segunda-feira, 23 de julho de 2018

Textos dos dias que correm

Disputas Empobrecedoras

As disputas deviam ser regulamentadas e punidas como outros crimes verbais. Que defeitos não suscitam e acumulam em nós, reguladas e governadas como são pela cólera! Começamos por ser inimigos das razões e acabamos por o ser dos homens. Só aprendemos a discutir para contraditar, e, à força de se contraditar e ser-se contraditado, vem a acontecer que o fruto do discutir é perder e aniquilar-se a verdade. Assim, Platão, na República, proíbe o seu exercício aos espíritos ineptos e mal formados.
Porque nos havemos de pôr a caminho, para descobrir a verdade, com quem não tem passo nem andamento que sirvam? Não se prejudica o assunto quando o deixamos para procurar o meio de o tratarmos; não falo dos meios escolásticos e artificiais, falo dos meios naturais, dum entendimento são. Que sucederá por fim? Cada um puxa para o seu lado; perdem de vista o essencial, põem-no de parte na confusão do acessório.
No fim de uma hora de tormenta já não sabem o que procuram; um está em cima, outro em baixo, outro para o lado. Uns demoram-se com as palavras e com as comparações; outros não entendem o que se lhes objecta, tanto se entusiasmam: só pensam neles, não em nós. Há quem, achando-se fraco de rins, tudo receie, tudo recuse e, logo de entrada, baralhe e confunda o que se disse, e, no auge da discussão, se lembre de se submeter, afectando, por ignorância despeitada, um desprezo orgulhoso ou, com ar de imbecil modéstia, a sua renúncia à luta. Contanto que fira não se importa de se descobrir. O outro conta as palavras e pesa-as na razão. Este faz valer a voz e os pulmões. Põe-se a concluir contra si próprio. Há outros que nos ensurdecem com prefácios e digressões inúteis. Outros armam-se de puras injúrias e levantam questões sem fundamento para se libertarem da companhia e da conversa dum espírito que põe o deles em aberto. Outros ainda não raciocinam sobre coisa nenhuma, mas rodeiam-nos com uma sebe dialética de claúsulas e fórmulas da arte.

Michel de Montaigne, in 'Da Arte de Discutir'

domingo, 22 de julho de 2018

16º Domingo do Tempo Comum

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
os Apóstolos voltaram para junto de Jesus
e contaram-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado.
Então Jesus disse-lhes:
«Vinde comigo para um lugar isolado
e descansai um pouco».
De facto, havia sempre tanta gente a chegar e a partir
que eles nem tinham tempo de comer.
Partiram, então, de barco
para um lugar isolado, sem mais ninguém.
Vendo-os afastar-se, muitos perceberam para onde iam;
e, de todas as cidades, acorreram a pé para aquele lugar
e chegaram lá primeiro que eles.
Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão
e compadeceu-Se de toda aquela gente,
que eram como ovelhas sem pastor.
E começou a ensinar-lhes muitas coisas.

sábado, 21 de julho de 2018

Pensamentos Impensados

Tamanhos
Quando se fala em grandes superfícies logo vem à baila o Continente e o Pão de Açúcar.
Então a China e o Canadá?

Cozinha
A estação de televisão do Correio da Manhã tem dois programas de culinária: encher chouriços e serrar presunto.

Odores
Usava tanta água de colónia que até o telemóvel transmitia o cheiro.

Armas e barões não assinalados
O desaparecimento das armas, em Tancos, está sob a alçada do Mistério Público.

Feitios
Adão era um solitário; detestava multidões.

Poli
Não confundir polipo na garganta com político com garganta.

SdB (I)

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Textos dos dias que correm *

Como fazer deste verão o melhor de sempre?

Foi com esta pergunta que me decidi desafiar para garantir que tiro o máximo proveito deste tempo que me é dado viver. E, para que a resposta desse um salto de qualidade, estendi o desafio também aos leitores da página ‘Ver para Além do Olhar’. O resultado foi tão bom que elaborei uma lista de 25 sugestões prontas a transformar o teu verão.

Antes de chegarmos às dicas práticas – e antes do remate final com uma última dica sobre como estender o verão para lá do tempo -, gostava de chamar a atenção para uma premissa fundamental e três estratégias eficazes a aplicar no teu plano de ação.

UMA PREMISSA FUNDAMENTAL

Antes de tudo, é uma decisão.

Sim, este vai ser o melhor verão de sempre. E quem o diz? Digo eu e podes dizer tu, se assim decidires. Porquê? Porque, antes de mais, é uma questão de escolha. Repara que basta a ideia de ‘melhor verão de sempre’ para disparar em ti uma série de recursos que antes estavam adormecidos: memórias de pessoas, lugares, actividades; sonhos, desejos, até uma outra atitude de fundo já despertou dentro de ti. Depois, levando a sério isto que sentiste irás agir em conformidade com isso, darás o teu melhor a cumprir as tuas intenções e objectivos e assim terás o melhor verão que poderias ter nas circunstâncias atuais.

Sim, ‘nas circunstâncias atuais’ significa que, à partida, há aqui mais uma série de escolhas que és convidado a fazer, por exemplo: hás de escolher contar com o tempo que tens, o dinheiro que tens, a saúde que tens, a família e amigos que tens, etc. Isto ajudará a evitar idealizações descabidas – mais as respectivas desilusões.

Por isso, sim, ‘o melhor de sempre’ é uma maneira de dizer. Proponho que te poupes a fazer comparações com outros verões – teus ou de outros – e faças deste um verão único, como se fosse o teu primeiro e último verão!

TRÊS ESTRATÉGIAS EFICAZES

Entra em contacto contigo mesmo e, na tua investigação interna, encontra as pistas preciosas que tens dentro de ti – aquelas que conheces melhor que ninguém.

1. ‘Manual de Procedimentos’

Relembra o que fazes habitualmente quando precisas de descansar:

a) muita planificação ou muito improviso?

b) muito convívio ou muito isolamento?

c) muita velocidade ou muita desaceleração?

A tua tendência natural para um pólo ou para outro, ou para a conjugação de ambas as polaridades, já te oferece pistas preciosas para definir os contornos do que te fará ter um verão revitalizante.

2. ‘Fórmula de Sucesso’

Recorda os verões anteriores e reconhece o que, para ti, fez de cada verão, um verão fantástico: regista esses elementos e actualiza-os. Eis aqui uma fórmula prática para o conseguires fazer:

a) o que queres sentir no fim deste verão?

b) quais os aspetos decisivos a integrar neste tempo?

c) o que vais fazer, concretamente? Quando, onde, como, com quem?

3. ‘Arqueologia dos Sonhos Perdidos’

Revê o ano que passou e reconhece que sonhos e prioridades foram ficando enterrados debaixo das urgências. Esta é uma oportunidade de ouro para os resgatar e recuperar. Aliás, o pior do ano que passou pode ser ótimo pois oferece preciosas pistas sobre necessidades fundamentais que ficaram por preencher e às quais tens agora uma oportunidade extraordinária de dar resposta.


25 DICAS PRÁTICAS

Agora, sim. Aqui ficam estas sugestões concretas:

#1. Põe o sono em dia: hiberna por um tempo, se for preciso

#2. Põe o corpo em movimento: mexe-te, faz exercício físico, caminha

#3. Faz um período de ‘detox’ digital: arrisca largar o smartphone!

#4. Aplica os sentidos aos prazeres simples de estar vivo [pôr do sol, por exemplo]

#5. Alimenta a tua mente com boas leituras [livros ou podcasts]

#6. Reserva tempo de qualidade com as pessoas e lugares que amas

#7. Organiza passeios, jantares, jogos, brincadeiras, aventuras

#8. Visita amigos e familiares que têm ficado ‘esquecidos’

#9. Abre-te ao desconhecido: descobre novas pessoas, atividades, lugares

#10. Faz voluntariado: ajuda alguém; visita doentes, idosos, acamados

#11. Visita-te: reserva tempo para ti, em silêncio ou meditação

#12. Faz um retiro de silêncio ou uma peregrinação

#13. Conecta-te com a natureza e deixa-a cuidar de ti

#14. Aprende algo novo: inscreve-te num curso ou workshop

#15. Faz um diário [gráfico ou escrito, de um tempo especial]

#16. Agradece e faz um balanço do ano que passou

#17. Larga aquele hábito que te tem prejudicado

#18. Conquista aquele novo hábito que andas a adiar

#19. Conecta-te com o teu propósito de vida

#20. Sonha o próximo ano: escreve as tuas intenções e objectivos

#21. Desenha o calendário do próximo ano

#22. Desenha o teu horário semanal

#23. Destralha o teu espaço vital: liberta, limpa, arruma

#24. Saboreia tudo ao máximo e, se necessário, põe-te em câmara lenta

#25. Apaga esta lista e faz a tua própria ‘check-list’


ALGUNS PROGRAMAS ALTERNATIVOS

Ao elaborar a lista de dicas surgiram mais estas ideias úteis para programas ‘fora da caixa’.

1. Museu Vivo Para Extraterrestres

Imagina que és de outro planeta e chegas à Terra como turista. Observa tudo com a curiosidade de um extraterrestre. Considera tudo como potencial objecto de interesse. Usa em pleno os teus sentidos: cores, sons, perfumes, sabores… Repara nas histórias que acontecem à tua volta: o que contam as pessoas que vês? O que conta a paisagem de si mesma?

Regista em fotografia o que mais te impressiona – como fazes nas tuas viagens, para depois mostrar em casa e aos amigos. Seguindo esta sugestão podes fazer um grande programa – seja no teu bairro, na tua cidade ou noutro lado qualquer: vai onde nunca irias, vê o que nunca verias, come o que nunca comerias.

2. ‘Follow the leader’

Cada membro da família (ou do grupo) – qualquer que seja a sua idade e condição física -, assume a tarefa de organizar um dia completo, desde os sítios a ir, o que fazer, onde comer. Os outros, deixam-se surpreender.

3. ‘Go With The Flow’

Sai de casa e depois deixa que as circunstâncias te guiem. Por exemplo, em pontos chave de decisão – se ir para a esquerda ou para a direita, se ficar ou partir, se comer isto ou aquilo -, escolhe um anónimo e segue o que ele escolher.

4. Missão Humanitária

Escolhe algo em que possas ser útil à sociedade, a uma comunidade, a uma instituição de beneficência, a uma pessoa necessitada. Pergunta o que podes fazer por ela. No limite, se tiveres pouco tempo ou pouca paciência, pega num saco de lixo e umas luvas, vai até um local apropriado- de preferência com um grupo de amigos – e limpa o que puderes.



AINDA UM TRUQUE PARA QUEM GOSTA MUITO DO VERÃO

Gostavas que o verão durasse o ano inteiro?

Se sim, então leva o verão para o ano inteiro! Ou seja, faz do verão um treino para uma vida melhor, um ensaio para te alinhares com o que queres que seja o teu dia a dia! Reinventa-te, reserva tempo e espaço para uma boa conversa contigo mesmo. Permite-te reconfigurar os teus hábitos semanais e diários. Aproveita os dias de verão para integrar no quotidiano aqueles aspectos que te fazem ‘descansar’, ‘respirar’, que te fazem sentir ‘vivo’!

Por quanto tempo perdurará o impacto do teu verão quando voltares à vida normal de todos os dias? Isso depende da qualidade das tuas escolhas para este tempo. Assim, escolhe bem. E que venha daí o Melhor Verão de Sempre!

João Delicado

* retirado do Ponto SJ, site dos jesuítas em Portugal

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Duas Últimas

Leio no Diário de Notícias que Paul Simon deu em Londres, no passado domingo, o seu concerto de despedida na Europa, já que haverá uma digressão pelos EUA que culmina com um concerto em Nova Iorque, a 22 de Setembro. E diz a jornalista: [A]final, a digressão Homeward Bound, que rouba o título a uma canção escrita para Kathy Chitty, a secretária de escritório de Essex que foi a primeira musa de Simon, é uma carta de amor e de saudade, um desejo de regresso a casa que, nesse momento, era o Reino Unido.

Gosto muito de Paul Simon, em particular quando o nome artístico dele (passe a expressão pateta) era Simon and Garfunkel. Foi assim que o conheci, foi assim que o acompanhei mais proximamente. Fui sabendo da sua carreira a solo de uma forma mais errática mas, mesmo assim, sempre interessado. Um dia destes voltei a ouvir o memorável concerto da dupla no Central Park, em Setembro de 1981. Conheço tudo tão bem, mas tão bem, que sei o momento certo das ovações, o que vão dizendo os músicos, a altura em que um entra a desoras, os versos acrescentados ao The Boxer.

Mas o artigo da jornalista, pese embora eventuais incorrecções (nomeadamente a alusão à não militância política de Paul Simon, ao contrário de Bob Dylan, o que foi desmentido num comentário), fixou-me a atenção pela ideia do desejo de regresso a casa, uma metáfora que me acompanha desde que comecei a viajar e que trabalhei de forma mais pensada num trabalho para a faculdade.

Deixo-vos com letra e imagens de Homeward Bound, da autoria de Paul Simon. Cada um de nós fixará os versos que mais lhe tocam.

JdB

Homeward Bound

I'm sitting in the railway station.
Got a ticket to my destination.
On a tour of one-night stands my suitcase and guitar in hand.
And every stop is neatly planned for a poet and a one-man band.
Homeward bound,
I wish I was,
Homeward bound,
Home where my thought's escaping,
Home where my music's playing,
Home where my love lies waiting
Silently for me.

Every day's an endless stream
Of cigarettes and magazines.
And each town looks the same to me, the movies and the factories
And every stranger's face I see reminds me that I long to be,
Homeward bound,
I wish I was,
Homeward bound,
Home where my thought's escaping,
Home where my music's playing,
Home where my love lies waiting
Silently for me.

Tonight I'll sing my songs again,
I'll play the game and pretend.
But all my words come back to me in shades of mediocrity
Like emptiness in harmony I need someone to comfort me.
Homeward bound,
I wish I was,
Homeward bound,
Home where my thought's escaping,
Home where my music's playing,
Home where my love lies waiting
Silently for me.
Silently for me.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Vai um gin do Peter’s?

O RETÁBULO PREFERIDO DOS LADRÕES, DESDE O SÉC. XV

Quando os irmãos Hubert e Jan Van Eyck pintaram o magnífico políptico «Adoração do Cordeiro» (1426-1432), não terão imaginado que, para lá do fascínio causado pela beleza extraordinária daquele óleo gigantesco, viesse a ser alvo dos maiores assédios. Em seis séculos, foi roubado 6 vezes, algumas a soldo de conquistadores insaciáveis como Napoleão e Hitler! Por junto, foi objecto de 13 crimes, tornando-se na obra de arte mais atacada, até hoje. 

No código simplificado dos assaltantes e dos turistas, o famoso políptico é mais conhecido por «Retábulo de Gand», salientando a morada indispensável para o assalto ou para a visita cultural: a cidade belga de Gand, onde está exposto na Catedral de S.Bavão. 

Englobando frente-e-verso: o conjunto possui 24 parcelas pintadas sobre madeira de carvalho, com as dimensões de um portão avantajado e peso superior a um elefante adulto. Infelizmente, nem peso, nem tamanho o protegeram da cobiça. O seu valor incomensurável para a Arte ocidental acabou por atrair os maiores (e piores) saqueadores da História, ávidos de possuir a primeira grande pintura a óleo, o primeiro mega-painel do Renascimento, precursor do realismo artístico e clímax da riqueza filigrânica aplicada à pintura. Alguns historiadores de Arte consideram-no o quadro mais importante alguma vez feito. A somar à sua beleza ímpar, a suprema qualidade artística do Retábulo elevaram-no a expoente da produção dos «Primitivos Flamengos». 

As desventuras do políptico iniciado por Hubert (morreu em 1426) e concluído por Jan começaram, a partir de 1566, com a perseguição calvinista à arte sacra. Teve logo de ser desmontado e escondido na torre da catedral, para escapar à razia destrutiva dos iconoclastas seguidores de Calvino, que arrombaram a porta da catedral em busca da obra. Mais tarde, as tropas napoleónicas desviaram quatro painéis para o Louvre, restituídos 20 anos depois, por Luís XVIII. Na I Guerra, as tropas do Kaiser alemão Guilherme II levaram as asas laterais para Berlim, mas foram obrigados a restituí-las, em 1919, por imposição expressa do Tratado de Versailles. Em 1934, dois painéis foram surripiados para obtenção de resgate astronómico, tendo-se recuperado um. Durante a ocupação nazi, na II Guerra, o Retábulo voltou a desaparecer, até ser resgatado pelo grupo de especialistas dos Aliados incumbido de reaver as muitas obras subtraídas pelo Reich aos museus e colecções privadas da Europa. Os hábeis Monument Men (1) desencantaram-no, em 1945, nas catacumbas da mina de sal de Altaussee, na Áustria. Actualmente, está em restauro parcial, prevendo-se que retorne à Catedral de Bavão, em 2020. 

A obra magistral – pintada ao serviço do Duque de Borgonha, Filipe o Bom – oferece duas visões distintas: uma, com as portadas/asas fechadas, repletas de figuras de tons sóbrios, a assemelhar-se às esculturas em pedra policromada, que antes fechavam os polípticos dos altares-mor, justificando os notáveis efeitos de «trompe l'œil»; outra, com as asas abertas a desdobrarem-se em 12 painéis surpreendentes pela explosão de cor. 


Versão aberta, que ocorre aos Domingos e em dias de festa religiosa.
O painel dos «Juízes justos» extraviou-se no roubo de 1934,
tendo sido substituído por um óleo de Jef Vanderveken, em 1945. 

A profusão de símbolos é tão intensa e erudita, que continua a ser objecto de investigações exaustivas. Na próxima imagem, identificam-se os 12 painéis, seguindo-se uma curta-metragem com visita guiada ao políptico, pelo especialista Jean Delumeau:

No canto superior direito, a gravidez de Eva indica a Vida que se renova,
enquanto acima se expõe o atentado à vida cometido por Caim. No polo oposto,
acima de Adão, vê-se o ciúme de Caim pelo facto de o irmão ser tão amado por Deus.

No painel do Cordeiro: a Pomba do Espírito Santo destaca-se com um foco de luz intenso;
14 anjos fazem a guarda-de-honra a Cristo-Cordeiro;
à esq., profetas judeus ajoelhados exibem o Livro Sagrado;
atrás, perfilam-se os Homens de Boa Vontade, de diferenças raças e latitudes,
entre pagãos anónimos, filósofos e artistas;
à dta., os doze apóstolos; logo atrás, os Papas santos e demais clérigos; ao fundo,
os mártires com o grupo das mulheres mais à direita. 


A pujança cromática do lado interno dos painéis, quando as asas laterais se escancaram, visa expressar o esplendor do paraíso, numa alegria pacificante e majestosa, habitada pelas principais figuras bíblicas que, desde o Antigo Testamento, convergem para o Cordeiro Místico, símbolo-maior do Cristo da Nova Aliança, que salva a Humanidade da morte e franqueia-lhe a felicidade eterna.

Para se perceber a minúcia que a dupla Van Eyck imprimiu até ao mais ínfimo pormenor, vale a pena um zoom sobre adereços menores. Existe mesmo a possibilidade de explorar os 12 painéis interiores à lupa, através do link  http://legacy.closertovaneyck.be/#home/sub=open. Chegam a distinguir-se as manchas de sujidade no calçado dos peregrinos ou as plantas da paisagem retratadas com a acuidade de um tratado botânico. Cada detalhe aporta um significado ao todo, procurando espelhar a realidade com o máximo rigor.

A perfeição do traço permite identificar as flores na coroa da Virgem:
a flor-de-lys é símbolo da pureza; o lírio-do-vale representa a humildade;
as columbinas ou aquilégias a docilidade; e as rosas selvagens o amor.

Chega-se ao requinte de os pequenos dragões metálicos da fonte da Vida
reflectirem as janelas da capela da Anunciação.

Além de pintor exímio, o mais novo dos irmãos – Jan (1390-1441) também foi assessor diplomático do Duque mecenas, o que o levou a Castela para intermediar nas negociações do casamento do borgonhês com Isabelle d’Urgell. Participou, igualmente, na deslocação a Lisboa para avaliar a possibilidade de casamento com a Infanta Isabel, filha de D.João I, de quem realizou dois retratos. 

Réplica em colecção privada. O original, de 1428-29, extraviou-se.
Correspondeu ao retrato de noivado da Infanta da Ínclita Geração,
que foi a terceira mulher de Filipe III de Borgonha. 

Ao regressar à empreitada do «Cordeiro Místico», depois de cumpridas as tarefas diplomáticas nas duas capitais da Península Ibérica, Jan ter-se-á encarregue das pinturas individuais, completando o desenho e toda a concepção do políptico que Hubert já assegurara. 

No painel cimeiro do interior, aos pés de Deus-Pai, lê-se uma inscrição latina que é um programa de vida paradisíaco: «VIDA SEM MORTE, JUVENTUDE SEM VELHICE, ALEGRIA SEM TRISTEZA, SEGURANÇA SEM MEDO.» O requinte deste Retábulo, que continua a apaixonar gerações após gerações (levando alguns à loucura da possessividade e do saque), condensa o sentido da entrada de Cristo na História humana, conferindo-lhe uma nova dimensão emancipada do tempo, i.e., Vida Sem Morte, Alegria Sem Tristeza…    

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta-feira)
__________________
(1) Inspiraram um filme realizado por George Clooney, em 2014.  

terça-feira, 17 de julho de 2018

Textos dos dias que correm

Amor e Intimidade

Toda a gente tem medo da intimidade — ter ou não ter consciência desse medo é outra história. A intimidade significa expor-se perante um estranho — e todos nós somos estranhos; ninguém conhece ninguém. Somos mesmo estranhos a nós próprios, porque não sabemos quem somos.
A intimidade aproxima-o de um estranho. Tem de deixar cair todas as suas defesas; só assim a intimidade é possível. E o seu medo é que se deixar cair todas as suas defesas, todas as suas máscaras, quem sabe o que o estranho lhe poderá fazer. Todos nós andamos a esconder mil e uma coisas, não só dos outros mas de nós próprios, porque fomos criados por uma humanidade doente com toda a espécie de repressões, inibições e tabus. E o medo é que, com alguém que seja um estranho — e não importa se se viveu com a pessoa durante trinta ou quarenta anos; a estranheza nunca desaparece —, parece mais seguro manter uma ligeira defesa, uma pequena distância, porque alguém se poderá aproveitar das suas fraquezas, da sua fragilidade, da sua vulnerabilidade.
Toda a gente tem medo da intimidade. O problema torna-se mais complicado porque toda a gente quer intimidade. Toda a gente quer intimidade porque, de outro modo, está sozinho neste Universo — sem um amigo, sem um amante, sem ninguém em quem confiar, sem ninguém a quem abrir todas as suas feridas. E as feridas não saram se não forem abertas.

Osho, in 'Intimidade'

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Um blogue? Tu? *

Pois é...

Durante muito tempo os blogues passaram-me ao lado. Não lhes ligava, não lhes via um encanto por aí além, não criei hábitos de visita. Nem sequer àqueles que eram supostas referências nacionais.


***

Dia 4 de Agosto sigo para o Zimbabué, onde ficarei cerca de dois meses. Beneficiarei da hospitalidade do actual embaixador, que me dá o gosto de uma amizade com quase 40 anos. O que vais lá fazer? perguntarão alguns, enquanto olham para um Mugabe a quem não confiaríamos uma tartaruga, para um país que parece a ferro e fogo, para um continente onde não se consegue pronunciar a palavra democracia, embora nos pareça que há sempre gente que canta e dança alegremente, num frenesim de inconsciência, miséria e cegueira política.

Vou por um conjunto de motivos, alguns bem prosaicos: Agosto e Setembro são meses em que me poderei dar ao luxo de exercer uma parte da minha actividade profissional a milhares de quilómetros, graças à Internet; por outro lado, conto fazer turismo, conhecer uma parte (e estou certo de que o vou fazer) do fascínio de África; aproveitarei para ler e para escrever. Conto também - passe o cliché do pensamento - olhar para o passado, atentar no presente e pensar no futuro.

***

O blogue que agora inicio (e agradeço à Ana Vidal o apoio técnico e estético, sem a qual nada disto teria sido possível) tem como motivo principal uma presunção: a de que alguns amigos gostarão de saber o que faço, com quem e porquê. É uma forma, afinal, de partilhar o meu dia-a-dia, agora que o fascínio do postal ilustrado é um actividade de alfarrabista. O que for colocando até à data da minha partida serve, também, como treino para este actividade que me é, ainda, um pouco hermética.

Como provavelmente a maioria dos blogues, este não tem linha editorial definida, a não ser o que entra naquilo que me apetece partilhar com quem me lê. Está tudo pensado para a minha estadia em Harare, num hectare muito bonito a que ainda podemos chamar solo pátrio. Quando regressar, logo se vê. Gosto do nome de um disco já antigo: hoje há conquilhas, amanhã não sabemos.

Adeus, até ao meu regresso...

***

Cumprem-se hoje dez anos, portanto, que abri este estabelecimento. Ao longo deste tempo recebi cá muita gente, que ficaram ou foram andando para outras paragens (e cito semordem especial): o JdC, várias gerações de dB's, o ATM, a MFM, a MAF, a PCP, o PO, a MTM, o JCN, o Pedro Castelo Branco, a Maria Zarco, a DaLheGas, o gi, a Monica Bello, o Zé do Telhado, a Luiza Azancot e outros de cujo nome esteja a esqucer-me.

A todos eles, e a todos os comentaristas que por cá vão passando, deixo a minha palavra de agradecimento. Sem eles - colaboradores e visitantes - este estabelecimento teria tido uma morte breve. Perdura por aqui, como o sangue mau de algumas famílias que teima em permanecer, apesar de todos os agoiros.

JdB

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* A parte em itálico deste post deste texto foi publicado originalmente no dia 16 de Julho de 2008, há exactamente dez anos.

domingo, 15 de julho de 2018

15º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 6,7-13

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus chamou os doze Apóstolos
e começou a enviá-los dois a dois.
Deu-lhes poder sobre os espíritos impuros
e ordenou-lhes que nada levassem para o caminho,
a não ser o bastão:
nem pão, nem alforge, nem dinheiro;
que fossem calçados com sandálias,
e não levassem duas túnicas.
Disse-lhes também:
«Quando entrardes em alguma casa,
ficai nela até partirdes dali.
E se não fordes recebidos em alguma localidade,
se os habitantes não vos ouvirem,
ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés
como testemunho contra eles».
Os Apóstolos partiram e pregaram o arrependimento,
expulsaram muitos demónios,
ungiram com óleo muitos doentes e curaram-nos.

sábado, 14 de julho de 2018

Pensamentos Impensados

Animatógrafo
O cinema foi inventado pelos romanos, e a primeira sala chamava-se cine qua non. Houve uma tentativa de uma segunda sala mas não foi avante já que o nome proposto não augurava nada de bom: cine die.

Antecipação
Leio nos jornais que vai realizar-se o ensaio das cerimónias fúnebres para quando a Rainha Isabel morrer.
Acho bem. Até a própria rainha devia participar indo deitada no caixão com a sua carteira-mistério, acenando para os seus súbditos e gritando o que dizia o fadista Alfredo Marceneiro: adeus oh gajada!

Esférica
A bola é redonda é uma redondância.

Bicho carpinteiro
Comparado com Marcelo, o Infante D. Pedro, o das sete partidas, é um sedentário.

Bebam vodka
Sic transit campeonatus mundi. Poderá dizer-se que a Croácia mandou a Rússia para casa?

Botânicas
Deus expulsou Adão por não saber nada de botânica: comeu uma maçã e chamou-lhe um figo.

SdB (I)

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Vídeos dos dias que correm

Mandaram-me este video ontem, por whatsapp. Vale a pena ver, até porque tem 1'30''.

Alguém comentava sabiamente "é que é mesmo isto que andamos a comer". Eu tenho outra teoria para o video - e mesmo que seja disparatada (a teoria, claro) é-me indiferente, porque estes 90 segundos não são patrocinados pela ordem dos nutricionistas. O video não divulga a porcaria que comemos (embora muito do que comemos seja uma porcaria), mas a incongruência de algumas pessoas quanto à alimentação que fazem. 

Vejam e depois diga-me se não tenho razão. Melhor: digam-me se eu tiver razão, porque se não tiver mais vale não me dizerem nada.

JdB




quinta-feira, 12 de julho de 2018

Pensamento Impensado

Novo acordo
Croácia, em inglês, diz-se Croácida.

SdB (I)

Duas Últimas

Estou numa onda nostálgico-kitsch, seguramente. Mas um destes dias falei de Buenos Aires com alguém e veio-me à lembrança uma viagem boa, ainda que enlutada por um roubo infantil.  Não conhecia esta Orquestra Romantica Milonguera com quem me cruzei por puro acaso. Ouvi e gostei. Como dizia Balzac (ou seria Dumas?) a nostalgia é a felicidade de estar triste.

Divirtam-se, ou procurem outros estabelecimentos.

JdB


quarta-feira, 11 de julho de 2018

Pensamento Impensado

Ignorâncias
Marcelo perdeu uma oportunidade de ir à Tailândia, talvez porque, pela primeira vez, houvesse assuntos que não domina: espeleologia e caca de morcego.

SdB (I)

Da claustrofobia

Em 2010 segui, em directo, o resgate dos mineiros chilenos. Dentro do possível, e nos dias anteriores dei atenção ao planeamento, à tecnologia, à organização. Vi a saída do primeiro mineiro e depois fui dormir. Há algumas semanas cruzei-me com um filme sobre esse tema. Nem sempre a ficção ultrapassa a realidade. O filme não acrescentou nada ao que já sabia.

Fui seguindo como pude o resgate dos miúdos tailandeses, assim como do professor. Dentro do possível dei atenção ao planeamento, à tecnologia, à organização. Vi imagens do percurso, vi esquemas do percurso, ouvi e li entrevistas com mergulhadores, espeleólogos, psicólogos, gente que falou de budismo, de infecções, de fé e de coisas técnicas.

A minha claustrofobia - que a tenho um pouco - não é a de um elevador cheio, ou de uma sala com gente a mais. A minha claustrofobia tem a ver com a impossibilidade de me mexer: uma cápsula onde cabe um homem que tem de ficar imóvel, um percurso para sair de um gruta de onde não se pode andar para cima, para os lados nem para trás. Foi por isto, por este horror ao espaço confinado, que não consegui entrar nas pirâmides de Gizé (ou numa delas): entra-se por um corredor e, a partir do momento em que se entra, já é um ponto de não retorno, é sempre em frente até se sair por outro lado. E se quem vai à nossa frente tem um ataque de pânico?

Enfim, tudo está bem quando acaba bem. Daqui a 2 ou 3 anos já poderemos ver tudo num cinema perto de nós.

JdB

terça-feira, 10 de julho de 2018

Poemas dos dias que correm

Desalento

Uma pesada, rude canseira
Toma-me todo. Por mal de mim,
Ela me é cara… De tal maneira,
Que às vezes gosto que seja assim…
É bem verdade que me tortura
Mais que as dores que já conheço.
E em tais momentos se me afigura
Que estou morrendo… que desfaleço…

Lembrança amarga do meu passado…
Como ela punge! Como ela dói!
Porque hoje o vejo mais desolado,
Mais desgraçado do que ele foi…

Tédios e penas cuja memória
Me era mais leve que a cinza leve,
Pesam-me agora… contam-me a história
Do que a minhalma quis e não teve…

O ermo infinito do meu desejo
Alonga, amplia cada pesar…
Pesar doentio… Tudo o que vejo
Tem uma tinta crepuscular…

Faço em segredo canções mais tristes
E mais ingênuas que as de Fortúnio:
Canções ingênuas que nunca ouvistes,
Volúpia obscura deste infortúnio…

Às vezes volvo, por esquecê-la,
A vista súplice em derredor.
Mas tenha medo de que sem ela
A desventura seja maior…

Sem pensamentos e sem cuidados,
Minhalma tímida e pervertida,
Queda-se de olhos desencantados
Para o sagrado labor da vida…

– Manuel Bandeira, in “A cinza das horas”, 1917.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Da escuta do corpo

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, / eu era feliz e ninguém estava morto.

Gosto desta frase de Álvaro de Campos. No tempo em que eu era feliz e ninguém estava morto (a primeira morte impactante surgiu-me numa idade adulta) as receitas para o emagrecimento eram claras - e, arrisco, únicas: comer menos. Lembro-me de raparigas que bebiam sumo de limão em jejum, mas não sei se isso tinha algum efeito vagamente positivo para o efeito pretendido. Estou certo de que faria mal. Comer menos - nada menos e nada mais do que isso.

Na minha memória, foi com Demis Roussos que tudo isto se alterou: a quantidade já não era limitadora - o problema estava nas misturas. O cantor (que não me lembro se emagreceu) afirmava que se podia comer um frango inteiro - desde que não houvesse acompanhamento. Hoje, quem quer emagrecer tem uma panóplia de opções: dietas do paleolítico, em função do horóscopo, do tipo de sangue, assente na proibição de um tipo de alimentos ou na absoluta permissão desses alimentos proibidos, na absoluta troca de horas das refeições, etc. Passados 45 anos de ver, pela primeira vez, gente a beber sumo de limão em jejum, a minha teoria assenta no conservadorismo mais impenitente: comer menos. Mas comer de tudo.

Alguém me diz, no decurso de uma conversa sobre alimentos: o meu corpo está a rejeitar carne... O que faz essa pessoa? Muito naturalmente (porque, lá está, é o corpo a falar) não come carne. O corpo já rejeitara o leite e a pessoa deixara de beber leite. Eu, que tenho um corpo santo, que não rejeita nada a não ser o que não gosto, desconfio desta importância que se dá ao corpo, como desconfio da importância que se dá à opinião de algumas crianças.  

Não sou adepto de seguir o que o corpo diz. Sou mais adepto de dizer ao corpo como se faz. O meu argumento é muito válido, porque tenho esta ideia (pouco científica, reconheço) que estes corpos que falam muito são corpos de vocabulário limitado ou enviesado: rejeitam muitas coisas, como a carne, o leite e alguns vegetais, que são importantes, mas não rejeitam inutilidades gastronómicas como o coco, as tripas, os pezinhos de coentrada ou as cartilagens das aves. Devemos ouvir o nosso corpo? Depende. Ouvir um corpo cheio de intolerâncias é como atribuir a mediação da paz a um colérico.

O corpo deve ter uma voz limitada, porque seguir-se fielmente o que as nossas entranhas dizem é regressar a um certo primitivismo no qual vingavam os impulsos: dormir, comer, e outras coisas de que se fala com parcimónia neste estabelecimento. O corpo deve educar-se a ter hábitos e rotinas saudáveis. Não sou a favor destas teorias modernas de escuta muito activa, mas de uma democracia mais musculada. Ainda lá não estou, infelizmente: o meu corpo vive em regime libertário, na mais absoluta roda livre.

JdB   

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