terça-feira, 18 de setembro de 2018

Textos dos dias que correm *

É urgente nutrir a vida (I)

Quando se trata de pensar aquilo que nutre a vida é tão importante fazermos o elogio da pequena história, não apenas da grande. Gosto muito da proposta que, um dia, encontrei num livro de história: "Não dar mais valor à queda de um império do que ao nascimento de uma criança, nem mais peso às ações de um rei do que a um suspiro de amor." Talvez um dia mereçamos uma história ensinada assim. Talvez um dia nos preocupemos definitivamente mais com a pessoa do que com a estrutura, com a singularidade mais do que com a afiliação. Talvez um dia uma palavra, um rosto ou um destino quaisquer, eleitos assim ao acaso, sirvam para revelar tudo: para nomear o entusiasmo e a dor, o vislumbre e o combate, a razão e o enigma que existir significou e significa. Porque a verdade é que passam os anos e o que resta deles? Vivências. Sim. Restam as marcas de que estivemos aqui, de que habitámos estações diferentes com a mesma mansidão ou o mesmo furor, de que tentámos sobreviver ao amor, ao desamparo e à morte com tudo o que tínhamos à mão, de que partilhámos, de que cremos e negámos coisas diferentes e até a mesma coisa, de que coexistimos nos nossos encontros e na nossa irredutível solidão. Restam de nós vestígios, monumentos de vário tipo, pegadas. Resta o pó e o silêncio dos ossos. Mas não só: de uma forma que não sabemos, o escasso lume que fomos perdura e serve a outros para continuar. Façamos o elogio da pequena história!

Nutrir-se de espanto

E façamo-lo, em contracorrente, nesta sociedade dominada pelo mito do controlo, onde uma ideia de vida substituiu-se à própria vida. A nossa viagem passou na nossa cultura para as mãos de um piloto, que só tem de aplicar, do modo mais maquinal que for capaz, as regras previamente estabelecidas. Os nossos sentidos adormeceram. Deixou de haver lugar para a surpresa. Vivemos condicionados por uma espécie de guião. Uma coisa, porém, tenho aprendido: é importante não condicionar o fluxo espantoso da vida e a capacidade que ela tem de nos surpreender. A nossa pequena vida é um instante em aberto. Somos chamados a cultivá-la com a paciente humildade que um jardineiro reserva ao seu jardim. O jardineiro trabalha de sol a sol, com todo o afinco, mas sabe que a rosa floresce sem ele saber como. Felizes aqueles que, em relação à vida, à pequena história se nutrem do espanto: esses, e só esses, sentirão o inacabado do tempo como uma promessa.

Como ensina Jung, “o importante não é ser perfeito, o importante é ser inteiro”. Os pequenos triunfos dão-nos fortaleza para olhar as grandes humilhações, e as dificuldades vividas dão-nos humildade para viver os triunfos. As experiências de liberdade dão-nos a capacidade e a esperança para suportar os momentos de penumbra; e os momentos em que nos sentimos aprisionados dão-nos a resistência, a força e até o sentido de humor para vivermos os tempos de liberdade. Há que afastar de nós a tentação do cinismo e aceitar, finalmente, que somos feitos destes materiais tão diversos e que tudo isso é dom, que tudo isso é o nosso nutrimento.

Estamos prontos a honrar a vida?

Olhemos para dentro de nós. Se nos escutarmos em profundidade sabemos que existem perguntas que estão desde sempre à nossa espera. Subtraí-las é subtrairmo-nos e faltarmos à chamada que a vida nos faz. Uma dessas perguntas prende-se com o desejo, e na forma mais incisiva e pessoal formula-se assim: "Qual é o meu desejo?" O meu desejo profundo, aquele que não depende de nenhuma posse ou necessidade, que não se refere a um objeto, mas ao próprio sentido. "Qual é o meu desejo?" O desejo que não coincide com as quotidianas estratégias do consumir, mas sim com o horizonte amplo do consumar, da realização de mim como pessoa única e irrepetível, da assunção do meu rosto, do meu corpo feito de exterioridade e interioridade (e ambas tão vitais), do meu silêncio, da minha linguagem. Como dizia Françoise Dolto, a nossa hora só chega "quando, como qualquer outro ser humano sentimos um desejo suficientemente forte para assumir todos os riscos do nosso próprio ser. Aí estaremos prontos a honrar a vida de que somos portadores".

O momento da aceitação de si

Olhemos para dentro de nós. A não sei quantas braças de profundidade situa-se uma dor nunca reparada, mas que condiciona toda a superfície. Identificar e cuidar dessa dor é a condição para sermos nós próprios e podermos entender também a dor que os outros transportam, tocando a nossa e a sua verdade. O momento da aceitação de si, com lacunas e vulnerabilidades, é uma etapa crítica, dilacerante até, mas abre-nos à transformação e fecundidade possíveis, abre-nos à enunciação do desejo. E, não o esqueçamos, quantas vezes a vulnerabilidade acolhida se torna a janela por onde entra a inesperada transparência da graça.

(Continua)

* D. José Tolentino Mendonça
Publicado em 17.09.2018

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Do saudosismo do combate

Sexta-feira almocei com uma tertúlia habitual. Uma vez que somos poucos, temos oportunidade para falarmos todos entre todos. Conversamos de História, de religião, de genealogia, de alguma política internacional, deste ou daquele por quem nos interessamos mais. Pelo meio contamos graças, rimo-nos, cimentamos amizades, aprendemos, descobrimos diferenças e semelhanças, identificamos coincidências no que para nós é fundamental.

Foi no decurso deste almoço que se falou de Timor e eu mencionei o tenente-coronel Maggiolo Gouveia, cuja descendência frequentava a piscina do Regimento de Infantaria de Abrantes, onde cumpri serviço militar, em 1981. Este militar faz parte de um certo imaginário político que recua a 1976, uma altura em que eu eu outros jovens, então com 20 anos, nos entusiasmávamos com a política e com uma certa ideia de Deus, Pátria, Rei, trilogia que era filha das nossas convicções inflamadas. O relato que nos chegou na altura talvez tenha sido o que reproduzo abaixo, que consta de uma carta do Bispo de Dili à mulher de Maggiolo Gouveia (10 de Março de 1976) e cujo excerto retirei daqui:  

"(...) Chegados aqui, e percorridos uns metros de estrada, soou a voz de «alto» e o grupo parou e viu-se próximo de uma grande vala, previamente aberta ao lado da estrada. É-lhes, então dito que todos vão, ali ser fuzilados. Há um momento de consternação e de estremecimento colectivo. As milícias põem a arma à cara: e é então, que o tenente-coronel Maggiolo levanta a voz e diz: Senhores, deixem-nos rezar. E todo o grupo, de joelhos em terra, reza o terço a N.Senhora, dirigido pelo tenente-coronel Maggiolo. Terminado este e estando todos de joelhos, encoraja e anima os seus companheiros «condenados à morte» e termina dizendo: Irmãos, breve vamos comparecer na presença do nosso Deus e Pai: façamos o nosso acto de contrição, o nosso acto de amor. E, em silêncio entrecortado de lágrimas, os corações daqueles homens sobem a Deus para pedir... lembrar... e dizer... aquilo de que, naquela hora derradeira, Deus é o Único testemunha. Depois, o tenente-coronel põe-se de pé, sendo seguido neste gesto pelos seus companheiros, e dirige-se aos soldados-algozes nestes termos: irmãos, nós estamos já preparados para comparecer no Tribunal de Deus, lá vos esperamos também a vós. O meu único crime foi o de não renegar a minha fé e o de amar Timor. Morro por Timor. Morro pela minha Pátria e pela minha fé católica. Podeis disparar."  

Interessa-me pouco, a esta distância, o percurso político do militar português em serviço em Timor, nem me compete fazer qualquer julgamento sobre as suas atitudes no momento. O tempo, aquele tempo, era de defesa daquilo em que acreditávamos e que sentíamos ameaçado. O militar português era um mártir que encontrara forças para rezar antes de ser fuzilado. E era isso que importava - morria-se por Deus e pela Pátria, mesmo que envolto em brumas de romance.

A conversa da tertúlia prossegue e, a este propósito, fala-se então do jornal A Rua, semanário de direita fundado na altura por Manuel Maria Múrias. E fala-se de Rodrigo Emílio, um homem cujo nome me lembrava de ver nas páginas do referido semanário. Os tempos eram de empolgamento, de esperança e luta, de militância e risco. Nada estava garantido - nem o futuro, nem a pátria, nem a liberdade, nem o crucifixo. Eram tempo difíceis, e por isso talvez mais ricos. O tom deste post não é de saudosismo político; talvez seja de saudosismo do combate.

JdB

*** 

Poema de Luto Pesado * por Rodrigo Emílio

(Em memória e louvor do Tenente-Coronel MAGGIOLO DE GOUVEIA e de mais sessenta PORTUGUESES, fuzilados em TIMOR pelos facínoras comunistas da Fretilin)

Para o Pedro Rocha, a quem este poema e respectivo autor tantíssimo devem...

Tu viste, do céu?...
Assististe, Senhor,
à chacina de Ailéu
(algures, em Timor)?!...

Viste a morte cruenta
e sangrenta
— tal como aquela que se dá às rezes... —
que sofreram 50 ou 60
Portugueses?!...

Viste como esses perseguidos
se persignaram, em português,
por môr de Dili
— e à hora da morte, unidos,
ali ajoelharam,
uma última vez
diante de Ti?...

E viste, viste também
(à flor da ilha que lhes foi berço
e lhes foi cova duradoura),
como todos, em côro, rezaram o terço
a Tua Santa Mãe,
Nossa Senhora?!...

Não deixaste sequer de reparar
que, mal a oração final
por ali se pronuncia —
eles, todos, em coral,
desataram a cantar
ao Coração Virginal
de Maria!...
... ... ...

Finalmente,
puseram-se de pé.

E à frente
de tão nobre gente,
há então quem dê
um último e ardente
testemunho de fé.

É o Tenente-Coronel
MAGGIOLO DE GOUVEIA
— que não cura de salvar a pele,
mas a epopeia!

Em nome de todos, disse isto,
Senhor!,
às fardas cruéis
que os iam matar:

«Morremos por CRISTO
e por TIMOR.
Podeis
disparar».

Rodrigo Emílio
In Poemas de Braço ao Alto, págs. 98/99.

---

* tirado daqui (o poema e os outros considerandos)

domingo, 16 de setembro de 2018

24º Domingo do Tempo Comum

Mc 8,27-35

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus partiu com os seus discípulos
para as povoações de Cesareia de Filipe.
No caminho, fez-lhes esta pergunta:
«Quem dizem os homens que Eu sou?»
Eles responderam:
«Uns dizem João Baptista; outros, Elias;
e outros, um dos profetas».
Jesus então perguntou-lhes:
«E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Pedro tomou a palavra e respondeu: «Tu és o Messias».
Ordenou-lhes então severamente
que não falassem d’Ele a ninguém.
Depois, começou a ensinar-lhes
que o Filho do homem tinha de sofrer muito,
de ser rejeitado pelos anciãos,
pelos sumos sacerdotes e pelos escribas;
de ser morto e ressuscitar três dias depois.
E Jesus dizia-lhes claramente estas coisas.
Então, Pedro tomou-O à parte e começou a contestá-l’O.
Mas Jesus, voltando-Se e olhando para os discípulos,
repreendeu Pedro, dizendo: «Vai-te, Satanás,
porque não compreendes as coisas de Deus,
mas só as dos homens».
E, chamando a multidão com os seus discípulos, disse-lhes:
«Se alguém quiser seguir-Me,
renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.
Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á;
mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho,
salvá-la-á».

***

Quem dizeis que eu sou? *

De tempos a tempos a pergunta ressuscita do estado catatónico, invade o espaço da consciência e torna-se pública: «Maria, porque é que estamos casados?», «Francisco, tu amas-me?», «a que propósito estou nesta faculdade?», «porque é que acordo tão cedo?», «por onde vou?» e por aí adiante.

Aqui e ali, em tempos e lugares inesperados, a pergunta bate à porta e expõe-se sem pedir autorização. O desenho em forma de anzol ao contrário resgata-nos da propensão para a repetição mecânica das atividades e gestos, obriga-nos a refazer, reelaborar, reassumir as opções delineadas nos arquivos do tempo. Quando levada a sério, reacende a paixão primeira ou, pelo contrário, confronta-nos com uma dolorosa realidade que não pode ser camuflada por muito tempo: «já não faz sentido continuarmos assim», «não, não sei o que é o amor», «estou no curso errado», «trabalho inutilmente para…».

Depois das reformas do concílio Vaticano II, houve alguma tribulação no seio das comunidades religiosas, provocada pelas novas orientações. A febre também afetou a vida monástica, confessa o abade André Louf. Nos corredores dos antigos mosteiros, repetia-se a pergunta: «Afinal o que é um monge?». «Um monge, disse o velho sábio, é aquele que todos dos dias se interroga, o que é o monge?»

O que é um batizado? O que é ser membro da Igreja? Que significa seguir Jesus? Em resumo, quem é Jesus para mim?

Se realmente temos amor a esta causa, estas perguntas surgem naturalmente, todos os dias, porque em cada amanhecer, podemos dizer «hoje começo de novo». Bem-aventurado aquele que se interroga constantemente porque um dia encontrará o Reino de Deus!

Todos os dias, enquanto cristãos, somos confrontados com a pergunta do Mestre da Galileia, a mesma que Ele fez a caminho de Cesareia de Filipe «Tu, que dizes de mim?». Há ainda as respetivas variações, como aquela de S. Tiago «De que serve a alguém dizer que tem fé, se não tem obras?» e, a mais antiga, de Isaías «Quem é o meu adversário?...».

A qualidade da resposta é determinada pela escala de valores subjacente às nossas opções. Se amo, se tenho devoção, direi também, ainda que tímida e secretamente, como Pedro, «Tu és para mim o Messias». Aos olhos dos outros, tudo pode parecer igual, os dias e as atividades. Mas, para nós, há um novo vigor suscitado pela pergunta decisiva.

E estaremos dispostos a caminhar com Ele.

* Nélio Pita, CM
Publicado em 14.09.2018

sábado, 15 de setembro de 2018

Pensamentos Impensados

Respirações
Deve respirar-se ar puro e não inspirar cuidados.

Futebóis
A Taça da Liga é patrocinada pela Ordem da Jarreteira.

O gesto é tudo
S. Francisco contribuiu para a linguagem gestual com o manguito.

Casas
Noé tinha uma segunda habitação: a Arca.

Silêncio
Gosto  do quadro O Grito porque não grita.

Mais futebóis
Segundo Varandas, o Sporting já é campeão... à condição.

SdB (I)

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Textos dos dias que correm *

Regresso aos clássicos

«Folheio os antigos sábios e neles reencontro os meus pensamentos mais modernos.» «Todos os pensamentos inteligentes já foram pensados; só é preciso tentar repensá-los.»

É significativo um dado que se regista agora em diversas ocasiões, o regresso aos clássicos. Todas as vezes que se propõe uma leitura de Dante, de Homero ou da Bíblia é surpreendente ver a multidão – muitas vezes maioritariamente juvenil – que se atropela para a escuta, por vezes em condições desfavoráveis, mas com grande atenção.

As motivações são várias, a começar pela saturação desse excesso de murmuração e banalidade que assola a comunicação de massa. Mas há duas outras razões sugeridas na dúplice citação que hoje proponho.

A primeira observação extraio-a do romance “O primeiro círculo” (1968), do famoso escritor russo Alexander Solzhenitsyn (1918-2008) e é uma consideração que muitas vezes deixa surpreendido todo o leitor dos clássicos: descobre-se que eles são muito mais atuais, envolventes e «modernos» do que muitos textos e páginas inteiras de jornais publicados nos nossos dias.

Com efeito, eles sabem colher não só o sentido profundo da realidade, mas também intuir-lhe os desenvolvimentos, penetrando até no futuro.

E eis que chegamos à segunda nota, pertencente a alguém que pode ser considerado já um clássico; é, efetivamente, uma das “máximas” do grande autor e estadista alemão Goethe (1749-1832).

Ele recorda-nos, substancialmente, aquela célebre imagem de Bernardo de Chartres: somos anões às costas de gigantes. A nossa tarefa não partir do zero, mas sobre a base necessária do passado – eis o relevo das chamadas “raízes” – repensar, reatualizar, projetar para o hoje aquela mensagem fecunda e criativa.


* P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 12.09.2018

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Dos que se doutoram e dos que são pedreiros

No que aos meus textos diz respeito, o meu querido amigo ATM divide-se salomonicamente entre a crítica mais assanhada e o elogio mais fértil. Entre os dois extremos deste contínuo no qual ele derrama uma certa atenção ao que eu escrevo há um estado intermédio. Chama-se alerta, e foi o que ele fez relativamente ao final do meu texto de anteontem. 

(Há ainda a indiferença, algo indefinível nesse contínuo, que se deve ao desinteresse pela forma ou pelo conteúdo, a uma gripe, a um espanto prolongado pelo tema, ou à inexistência de uma brecha por onde entrar com a lança ou com a palma.) 

Anteontem ainda, repito, alertou-me para a conclusão do meu post sobre os jovens que se doutoram em Wordsworth, Pascoaes ou arte moderna. Diz-me ele que pode dar a impressão (o pode dar não é, no entanto, uma expressão que ele use, pois alguma assertividade não concede hipóteses) que eu defenderia uma espécie de degredo destes jovens universitários para as obras, pondo as mentes inteligentes ao serviço das canalizações, das cantarias em pedra, dos disjuntores. O alerta, concedo-o, tem uma certa razão, embora essa visão não me habitasse a mente. 

Num momento que é variável, todo o jovem encontra dentro de si uma vocação, um interesse, uma queda para uma determinada actividade, o desejo de um determinado curso. Todo o jovem construirá um futuro e, para isso, desenhará uma rota para lá chegar, juntará ferramentas. Há os que querem ser engenheiros, médicos, advogados, professores. Alguns quererão tirar cursos superiores porque isso, entre outros factores, lhes dará a possibilidade de lugares mais cimeiros numa organização qualquer, lhes abre portas para posições interessantes, lhes dá a possibilidade de um salário maior, ou, porque não, lhes assegura um certo estatuto. Entre esta juventude há os que têm uma vocação clara: querem ser padres, freiras de clausura, escritores, artesãos de um mister que gere notoriedade pública ou satisfação interior. Ninguém, ou um número muito reduzido, quererá ser canalizador, pedreiro, electricista, a menos que pretenda copiar uma actividade parental, não tenha alternativas ou possua uma visão arrojada da vida. Há os que querem ser marceneiros ou carpinteiros, mas nesses futuros há a possibilidade de uma certa criatividade artística.

Para que serve um doutoramento? Em termos muito simplistas, para ascender a uma determinada posição ou para enriquecimento pessoal. Se esta divisão grosseira for aplicável aos meus colegas de mestrado / doutoramento, vou imaginar que alguns quererão aprender mais - e têm uma situação financeira que lhes permite isso - ou têm uma visão de futuro. E qual será, então, essa visão de futuro? Serem professores universitários? Parece-me lógico, normal, saudável. Mas será isso?

Olho para os meus colegas e sobre alguns faço uma avaliação muito pessoal, muito ligeira, muito falível. Alguns são detentores de um cultura grande e sólida para a idade, ainda que numa determinada área. Alguns têm um pensamento muito estruturado, que lhes permite ligações entre áreas diferentes do saber, sobre as quais discorrem com facilidade e fluidez e que, nalguns casos, são motivo da minha inveja. Outros, como é óbvio, têm inteligências normais, raciocínios normais, cultura normal, factores que lhes permitirão saber mais - ou muito - sobre um determinado tema. Se o objectivo é saber mais, vão no caminho certo. Se a intenção é construir um futuro, para onde vão?

Em momento algum acharia que os meus colegas deveriam deixar uma academia que lhes abre poucas portas para se dedicarem à cablagem e às manilhas - ainda que pudessem ganhar mais dinheiro. Gosto de ver gente a perseguir um desejo, a instruir-se, a pensar sobre as coisas, a cumprir uma vontade ou, simplesmente, a cumprir-se. Mas para onde irão, em Portugal, com um conhecimento grande sobre poetas ingleses, escritores portugueses, arte moderna ou teatro contemporâneo? A pergunta é totalmente genuína e transparente: que lógica está por trás da decisão de um doutoramento aos 30 anos estas áreas?

As caixas dos supermercados estarão repletas de licenciados, mestrados ou mesmo doutorados. Gente que não encontrou uma profissão consentânea com a sua formação académica, gente que talvez não se tenha imaginado por trás de um balcão de loja quando se abalançou a uma formação superior. Noutro prato de outra balança - e tanto o prato como a balança são diferentes - um pedreiro ou um carpinteiro (ou um doceiro, como me disseram um destes dias) pode ganhar muito dinheiro por mês, e talvez não o faça por deficiente formação em gestão ou planeamento. São os excedentários de uma certo prato de balança que deverão colmatar os défices de outro prato de outra balança? Não seguramente, até porque todos - pelo menos para já - ambicionamos para nós e para os nossos filhos o melhor. E o melhor ainda está, aparentemente, na formação académica superior. O meu colega que se especializará (ou especializará ainda mais) em T S Eliot não deve ir para electricista só porque há falta de gente competente que diferencie a corrente alterna da contínua. Ele deve fazer o que quer para chegar onde quer. Não sei é onde é que ele quer chegar.

Do ponto de vista do utilitarismo, é pena que não haja mais gente a querer ser electricista (ou não haja formação adequada), porque não há muitos. Para além de tudo pode ganhar-se bom dinheiro... Isto sou eu a falar, que também incentivaria os meus a serem doutores em vez de serralheiros mecânicos. Estou disponível para pensamentos arrojados, mas nem tudo no meu quintal...

JdB  

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Vai um gin do Peter’s?

UMA BIBLIOTECA PARADISÍACA E FESTIVA,  NA ÁUSTRIA

Com o palmarés de maior biblioteca monacal do mundo, o mosteiro beneditino de Admont alberga uma colecção portentosa de manuscritos e incunábulos medievais, num espaço de sonho, que mais se assemelha a um salão de baile. Reúne ainda um acervo científico que vale pela antiguidade e diversidade. 

O nome «ad montes» explica a beleza da paisagem onde foi implantada a abadia, coroada pelas montanhas da periferia do parque nacional austríaco –  Gesäuse National Park

No Inverno, domina a paisagem branca

Com o degelo, o rio Enns retoma a sua cor esmeralda

Fundada em 1074, pelo Arcebispo de Salzburgo, nasceu e permaneceu, durante séculos, um centro pujante de vida espiritual, cultural e intelectual, percebendo-se por que os mosteiros foram os embriões das universidades europeias, enquanto focos de acumulação de saber, investigação e intensa «produção editorial», assegurada pelos monges-copistas. 

Desde cedo que a abadia de Admont assumiu também uma veia pedagógica, com a raridade de ter aberto as portas a alunas, em geral, filhas de nobres. Vários dos seus abades foram académicos de renome e escritores pródigos [ex: Engelbert de Admont (1297–1327); Albert von Muchar]. Ali, as monografias pulularam como cogumelos. E, durante séculos, alojou as faculdades de filosofia e de teologia, além de um liceu aberto a estudantes de ambos os sexos. Mais tarde, liceu e universidade foram transferidos para as povoações populosas das redondezas. 

Na linha da frente das ofensivas turcas à Europa, a Áustria viveu tempos conturbados, no final da Idade Média, que também afectaram a abadia. Mas tudo se inverteu com a Batalha de Lepanto (1571) contra o sultão e a Contra-Reforma. Em meados do séc.XVI, Admont voltou a florescer. Nos dois séculos seguintes chegou a distinguir-se pela produção artística [ex: do eclesiástico bordador Benno Haan (1631–1720) ou do escultor Joseph Stammel (1695–1765) ].

Em pleno século XVIII, o barroco fez escola no mosteiro, marcando a última versão da soberba biblioteca, que foi a única parte do grande edifício a resistir a um incêndio deflagrado em 1865. Por sorte, a ala “livresca” e respectivo acervo salvaram-se integralmente. Compunha-se de mais de 1400 manuscritos, datando o mais antigo da Fundação da abadia (séc.XI), além de cerca de 900 incunábulos e mais de 200 mil volumes. Para lá do tesouro bibliográfico, o próprio espaço é incrivelmente bonito, num estilo faustoso pouco a ver com as linhas austeras do exterior e nada consentâneo com a sobriedade e penumbra das bibliotecas dessa altura: 

As galerias contíguas estendem-se ao longo de 70 metros, por 14m de largura e 13 de altura, com espaço para mezzanine

Em Admont, a arquitectura irrompe com garbo, partilhando o protagonismo com o tesouro editorial ali guardado. Superabundam as abóbodas, as colunas, os medalhões de bronze, as esculturas monumentais de Joseph Stammel, as grades douradas e um chão atapetado com um padrão multicolor de lajes de mármore. 

A decoração sumptuosa acentua o carácter festivo de um lugar onde a memória do saber faz questão de se afirmar com pompa e circunstância (1), bem nos antípodas do recato das grandes bibliotecas antigas (muitas também lindas, como a da Universidade de Coimbra).
   
Os salões brilham também pela claridade espantosa da meia centena de janelas – uma raridade em bibliotecas de Setecentos

Concebida, em 1776, pelo arquitecto barroco Joseph Hueber, tem os tectos preenchidos pelos frescos de Bartolomeo Altomonte, a mostrar as várias etapas da aprendizagem humana até ao apogeu proporcionado pela revelação divina.  

Zoom sobre os frescos de Altomonte

No conjunto, prevalecem o dourado e o branco para celebrar os ideais do Iluminismo, que pretendiam ser clarificadores, sustentados por uma razão esclarecida.

Ainda hoje, a abadia (reconstruída no séc.XIX) continua a ser habitada por monges beneditinos, que preservam a sua história milenar, ao mesmo tempo que a quiseram abrir à modernidade. Através do programa «Artists in Residence», dão guarida às obras dos artistas mais novos, provando que o passado se pode harmonizar com o presente. Pela arte, lançaram pontes entre gerações distantes, replicando a fórmula ousada da esplendorosa biblioteca monacal de Admont.

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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terça-feira, 11 de setembro de 2018

Crónicas de um doutorando tardio

Fui ontem à já habitual reunião de início de ano do Programa em Teoria da Literatura, onde faço o meu doutoramento. Ainda de manhã mandaram-me uma fotografia ternurenta: uma criança de três anos, que me é próxima e faz a caridade infantil de gostar muito de mim, com mochila às costas, pronta para o primeiro dia de escola da sua vida. A imagem é a de uma criança sorridente, a irradiar felicidade, certa, como disse a uma tia, de ir fazer novojamigos. Neste relato que faço deste meu também regresso às aulas, poderia falar do meu contentamento infantil ao cruzar o átrio da faculdade pejado de gente nova, ao conhecer novas caras de novos colegas, ao imaginar o que tenho pela frente de textos para ler e sobre os quais discorrer. Não o farei por pudor.

(Começo com uma curiosidade estatística. Na fila onde me sentei estavam, contanto comigo, quatro pessoas. A que estava à minha direita era canhota, a que estava à minha esquerda também. Eu também sou canhoto.)

Naquela sala de aula desconfortável estariam 40 pessoas, a maior parte delas a fazer o seu mestrado, outras, em menor número, a fazer o seu doutoramento. Olhei à volta, e percebi que no pódio do campeonato geriátrico alguém me daria a medalha de prata. 95% dos alunos terão menos de 30 anos. Ora, isto levanta-me uma questão: o que faz um adulto de 30 anos com um doutoramento em Proust, em Wordsworth, em Wittgenstein ou em estética de qualquer coisa? Não sei, honestamente não sei. Eu também não farei nada com o meu doutoramento, mas o motivo para o fazer foi puramente lúdico, não lhe associei uma valência utilitária. Um adulto (jovem adulto?) com 30 anos está em princípio de vida familiar / profissional. Pensará em casar, em ter um emprego, meios de subsistência, uma carreira, talvez. De que lhe serve saber muito - ou quase tudo - sobre um poeta inglês, sobre um escritor portugês, sobre um filósofo ou sobre relíquias? Não sei, honestamente não sei.

Há dois ou três anos, talvez, perguntei a um destes jovens, no início do seu doutoramento (em T S Eliot, talvez) o que faria ele com isso. A resposta foi clara, curta e concisa: irei trabalhar para o call center de uma vodafone qualquer. O mundo do trabalho braçal, do trabalho repetitivo, do trabalho intelectualmente menos exigente estará pejado de licenciados, mestrados, doutorados. Gente que tratará o cliente por senhor joão, lhe dirá como reiniciar o router ou o custo do roaming no Japão. Em casa, atamancado por trás de uns sapatos, de uma prancha de surf e, quiçá, de uma frustração, estará The Waste Land, ou os livros que falam de um tempo perdido. Entretanto, não se consegue um canalizador, um pedreiro, um marceneiro ou um bom electricista. O que nos diz isto do mundo em que vivemos? 

JdB   

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Ainda das viagens

Três eventos no espaço de poucos dias que confirmam uma ideia pessimista: (i) vejo um programa de televisão onde um português, emigrado no Perú, fala das milhares de pessoas que, todos os dias, visitam Machu Picchu. Dizem-me, a esse propósito, que já ha limites para o número de visitantes; (ii) amigos próximos estiveram muito recentemente no Funchal, num hotel de cinco estrelas onde passaram a lua de mel há mais de vinte anos. Falaram dos hóspedes, sobretudo de alguém que, de chinelos e tronco nu, se quedou no lobby do hotel a resolver problemas; (iii) ontem estive em Lisboa, circulando a pé entre o Largo Camões e a Igreja de Santa Catarina, na Calçado do Combro. A circulação a pé é difícil, tal o número de visitantes a passearem languidamente pelos passeios,  muitas vezes no meio, impedindo a circulação dos outros, nomeadamente os que têm mais pressa.  

O assunto que aqui me traz não é novo, como não é novo muito do que aqui direi. 

Quando comecei a viajar, em 1975 / 1976, talvez, o avião era um local que requeria algum dress code. Os aviões não iam cheios, havia ementas de papel, opção de menu numa viagem simples para Londres. Na verdade, entre outros factores, o preço das passagens aéreas não era convidativo. A título de exemplo apenas, em 1979 uma viagem Lisboa - Hong Kong  custava 120 contos (600€); passados quarenta anos, o preço deve continuar a ser esse. Noutro âmbito, a ida a um museu fazia-se sob o signo do sossego e do silêncio: podia estar-se em frente a um quadro durante dez minutos, sem que a vista nos fosse tapada por uma multidão em circulação. Pelas ruas e praças das principais capitais estrangeiras havia sobretudo gente local e, nos meses do Verão, alguma gente jovem, a fazer o seu interrail. Sentavamo-nos nas fontes, nas escadarias, nas praças, nas esplanadas, e via-se o bulício local, não aculturado pela horda das excursões.

Diz-me esta amiga que veio do Funchal do gosto que agora tem em ficar em hotéis mais pequenos, hotéis boutique, de charme, talvez mais povoados por um género de gente menos ruidoso, menos ávida de coleccionar destinos ou de evidenciar a sua nudez a despropósito. Talvez seja isso, mas o problema mantém-se no período de tempo entre as 09.00h e as 23.30h, em que estamos acordados e em circulação. As praças estão cheias, as esplanadas a rebentarem pelas costuras, as salas de museus atravessadas por gente que quer fixar em selfies o que não fixa em interesse. Podemos dormir com outro conforto estético, mas não podemos fugir à barafunda citadina. Talvez um dia não se vá a Roma, mas a uma vilória perdida no meio da Toscana onde pode ouvir-se ainda o som do silêncio, onde a massa seja mais caseira e o molho de tomate menos perfumado pelo insecticida e pelo encontrão.

Há, de alguma forma, uma semelhança entre o custo das viagens e a passagem de uma sociedade oral para uma sociedade escrita. Ambas escancararam as portas ao que antes era prerrogativa de alguns: o conhecimento e o turismo. No entanto, a democratização do saber gerou mais benefícios do que a democratização da viagem. Como me dizia alguém, o turismo está a matar o turismo, e há dúvidas de que o mundo tenha ficado melhor.

Sou um mortal imperfeito, como tantos de nós: gosto de viajar, mas não gosto que todos viagem; gosto dos centros das cidades, mas gostava que houvesse menos gente, e estou certo de que outros pensarão o mesmo da minha indesejável presença nesses locais. No fundo, sou a favor de tudo, mas não no meu jardim...

JdB 

domingo, 9 de setembro de 2018

23º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 7,31-37

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus deixou de novo a região de Tiro
e, passando por Sidónia, veio para o mar da Galileia,
atravessando o território da Decápole.
Trouxeram-Lhe então um surdo que mal podia falar
e suplicaram-Lhe que impusesse as mãos sobre ele.
Jesus, afastando-Se com ele da multidão,
meteu-lhe os dedos nos ouvidos
e com saliva tocou-lhe a língua.
Depois, erguendo os olhos ao Céu,
suspirou e disse-lhe:
«Effathá», que quer dizer «Abre-te».
Imediatamente se abriram os ouvidos do homem,
soltou-se-lhe a prisão da língua
e começou a falar correctamente.
Jesus recomendou que não contassem nada a ninguém.
Mas, quanto mais lho recomendava,
tanto mais intensamente eles o apregoavam.
Cheios de assombro, diziam:
«Tudo o que faz é admirável:
faz que os surdos oiçam e que os mudos falem».

+++

O passador de fronteiras *

Jesus surge, no Evangelho do 23.º Domingo (Marcos 7, 31-37), antes de tudo como o “passador” de fronteiras: caminha com os seus atravessando a Galileia, passando às cidades fenícias de Tiro e Sidon, até à Decápole pagã. O caminho de Jesus, o homem sem limites, é como uma sutura que costura as bordas de uma ferida, à procura dessa dimensão do humano que a todos nos acomuna e que emerge antes de qualquer divisão cultural, religiosa, racial.

Levaram-lhe um surdo-mudo. Um homem aprisionado no silêncio, uma vida reduzida a metade, mas que é levado por uma pequena comunidade de pessoas que lhe querem bem, até àquele mestre estrangeiro, mas para o qual toda a terra estrangeira é pátria.

E pediram-lhe para lhe impor a mão. Mas Jesus faz muito mais. Pertence à pedagogia da atenção a sucessão das palavras e dos gestos. Toma-o, provavelmente pela mão, e leva-o consigo, à parte, longe da multidão, exprimindo-lhe assim uma atenção especial; já não é um dos muitos marginalizados anónimos, agora é o preferido, e o mestre é todo para ele, e começam a comunicar assim, com a atenção, olhos nos olhos, sem palavras. E seguem-se gestos muito corpóreos e ao mesmo tempo muito delicados.

Jesus põe o dedo nos ouvidos do surdo: o toque dos dedos, as mãos que falam sem palavras. Jesus entra numa relação corpórea, não etérea ou afastada, mas como um médico capaz e humano, dirige-se ao que é frágil, toca esses sofrimentos.

Depois, com a saliva, toca a sua língua. Gesto íntimo, envolvente: dou-te alguma coisa de meu, qualquer coisa de vital, que está na boca do homem juntamente com a respiração e a palavra, símbolos do Espírito. Evangelho de contactos, de odores, de sabores. O contacto físico não desagradava a Jesus, aliás.

E os corpos tornam-se lugar santo de encontro com o Senhor, e «os sentidos são divinas teclas» (D.M. Turoldo). A salvação passa através dos corpos, não lhes é estranha, nem lhes escapa como lugar do mal, antes são «atalhos divinos» (J.P. Sonnet).

Olhando para o céu, emana um suspiro e diz-lhe «effathá», isto é, abre-te! Em aramaico, no dialeto de casa, na língua do coração; emanando um suspiro que não é um grito que exprime poder, não é um soluço de dor, mas é a respiração calma e humilde da esperança, é o suspiro do prisioneiro (cf. Salmo 102, 21), é a nostalgia da liberdade (cf. Salmo 55, 18).

Prisioneiro com aquele homem impedido, Jesus suspira: Abre-te, como se abre uma porta ao hóspede, uma janela ao sol, como se abre o céu depois da tempestade. Abre-te aos outros e a Deus, e que as tuas feridas de antes se tornem fendas através das quais entra e sai a vida.

Primeiro os ouvidos. E é um símbolo eloquente. Sabe falar apenas quem sabe escutar. Outros erguem barreiras quando falam, e não encontram ninguém.

Jesus não cura os doentes para que se tornem crentes ou se coloquem no seu seguimento, mas para criar seres humanos livres, curados, plenos. A glória de Deus é o homem vivente (cf. Santo Ireneu), o ser humano regressado à plenitude de vida.


* Ermes Ronchi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 06.09.2018

sábado, 8 de setembro de 2018

Pensamentos Impensados

Quem te avisa...
Deus, quando entregou a Eva ao Adão, avisou: não temos livro de reclamações.

Joca
Qual  destas frases está certa?
-Eu não sei que tenho em ébola
-Eu não sei que tenho em Elvas.
-Eu não sei que tenho em Évora
-Eu não sei que tenho em ervas.

Filosofias
O iluminismo tem pelo menos um seguidor: a EDP.

Ablações
Os homens tornam-se eunucos por exclusão de partes.

Natureza
O esqueleto de uma cobra são ossos do ofídio.

Ditados
Candeia que vai à frente ilumina duas vezes se estiver acesa.

SdB (I)

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Crónicas de um doutorando tardio - os seminários para este semestre

Os princípios da crítica literária (Miguel Tamen)

O que foi exactamente a crítica literária? A que actividades se dedicaram os críticos? Importava que fossem escritores? Precisavam de ser professores? Tinham de escrever em jornais? O seminário discutirá uma série de textos que, entre os séculos XVIII e XIX, ajudam a perceber os princípios da crítica literária. Serão lidos textos de Hume, Johnson, Diderot, Schiller, Schlegel, Wordsworth, Coleridge, Keats, Shelley, Emerson, Baudelaire, Arnold, Pater, Nietzsche, Wilde, Proust e Tolstoy.  Não é de esperar nenhuma teoria unificada.

 ***

Uma teoria sobre lisonja (Maria Sequeira Mendes)

Na literatura, como na vida, os lisonjeiros são seres detestáveis, a quem chamamos parasitas e sicofantes, engolidores de sapos e lambe-botas, entre outros nomes pouco simpáticos. Alguns parecem ser relativamente inofensivos, diminuindo-se para obter pequenos favores pessoais, mas outros são fazedores de enredos competentes, que desencadeiam verdadeiras tragédias ao manipular aqueles que os rodeiam. Neste seminário vamos diferenciar parasitas de falsos acusadores e pessoas obsequiosas de lisonjeiros, mas também demonstrar que, nalguns casos, podem existir usos positivos – e até necessários – para a lisonja. Serão lidos no seminário uma peça de Margaret Cavendish, Timon of Athens e Julius Caesar, de Shakespeare e Volpone, de Ben Jonson, mas também, Plutarco e Platão, entre outros autores, de modo a elaborar uma teoria sobre o tópico.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Poemas dos dias que correm

Sonho

Teria passado a vida
atormentado e sozinho
se os sonhos me não viessem
mostrar qual é o caminho

umas vezes são de noite
outras em pleno de sol
com relâmpagos saltados
ou vagar de caracol

quem os manda não sei eu
se o nada que é tudo à vida
ou se eu os finjo a mim mesmo
para ser sem que decida.

Agostinho da Silva, in 'Poemas'

***

Meu Amor que Te Foste sem Te Ver

Meu amor que te foste sem te ver
que de mim te perdeste sem te amar
quem sabe se outra vida tu vais ter
ou se tudo se perde sem voltar

ou se é dentro de mim que tem de haver
tanta força no meu imaginar
que o poeta que é Deus o vá reter
e te dê vida e faça regressar

para de novo o sonho desfazer
num contínuo surgir e retornar
ao nada que dá ser ao que é querer
ao fado que só dá para se dar

por tudo estou amor e merecer
o que venha para eu te relembrar
só adorando o nada pretender
só vogando nas águas de aceitar.

Agostinho da Silva, in 'Poemas'

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Artigos dos dias que correm *

Igreja e abusos: não ter medo

1. Abateu-se sobre a Igreja Católica uma das mais graves crises da sua história: a crise dos abusos sexuais. A descoberta de padrões sistémicos de abuso sexual de menores ou de maiores vulneráveis por padres católicos é devastadora. O comportamento padrão assenta num binómio: ao crime praticado soma-se o encobrimento pela hierarquia, que tinha obrigação de o punir e denunciar. Esta constância da atitude de encobrimento e de ocultação evidencia uma dimensão institucional, que obviamente atinge a Igreja enquanto tal e não apenas os concretos abusadores. Este padrão “crime-encobrimento”, de resto, é comum aos países em que se verificou um problema sistémico (Estados Unidos, Chile, Irlanda, Austrália) e aos países em que subsistem apenas casos pontuais e esparsos. O que naturalmente faz avultar a dita responsabilidade institucional. Note-se que esta dimensão institucional não resultou decerto, em muitos casos, de uma decisão organizada ou deliberada. Basta conhecer a “cultura organizacional” de tradição católica que aponta invariavelmente para a máxima “o escândalo é pior do que pecado” para perceber a disseminação do fenómeno da ocultação. Em Portugal há algumas décadas, especialmente em meios pequenos, esta “máxima moral”, muitas vezes defendida para evitar o efeito de imitação, era dominante. E ainda hoje é frequentemente invocada em alguns dos grupos católicos mais conservadores. É a velha cultura “quem não vê, não peca”, que o mesmo é dizer, “quem não sabe, não peca”. Como os padres abusadores percepcionaram a prática de que a “salvaguarda da instituição” estava à frente da “protecção das vítimas”, gerou-se um sentimento de impunidade, que seguramente potenciou o fenómeno. Uma coisa é certa: a crise dos abusos sexuais não atinge apenas a esfera individual de cada criminoso, ela atinge a Igreja no seu todo e, em particular, a hierarquia e o clero.

2. Não vale a pena enfatizar a gravidade dos crimes sexuais em geral e daqueles que são praticados sobre crianças em particular. O horror é indisfarçável. Mas a prática destes crimes por ministros consagrados da Igreja é ainda mais censurável. Mais censurável por frustrar e defraudar a confiança quase absoluta que pais e famílias devotas (e não devotas) depositam nos sacerdotes. Mais censurável por os sacerdotes terem especiais obrigações humanas, éticas e morais. Mais censurável porque a Igreja perfilhou e continua a perfilhar uma doutrina moral sobre as relações afectivas e sexuais que é rígida, inflexível e, por vezes, desumana. Mais censurável porque (ainda) dedica à moral sexual uma centralidade inusitada. Com efeito, como pode pregar-se uma doutrina moral rígida e fechada, supostamente “pura”, e depois não actuar perante a prática de crimes sexuais hediondos e altamente reprováveis (mesmo à luz de uma moral sexual libertária)? A violação ou abuso sexual de uma criança é um crime repelente, mas praticado por um ministro da Igreja e “tolerado” ou “protegido” pelos seus superiores é ignominioso. O dano provocado por estas revelações é de enormes proporções. Daí que a Igreja tenha de pedir perdão, de encontrar respostas para as vítimas e suas famílias e de dar uma satisfação à comunidade dos crentes e dos não crentes.

3. A consciência da gravidade do fenómeno e até da resposta começou na parte final do pontificado de João Paulo II, altura em que este estava já muito debilitado, com a consequente paralisia da Cúria. Bento XVI assume a questão como prioritária (juntamente com a reforma das finanças vaticanas), pedindo perdão, avançando com a “tolerância zero” e com a colaboração com as autoridades civis, bem como com as reparações. Ao fim de uns anos, a compreensão de que a podia já não estar em ou não ter condições para ultrapassar as resistências da Cúria, levou-o a gesto revolucionário e seminal: a renúncia. E com isso a abrir a porta à chegada de Francisco, ou seja, de um Papa que não estivesse “marcado” pelos jogos da corte vaticana. Francisco manteve a mesma determinação no combate aos abusos sexuais que vinha de Bento XVI, mas renovou largamente o governo da Igreja. Ao mesmo tempo, com a sua apologia da Igreja como “hospital de campanha”, mostrou uma abertura que desafia o conservadorismo e o tradicionalismo de alguns. A Igreja pode, deve e tem de fazer mais, mas será profundamente injusto dizer que Bento XVI ou Francisco transigiram ou pactuaram com o flagelo dos abusos sexuais.

4. É fundamental pedir perdão, acolher as vítimas, ressarci-las. É também imperioso denunciar todos os casos às autoridades civis, organizar os processos canónicos, encontrar remédios processuais (mesmo que só canónicos) para os crimes prescritos. O abuso tem de ser condenado, mas o encobrimento não pode ser tolerado. Ele possibilitou, ainda que não intencionalmente, uma grande parte dos abusos e é ele que põe em crise a Igreja como comunidade e como instituição.

5. Porque a crise tem uma dimensão institucional, também é necessária uma reflexão e uma resposta a esse nível. Pode ser um concílio, pode ser um sínodo, pode ser uma assembleia aberta aos leigos. Mas, na história da Igreja, uma grande crise nunca dispensou um grande momento de diálogo, que possa limpar, reconciliar e dar um novo sopro. E aí se falará decerto do celibato, da ordenação de mulheres e de toda a moral familiar, afectiva e sexual. Com tempo, sem pressão, sem automatismos simplistas nem etiologias de ocasião.

6. No imediato e sem hesitações, o Papa Francisco carece de todo o apoio contra a manobra oportunista em curso por banda daqueles que nunca defenderam uma Igreja aberta e transparente. Não se pode ter medo. Não se pode ter medo de enfrentar a verdade e cuidar dela. Não se pode ter medo dos que, em voo de abutre, querem instrumentalizar “politicamente” o sofrimento de tantas vítimas e o acumular de tantos erros. A Francisco e à Igreja, nesta hora difícil, resta o esteio do grito bíblico do Antigo e do Novo Testamento: “não tenhas medo!”, “não temais!”.

* Paulo Rangel (eurodeputado pelo PSD)
Publicado ontem, 4 de Setembro 2018, no Jornal Público

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Da humanização dos animais (II)

Volto ao tema, para englobar no meu mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa um certo elogio àquelas duas senhoras que, no veterinário aonde levo o meu cão, lidaram com os delas como se fossem seres humanos: a senhora que tratou a cadela por princesa (sendo que não é nome, mas ternura) e lhe falou de ciúmes, a outra senhora que, tendo apresentado à cadela um cão que era igual ao primo (primo da cadela, pois o irmão da senhora também tinha um cão de uma raça específica), se despediu do animal dizendo: a mãe vai-se embora, que a mãe tem de trabalhar. E a esta frase voltarei, que há aqui pano para mangas, mesmo que sejam curtas e de pouca qualidade.

Há em mim um perfil militar que herdei de um desconhecido antigo, e também por isso tenho uma relação forte com a autoridade, com a hierarquia, com a cadeia de comando. Por outro lado, sou pai de filhos e avô de netos. Estas duas vertentes, que aparentemente se desligam uma da outra a não ser pelo facto de se aplicarem à mesma pessoa, são condição necessária - e, quiçá, suficiente - para manter o diálogo com o meu cão a uma certo nível que não ultrapasso. Tento que o cão me obedeça e que não seja o contrário. Sendo que ele não foi registado como meu filho, não me referirei a ele nesse sentido. E é por isso que não o abordo dizendo o pai vai trabalhar. Fora isso, tudo em mim revela uma senilidade semelhante; por vezes trato o cão por senhor, elogio-lhe a esperteza e falo alto no afecto incondicional que tem por mim (algo que rareia cada vez mais entre as pessoas) e talvez me lamente, quando ele me faz companhia, de mazelas das costas ou da alma. O que me diferencia relativamente às outras senhoras? Um certo pudor de linguagem que usaria também se estivesse no médico com um filho, e a certeza, detectável a olho nu, que o meu cão não é meu filho.

Dizer a mãe vai-se embora que a mãe tem de trabalhar, é uma frase ousada, que requer algum pensamento, sendo que não está em causa a possibilidade da senhora mentir. Uma vez que a cadela não entende o que a senhora diz, mas entende o tom de voz, a senhora poderia dizer - e se usasse o mesmo tom surtiria o mesmo efeito - frases do tipo a minha sogra é uma víbora ou se eu soubesse que o fernando era assim na cama não me tinha casado com ele. Ou poderia explicar o processo de fabrico do bacalhau com broa, começando com o desvelo com que se cortam cebolas em meia-lua. No fundo, o importante é o tom e a mão que, irmanada no mesmo afecto que a voz, afaga o pelo do animal em questão. Mas a senhora foi mais longe, e sentiu a necessidade de dizer ao cão que ia trabalhar e que só por isso é que o abandonaria. Podia ter-lhe recitado Sá de Miranda, que os olhinhos do animal seriam sempre de espanto.  

Na realidade, há apenas duas coisas que me distinguem daquelas duas senhoras: um certo pudor (também não digo alto num consultório Vítor Manuel, filho, como queres logo à noite o teu bitoque?) e o teor da frase, pois nunca diria ao meu cão que vou trabalhar, mesmo que não use a expressão pai. Tento ser honesto, porque nunca se sabe o que estes animais percebem...

JdB  

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