terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Textos dos dias que correm *

Interroga o nevoeiro, não a clareza

«Interroga a graça, não a ciência; o desejo, não o intelecto; o suspiro da oração, não o anseio de ler; o esposo, não o mestre; Deus, não o homem; o nevoeiro, não a clareza. Interroga não a luz, mas o fogo que inflama todo o ser e o mergulha em Deus.»

Extraio este belíssimo final do “Itinerário da mente para Deus”, de S. Boaventura, o filósofo franciscano do século XIII, amado também por Dante, que o colocará no Paraíso.

A opção que o santo propõe é a de depor os despojos da arrogância intelectual, da soberba da alma, da busca apenas curiosa, para aportar ao abandono entre os braços da graça, à intimidade da oração e da contemplação, à chama do amor.

Um itinerário espiritual que, ainda que não rejeitando a inteligência, distende-se pela via da adesão, da intuição, da pureza de espírito. É, portanto, a proposta de um percurso mais radical e menos “calculado”, mais generoso e espontâneo que envolva toda a pessoa, e não uma só dimensão.

Há um passo que me atrai, até porque resulta algo provocatório: «Interroga o nevoeiro, não a clareza». À primeira vista, com efeito, devemos expor-nos para a luz. Boaventura, ao contrário, recorda-nos que – quando se entra no mistério de Deus –, movemo-nos às apalpadelas, no meio de uma espécie de obscuridade rasgada por lampejos.

É necessário, por isso, reconhecer o nosso limite e a cegueira que gera o infinito divino, contra toda a orgulhosa ilusão de possuir e “explicar” Deus, como pode acontecer ao fiel que modela a divindade à sua imagem e semelhança.

Acreditar é, em consequência, um ato de humildade que se manifesta precisamente na travessia através da névoa, intuindo o relampejar do rosto de Deus.


* P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 21.01.2019

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Das viagens

“Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. ” (Marcel Proust)

***

A frase acima suscita-me lembranças de uma ideia que já aqui aflorei, não sei quando, nem a que propósito, nem com que interesse: a da forma como olhamos para uma cidade em função do estado de espírito que vivemos no momento. Nesse sentido, num período particularmente feliz, Badajoz pode ter uma beleza inesperada, enquanto no extremo oposto desse contínuo Roma pode ser apenas barulhenta e enganadora. Ora, a frase acima não se limita às viagens de turismo, esse sucedâneo do grand tour que, num dada fase da história da Europa, estava vedada aos pobres e que servia para enriquecimento da pessoa, mais do que para exibição da selfie. A viagem de descoberta de que fala Proust aplica-se aos países, aos livros, aos museus - e às pessoas. Um olhar diferente - um olhar novo - permite descobrir coisas novas num poema, na luz de uma aldeia de província, na beleza triste de um stabat mater, no olhar aparentemente feliz de uma rapariga de olhos verdes.    

No entanto, e de certa forma, a frase de Proust colide com o diálogo que Ilsa mantém com Rick em Casablanca, o filme de todos os filmes:

- what about us?
- we'll always have Paris. 

O Paris que eles sempre terão não está aberto a novas descobertas, não é visível desta ou daquela forma em função dos olhos que cada um tem na altura. Dez anos depois, se pudéssemos supor dez anos depois para o casal que se juntou em nome do romance e se separou em nome da liberdade, os olhos de Ilsa são diferentes e os olhos de Rick são diferentes. A guerra acabou, ganharam os bons, algumas lutas não param porque isso significa o desemprego dos heróis. Regressarão ambos a Paris, ao café onde estiveram juntos, à estação de caminho de ferro onde nunca mais se viram, à imagem da cidade luz povoada de tanques pelos nazis. Paris não mudou. Melhor dizendo, mudou para todos, menos para eles. Há viagens que se devem fazer com os olhos de sempre.

JdB 

domingo, 20 de janeiro de 2019

2º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Jo 2,1-11

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
realizou-se um casamento em Caná da Galileia
e estava lá a Mãe de Jesus.
Jesus e os seus discípulos
foram também convidados para o casamento.
A certa altura faltou o vinho.
Então a Mãe de Jesus disse-Lhe:
«Não têm vinho».
Jesus respondeu-Lhe:
«Mulher, que temos nós com isso?
Ainda não chegou a minha hora».
Sua Mãe disse aos serventes:
«Fazei tudo o que Ele vos disser».
Havia ali seis talhas de pedra,
destinadas à purificação dos judeus,
levando cada uma de duas a três medidas.
Disse-lhes Jesus:
«Enchei essas talhas de água».
Eles encheram-nas até acima.
Depois disse-lhes:
«Tirai agora e levai ao chefe de mesa».
E eles levaram.
Quando o chefe de mesa provou a água transformada em vinho,
– ele não sabia de onde viera,
pois só os serventes, que tinham tirado a água, sabiam –
chamou o noivo e disse-lhe:
«Toda a gente serve primeiro o vinho bom
e, depois de os convidados terem bebido bem,
serve o inferior.
Mas tu guardaste o vinho bom até agora».
Foi assim que, em Caná da Galileia,
Jesus deu início aos seus milagres.
Manifestou a sua glória
e os discípulos acreditaram n’Ele.

***

Os nossos corações são ânforas a encher *

Há festa grande, numa casa de Caná da Galileia: as portas estão abertas, como é costume, o átrio está cheio de gente, os convidados parece nunca serem suficientes para a vontade do jovem casal de partilhar a festa, naquela noite de tochas acesas, de canções e de danças.

Ao longo da festa das bodas, que no Antigo Testamento duravam em média sete dias, há um acolhimento cordial até mesmo para a caravana colorida que se pôs a seguir Jesus, subindo desde as aldeias do lago.

O Evangelho de Caná (João 2, 1-11) colhe Jesus nas tramas festivas de um banquete nupcial, no meio das pessoas, enquanto canta, ri, dança, come e bebe, longe dos nossos falsos ascetismos.

Não no deserto, não no Sinai, não no monte Sião, Deus fez-se encontrar à mesa. A bela notícia é que Deus se alia à alegria das suas criaturas, com o vital e simples prazer de existir e amar: Cana é o seu ato de fé no amor humano.

Com efeito, Ele acredita no amor, abençoa-o, sustém-no. Acredita ao ponto de fazer dele a pedra angular, o lugar originário e privilegiado da sua evangelização. Jesus começa a narrar a fé como se narraria uma história de amor, uma história que tem sempre fome de eternidade e de absoluto. O coração, segundo um antigo dito, é a porta dos deuses.

Também Maria participa na festa, conversa, come, ri, aprecia o vinho, dança, mas ao mesmo tempo observa o que acontece à sua volta. O seu olhar atento e discreto permite-lhe ver aquilo que ninguém vê, isto é, que acabou o vinho, ponto de reviravolta da narrativa.

Não é o pão que faltou, não é o necessário à vida, mas o vinho, que não é indispensável, um extra inútil para tudo, exceto à festa ou à qualidade da vida. O vinho é, em toda a Bíblia, o símbolo do amor feliz entre homem e mulher, entre homem e Deus. Feliz e sempre ameaçado.

Não têm mais vinho, experiência que todos fizemos, quando mil dúvidas nos assaltam e os amores são sem alegria, as casas sem festa, a fé sem entusiasmo.

Maria indica o caminho: o que quer que Ele vos diga, fazei-a. Fazei o que diz, fazei o seu Evangelho, tornai-o gesto e corpo, carne e sangue. E então encher-se-ão as ânforas vazias do coração. E a vida transformar-se-á, de vazia a plena, de extinguida a feliz.

Mais Evangelho é igual a mais vida. Mais Deus equivale a mais eu. O Deus em que acredito é o Deus das bodas de Caná, o Deus da festa, do rejubilante amor dançante; um Deus feliz que está do lado do vinho melhor, do perfume de nardo precioso, que está do lado da alegria, que socorre os pobres de pão e os pobres de amor.

Um Deus feliz, que assume o cuidado pelo humilde e poderoso prazer de viver. Também o acreditar em Deus é uma festa, também o encontro com Deus gera vida, traz florescimento de coragem, primavera repetida.


* Ermes Ronchi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 17.01.2019

sábado, 19 de janeiro de 2019

Pensamentos Impensados

Futebóis
O futebol é um jogo de ar livre; no entanto, há equipas que jogam em casa.

Música
Não percebo porque é que o Schubert não acabou a sinfonia chamada Incompleta quando, ainda por cima, estava em adiantado estado de composição.

Votações
Sou adepto do braço no ar, desde que não seja a Rosa Mota.

Quedas
Espera-se que a Torre de Pisa não caia; já tempos a Torre do Tombo.

Linguajares
A frase de Mário Soares mon ami Miteran foi equiparada a Despacho de Pronúncia.

Datas
O sal e o açúcar não têm prazo de validade, mas convém comê-los antes que morra.

SdB (I)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Texto dos dias que correm

NO SERVIÇO (voz interior)

O que eu faço é servicinho à toa. Sem nome nem dente. Como passarinho à toa. O mesmo que ir puxando uma lata vazia o dia inteiro até de noite por cima da terra. Mesmo que um caranguejo se arrastando pelo barranco à procura de água vem um boi e afasta o rio dele com as patas para sempre. O que eu ajo é tarefa desnobre. Coisa de nove noves fora: teriscos, nhamenhame, de-réis, niilidades, oco, borra, bosta de pato que não serve nem pra esterco. Essas descoisas: moscas de conas redondas, casulos de cabelo. Servicinho de pessoa Quarta-feira que sai carregando uma perninha de formiga dia de festa. De modo que existe um cerco de insignificâncias em torno de mim: atonal e invisível. Afora pastorear borboletas, ajeito éguas pra jumento, ensino papagaio fumar, assobio com o subaco. Serviço sem volume nem olho: ovo de vespa no arame. Tudo coisinhas sem veia nem laia. Sem substantivo próprio. Perna de inseto, osso de morcego, tripa de lambari. Serviço com natureza vil de ranho. Tudo sem pé nem cunhado. Tem hora eu ajunto ciscos debaixo das portas onde encontro escamas de pessoas que morreram de lado. Meu trabalho é cheio de nó pelas costas. Tenho de transfazer natureza. À força de nudez o ser inventa. Água recolhendo-se de um peixe. Ou, quando estrelas relvam nos brejos. No meu serviço eu cuido de tudo quanto é mais desnecessário nessa fazenda. Cada ovo de formiga que alimenta a ferrugem dos pregos eu tenho de recolher com cuidado. Arrumo paredes esverdeadas pros caramujos foderem. Separo os lagartos com indícios de água dos lagartos com indícios de pedra. Cuido das larvas tortas. Tenho de ter em conta o limo e o ermo. Dou comida pra porco. Desencalho harpa dos brejos. Barro meu terreiro. Sou objeto de roseiras. Cuido dos súcubos e dos narcisos. E quando cessa o rumor das violetas desabro. Derrubo folhas de tarde. E de noite empedreço. Amo desse trabalho. Todos os seres daqui têm fundo eterno.

Manoel de Barros, Livro de pré-coisas. Roteiro para uma excursão poética no Pantanal

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Texto tirado daqui

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Vai um gin do Peter’s ?

NÁUTILO - PROEZA MATEMÁTICA NA NATUREZA E COQUELUCHE NA ARTE

Os avanços extraordinários decorrentes dos Descobrimentos, lançados no século XV por portugueses e espanhóis, trouxeram enorme progresso às ciências naturais e humanas, a partir da descoberta de novas civilizações com outros conhecimentos e novas paisagens, habitadas por fauna e flora desconhecidas.

As novidades oriundas dessas latitudes longínquas impregnaram também a arte e os hábitos dos europeus, surgindo as colecções/gabinetes de curiosidades e maravilhas ou, por exemplo, a moda das pérolas e o gosto pelos jardins povoados de espécies exóticas. Daí foi um instante para os exemplares mais bizarros e fotogénicos começarem a posar para as telas dos pintores, elevados a protagonistas das naturezas-mortas, como que embalsamados pela pintura.  

Quando se aguçou a busca pelos seres mais sublimes, a concha do náutilo impôs-se. Marcada pela configuração em espiral logarítmica, começou por ser baptizada de «espiral maravilhosa» (spira mirabilis) pelo seu primeiro estudioso – Jacob Bernoulli (1654-1705). Mais tarde, ganhou o estatuto de «espiral dourada», reveladora do número de ouro ou número perfeito e integrada no capítulo da «geometria sagrada» (sacred geometry). A multiplicação de designações superlativas denuncia o fascínio que tem exercido sobre estudiosos e artistas. A sua curva envolve uma coreografia matemática sofisticada, formada por todas as rectas desse plano curvo, que se organizam num ângulo constante passando por um ponto fixo do mesmo plano:

Na natureza, a «spira mirabilis» é visível no interior seccionado da concha do náutilo em aragonite nacarada [madrepérola], nos ciclones tropicais e na Via Láctea. Estudos matemáticos mais recentes assinalam serem raras as «golden ratio» perfeitas na casca do náutilo.   

Exercício exploratório da «Sacred Geometry of the Nautilus».

Willem Kalf, exímio na execução de naturezas-mortas, assinou uma das representações mais prodigiosas dessa geometria perfeita gravada na carapaça de um molusco sub-aquático do Pacífico:

«Natureza-morta com taça de náutilo», Willem Kalf, 1662, Museu Thyssen-Bornemisza, Madrid.
A profusão de peças permitia ao pintor exibir os seus dotes artísticos.  

Outra exibição linda chegou-nos pelo pincel do espanhol frei Juan Baptista Maíno, num óleo barroco à maneira de Caravaggio que foi pioneiro a imortalizar gente comum na tela. O painel dedicado à «Adoração dos Magos» (1612-14) pelo artista da corte de Felipe IV é uma obra-prima de detalhes. Ali brilham panejamentos em texturas sumptuosas, a subtileza de uma luz que anima um hábil jogo de claros-escuros, a mímica poderosa de personagens com um movimento de mãos invulgarmente expressivo e as peças que transportam as dádivas dos Magos. É nessa função que o náutilo contracena, depositário da mirra oferecida pelo Rei de etnia africana. A sua concha resplandece com incrustações do mundo natural implantadas a ouro, confirmando a beleza da interacção entre o melhor da natureza e o ápice do labor humano. Um labor que assim presta homenagem ao esplendor da criação, enquanto os Magos se inclinam perante o Criador:

Pormenor do painel de Maíno com o náutilo à esquerda e o pequeno Salvator Mundi à direita.

No desfile dos Reis: o mais velho, ajoelhado, leva um cálice dourado. O segundo, com um incensário mais esguio, mas não menos rico, debruça-se sobre o Bebé de caracóis ruivos ainda por domar, que parece brincar como todos os pequeninos tocando em tudo com o indicador; porém, não prescinde do gesto próprio do Salvator Mundi (cuja representação mais espantosa será a de Leonardo, leiloada o ano passado e devolvida às Galerias Uffizi, de Florença – ref. no gin de 6 de Dezembro de 2017), com dois dedos da mão direita levantados para abençoar a humanidade. O terceiro segura o náutilo como uma jóia. 

Na tela total assoma uma cena muito concentrada da Natividade, onde cabem os pais e o Filho, os Magos, alguns pajens, um pastor e a tal profusão de símbolos. Vale a pena explorar o painel de Maíno, ao pormenor, através do link disponível no portal do Prado –  https://www.museodelprado.es/en/the-collection/art-work/the-adoration-of-the-magi/3f1f4d63-0476-4ac0-904f-776713defe78.

Painel do quadríptico original do altar-mor da Igreja do Convento Dominicano de S.Pedro Mártir, em Toledo.
A sua execução foi retardada pela entrada de Maíno na Ordem Dominicana, a meio dos trabalhos (1613).
Anos depois, mudou-se para Madrid como tutor do futuro rei Felipe IV.
Na corte, ficou conhecido pelos retratos-miniatura e pelo papel decisivo a lançar novos artistas,
onde se distinguiu Diego Velázquez, cujo acesso à família real teve o respaldo de frei Maíno.

Naquele recanto aconchegado de uma gruta sem tecto e abaixo do nível do solo, o céu marca presença da forma mais festiva através da luz quente da estrela que ilumina todo aquele espaço subterrâneo como o foco da câmara de filmar, pondo em evidência a estranheza da homenagem de VIP’s a um simples bebé. Um mistério que está muito para lá do alcance das palavras e ganha sentido de cada vez que o rumo da história se inclina em favor de um Bem, que parecia inalcançável. É o caso da boa notícia chegada do Paquistão, sobre os avanços no intrincado processo de Asia Bibi (1), condenada por ser cristã. Há dias, veio a lume o abaixo-assinado de mais de 500 clérigos muçulmanos paquistaneses a defender a libertação de Bibi, para honrar o sentido mais profundo do Islão. A designada «Declaração de Islamabad» foi publicada no Domingo de Reis – numa feliz coincidência de calendário – e pede uma resolução rápida e justa para o processo de Bibi, em risco de vida, apesar de ter sido ilibada pelo Supremo, por continuar impedida de sair do país. Aquele texto lança uma esperança que vai além do caso da pobre camponesa, exigindo respeito pelas minorias de outros credos religiosos, em especial pelos cristãos, que são o alvo preferido dos fundamentalistas maometanos. Declara-se, com frontalidade: «matar sob o pretexto da religião é contrário aos preceitos do Islão»!

A corajosa «Declaração de Islamabad» visa pôr termo às perseguições religiosas perpetradas em nome da «lei da blasfémia», que vitimou Asia Bibi e cristãos menos conhecidos. [portal da AIS] 

Concluindo com a simbologia dos presentes de Melchior, Gaspar e Baltasar, recordo as palavras lúcidas de Bento XVI, a devolver actualidade à desproporção e aparente inadequação das ofertas valiosíssimas doadas a uma pobre família da Judeia. Talvez o significado da visita, em si, se descortine, como porta-vozes das gentes de boa-vontade em busca do Deus que vem ao encontro do ser humano e quer ampliar infinitamente o perímetro do pequeno mundo judaico. Mas, à parte desse salto qualitativo, que sentido fez – e faz – doar ouro, incenso e mirra (2) ? «Sem dúvida, não são dons que correspondem às necessidades primárias ou quotidianas. Naquele momento, a Sagrada Família certamente teria tido mais necessidade de algo diferente do incenso e da mirra, e nem sequer o ouro podia ser-lhe imediatamente útil. Mas estes dons têm um profundo significado: são um acto de justiça. Com efeito, segundo a mentalidade em vigor nessa época no Oriente, representam o reconhecimento de uma pessoa como Deus e Rei: ou seja, são um acto de submissão. Querem dizer que a partir daquele momento os doadores pertencem ao soberano e reconhecem a sua autoridade.»

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
____________________________________

(1)   Na continuação do gin postado a 7 de Novembro de 2018.
(2)   Na tradição cristã, é comum associar-se o ouro à realeza e sabedoria de Jesus; o incenso, à sua divindade e ao poder da oração; a mirra, à sua humanidade e ao valor de todo o sacrifício/entrega em favor do próximo. 

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Avareza *

Pouco havia em Celeste que se diferenciasse da generalidade das mulheres. Tinha uma altura média, um beleza corrente, umas mãos equilibradas e de uma elegância quase corriqueira, um cabelo castanho muito claro que não se destacava por nada. No entanto, era dona de uns olhos azuis claros – claríssimos, mais precisamente – quase como se Deus quisesse que se assemelhassem ao Céu ou se a natureza tivesse olvidado um pouco mais de cor naquela transparência. Eram de uma estranha beleza – talvez pela sua raridade.

Num dia de Março, a tarde punha-se num calor manso enquanto o sol se escondia por trás dos prédios ao longe. Celeste cruzou-se no escritório com Ricardo Pires, o novo director financeiro, um profissional alto e esguio com umas mãos nervosas e um olhar irrequieto por trás de uns óculos sem história. Era o primeiro encontro

boa tarde, como tem passado
bem muito obrigada, senhor doutor

e o homem dos números não disfarçou o fascínio por aqueles olhos que eram de uma transparência tal que se poderia ver a alma através deles. A fixação era quase incomodativa, não fosse a Celeste ter sentido um ligeiríssimo aumento do batimento cardíaco, fruto daquelas coisas que a ciência não explica e a experiência chama nomes diferentes.

Alguns meses depois cruzaram-se num centro comercial, ela com um conjunto novo de atoalhados adquiridos em oportunidades imperdíveis, e ele com o Eurico o Presbítero debaixo do braço, numa edição anotada e antiga. Já se conheciam bem e o convite

Posso convidar-te para jantar, Celeste?
Claro, gosto muito

surgiu natural e esperado, como quem não se espanta com o pôr-do-sol ainda que se deixe fascinar por ele.

O Dr. Ricardo Pires revelou-se um conversador nato, culto, com um mundo extenso vivido fora das paredes de um escritório e da secura desinteressante dos gráficos, e citou Herculano

10 anos... Sabes tu, Hermengarda, o que é passar 10 anos amarrado ao próprio cadáver? Sabes tu o que são mil e mil noites consumidas a espreitar em horizonte ilimitado a estrela polar da esperança e, quando no fim, os olhos cansados e gastos se vão cerrar na morte, ver essa estrela reluzir um instante e depois desfechar do céu nas profundezas do nada?

antes de a brindar com um fetuccine de mexilhões que perfumou com um xerez superior e com umas ervas aromáticas numa precisão de alquimista.

Entre adultos pode haver um momento, um instante, um ponto – talvez se possa chamar de não retorno – que separa o afastamento físico e a proximidade. Transposta essa porta - que é um levíssimo roçar de mãos, o contacto dos corpos numa passagem estreita, dois olhares que se fixam na embriaguez de um desejo – não há regresso possível e a expressão

há-de ser o que Deus quiser

é uma frase não descartável no domínio das possibilidades audíveis.

No dia seguinte, Celeste bebericava uma tisana com os olhos postos num folha diferente das oportunidades imperdíveis. Sabes Adília,

e a Adília a abanar a cabeça a garantir que sim, que sabia

há mais para além do sentido vulgar que damos às coisas, das definições a que fomos habituadas ao longo de séculos sem fim. Agarramo-nos a conceitos,

e a Adília num constante vaivém de cabeça, que sim, que sabia

mas nem tudo é assim. O que achei do Dr. Ricardo Pires? Um homem culto, que cozinha como ninguém, que tem um olhar irrequieto e viajante. Um homem à sua maneira sedutor. Mas, na escuridão de uma cama larga e à luz de uma vela ténue, revelou-se. E sabes o que achei?

e a Adília a responder que sim, que continuava a saber

Naquele quarto rico e bem decorado achei-o um homem avaro. Avareza, foi a palavra que me ocorreu. Não a do dinheiro ou dos bens materiais, como aprendemos. A ausência da generosidade física, da retribuição da carícia, do altruísmo sensual. Avareza, Adília. Avareza. Isso também é pecado?

JdB

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* publicado originalmente em 15.03.2010

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Duas Últimas

Mão amiga mandou-me o vídeo e a descrição abaixo. Conhecia a música - que acho muito bonita - não sabia nada do instrumento. Em bom rigor, parece-me que o instrumento se chama theremin, e não teremim, mas isso é irrelevante. Importante é a "mecânica" do instrumento e a sonoridade, que é fantástica. Espero que gostem.

JdB

***

Nesta orquestra há uma senhora que toca um instrumento musical que se chama TEREMIM. Trata-se de um instrumento Quântico e é tocado apenas com a energia das mãos. Somente 3 países no mundo têm escolas de música que ensinam a tocar TEREMIM: Rússia, Japão e Irlanda.

O som é Belíssimo! Imperdível!!!

domingo, 13 de janeiro de 2019

Festa do Baptismo do Senhor

EVANGELHO – Lc 3,15-16.21-22
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
o povo estava na expectativa
e todos pensavam em seus corações
se João não seria o Messias.
João tomou a palavra e disse-lhes:
«Eu baptizo-vos com água,
mas vai chegar quem é mais forte do que eu,
do qual não sou digno de desatar as correias das sandálias.
Ele baptizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo».
Quando todo o povo recebeu o baptismo,
Jesus também foi baptizado;
e, enquanto orava, o céu abriu-se
e o Espírito Santo desceu sobre Ele
em forma corporal, como uma pomba.
E do céu fez-se ouvir uma voz:
«Tu és o meu Filho muito amado:
em Ti pus toda a minha complacência».

sábado, 12 de janeiro de 2019

Pensamentos Impensados

Cuidados
S. José gritava: Oh Emanuel! Vem para dentro que ainda te constipas.

Incêndios
Elias subiu aos céus num carro de fogo; Elias seria bombeiro?

Trajes
A vestimenta que se usa durante o apagar de incêndios chama-se fogos-fatos.

Cruzes canhoto
Alvaro Cunhal instalou no seu automóvel um GPS, mas pouco tempo o usou: dizia-lhe para voltar à direita e ele embirrava.

Navegações
Vasco da Gama, quando saiu a barra, escreveu no GPS caminho marítimo para a Índia e o aparelho informou: siga por aí abaixo durante seis meses depois vire à esquerda e siga por aí acima.

Nova contagem
As pessoas da minha idade já não fazem anos, fazem séculos. Por exemplo: que idade tens? Tenho 93% do século.

SdB (I)

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Poema para o dia que corre

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino.
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa.
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Duas Últimas

Provavelmente já o referi neste estabelecimento: a minha relação com o ballet moderno é fantástica desde que saiba que música vão tocar. Isto é, não me importo - até posso gostar - da modernidade da dança, mas não consigo gostar da coreografia, por mais fascinante que possa ser, se a música me desagradar. 

Um destes dias vi na televisão uma coreografia de Maurice Béjart sobre (será assim que se diz) a  9ª Sinfonia de Beethoven. Achei fascinante. O primeiro fascínio é este: como é que os dançarinos se lembram da complexidade da coreografia? Fica gravada em imagem e copiam? Se não há partitura nem registo escrito sobre o que devem fazer e quando... E depois, imagino que os dançarinos contam uma história: e que história é essa? O que leu Béjart da última sinfonia de Beethoven?

Deixo-vos com o 2º andamento, porque não consegui encontrar o 3º. Espero que gostem, como eu gostei.

JdB

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Poemas dos dias que correm

Kyoto, Novembro de 2018

Hino à Solidão

Diz-se que a solidão torna a vida um deserto;
Mas quem sabe viver com a sua alma nunca
Se encontra só; a Alma é um mundo, um mundo
                                                                [aberto
Cujo átrio, a nossos pés, de pétalas se junca.

Mundo vasto que mil existências povoam:
Imagens, concepções, formas do sentimento,
— Sonhos puros que nele em beleza revoam
E ficam a brilhar, sóis do seu firmamento.

Dia a dia, hora a hora, o Pensamento lavra
Esse fecundo chão onde se esconde e medra
A semente que vai germinar na Palavra,
Cantar no Som, flores na Cor, sorrir na Pedra!

Basta que certa luz de seus raios aqueça
A semente que jaz na sua leiva escondida,
Para que ela, a sorrir, desabroche e floresça,
De perfumes enchendo as estradas da Vida.

Sei que embora essa luz nem para todos tenha
O mesmo brilho, o mesmo impulso criador,
Da Glória, sempre vã, todo o asceta desdenha,
Vivendo como um deus no seu mundo interior.

E que mundo sublime, esse em que ele se agita!
Mundo que de si mesmo e em si mesmo criou,
E em cuja criação o seu sangue palpita,
Que não há deus estranho aos orbes que formou.

Nem lutas, nem paixões: ideais serenidades
Em que o Tempo se esvai sob o encanto da Hora...
O passado e o porvir são ânsias e saudades:
Só no instante que passa a plenitude mora.

Sombra crepuscular, que a Noite não atinge,
Nem a Aurora desfaz: rosicler e luar,
Meia tinta em que a Alma abre os lábios de Esfinge,
E o seu mistério ensina a quem sabe escutar.

Mas então, inundando essa penumbra doce,
De não sei que sublime esplendor sideral,
Como se a emanação dum ser divino fosse,
Deixa no nosso olhar um reflexo imortal.

Na vertigem que a vida exalta e desvaria,
Pára alguém para ouvir um coração que bate
No seio mais formoso, o olhar que se extasia
Vê o mundo que nele em ânsias se debate?

É só na solidão que a alma se revela,
Como uma flor nocturna as pétalas abrindo,
A uma luz, que é talvez o clarão duma estrela,
Talvez o olhar de Deus, de astro em astro caindo...

E dessa luz, a flor sem forma, há pouco obscura,
Recebe o seu quinhão de graça e de pureza,
Como das mãos do artista, animando a escultura,
O mármore recebe a sua alma — a Beleza.

Se sofrer é pensar, na paz do isolamento,
Como dum cálix cheio o líquido extravasa,
A Dor, que a Alma empolgou, transborda em
                                                          [pensamento,
E a pouco e pouco extingue o fogo em que se
                                                                   [abrasa.

Como a montanha de oiro, a Alma, em seu
                                                             [mistério,
À superfície nunca o seu teor revela;
Só depois de sondado e fundido o minério
Se conhece a riqueza acumulada nela.

Corações que a Existência em tumulto arrebata!
Esse oiro só se extrai do minério candente,
No silêncio, na paz, na quietação abstracta,
Das estrelas do céu sob o olhar indulgente...

António Feijó, in 'Sol de Inverno'

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Textos dos dias que correm

O meu nome é paciência

«Há quem diga que no Paraíso, Deus chama cada eleito com o nome de uma virtude. Não poderá chamar-me Esperança: não esperei nenhuma alegria nem na Terra nem no Céu. Nem Fé: não estive certa. Nem Caridade: amei Deus e o próximo com parcimónia. Nem Generosidade: contei, pesei e medi tudo.

Nem Zelo: não tentei conquistar. Nem Pobreza: comprazo-me no meu bem-estar. Nem Humildade: comprazo-me dos meus pensamentos. Nem Sinceridade: não sou verdadeira. Nem Ciência: não tenho memória. Nem Piedade: não tenho ardor. O nome será o do burro: Deus chamar-me-á Paciência.»

A citação é hoje um pouco longa, mas as palavras da poetisa espiritual francesa Marie Nöel (1883-1967) no seu “Diário” secreto são tão límpidas, que não exigem longos comentários.

Ter a virtude do animal mais desprezado, mas também mais útil e simples, é na verdade uma qualidade importante que arrasta consigo outras virtudes de maneira implícita.

Numa sociedade como a nossa, que vive com frenesim, que não sabe esperar, que quer tudo “em tempo real”, que pragueja se está numa fila e o outro não se despacha, que “não tem tempo”, o convite à paciência pode parecer uma extravagância “de chinês” que não tem nada que fazer, como costuma dizer-se.

Em vez disso, todavia, seria preciso mais pensar naquilo que um escritor francês mais célebre, Honoré de Balzac, afirmou num dos três contos das “Ilusões perdidas” (1837-43): «A paciência é aquilo que no homem mais se assemelha ao procedimento que a natureza usa nas suas criações».

Para fazer um bebé são precisos nove meses e para escrever uma obra-prima talvez décadas. Não entremos neste ano novo querendo tudo e agora, mas entreguemo-nos à paciência que conhece os ritmos e os tempos da vida, e por isso gera serenidade e confiança.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins 
Publicado em 07.01.2019

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