terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Poetas citados num almoço de Domingo

Canção porque (não) Morres

Este é o último livro, prometia
como alguém que tivesse esquecido
que assim sempre tinha sido - aquele
era o último e depois que alguém viesse
fechar a porta contra o som do mar.
- Pagava por jogar no escuro
e por aqueles ardis já gastos
com que pensava e não pensava
enganar a morte branca e vermelha.
- Ah e não esqueças: - deitar fora a chave

Canção como não morres
se é a morte que em ti sobe até à fonte
do sangue, até à flor do sal queimando
os dedos; até à boca que por te cantar
se acende negra; até à copa
das árvores que distribuem o sol
sobre o corpo morto do amor
amante e desamado?

Ou antes: de que morres, por que morres
tu, canção já sem voz, já
sem o canto,
            - já sem outro assunto
de momento, me despeço de todos vós-
quem falou agora? - Que importa quem falou?
- Que importa? Nada e nonada. E, sim, tudo
é tudo o que importa, para quem veio
mandado a que chamasses quem
tivesse chamado.

Canção, o teu sopro é quente
e têm sede os teus ventos, esses animais
do ar que por mil tubos sopram no corpo-músico
a verdade que calcinou os amantes que já o veneno
beijara até à flor do sangue.
depois, as palavras em que te perderas serão
cinzas sobre o mar e espuma suja
entre as rochas. Que atraso ou afecto
te prende ainda a esta margem
Por quem esperas tu
canção ainda
agora
que já por todo o céu
a terra nos esqueceu

Morresses, agora, canção
enquanto corres ainda pelo sangue
de quem escuta - e
morrerias no fulgor último
que ao fundo, no horizonte
da linguagem,
da própria linguagem
se afasta já, e abandonando vai
os seus bairros periféricos, despedindo-se
da tristeza dos migrantes derradeiros;
queimando página a
página
os últimos barcos.

Manuel Gusmão, in 'Migrações do Fogo'

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Textos dos dias que correm

Evangelizar os robots: Novo desafio para a Igreja
Os pobres num mundo dominado pelos megadados (“big data”)

Na era da inteligência artificial (IA), a experiência humana está a mudar profundamente, muito mais do que a esmagadora maioria da população mundial consegue ver e compreender. A verdadeira explosão da IA tem um forte impacto sobre os nossos direitos no presente e sobre as nossas oportunidades futuras, determinando processos de decisão que, numa sociedade moderna, dizem respeito a todos. A IA representa um desafio e uma oportunidade também para a Igreja: é uma questão de justiça social. Com efeito, a investigação urgente, ávida e não transparente dos megadados, isto é, dos dados necessários para alimentar os motores de aprendizagem automática pode conduzir à manipulação e à exploração dos pobres. Além disso, os mesmos propósitos para os quais são treinados os sistemas de IA podem conduzi-los a interagir de formas imprevisíveis para garantir que os pobres sejam controlados, vigiados e manipulados.

Atualmente, os criadores de sistemas de IA são cada vez mais os árbitros da verdade para os consumidores. No contexto dos progressos do século XXI, a experiência e a formação da Igreja deveriam ser um dom essencial oferecido aos povos para os ajudar a formular um critério que os torne capazes de controlar a IA, mais do que ser por ela controlados. A Igreja é chamada também à reflexão e ao empenhamento. Nas arenas políticas e económicas em que a IA é promovida devem encontrar espaço as considerações espirituais e éticas. A Igreja deve empenhar-se em informar e inspirar os corações de muitos milhares de pessoas envolvidas na criação e elaboração dos sistemas de IA. Em última análise, são as decisões éticas a determinar e enquadrar que problemas enfrentará um sistema de IA, como vai ser programado, e como devem ser recolhidos os dados para alimentar a aprendizagem automática. Podemos ler o desafio daquela que poderemos definir como a “evangelização da IA” como uma combinação entre as recomendações do papa Francisco para olhar o mundo a partir da periferia, e a experiência dos jesuítas do século XV, cujo método pragmático de influenciar quem é influente poder-se-ia hoje reformular como partilhar o discernimento com os cientistas dos dados.

Benefícios

Silenciosamente, mas rapidamente, a IA está a remodelar por inteiro a economia e a sociedade: o modo como votamos e aquele como é exercido o governo, o algoritmo da “polícia preditiva”, a maneira como os juízes emitem as sentenças, o modo como acedemos aos serviços financeiros e a nossa pontuação de crédito, os produtos e serviços que adquirimos, as habitações, os meios de comunicação que utilizamos, as notícias que lemos, a tradução automática de voz e texto. A IA projeta os nossos automóveis, ajuda a guiá-los e a orientá-los no território, estabelece como obter um empréstimo para os comprar, decide que estradas devem ser reparadas, apura se violámos o código da estrada e faz-nos também saber se, tendo-o feito, teremos de acabar na prisão. Estes são apenas alguns das numerosas contribuições da IA que já estão a acontecer.

Os investigadores Mark Purdy e Paul Daugherty escrevem: «Prevemos que o impacto das tecnologias de inteligência artificial sobre as empresas induzirá um aumento da produtividade do trabalho até 40%, permitindo às pessoas fazer um uso mais eficiente do seu tempo». O Banco Mundial está a explorar os benefícios que a IA pode prestar ao desenvolvimento. Outros observadores identificam na agricultura, no aprovisionamento dos recursos e na assistência de saúde os setores das economias em vias de desenvolvimento que extrairão grande benefício da aplicação da IA. A inteligência artificial também contribuirá notavelmente para reduzir o inquinamento e o desperdício de recursos.

A inteligência artificial para a justiça social

A IA pode sem dúvida conferir benefícios à sociedade, mas por outro lado coloca também questões importantes de justiça social. Neste campo, a Igreja tem a oportunidade e a obrigação de empenhar o seu ensinamento, a sua voz e o seu prestígio em relação a algumas questões que se perfilam como fundamentais para o futuro. Entre estas deve indubitavelmente ser compreendido o enorme impacto social das repercussões que a evolução tecnológica terá sobre o emprego de milhares de milhões de pessoas durante as próximas décadas, criando problemáticas conflituais e uma posterior marginalização dos mais pobres e vulneráveis.

Impacto sobre o emprego

Muito já foi feito para medir o impacto da IA e da robótica sobre o emprego, sobretudo após o importante artigo de 2013 em que Osborne e Frey estimavam que 47% dos postos de trabalho nos EUA arriscavam a ser automatizados nos 20 anos seguintes. Os estudos e o debate científico especificaram a natureza e os contornos do fenómeno: a cessação total ou parcial de atividades laborais existentes, a sua repercussão em todos os setores e nas economias desenvolvidas, emergentes e em vias de desenvolvimento. É verdade que fazer previsões exatas sobre este tema é difícil; mas um recente relatório do McKinsey Global Institute reporta uma análise a meio termo. 60% das ocupações possuem pelo menos 30% de atividades laborais passíveis de automatização. Por outro lado, esta abrirá as portas a novas ocupações que hoje não existem, tal como aconteceu, em consequência das novas tecnologias, também no passado. As previsões indicam que a partir de 2030 um número compreendido entre 75 e 375 milhões de trabalhadores (ou seja, entre 3% e 14% da força de trabalho global) terá de mudar as suas categorias ocupacionais.

Códigos e preconceitos

O código de programação é escrito por seres humanos. A sua complexidade pode por isso acentuar os defeitos que inevitavelmente qualquer tarefa que se execute. Os preconceitos e a parcialidade na redação dos algoritmos são inevitáveis. E podem ter efeitos muito negativos sobre os direitos individuais, sobre as opções, sobre a colocação dos trabalhadores e sobre a proteção dos consumidores. Com efeito, os investigadores relevaram preconceitos de vário género presentes nos algoritmos, em programas (“software”) adotados para as admissões na universidade, recursos humanos, classificação (“rating”) de crédito, banca, sistemas de apoio à infância, dispositivos de segurança social e outros. Os algoritmos não são neutros. A crescente dependência que as dimensões sociais e económicas têm da IA confere um enorme poder àqueles que programam os algoritmos.

Risco de marginalização dos vulneráveis

Uma análise do impacto dos megadados e da IA a nível social demonstra que a sua tendência a tomar decisões na base de perfis insuficientes e validações limitadas comporta a posterior marginalização dos pobres, dos indigentes e das pessoas vulneráveis.

Envolvimento das sociedades e dos governos

Nos últimos anos assistimos a um crescente aumento de pedidos de intervenção para garantir um controlo e a presença dos valores humanos no desenvolvimento da IA. Um progresso significativo foi realizado em maio de 2019, quando os 35 países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCSE) assinaram um documento que estabelece os “Princípios da OCSE sobre a Inteligência Artificial”. Estes integram as Linhas Orientadoras Éticas para uma IA confiável”, adotadas em abril do mesmo ano  pelo grupo de peritos de IA instituído pela Comissão Europeia. O objetivo do documento da OCSE é promover uma IA inovadora e confiável, respeitosa dos direitos humanos e dos valores democráticos. Para este objetivo, identifica cinco princípios complementares entre eles, e cinco recomendações relativas às políticas nacionais e à cooperação internacional. Os princípios são: favorecer o crescimento inclusivo, o desenvolvimento sustentável e o bem-estar; respeitar os direitos humanos, o Estado de direito, os princípios democráticos; assegurar sistemas transparentes e compreensíveis; garantir segurança, proteção e avaliação dos riscos; afirmar a responsabilidade de quem os desenvolve, distribui e administra. As recomendações são: investir na investigação e no desenvolvimento da IA; promover ecossistemas digitais de IA; criar um ambiente político favorável à IA; fornecer às pessoas as devidas competência com vista à transformação do mercado de trabalho; desenvolver a cooperação internacional para uma IA responsável e confiável.

Em junho de 2019, o G20 retomou os princípios OCSE ao adotar os Princípios do G20 sobre a IA, não vinculativos. O desafio para os próximos anos é dúplice: a posterior difusão destes ou de análogos princípios em toda a comunidade internacional, e o desenvolvimento de iniciativas concretas para colocar em prática tais princípios no interior do G20, e através do Observatório das políticas em matéria de IA da OSCE, criado recentemente. Para a Igreja abre-se agora a oportunidade de refletir sobre estes objetivos políticos e intervir em sedes locais, nacionais e internacionais para promover uma perspetiva coerente com a sua doutrina social.

“Evangelizar a IA”?

Por muito importantes que sejam as sugestões acima mencionadas a nível político e de empenhamento social, permanece o facto de a IA ser substancialmente composta por sistemas singulares individuais de projeto, programação, recolha e elaboração dos dados. Tudo processos fortemente condicionados por indivíduos. Serão as suas mentalidades e decisões a determinar em que medida, no futuro, a IA adotará critérios éticos adequados e centrados no ser humano. Atualmente essas pessoas constituem uma elite técnica de programadores e peritos de dados, provavelmente composta por um número que se aproxima mais das centenas de milhar do que de milhões. Aos cristãos e à Igreja abre-se uma possibilidade para a cultura do encontro, por meio da qual viver e oferecer uma autêntica realização pessoal a esta comunidade específica. Levar aos peritos de dados e aos engenheiros de programas os valores do Evangelho e da profunda experiência da Igreja na ética e na justiça social é uma bênção para todos, e é também a maneira mais plausível para mudar para melhor a cultura e a prática da inteligência artificial. A evolução da IA contribuirá em grande medida para plasmar o século XXI. A Igreja é chamada a escutar, a refletir e a empenhar-se, propondo um enquadramento ético e espiritual à comunidade da IA, e deste modo a servir a comunidade universal. Seguindo a tradição da “Rerum novarum”, pode dizer-se que aqui há um chamamento à justiça social. Há a exigência de um discernimento. A voz da Igreja é necessária nos debates políticos em curso, destinados a definir e executar os princípios éticos para a IA.


Antonio Spadaro, Paul Twomey
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 17.01.2020

domingo, 19 de janeiro de 2020

II Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Jo 1,29-34

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
João Baptista viu Jesus, que vinha ao seu encontro,
e exclamou:
«Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.
Era d'Ele que eu dizia:
"Depois de mim virá um homem,
que passou à minha frente, porque existia antes de mim".
Eu não O conhecia,
mas para Ele Se manifestar a Israel
é que eu vim baptizar em água».
João deu mais este testemunho:
«Eu vi o Espírito Santo
descer do Céu como uma pomba e repousar sobre Ele.
Eu não O conhecia,
mas quem me enviou a baptizar em água é que me disse:
"Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e repousar
é que baptiza no Espírito Santo".
Ora eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus».

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Duas Últimas (enviado por mão amiga)



Eu seguro

Quando o tempo for remendo, Cada passo um poço fundo E esta cama em que dormimos For muralha em que acordamos, Eu seguro E o meu braço estende a mão que embala o muro.

Quando o espanto for de medo, O esperado for do mundo E não for domado o espinho Da carne que partilhamos, Eu seguro. O sustento é forte quando o intento é puro.

Quando o tempo eu for remindo, Cada poço eu for tapando E esta pedra em que dormimos Já for rocha em que assentamos, Eu seguro. Deixo às pedras esse coração tão duro.

Quando o medo for saindo E do mundo eu for sarando Dessa herança eu faço o manto Em que ambos cicatrizamos E seguro. Não receio o velho agravo que suturo.

Abraços rotos, lassos, Por onde escapam nossos votos. Abraso os ramos secos, Afago, a fogo, os embaraços E seguro, Alastro essa chama a cada canto escuro.

Quando o tempo for recobro, Cada passo abraço forte E o voto que concordámos É o amor em que acordamos, Eu seguro: Finco os dedos e este fruto está maduro.

Quando o espanto for em dobro, o esperado mais que a morte, Quando o espinho já sarámos No corpo que partilhamos, Eu seguro. O que então nascer não será prematuro.

Uníssonos no sono, O mesmo turno e o mesmo dono, Um leito e nenhum trono. Mesmo que brote o desabono Eu seguro, Que o presente é uma semente do futuro.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Da Igreja Católica

O filme Dois Papas, de que já se falou neste estabelecimento, provoca opiniões diferentes, embora haja aspectos importantes - vistos como negativos - que suscitam uma relativa unanimidade. Mais do que falar do filme - já o fiz, numa análise pouco profunda e que foi criticada - interessava-me divagar sobre o que falam as pessoas (ou algumas pessoas) quando criticam a obra cinematográfica; o que, para essas pessoas, está por trás (ou constitui o perigo) de uma ficção sobre papas vivos, ou que imagem da Igreja se quer passar (ou se passa) quando se confrontam dois papas daquela maneira. O assunto estava relativamente arrumado dentro da minha cabeça; no entanto, aconteceu este episódio do livro escrito pelo Cardeal Robert Sarah sobre o celibato dos padres e relativamente ao qual se anunciou uma certa parceria - deliberada ou manipulada - de Bento XVI. Daí este texto.

***

Há uns meses almoçava com um amigo que é muito católico, muito conservador, muito culto e muito inteligente. A propósito de um certa dúvida disse-lhe

hoje vou jantar com um jesuíta e pergunto-lhe.

Ele respondeu numa tirada com graça

não se esqueça de perguntar depois a um padre... 

Poderia contar a visão muito oposta que amigos meus - católicos - têm relativamente a Amoris Laetitia naquilo que se cruza com a comunhão dos recasados; ou a visão muito oposta que amigos meus - católicos - têm sobre algumas ideias do Papa Francisco, desde a possibilidade de ordenação de gente madura na Amazónia até à eliminação de alguns sinais de grandeza da Igreja ou do papa. Ou, no fundo, a ideia que amigos meus - católicos - têm sobre Francisco e Bento XVI. A Igreja Católica, ao seu nível mais básico - que é o comum dos fiéis - está pejada de opiniões diferentes, por vezes muito críticas. Estou certo que a mesma Igreja, ao seu nível mais elevado, é igual - e portanto mais grave, pela sua maior visibilidade e amplitude.

Talvez haja uma certa ideia de banalização da Igreja, da sua redução a uma frivolidade sem importância, própria de um mundo desejoso de relativismo, de ódio a valores absolutos e não negociáveis. Talvez haja uma certa ideia de que toda a gente pode zurzir - e zurze - na Igreja Católica, e que toda a gente pode desdenhar a Igreja Católica, ao contrário de outras igrejas (ou religiões) onde ninguém se atreve a tocar. Haverá ainda a ideia de um ataque orquestrado à Igreja Católica, visível, sobretudo, no que surge nos orgãos de comunicação social, onde só se publica o podre, o negativo, o errado, o ligeiro, mas também noutras áreas, como no caso do filme em apreço.

Sempre tive dúvidas de que houvesse uma agenda de ataque à Igreja: teria de perceber de quem vem, quem a define, quem a controla ou gere, em que moldes se articula. Estou certo que a Igreja suscita irritações em vários graus; porém, a publicação do podre, do negativo, do errado ou do ligeiro é uma característica dos tempos modernos (aplicável a desmandos financeiros em IPSS, a pequenas corrupções de árbitros de província ou a infidelidades do jet set) e não o resultado de um ataque concertado. Publica-se o que vende - e basta, para isso, olhar a capa dos jornais ou das revistas. Numa visão muito radical, talvez não haja muita diferença entre uma primeira página que noticia o padre que roubou peças de arte sacra ou uma primeira página onde se refere (a toda a largura) um menino de dez anos que vê a mãe morrer num acidente.   

Isto não me impede da certeza de que a Igreja Católica tem inimigos; estou convicto, contudo, que os maiores inimigos da Igreja Católica estão dentro da Igreja Católica: é o triste e evitável caso do livro a duas mãos ou a quatro mãos; é o triste caso dos dinheiros do Vaticano, da corrupção, da fuga de informações, ou o vergonhoso e escandaloso caso da pedofilia; é esta certeza que todos temos de que há uma luta interna grande ao nível do topo da Igreja, com estratégias organizadas. É, numa dimensão diferente, a falta de empenho dos católicos na vida da sua paróquia ou da sua diocese, o excesso de criticismo, a incongruência entre o que defendemos e praticamos. É para estes inimigos, sobretudo mas não exclusivamente, que temos de apontar baterias.

Para mim, proteger a igreja é lutar ou rezar pela sua pureza interna; é identificar o adversário certo - não os fernandos meirelles tendenciosos ou os jornalistas à procura do escândalo, mas os inimigos internos. Proteger a igreja é militar, é estar presente, é defendê-la publicamente ou criticá-la recatadamente, é publicitar o bem que faz, colectiva ou individualmente, defender publicamente todos os papas. Proteger a igreja é discernir a diferença saudável, mas levar ao limite a ideia de obediência (o livro do Cardeal Sarah é paradigmático desta ausência de obediência filial). Proteger a igreja é identificar o que mina a sua credibilidade, o que afasta os fiéis das cerimónias, como se combate o excesso de laicismo, como se dá peso aos sacramentos.  

Os tempos não são fáceis; são tempos de muita visibilidade, de permanente escrutínio, de imediatismo e leveza excessiva. É preciso que cada um de nós, católicos, perceba como quer / pode defender a Igreja onde se revê. Talvez ajude se a Igreja (onde estou e quero estar) não cometer tantos erros. Já não vivemos, para o melhor e para o pior, o tempo da sede gestatória, do camauro orlado de arminho ou de outros sinais que evidenciavam a magnificência do cargo. Vivemos, também para o melhor e para o pior, um tempo de grande proximidade temporal: o que se faz agora sabe-se agora - ou inventa-se agora. Convém que estejamos mais atentos.      

JdB

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Vai um gin do Peter’s ?

RAFAEL E FIGURA FEMININA NO EPICENTRO DA MENSAGEM DO PAPA AO C.D.

No discurso de início de ano proferido ao Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé, o Papa apoiou-se num dos maiores génios da arte Ocidental para sustentar a mensagem de inauguração do Novo Ano. Convocou nada menos do que um dos Magníficos do triângulo de ouro do Renascimento italiano, a par de Leonardo e de Michelangelo.


No ano dos 500 anos da morte de Rafael (a 6 de Abril de 1520), o Papa invocou o exemplo do autor dos frescos que engrandecem várias salas dos Museus Vaticanos, lembrando o facto de a musa preferida do pintor ter sido uma mulher, a Mãe da Natividade. A presença de Maria prevalece nas telas de Raffaello Sanzio, quase todas célebres. Nos seus óleos ressalta a maternidade única e sagrada, sempre gentil e subtilmente debruçada sobre o Pequenino, que cuida com uma ternura tocante, sem excessos protecionistas nem aprisionantes, como se fosse fácil aquele velar atento e suave, em simultâneo, quase imperceptível... 

Madonna no prado – Museu de História de Arte, em Viena

Madonna Cowper (pequena), na National Gallery of Art em Washington

Madonna com o Livro (Conestabile Madonna),  Hermitage - S.Petersburgo.

Madonna do Grão-Duque, no Palácio Pitti - Florença.

Sagrada Família com palmeira, Museu de Edimburgo

Francisco quis deter-se na tela dedicada à Assunção de Nossa Senhora, cujo dogma foi proclamado há 70 anos, para dirigir aos 180 diplomatas «um pensamento particular [sobre] todas as mulheres», 25 anos após a 4.ª conferência mundial da ONU sobre a mulher, realizada em Pequim, em 1995, «fazendo votos para que em todo o mundo seja cada vez mais reconhecido o papel precioso das mulheres na sociedade, e cesse toda a forma de injustiça, desigualdade e violência em relação a elas». Depois, advertiu contra a violência de que são alvo, em todas as latitudes, infelizmente, ferindo a humanidade no seu âmago: «Toda a violência infligida à mulher é uma profanação de Deus. Exercer violência contra uma mulher, ou explorá-la, não é um simples ato, é um crime que destrói a harmonia, a poesia e a beleza que Deus quis dar ao mundo».

Virgem da Assunção.

Partindo da dupla virtuosa do exímio pintor renascentista e da sua musa de eleição, o Papa expôs aos 180 diplomatas a missão da Diplomacia e o alcance que pode ter: «A Assunção de Maria convida-nos também a olhar mais longe, para o cumprimento do nosso caminho terreno, para o dia em que a justiça e a paz serão plenamente restabelecidas. Sentimo-nos assim encorajados, através da diplomacia, que é a nossa tentativa humana, imperfeita, mas sempre preciosa, a trabalhar com zelo para antecipar os frutos deste desejo de paz, sabendo que a meta é possível». Explicou melhor as afinidades do esforço diplomático com o aperfeiçoamento que a Arte promove: «como o génio do artista sabe compor harmoniosamente materiais em bruto, cores e sons diferentes, tornando-os parte de uma única obra de arte, assim a diplomacia é chamada a harmonizar as particularidades dos vários povos e estados para edificar um mundo de justiça e de paz, é que é o belo quadro que desejamos poder admirar».

Apontando para a coragem de Rafael, que soube sublimar por via artística as dificuldades de tempos atribulados e com muito menos recursos para a maioria, o Papa assinalou: «foi um filho importante de uma época, a do Renascimento, que enriqueceu toda a humanidade. Uma época não privada de dificuldades, mas animada de confiança e esperança».

No final, associou Rafael aos desejos formulados para o Novo Ano: «Através deste insigne artista, desejo fazer chegar os meus mais sentidos votos ao povo italiano, a quem desejo que redescubra esse espírito de abertura ao futuro que marcou o Renascimento, e que tornou esta península tão bela e rica de arte, história e cultura».

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Do filme Dois Papas: o meu olhar

Janto com amigos. Das dez pessoas à volta da sala, nove são aquilo a que se chamaria vulgarmente (e algo disparatadamente) católicos praticantes. São pessoas de missa semanal, com militância passada ou presente em movimentos da igreja, com desejos de pertença completa. São católicos discernidos, com um olhar genericamente discernido (embora por vezes pessoal) sobre a Igreja Católica e sobre o que gira à volta dela. 

Fala-se no filme Dois Papas, que passa no Netflix. De entre o grupo há quem tenha visto e há quem não tenha visto. Há quem tenha gostado e há quem não tenha gostado, ou não tenha gostado de um aspecto mais específico. De entre as críticas negativas talvez realçasse o seguinte:

- o excesso de ligeireza do filme;
- a clara preferência do realizador pelo Papa Francisco, muito à custa de Bento XVI; 
- o engano assente na frase "baseado em factos reais";
- a ilegitimidade de se fazer um filme sobre duas pessoas vivas, sem que lhes tenha sido pedida autorização;
- "a importância do Papa que não se compadece com exercícios de ficção cinematográfica".

Sou dos que viram e gostaram do filme, pese embora subscrever claramente as três primeiras críticas referidas acima: há ligeireza na abordagem à vida de Bento XVI, aos temas tratados; a sustentação de que são factos reais é um exercício impossível, apesar de qualquer um dos papas ter proferido alguns daqueles pensamentos numa dada altura. Porem, apesar disso gostei do filme: não achei insultuoso, não achei que denigra claramente a imagem de Bento XVI; vi-o como uma obra de ficção (muito bem filmada), não como um documentário; fixei uns pormenores, não dei importância a outros.

Numa leitura pelas críticas ao filme feitas por gente da Igreja, ou ligada à Igreja, encontra-se de tudo: gente que gostou e gente que não gostou, o que parece dar a entender que, mesmo nos meios católicos equilibrados, não há unanimidade, a não ser na representação desigual de ambos os Papas. Muitas críticas referem a inverosimilhança de algumas cenas, o que é verdade. Talvez o problema não esteja então só no filme, mas no facto de se ter vendido a ideia de que ele se baseava em factos reais. Se virmos o filme como uma espécie de documentário, ele está pejado de disparates. Mas se o virmos como uma obra de ficção talvez ali vejamos coisas interessantes, como a humanidade de ambos, visível na forma como se entusiasmam com o futebol, na imperfeição da obra tocada ao piano, ou no modo como se relacionam com Deus. Não sei, em bom rigor, se Bento XVI e Francisco se confessaram um ao outro nem isso me interessa muito, reconheço. Prefiro demorar-me nas dúvidas interiores que revelam, um em relação ao problema da pedofilia na igreja, outro na sua interacção com a ditadura de Videla. Interessou-me a dimensão da fragilidade humana, mais do que a evidência de uma atitude correcta. Não vi o filme como um panfleto, mas como uma janela que se abre sobre dois homens de carne e osso; vi o filme, talvez, como uma metáfora sobre a condição humana.

***

Num âmbito ainda relacionado com o filme, amigo que prezo afirmou e escreveu-me: "(...) nem consente esta tendência tão tolerada de a Igreja Católica ser tema de domínio público, sobre que todos opinam e botam sentença."

Tenho a dizer que, acima de tudo me espanta o desejo interminável de pessoas que, nada tendo a ver com a Igreja, estarem sempre de olhar atento e crítico sobre a Igreja; indigna-me que na primeira página dos jornais venha o mal que a igreja faz, mas não o bem que pratica; exaspera-me este escrutínio permanente, desequilibrado e persecutório. O que me separa, talvez, da frase deste meu amigo é que a Igreja não tolera tendência nenhuma, porque não está nas mãos da Igreja agir contra esta tendência. 

A Igreja vive num tempo moderno, de twitter e instagram, de whatsapp e notícias ao minuto. Este é, também, o tempo da Igreja - tempo esse a que não pode fugir. O que lhe resta, para além de tudo o que já faz de forma fantástica? Trabalhar o melhor possível, corrigir as más práticas internas, emendar a mão onde deve emendar. A nós, católicos - e, portanto, igreja - espera-se a militância e a defesa. Na minha opinião, fazer um filme - este filme - sobre o Papa (ou sobre dois papas) não fere a dignidade da Igreja nem dos personagens, porque não há insulto e porque o papel de ambos na História do Mundo está muito acima de um filme. A dignidade da Igreja, para além da sua dignidade inerente enquanto Estado, está na pureza com que segue e põe em prática os ensinamentos de Cristo: a atenção aos pobres e necessitados, a luta incansável pela justiça social, o castigo inequívoco de práticas indignas.

Vivemos um tempo de exposição mediática, quer queiramos quer não. Se fizermos o que devemos fazer, e o fizermos bem, não há filme que nos destrua nem diminua - mesmo que diga alguns disparates.

JdB      
    

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Moleskine *

The opposite of love is not hate, it's indifference. The opposite of art is not ugliness, it's indifference. The opposite of faith is not heresy, it's indifference. And the opposite of life is not death, it's indifference. 

(Elie Wiesel)

***

Jacob Berkovits nasceria em 1929 em Nagyvarad, já depois do tratado de Trianon atribuir a pertença da localidade à Roménia. Os marcos principais da sua vida pareceram aconchegar-se no abraço cronológico do seu amigo Elie Wiesel, compatriota e parceiro de sobrevivência do holocausto. Em 2008, poucos meses antes de morrer, Jacob escreveria à sua mulher Hanna: o destino foi-me favorável. Vim ao mundo depois de Elie, pois não seria merecedor da alegria de o ver nascer; parto antes dele, pois não teria a coragem de o ver morrer.  

No primeiro aniversário da sua morte, em boa hora a Universidade de Telavive decidiu editar as cartas do professor de Física Quântica, publicadas posteriormente em francês. Correndo o risco da imprecisão que sempre advém de uma tradução livre - e forçosamente inexacta - de sentimentos alheios, transcrevo partes de uma delas:

Meu querido Elie,

Já vi o suficiente, já falei o suficiente, precisava de mais uma vida para ouvir o suficiente. 

(...)

Um dia, nas margens do Mar Morto tentei comparar, por puro exercício académico, a nossa alma a um corpo mergulhado naquela imensidão líquida onde, como sabes, tudo morre e nada flutua. Não consegui. Por mais que quisesse pensar que a nossa bondade está sempre à tona de água, que nunca desaparece nas profundezas do mar, sugada por uma escuridão onde o Amor e a Compaixão são inexistentes, não consegui. O Mar Morto não representa o mundo em que vivemos, porque para todos nós há uma linha de água de onde subimos e descemos em função do que somos, do que queremos fazer da vida, e do ânimo com que perseguimos os nossos sonhos. A vida é uma faca, Elie, que nos serve, se a agarramos pelo cabo, ou que nos corta, se lhe pegamos pela lâmina.

(...)

Estou perigosamente agarrado ao pormenor. Mencionam-me os alunos mais novos uma frase dupla muito em voga: o amor - ou o diabo - estão no detalhe. Não me parece, Elie, que a conjunção seja "ou", porque quero crer que ambos residem lá em permanência, seguramente numa convivência pouco pacífica, e prontos a irromper ao menor sinal. Sei do que falo: um pormenor ínfimo de um trecho musical comove-me; um olhar indecifrável de um personagem secundário intriga-me; um veio de madeira desigual numa moldura bonita prende-me a atenção; um copo desalinhado numa perfeição de mesa desfoca-me do que é importante. O detalhe é-me mais afectivo do que cerebral; por vezes é apenas o direito inalienável à minha individualidade, uma forma de expressar que sou único, porque aquele pormenor, disponível para todos, só eu vi, só eu apreciei, só eu lhe encontrei um encanto, tantas e tantas vezes ridículo.

(...)        

Em Outubro fui fazer uma palestra à Faculdade de Medicina. Eram alunos do primeiro ano, alguns com um evidente desejo de mudar o mundo, inundados de energia e de convicção. Para eles, a profissão de médico é o casamento perfeito entre o sucesso e o desejo de ajudar quem sofre. No período final, quando aos estudantes é dada a oportunidade de inquirirem o palestrante, uma rapariga levantou-se. Era alta, magra e bonita, com uns cabelos escuros a emoldurar uns olhos verdes, um porte simultaneamente altivo e acolhedor, de quem sabe que o maior calor e o maior frio convivem dentro de nós à espera de se revelar. Perguntou-me:

- Diga-me, professor Berkovits. Se tivesse de manter apenas um dos sentidos, qual é que escolheria?

Sabes, Elie... Durante alguns segundos não soube o que responder a este desafio tão difícil. Mesmo que a pergunta fosse académica, uma vez que a possibilidade de isso acontecer é quase nula, como devia responder-lhe? Falar, ver, ouvir, tocar, cheirar? Do que conseguiríamos prescindir, nós que já passámos pelo horror dos horrores, que sentimos a bestialidade humana a conviver com a generosidade comovente, que aguçámos os nossos sentidos para sobreviver, para amar - mas também para odiar - para olhar por cima do arame farpado e da indignidade na procura da esperança? 

- A sua pergunta é difícil, menina. Com a minha idade todos os sentidos vão perdendo o seu fulgor...  Mas não posso fugir à sua interrogação. Talvez optasse pelo sentido da audição. 

 - E porquê, professor Berkovits?

- Para a ouvir a si talvez, com tudo o que teria para me ensinar, para ouvir os outros, para ouvir todos aqueles que fizeram e farão de mim o que eu sou. Para me comover com uma frase escutada a que mais ninguém prestou atenção, para me descansar com a voz certa dos amigos fiéis, para me encher de nostalgia com o som triste do violoncelo, para ouvir a minha própria voz interior a pedir-me mais uma vida para ouvir o suficiente...

(...)  

JdB  

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* publicado originalmente a 17.01.2013

domingo, 12 de janeiro de 2020

Festa do Baptismo do Senhor

EVANGELHO – Mt 3,13-17

Naquele tempo,
Jesus chegou da Galileia
e veio ter com João Baptista ao Jordão,
para ser baptizado por ele.
Mas João opunha-se, dizendo:
«Eu é que preciso de ser baptizado por Ti,
e Tu vens ter comigo?».
Jesus respondeu-lhe:
«Deixa por agora;
convém que assim cumpramos toda a justiça».
João deixou então que Ele Se aproximasse.
Logo que Jesus foi baptizado, saiu da água.
Então, abriram-se os céus
e Jesus viu o Espírito de Deus
descer como uma pomba e pousar sobre Ele.
E uma voz vinda do Céu dizia:
«Este é o meu Filho muito amado,
no qual pus toda a minha complacência».

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Duas Últimas *



Escada Sem Corrimão

É uma escada em caracol
E que não tem corrimão
Vai a caminho do Sol
Mas nunca passa do chão

Os degraus quanto mais altos
Mais estragados estão
Nem sustos nem sobressaltos
Servem sequer de lição

Quem tem medo não a sobe
Quem tem sonhos também não
Há quem chegue a deitar fora
O lastro do coração

Sobe-se numa corrida
Corre-se perigos em vão
Adivinhaste... é a vida
A escada sem corrimão

David Mourão Ferreira

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* sugestão enviada por mão amiga


quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Textos dos dias que correm

A porção dos pobres

«As pessoas santificam as festas: os ricos sentando-se à mesa, os pobres fazendo jejum.» Com a Epifania, a festas natalícias aproximam-se do epílogo. Em todas as religiões, o fazer festa compreende também um aspeto convivial que é expressão da comunhão entre alma e corpo, e das pessoas entre elas.

No termo da leitura da Lei, diante do povo judaico reunido junto à Porta das Águas, em Jerusalém, o sacerdote Esdras e o governador Neemias exortam o povo comovido e arrependido pelas suas culpas: «Este é um dia consa­gra­do ao Senhor, vosso Deus; não vos entristeçais nem choreis.» Pois todo o povo chorava ao ouvir as palavras da Lei. Então, Neemias disse-lhes: «Ide para as vossas casas, fazei um bom jantar, bebei vinho doce e re­parti com aqueles que nada têm prepa­rado; este é um dia grande, con­sagrado a Deus; não vos entris­te­çais, porque a alegria do Senhor é que é a vossa força» (Neemias 8,9-10).

Significativo é o apelo a re­partir com aqueles que nada têm prepa­rado, os pobres, para que todos, e não só os que estão bem, possam festejar. Infelizmente, demasiadas vezes, inclusive entre os cristãos, o egoísmo e a vida sossegada são mais fortes, e, com a desculpa de que não se pode pensar em todos em saciar cada miséria da Terra, as pessoas sentam-se à mesa sem hesitação (as refeições copiosas são, aliás, tema habitual dos noticiários televisivos natalícios).

Quem nos recorda o jejum dos pobres durante a festa é a frase acima citada, do poeta escocês (mas nascido em 1915 na Nova Zelândia) Sydney G. Smith, falecido em 1975.

É verdade que a nossa pequena renúncia, o gesto modesto, é só uma gota no oceano da miséria de tantas pessoas. Mas é precisamente de gotas que é feito o mar do bem e da generosidade; se ninguém fizesse faltar a sua gota, isso saciaria a imensa difusão da pobreza.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 08.01.2020

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Do espectro das nossas preferências

Último Poema: Paisagem

Quando, ao longe, a vida que habitam os homens,
em direção ao tempo do resplendor das vinhas
se esvai,
despidos pelo verão se encontram os campos,
e em sombria imagem surge a floresta.
Que a natureza acrescente a imagem dos tempos,
e permaneça. E os tempos, velozes, deslizem;
da perfeição vem isso: que brilhem
para o homem as alturas do céu,
enquanto a árvore se vai coroando de flores.

Friedrich Holderlin

***

Auto-retrato

Poeta é certo mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
marciso de lombardas e repolhos.

Cozido à portuguesa mais as carnes
suculentas da auto-importância
com toicinho e talento ambas partes
do meu caldo entornado na infância.

Nos olhos uma folha de hortelã
que é verde como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.

Poeta de combate disparate
palavrão de machão no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.

Ary dos Santos, in 'Fotosgrafias'

***

O que dizem as nossas opções estéticas relativamente à poesia? Ou relativamente à música? Ou à gastronomia? Se me perguntarem: de que tipo de música gostas?, posso responder, sem correr o risco de perda de credibilidade, que gosto de Schubert e de Quim Barreiros? Ou de Wagner e Ana Malhoa? E se falarmos de poesia posso alternar entre Friedrich Holderlin e Ary dos Santos? Ou entre Guerra Junqueiro e o poeta chofer?

Amália Rodrigues, diz-se, não prescindia de um tupperware com carapaus de escabeche (ou jaquinzinhos, não sei) quando gravava; mas talvez apreciasse uns escargots quando ia a França, ou uma colher de caviar quando ia à Rússia. Ary dos Santos é o caviar ou é o escabeche? E o Quim Barreiros, é um carrascão ou um Veuve Cliquot?

O olhar que temos sobre a gastronomia é igual ao olhar que temos sobre a poesia? Isto é, há quem se gabe de ter boa boca - é gente que gosta de tudo. Quando nos confrontamos com alguém assim, olhamo-lo com respeito, porque essa característica nos parece uma virtude. É bom gostarmos de tudo. E o que diremos de quem goste de Holderlin e de Ary dos Santos? Como olhamos para as pessoas que têm boa boca ao nível da poesia?

E que interesse tem isto?

JdB    

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Textos dos dias que correm

Porque, enfim, para quê o viajar? Todos os filósofos e todos os donos de hotéis são unânimes em dizer que se viaja para ver o que há de interessante no mundo. Ora, no mundo, só há de interessante, verdadeiramente, o Homem e a Vida. Mas para gozar a vida duma sociedade, é necessário fazer parte dela e ser um actor no seu drama: de outro modo, uma sociedade não é mais do que uma sucessão de figuras sem significação que nos passa diante dos olhos: Quando falo de sociedade não me refiro àquela que vem no High Life do Ilustrado: refiro-me às Sociedades, no plural e com S grande. Já o bom Flaubert falava da «melancolia das multidões estranhas». Essa melancolia é a mesma que se sente em vir de longe, para olhar para uma porta fechada. Quem for de Marco de Canavezes e queira gozar a vida, que fique em Marco de Canavezes, na Assembleia, na botica, e nos chás das Macedos! Se vier a Hyde Park ou aos Champs Elysées, vê só a Vida por fora, nos seus contornos exteriores.

É como estar a mirar as paredes escuras de um teatro, onde se está a passar, por dentro e em grande luz, uma interessante comédia. Por isso, nós, os Portugueses, pessoas infinitamente filosóficas, chamamos ao viajar: andar por fora. Expressão perfeita e profunda. Andar por fora, que melancolia, que desconsolação, quando estar por dentro é que é o interessante! Dir-me-ão os donos dos hotéis e as companhias de caminhos de ferro que é necessário ir ver a Civilização. De acordo. Mas o que é a civilização de Paris? É o romance de Zola, e a descoberta de Pasteur, e o bom dito de Rochefort: e isso tudo vai ter connosco, onde quer que estejamos, pelo paquete. A melhor maneira de gozar a civilização, é ao canto do lume, de chinelas. Dir-me-ão ainda os donos dos hotéis que se devem admirar os monumentos e que Notre-Dame e Westminster são um elemento de educação. De acordo, estalajadeiros, de acordo! Para isso se inventou a fotografia. E, em resumo, meu querido Bernardo, grande foi a tua sabedoria em não querer andar por fora.

Eça de Queirós, in 'Correspondência'

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Poema para o dia de hoje

Os Reis Magos

Diz a Sagrada Escritura
Que, quando Jesus nasceu,
No céu, fulgurante e pura,
Uma estrela apareceu.

Estrela nova … Brilhava
Mais do que as outras; porém
Caminhava, caminhava
Para os lados de Belém.

Avistando-a, os três Reis Magos
Disseram: “Nasceu Jesus!”
Olharam-na com afagos,
Seguiram a sua luz.

E foram andando, andando,
Dia e noite a caminhar;
Viam a estrela brilhando,
sempre o caminho a indicar.

Ora, dos três caminhantes,
Dois eram brancos: o sol
Não lhes tisnara os semblantes
Tão claros como o arrebol

Era o terceiro somente
Escuro de fazer dó …
Os outros iam na frente;
Ele ia afastado e só.

Nascera assim negro, e tinha
A cor da noite na tez :
Por isso tão triste vinha …
Era o mais feio dos três !

Andaram. E, um belo dia,
Da jornada o fim chegou;
E, sobre uma estrebaria,
A estrela errante parou.

E os Magos viram que, ao fundo
Do presépio, vendo-os vir,
O Salvador deste mundo
Estava, lindo, a sorrir

Ajoelharam-se, rezaram
Humildes, postos no chão;
E ao Deus-Menino beijaram
A alava e pequenina mão.

E Jesus os contemplava
A todos com o mesmo amor,
Porque, olhando-os, não olhava
A diferença da cor …


Olavo Bilac in Poesias infantis

domingo, 5 de janeiro de 2020

Solenidade da Epifania do Senhor

EVANGELHO - Mt 2,1-12

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia,
nos dias do rei Herodes,
quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente.
«Onde está - perguntaram eles –
o rei dos judeus que acaba de nascer?
Nós vimos a sua estrela no Oriente
e viemos adorá-l'O».
Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado
e, com ele, toda a cidade de Jerusalém.
Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo
e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias.
Eles responderam:
«Em Belém da Judeia,
porque assim está escrito pelo profeta:
'Tu, Belém, terra de Judá,
n&atil
de;o és de modo nenhum a menor
entre as principais cidades de Judá,
pois de ti sairá um chefe,
que será o Pastor de Israel, meu povo'».
Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos
e pediu-lhes informações precisas
sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela.
Depois enviou-os a Belém e disse-lhes:
«Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino;
e, quando O encontrardes, avisai-me,
para que também eu vá adorá-l'O».
Ouvido o rei, puseram-se a caminho.
E eis que a estrela que tinham visto no Oriente
seguia à sua frente
e parou sobre o lugar onde estava o Menino.
Ao ver a estrela, sentiram grande alegria.
Entraram na casa,
viram o Menino com Maria, sua Mãe,
e, caindo de joelhos,
prostraram-se e adoraram-n'O.
Depois, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes:
ouro, incenso e mirra.
E, avisados em sonhos
para não voltarem à presença de Herodes,
regressaram à sua terra por outro caminho.

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