E, de facto, este começou por ser um tempo em que parece que não era possível uma vida espiritual. Depois, descobrimos o contrário: que este tempo é de uma grande intensidade espiritual. E qual é o termómetro para perceber isso? São as perguntas, a radicalidade, a força das perguntas fundamentais que estamos a fazer.

Pegando no discurso do papa, há que dizer a verdade: não é a pandemia que nos adoeceu; nós já estávamos doentes. A pandemia descobriu, revelou, uma doença, que são, no fundo, os nossos estilos de vida, onde já não há alugar para o humano, não há lugar para o encontro, não há lugar para o transcendente, não há lugar para uma vida interior rica, digna desse nome, não há lugar para uma oração. Tudo é cronometrado, tudo passa pelo taxímetro.

Tenho um casal amigo - e é muito belo ouvir as histórias que se passaram nas famílias, porque, de certa forma, uma das coisas que este isolamento trouxe, é a redescoberta da família. Pelas primeira vez muitos casais, muitas famílias, passaram juntas um tempo de qualidade como não passavam há muitos anos, ou como nunca tinham passado – no qual um menino de cinco anos, à mesa, disse isto: eu acho que percebo o que estamos aqui a fazer; estamos aqui a criar memórias. Por vezes as crianças são antenas que nos ajudam a perceber o que estamos a fazer.

Este é um tempo de graça, é um tempo para a graça, é um tempo de maior gratuidade, e é um tempo para criar. Não é só um tempo para “descriar”; não é só a passividade, não é só o não fazer; é um tempo propício, oportuno. Por isso, há aqui um chamamento a modelar o tempo do ponto de vista da fé.

Um dos princípios que o papa Francisco repete muitas vezes é: o tempo é superior ao espaço. Parece uma sentença muito filosófica, e que não tem uma leitura fácil, imediata. Contudo, neste tempo de isolamento social, percebemos isso: o tempo é superior ao espaço. Aconteceu uma espécie de recuo.

A mística judaica fala numa espécie de “tzimtzum”, parece uma coisa brincada. O “tzimtzum” é uma coisa inventada a partir das leituras da Cabala, segundo a qual Deus, para poder criar, teve de dar um passo atrás, teve de se despojar de si mesmo para poder criar. Esta ideia foi retomada por autores tão importantes na segunda guerra mundial como Simone Weil, que disseram, precisamente: o tempo da catástrofe parece um tempo em que Deus recua, dá um passo atrás; contudo, é um tempo para descobrirmos o Deus da ternura, o Deus da misericórdia, o Deus próximo, o Deus comprometido com a pessoa humana, o Deus que está ao lado da vítima, ao lado do que sofre; porque o próprio Deus vive este recuo.

É uma ideia curiosa, que nos deixa a mística judaica, e que nos ajuda a pensar o que está a acontecer com o espaço; está a acontecer o nosso “tzimtzum”, damos um passo atrás para, também, ter uma visão crítica em relação ao modo como habitamos o espaço. Porque, muitas vezes, é pura ocupação de espaço, pura marcação de território, puro automatismo. É uma espécie de colonização do território da comunidade, ou do território público. É sonambulismo existencial.

O “tzimtzum” permite olhar para o tempo, não tanto para o espaço, e ouvir os múltiplos tempos que existem dentro de nós. Santo Agostinho, nas Confissões, fala de três presentes: o presente das coisas passadas, o presente das coisas presentes, e o presente das coisas futuras. O tempo é superior ao espaço.

Este é um tempo de grande escuta espiritual. Este é o momento para percebermos que a vida não se esgota no momento, no instante, na arquitetura do quotidiano, mas que a vida tem uma respiração muito maior. E nós temos de ouvir os passos do futuro, e dialogar com o futuro de outra forma.

Não tenho dúvidas de que entramos numa nova época da história. A pandemia vai passar. Mas nós já estaremos outra época. Culturalmente noutra época. Civilizacionalmente noutra época. Mas também espiritualmente noutra época da história. É importante que em termos da espiritualidade também nos preparemos para entrar nesse tempo novo, que já é o tempo que estamos a viver. Por isso, não podemos olhar para este momento apenas como um parêntesis, como uma suspensão, e depois vamos voltar a viver tudo o que vivíamos – isso não é ajustado à realidade. Temos de encontrar novas linguagens; este tempo é um laboratório. E temos de ouvir o futuro, que já está aqui, porque, como diz Santo Agostinho, há um presente do futuro.

Uma última dimensão que queria sublinhar é que este tempo de isolamento é muito intenso de relação. E é um tempo de intensificação da relação. Porque é muito viciante, e é um jogo viciado, acharmos que só existe uma forma de presença, ou que a ausência tem sempre o mesmo sentido; que a distância e a proximidade se leem de uma forma unívoca. Não. Muitas vezes estamos próximos e estamos completamente ausentes; muitas vezes encontramo-nos e só esbarramos uns nos outros; muitas vezes estamos em comunidade e somos ilhas, não arquipélagos. E este é um tempo para redescobrir e retrabalhar as histórias de amor. E eu não tenho dúvida de que este tempo faz-nos descobrir tanto, tantas possibilidades.

Na história da cultura do século passado, vemos que grandes obras da literatura, da filosofia, da música, da pintura, da espiritualidade, aconteceram em contextos dramáticos, como o que estamos a viver. Franz Rosenzweig, o grande filósofo, escreveu a sua Estrela da redenção nas trincheiras da primeira guerra mundial; Messiaen escreveu a sua obra mais famosa, o Quarteto para o fim dos tempos, num campo de concentração. A Guernica, um dos símbolos da arte do século XX, foi escrita no impacto da guerra civil espanhola.

Uma das grandes místicas do século XX é, sem dúvida, Etty Hillesum, esta jovem holandesa judia, muito próxima do cristianismo, laica e crente ao mesmo tempo, que, podendo escapar do campo de concentração, se oferece como voluntária para nele trabalhar, e nele acaba como prisioneira. E Etty Hillesum diz esta coisa espantosa: este tempo em que parece que a nossa alma soçobra, este é o tempo para olhar os lírios do campo.

Há um desafio enorme neste tempo. E vemos a quantidade de histórias de amor, pequenas histórias, os médicos, os enfermeiros, o pessoal técnico, as pessoas dos laboratórios, tantos sacerdotes, tantas comunidades; mas não só: tantos gestos de amor: as pessoas que dizem, nos seus prédios, aos mais idosos, que vão fazer as compras; aqueles que não querem deixar ninguém para trás; todos esses gestos de amor são alguma coisa que está a transformar este tempo numa catedral.

Como é que eu vejo a espiritualidade neste tempo de pandemia? É um tempo de kénosis, mas também de graça; é um tempo de grande precariedade, mas é um tempo para descobrir o precare, a força da oração; é um tempo para voltar às grandes perguntas; é um tempo para criar memórias, para ouvir o futuro, para perceber que o tempo é superior ao espaço.

Podemos pensar: este é um ano para esquecer; este é um ano de vida adiada. Há um grande poeta de língua portuguesa, António Ramos Rosa, que tem um verso maravilhoso: «Não posso adiar o coração para outro século». Este não é um tempo para a pura sobrevivência, este é um tempo para sonhos grandes, para projetos maiores do que nós, é um tempo para dar passos novos, para ensaiar novos caminhos, para sair da caixa, para reinventar o formato, para descobrir novas linguagens. É um tempo para sentir coisas que, possivelmente, até aqui não sentimos.

Eu dou um exemplo da porta ao lado. O papa gosta de falar da santidade da porta ao lado. Na praça onde está a casa onde vivo, estão algumas pessoas sem-abrigo. E, claro, eu procuro ser cuidadoso, ser humano e ser próximo. Mas a verdade é que quando nós temos uma casa, e estamos a falar com uma pessoa sem-abrigo, há uma diferença: nós não estamos completamente naquela situação. Para mim, uma das coisas extraordinárias foi, no primeiro mês após a pandemia, sair de casa e perguntar «como está?» à senhora que dorme na rua, e ela perguntar-me: «E você, como está?». E a pergunta era igual. Porque estávamos no mesmo barco, debaixo da mesma tempestade. Penso que esta aprendizagem é de uma riqueza espiritual que nos pode ajudar muito.


Card. José Tolentino Mendonça
Arquivista e bibliotecário da Santa Igreja Romana
Intervenção no ciclo "Tecendo redes - Diálogos online de Teologia Pastoral" (2020), 22.4.2020
Fonte: Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, Belo Horizonte, Brasil
Publicado pelo SNPC em 23.06.2020

terça-feira, 23 de junho de 2020

Pénaltis no escuro *

Quando, na primeira ou na segunda classe, a professora ensinou que cada pessoa tinha cinco sentidos, o Armando ficou confuso. Tinha o olfacto, que usava para encontrar o caminho até à cozinha, e também o paladar com que adivinhava o que era o almoço e o jantar. Tinha o tacto, com que descobria a forma das mesas e dos sofás da sala. A audição também lá estava, para ouvir a campainha no recreio.

Mas o último dos cinco sentidos sempre lhe faltou. Desde o dia em que nasceu até ao fim da sua vida. O que para os outros eram conceitos tão banais como as cores, ou como a lua e as estrelas, para ele eram exercícios de imaginação com que se entretinha quando se deitava de noite na cama.

Os pais deram-lhe o nome Armando, em honra do astro do futebol argentino. Quando souberam da sua condição resignaram-se com o facto de este sonho nunca se vir a concretizar, e culparam o destino por tamanha desfeita. Mas esse destino que tanto amaldiçoaram trocou-lhes as voltas, e o facto do Armando não ver não o impediu de vir a chutar uma bola.

Quando a campainha tocava para o recreio, todos os rapazes corriam para o campo de futebol. O Armando sentava-se na bancada a ouvir os gritos e o barulho da bola a raspar no alcatrão e a imaginar o que se estaria a passar.

E, enquanto alguns eram os últimos a ser escolhidos para as equipas, por culpa da falta de jeito, o Armando não chegava sequer a ser escolhido, por culpa da falta de visão. Para que quero eu um cego na minha equipa? Nem sequer serve para guarda-redes, não consegue ver os chutos! E a todos os intervalos a história repetia-se. Os rapazes corriam para o campo, gritavam uns com os outros, esfolavam os joelhos no chão atrás de uma bola, e o Armando ia andando devagarinho para a bancada.

Até ao dia em que, quando passava ao lado do campo para ir para casa, um colega de turma o chamou. Oh Armando!, anda cá dar um chuto na bola, para veres como é. E o Armando foi. Sempre tivera curiosidade em saber como seria jogar futebol, mas faltara-lhe a coragem para pedir. Nunca o disse, mas concordava com o que diziam dele. Se não conseguia ver a bola a vir, como é que podia jogar?

O colega pôs a bola à frente do seu pé esquerdo e disse-lhe que a baliza estava mesmo à sua frente. Era só rematar com a ponta do pé, a direito. Primeiro chuto, primeiro golo. Segundo chuto, segundo golo. E a partir daí, todos os remates que fazia iam invariavelmente até à baliza.

E todos os dias, depois das aulas e antes de ir para casa, ia treinar para o campo. Pousavam a bola no chão, diziam-lhe onde estava a baliza, e o Armando puxava o pé atrás. Chuto, golo.

Depois de tanto treino, passou a ser escolhido para as equipas do intervalo. Enquanto a bola estava em movimento, estava quietinho no seu canto, para não chocarem com ele. Mas, quando havia um pénalti ou um livre ao pé da baliza, já se sabia quem ia marcar. Diziam-lhe ao ouvido onde estava a baliza, o guarda-redes e a barreira, e a grande maioria das vezes a bola ia parar lá dentro.

O facto de ser cego não o deixava ver a bola chegar, mas quando a bola estava parada este problema já não se punha. E foi assim que o Armando, mesmo cego, se tornou no Maradona daquela escola.

SdB (III)

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* publicado originalmente em 13.07.2010

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Música e texto dos dias que correm



Sem Acção, de Nada Vale a Inteligência

Os conhecimentos ouvem-se, mas para agir a capacidade de audição é praticamente desprezável. Porque agir é estar próximo das coisas e ouvir é estar afastado das coisas. Alguém que apenas ouve será considerado um intruso no mundo, a Natureza não se sentirá ameaçada. Quem ouve poderá acumular conhecimentos, mas essa acumulação não lutará com a Natureza. Esta resiste bem à inteligência, ao raciocínio e à memória do Homem: todas estas qualidades intelectuais são assuntos que dizem respeito exclusivamente ao mundo da cidade, e o que ameaça a Natureza são as acções: os momentos em que os humandos abandonam a audição, e mesmo a linguagem do discurso, e passam a querer falar com o tacto: o único que pode alterar as coisas.

Se os homens, mantendo a sua inteligência incorrupta, fossem seres imóveis, incapazes de qualquer movimento, seriam ainda hoje menos poderosos do que um único metro quadrado de terra espontâneo. Poderiam possuir um grau de aperfeiçoamento no pensamento abstracto, matemático e lógico, mas não deixariam de ser uma espécie secundária ao lado das outras: as possuidoras de movimento. Qualquer cão mesquinho mijaria nas pernas de um homem inteligente, mas imóvel.

Gonçalo M. Tavares, in "Um Homem: Klaus Klump"

domingo, 21 de junho de 2020

12º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Mt 10,26-33
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos:
"Não tenhais medo dos homens,
pois nada há encoberto que não venha a descobrir-se,
nada há oculto que não venha a conhecer-se.
O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia;
e o que escutais ao ouvido proclamai-o sobre os telhados.
Não temais os que matam o corpo,
mas não podem matar a alma.
Temei antes Aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo.
Não se vendem dois passarinhos por uma moeda?
E nem um deles cairá por terra
sem consentimento do vosso Pai.
Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.
Portanto, não temais:
valeis muito mais do que os passarinhos.
A todo aquele que se tiver declarado por Mim
diante dos homens
também Eu Me declararei por ele
diante do meu Pai que está nos Céus.
Mas àquele que me negar diante dos homens,
também Eu o negarei
diante do meu Pai que está nos Céus".

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Da venda de uma pequena quinta

Ontem, juntamente com um primo - e em representação do resto da família - formalizei a venda de uma pequena quinta que nos era comum. O acto em si, uma escritura que durou pouco mais de 40 minutos, suscita-me duas ordens de devaneio.

1. A pandemia

Numa sala semi-acanhada de um advogado de província estavam 11 pessoas, todas de máscara: eu, duas pessoas da minha família e a nossa advogada; a compradora e namorado, a sua advogada, um representante da imobiliária, a notária e mais dois técnicos. A compradora é uma rapariga nova, belga, com uns olhos bonitos, e que me dizem ser muito simpática. Não tendo o hábito de vender quintas de família ou outros imóveis, nunca na vida me tinha deparado com uma cerimónia tão fria, tão impessoal, tão distante. O distanciamento social elimina o beijo ou o aperto de mão, a máscara impede a constatação de um face bem disposta. Ambas as coisas, somadas ou concomitantes, impedem um módico de humanidade, de proximidade, de calor afectivo. Contei uma história associada ao nome próprio da compradora, e que é um nome muito comum na minha família, e senti-me despropositado, porque não percebi se ela tinha achado interessante. 

Diz-se que é o sorriso que estabelece o comércio entre as pessoas. Talvez seja e, ao não existir - ou a existir por detrás de uma máscara - o comércio não é mais do que uma transacção que, não fossem as necessidades legais, poderia ser feita por zoom. Ao fim de 40 minutos despedimo-nos com o mesmo calor com que nos despedimos de alguém que nos traz uma encomenda: com educação e vagueza.

2. A família

Por circunstâncias próprias do meu crescimento e da minha vida familiar / social, fui consolidando a ideia de que a família não era o sangue. Podíamos sentir-nos mais familiares de uma vizinha de quem sempre fomos próximos do que de um primo direito a quem nada nos ligava. Não obstante, fui sendo educado - por via de uma capilaridade, não de uma instrução - que a família era o sangue; ou que era muito o sangue. A idade, a experiência ou uma certa sorte, permitiu uma convicção: família é tudo. Ou seja, o não sangue, mas o sangue também. Por vezes o que nos define como família não é, nem a proximidade, nem a semelhança de idades, nem uma convivência próxima, mas uma certa ideia de património imaterial que nos é comum por via de um nome de família. 

Do ponto de vista afectivo nada me ligava à pequena quinta que agora vendi / vendemos. Nunca lá passei férias, em 62 anos de vida não tenho memória de mais de meia dúzia de visitas. Contudo, dentro de mim alojou-se uma certa pena - vendi algo que também era património, sobretudo imaterial, de uma família comum. O desgosto (passe o exagero) que eu tive na venda da quinta é em quantidade igual ao gosto que eu tenho em conhecer um primo (que talvez nunca mais veja) numa qualquer festa. Há qualquer coisa, invisível e intangível, que nos aproxima. O quê? Um antepassado vago, uma história que se ouviu, uma memória comum, um conceito. Talvez a ideia, afectivamente racional (ou a sua inversa) de que família é (também) o sangue. 

JdB             
     

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