domingo, 15 de julho de 2018

15º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 6,7-13

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus chamou os doze Apóstolos
e começou a enviá-los dois a dois.
Deu-lhes poder sobre os espíritos impuros
e ordenou-lhes que nada levassem para o caminho,
a não ser o bastão:
nem pão, nem alforge, nem dinheiro;
que fossem calçados com sandálias,
e não levassem duas túnicas.
Disse-lhes também:
«Quando entrardes em alguma casa,
ficai nela até partirdes dali.
E se não fordes recebidos em alguma localidade,
se os habitantes não vos ouvirem,
ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés
como testemunho contra eles».
Os Apóstolos partiram e pregaram o arrependimento,
expulsaram muitos demónios,
ungiram com óleo muitos doentes e curaram-nos.

sábado, 14 de julho de 2018

Pensamentos Impensados

Animatógrafo
O cinema foi inventado pelos romanos, e a primeira sala chamava-se cine qua non. Houve uma tentativa de uma segunda sala mas não foi avante já que o nome proposto não augurava nada de bom: cine die.

Antecipação
Leio nos jornais que vai realizar-se o ensaio das cerimónias fúnebres para quando a Rainha Isabel morrer.
Acho bem. Até a própria rainha devia participar indo deitada no caixão com a sua carteira-mistério, acenando para os seus súbditos e gritando o que dizia o fadista Alfredo Marceneiro: adeus oh gajada!

Esférica
A bola é redonda é uma redondância.

Bicho carpinteiro
Comparado com Marcelo, o Infante D. Pedro, o das sete partidas, é um sedentário.

Bebam vodka
Sic transit campeonatus mundi. Poderá dizer-se que a Croácia mandou a Rússia para casa?

Botânicas
Deus expulsou Adão por não saber nada de botânica: comeu uma maçã e chamou-lhe um figo.

SdB (I)

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Vídeos dos dias que correm

Mandaram-me este video ontem, por whatsapp. Vale a pena ver, até porque tem 1'30''.

Alguém comentava sabiamente "é que é mesmo isto que andamos a comer". Eu tenho outra teoria para o video - e mesmo que seja disparatada (a teoria, claro) é-me indiferente, porque estes 90 segundos não são patrocinados pela ordem dos nutricionistas. O video não divulga a porcaria que comemos (embora muito do que comemos seja uma porcaria), mas a incongruência de algumas pessoas quanto à alimentação que fazem. 

Vejam e depois diga-me se não tenho razão. Melhor: digam-me se eu tiver razão, porque se não tiver mais vale não me dizerem nada.

JdB




quinta-feira, 12 de julho de 2018

Pensamento Impensado

Novo acordo
Croácia, em inglês, diz-se Croácida.

SdB (I)

Duas Últimas

Estou numa onda nostálgico-kitsch, seguramente. Mas um destes dias falei de Buenos Aires com alguém e veio-me à lembrança uma viagem boa, ainda que enlutada por um roubo infantil.  Não conhecia esta Orquestra Romantica Milonguera com quem me cruzei por puro acaso. Ouvi e gostei. Como dizia Balzac (ou seria Dumas?) a nostalgia é a felicidade de estar triste.

Divirtam-se, ou procurem outros estabelecimentos.

JdB


quarta-feira, 11 de julho de 2018

Pensamento Impensado

Ignorâncias
Marcelo perdeu uma oportunidade de ir à Tailândia, talvez porque, pela primeira vez, houvesse assuntos que não domina: espeleologia e caca de morcego.

SdB (I)

Da claustrofobia

Em 2010 segui, em directo, o resgate dos mineiros chilenos. Dentro do possível, e nos dias anteriores dei atenção ao planeamento, à tecnologia, à organização. Vi a saída do primeiro mineiro e depois fui dormir. Há algumas semanas cruzei-me com um filme sobre esse tema. Nem sempre a ficção ultrapassa a realidade. O filme não acrescentou nada ao que já sabia.

Fui seguindo como pude o resgate dos miúdos tailandeses, assim como do professor. Dentro do possível dei atenção ao planeamento, à tecnologia, à organização. Vi imagens do percurso, vi esquemas do percurso, ouvi e li entrevistas com mergulhadores, espeleólogos, psicólogos, gente que falou de budismo, de infecções, de fé e de coisas técnicas.

A minha claustrofobia - que a tenho um pouco - não é a de um elevador cheio, ou de uma sala com gente a mais. A minha claustrofobia tem a ver com a impossibilidade de me mexer: uma cápsula onde cabe um homem que tem de ficar imóvel, um percurso para sair de um gruta de onde não se pode andar para cima, para os lados nem para trás. Foi por isto, por este horror ao espaço confinado, que não consegui entrar nas pirâmides de Gizé (ou numa delas): entra-se por um corredor e, a partir do momento em que se entra, já é um ponto de não retorno, é sempre em frente até se sair por outro lado. E se quem vai à nossa frente tem um ataque de pânico?

Enfim, tudo está bem quando acaba bem. Daqui a 2 ou 3 anos já poderemos ver tudo num cinema perto de nós.

JdB

terça-feira, 10 de julho de 2018

Poemas dos dias que correm

Desalento

Uma pesada, rude canseira
Toma-me todo. Por mal de mim,
Ela me é cara… De tal maneira,
Que às vezes gosto que seja assim…
É bem verdade que me tortura
Mais que as dores que já conheço.
E em tais momentos se me afigura
Que estou morrendo… que desfaleço…

Lembrança amarga do meu passado…
Como ela punge! Como ela dói!
Porque hoje o vejo mais desolado,
Mais desgraçado do que ele foi…

Tédios e penas cuja memória
Me era mais leve que a cinza leve,
Pesam-me agora… contam-me a história
Do que a minhalma quis e não teve…

O ermo infinito do meu desejo
Alonga, amplia cada pesar…
Pesar doentio… Tudo o que vejo
Tem uma tinta crepuscular…

Faço em segredo canções mais tristes
E mais ingênuas que as de Fortúnio:
Canções ingênuas que nunca ouvistes,
Volúpia obscura deste infortúnio…

Às vezes volvo, por esquecê-la,
A vista súplice em derredor.
Mas tenha medo de que sem ela
A desventura seja maior…

Sem pensamentos e sem cuidados,
Minhalma tímida e pervertida,
Queda-se de olhos desencantados
Para o sagrado labor da vida…

– Manuel Bandeira, in “A cinza das horas”, 1917.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Da escuta do corpo

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, / eu era feliz e ninguém estava morto.

Gosto desta frase de Álvaro de Campos. No tempo em que eu era feliz e ninguém estava morto (a primeira morte impactante surgiu-me numa idade adulta) as receitas para o emagrecimento eram claras - e, arrisco, únicas: comer menos. Lembro-me de raparigas que bebiam sumo de limão em jejum, mas não sei se isso tinha algum efeito vagamente positivo para o efeito pretendido. Estou certo de que faria mal. Comer menos - nada menos e nada mais do que isso.

Na minha memória, foi com Demis Roussos que tudo isto se alterou: a quantidade já não era limitadora - o problema estava nas misturas. O cantor (que não me lembro se emagreceu) afirmava que se podia comer um frango inteiro - desde que não houvesse acompanhamento. Hoje, quem quer emagrecer tem uma panóplia de opções: dietas do paleolítico, em função do horóscopo, do tipo de sangue, assente na proibição de um tipo de alimentos ou na absoluta permissão desses alimentos proibidos, na absoluta troca de horas das refeições, etc. Passados 45 anos de ver, pela primeira vez, gente a beber sumo de limão em jejum, a minha teoria assenta no conservadorismo mais impenitente: comer menos. Mas comer de tudo.

Alguém me diz, no decurso de uma conversa sobre alimentos: o meu corpo está a rejeitar carne... O que faz essa pessoa? Muito naturalmente (porque, lá está, é o corpo a falar) não come carne. O corpo já rejeitara o leite e a pessoa deixara de beber leite. Eu, que tenho um corpo santo, que não rejeita nada a não ser o que não gosto, desconfio desta importância que se dá ao corpo, como desconfio da importância que se dá à opinião de algumas crianças.  

Não sou adepto de seguir o que o corpo diz. Sou mais adepto de dizer ao corpo como se faz. O meu argumento é muito válido, porque tenho esta ideia (pouco científica, reconheço) que estes corpos que falam muito são corpos de vocabulário limitado ou enviesado: rejeitam muitas coisas, como a carne, o leite e alguns vegetais, que são importantes, mas não rejeitam inutilidades gastronómicas como o coco, as tripas, os pezinhos de coentrada ou as cartilagens das aves. Devemos ouvir o nosso corpo? Depende. Ouvir um corpo cheio de intolerâncias é como atribuir a mediação da paz a um colérico.

O corpo deve ter uma voz limitada, porque seguir-se fielmente o que as nossas entranhas dizem é regressar a um certo primitivismo no qual vingavam os impulsos: dormir, comer, e outras coisas de que se fala com parcimónia neste estabelecimento. O corpo deve educar-se a ter hábitos e rotinas saudáveis. Não sou a favor destas teorias modernas de escuta muito activa, mas de uma democracia mais musculada. Ainda lá não estou, infelizmente: o meu corpo vive em regime libertário, na mais absoluta roda livre.

JdB   

domingo, 8 de julho de 2018

14º Domingo do Tempo Comum

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus dirigiu-Se à sua terra
e os discípulos acompanharam-n’O.
Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga.
Os numerosos ouvintes estavam admirados e diziam:
«De onde Lhe vem tudo isto?
Que sabedoria é esta que Lhe foi dada
e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos?
Não é ele o carpinteiro, Filho de Maria,
e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão?
E não estão as suas irmãs aqui entre nós?»
E ficavam perplexos a seu respeito.
Jesus disse-lhes:
«Um profeta só é desprezado na sua terra,
entre os seus parentes e em sua casa».
E não podia ali fazer qualquer milagre;
apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos.
Estava admirado com a falta de fé daquela gente.
E percorria as aldeias dos arredores, ensinando.

sábado, 7 de julho de 2018

Pensamentos Impensados

Big feet
Quem calça 39 deve ser um psico-pata.

Relatividades
Conheci uma velhota que dizia: com o cancro posso eu bem, não posso é com as dores nas costas.

Conversa fiada
As sardinhas de conserva são de difícil digestão, são sardinhas de conversa.

Chiliques
Marcelo teve há dias uma quebra de tensão; eu, quando o oiço falar, tenho uma quebra de atenção.

Sabichão
É raro o dia em que não se ouve o Marcelo opinar sobre qualquer assunto; ainda gostava de o ouvir a dissertar sobre A Fisionomia dos Lagartos, obra citada por Eça de Queiroz.

Medicinas alternativas
Adão, quando estava doente, ia ao veterinário, pois ainda não havia médicos por falta de humanos.

Piadas sem querer
Ouvi alguém dizer comi  um peixe sem espinhas chamado filete.

Cópias
Eva foi um clone; muita sorte teve Adão em não lhe sair a ovelha Dolly.

SdB (I)

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Carta a um anjo

Nasceste hoje, mas há vinte e quatro anos.

Podíamos repetir tudo o que foi escrito nestes últimos anos; podíamos dizer tudo o que nos foi, vai e irá na alma nestes dias seis do mês de julho que se repetem anualmente. Mesmo que o fizéssemos não repetiríamos tudo, não diríamos tudo, porque o mais importante, talvez, é o que não se diz, o que fica dentro de cada um de nós que te lembra com olhos diferentes, te fala com uma boca diferente, te toca de modo diferentes, porque as mãos são diferentes e os sentimentos que as regem também. 

Lembramos-te por tudo: pela alegria, pela tristeza mas, acima de tudo pela esperança que não desaparece em cada um de nós; a esperança de sermos mais, de sermos melhores, de olharmos para cima e ver o pó do amor que cai sobre cabeças tantas vezes desesperançadas, sofridas, angustiadas com as agruras da vida; mas cabeças também sorridentes, crentes na vida que renasce, se renova, nos julhos e agostos que trazem um olhar novo, um fôlego novo, nomes novos a juntar ao teu, dito alto tantas vezes, murmurado quase sempre, lembrado constantemente.

O mais importante do dia é o que se passa dentro de cada um que escreve este texto: o sossego, o amor, a certeza de um futuro bom, o regaço de uma mãe que aquieta um corpo inquieto, um olhar de pai para um futuro risonho, olhares mútuos para pessoas que aprenderão um dia o teu nome sem saberem quem és a não ser nas histórias e na ternura com que o teu nome é nomeado.  

Hoje não rezaremos por ti, mas rezaremos para que rezes por nós. Rezaremos para que rezes pela gente pequena que chegou agora, ou no ano antes do ano antes. Rezaremos para que rezes por nós, para que saibamos sempre ver a tua luz no meio da bruma. Hoje é dia de te lembrarmos, mesmo que nunca te esqueçamos.

Na sua bondade sem fim
Quis Deus olhar para mim
Dar-me um pouco do que é seu
Deu-me uma estrela pequena
A quem chamou Madalena
Que é uma das santas do Céu

J (em nome de todos os que te lembram)


quinta-feira, 5 de julho de 2018

Poemas dos dias que correm

Os Justos

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

Jorge Luis Borges, in "A Cifra"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

***

Nem Sequer Sou Poeira

Não quero ser quem sou. A avara sorte
Quis-me oferecer o século dezassete,
O pó e a rotina de Castela,
As coisas repetidas, a manhã
Que, prometendo o hoje, dá a véspera,
A palestra do padre ou do barbeiro,
A solidão que o tempo vai deixando
E uma vaga sobrinha analfabeta.
Já sou entrado em anos. Uma página
Casual revelou-me vozes novas,
Amadis e Urganda, a perseguir-me.
Vendi as terras e comprei os livros
Que narram por inteiro essas empresas:
O Graal, que recolheu o sangue humano
Que o Filho derramou pra nos salvar,
Maomé e o seu ídolo de ouro,
Os ferros, as ameias, as bandeiras
E as operações e truques de magia.
Cavaleiros cristãos lá percorriam
Os reinos que há na terra, na vingança
Da ultrajada honra ou querendo impor
A justiça no fio de cada espada.
Queira Deus que um enviado restitua
Ao nosso tempo esse exercício nobre.
Os meus sonhos avistam-no. Senti-o
Na minha carne triste e solitária.
Seu nome ainda não sei. Mas eu, Quijano,
Serei o paladino. Serei sonho.
Nesta casa já velha há uma adarga
Antiga e uma folha de Toledo
E uma lança e os livros verdadeiros
Que ao meu braço prometem a vitória.
Ao meu braço? O meu rosto (que não vi)
Não projecta uma cara em nenhum espelho.
Nem sequer sou poeira. Sou um sonho

Jorge Luis Borges, in "História da Noite"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Vai um gin do Peter’s ?

JOVENS PORTUGUESES MUDARAM DEPOIS DO QUE VIRAM À «ENTRADA» DA EUROPA

Sabemos que não há respostas simples para o fluxo imenso de refugiados dispostos a empreender uma viagem de alto risco para tentar mudar de vida, de tal forma sofrem e desesperam nos países de origem. Seja a pobreza, seja a guerra, seja a insegurança constante, seja a servidão e escravatura encapotada ou mesmo descarada, é inegável que o dia-a-dia de milhões de povos é infra-humano. Isto dito, não significa que a avalanche contínua de imigrantes em fuga seja um desafio menor para as sociedades de acolhimento. Claro que gera problemas e desconforto. Não faltam vozes proeminentes a antever uma invasão muçulmana do Ocidente e outras ameaças temíveis. Apesar disso, as campeãs da generosidade têm sido as comunidades mais pobres e frágeis, à cabeça o Líbano, a Jordânia, o Iraque e até o Irão. 

No balanço de uns e de outros, sobressai a reflexão do historiador Rui Ramos:


Planando, corajosamente, acima do deve-e-haver da questão, há quem se faça ao largo só para socorrer vidas, lembrando o nadador-salvador que se atira ao mar sem questionar sobre o valor da vida ou do carácter do náufrago. Afinal, a vida humana vale por si, merecendo o resgate! É neste contexto que ganham em ser nomeados alguns casos emblemáticos, que confirmam quanto cada gesto, cada escolha faz a diferença. Basta querer.

Em Janeiro de 2016, uma finalista de enfermagem, já com licenciatura em psicologia, decidiu passar as férias académicas em voluntariado numa ilha grega, integrada numa ONG de salvamento. Foi tão difícil encontrar uma ONG disponível para enquadrar a sua assistência, quanto convencer a mãe, em pânico com a bondade irresponsável (temia) da filha. Do alto dos seus 22 anos, o testemunho posterior de Matilde Salema confirma a força imparável de um olhar solidário, capaz de esgravatar tempo para ir em socorro dos que estão em perigo. Quem quer que sejam, de onde quer que venham. No campo de refugiados de Moria, na ilha grega de Lesbos, esfalfou-se nos turnos da noite, numa azáfama difícil de digerir, pois viu demasiadas vezes a morte. Aquele mês intensíssimo revolucionou-lhe o olhar. Nas muitas intervenções para que tem sido convidada, gosta de rematar com uma citação de Sta.Catarina de Sena «Se fordes aquilo que deveis ser, pegareis fogo ao mundo inteiro

Emocionou Medina Carreira, que foi dos primeiros a entrevistá-la. Seguiu-se o Observador, com link ainda disponível, sob o título «Tive medo dos refugiados até perceber que tinha que os ajudar». Como se aguenta? – pergunta-lhe a jornalista Laurinda Alves. «Ser e estar em cada momento», é uma das dicas de Matilde, ou ainda: «Primeiro olhava, para perceber o que precisavam. (…) Às vezes, só precisavam de um abraço». 


No mesmo ano de 2016, também Pedro Rocha e Mello rumou a Atenas para oferecer o seu trabalho à PAR – Plataforma de Apoio aos Refugiados. A experiência «agarrou-o» e inspirou-lhe um blog noticioso sobre o tema -- https://www.facebook.com/Without-Borders-1775981815975041/. Um pequeno spot, postado há uns meses, explica bem quanto a identidade do ser humano não se altera nem reduz pelo facto de alguém se sujeitar à condição de refugiado. Em suma, não deveria ser pretexto para estigmatizar e diabolizar: 


A conclusão é cristalina: «Being a refugee is a situation, not a definition. Stop labelling». Um cartoon que está a circular na net confirma a importância de desmontar o preconceito da rotulagem pejorativa, alimentado por traumas concretos e alarmantes em bolsas de comunidades muçulmanas, que florescem, há mais de meio século, nas franjas das grandes cidades europeias. Pouco têm a ver com estas movimentações demográficas do século XXI, tendo tudo a ver com as políticas e práticas de integração desses segmentos periféricos em todos os sentidos: 



Quando regressou a Portugal, Pedro R.M. matriculou-se em árabe, na Mesquita Central de Lisboa, para poder compreender e acudir melhor aos refugiados que tentam escapar a uma desgraça certa, na sua terra. Acha fundamental vencer a barreira da língua, que dificulta o diálogo e a sintonia. Recentemente, aproveitou os dotes de ilustrador para dar cor e forma a uma estória da sua tia Thereza Ameal, que ficou marcada pela fotografia de uma pequenina resgatada num bote, que o sobrinho lhe enviara da Grécia. A partir daquela cara amorosa, nasceu a aventura de Miriam, uma amiga vinda do outro lado do mundo, que se cruza com o pequeno ocidental, empenhado em acolher uma família fugida à guerra. Há 70 anos, num continente devastado pela Segunda Guerra, Miriam seria europeia! Na perspectiva de Pedro:  «Ao [ajudar a] fazer este livro, olhei para trás e vi o que conhecia dos refugiados antes de ir para a Grécia. Foi óptimo ir descobrindo, ir abrindo o coração. […] Nesta história estão centenas de pessoas e de caras diferentes, verdadeiras e, como portugueses, temos a responsabilidade de saber acolher o que é diferente, que não nos deve assustar». O conto de Miriam visa tornar acessível aos mais novos a experiência de abertura ao «diferente-estrangeiro-desintegrado», que muitos adultos recusam, apesar de ser um pilar da Paz: 

O livro teve lançamento oficial, no Dia Mundial do Refugiado – a 20 de Junho.
Conta com introdução do Secretário-Geral das Nações Unidas – António Guterres e
prefácio do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, que sublinha:
«Portugal é um país aberto aos outros. É importante que as nossas crianças saibam disso,
para que possam perpetuar essa herança, construindo o futuro com base nos valores
que sempre defendemos. Os valores humanistas da solidariedade e da justiça.
Os valores que fazem dos portugueses um exemplo mundial no acolhimento
e na integração dos refugiados.»
As receitas de venda revertem em favor do JRS Portugal.

Outra solução interessante: cansados do desperdício de presentes, no final das festas de anos dos miúdos, um grupo de pais de um colégio privado de Lisboa acordou com os filhos substituir os embrulhos dos laçarotes por donativos em favor de uma causa benemérita. A experiência entusiasmou miúdos e graúdos, a ponto de estarem a conseguir angariar boas maquias, doadas ao JRS Portugal-Serviço Jesuíta aos Refugiados.  

Paris também reagiu com alternativas à altura da Cidade Luz: em muitos dos restaurantes mais badalados, os cozinheiros sírios são rapidamente recrutados, para lhes proporcionar um ganha-pão. A moda do exotismo da culinária de Damasco entrou, assim, pela porta grande da capital francesa. A boa mistura entre os sabores sírios e o estilo gaulês tem enriquecido muito a criatividade gastronómica. 

Parceria franco-síria de Chefes no «L’Ami Jean», entre o consagrado dono do bistro
Stéphane Jégo (esq.) e Mohammad El Khaldy.

Até deu origem a um festival – o «Refugees’ Food Festival». Naquela semana degustativa, o comando das cozinhas dos bons bistros parisienses [exemplo de dois da primeira hora: Left Bank bistro, L’Ami Jean] é entregue a um refugiado, que dispõe de todos os meios técnicos para exibir os seus dotes. Do lado dos media, a iniciativa tem sido noticiada com brado, ajudando a mediatizá-la: «Syrian Refugee Cooks in Paris's Trendiest Resturants». A data de início costuma coincidir com o solstício de Verão, para aproveitar o bom augúrio do dia com mais tempo de luz. A feliz ideia continua a ser sustentada pelo restaurante e atelier culinário La Résidence [https://www.refugeefoodfestival.com/la-residence-2/?lang=en] que, a cada dois meses, recebe um novo chefe refugiado, oferecendo-lhe condições para se dar a conhecer ao público e relançar profissionalmente.  


Infelizmente, não se prevê para breve o fim desta errância de gentes. Sobre a guerra na Síria, esclarecia a religiosa argentina que ali viveu anos a fio -- Guadalupe: bastava pararem o tráfico de armas para se pôr cobro a um conflito injusto e dilacerante (ref. no gin de 21 de Março de 2016). Sobre as desigualdades gritantes entre diferentes hemisférios, tudo parece cristalizado, apesar das muitas organizações internacionais pagas principescamente para promover um desenvolvimento que continua a estar longe de chegar a todos. A previsível escassez dos recursos hídricos agravará o problema. Certo mesmo é termos pela frente milhares de pessoas desesperadas e em risco, desejosas de se estabelecer no Primeiro Mundo. Apenas podemos escolher como reagir, quando nos calhar ter a vida do próximo nas mãos… Mãos sempre frágeis, claro, mas não necessariamente fechadas.   

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta-feira)

terça-feira, 3 de julho de 2018

Duas Últimas

Neste estabelecimento que é sério, embora se fale de sexo, também se fala de política, embora pouco. No fundo, como o cardamomo, que deve ser usado com parcimónia. 

Vim a saber, há poucos dias, de um futuro acampamento, organizado, patrocinado, dinamizado e promovido pelo Bloco de Esquerda. Chama-se 15º Acampamento Liberdade (houve já 14 e nem dei por isso...) e realiza-se de 25 a 30 de Julho no Parque de Campismo de Martinchel. Quer seja através de um artigo de José Manuel Fernando, no Observador, quer seja através de uma fotografia do programa que circula pelo Whatsapp, muitos saberão de temas importantes que serão discutidos durante estes dias, nomeadamente suporte básico de vida ou desconstrução da masculinidade tóxica.  Eu fixei um tema em particular: direito à boémia: necessidade de vida noturna (sem 'c') para produção e radicalização cultural

Parece-me, por isso, que Bohemian Rhapsody (porque fala de boémia, ou de Boémia) é um tema apropriado. Espero que o grupo parlamentar aprecie o meu gesto.

JdB


segunda-feira, 2 de julho de 2018

Dos objectos e do fim de alguma coisa

Este estabelecimento, de que sou dono e editor, é sério (ou tenta sê-lo, malgré tout...) e, não obstante, vai falar-se aqui de sexo, sendo que a palavra sexo significa, no contexto deste escrito, fazer amor ou, na expressão de algumas pessoas mais criativas, fazer o amor.  

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Não falando seguramente de artefactos que se vendem nas casas das especialidade, menos ainda de bizarrias ou fetiches, há um ponto de intersecção claro entre uma caneta de tinta permanente e o acto sexual. Diria ainda que o raciocínio é replicável para um papel de carta, para uma dança, para um telemóvel, para um computador ou para um livro. Todos estes objectos, aparentemente diferentes entre si, têm algo em comum: não é a sua existência, o facto de serem uma criação humana e / ou tecnológica, ou de cobrirem épocas diferentes. Todos estes objectos têm uma associação não desprezível ao sexo - e não é porque nuns se podem ver filmes pornográficos, noutros se podem escrever contos picantes, noutros se pode fazer isto ou aquilo...

A caligrafia é a arte de escrever bem à mão, é a perfeição da letra. A aprendizagem com uma caneta de tinta permanente favorecia esse caminho e elevava-o. O surgimento das esferográficas e, posteriormente, o progresso tecnológico passadas meia dúzia de décadas, transformaram a escrita em algo utilitário: tudo se faz com brevidade e economia de texto, pois o importante é o entendimento da mensagem, a racionalização do tempo, a rapidez, a comunicação prática. O papel de carta vende-se nos alfarrabistas ou em lojas inundadas de pó, obsolescência e falência anunciada. Enquanto a escrita de uma carta requeria lentidão e cuidado, a de um sms requer mestria. Enquanto a escolha do papel e da tinta assentava numa escolha estética da gramagem e da cor, a utilização do telefone ou do computador obedecem a requisitos técnicos, de velocidade, de capacidade de memória e espaço para aplicações e jogos. 

Acontece o mesmo com a substituição do livro pelo tablet - a dimensão sensorial do toque, da observação da capa, do manuseio, foi substituída pela vertente prática, da não ocupação do espaço, da facilidade de leitura. Quer o telefone quer o tablet mataram, de alguma forma, o sentido do tacto. Agarramos mais, mas tocamos menos.

O desaparecimento do livro, do papel de carta ou da dança entre um homem e uma mulher, e a sua substituição pelo equivalente digital / tecnológico ou pela agitação em grupo, mataram um certo estilo de vida e, nessa voragem (quase) destruidora feriram de morte o erotismo do sexo. Numa sociedade na qual não há espaço para o vagar e para o contacto físico, que é composta por pessoas que falam entre si por mensagens curtas e práticas, que se veem através da virtualidade de ecrãs, que fazem da vida uma sucessão de actividades práticas, o erotismo não tem lugar. Sexo (no sentido de fazer amor) deixou de ser romântico, vagamente pecaminoso, exaltante e escondido, gratificante e íntimo, com a lentidão que cada um quer imprimir-lhe. Um dia será uma aplicação. 

A rapidez da vida, o progresso tecnológico, o fim do sentido do toque como fonte de emoção e de comércio entre as pessoas, a inutilidade da arte da escrita enquanto escolha criteriosa de forma e meios, a voragem invasora das mensagens curtas, o fim de uma certa forma de dançar, as vidas por trás de um ecrã, tudo isto destruiu uma parte da vida que se fazia a dois.

Desde o momento em que deixou de ser apenas impulso primitivo, o sexo foi (também) amor. Talvez um dia seja apenas uma actividade, uma função, uma linha numa lista, um bullet assinalado com eficácia mas sem criatividade, tal e qual como escrever um sms ou um mail a cujo fraseado se tiram as consoantes mudas e a pontuação, se usam abreviaturas sem critério, se dispensa o bom dia e o obrigado, gentilezas substituídas por um imoji.

O erotismo, temo eu, será o apropinquar do léxico português. A palavra é gira, mas ninguém sabe bem o que quer dizer.

JdB 

domingo, 1 de julho de 2018

13º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 5, 21-43

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
depois de Jesus ter atravessado de barco
para a outra margem do lago,
reuniu-se grande multidão à sua volta,
e Ele deteve-Se à beira-mar.
Chegou então um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo.
Ao ver Jesus, caiu a seus pés
e suplicou-Lhe com insistência:
«A minha filha está a morrer.
Vem impor-lhe as mãos,
para que se salve e viva».
Jesus foi com ele,
seguido por grande multidão,
que O apertava de todos os lados.
Ora, certa mulher
que tinha um fluxo de sangue havia doze anos,
que sofrera muito nas mãos de vários médicos
e gastara todos os seus bens,
sem ter obtido qualquer resultado,
antes piorava cada vez mais,
tendo ouvido falar de Jesus,
veio por entre a multidão
e tocou-Lhe por detrás no manto,
dizendo consigo:
«Se eu, ao menos, tocar nas suas vestes, ficarei curada».
No mesmo instante estancou o fluxo de sangue
e sentiu no seu corpo que estava curada da doença.
Jesus notou logo que saíra uma força de Si mesmo.
Voltou-Se para a multidão e perguntou:
«Quem tocou nas minhas vestes?»
Os discípulos responderam-Lhe:
«Vês a multidão que Te aperta
e perguntas: ‘Quem Me tocou?’»
Mas Jesus olhou em volta,
para ver quem O tinha tocado.
A mulher, assustada e a tremer,
por saber o que lhe tinha acontecido,
veio prostrar-se diante de Jesus e disse-Lhe a verdade.
Jesus respondeu-lhe:
«Minha filha, a tua fé te salvou».
Ainda Ele falava,
quando vieram dizer da casa do chefe da sinagoga:
«A tua filha morreu.
Porque estás ainda a importunar o Mestre?»
Mas Jesus, ouvindo estas palavras,
disse ao chefe da sinagoga:
«Não temas; basta que tenhas fé».
E não deixou que ninguém O acompanhasse,
a não ser Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago.
Quando chegaram a casa do chefe da sinagoga,
Jesus encontrou grande alvoroço,
com gente que chorava e gritava.
Ao entrar, perguntou-lhes:
«Porquê todo este alarido e tantas lamentações?
A menina não morreu; está a dormir».
Riram-se d’Ele.
Jesus, depois de os ter mandado sair a todos,
levando consigo apenas o pai da menina
e os que vinham com Ele,
entrou no local onde jazia a menina,
pegou-lhe na mão e disse:
«Talitha Kum»,
que significa: «Menina, Eu te ordeno: levanta-te».
Ela ergueu-se imediatamente e começou a andar,
pois já tinha doze anos.
Ficaram todos muito maravilhados.
Jesus recomendou-lhes insistentemente
que ninguém soubesse do caso
e mandou dar de comer à menina.

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