domingo, 25 de junho de 2017

XII Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 10,26-33

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos:
“Não tenhais medo dos homens,
pois nada há encoberto que não venha a descobrir-se,
nada há oculto que não venha a conhecer-se.
O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia;
e o que escutais ao ouvido proclamai-o sobre os telhados.
Não temais os que matam o corpo,
mas não podem matar a alma.
Temei antes Aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo.
Não se vendem dois passarinhos por uma moeda?
E nem um deles cairá por terra
sem consentimento do vosso Pai.
Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.
Portanto, não temais:
valeis muito mais do que os passarinhos.
A todo aquele que se tiver declarado por Mim
diante dos homens
também Eu Me declararei por ele
diante do meu Pai que está nos Céus.
Mas àquele que me negar diante dos homens,
também Eu o negarei
diante do meu Pai que está nos Céus”.

sábado, 24 de junho de 2017

Pensamentos Impensados

Cargos
Angola vai ter um presidente emérito; Portugal já teve o presidente Américo.

Show
Louis Armstrong vai patrocinar o espectáculo super boca super rouca.

Es...padeirada
Era uma padEira da família dos Alves Baeeosa.

Altos cargos
Deus é Ministro da Administração Eterna.

Botequins
Bares de alterne investigados pela Polícia de Meninas e Armadilhas.

Aberturas
Madrid  quer acabar com homens de pernas abertas nos transportes público.
Por cá, Marcelo deixa-se pintar de pernas abertas.

Escolhas
Deus não quis arriscar a que Adão morresse de parto, pois não haveria humanidade.

Atletismo
Pé de atleta pede atleta.

SdB (I)

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Poemas dos dias que correm

Além-Tédio

Nada me expira já, nada me vive -
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, emfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A propria maravilha tinha côr!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tedio.

E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...

Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'

***

Tédio

Sobre minh'alma, como sobre um trono,
Senhor brutal, pesa o aborrecimento.
Como tardas em vir, último outono,
Lançar-me as folhas últimas ao vento!

Oh! dormir no silêncio e no abandono,
Só, sem um sonho, sem um pensamento,
E, no letargo do aniquilamento,
Ter, ó pedra, a quietude do teu sono!

Oh! deixar de sonhar o que não vejo!
Ter o sangue gelado, e a carne fria!
E, de uma luz crepuscular velada,

Deixar a alma dormir sem um desejo,
Ampla, fúnebre, lúgubre, vazia
Como uma catedral abandonada!...

Olavo Bilac, in "Poesias"

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Crónicas de um doutorando tardio - ofertas para o 1º semestre 2017 / 2018

A Recherche de Proust (João R. Figueiredo)

O seminário parte da afirmação de Proust, citada pela sua governanta, Céleste Albaret, de que Charlus/Montesquiou era “le noyau de [s]on affaire”. Indagando a centralidade absoluta que a "raça maldita" dos homossexuais ocupa na Recherche e o investimento literário do autor na caracterização trágico-cómica dos habitantes de Sodoma, o objectivo do seminário consiste em apresentar uma descrição unitária do romance que integre os vários temas (a memória, a percepção do tempo, o snobismo, o amor e o ciúme, a relação entre a vida e a arte, etc.) num todo orgânico regido por aquele núcleo. É requerida a leitura integral da Recherche numa língua qualquer.


Geografias literárias (Ângela Fernandes)

O objectivo do seminário será o de reflectir sobre os mecanismos conceptuais de identificação e delimitação seja de literaturas nacionais seja de campos de estudo seus conexos, prestando especial atenção à configuração histórica das áreas dos Estudos Hispânicos e dos Estudos Ibéricos.   O desafio radical à ideia de nacionalidade literária lançado por Ramón Gómez de la Serna em 1927 com a publicação de 6 falsas novelas repercute questões de diversa índole. Na sua época, a obra poderá ser entendida como elemento menor, mas não negligenciável, na discussão sobre os contornos das culturas hispânicas e ibéricas, tal como teorizadas por José Ortega y Gasset ou Fidelino de Figueiredo, entre outros. Já num contexto mais alargado, as novelas de Gómez de la Serna ocupam lugar proeminente numa linhagem de textos que manifestamente expõem a dimensão retórica de qualquer forma de geografia literária, e nesta linha procuraremos ler narrativas de Jorge Luis Borges, J.M. Coetzee ou Bernardo Carvalho.


Tempos Bíblicos (Teresa Bartolomei)

Ultrapassando a vulgata da simplificação que contrapõe o tempo cíclico da civilização greco-romana ao tempo linear judaico-cristão, o seminário propõe-se reconstruir a efectiva pluralidade de perspectivas temporais que articulam a exposição bíblica da experiência humana individual e colectiva, existencial e histórica: o tempo do profeta é diferente do tempo genealógico, o tempo criatural é diferente do tempo messiânico, o tempo da Lei é diferente do tempo da Graça.  Reconhecer esta variedade pode ajudar-nos a perceber melhor aspectos e momentos fulcrais da auto-representação do homem ocidental até à actual crise conjunta das noções básicas de humanidade e de história.  Uma etapa central da nossa exploração dos textos testamentários serão as cartas paulinas, em que encontramos uma explícita formulação e justificação desse pluralismo temporal: a radical contingência da condição humana consiste também no facto de não haver um tempo único, cognitivamente e praticamente ‘obrigatório’, mas uma constelação de dimensões  temporais diferentes, complementares apesar de parcialmente contraditórias, entre as quais é possível, e devido, escolher.


Ler Shakespeare (Maria Sequeira Mendes)

Apesar de, em Shakespeare, o Rei Hamlet ser a única personagem envenenada pela orelha, há muitas outras que sucumbem às insinuações ou às afirmações dos vilões, deixando que o ouvido as engane. Poder-se-ia até afirmar que as tragédias, e algumas comédias, ilustram variações no modo como cada personagem é influenciada pelo ouvido (Othello, Macbeth, King Lear, Richard II, Brutus, Benedict e Beatrice), aniquila outros com a sua retórica (Richard III), ou não se deixa manipular (Hamlet, Coriolanus, Cordelia). Neste seminário, lêem-se algumas peças de Shakespeare à luz destas variações.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Duas Últimas

Infelizmente, as boas notícias com que o País e a generalidade dos portugueses têm sido contemplados nos últimos tempos sofreram no passado fim-de-semana um forte, brutal, abalo.

Arrepiantes as imagens que nos foram sendo mostradas, naquelas noite e madrugada terríveis.

Não sendo ainda o tempo de procurar as explicações que a gravidade da situação exige, como bem sublinhou MRS, não posso no entanto deixar de pensar no que nos foi dado ver ou confirmar: a progressiva desertificação do interior, a escassez de hortas e pomares, que também serviam para criar distâncias de salvaguarda entre as casas e as matas, o excesso de eucaliptos, as florestas de "minifúndio" por limpar, a dificuldade dos bombeiros em se organizarem. Agravando de forma decisiva uma situação climatérica já de si extremamente adversa, como foi o caso.

Que o sucedido nos ajude a mudar. Também neste ranking temos de melhorar radicalmente. Estou convicto que o diagnóstico está feito, temos gente competente e com saber na matéria. Há que actuar, outros já o fizeram com sucesso (e coragem). Se continuarmos a adiar, qualquer dia o remédio será entregar o interior a quem queira tomar conta dele...

Vi grandes exemplos humanos nas reportagens televisivas. De homens mas sobretudo de mulheres, empenhadas com valentia na defesa dos seus - pessoas e bens - em cenário de pavor.

Dolores O' Riordan, vocalista dos Cranberries, também é uma mulher corajosa, defendendo com intransigência a sua Irlanda. Com uma voz forte e límpida, numa figura frágil na aparência.

Espero que também apreciem.

fq




terça-feira, 20 de junho de 2017

Vai um gin do Peter’s?

No rescaldo da tragédia do incêndio que deflagrou neste Sábado, durante (talvez causado pel’) a trovoada seca, fica-se sem palavras.  O horror do número galopante de vítimas mortais, no interior do país, nem dá para acreditar. Pedrogão Grande está de luto e com ele todo o país.

É a hora do silêncio ou da música mais profunda, capaz de exprimir o que já não está ao alcance das palavras, depois de uma multidão ter sido devorada pelas chamas.

O pianista e compositor russo Rachmaninov (Rússia 1873-1943 EUA) – que foi aluno de outro génio da música, Tchaikovsky (Rússia 1840-1893) – escreveu concertos para piano e orquestra que elevam a dor a um patamar sagrado, onde o horizonte infinito desconhece os limites da condição terrena. Ainda que não ofereça a solução prática (e indispensável), pode ser consolador e, sobretudo, inspirador para quem enfrenta um desgosto, uma nova dificuldade. De facto, não há soluções que dispensem o envolvimento directo das pessoas atingidas.

Voltando a Rachmaninov: é consensual reconhecer que as suas árias estão impregnadas de espiritualidade. Segundo testemunha o violinista Gidon Kremer: «Entra-se num espaço espiritual onde cada emoção é permitida, mas a principal é familiar a todos e está ligada ao amor. (…) Tocar a sua música é como participar numa missa.» O próprio russo, marcado por uma vida bastante tormentosa, colocava o amor no âmago da expressão artística: «A poesia [como a música] nasce do coração e dirige-se ao coração. É amor. A poesia é irmã da música, e mãe do sofrimento».

Especificamente, o segundo andamento do célebre Concerto nº 2 para Piano, Op. 18, contém passagens de uma beleza, que nos lava por dentro. Profundamente libertador, foi alvo de adaptações posteriores. É o caso da composição do violinista judeu-austríaco Fritz Kreisler (1875-1962), que parte da peça do russo para a assumir como oração. Escolheu para título o termo italiano «Preghiera» reduzindo a orquestração portentosa do original a um trio virtuoso de violino, piano e violoncelo:



Claro que a obra de Rachmaninov não é menos intensa na sua riqueza polifónica, extremamente delicada e aqui magistralmente dirigida pelo maestro Claudio Abbado, com o solo do piano interpretado pela instrumentalista francesa, que também se dedicou à protecção dos lobos – Hélène Grimaud. São 11 minutos especiais:



Como diz uma outra oração de milénios anteriores: há uma hora para falar e outra para calar; uma hora para chorar e outra para rir; uma hora para lembrar e outra para esquecer. Também para Pedrogão Grande haverá um tempo para as lágrimas e outro para a reconstrução, sabendo que conta com um país a mobilizar-se para dar o melhor apoio. Aliás, não têm faltado gestos generosos e profissionais, inclusive vindos de outros países, para mitigar a violência inaudita deste incêndio, em território nacional.

O fogo mais mortífero das últimas décadas, agravado pela recusa de muita gente em abandonar a casa, apesar do perigo iminente, além dos c. 30  automobilistas apanhados numa via que se tornou num inferno. Um piloto, envolvido no combate aéreo, fala de uma junção terrífica e invulgar de fenómenos naturais: um relâmpago a atear as chamas, ventos de rajada a espalhá-las em todas as direcções e sequência de dias com temperaturas elevadíssimas.


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Das épocas e dos refúgios

Sábado jantei em casa de amigos. Em conversa com alguém, vimos uma criança, de 8 anos, talvez, a brincar num baloiço: impulso de pernas para cá e para lá, e o baloiço cada vez mais alto. Esteve ali dez minutos, seguramente, naquele vaivém ligeiramente monótono, mas seguramente gerador de uma qualquer adrenalina infantil. Ao lado, num trampolim, outras crianças saltavam e brincavam. Mas foi na criança no baloiço que focámos a nossa atenção. 

"Sabes, tenho inveja daquela criança. E quase me apetecia dizer-lhe a ela, e às outras crianças, que percebo bem o gozo que elas estão a ter.". 

Já aqui escrevi o que me lembro da frase e já aqui redigi ideias sobre o tema em apreço: em momentos de maior tensão / preocupação / angústia / desgosto / apreensão, o refúgio de um Homem são as suas memórias. O meu interlocutor, face à pergunta sobre se era esta a idade na qual ele se "refugiaria", porque os 8 anos não me dizem nada em termos de memórias, disse que sim, que era aquela idade - e explicou porque não eram os 16, 17, 18 anos que são o meu refúgio. 

Não será, seguramente, um assunto de grande interesse para o comum dos mortais, mas a mim, que me interessam estas coisas do passado e das explicações sobre emoções, suscita-me interesse. Gosto de saber porque é a minha adolescência tão importante para mim, e gostei de perceber porque não era para este meu interlocutor, que por volta dessa idade já vivia bastante sozinho, qualquer que tenha sido o impacto disso na sua vida. 

Os tempos das memórias felizes dizem muito de nós. Só falta quem se interesse pelo tema...

JdB

PS: hoje seria dia de escrever sobre a tragédia que assola Pedrogão Grande. Falam-me de mensagens com apelos à oferta de bens, falam-se me mensagens com apelos à oração de Avé-Marias. Embora crente, sou mais levado, neste caso, pelo pragmatismo: os bombeiros precisam de água ou de compressas; as populações precisam de roupa, de comida, de ajuda financeira. Se ninguém der nada ninguém terá nada. Quanto ao apoio divino, ele é dado a cada pessoa individualmente, sendo que cabe a cada pessoa, na forma como encara a tragédia, "perceber" esse apoio. Admito que neste momento ninguém o perceba, porque talvez as energias estejam voltadas para o desespero e para a revolta. Tudo tem o seu tempo. Rezemos para que o tempo da bonança chegue o mais cedo possível ao coração de todas aquelas famílias dizimadas.    

domingo, 18 de junho de 2017

11º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 9,36-10,8

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus, ao ver as multidões, encheu-Se de compaixão,
porque andavam fatigadas e abatidas,
como ovelhas sem pastor.
Jesus disse então aos seus discípulos:
«A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos.
Pedi ao Senhor da seara
que mande trabalhadores para a sua seara».
Depois chamou a Si os seus doze discípulos
e deu-lhes poder de expulsar os espíritos impuros
e de curar todas as doenças e enfermidades.
São estes os nomes dos doze apóstolos:
primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão;
Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão;
Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano;
Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu;
Simão, o Cananeu, e Judas Iscariotes, que foi quem O entregou.
Jesus enviou estes Doze, dando-lhes as seguintes instruções:
«Não sigais o caminho dos gentios,
nem entreis em cidade de samaritanos.
Ide primeiramente às ovelhas perdidas da casa de Israel.
Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus.
Curai os enfermos, ressuscitai os mortos,
sarai os leprosos, expulsai os demónios.
Recebestes de graça, dai de graça».

sábado, 17 de junho de 2017

Pensamentos Impensados

Politiquices
A política nos EUA vai uma grande Trump-alhada.

Beijos e abraços
Nove em cada dez estrelas (não desesperem) serão "afectadas" por Marcelo.

Arco-íris
A padeira de Aljubarrota está classificada na categoria das ultra-violentas.

Éden
Qualquer loja das Finanças é eu paraíso fiscal...para o respectivo Ministério.

Tombos
Quando Salazar tirou o curso, esqueceu-se de tirar a Cadeira da cadeira.

Grafias
Numa escala de 0 a 20, Saramago não tem pontuação.

Géneros
A fêmea do salpicão é a salpicadela.

Anexins
Quem conta um conto, é porque tem cinco euros.

SdB (I)

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Notas dissonantes - Duas últimas

Há alturas em que gosto da ideia de nota dissonante, uma expressão que podia ser substituída pela ideia de incoerência sociológica, por exemplo. Eu explico: numa família de gente feia, há alguém que se destaca pela sua beleza. Há ali uma dissonância estranha, que podia ser ao contrário - a fealdade pontual no meio de uma beleza generalizada. O encanto manter-se-ia. Em Buenos Aires fui confrontado com este conceito mais do que uma vez, talvez porque estivesse mais atento, não sei porquê, talvez porque tenha conseguido explicar a ideia a um companheiro pontual de viagem de uma geração abaixo da minha. 

Na rua Caminito encontrei uma casal sentado à mesa numa esplanada. Ele era preto, ela era branca. Ambos estiveram o tempo todo de volta dos seus próprios telemóveis, nunca falando um com o outro. Passados 15 minutos, talvez, a artista que no restaurante cantava e dançava tango para os clientes veio buscá-lo para uma fotografia conjunta: a artista todo sensual e coleante e ele de chapéu de feltro debruçado sobre um olho, como se ambos fossem dançarinos locais. Mas ele era preto, e o tango é uma música de brancos, como há músicas de pretos, ou de chineses. Havia ali uma dissonância, como se víssemos um esquimó vestido de campino a dançar o fandango. 

Em San Telmo, no bairro onde fui roubado, o domingo é agitado de gente pelas ruas, pelas bancas, pelas esplanadas, pelos cafés ou pelos bancos de jardim. Não há sofisticação, elitismo, elegância fruto de casacos de peles bonitos ou de gente assumidamente milionária. E não obstante, no restaurante onde estávamos a beber umas tiradas e a comer amendoins com casca, um casal jovem bebia uma garrafa de Moet et Chandon, como se estivessem num hotel sofisticado de Paris.

Deixo-vos com Concha Buika em duas notas dissonantes: a cantar Jacques Brel e a cantar Carlos Gardel.

JdB




quinta-feira, 15 de junho de 2017

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

EVANGELHO – Jo 6, 51-58

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
disse Jesus à multidão:
«Eu sou o pão vivo descido do Céu.
Quem comer deste pão viverá eternamente.
E o pão que Eu hei de dar é a minha Carne
pela vida do mundo».
os judeus discutiam entre si:
«Como pode Ele dar-nos a sua Carne a comer?»
Jesus disse-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
Se não comerdes a Carne do Filho do homem
e não beberdes o seu Sangue,
não tereis a vida em vós.
Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue
tem a vida eterna;
e Eu o ressuscitarei no último dia.
A minha Carne é verdadeira comida
e o meu Sangue é verdadeira bebida.
Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue
permanece em Mim, e Eu nele.
Assim como o Pai, que vive, Me enviou, e Eu vivo pelo Pai,
também aquele que me come viverá por Mim.
Este é o pão que desceu do Céu;
não é como aquele que os vossos pais comeram, e morreram;
quem comer deste pão viverá eternamente».

***

Corpo de Deus: A carne humana, a vida de Jesus


A Igreja celebra esta quinta-feira a solenidade do Corpo de Deus, festa teológica e dogmática instituída no séc. XIII para afirmar a doutrina eucarística contra quantos a interpretavam de maneira não conforme à Igreja romana. O novo ordenamento litúrgico manteve essa festa, que se torna assim ocasião para compreender melhor o grande mistério da Eucaristia e para adorar o corpo e sangue do Senhor, esse corpo que Ele deu e esse sangue que derramou por toda a humanidade, amando-a até ao extremo.

O trecho do Evangelho segundo João proclamado na liturgia é extraído do capítulo 6, dedicado à narração da multiplicação dos pães, às palavras de Jesus que explicam esse acontecimento e depois respondem às perguntas e às contestações dos seus ouvintes. A perícope proclamada na missa (versículos 51 a 58) é breve mas muito densa, como emerge das cinco palavras que nela ocorrem várias vezes, como uma espécie de fio condutor: «comer», «beber/bebida», «carne», «sangue», «vida/viver».

Escutamos antes de tudo uma declaração de Jesus: «Eu sou o pão vivo, descido do Céu». Os ouvintes são remetidos por Jesus não para alguma coisa com carácter de extraordinário, de grandeza, de força, mas para a humilde realidade do pão que cada um come diariamente para se sustentar e que muitos têm de procurar, por vezes até mendigar na sua pobreza. O pão, esse alimento humilde e simples, mas que é o símbolo da vida, do alimento "necessário" para viver.

Jesus dirige-se precisamente a esta realidade necessária ao homem, mas simples e humilde, para revelar algo de si e para significar o dom de si mesmo a nós. Jesus diz que Ele mesmo é pão, um pão para a vida, um pão vivo que não vem dos homens, que os homens não podem dar a eles próprios, mas vem do Céu, de Deus. Um pão para a vida eterna, que é comunhão com Deus, vida para sempre com Deus, participação definitiva no seu amor.

No quarto Evangelho este pão, chamado nos sinóticos de «Corpo», é indicado como «carne», que no sentido bíblico não é a substância física do corpo humano, mas é a totalidade do ser vivo, a inteira pessoa humana. Toda a vida de Jesus está portanto no pão que Ele nos dá através da sua existência gasta no amor, oferecida através da morte na cruz e ressuscitada pelo Pai no poder do Espírito Santo. É por isso que Jesus diz: «Eu sou o pão vivo, descido do Céu. Se alguém comer deste pão viverá eternamente e o pão que Eu darei é a minha carne, dada para que o mundo viva».

São palavras que devemos contemplar, não explicar, porque não conseguimos compreendê-las em plenitude. Se nós queremos viver da vida verdadeira e plena, não só da nossa vida biológica que vai em direção à morte, devemos comer o pão que Jesus nos oferece, Ele próprio. Toda a sua vida, toda a sua ação, todas as suas palavras, do nascimento em Belém até à morte de cruz, tudo está enxertado na vida do Filho para sempre e para sempre no seio do Pai, e por isso é vida eterna que nos é oferecida, se estamos à procura, famintos dessa vida.

Atenção: esta vida não é só vida divina, em vista de uma divinização, mas é também e antes de tudo a vida humana de Jesus, a vida por Ele vivida na carne frágil e mortal que tinha assumido ao nascer da Virgem Maria. Essa vida humana vivida neste mundo por amor de nós, humanos, vida de um homem que a gastou, consumou até à morte de cruz, é para nós alimento de vida para sempre.

Pois bem, creio que esta festa nos consente, melhor, nos pede que aprofundemos tal realidade decisiva para nós, crentes cristãos. Nós vamos para Deus através de Jesus, «a imagem do Deus invisível»: narrando Deus com a sua vida, Jesus julgou todas as imagens e os rostos de Deus que os seres humanos fabricam com as próprias mãos, julgou todas as projeções humanas que muitas vezes atribuem a Deus o rosto de um Deus "perverso". Doravante o que de Deus pode ser conhecido e pregado é o que foi vivido e pregado por Jesus. Ora, se é verdade que para a fé dos cristãos é decisivo aderir a Jesus, é preciso no entanto entender bem as palavras: quando se diz "Jesus", estamos a referir-nos a um verdadeiro homem, débil, frágil e mortal como nós; um homem de carne, a sua carne que Ele nos dá. Um homem que nasceu, viveu e morreu como cada filho de Adão: "humanissimus", como gostavam de o definir os padres monásticos medievais.

Se portanto há um Deus, para nós, cristãos, é o Deus que deve ser conhecido, lido e "visto" na existência humana de Jesus de Nazaré. Por este motivo o cristianismo exige que Jesus seja conhecido através da sua vida narrada e testemunhada nos Evangelhos por parte de quem esteve envolvido na sua vida, os discípulos, tornados «servos da Palavra»; só através deste conhecimento poderemos também crer nele até o amar, até o confessar «Messias», «Senhor», «Filho de Deus», «Salvador», e assim chegar à fé em Deus, ao conhecimento do Deus vivo e verdadeiro.

Se, ao contrário, não se conhece a humanidade de Jesus, acaba-se - repito-o - por acreditar nele como numa realidade por nós imaginada e construída. É absolutamente necessário olhar para a sua existência humana quotidiana, encontrar nela a própria vida de Deus, ler nela a expressão cumprida de Deus, e, consequentemente, colher também os elementos "extraordinários" da sua vida, como signos, sinais capazes de orientar a nossa fé.

É por isso a sua forma de vida - a sua carne e o seu sangue, para o dizer com a página evangélica deste dia - que é Evangelho, boa notícia para sempre e para todos, enquanto que se se aclama Jesus como Deus sem o confessar «vindo na carne», acaba-se por o desnaturar. Aqui está a singularidade do cristianismo: Deus revelou-se em Jesus, fez-se conhecer na sua humanidade; Deus fez-se homem e a incarnação é a humanização de Deus. Sim, Jesus viveu a sua existência terrena como homem pobre e frágil, exatamente como os homens e as mulheres com quem entrava em relação; o Filho entrou na história como homem, plenamente homem: um homem capaz de fazer da sua vida uma obra-prima de amor. E é este amor, nada mais do que este amor recíproco, vivido e praticado a partir do seu exemplo, que Ele nos deixou como «mandamento novo», último e definitivo, como prática que nos permite sermos reconhecidos como seus discípulos e discípulas. (...)

Também nós, como os ouvintes judeus, estamos pelo menos perturbados pelas palavras de Jesus "remeditadas" e reditas pelo quarto Evangelho: como é possível que um homem nos dê a sua carne como alimento? É uma loucura! E todavia Jesus não tem medo de escandalizar com uma afirmação tão forte; aliás, ao comentá-la, torna-a ainda mais escandalosa: «Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis em vós a vida». Linguagem dura - como dirão desde logo muitos dos seus discípulos - mas com a qual Jesus procura revelar-nos que comer o pão eucarístico e beber o cálice da bênção é receber a realidade misteriosa (isto é, no mistério, no sacramento) de Cristo, humanidade transfigurada na ressurreição e vida divina do Filho no seio do Pai. Assim, na Eucaristia a vida de Cristo torna-se nossa vida e nós tornamo-nos corpo de Cristo, seus membros vivos, pelo mesmo sopro que é o Espírito Santo. Este é o "pão" que não se corrompe e nos faz viver para a vida eterna.

Não devemos, contudo, esquecê-lo: tudo isto vivemo-lo sacramentalmente, tendo diante de nós pão partido e vinho para beber. Mas o nosso olho, se é habilitado pelo Espírito Santo, discerne nesse pão e nesse vinho o corpo e sangue de Cristo. Deles nos alimentamos e eles, entrados em nós, no metabolismo eucarístico - contrário ao biológico - fazem-nos tornar corpo do Senhor. Este é o grande mistério que nós adoramos antes de tudo: «A palavra fez-se carne» em Jesus; a carne de Jesus fez-se pão, nosso alimento; o pão nosso alimento, que é Jesus com toda a sua vida, morte e ressurreição, dá-nos a vida eterna.


Enzo Bianchi
In "Monastero di Bose"
Trad. / edição: SNPC:
Publicado em 12.06.2017

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Textos dos dias que correm

Coisas inúteis

D. R. 
«Ninguém se torna um grande homem se não tem a coragem de ignorar uma infinidade de coisas inúteis.» É de Carlo Dossi (1849-1910), autor esquecido, ainda que dotado de uma originalidade vivaz, que extraio a frase acima reproduzida.

São palavras úteis não tanto para exaltar os «grandes homens» (a expressão pode por vezes adquirir uma gradação irónica, porque talvez precisemos mais de homens normais), mas para apontar o dedo às «coisas inúteis».

É conhecida a história segundo a qual o filósofo grego Sócrates (séc. V a.C.) andava entre as bancas do mercado de Atenas para descobrir alegremente quantas coisas poderia dispensar.

Hoje, infelizmente, a publicidade marteladora, pronta a não deixar respirar na tentativa de nos enfiar um produto na boca, envolveu-nos numa rede inextricável de «coisas inúteis», de necessidade não necessária, de exigência infundada.

Torna-se, assim, difícil resistir à sedução da "inutilidade", do consumo, do desperdício, enquanto, paralelamente, se torna fácil ignorar a realidade profunda, íntima e bem mais necessária.

Há, por isso, de um lado uma paradoxal riqueza de coisas, e de outro uma igual desconcertante pobreza de espírito, de humanidade, de consciência, de inteligência.

Deste síndrome todos são algo afetados e - aqui tem razão Dossi com os seus «grandes homens - agora as pessoas mais aclamadas e celebradas são aquelas que mais possuem, ostentam, detêm, acumulando tesouros, bens e riquezas totalmente «inúteis» para a sua própria existência.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In "Avvenire"
Trad. / edição: SNPC
Publicado (texto e fotografia) em 10.06.2017

terça-feira, 13 de junho de 2017

Dia de Santo António



Passeio de Santo António

Saíra Santo António do convento,
A dar o seu passeio costumado
E a decorar, num tom rezado e lento,
Um cândido sermão sobre o pecado.

Andando, andando sempre, repetia
O divino sermão piedoso e brando,
E nem notou que a tarde esmorecia,
Que vinha a noite plácida baixando…

E andando, andando, viu-se num outeiro,
Com árvores e casas espalhadas,
Que ficava distante do mosteiro
Uma légua das fartas, das puxadas.

Surpreendido por se ver tão longe,
E fraco por haver andado tanto,
Sentou-se a descansar o bom do monge,
Com a resignação de quem é santo…

O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade,
O Menino Jesus baixou do céu,
Pôs-se a brincar com o capuz do frade.

Perto, uma bica de água murmurante
Juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Os rouxinóis ouviam-se distante.
O luar, mais alto, iluminava mais.
.
De braço dado, para a fonte, vinha
Um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha,
Ele trazia… o coração no peito.

Sem suspeitarem de que alguém os visse,
Trocaram beijos ao luar tranquilo.
O Menino, porém, ouviu e disse:
- Ó Frei António, o que foi aquilo?…

O Santo, erguendo a manga de burel
Para tapar o noivo e a namorada,
Mentiu numa voz doce como o mel:
- Não sei o que fosse. Eu cá não ouvi nada…

Uma risada límpida, sonora,
Vibrou em notas de oiro no caminho.
- Ouviste, Frei António? Ouviste agora?
- Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho.
.
- Tu não estás com a cabeça boa…
Um passarinho a cantar assim!…
E o pobre Santo António de Lisboa
Calou-se embaraçado, mas por fim,

Corado como as vestes dos cardeais,
Achou esta saída redentora:
- Se o Menino Jesus pergunta mais,
… Queixo-me à sua mãe, Nossa Senhora!

Voltando-lhe a carinha contra a luz
E contra aquele amor sem casamento,
Pegou-lhe ao colo e acrescentou: - Jesus,
São horas… e abalaram pró convento.

Augusto Gil

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Dos diálogos conjugais

Sabe, Jorge, o erro não é uma palavra com quatro letras apenas, como você o concebe. E não é, tão pouco, uma palavra  de utilização única, como se fosse um artigo descartável

Jorge olhou para a mulher e suspirou, porque o desalento e o amor podem surgir no mesmo fôlego, na mesma expiração de ar, na mesma manifestação física de um peito que sobre e desce ao ritmo do pulsar de um coração. Por isso o suspiro, feito papel de fantasia que embrulha amor e desalento.

Você acha que o erro é como o Everest para certas pessoas: sobe-se uma vez, está subido. Ou a ressaca para outras: tem-se uma vez, e não há vontade de repetir. Ou mesmo a pena capital: não há possibilidade de repetição. Mas o erro é uma constante, porque a melhoria é constante. Tem de haver aquele para que haja esta. 

Jorge fixou-lhe o semblante. Reconheceu que Carmo, a mulher, nunca fora bonita, mas era sensual, com uma sensualidade filha de gestos elegantes, de uma ligeira assimetria do nariz face à boca, de umas pernas discretas, de um cabelo forte, de um sorriso franco que lhe denunciava um fulgor que ele bem conhecia. Carmo não era bonita - era melhor. A beleza das mulheres estava sobrevalorizada, achava ele. Era um conceito datado, contemporâneo com a ideia de que os homens não sabiam tomar conta dos filhos, pelo que a paternidade se resumia à procriação e ao sustento. As mulheres queriam-se mães e queriam-se bonitas. A inteligência, a cultura, a rapidez de raciocínio, a ligação que se estabelece entre os vários saberes do mundo não eram, na altura, atributos femininos. Por isso, pensava Jorge, numa certa radicalidade de raciocínio a vaidade exclusivamente física era uma menorização da mulher. 

O Becket é que tinha razão, quando defendia a ideia de se tentar de novo, de falhar de novo, de falhar melhor. Você é um arrogante, talvez mesmo uma espécie de ingénuo, que é uma forma de arrogância da raça humana. Os erros não se evitam, repetem-se. A única coisa que podemos fazer é minorar-lhes o impacto.

Jorge olhou para trás, para a vida. Reviveu o desastre que a mulher tinha tido dois meses após terem casado, a ideia expressa pelo médico de que a sua sobrevivência tinha sido um verdadeiro milagre, a convicção da sogra, numa fé transbordante de exagero, de que tinha havido um milagre, os terços e as peregrinações e as novenas para agradecer o milagre. Milagre não era nada daquilo. Cada vez mais se convencia de que Deus, de certa forma, desconhecia o corpo das suas criaturas, só lhes conhecia a alma, porque a presença divina se revelava apenas ao nível do imaterial, não na cura dos ossos partidos ou na cicatrização das feridas pustulentas. 

Errar faz bem Jorge; reconhecer o erro faz ainda melhor; perdoar o erro é a cereja no topo do bolo. Gosto pouco dessa sua radicalidade pouco cristã.

Jorge viu-lhe a curva do nariz, a camisa ligeiramente decotada, as calças justas, uma madeixa de cabelo displicente. Imaginou-a sem o avental de cozinha com que estava agora; imaginou-a a despir-se lentamente, provocantemente, com uma sensualidade que eliminava o desejo de beleza. Olhou-lhe para as mãos, para os olhos amendoados com que fitava o coelho que, morto, cortado aos bocados e sujeito a uma marinada de três dias, aguardava o lume. E Jorge revelou-se prudentemente pessimista - Carmo não sabia cozinhar, nunca cozinhara um coelho. E o animal tinha sido morto por ele, com um tiro certeiro e indolor. Temeu o pior - temeu o fracasso culinário no qual o erro repetido, tão apregoado por Carmo, não tinha espaço. 

No fim da refeição olhou para ela e desejou-a; antes de a beijar teve tempo para lhe dizer: cale-se de uma vez por todas. Em culinária os erros não são admissíveis, porque são incorrigíveis - tudo o que se faça para emendar não é mais do que um retalho psotiço num tecido de luxo. E dê-me um beijo, porque me enganei na ideia dos milagres. O coelho está fantástico, e você  é péssima cozinheira.

JdB


domingo, 11 de junho de 2017

Solenidade da Santíssima Trindade

EVANGELHO – Jo 3,16-18

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
disse Jesus a Nicodemos:
«Deus amou tanto o mundo
que entregou o seu Filho Unigénito,
para que todo o homem que acredita n’Ele
não pereça, mas tenha a vida eterna.
Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo
para condenar o mundo,
mas para que o mundo seja salvo por Ele.
Quem acredita n’Ele não é condenado,
mas quem não acredita n’Ele já está condenado,
porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus».

***

Os termos que Jesus escolhe para falar da Trindade (João 3, 16-18) são nomes de família, de afeto: Pai e Filho, nomes que abraçam, que se abraçam. Espírito é nome que diz respiração: cada vida volta a respirar quando se sabe acolhida, tomada de cuidado, abraçada.

No princípio de tudo é colocada uma relação, um laço. E se nós somos feitos à sua imagem e semelhança, então a narrativa de Deus é ao mesmo tempo narrativa do ser humano, e o dogma não permanece uma doutrina fria, mas traz-me toda uma sabedoria do viver.

Coração de Deus e do ser humano é a relação: é por isso que a solidão me pesa e atemoriza, porque é contra a minha natureza. É por isso que quando amo ou encontro amizade fico bem, porque sou de novo à imagem da Trindade.

Na Trindade é colocado o espelho do nosso coração profundo e do sentido último do universo. No princípio e no fim, origem e cume do humano e do divino, está o laço de comunhão.

Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho... Nestas palavras João encerra o porquê último da incarnação, da cruz, da salvação: assegura-nos que Deus na eternidade não faz outra coisa senão considerar cada homem e cada mulher mais importante que Ele próprio. Deus amou tanto... E nós, criados à sua imagem, «precisamos de muito amor para viver bem» (Jacques Maritain).

Que nos deu o seu Filho: no Evangelho o verbo amar traduz-se sempre com um outro verbo concreto, prático, forte, o verbo dar (não há maior amor do que dar a própria vida). Amar não é um facto sentimental, não equivale e emocionar-se ou a enternecer-se, mas a dar, um verbo de mãos e de gestos.

Deus não enviou o Filho para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo. Salvo do único grande pecado: o desamor. Jesus é o curador do desamor (V. Fasser). O que explica toda a história de Jesus, o que justifica a cruz e a Páscoa não é o pecado do homem, mas o amor pelo homem; não algo a tirar à nossa vida, mas algo a acrescentar: porque quem quer que acredite tenha mais vida.

Deus amou tanto o mundo... E não apenas os seres humanos, mas o mundo inteiro, terra e colheitas, plantas e animais. E se Ele o amou, também eu quero amá-lo, cuidá-lo e cultivá-lo, com toda a sua riqueza e beleza, e trabalhar para que a vida floresça em todas as suas formas, e narre Deus como fragmento da sua Palavra. O mundo é o grande jardim de Deus e nós somos os seus pequenos "jardineiros planetários".

Diante da Trindade sinto-me pequeno mas abraçado, como um bebé: abraçado dentro de um vento em que navega toda a criação e que tem por nome amor.


Ermes Ronchi 
In "Avvenire" 
Trad.: SNPC 

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