segunda-feira, 15 de julho de 2019

Textos dos dias que correm

«Espiritual sim, religioso não»: Tendência continua a crescer, sobretudo nos jovens

Atualmente são numerosos aqueles que afirmam ter interesses “espirituais”, mas não são se declaram “religiosos”, ou seja, ligados a uma religião, e desejam viver a sua espiritualidade privadamente, sem compromissos com qualquer instituição.

O fenómeno está espalhado em particular entre os jovens. A religião não tem quase nenhum influxo na sua vida. Na sua escala dos valores, a religião é considerada um assunto pessoal, e não ocupa sequer o primeiro lugar.

No primeiro lugar colocam os problemas “seculares”, como o bem-estar, a família, o tempo livre, etc. E mesmo aqueles que estão em busca, já não se dirigem à Igreja, mas preferem encaminhar-se para aquilo que é chamado “o mercado das religiões”, com particular atenção às do mundo oriental asiático.

O alemão Detlef Pollack, sociólogo das religiões, observa que o fenómeno não compreende a maioria das pessoas, mas está em expansão contínua. Tudo isto constitui um grande desafio para a Igreja.

«Espiritual sim, religioso não»: é a resposta à pergunta de fundo que regressa continuamente na vida de todos os dias. Em particular os adolescentes são os mais relutantes em comprometerem-se nas coisas respeitantes à religião e na pertença confessional.

Uma sondagem [na Alemanha] do ano passado referente ao ensino religioso e ético, dava os seguintes resultados: 52% acredita em Deus, mas só 22% se declara religioso, enquanto que quase o dobro se define simplesmente «crente».

De acordo com o sociólogo, o facto de as pessoas se definirem “espirituais”, e já não “religiosas”, não é um fenómeno de massa. Pollack evoca vários estudos segundo os quais entre 6 e 13% dos indivíduos na Alemanha diz ser só espiritual mas não religioso. Trata-se de uma minoria, mas que ganha consenso sobretudo entre os jovens.

Os motivos, continua o especialista, dependem dos muitos matizes do conceito de “religião”: a maior parte pensa no cristianismo e nas grandes (ainda) Igrejas. O ir à igreja e os dogmas estão aqui estreitamente ligados à fé em Deus.

«A distinção entre “espiritual” e “religioso” exprime a tentativa de colher formas de religiosidade que não têm uma conotação eclesial», assinala. Com efeito, as normas respeitantes à fé ditadas do alto gozam de boa reputação só num número cada vez menor de pessoas. A pessoa quer sentir-se sobretudo livre e realizar escolhas individuais e pessoais. Trata-se de uma tendência percetível a múltiplos níveis.

 A expressão chave que neste contexto é muitas vezes mencionada é a de “mercado”, ou “mosaico das religiões”. De facto, sobretudo as religiões do Extremo Oriente, como o budismo ou as formas de meditação ou de espiritualidade de países longínquos, encontram no Ocidente um grande interesse. O “mercado das religiões” torna-se mais variado. Isto, todavia, observa Pollack, não deveria ocultar o facto de que «o protagonista principal no mercado das religiões é constituído ainda pelas Igrejas».



Crentes conscientes de si

A atitude de autoconsciência diante das religiões não é um fenómeno novo. Já nos inquéritos dos anos 70 se notava uma alta percentagem de inquiridos que se definiam católicos, mas com a cláusula «à minha maneira».

É evidente uma mudança de perspetiva em relação à religião: os crentes de hoje consideram-na sobretudo uma questão pessoal – é a pessoa a colocar-se no centro do interesse religioso; isto, naturalmente cria uma tensão com os organismos como as Igrejas, que se consideram possuidoras de importantes mensagens, e pedem a docilidade do seu “rebanho”.

A raiz desta visão pessoal da fé remonta, de acordo com o perito, à Idade Média e ao tempo de Reforma. Os buscadores religiosos e os místicos da medievalidade tardia dedicavam-se, individualmente, à procura de Deus no exterior dos percursos tradicionais.

Lutero, sobretudo, coloca a relação individual com Deus no centro da sua teologia. O individualismo receberá depois forte impulso com o pietismo, que separou a piedade pessoal dos dogmas e da metafísica, e com o iluminismo, que colocou no centro a decisão pessoal em relação ao estado e à religião.

Na sequência da industrialização e do concomitante aumento do bem-estar social, da educação e da certeza do Direito, a principal preocupação das pessoas já não se coloca diretamente na sua sobrevivência.

As exigências pessoais tornam-se cada vez mais afirmadas relativamente ao estado e à opinião pública. No seguimento desta forte focalização sobre o eu, emerge o desejo da autenticidade.
As pessoas já não se querem submeter, mas permanecer autênticas, e isto reflete-se também na religião.



Um mercado variado de religiões

Por estes motivos, muitos voltam-se com interesse para o “mercado das religiões”. As fronteiras entre religiões, técnicas espirituais e práticas de bem-estar são eliminadas. Cada pessoa pode também procurar escolher o melhor para si, fazer opções personalizadas; o ioga, por exemplo, é uma perspetiva religioso-espiritual holística, mas em muitos casos concentra-se só sobre elementos desportivos e relaxantes.

A visão capitalista também tem um papel: muitos setores do esoterismo ou da espiritualidade prometem a descoberta de fontes ocultas ou potencialidades por expressar pelo eu, seja do ponto de vista profissional, seja privado. Segundo Pollack, também isto «não é estranho à religião». No fim de contas, trata-se sempre de um meio para reforçar o eu e os recursos neles contidos.

Estas tendências têm conotações muito diferentes nas pessoas que são religiosamente interessadas. Os esotéricos convictos representam uma exceção. A necessidade de espiritualidade é, todavia, muito sentida, e as Igrejas procuram responder-lhe, indagando nas fontes espirituais do cristianismo, e oferecendo percursos espirituais. O objetivo é atrair as pessoas que se distanciaram das formas tradicionais da fé.



Uma espada de dois gumes

Esta estratégia é, pelo menos em parte, frutuosa: com efeito, a espiritualidade, sobretudo na Igreja católica, tem um papel importante. Um estudo encomendado pela arquidiocese alemã de Colónia, o ano passado, revelou que os componentes espirituais podem ter um «grande peso» no que respeita à força de vinculação à Igreja.

Pollack considera que, no processo de individualização e de desaparecimento das fronteiras religiosas, a secularização tem um papel importante. Com as instituições religiosas permanece apenas uma relação muito frágil, com laços relutantes. Isto acontece não só nas Igrejas, mas também nos partidos e no estado, assim como nos próprios grupos esotéricos, cujo núcleo duro é frequentemente muito pequeno.

Em relação às Igrejas, a maior parte dos seus membros é distante. Apreciam, contudo, os valores religiosos para a educação dos filhos, mas para o resto mostram pouco interesse por Deus e pela vida após a morte. São mais importantes os âmbitos seculares: uma família que funcione, um trabalho gratificante, e a realização de si no tempo livre.

A religião nos vários âmbitos da vida é só um aspeto entre os outros, e muitas vezes não ocupa sequer, entre estes, o primeiro lugar. A vida secular oferece um número tão grande de possibilidades, que a atenção é desviada dos problemas religiosos. Para os mais jovens, até a política é mais importante do que a religião.

As pessoas que se definem “espirituais”, mas não “religiosas”, são incapazes de se opor à tendência geral da secularização. Afirmam menos do que os outros que se sentem «uma só coisa com o divino». Raramente vão à igreja. Espiritualidade significa por isso sobretudo que a religiosidade se desvanece e se torna vaga. Esta forma de religiosidade, salienta Pollack, tem pouco influxo sobre estilos de vida pessoal, sobre a educação dos filhos e sobre as opções eleitorais políticas.

Para as Igrejas, esta situação complexa constitui um duplo desafio: estar próxima com novas propostas que suscitem o interesse inclusive entre aqueles que estão à procura, mas que até agora permanecem longe da Igreja. Mas depois devem convencê-los com os conteúdos cristãos, e vinculá-los a si de maneira duradoura. De outro modo, a inclusão na Igreja não será mais do que um breve interlúdio.


Christoph Paul Hartmann
In Settimana News
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 12.07.2019

domingo, 14 de julho de 2019

15º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 10,25-37

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
levantou-se um doutor da lei
e perguntou a Jesus para O experimentar:
«Mestre,
que hei-de fazer para receber como herança a vida eterna?»
Jesus disse-lhe:
«Que está escrito na lei? Como lês tu?»
Ele respondeu:
«Amarás o Senhor teu Deus
com todo o teu coração e com toda a tua alma,
com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento;
e ao próximo como a ti mesmo».
Disse-lhe Jesus:
«Respondeste bem. Faz isso e viverás».
Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus:
«E quem é o meu próximo?»
Jesus, tomando a palavra, disse:
«Um homem descia de Jerusalém para Jericó
e caiu nas mãos dos salteadores.
Roubaram-lhe tudo o que levava, espancaram-no
e foram-se embora, deixando-o meio morto.
Por coincidência, descia pelo mesmo caminho um sacerdote;
viu-o e passou adiante.
Do mesmo modo, um levita que vinha por aquele lugar,
viu-o e passou adiante.
Mas um samaritano, que ia de viagem,
passou junto dele e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão.
Aproximou-se, ligou-lhe as feridas deitando azeite e vinho,
colocou-o sobre a sua própria montada,
levou-o para uma estalagem e cuidou dele.
No dia seguinte, tirou duas moedas,
deu-as ao estalajadeiro e disse:
‘Trata bem dele; e o que gastares a mais
eu to pagarei quando voltar’.
Qual destes três te parece ter sido o próximo
daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?»
O doutor da lei respondeu:
«O que teve compaixão dele».
Disse-lhe Jesus:
«Então vai e faz o mesmo».

***

Tocar as coisas de Deus no templo, e não tocar as criaturas de Deus na estrada *

A extraordinária inteligência comunicativa de Jesus: desvela o coração profundo, inventando uma história simples, que todos podem compreender, os professores como as crianças!

As parábolas são narrativas que provêm da voz viva de Jesus, é como escutar o murmúrio da fonte, o momento inicial, fresco, espontâneo do Evangelho. Representam o cume mais alto e genial, o mais acabado da sua linguagem, não a exceção. Para Ele, falar em parábolas era a norma. Ensinava não por conceitos, mas por imagens e histórias, que libertam e não constrangem.

Um homem descia de Jerusalém para Jericó (cf. Lucas 10, 25-37). Uma das histórias mais belas do mundo. Um homem descia, e nem um adjetivo: judeu ou samaritano, justo ou injusto, rico ou pobre, pode ser até um desonesto, um bandido: é o homem, cada homem!

Não sabemos o seu nome, mas sabemos da sua dor: ferido, golpeado, terror e sangue, rosto por terra, não se consegue recuperar por si só. É o homem, é um oceano de homens, de pobres derrubados, humilhados, bombardeados, naufragados, bolsas de humanidade ensanguentada em cada continente. O mundo inteiro desce de Jerusalém para Jericó, sempre.

O sacerdote e o levita, os primeiros que passam, têm diante de si um dilema: transgredir a lei do amor ao próximo, ou a aquela do ficarem puros, evitando o contacto com o sangue. Escolhem a coisa mais cómoda e mais fácil: não tocar, não intervir, passar em volta do homem, e… permanecer puros. Pelo menos exteriormente. Enquanto que por dentro, o coração adoece.

Tocam as coisas de Deus no templo, e não tocam as criaturas de Deus na estrada. A sua religião é meramente de fachada, e não fé que acende a vida e as mãos. A mensagem é forte: gestos e objetos religiosos, ritos e regras “sagradas” podem obscurecer a lei de Deus, fingir a fé que não há, e usá-la a bel-prazer. Pode acontecer também a mim, se troco a alma do Evangelho, o seu fogo, por pequenas normas e gestos astutos.

Quem faz emergir a alma profunda é um herege, um estrangeiro, um samaritano em viagem: vê-o, tem compaixão dele, faz-se próximo. São termos de uma carga infinita, belíssima, transbordam humanidade. A compaixão vale mais do que regras cultuais ou litúrgicas (do sacerdote e do levita); mais do que regras doutrinais (o samaritano é um herege); supera as leis étnicas (é um estrangeiro); ignora as distinções moralistas: socorro aquele que o merece, os outros não.

A divina compaixão é assim: incondicional, assimétrica, unilateral. No centro do Evangelho, uma parábola, um homem. E o sonho de um mundo novo, que estende as suas asas aos primeiros três gestos do bom samaritano: viu, teve compaixão, fez-se próximo.


* Ermes Ronchi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 11.07.2019

sábado, 13 de julho de 2019

Pensamentos Impensados *

Margaret Thatcher disse, e cito de cor: o socialismo dura até se acabar o dinheiro dos outrosEla devia chamar-se Teacher.

Arte contemporânea é uma definição bastante vaga. Tenho uma neta com 6 anos que faz uns rabiscos que, pelo menos, são contemporâneos.

Há em Tomar o Museu do Fósforo que, penso, deve ter 2 administradores: um nomeado pelas cabeças e outro nomeado pelas lixas.

Um dia tive comichão no cotovelo direito e só consegui coça-lo com a mão esquerda; felizmente sou canhoto.

Disseram-me que para bom funcionamento dos intestinos se devia comer fibra; comi umas meias de fibra de vidro e fizeram-me mal; a seguir comi fibra óptica e o resultado foi pior. Quem me deu este conselho foi um madeirense que, se calhar, quis dizer "febra". É o que vou comer.

Se eu tiver a revista CARAS encadernada posso dizer que tenho um "facebook"?

Há tempos perguntei por que é que os ursos não comem pinguins; pela simples razão que os ursos vivem no Árctico e os pinguins na Antárctida.


SdB (I)

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* publicado originalmente a 9 de Abril de 2011

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Textos dos dias que correm

Vincent Lambert, inumanidade, eternidade
Estou a velar a minha mãe. São, talvez, as últimas horas da sua longa jornada. Extingue-se lentamente por causa da fome e da sede. Deixou de conseguir engolir. Ontem teve uma crise muito forte, pensei que fosse o coração; era a sede. O seu sofrimento atravessou-me a alma, e a mente lembrou-se espontaneamente de Vincent Lambert e aos muitos, como ele, deixados a sofrer tão desumanamente [depois de ter sido privado de substâncias alimentares e de líquidos necessários para a sua existência].

A minha mãe, de 84 anos, tem uma vida plena, uma grande fé. Agora o seu corpo não pode receber soro, mas não queremos levá-la para o hospital, para as mãos de outros. Morre aqui, onde a vimos trabalhar e amar, sofrer por nós. Uma dor, sim, mas também uma glória, um orgulho. Ao contrário, para os Lambert, para os Alfie de ontem e de hoje, com o seu secreto destino interrompido bruscamente, que glória, que dignidade?

Olho à volta. Nas paredes de casa, as fotografias de família trazem de volta a minha mãe como era antes, e como permanece indelével no coração. Entre as imagens está também a reprodução de uma pintura de Dalí: “Persistência da memória”. A minha mãe gostava da arte, vibrava com as coisas belas; muito lhe devo a minha sensibilidade e a minha paixão atual.

Também Dalí, naquela noite, em angustiosa espera da sua mulher Gala, tinha diante dos olhos alguma coisa já vista: a paisagem marinha e rochosa do cabo de Creus, pintado anos antes e nunca concluído. Foi então assaltado por uma dolorosa solidão, e por um instante percebeu a futilidade de todas as coisas. Pegou na tela e começou a pintar sobre as rochas relógios derretidos. Queria exprimir assim o inexorável liquefazer-se de todas as coisas.

Sobre o relógio de bolso, em primeiro plano, formigas em movimento, sinal da matéria corruptível que não resiste ao choque do tempo. Terá Dalí percecionado o drama da eternidade? O nosso corpo não é eterno, mas a exterioridade não é mais do que o invólucro das coisas, como o vidro e o aro não são mais do que o recipiente do relógio. O nosso destino só pode ser outro.

O declínio do corpo não pode ser a última palavra sobre o ser humano, de outra maneira também nós seremos um dia pasto para as formigas. Assim pensam, talvez, aqueles que desprezam o ser humano com deficiência. Mas não, não somos pasto para formigas, e precisamente aqui e agora, à cabeceira da minha mãe, olhando o seu rosto tão semelhante à figura central pintada por Dalí, compreendo o dom enorme recebido, a espessura de uma vida que agora me está a dar à luz de novo na dor, mas uma dor de outro género e de outra natureza.

São por isso para mim muito tristes aqueles que descem às praças embandeirando um progresso que mata os inermes, denegrindo o valor inestimável da família fundada sobre um homem e uma mulher, troçando de princípios não negociáveis em nome de uma civilização finalmente sem Deus.

O tempo nunca acaba quando se está à cabeceira de uma pessoa que sofre, tem-se a sensação de viver minutos eternos. No entanto, é neste tempo dilatado que se oculta a hora da verdade. A hora em que todas as hipocrisias, as teorias, as bandeiras mais ou menos vencedoras que erguemos desaparecem. As batalhas aqui na Terra não valem nada se não combatem pela eternidade, se não lutarem contra caminhos que não são nossos, mas "outros".

«Ave Maria, gratia plena, Dominus tecum»: a voz do papa Bento traz-me de volta à realidade. A oração em latim acalma a minha mãe. No estado de sonolência em que se encontra, mal responde, movendo os lábios. Sim, tudo é vaidade, diz Qohélet: só restam a oração e a cruz, o verdadeiro mar que nos leva a outras praias, semelhantes à paisagem sem limites por trás dos derretidos relógios de Dalí.


Gloria Riva
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 11.07.2019

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Do plágio

Num certo sentido, ter um cão apaziguou a minha relação com os cães. O último cão que tive desapareceu correndo atrás de um carro, sem que o conseguíssemos deter. O penúltimo, dizem que com graves problemas de dores de ouvidos, mordia inesperadamente e democraticamente. Ao temor da incerteza quanto à reacção do cão associava-se um horror que tenho, talvez atávico, às surpresas. Na verdade, só gosto das surpresas quando me informo previamente do que serão. A existência do cão com otites, mal que degenerava numa certa violência, fazia suspender a minha mão perante o focinho de um cão. Será que vai morder? Tem problemas de dores inesperadas? Ter um cão manso e simpático em casa pacificou-me: talvez a maioria dos cães seja assim, pelo que hoje me atiro à festa de forma quase universal, com um denodo de que não me sentia capaz.

A introdução é longa e tem um propósito central, que é explicar que as coisas mais prosaicas nos proporcionam uma relação diferente com outras coisas prosaicas. Se o meu cão actual me deu um novo sossego com os cães em geral, a tradução de um livro em que o pensamento de S. Tomás de Aquino (Itália, 1225 - 1274) está muito presente deu-me um novo olhar sobre aqueles que são acusados de plagiadores. Um olhar mais pacífico, apresso-me a dizer. Eu explico.

Um dia escrevi a um amigo que me sentia como a criança a quem dão uma gravata pela primeira vez, e que a põe ao pescoço também pela primeira vez. A gravata existe há muito no mundo, mas, para o miúdo, tudo aquilo é uma novidade, e ele sente-se como se fosse o primeiro homem a usar uma gravata. É uma emoção única, que o mundo só conheceu naquele dia. Depois disso, tudo é uma cópia, um pastiche da emoção juvenil. Sabemos bem que não é assim. Mas eu, adulto feito e direito, tive largos momentos de veleidade intelectual: discorria sobre as coisas como se elas me brotassem frescas na mente; em bom rigor, tudo aquilo em que eu pensava como se fosse um pensamento virgem já existia desde há muito nos livros. Nunca inventei nada, a não ser a veleidade de inventar.

Um dia fiz uns versos singelos, para serem cantados numa melodia de fado. Algo me soava estranho, depois de vê-los escritos. A resposta era simples: uma das frases era de uma música conhecida e eu não me apercebera disso. Nessa linha de pensamento - e socorrendo-me da maior bonomia possível - há muitos plagiadores que não plagiam verdadeiramente: acham que criaram uma linha melódica única - como única é a gravata do miúdo - mas depois percebem que aquela linha melódica já havia sido criada por alguém. A gravata do miúdo, o meu pensamento, a frase musical fazem parte de uma mesmo contínuo, que é o das coisas que já foram potencialmente inventadas.


A Summa Theologica, a obra magna de S. Tomás de Aquino, consta dos pontos da fotografia acima. Pensamos em vidas equilibradas, e S. Tomás escreveu sobre isso; pensamos em preço justo das coisas, e S. Tomás dedica-lhe páginas de pensamento; pensamos em propriedade privada e S. Tomás debruçou-se sobre isso; pensamos em vida boa ou em felicidade e está lá tudo, pela pena e pensamento de S. Tomás de Aquino. Talvez não inventemos nada de muito importante, apenas copiemos o que outros já inventaram. A probabilidade de plagiarmos é muito alta; felizmente o meu cão pôs tudo em perspectiva.

JdB 

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Textos dos dias que correm

Perdurar no amor

O que nos torna semelhantes a Deus não será, certamente, o nosso subtrair-nos aos outros, mas, ao contrário, a descoberta da possibilidade de durar no amor, muitas vezes em contraposição com o primeiro juízo emitido pela razão ou com o peso daquelas que consideramos ser as evidências.

Cedemos com grande facilidade à tentação de fechar portas, consumar ruturas, resignarmo-nos a certas perdas (ou também, cinicamente, delas nos tranquilizarmos).

Se assimilarmos como regra de vida o pragmatismo da expressão «dos presentes não falta ninguém» (pragmatismo mais espalhado entre nós do que talvez tenhamos consciência), não poderemos compreender porque é que o pastor, na parábola de Jesus, deixa as noventa e nove ovelhas no deserto e parte à procura daquela perdida (Lucas 15, 4,7).

Nem compreenderemos porque é que a mulher se dá ao esforço (negligenciando, provavelmente, outros afazeres mais imediatos e urgentes) para encontrar a moeda que tinha perdido dentro de casa (Lucas 15, 8-10). Não tinha ela outras nove na bolsa?

Nos itinerários pessoais ou comunitários que estamos a fazer, há um dado que emerge com suficiente clareza: não nos aproximaremos do mistério da misericórdia se não pusermos dentro de nós aquilo que o grande teólogo Nicolas Cabasilas chamou «o amor louco de Deus pelos homens». A verdade de Deus e incindível do amor.


D. José Tolentino Mendonça
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 09.07.2019

terça-feira, 9 de julho de 2019

Poemas dos dias que correm

Madrigal Melancólico

O que eu adoro em ti
Não é a tua beleza
A beleza é em nós que existe
A beleza é um conceito
E a beleza é triste
Não é triste em si
Mas pelo que há nela
De fragilidade e incerteza

O que eu adoro em ti
Não é a tua inteligência
Não é o teu espírito sutil
Tão ágil e tão luminoso
Ave solta no céu matinal da montanha
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti
Não é a tua graça musical
Sucessiva e renovada a cada momento
Graça aérea como teu próprio momento
Graça que perturba e que satisfaz

O que eu adoro em ti
Não é a mãe que já perdi
E nem meu pai

O que eu adoro em tua natureza
Não é o profundo instinto matinal
Em teu flanco aberto como uma ferida
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.

O que adoro em ti lastima-me e consola-me:
O que eu adoro em ti é a vida!

Manuel Bandeira (11 de Julho de 1920). Antologia, Relógio de Água.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Duas Últimas

Para ouvir uma a seguir à outra. Perceber se têm uma a ver com a outra. Se sim, identificar a que dá mais gosto ouvir. Mudar de blogue. Voltar outro dia, para dias melhores. Errar melhor, no fundo

JdB





En Viena hay diez muchachas,
un hombro donde solloza la muerte
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana
en el museo de la escarcha.
Hay un salón con mil ventanas.
¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals con la boca cerrada.

Este vals, este vals, este vals,
de sí, de muerte y de coñac
que moja su cola en el mar.

Te quiero, te quiero, te quiero,
con la butaca y el libro muerto,
por el melancólico pasillo,
en el oscuro desván del lirio,
en nuestra cama de la luna
y en la danza que sueña la tortuga.
¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals de quebrada cintura.

En Viena hay cuatro espejos
donde juegan tu boca y los ecos.
Hay una muerte para piano
que pinta de azul a los muchachos.
Hay mendigos por los tejados.
Hay frescas guirnaldas de llanto.
¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals que se muere en mis brazos.

Porque te quiero, te quiero, amor mío,
en el desván donde juegan los niños,
soñando viejas luces de Hungría
por los rumores de la tarde tibia,
viendo ovejas y lirios de nieve
por el silencio oscuro de tu frente.
¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals del "Te quiero siempre".

En Viena bailaré contigo
con un disfraz que tenga
cabeza de río.
¡Mira qué orilla tengo de jacintos!
Dejaré mi boca entre tus piernas,
mi alma en fotografías y azucenas,
y en las ondas oscuras de tu andar
quiero, amor mío, amor mío, dejar,
violín y sepulcro, las cintas del vals.

(poema de Federico García Lorca)

domingo, 7 de julho de 2019

14º Domingo do Tempo Comum

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
designou o Senhor setenta e dois discípulos
e enviou-os dois a dois à sua frente,
a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir.
E dizia-lhes:
«A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos.
Pedi ao dono da seara
que mande trabalhadores para a sua seara.
Ide: Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos.
Não leveis bolsa nem alforge nem sandálias,
nem vos demoreis a saudar alguém pelo caminho.
Quando entrardes nalguma casa,
dizei primeiro: ‘Paz a esta casa’.
E se lá houver gente de paz,
a vossa paz repousará sobre eles:
senão, ficará convosco.
Ficai nessa casa, comei e bebei do que tiverem,
que o trabalhador merece o seu salário.
Não andeis de casa em casa.
Quando entrardes nalguma cidade e vos receberem,
comei do que vos servirem,
curai os enfermos que nela houver
e dizei-lhes: ‘Está perto de vós o reino de Deus’.
Mas quando entrardes nalguma cidade e não vos receberem,
saí à praça pública e dizei:
‘Até o pó da vossa cidade que se pegou aos nossos pés
sacudimos para vós.
No entanto, ficai sabendo:
Está perto o reino de Deus’.
Eu vos digo:
Haverá mais tolerância, naquele dia, para Sodoma
do que para essa cidade».
Os setenta e dois discípulos voltaram cheios de alegria, dizendo:
«Senhor, até os demónios nos obedeciam em teu nome».
Jesus respondeu-lhes:
«Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago.
Dei-vos o poder de pisar serpentes e escorpiões
e dominar toda a força do inimigo;
nada poderá causar-vos dano.
Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem;
alegrai-vos antes
porque os vossos nomes estão escritos nos Céus».

sábado, 6 de julho de 2019

Carta a um anjo

Nasceste hoje, mas há vinte e cinco anos.

Há dias escrevi uma carta a uns pais que tinham perdido uma filha; um destes dias escreverei um texto sobre o que é perder um filho. Escrevo sempre sobre um bocadinho do que é perder um filho, porque não há vocabulário que chegue para falar na dor, não há sabedoria que chegue para abarcar a diversidade de sentimentos - e a forma como cada um vive e gere esses sentimentos.

Lembrar-te hoje (e talvez hoje não seja uma expressão vaga, mas uma realidade concreta no tempo) é lembrar a fragilidade da vida, a nossa incapacidade de controlar o que quer que seja. Lembrar-te hoje é lembrar que não somos donos de nada, a não ser de sonhos, desejos, vontades, esperanças. O resto - e o resto é tudo, no fundo - está no domínio do imponderável, da surpresa, do golpe que pode ser de asa ou do destino, que são as duas faces da mesma moeda. 

O teu nascimento é um momento no tempo. A tua existência começou antes, muito antes de sabermos os planos de Deus (ou a companhia que Deus faz aos planos do Acaso) e acaba no minuto em que todos nos juntarmos na eternidade. Acima de tudo, hoje, e muito hoje, és o cimento que une uma comunidade de pessoas que passaram perto de ti, que fazem parte da vida de pessoas que fizeram parte da tua vida. A vida não se substitui; não construímos projectos em cima de destroços ou de naufrágios. Acrescentamos pessoas, experiências, relações e realidades. Somos uma existência em movimento que, no seu caminho, agrega seres humanos que constroem uma malha grande e diversa. No fulcro de tudo estás tu, à volta de quem tudo gravita: os que te conheceram, os que vieram a conhecer os que te conheceram; os que te amaram, os que vieram a amar os que te amaram.

Hoje, vinte e cinco anos depois de teres nascido, é altura de pensarmos nessa malha, nessa extensão humana com um fio condutor. É altura de nos recordarmos que não somos donos de nada, a não ser de uma vontade de sermos melhores. Tudo o resto - esse resto que é tudo - não se alcança com uma mão, faz parte dos desígnios de uma vida que nem sempre é justa. Hoje é dia de lembrarmos, contigo no pensamento e no coração, aqueles que passam por momentos difíceis: os que te conheceram e os que conheceram quem te conheceu, e que sabem de ti pelas histórias, pelas memórias, por uma dor mansa que viverá connosco até que tudo se apague e nos encontremos junto do Deus que não é senão amor.  

Reza por nós, e por aqueles que de nós passam tempos menos fagueiros.     

 Na sua bondade sem fim
Quis Deus olhar para mim
Dar-me um pouco do que é seu
Deu-me uma estrela pequena
A quem chamou Madalena
Que é uma das santas do Céu

J (em nome de todos os que te lembram)

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Pensamentos Impensados *

Apneia
Quis ver se era capaz de estar uma hora sem respirar; conseguiu, embora os primeiros 5 minutos fossem os mais difíceis.

Piruetas
Paulo Portas tem queda para se levantar.

Periódicos
Os jornalistas pertencem à classe mídia.

Tendências
Sei de um homem que é bi-sexual e tem 2 filhos.
Se tiver um terceiro filho será tri-sexual?

Centrismo periférico
Portugal, Espanha e Itália são considerados países periféricos.
Holanda, Bélgica e Dinamarca serão países internos?

Nervoseiras
Romeu e Julieta só podia ter sido escrito por um espírito agitado: Shake Spirit.

SdB (I)

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* publicado originalmente a 20 de Julho de 2013

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Textos dos dias que correm

O Perdão e a Promessa

Se não fôssemos perdoados, eximidos das consequências daquilo que fizemos, a nossa capacidade de agir ficaria por assim dizer limitada a um único acto do qual jamais nos recuperaríamos; seríamos para sempre as vítimas das suas consequências, à semelhança do aprendiz de feiticeiro que não dispunha da fórmula mágica para desfazer o feitiço. Se não nos obrigássemos a cumprir as nossas promessas não seríamos capazes de conservar a nossa identidade; estaríamos condenados a errar desamparados e desnorteados nas trevas do coração de cada homem, enredados nas suas contradições e equívocos - trevas que só a luz derramada na esfera pública pela presença de outros que confirmam a identidade entre o que promete e o que cumpre poderia dissipar. Ambas as faculdades, portanto, dependem da pluralidade; na solidão e no isolamento, o perdão e a promessa não chegam a ter realidade: são no máximo um papel que a pessoa encena para si mesma.

Hannah Arendt, in 'A Condição Humana'

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Vai um gin do Peter’s ?

O VATICANO CHEGA À CHINA COM ARTE

O mote para a parceria entre a Santa Sé e o Império do Meio ficou bem condensado na expressão usada pela Directora dos Museus do Vaticano ao resumir o sentido da exposição que está no Palácio Museu da antiga Cidade Proibida (entre 1420 e 1911): «A Beleza é um veículo extraordinário para falar sempre, em cada latitude e longitude, física ou temporal. Sem medo, sem barreiras». O próprio título da mostra é auto-explicativo: «A beleza une-nos – Arte chinesa dos Museus do Vaticano».

Catálogo oficial da exposição. 

Até 14 de Julho, ficarão expostas no coração da China imperial 76 obras cedidas pelo Papado. Abrangem arte erudita e popular, de credos budista e católico, maioritariamente de artistas chineses. As marcas orientais ressaltam nas feições e nos trajes das figuras, além de alguma vegetação e fauna desconhecidas no Ocidente. Como explica o site do museu chinês, encontra-se, por exemplo, uma ‘Última Ceia’ que lembra Leonardo, embora depois esbarremos com peculiaridades de outras paragens.

As peças vindas da Europa também dialogam com o património do Palácio Museu, que selecionou trabalhos do poeta-pintor católico Wu Li (1632-1718) e do jesuíta milanês Giuseppe Castiglione, conhecido na China pelo nome de Lang Shining (1688-1766). Deste modo, a arte testemunha os períodos de proximidade e inter-ajuda sino-cristãs, que as fases de hostilidade posteriores não conseguiram apagar. 

«A Primavera chegou ao Lago», de Wu Li, pintado em rolo de pendurar.  Museu de Xangai. 

Pinturas do milanês, valorizadas no património artístico da China. 
O trajar do ocidental, na tela da esquerda, prova a aculturação perfeita do pintor-missionário.
E o seu domínio das técnicas e tradições pictóricas locais, por um lado,  a par do manancial de instrumentos náuticos de origem europeia, por outro, ilustram a riqueza deste encontro entre civilizações distantes.

É curioso reconhecer a mesma fusão entre estéticas ocidental e oriental em obras de chineses do século XX, repetindo o fenómeno observado nos séc. XVII e XVIII. Servem de exemplo três peças novecentistas pertencentes ao Vaticano, mas de autoria asiática. A primeira presta homenagem ao Papa João Paulo II e a terceira homenageia uma figuras recorrente na arte sacra europeia – Maria. As legendas provêm do site do museu de Pequim: 

«Landscape», 1978, Ink and colour on paper, 58.7 x 39.5 cm, inv. 126301.
This landscape was painted in Rome by the master Huang Junbi (1898-1991) in 1978 and was dedicated to Pope John Paul II. Its title is shan gao shui chang (One’s nobility lasts forever). Literally translated, the title means “high as a mountain and long as a river”, a Chinese expression indicating that one’s nobility (reputation or nobility of character) lasts forever.
The structure of the painting follows all the rules for the temporal and spatial arrangement of the components of shanshui (Chinese landscape painting), doing so in order to provide a number of visual devices that draw the viewer into the scene and suggest the path to be taken when looking at it.»

«Cross», early 20th century , Cloisonné, 140 x 65 x 20 cm, Inv.119968
This cross is a faithful reproduction of the one in the Beijing Catholic Church, the North Church (The Church of the Saviour). Cloisonné is a craft familiar to the Chinese. It is commonly known as jingtailan where copper is used as the inner material.»

«Madonna and Child in a Typical Chinese Garden», early 20th century, Ink and colour on paper, 205 x 68 cm 205*77 , Inv. 125461
In Catholic figurative art, there is a fondness for representations of Mary (often called “Madonna”—My Lady) and the child Jesus.  One example is the painting on a hanging scroll from the early 20th century entitled Madonna and Child in a Typical Chinese Garden. Although subjects chosen by the artist are Catholic, his paintings could be included among the most classic examples of Chinese painting with regard to their setting, their composition, and their conception of the human figure. The Madonna, Jesus and the Angel have oriental features, are dressed in the Chinese style and are depicted in a garden in which there is a towering rock. The spatial composition and choice of component elements recall one of the masterpieces of Song Dynasty (960-1279) painting by Su Hanchen (act. 1130-1160). It is a unique reflection of Catholic religion in the context of Chinese culture.»

A mesma temática da Fuga para o Egipto surge na tela de um chinês face-a-face com a de um italiano. Diferentes épocas e diferentes cosmovisões:



É também curioso ser o Director do museu chinês quem cita a grande exposição internacional de 1925, que reuniu no Vaticano a quantidade astronómica de 100.000 obras, para mostrar à Europa a beleza oriunda de culturas muito distantes. Segundo o responsável chinês, aquela iniciativa do Papa Pio XI (1857-1939) prova o alto valor que a Igreja Católica atribui à Arte, enquanto veículo privilegiado da comunicação universal. 

Não sendo fácil dar um salto à Cidade Proibida, até 14 de Julho, seguem mais algumas peças do conjunto emprestado ao país mais populoso do mundo. 

«Adam and Eve in the Earthly Paradise, Wenzel Peter, end of the 18th century. Oil on canvas, 247 x 336 cm, inv. 41266.
Under a large tree, Eve, the first woman, offers the forbidden fruit, to Adam, the first man. The evil Serpent, who is coiled around tree trunk, had convinced her to disobey God’s command. This act shatters the wonderful harmony of the Earthly Paradise, here depicted by the splendors of vegetation, water, and landscape, and by an incredible number of animals and birds. The artist is the Bohemian-born painter Wenzel Peter, who in 1774 moved to Rome from Vienna, where he was an illustrator of books and engraver. It was in Rome, where he studied, that he painted this huge canvas, which he signed Wenceslaus Peter fecit Romae ( Wenceslas Peter made this in Rome). The artist’s attention to naturalistic provides, as it were, an index of the encyclopedic culture of the period. Showing an extraordinary knowledge of botany and zoology, Peter depicts countless plants and more than 240 animals and birds from around the world. Apart from its religious significance, this painting shows a harmony between human and nature, which expresses the main idea of this exhibition: great harmony between civilizations.»

«Shakyamuni Buddha, Ming Dynasty (1368-1644), Gilded and lacquered bronze 40 x 27 x 21 cm, Inv. 120523.
Statue of the penitent Buddha Shakyamuni with both hands resting on his left knee. The Buddha has curly hair in pepper-corn style, which shows the ushnisha, a protuberance at the top of his head. This kind of iconography goes back to the sculpture that developed in the Indian region of Gandhara between the 2th and the 3th centuries CE. This statue was made in China during the Ming period (1368-1644).»

«Handscroll: The Great Wall (Detail), Kangxi reign (1662-1722), Qing Dynasty Ink and colour on silk, 38 x 775 cm, inv. 114427.
One of the most interesting objects in the collection of Cardinal Cesare Borgia (1731-1804) was a long, painted handscroll with a detailed map. The scroll, dating from the years between 1680 and 1700—during the Kangxi Emperor’s reign (1662-1722)—shows the Great Wall and the different territories that it crosses. The depictions and captions provide detailed knowledge of the area—its mountains, rivers, cities, wells, military camps and garrisons. A peculiar feature of the scroll is that the north is at the bottom of the map, following an ancient Chinese practice.»

«Imperial Robe, Qianlong reign (1736-1795), Qing Dynasty, silk, cotton, 142 x 230 cm, Inv. 111216.
This is an imperial yellow silk garment from the 18th century. It features tight, long sleeves with a horse hoof cuff, called matixiu. The decoration follows the usual pattern: from the bottom upwards, there is a vertical water pattern, a lishui, which forms the spiraling waves, pingshui, of the Cosmic Ocean, out of which rises the cosmic Kunlun Mountain. The garment is decorated with the twelve traditional Chinese emblems of imperial authority and with traditional symbolic animals. At chest level and in the center, there is a five-clawed dragon depicted in the classic circular position that has the dragon chasing the flaming pearl, leizhu. The imperial attire of the Qing includes a rich symbolic apparatus, which combines styles of northeast dress and iconography traditionally associated with the imperial power. In 1759 the Emperor Qianlong (1736–1795) drew up a veritable corpus of laws with established and hierarchically organized models, genders, colors, decorations, accessories and insignia of rank, bringing order to practices that had become widespread, but were only partially enshrined in law. The main purpose of this legislation was to make the positions and functions of the different members of the imperial household immediately recognizable through their dress and accessories. There are also two dragons rising up from the waist, and dragon patterns are also decorated on the shoulders and back of the robe.»

A par da mostra na Cidade Proibida, há mais antiguidades da Santa Sé em Pequim, expostas no pavilhão da Exposição Internacional de Horticultura (até Outubro). Ali estão, por exemplo, um herbário e uma monografia sobre as propriedades medicinais de ervas e plantas, vindos da Biblioteca Vaticana. 

Cerca de um século depois de terminar a presença missionária europeia no Império do Meio, que saiu com o último imperador, a arte relança a ponte entre a Cristandade e a maior potência da Ásia, num gesto e numa linguagem bem à medida da era da imagem e das redes sociais. Depois, com infinita liberdade e originalidade, o Espírito de todos os tempos e lugares soprará onde e como quiser.  


Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

terça-feira, 2 de julho de 2019

Duas Últimas

Há horas felizes. Oiço amiúde o disco que condensa os 28 espectáculos que António Zambujo e Miguel Araújo deram no Coliseu de Lisboa. O disco é muito bom - até a versão do Bohemian Rhapsody, uma das piores que já se cantaram, é óptima. O disco é divertido, bem tocado e cantado, bem gravado, com uma sequência irrepreensível. E foi no decorrer de mais uma audição, enquanto me atiro aos tachos, que travei conhecimento com Lupicínio Rodrigues, uma famoso compositor e intérprete brasileiro nascido no princípio do séc. XX.


Deixo-vos com "Nervos de Aço", na voz de Adriana Calcanhotto. É a esta música / letra que António Zambujo faz referência com graça.

JdB




Nervos de Aço

Lupicínio Rodrigues

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor
Nos braços de um tipo qualquer?

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
E por ele quase morrer
E depois encontrá-lo em um braço
Que nem um pedaço do meu pode ser?

Há pessoas de nervos de aço
Sem sangue nas veias e sem coração
Mas não sei se passando o que eu passo
Talvez não lhes venha qualquer reação

Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, é despeito, amizade ou horror
Eu só sei é que quando a vejo
Me dá um desejo de morte ou de dor

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