quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Poemas dos dias que correm

Litania do Natal

A noite fora longa, escura, fria.
Ai noites de Natal que dáveis luz,
Que sombra dessa luz nos alumia?
Vim a mim dum mau sono, e disse: «Meu Jesus...»
Sem bem saber, sequer, porque o dizia.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

Na cama em que jazia,
De joelhos me pus
E as mãos erguia.
Comigo repetia: «Meu Jesus...»
Que então me recordei do santo dia.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

Ai dias de Natal a transbordar de luz,
Onde a vossa alegria?
Todo o dia eu gemia: «Meu Jesus...»
E a tarde descaiu, lenta e sombria.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

De novo a noite, longa, escura, fria,
Sobre a terra caiu, como um capuz
Que a engolia.
Deitando-me de novo, eu disse: «Meu Jesus...»

E assim, mais uma vez, Jesus nascia.

José Régio, in 'Antologia Poética' 

***

Ladainha dos Póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito


David Mourão-Ferreira, in 'Cancioneiro de Natal' 

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Do essencial e do acessório

Retomo South, de Sir Ernest Shackleton.

Nota prévia: em bom rigor, e defendi-o ontem numa apresentação, o livro tem um título errado. Não deveria chamar-se South, mas sim We Leave no Man Behind, uma ideia que já vem de tempos muito antigos e que, de facto, ilustra bem melhor a epopeia deste explorador, que conseguiu resgatar todos os seus companheiros.

Shackleton tem um conjunto imenso de características e valores dentro de si: a lealdade, a tenacidade, a liderança, os conhecimentos técnicos, o carisma, a capacidade de estabelecer laços entre as pessoas em condições particularmente difíceis. E tem uma grande qualidade que marca a diferença para o seu rival, Scott. Há uma altura em que ele sente que a expedição está em risco e não hesita em decidir voltar para trás. E em vários momentos, o líder da expedição tem de fazer escolhas: não só uma escolha de caminho em função de ventos, características da neve ou do iceberg, de proximidade com um vislumbre de existência humana e salvadora, mas uma escolha de equipamento. É preciso alijar carga, reduzir o peso transportado ao exclusivamente necessário. 

O que é exclusivamente necessário? Shackleton entende que a viagem de regresso pode ser longa, a equipa poderá ter de passar o inverno em instalações precárias numa costa inóspita. Nessas condições, entende ele, um homem pode precisar de algo que lhe ocupe a mente, algumas recordações tangíveis de casa e da família. É por isso que descartam as moedas e mantêm as fotografias. E é por isso, ainda, que levam consigo duas folhas da Bíblia que a rainha Alexandra oferecera ao barco: aquela onde consta a sua dedicatória e outra, onde está um excerto do livro de Job (Jb, 38:29).

De que seio sai o gelo?,
E quem produz a geada do ar,
quando as águas endurecem como pedra,
e se congela a superfície do abismo

O que significa exclusivamente necessário? Falamos de sobrevivência, mas uma folha da Bíblia e um punhado de fotografias não são essenciais ao corpo e à fome a -20ºC... O exercício da equipa de Shackleton é uma boa metáfora para a vida: o que podemos deitar fora para continuarmos a ser o que somos? O que é essencial e acessório?  O que garante a subsistência do corpo ou da alma? Se o soubéssemos sempre, talvez fossemos mais felizes ou, no confronto com um desaire, conseguíssemos perceber que podemos perder muito mais do que pensamos e, mesmo assim, manter a nossa integridade.

JdB

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Duas Últimas

6ª feira de noite regressava a casa vindo de um jantar com ex-colegas do meu antigo emprego. Na Rádio Amália, que oiço constantemente, um cavalheiro dava uma entrevista. Falava normalmente bem, discernia sobre questões técnicas sobre música, informava que tocava também Beethoven, tinha 59 anos e escrevera um livro. Falou da sua vida, dos seus hábitos, do filho Samuel (que significa salvo por Deus) que se chama assim porque tinha o cordão umbilical à volta do pescoço e o problema foi detectado em cima da hora. Durante uns minutos não percebi quem era, mas fui-me deixando levar por uma conversa à qual não dava muita atenção, mas que ia fazendo companhia. Percebi, por fim, que o entrevistado se chamava Emanuel, e era o homem em cima do qual (passe a expressão) se tinha criado a expressão música pimba

Ontem fui entrevistado, enquanto presidente da Acreditar, pelo Peter Greenberg, um jornalista da CBS especialista em viagens, que leva no seu passaporte 400.00 milhas por ano (cito de cor). Sabe tudo sobre viagens: os hotéis, as exposições, os restaurantes, as fotografias enganadoras, a melhor opção quanto a malas duras e malas moles (e sim, há uma discussão grande, não consensual...). Foi no site dele que aprendi um conceito que me parece ser novo: voluntourism. Aplicado ao caso que lá me levou, um dia telefona-me alguém e diz: hello Jao (os estrangeiros não conseguem dizer de outra forma...). I will be in Lisbon on tourism for the rest of the week and I'd like to do some voluntary work with Acreditar. Can I show up tomorrow? A ideia é boa - a retribuição, a dimensão solidária associada às viagens de lazer. Sentei-me no hotel Farol Design e, enquanto aguardava que me chamassem, abri o telefone para ler as notícias. No Observador dei de caras com a entrevista, ao dito jornal, do Emanuel. Pareceu-me premonitório...

Deixo-vos com Emanuel em duas músicas que o celebrizaram e que, temos de confessar pelo menos quanto à primeira, podem ser remédio santo para uma pista de dança que morre lenta e indesejavelmente. Sim, eu sei que estamos no Natal e que, já agora, uma música da época faria sentido. Lá iremos, que agora é Emanuel.

JdB
  


domingo, 4 de dezembro de 2016

2º Domingo do Advento

EVANGELHO – Mt 3, 1-12

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naqueles dias,
apareceu João Baptista a pregar no deserto da Judeia, dizendo:
«Arrependei-vos, porque está perto o reino dos Céus».
Foi dele que o profeta Isaías falou, ao dizer:
«Uma voz clama no deserto:
‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’».
João tinha uma veste tecida com pelos de camelo
e uma cintura de cabedal à volta dos rins.
O seu alimento eram gafanhotos e mel silvestre.
Acorria a ele gente de Jerusalém,
de toda a Judeia e de toda a região do Jordão;
e eram batizados por ele no rio Jordão,
confessando os seus pecados.
Ao ver muitos fariseus e saduceus que vinham ao seu batismo,
disse-lhes:
«Raça de víboras,
quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir?
Praticai ações
que se conformem ao arrependimento que manifestais.
Não penseis que basta dizer:
‘Abraão é o nosso pai’,
porque eu vos digo:
Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão.
O machado já está posto à raiz das árvores.
Por isso, toda a árvore que não dá fruto
será cortada e lançada ao fogo.
Eu batizo-vos com água,
para vos levar ao arrependimento.
Mas Aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu
e não sou digno de levar as suas sandálias.
Ele batizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo.
Tem a pá na sua mão:
há de limpar a eira e recolher o trigo no celeiro.
Mas a palha, queimá-la-á num fogo que não se apaga».

sábado, 3 de dezembro de 2016

Pensamentos impensados

Baldrocas
Era disléxica (com laivos de canibalismo) e dizia o meu marido é muito tenro.

Espiquelondrifico
Forty feio é quarenta e quantos?

Nova cozinha portuguesa
Asse uma batata no micro-ondas e recheie-a com puré.

Rivalidades
Tenho um rival que me humilha: Jorge Jesus diz mais patetices do que eu.

Cuidado com a cabeça
Newton tentou, sem o conseguir, a interrupção voluntária da gravidade.

Verborreias
Há jantares com discursos intermináveis; os oradores deveriam lembrar-se que Jesus Cristo, num memorável repasto, se limitou a dizer: isto é o meu corpo, isto é o meu sangue.

Vistas curtas
Queria olhar para Portugal, mas tenho um prédio em frente.

Remédios 
Para as desgraças, adrenalina; para as traças, naftalina.

SdB (I)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Da refeição como espaço

Ernest Shackleton partiu de Plymouth para o Polo Sul a 8 de Agosto de 1914. A viagem a que ele se propunha foi um rotundo fracasso - não chegou ao destino. No entanto, toda a viagem do explorador inglês é um acto de enorme heroísmo: nas piores condições atmosféricas possíveis, sem comunicações, sem barco, com pouca comida, com uma equipa debilitada, com um frio antártico e sem cães que foram sendo abatidos por questões de necessidade, conseguiu empreender o resgate de todos. Não ficou ninguém para trás.   

No seu livro South, Shackleton descreve com pormenor técnico toda a viagem - temperaturas, coordenadas, tipo de gelo, fauna existente, meteorologia, invenções a bordo. E descreve - e é aqui que quero ater-me - as refeições. Fá-lo de uma forma detalhada: os horários, a composição, as conversas à volta do tema ou de um fogão alimentado a gordura de foca. Não fala de informação nutricional, mas de hábitos; não fala de escorbuto, mas de espaços de convívio; não fala de sobrevivência de organismos, mas da vida de uma equipa em perigo de vida; não fala de necessidades imediatas, mas de momentos tribais. A refeição é um espaço de coesão quando tudo ao redor parece desagregar-se. 

***

Em A Festa de Babette, de Karen Blixen, Babette é uma cozinheira que, vítima de um infortúnio qualquer, aporta a Berlevaag, uma cidadezinha no sopé das montanhas de um fiorde norueguês. Aquela comunidade - um seita religiosa conhecida e respeitada por toda a Noruega - havia sido fundada por um deão, um profeta. E cito: os seus membros renunciavam aos prazeres deste mundo, pois a Terra, e tudo o que sobre ela existe, era quase uma ilusão e a realidade verdadeira era a Nova Jerusalém por que ansiavam. Na comunidade há duas velhas que não se falam há 40 anos, pois entre uma e outra houve destruição de herança e de noivado; dois irmãos não se falam há 45 anos; dois outros velhos suportam nos ombros o peso da culpa de um amor antigo, falso e leviano. São caras macilentas, sombrias, escuras de alma e de roupa, onde se percebe que o prazer mais não é do que pecado. 

Babette é francesa e vive na casa das filhas puritanas do deão. Ao fim de doze anos recebe uma carta de França onde é informada que recebera dez mil francos por ter acertado na lotaria. E cito de novo: qual não foi o seu espanto [das filhas do deão] quando Babette, numa noite de Setembro, veio à sala, mais humilde, ou mais contida, do que nunca, para lhes pedir que a deixassem fazer um jantar em honra do centenário do Deão.  Neste banquete, onde estão todos os velhos desavindos, Babette serve um amontillado que acompanha um sopa de tartaruga; prossegue com blinis Demidoff regados com um Veuve Cliquot que ainda persiste nas cailles en sarcophage; depois vêm as uvas, os pêssegos e os figos frescos. No fim do banquete há palavras brandas, sorrisos genuínos, olhares pacificadores. 

***

Num livro há biscoitos e chá que pouco mais é do que água; há fome. Noutro livro há codornizes e vinhos raros; há abundância. E no entanto, entre South de Ernest Shackleton e A Festa de Babette, de Karen Blixen, não há diferença nenhuma. Ambos são a face de uma mesma moeda - a refeição como espaço tribal.

JdB

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Símbolos para o dia de hoje




Hino (original) da Restauração * 

Lusitanos, é chegado
O dia da redempção
Caem do pulso as algemas
Ressurge livre a nação

O Deus de Affonso, em Ourique
Dos livres nos deu a lei:
Nossos braços a sustentem
Pela pátria, pelo rei

Às armas, às armas
O ferro empunhar;
A pátria nos chama
Convida a lidar.

Excelsa Casa, Bragança
Remiu captiva nação;
Pois nos trouxe a liberdade
Devemos-lhe o coração.

Bragança diz hoje ao povo:
“Sempre, sempre te amarei”
O povo diz a Bragança
“Sempre fiel te serei”

Às armas, às armas
etc, etc…

Esta c’roa portugueza
Que por Deus te foi doada
Foi por mão de valerosos
De mil jóias engastada.
Este sceptro que hoje empunhas,
É do mundo respeitado,
Porque em ambos hemisférios
Tem mil povos dominado!

Às armas, às armas
etc, etc…

Nunca pode ser subjeita
Esta nação valerosa,
Que do Tejo até ao Ganges
Tem a história tão famosa.

Ama-a pois, qual o merece;
Ama-a, sim, nosso bom rei
Dos inimigos a defende,
Escuda-a na paz, e lei.

Às armas, às armas
etc, etc…

Ai! Se houver quem já se atreva
Contra os lusos a tentar,
O valor de um povo heróico
Hade os ímpios debellar.

Viva a Pátria, a liberdade,
Viva o regime da lei,
A família real viva,
Viva, viva o nosso rei.

Às armas, às armas
etc, etc…

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Poemas dos dias que correm

O Sentimento dum Ocidental


               I

           Avé-Maria

    Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

    O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

    Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

    Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

    Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

    E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

    E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.

    Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

    Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

    Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

    Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!



               II

          Noite Fechada

    Toca-se às grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O Aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de <>!

    E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;
À vista das prisões, da velha Sé, das Cruzes,
Chora-me o coração que se enche e que se abisma.

    A espaços, iluminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.

    Duas igrejas, num saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela História eu me aventuro e alargo.

    Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construções rectas, iguais, crescidas;
Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas,
E os sinos dum tanger monástico e devoto.

    Mas, num recinto público e vulgar,
Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras,
Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras,
Um épico doutrora ascende, num pilar!

    E eu sonho o Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectrais recolhem os soldados;
Inflama-se um palácio em face de um casebre.

    Partem patrulhas de cavalaria
Dos arcos dos quartéis que foram já conventos:
Idade Média! A pé, outras, a passos lentos, 
Derramam-se por toda a capital, que esfria.

    Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir às montras dos ourives.

    E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos magasins, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas delas são comparsas ou coristas.

    E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; às mesas de emigrados,
Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.




               III

             Ao gás

    E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arripia os ombros quase nus.

    Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

    As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

    Num cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

    E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

    Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!

    Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

    E aquela velha, de bandós! Por vezes,
A sua trai^ne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.

    Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós-de-arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

    Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

    <>
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!



               III

           Horas mortas

    O tecto fundo de oxigénio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

    Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

    E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.

    Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

    Ó nossos filhoes! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.

    Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!

    Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.

    E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

    Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.

    E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

    E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!

                                Cesário Verde

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Vai um gin do Peter’s?

Na Quarta passada, uma multidão acorreu ao Chiado para ouvir o testemunho poderoso e luminoso de uma mulher que viveu sob as bombas, na Síria. E escapou para contar a sua experiência e deixar alertas ao Ocidente rico, com um pedido: parem a guerra e repensem na vida oca e frívola que levam. 

Concretizou: se querem acabar com a fábrica de fazer refugiados, parem a guerra; suspendam a venda de armas e o apoio aos mercenários estrangeiros que estão a destruir a Síria. A Irmã Guadalupe explicou, com desassombro, que era puro logro mediático falar em «guerra civil» num conflito que fora planeado, com frieza e calculismo, num gabinete longínquo (pareceu referir-se ao Ocidente ou, pelo menos, também o envolver), para depois ser levado a cabo por milícias estrangeiras, falsamente apresentadas como «oposição moderada local». Disse mais: a esmagadora maioria dos sírios não quer derrubar o Governo, menos ainda ficar nas mãos dos meliantes que invadiram a Síria para retalhar um país próspero, moderado e atípico na turbulência do Médio Oriente.  

Nascida na Argentina, a Irmã Guadalupe entrou para a Ordem do Verbo Encarnado, que faz questão de ir para onde ninguém quer. Há uns cinco anos, tinha pedido licença de transferência para um país calmo da bacia do Mediterrâneo, enquanto recuperava de um problema de saúde. Sugeriu a Síria por ser um paraíso de tranquilidade e ordem, prosperidade e excelente coabitação entre muçulmanos e cristãos, como fora o Líbano há três décadas. Assim, foi colocada na capital dos negócios e das melhores universidades: Alepo. Ironicamente, poucos meses depois, as fronteiras sírias tornaram-se um passador de guerrilheiros sem escrúpulos e radicais, armados até aos dentes, pagos ou simplesmente doutrinados para pôr o país a ferro e fogo. 

Contou, em seguida, como aquele povo corajoso e cordato aguentou e continua a aguentar cinco anos de rajadas de metralhadoras, mísseis, petardos, falta de víveres, água reduzida a uma vez por semana, luz eléctrica duas horas por dia! Chegam a procurar folhas nas árvores para improvisar sopas. Conseguiram reaprender a viver. Diz a Irmã que aquela onda de violência reconduziu-os ao sentido da vida. Exemplificou com fotografias de magotes de gente nova de ar divertido e exuberante. Eram do centro universitário junto à catedral de Alepo, recentemente atingida por um míssil. Comentava: acreditem que estes sorrisos não são resultado do photoshop, apesar de provirem de um bairro cristão, que são os alvos preferidos destas milícias assanhadas. A guerra trouxe-lhes uma alegria tranquila e profunda, porque experimentam o valor espantoso de cada instante! Quando saem de casa, despedem-se sem saber se já só se revêem no céu. Mas a perspectiva do céu não lhes retira vitalidade. Antes aviva-lhes a vontade de seguir em frente. Por isso se casam, com o pequeno pormenor de a igreja já não ter tecto e as paredes estarem descarnadas… Claro que dispensam o aparato dispendioso que hoje se associa ao casamento, distorcendo o sentido daquele acto. Neste campo, deixou ainda o alerta contra o ambiente artificialmente facilitado e híper protegido em que os pais hoje educam, deixando os mais novos impreparados para o futuro. Sim, casam-se apaixonadíssimos e pouco tempo depois já estão separados. Mira, qué ha passado? Que te ha detto que la vida era fácil?  

Na Síria, ainda arranjam tempo e energia para levar os estudos até ao fim. Contou a história divertida e eloquente ocorrida minutos depois de tocar o aviso de retirada imediata da cidade, com a chegada iminente do terrífico Daesh. Cada um agarrou na bagagem de sobrevivência para se fazer à estrada. Nisto, uma Irmã vê uma estudante voltar atrás a apanhar os apontamentos, insólitos num kit de primeiras necessidades. Esclarece-a logo a universitária: se sobrevivermos, Irmã, tenho exame já na próxima Segunda e conto ir! Por isso não se estranha a fotografia de uma recém-licenciada em medicina, esfusiante a mostrar o diploma da licenciatura feita nos cinco anos de bombardeios.  

Há dias, em Madrid, espantara-se com a proibição de haver presépios em lugares públicos. Esa es vuestra libertad religiosa? Qué pasa con la democracia en el occidente? Desdobrou-se em exemplos sobre o perigo do politicamente correcto em que nos afogámos, já com a expressão religiosa acantonada na clandestinidade e a liberdade individual quartada em vários aspectos. A descrição da nossa sociedade aproximou-se demasiado da antevisão descrita por George Orwell em «1984». Aliás, o autor britânico clarificou numa entrevista que aquele retrato da ditadura de mentalidades não se inspirara especificamente na União Soviética, mas no seu país. Isto, já em 1949… 

Convidou-nos a assumir a fé com maior desassombro, a libertar-nos do frenesim tonto e basicamente materialista em que nos deixamos enredar, para recuperar o que é vital, o que conta realmente. Basta o essencial, na vida! Se morrermos nos próximos minutos, o que gostaríamos de ter feito ou dito? Reparem que nenhum rico, nenhum poderoso consegue acrescentar um segundo, sequer, à existência. Nisto, os sírios tornaram-se excelentes mestres de vida. Nas notas finais, lembrou o site da AIS (Ajuda à Igreja que Sofre), onde este noticiário diferente está ao nosso alcance: www.fundacao-ais.pt. Agora que nos aproximamos do Natal: como será viver aquela Noite Santa ao som de bombas e sob as labaredas das explosões? A Irmã explicou que estas milícias são mais encarniçadas nas festas cristãs: no 25 de Dezembro e na Páscoa. 

Nos antípodas destes guerrilheiros fundamentalistas, está a maioria dos muçulmanos sírios citados pela monja argentina, que lhe desabafaram estarem muito preocupados com o desaparecimento dos cristãos, pois são eles quem mais alimenta a cultura e as universidades sírias, além de serem os guardiães de valores únicos e fundamentais à sociedade– à cabeça, o perdão (sic)! 

Vem o perdão a propósito do costume sanguinário aplicado pelo Daesh e grupúsculos afins, de sinalizarem as casas a abater, conforme era prática nas épocas ancestrais narradas no Antigo Testamento. Na Síria, a letra «Nun» do alfabeto árabe, inicial de Nazareno, serve para estigmatizar os seus seguidores. Para os cristãos daquelas paragens de alto risco, o sinal da perseguição reforçou-lhes a identidade. Até adoptaram o costume das tatooagens, igualmente antigo naquelas latitudes, sendo a mais comum a da cruz gravada no pulso, não cuidando de passar despercebidos. Um argentino conterrâneo da Irmã Guadalupe, Maxi Larghi, compôs uma música alusiva ao «nun», falando de kalashnikovs e da carnificina a que estão sujeitos, embora no refrão contraponha com o perdão e com a vida, para lá da morte imediata, porque: veo el triunfo del amor (…) llevo un anuncio em mi voz que habla de ressurreccíon, y cuando muero, no muero, porque fui marcado con la letra “nun” en mi alma por Dios. 



Bondade mal aplicada? Perdão imerecido? Estranhas certezas? A multidão que transbordava na Igreja da Encarnação estava pendurada das palavras incríveis da Irmã. Testemunhava com uma autoridade indizível e invulgar (ler outra entrevista recente aqui). Muito oportunamente, foi em árabe que quis terminar, entoando um cântico lindo a Nossa Senhora (ao min. 44:14 na entrevista postada abaixo). Escolheu cantar na língua mais falada do Médio Oriente e de uma musicalidade maravilhosa, pedindo para imaginarmos estar antes a ouvir os seus irmãos sírios. Da voz cristalina daquela figura esguia e de ar frágil irradiou uma vitalidade imprevista para implorar à Mãe da Humanidade pela paz na Síria e noutros países igualmente subjugados pelos grilhões da guerra.
   


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Duas Últimas

Talvez nunca tenha postado ballet. Já postei tangos e milongas mas, de facto, ballet nunca. Talvez seja agora a altura de o fazer, uma vez que gostei muito deste vídeo (e o que reproduzo não tem grande qualidade) que vi um destes dias por puro acaso. 

O único comentário que constava no youtube diz que a coreografia faz o grupo parecer uma cartilagem de peixe. Curiosamente, quando o vi senti que era alguém (o elemento do meio) que agitava cordas para um lado e para o outro. Não voltei a ver o vídeo e, se o revisse, talvez achasse que era outra coisas qualquer, quem sabe uma cartilagem de peixe...

JdB

domingo, 27 de novembro de 2016

1º Domingo do Advento

EVANGELHO – Mt 24, 37-44

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Como aconteceu nos dias de Noé,
assim sucederá na vinda do Filho do homem.
Nos dias que precederam o dilúvio,
comiam e bebiam, casavam e davam em casamento,
até ao dia em que Noé entrou na arca;
e não deram por nada,
até que veio o dilúvio, que a todos levou.
Assim será também na vinda do Filho do homem.
Então, de dois que estiverem no campo,
um será tomado e outro deixado;
de duas mulheres que estiverem a moer com a mó,
uma será tomada e outra deixada.
Portanto, vigiai,
porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor.
Compreendei isto:
se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão,
estaria vigilante e não deixaria arrombar a sua casa.
Por isso, estai vós também preparados,
porque na hora em que menos pensais,
virá o Filho do homem.

***

Começa um novo ano litúrgico no qual, domingo após domingo, escutaremos o Evangelho segundo Mateus. O princípio e o fim de um ano litúrgico só podem colocar diante de nós o que está sempre no nosso futuro: a vinda do Filho do homem, o nosso encontro com Ele. O nosso Deus é o Senhor «que é e que vem», porque já veio na carne frágil e mortal de Jesus, o filho de Maria morto e ressuscitado, vem em cada hora na vida do discípulo para o atrair a si, virá na hora do êxodo de cada um de nós deste mundo, no fim dos tempos, para nos introduzir todos e definitivamente no seu Reino de paz e de vida plena. Jesus é «o que vem», e o seu dia, «o dia do Senhor», será a parusia, a manifestação última e definitiva.

No trecho evangélico do primeiro domingo do Advento (Mateus 24, 37-44) escutamos palavras de Jesus ditas não à multidão mas à parte, só aos discípulos, ao «pequeno rebanho», nas horas que antecedem o seu fim, através da prisão, condenação e morte. No monte das Oliveiras, a oriente de Jerusalém, onde se contempla a cidade santa e o templo no seu esplendor, Jesus adverte: quanto a esse dia e a essa hora, ninguém o conhece, é um termo fixado na história que só Deus conhece. Por causa desta ignorância da parte dos humanos, quando acontecer a parusia, a vinda do Filho do homem, reinarão a indiferença, a distração, o não saber. Jesus diz estas palavras com tristeza, mas sabe que para a humanidade é sempre como nos tempos de Noé, quando vem a grande inundação e apanha a humanidade impreparada.

No livro do Génesis (cf. 6,5-9,17) o dilúvio universal é apresentado como castigo de Deus sobre uma humanidade por Ele criada mas que se tornou má, violenta. Descodificando esse texto, podemos compreender que, então como hoje, por vezes parece prevalecer sobre tudo a violência, a imoralidade, a perda da dignidade humana e da fraternidade. Neste caso emerge com evidência que as escolhas dos homens e mulheres são mortíferas, que o comportamento humano desfigura a Terra de uma maneira devastadora, bem representada pelas águas do dilúvio ou pelo deserto que avança. E perante acontecimentos que nos fazem tomar consciência da nossa responsabilidade, manifesta-se como os humanos foram até ao último momento distraídos, incapazes de compreender o que estavam a preparar com o seu comportamento.

Jesus não diz que a geração na qual acontecerá «o dia do Senhor» será imoral ou particularmente perversa, mas apenas lhe denuncia a indiferença. São homens e mulheres que vivem: nascem, crescem, enamoram-se, casam-se, comem e bebem… Sim, vivem, e sobre este seu viver Jesus não pronuncia uma condenação, propondo-lhes um programa ascético. Denuncia apenas o «não conhecimento», o não estarem prontos, o serem indiferentes àquilo que deve ser procurado antes de tudo e é essencial a uma vida verdadeiramente humana, que responda à vontade e à vocação do Criador.

Portanto nenhum castigo da parte de Deus, mas simplesmente a manifestação da situação em que se encontra a humanidade diante da presença e da vinda do Filho do homem. Infelizmente nós oscilamos entre febre apocalíptica com predições catastróficas e indiferença para com este acontecimento que, tardando tanto, pensamos que não nos deve atormentar. Mas este acontecimento não pode ser por nós enviado para o fim da história, quase pensando que não nos diz respeito, porque na realidade no êxodo de cada um de nós, na passagem deste mundo para o além da morte, seremos colocados diante da presença do Filho do homem vindo na glória. Acontecerá, por conseguinte, que tudo se consumará quando aprendermos dos acontecimentos que a morte chega para uns antes que para outros, pelo que quem está connosco no trabalho pode ser tomado e nós deixados em vida, ou vice-versa. Não há a mesma hora para todos, não há a mesma ocasião para todos, mas para todos há um fim. Também isto deveria servir de ensinamento, quase profecia do juízo de Deus, quanto houver uma separação entre aqueles que entrarão no Reino, porque exercitados na comunhão com os outros, e aqueles que não poderão entrar, porque não quisera conhecer a comunhão com os outros, antes se alimentaram de amor egoísta de si. Como nas sete cartas às Igrejas do Apocalipse (cf. Ap 2-3), o Senhor vem e a sua vinda é juízo em cada instante.

É preciso, por isso, conhecer o plano de salvação de Deus, é preciso vigiar e manter-se pronto. Como um chefe de casa que sabe que o ladrão virá pela noite: o que fará? Vigiará, estará desperto e à espera, de modo a não deixar que a sua casa seja roubada. Eis, então, a atitude do discípulo: sabe que o Filho do homem vem, mesmo se não conhece a hora da sua vinda, e forte desta consciência vive na vigilância, na espera. Não se deixa ir, não se distrai, mas apesar de viver humanamente bem, continua a vigiar para abrir prontamente ao Senhor, quando chegar; chegará surpreendendo-nos, mas, precisamente porque esperado, será também acolhido prontamente e com grande alegria.

De qualquer modo, diante deste Evangelho – devemos confessá-lo – a comunidade cristã experimenta sentimentos de embaraço: hesita em ser convencida de que o Senhor vem na glória, não pensa que haja verdadeiramente um fim do tempo e deixou de ter no coração o desejo ardente de ver o Senhor. Como dizia Ignazio Silone, «os cristãos dizem que esperam o Senhor, e esperam-no como se espera o elétrico». E todavia bastaria estarmos mais atentos ao ler a vida que passa, a própria e a daqueles próximos de nós, para nos darmos conta de como em cada dia, se não estamos distraídos, somos inexoravelmente reconduzidos ao acontecimento que nos espera: o encontro com o Senhor. Somos reconduzidos a compreender que nós, ainda que vagabundos e mendigos na Terra por um punhado de anos - «setenta, oitenta se houver forças» (Salmo 90, 10) -, nesse dia só teremos necessidade da misericórdia do Senhor.


Enzo Bianchi 
Prior do Mosteiro de Bose, Itália 
In "Monastero di Bose"
Trad.: Rui Jorge Martins 

sábado, 26 de novembro de 2016

Pensamentos Impensados

Sondagens
Marcelo obteve 97% de votos numa sondagem sobre popularidade, ou seja. unanimidade de quase todos os portugueses. Semelhante percentagem só os ditadores africanos.

Sofismas
Será que posso considerar-me nudista atendendo a que por baixo da roupa estou nu?

Psis
Vi várias vezes os cães da Rainha Isabel II nos sofás: estarão a fazer psicanálise?

Assentimento
Se quem cala, consente, os surdo-mudos consentem tudo.

Futebois
Os "olheiros" são super...visores.

Cãs
Bill Clinton tem a cabeça encanecida: já Hillary tem a cabeça escarnecida.

Telenovelos
Brevemente na TV nova versão de D. Quixote sem corantes nem com Cervantes.

Falsificações
O caviar já é tirado de peixes criados em "aviário": deveria chamar-se caviário.

Asseios 
Acho uma chatice enxugar-me depois de tomar banho. Vou passar a tomar duche de gabardine.

SdB (I)

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Das descobertas

Contam-me um sketch humorístico brasileiro: estamos em 1500 e Pedro Álvares Cabral chega ao Brasil. Escondidos por trás da vegetação, dois índios (provavelmente da tribo aymoré) dizem um para o outro: fomos descobertos! 

Obviamente que não somos descobertos, não só se não estivermos a fugir de ninguém e, menos ainda, se desconhecermos que há mundo lá fora. Os índios, como é óbvio, não saberiam do mundo exterior. E no entanto, todos as tribos de índios ou de aborígenes do mundo inteiro - do pantanal brasileiro à Nova Guiné - poderiam dizer isso com propriedade de horror se seguissem a ideia de Lévi-Strauss que, sendo antropólogo, tinha uma ideia fraquíssima e muito crítica da antropologia a ponto de dizer: "todo o esforço para compreender destrói o objecto pelo qual nos tínhamos interessado, em proveito de um objecto de natureza diversa."

Lévi-Strauss destruiu os Bororo quando os descobriu. Fez o mesmo aos Nambiquara e a outras tribos do interior brasileiro. Quando os descobriu e, na sua convivência com eles, redigiu registos de campo com os hábitos dos homens, dos chefes, das mulheres e das crianças de cada tribo, começou a destruí-los, porque lhes perturbou um sossego milenar e lhes revelou uma civilização indesejada. E talvez tenha sentido este paradoxo que é um antropólogo na sua terra querer mudar tudo em nome do conforto, dos direitos dos homens, das minorias, das mulheres ao seu corpo e, no interior brasileiro onde conviveu com os Tupi-Cavaíbas, não querer que mude nada. 

O que queremos mudar nós nas tribos que descobrimos? O que é legítimo mudar e em nome de que moral? Temos o direito de querer impedir a poligamia numa tribo africana? Ou dizer como se devem vestir as mulheres no médio oriente? Ou regular as relações de poder ou as regras de vizinhança numa comunidade escondida da Nova Guiné? Ou impedir os chineses de comer cão? Ou querer catequizar os incréus? O que é razoável? Quais são os valores morais ou éticos absolutos que nós, europeus / ocidentais, nos achamos com direito de impor ao mundo? E o que ganharam os cadiueus quando viram aproximar-se Lévi-Strauss de bloco de notas e máquina fotográfica?

Fomos descobertos! Há um certo horror genuíno na frase. Não sei bem é onde...

JdB       

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Reportagem (que pode impressionar) dos dias que correm *

Foi registado o momento emocional quando os médicos fazem o parto a uma mulher síria, ferida num ataque aéreo na cidade cercada de Aleppo.

A mulher identificada apenas como Mayissa, estava gravemente ferida enquanto se deslocava para o hospital para dar à luz.

"O som mais elementar de todos,  por um breve momento, mais poderoso, do que o grito de morte quotidiano de Aleppo." 
Estas imagens foram recolhidas em Julho e difundidas em Agosto. 
A reportagem faz parte de uma série que documenta o sofrimento dos civis em Aleppo que vivem sob bombardeamentos permanentes. 
O repórter acrescenta: "A guerra quase acabou com a sua vida antes de ter uma hipótese de começar. Mas a guerra continuará a ser sua companheira e irá transformar o mundo em que ele entrou.  



* retirado daqui

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Poemas dos dias que correm

O Homem que Contempla

Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira

***

Contemplação

Sonho de olhos abertos, caminhando
Não entre as formas já e as aparências,
Mas vendo a face imóvel das essências,
Entre idéias e espíritos pairando...

Que é o mundo ante mim? fumo ondeando,
Visões sem ser, fragmentos de existências...
Uma névoa de enganos e impotências
Sobre vácuo insondável rastejando...

E d'entre a névoa e a sombra universais
Só me chega um murmúrio, feito de ais...
É a queixa, o profundíssimo gemido

Das coisas, que procuram cegamente
Na sua noite e dolorosamente
Outra luz, outro fim só presentido...

Antero de Quental, in "Sonetos"

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