terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Duas Últimas

Chega-se a esta altura do Carnaval e todo o meu corpo se arrepela de terror pela época. Felizmente já não me desafiam para festas, já não tenho filhos para mascarar e ainda não tenho netos que, eventualmente mascarados, sentirão todo o meu dó. Não obstante, desejo a todos os foliões a maior das alegrias e o maior dos agasalhos, que o tempo não está para corpos desnudos e sensuais que se torram ao sol e escorregam de tanta transpiração.

Repito a música que postei nesta mesma 3ª feira de Carnaval de 2016, qualquer que tenha sido o dia. Talvez não haja música mais apropriada para celebrar este dia em que todas as folias são possíveis antes das restrições quaresmais.

Deixo-vos com Manhã de Carnaval - a toada lenta retrata a energia com que celebro o dia.

JdB 

 


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Dos possíveis preconceitos

Nos últimos 15 anos, talvez, e a respeito das mais díspares situações, falei abundantemente de parte significativa da minha vida pessoal - aquela que era claramente percebida por amigos e conhecidos e que se referia a um acontecimento dramático da minha existência: fi-lo no âmbito da minha paróquia, falando a jovens que iriam casar-se num futuro próximo. Fi-lo no âmbito da minha associação a uma IPSS, falando a grupos de voluntários. Fi-lo no âmbito de seminários ou encontros no estrangeiro, falando a médicos ou pais. Fi-lo no âmbito particular, falando a pessoas que passavam por experiências semelhantes à minha. Fi-lo no âmbito de entrevistas de televisão ou de rádio, de intervenções públicas enquanto presidente de uma associação, mas também o fiz de modo avulso, falando ou escrevendo aqui e ali, nomeadamente neste estabelecimento.

Nunca tive incómodos por falar de mim até porque, em muitas e muitas circunstâncias, as pessoas tiveram a amabilidade de ouvir o que eu tinha para dizer a mim próprio. Há quem ache que ensinar é aprender duas vezes. Em muitas circunstâncias, falar tinha essa dimensão dupla: falar de mim era reforçar o que era importante para mim. Eu falava para os outros mas falava, tantas e tantas vezes, para mim próprio. Os outros, vítimas amiúde de um aparente monólogo, eram o espelho que me reflectia o caminho a seguir. 

De que falava ou escrevia eu? De dor, de fé, de silêncio, de morte, de serviço, de um Deus que não era senão amor, de amigos especiais ou que se tornaram especiais, do olhar mais arguto sobre os outros ou, talvez, do olhar que temos de ter mais arguto sobre os outros. Falava de discernimento, de força e de fraqueza, de fragilidade, de crianças com cancro, dos pais das crianças com cancro, de emoções. Falava, acima de tudo, da absoluta necessidade de dar um sentido ao sofrimento e, com isso, encontrar um sentido para a vida. Falava, acima de tudo, desta certeza de que, perante um acontecimento que nos amarfanha emocionalmente, para cuja violência não existe nome pronunciável, há uma possibilidade de vitória sobre o destino que se veste de madrasta.

Na semana passada, a associação de que sou presidente, em nome da qual falo publicamente e que tanto tem feito por mim, pediu-me para ser entrevistado e fotografado para uma destas revistas a que chamamos cor-de-rosa. Falei sobre aquilo de que falo há 15 anos, talvez, reforçando a ideia de que devo à associação muito do que sou e do caminho que percorri. Não disse mais do que costumo dizer, mas a ideia de exposição numa revista deste tipo - e que me merece um respeito óbvio - deixou-me irrequieto, pese embora várias pessoas me dizerem que um rosto visível traz vantagens para estas associações. Será um possível preconceito, já que o único factor eventualmente estranho será o "casamento", no mesmo número de revista, do nosso jet-set com uma associação deste tipo?

JdB  

domingo, 26 de fevereiro de 2017

8º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 6, 24-34

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Ninguém pode servir a dois senhores,
porque ou há-de odiar um e amar o outro,
ou se dedicará a um e desprezará o outro.
Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro.
Por isso vos digo:
«Não vos preocupeis, quanto à vossa vida,
com o que haveis de comer ou de beber,
nem, quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir.
Não é a vida mais do que o alimento
e o corpo mais do que o vestuário?
Olhai para as aves do céu:
não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros;
o vosso Pai celeste as sustenta.
Não valeis vós muito mais do que elas?
Quem de entre vós, por mais que se preocupe,
pode acrescentar um só côvado à sua estatura?
E porque vos inquietais com o vestuário?
Olhai como crescem os lírios do campo:
não trabalham nem fiam;
mas Eu vos digo:
nem Salomão, em toda a sua glória,
se vestiu como um deles.
Se Deus assim veste a erva do campo,
que hoje existe e amanhã é lançada ao forno,
não fará muito mais por vós, homens de pouca fé?
Não vos inquieteis, dizendo:
‘Que havemos de comer? Que havemos de beber?
Que havemos de vestir?’
Os pagãos é que se preocupam com todas estas coisas.
Bem sabe o vosso Pai celeste que precisais de tudo isso.
Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça,
e tudo o mais vos será dado por acréscimo.
Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã,
porque o dia de amanhã tratará das suas inquietações.
A cada dia basta o seu cuidado».

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Pensamentos impensados

Última hora 
Zeinal vai chorar bava e ranho.

Figura de urso
O urso formigueiro mete o nariz onde não é chamado.

Gaforinas
Vejo o Trump e lembro-me de um fado:

Uma madeixa
De cabelo descomposta
Pode até ser a fateixa
De que uma varina gosta.

What's in a name
Marocas---maroscas.

Brancuras
Desde quando é crime ter um colarinho lavado?

Dias não são dias
Qualquer "dia mundial de", no Polo Norte, arrisca-se a durar seis meses.

Condimentos
O  gás mostarda e o gás pimenta são usados na culinária ao ar livre.

Linguajares
Se duas negações fazem uma afirmação, ser contra os contraceptivos é ser a favor dos ceptivos.

Deslocações
O meu mundo não é deste Mundo.

SdB (I)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Há entre mim... *

«Há entre mim e o mundo uma névoa que impede que eu veja as coisas como verdadeiramente são - como são para os outros» - Fernando Pessoa

Já dizia Fernando Pessoa, homem sábio, que a imagem construída à luz dos nossos olhos, não corresponde ao real, àquilo que de facto é e existe. Uma névoa densa, escura, equiparável ao muro de Berlim, separa tais realidades por si só tão distintas. E não há vento que a mova. Nem o vento capaz de levar um veleiro a desafiar furiosamente as leis do mar, ou a simples brisa que me traz o teu perfume são capazes de atenuar tal névoa.

Atrevo-me a híper dimensionar a metáfora utilizada pelo génio que era Fernando Pessoa e assim, arrisco comparar esta distinção entre a realidade real, perdoem-me o pleonasmo, e o cenário imaginário a um grande e profundo abismo de onde emana uma escuridão horripilante.

De um lado, o qual apelido de zona de conforto, estou eu, o Pessoa e a grande maioria dos seres humanos deste mundo que ainda não encontraram a coragem necessária para percorrer as frágeis tábuas de madeira, unidas por dois fios massacrados pelo tempo, a que chamo ponte. Refugiam-se, assim, no lado que já dominam e manipulam, fecham-se no seu porto seguro, evitando a novidade, o desconhecido, a realidade.  Vivem perante uma ilusão viciante, gratificante até, que os afasta cada vez mais da ponte e os embrenha na aliciante floresta que é o imaginário.

Do outro lado, contrastando, temos um universo de pessoas reduzido. Não admira, poucos são aqueles que optam por atravessar a tão frágil ponte que abana com uma ténue rajada. Para além de ser um acto de coragem extrema, é uma opção que envolve, impreterivelmente, choque, sofrimento, dor e lágrimas. Ao passarmos para o outro lado, ao escolhermos encarar a realidade, estamos a deixar para trás algo que já tínhamos como adquirido, um cenário que poderíamos adaptar a qualquer momento de forma a nos agradar. A passagem representa a aceitação do real sem contornos, nu e cru, dos factos como eles são e das consequências que deles advêm sem qualquer hipótese de um ajuste favorável à nossa situação.

Encontro-me do lado ilusório do abismo e por cá vou ficar até armazenar a coragem e a força necessárias para atravessar a ponte e, assim, enfrentar tamanho choque. Criei um mundo imaginário demasiado extenso para ser vivido em apenas 17 anos, porém tenho noção que o dia em que as minhas fantasias já não me saciarão e terei necessidade de passar para o outro lado, para o real, estará perto e quando fizer essa travessia espero que todos já estejam do outro lado, que tenham feito a escolha certa (e que a ponte não se tenha desmoronado!).

MTM

* publicado originalmente em 2.12.2011

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Das aulas de compensação


Goa, Janeiro de 2017

Há qualquer coisa que liga as aulas de compensação (e também as "explicações") à ida à missa dominical. Talvez haja algo que ligue uma formação em reiki, em programação neuro-linguística ou em áreas comportamentais de qualquer espécie a estas aulas de compensação. Por outro lado, e numa imagem mais ligada à meteorologia, todos nós somos uma espécie de caixa (embora possa ser uma bola, um triciclo ou um livro) expostos a uma ventania carregada de areia. Isto é, temos um formato, uma superfície, uma textura que representa aquilo que somos ou que gostaríamos de ser. Se nos deixarmos ficar ao tal vento carregado de areia, essa caixa (ou bola, ou triciclo, ou livro) enchem-se de areia, alterando o formato (visível) a superfície, a textura. Nesse sentido, há algo que liga a ida à missa, mas também a formação em reiki ou em programação neuro-linguística a esta metáfora da caixa.

Para algumas pessoas - nas quais me incluo - o cristianismo, sobretudo, é um referencial de qualidade. É nos ensinamentos de Cristo que me revejo, é aquilo que Ele disse e fez que eu quero seguir. Este é o meu modelo de comportamento perante a sociedade e os mais próximos. É no cristianismo (e por associação na Igreja Católica) que eu tento ser melhor. Outras pessoas haverá, cuja caminhada de melhoria com elas próprias e com o mundo que as rodeia é feita com outras ferramentas, já aqui referidas: é ali que encontram paz, ensinamento para a vida, correcção de falhas interiores ou no seu relacionamento com o próximo. 

Num certo sentido, vou à missa todos os domingos porque sou mau aluno. A missa é a minha aula de compensação. Conseguiria viver sem ir à missa? Sim, mas não seria a mesma coisa. Preciso da missa para melhorar - e preciso dela todas as semanas, como se contratasse um explicador matemática que me ensinasse a fazer integrais duplos. O que é a missa? É a limpeza regular de uma caixa que se foi tapando com a areia do tempo. Se eu não a limpar regularmente, um dia já não percebo quem sou e a minha natureza - ou aquela que eu gostaria de ter - foi de tal maneira tapada que não se recupera mais. Há quem vá à missa, quem faça cursos na área comportamental. Num certo sentido, é tudo o mesmo: sermos melhores, relacionarmo-nos melhor, aprendermos mais, sermos mais. Como somos maus alunos, temos de ter aulas de compensação: chama-se missa dominical ou aplicação regular do que aprendemos nos cursos. 

A visão acima é redutora, jocosa, pateta. Olhem, é o que é, quase às dez horas da noite.

JdB   

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Do S. Carlos (ou também uma espécie de Duas Últimas)

Dava-se a Lucia em beneficio, com a segunda dama. Os Cohens não tinham vindo - nem o Ega. Muitos camarotes estavam desertos, em toda a tristeza do seu velho papel vermelho. A noite chuviscosa, com um bafo de sudoeste, parecia penetrar ali, derramando o seu pesadume, a morna sensação da sua humidade. Nas cadeiras, vazias, havia uma mulher solitária, vestida de cetim claro; Edgardo e Lucia desafinavam; o gás dormia, e os arcos das rebecas, sobre as cordas, pareciam ir adormecendo também.

- Isto está lúgubre, disse Carlos ao amigo Cruges, que ocupava o escuro da frisa.

Cruges, amodorroado num acesso de spleen, com o cotovelo sobre as costas da cadeira, os dedos por entre a cabeleira, todo ele embrulhado em crepes sobrepostos de melancolia, respondeu, como do fundo dum sepulcro:

- Pesadote.

***

Voltei ao S. Carlos para ouvir uma ópera. Há um lado qualquer ridículo em mim, talvez de queirosiano de sempre, ou apenas de pessoa deslocada no tempo, que se encanta (impressiona talvez seja demais) com uma ida a esta sala específica - mas para ouvir ópera, note-se. Nos últimos dois anos convidaram-me para ir a S. Carlos ouvir outras peças. O repertório, interessante e bonito era, de uma das vezes, a Sinfonia Novo Mundo, de Dvorak, uma obra de que gosto muito e à qual, como já aqui escrevi uma vez, atribuo uma interpretação errada, porém mais interessante do que a real... Contudo, tenho de confessar - em S. Carlos é ópera.   

S. Carlos constitui-se, nestes dias de espectáculo aberto ao público, como um enclave perdido entre o passado e o presente, como se lhe faltasse uma directiva, uma instrução, uma norma que resolvesse um problema claro, ou respondesse de forma inequívoca a uma pergunta singela: onde me situo eu? Não há metafísica na inquirição - apenas um problema de dress code. Atrás de mim havia gente de gravata, à minha frente gente de calças de ganga. Viam-se senhoras arranjadas, senhoras mais à vontade. Eu próprio era o espelho desta indecisão, desta indefinição que transforma uma travessa bonita, onde se deitam umas perdizes, num recipiente remediado, onde se coloca uma chicharro. Fui de casaco, sem gravata - tentei apenas ser civilizado, não consegui ser nada.

Sou defensor do dress code em S. Carlos, mesmo que isso me obrigasse a apertar o pescoço com uma faixa de fantasia, porque esta sala requer uma boa estética - ainda que com um ouvido deficiente. Sei que ninguém ousará esse fervor determinativo, porque não é democrático, talvez seja elitista e o S. Carlos, como a cultura, o belcanto, o ar, a praia e os aviões, é de todos. E no entanto, ir a S. Carlos não é ir ao Meo Arena, por mais respeito que tenha por esse recinto onde nunca fui. Ir a S. Carlos, insisto, é uma atitude, não um destino. É - ou tem de ser - um prazer auditivo e visualmente estético, que exige moldura a condizer;

(infelizmente é perceber também, pelos piores motivos, que não houve evolução ao nível das cadeiras, algo que nos rebenta as costas e nos faz solicitar osteopatas...)

Por fim, pelo menos para alguns, é imaginar o Carlos da Maia a perseguir a Gouvarinho com o olhar, ou, da sua frisa elegante, lamentar a sua ausência. É, nalguns casos (e não foi este) plagiar o Cruges e, à pergunta sobre como foi a noite, responder com um ar sombrio: pesadote... Mas até o advérbio requer uma elegância que se não compadece com um casaco de cabedal por cima de uma camisa de manga curta. A linguagem, em determinados casos, não é apenas oral, mas cénica.

Deixo-vos, pelo segundo dia consecutivo, com ópera - neste caso com a ária mais bonita da obra que fui ver, e onde se prova que a infância, as memórias, são o refúgio que sempre escolhemos em momentos de aflição. E se aquele momento era de aflição para a segunda mulher de Henrique VIII, um homem ainda imberbe naquela sua voragem casamenteira...

JdB



Lyrics & English Translation

ANNA
Are you weeping?
What causes such tears?
This is my wedding day.
The King awaits me...
the candles on the altar, are lit,
it is decorated with flowers.
Give me quickly my
white robe; adorn my hair
with my crown or roses.
That Percy know nothing about it,
the King has ordered it so.

CORO
Oh tragic memory!

ANNA
Oh..who is grieving?
Who spoke of Percy?
Let me not see him;
let me hide myself from his
gaze. It is useless... He comes...
he accuses me... he scolds me...
ah! he scolds me, accuses me.
Ah!

Ah! forgive me, forgive me...
I am unhappy.
Take me away from
this utter misery
Are you smiling?
Oh joy!
Do not let me die abandoned here, no.
You are smiling? Percy?
Oh joy!

Lead me to the dear castle
where I was born,
to the green plane trees,
to that brook that still
murmurs to our sighs...
Ah!
there I forget Past griefs;
give me back one day of my youth,
give me back one day of our love.

Lead me to the dear castle
where I was born;
give me back one day
of our love..
just one single day of our love.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Duas Últimas

Um amigo pergunta-me pelos meus seminários de doutoramento. Falo-lhe num que tem por tema "Listas". Manifesta surpresa. Para o tentar elucidar (ainda que de forma fraca) e porque ele é melómano, falo-lhe na ópera Don Giovanni, onde há uma referência a listas. 

(Penso que não é preciso saber-se muito italiano para se perceber onde está a referência às listas, e que listas são essas).

Para Leporello, a importância está, não na beleza das senhoras ou na sua origem social, mas no enriquecimento das listas. É preciso engrossar as listas - o catálogo - e há uma dimensão geográfica neste livrinho. Não falamos, por isso, só de listas de supermercado. Há um mundo por trás das listas - e é disso que ouvirei atentamente, uma vez por semana, ao longo dos próximos meses.

JdB



Leporello

Eh! Consolatevi;
non siete voi, non foste, e non sarete
né la prima, né l’ultima. Guardate:
questo non picciol libro è tutto pieno
dei nomi di sue belle:
(Cava di tasca una lista)
ogni villa, ogni borgo, ogni paese
è testimon di sue donnesche imprese.

Madamina, il catalogo è questo
Delle belle che amò il padron mio;
un catalogo egli è che ho fatt’io;
Osservate, leggete con me.
In Italia seicento e quaranta;
In Almagna duecento e trentuna;
Cento in Francia, in Turchia novantuna;
Ma in Ispagna son già mille e tre.
V’han fra queste contadine,
Cameriere, cittadine,
V’han contesse, baronesse,
Marchesine, principesse.
E v’han donne d’ogni grado,
D’ogni forma, d’ogni età.
Nella bionda egli ha l’usanza
Di lodar la gentilezza,
Nella bruna la costanza,
Nella bianca la dolcezza.
Vuol d’inverno la grassotta,
Vuol d’estate la magrotta;
È la grande maestosa,
La piccina è ognor vezzosa.
Delle vecchie fa conquista
Pel piacer di porle in lista;
Sua passion predominante
È la giovin principiante.
Non si picca - se sia ricca,
Se sia brutta, se sia bella;
Purché porti la gonnella,
Voi sapete quel che fa.

(Parte.)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Vai um gin do Peter’s?

A história dos meninos talentosos e cheios de ambição, que singram no MIT e em Harvard tem muitas semelhanças entre si, quase a corresponder à simplificação de Tolstoi, que dizia: as famílias felizes são todas iguais. Na tipificação do grande escritor russo, só as infelizes teriam uma história única, carregando um sofrimento irrepetível.

No lado dos felizes, um destes estudantes de sucesso no MIT e depois no MBA de Harvard, onde ficou a leccionar, nasceu em 1951, nos subúrbios nova-iorquinos, de pais judeus alemães fugidos à perseguição nazi. Educado na ortodoxia judaica, professava a fé dos antepassados com enorme afinco, chegando a passar uma boa temporada num kibutz, em Israel. Mal ingressou no MIT e se deixou contagiar pela mania da superioridade, a tomar-se por génio e a endeusar a ciência e a tecnologia como os demais (segundo a descrição do próprio, anos depois), a fé soçobrou como um castelo de areia. Acreditar numa religião  – excepto se muito exótica – era entendido como uma cedência passadista, entretém de gente ignorante. Só mais tarde contestou esse falso entendimento do espírito científico e esse arreigado desrespeito pelas diferenças, nos antípodas do que deveria respirar-se num ambiente académico saudável.   

Entretanto, a rápida ascensão na carreira, acompanhada de um enriquecimento fulgurante, tornaram-lhe evidente o vazio da sua vida, apesar do conforto e status adquiridos. Talvez na lucidez desta auto-avaliação, sem pejos em chamar os bois pelos nomes, se tenha começado a distanciar do padrão característico de muitos prodígios das universidades de economia e finanças dos EUA, precisamente por serem as melhores e mais prestigiadas do mundo. Isso dificulta-lhes (explicou depois) descerem ao reino do comum dos mortais, alimentando-se da crença de pertencerem à casta superior dos sobredotados. 

Há ainda um outro momento especial e diferenciador na biografia deste dito sobredotado: a maior desilusão da adolescência, aos 12 ou 13 anos, quando no ritual judaico de passagem para a idade adulta – Bar Mitzvá (filhos do mandamento) –  o prometido acesso a Deus não aconteceu. Tudo ficou demasiado igual.  

Bom, o menino já grande, chamado Roy Schoeman (numa simplificação dos nomes de origem germânica), começou a aguentar mal a falta de sentido de vida. Numa das tentativas desesperadas de fazer alguma coisa: resolveu ir meditar para o campo, a ver se reordenava ideias e ganhava serenidade. Curiosamente, alguma coisa aconteceu, ou melhor, começou a acontecer, pois abrira-se uma caixa de pandora, que tem sido tema de conferências dentro e fora dos EUA.   



Num testemunho interpelativo e bem articulado, munido das óptimas técnicas de comunicação aprendidas em Harvard, Roy Schoeman (RS) não se cansa de contar como deu a reviravolta. Quer dizer: os negócios, a azáfama e o êxito no trabalho continuaram iguais, mas por dentro rodou 180º… ou talvez um pouco menos, embora o efeito seja incrivelmente revolucionário.

No salto quântico dado, a história de RS é bastante atípica, para dizer o menos, embora feliz e por isso a contrariar q.b. a convicção de Tolstoi. De menos invulgar terá duas componentes: a experiência espiritual de contornos semelhantes aos breves estádios post-mortem em que surge uma luz maravilhosa e personificada de quem ninguém se quer mais afastar (considera-se sempre um azar ter de voltar à existência terrena); e considerar um privilégio a oportunidade de poder dialogar com a senhora mais bonita com que alguma vez se cruzou. 

Essa senhora –  compreensivelmente fulcral na sua mudança de rumo –  confidencia-lhe dados curiosíssimos, em concreto para os portugueses. Quando RS insiste em perguntar-lhe qual a oração preferida, a resposta foi dita em português (!), pelo que ficou ininteligível para Roy, que apenas conseguiu transcrever a sequência fonética e depois descodificá-la com uma portuguesa radicada nos EUA. Decifrado o enigma, descobriu que se tratava de uma das rezas ensinadas pelo Anjo de Portugal aos Pastorinhos de Fátima, mas cuja origem remonta a 27 de Novembro de 1830(1) (no filme, aos 23:24):


Por causa dessa grande Senhora, RS(2) tem a interpretação mais bonita do seu percurso de judeu, plenamente cumprido e aprofundado na passagem para o Novo Testamento, citando outros judeus convertidos – os irmãos Lemann: «The Jew become Catholic is the religious man par excellence, who has grown into his fullness, as the seed grows into the flower...  The religion was initially patriarchal, that is, identified with the family of the Patriarchs; then it was enlarged into a chosen people who were given the beautiful name People of God; and finally, in being universalized it became something even more beautiful, the Kingdom of God, the Catholic Church which is for all people.  This is always the work of the Eternal, the progression from the less perfect to the more perfect, from the particular to the general.»  

O melhor é ouvi-lo, porque os crack do MIT e Harvard explicam-se lindamente. RS tem ainda outras conferências com interpretações pessoais sobre os fenómenos da actualidade visivelmente turbulentos e incertos. 

Uma última notícia sobre a mesma Senhora: a comunidade do Estoril e Cascais angariou fundos para a (re)construção da Clínica de S.José em Erbil, no Curdistão Iraquiano e tomou ainda a iniciativa de oferecer àquela cidade massacrada por uma guerra feroz, uma imagem da Virgem de Fátima.  Bem que RS é um exemplo vivo dos benefícios da presença maternal de Maria, que agora se vão poder estender a uma multidão dilacerada pela dor. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

________________________________________
(1)  Data da aparição mariana a Sta Catarina Labouré, no coração de Paris, surgindo na inscrição do quadro oval que Nossa Senhora lhe revelou para ser reproduzido numa medalha, que pudesse ser veículo das graças que o céu quer derramar sobre os homens de boa vontade. Em Portugal ficou conhecida como medalhinha milagrosa. Na altura, a jaculatória — «Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós» – constituiu uma novidade absoluta, que contribuiu para a proclamação oficial do dogma da Imaculada Conceição, a 8 de Dezembro de 1854, por Pio IX.



(2) Site de Roy Shoeman – http://www.salvationisfromthejews.com.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

7º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 5, 38-48

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Ouvistes que foi dito aos antigos:
‘Olho por olho e dente por dente’.
Eu, porém, digo-vos:
Não resistais ao homem mau.
Mas se alguém te bater na face direita,
oferece-lhe também a esquerda.
Se alguém quiser levar-te ao tribunal,
para ficar com a tua túnica,
deixa-lhe também o manto.
Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha,
acompanha-o durante duas.
Dá a quem te pedir
e não voltes as costas a quem te pede emprestado.
Ouvistes que foi dito:
‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’.
Eu, porém, digo-vos:
Amai os vossos inimigos
e orai por aqueles que vos perseguem,
para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus;
pois Ele faz nascer o sol sobre bons e maus
e chover sobre justos e injustos.
Se amardes aqueles que vos amam, que recompensa tereis?
Não fazem a mesma coisa os publicanos?
E se saudardes apenas os vossos irmãos,
que fazeis de extraordinário?
Não o fazem também os pagãos?
Portanto, sede perfeitos,
como o vosso Pai celeste é perfeito».

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Pensamentos Impensados

Despedidas
Diz o médico para a sua paciente que acaba de morrer: alma minha gentil que te partiste.

Negociates
Se eu vender a alma ao Diabo tenho de passar recibo?

Mexidelas
António Costa, quando fala agita as mãos para cima e para baixo; chama-se a isto mani...pular.

Ignorâncias
Os esquimós não conheciam a religião Católica, por isso não tinham papas na língua.

Opacidades
Nevoeiro acusado de falta de transparência.

Feitios
Mulher despeitada não precisa de sutiã.

Tês-Vês
Ouvido na TVI: antes da tempestade chega a bonança.

Actividades
Perguntaram ao cangalheiro se gostava da profissão. Respondeu: é a vida.

SdB (I)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Crónicas de um doutorando tardio

Tópicos de Teoria Literária (Hermenegildo Fernandes)

Listas


Interroga-se aqui o conceito e a prática da “lista” através de experiências textuais e iconográficas precisas e historicamente situáveis, recusando-se a priori a ideia de chegar a estabelecer uma gramática universal (autónoma do espaço-tempo) da enumeração. Começa-se por definir um conjunto de semânticas para o conceito de “lista” através de um inventário preciso de possibilidades partindo-se entre outras da lista de listas elaborada por Umberto Eco (La Vertigine della Lista). Exploram-se de seguida algumas dessas possibilidades: a enumeração geracional enquanto história, da Bíblia aos Livros de Linhagens; a enumeração política, das listas de cônsules à seriação da Notitia Dignitatum; a enumeração espacial, dos Itinerários clássicos ao género geográfico árabe e às cartografias; a enumeração do desvio, dos penintenciais a Sade.

***

Tópicos de Teoria Literária (António M. Feijó)

Modernismo e província



“Modernismo” é geralmente associado a cosmopolitismo. Os autores por aquele termo designados muitas vezes têm uma fidelidade local que excede a ênfase internacional da designação. É o caso de Fernando Pessoa e W. B. Yeats, tal como é o caso de José Régio (ou de Teixeira de Pascoaes, se acolhido sob tal designação, e de Agustina Bessa-Luís, discípula dos dois últimos). O seminário analisará, na obra dos autores referidos, e em alguns outros, a natureza de tal tensão.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Duas Últimas

Na recente visita à Índia o primeiro-ministro português ofereceu publicamente ao seu homólogo indiano, de seu nome Modi, uma camisola de CR com o n.º7, presumo que assinada pelo jogador.

Achei a oferta bizarra e medrosa. Bizarra porque a Índia muito pouco liga ao futebol, para os indianos é mais críquete, hóquei em campo, buzinar e, no caso específico do hindu Modi, chatear o mais possível o vizinho e muçulmano Paquistão. Medrosa porque Portugal esteve na Índia, em várias cidades e áreas costeiras, mais de quatrocentos e cinquenta anos. Não haveria presentes mais adequados e que remetessem para essa presença, sem ofender os indianos, que dela também beneficiaram e a têm procurado preservar? Complexos que teimam em não nos deixar e que frequentemente nos apoucam nas relações com os países onde as caravelas nos levaram.

Deixo-vos com a bela voz de Rita Redshoes, no segundo caso em dueto com Rui Reininho, de quem se diz fã incondicional. Rita é filha de Carlos Pereira, antigo defesa esquerdo do SCP, depois treinador de futebol com passagem por várias equipas, sem que lhe conheça êxitos de maior. Curiosamente, irmão de Aurélio Pereira, esse sim, homem com grande sucesso na área da formação, também do SCP, cujo departamento de recrutamento chefia há muitos anos. Descobridor, senão de novos mundos, ao menos de craques como Figo ou CR!

Espero que apreciem as escolhas.

fq


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Poemas para o dia de hoje

Namorados do Mirante

ELES ERAM mais antigos que o silêncio 
A perscrutar-se intimamente os sonhos 
Tal como duas súbitas estátuas 
Em que apenas o olhar restasse humano. 
Qualquer toque, por certo, desfaria 
Os seus corpos sem tempo em pura cinza. 
A Remontavam às origens — a realidade 
Neles se fez, de substância, imagem. 
Dela a face era fria, a que o desejo 
Como um hictus, houvesse adormecido 
Dele apenas restava o eterno grito 
Da espécie — tudo mais tinha morrido. 
Caíam lentamente na voragem 
Como duas estrelas que gravitam 
Juntas para, depois, num grande abraço 
Rolarem pelo espaço e se perderem 
Transformadas na magma incandescente 
Que milénios mais tarde explode em amor 
E da matéria reproduz o tempo 
Nas galáxias da vida no infinito. 

Eles eram mais antigos que o silêncio... 

Vinicius de Moraes, in 'O Operário em Construção'

***

Os Namorados Lisboetas

Entre o olival e a vinha 
o Tejo líquido jumento 
sua solar viola afina 
a todo o azul do seu comprimento 

tendo por lânguida bainha 
barcaças de bacia larga 
que possessas de ócio animam 
o sol a possuí-las de ilharga. 

Sua lata de branca tinta 
vai derramando um vapor 
precisando a tela marinha 
debuxada com os lápis de cor 

da liberdade de sermos dois 
a máquina de fazer púrpura 
que em todas as coisas fermenta 
seu tácito sumo de uva. 

Natália Correia, in "O Vinho e a Lira"

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