quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Crónicas de um viajante ao Japão (IV)

Parte de um mapa do metro de Kyoto que dão aos estrangeiros. O metro local não é mais complicado do que o de Lisboa. 

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Crónicas de um viajante ao Japão (III)


Algumas pessoas - e estas pessoas são, normalmente as que se encontram fora da Igreja Católica - gostam de criticar o comércio religioso que floresce junto a locais de culto. E falam ainda de alguma superstição que rodeia a ideia de rezas para a obtenção de favores. Apesar de aquilo que as mover nem sempre ser uma crítica ligeira, mas um desejo de cravar mais uma ferroada na Igreja, não deixo de concordar com elas um pouco: na verdade, há um comércio demasiado junto de alguns locais, agravado pela reduzida qualidade estética dos produtos à venda. Por outro lado, não sou fã da ideia da intercessão dos santos ou das rezas que as pessoas lhes fazem para a obtenção de finezas.

Ontem estivemos em Nara, uma pequena cidade a 30 minutos de comboio de Quioto. Visitámos pagodes e templos, todos de uma imponência e beleza sem igual. Um deles (de que porei fotografias um dia) limita-se a ser a maior construção em madeira do mundo. Entrámos num: junto ao altar, pequeninas madeiras à venda onde as pessoas podem inscrever um pedido qualquer. Segundo um aviso em A4 branco plastificado, os deuses (ou aquele(s) específico(s) são particularmente eficazes na resolução de problemas de saúde, no acompanhamento dos mais idosos e - isto é que é importante - na melhoria de notas e no auxílio à entrada na faculdade. Noutro templo, particularmente bonito, uma quantidade imensa de artigos religiosos à venda. 

Declaração de interesses: sou um admirador do Japão e de algumas das suas características. Mas, neste caso em apreço, gosto de citar Vasco Santana: Carneiro amigo, andamos todos ao mesmo.

JdB

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Poemas dos dias que correm

the horizon just laughed

vinte anos para descobrir que afinal houve uma fresta,
a possibilidade de uma centelha e de toda uma vida diferente
entre esse ponto A e este ponto B onde, desalegres e bebidos,
matamos mágoas destes vinte anos tão bem e tão mal vividos.
de súbito, eras outra vez tu nos teus vinte e poucochinhos anos
ou, creio bem, seria eu, num etilizado e furioso "rewind",
em busca destes anos, destes tantos anos tontos.
a luz do cigarro iluminou-te ténuemente - como és bela, pensei -,
enquanto semi-dançavas sentada canções antigas.
sim, sempre o amor, agora como dantes como amanhã,
a única coisa viva em toda uma cidade que dorme.
os anos passaram, rapariga (obrigado, Manuel, pelas palavras)
e nós estamos apenas mais longe de termos acertado
e tão mais perto de termos falhado essa nossa outra vida.

o horizonte riu-se.
o táxi cruzou a jamais nossa cidade.
e eu disse-te adeus, até outra vida, menina.

gi

Crónicas de um viajante ao Japão (II)

Tóquio, Novembro de 2018

Kyoto, Novembro de 2018

Entre ambas as fotografias há três elementos comuns: japoneses, Japão, telemóvel. Interessa-me o telemóvel, porque o resto é uma inevitabilidade: na fotografia de cima, cinco pessoas numa carruagem de metro, todas ao telemóvel. Na fotografia de baixo, um casal que jantou ao nosso lado: ambos de telemóvel. O telemóvel - e sobre isso já falei - deixou de ser uma peça autónoma do corpo humano para se tornar numa extensão do braço, num componente não independente do cérebro. No Japão é particularmente evidente: não se vê gente sem um telemóvel na mão, seja na rua, à pendura num carro, numa estação de metro, num restaurante. Gente isolada, em grupo, com mais um amigo ou amiga, a pedir um sushi ou a pagar uma conta - sempre de telemóvel na mão, embrenhados no seu pequeno mundo. Em Portugal será, ou já é, assim - e não augura nada de bom.

JdB

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Crónicas de um viajante ao Japão (I)

Num sentido arquitectónico, e salvaguardadas as proporções, estar em Tóquio é o mesmo que estar em Toronto ou em Nova Iorque, cidades de certa forma iguais: edifícios modernos e diferentes entre si, a constituírem um conjunto harmonioso numa diversidade grande. Distinguem-se radicalmente de Paris, Londres, Viena ou mesmo Buenos Aires. Como sabemos onde estamos? Pelo escrita que é diferente e pela quantidade imensa de japoneses nas ruas. Fora isso poderíamos estar noutro país.

Alguns aspectos que marcaram a atenção  (elencados sem grande grau de prioridade):

- "velhos" fardados que servem, talvez não de polícia de segurança pública, mas de apoio ao cidadão, ao trânsito, a quem tem uma dúvida; gente mais sénior (muito acima dos 65 anos) nos museus ou em gabinetes de informação. Percebe-se o respeito e a consideração pelos mais idosos, o aproveitamento de características válidas em gente que ainda é muito válida, muito ao contrário da nossa cultura ocidental, de total descarte dos menos jovens.  

- a delicadeza não uniforme das pessoas: os mais velhos fazem jus a uma ideia que tinha de uma certa delicadeza oriental (seguramente japonesa). Nos mais novos não se sente tanto isso, andam pelas ruas (sobretudo num bairro de que falarei mais adiante) como se a vida fosse a deles, a caminhada fosse a deles, o espaço fosse o deles. Mas há também uma delicadeza, que é muito diferente de servilismo, das pessoas no comércio. Como exemplo, a abertura das portas da loja da Seiko em Ginza (um bairro de lojas boas) é seguida da vénia de duas jovens que recebem o cliente. A vénia é um cerimonial, uma atitude de respeito, uma delicadeza na relação humana. Muito diferente, também, de uma espécie de horror ocidental a estas manifestações de consideração, como se isto impedisse a ideia de que somos todos obsessivamente iguais.

- o inglês, muito menos do que básico, de quase todas as pessoas com quem falámos: nas lojas, no aeroporto, no hotel, nos restaurantes, no metro, numa informação na rua. É muito vulgar explicarem-nos qualquer coisa num mapa falando apenas japonês, como se o meio de comunicação fosse um dedo que percorre ruas representadas numa folha de papel.

- a quantidade, dizem-me, de rapaziada ostensivamente efeminada. 

- o silêncio e fluidez do trânsito verificados no sábado e domingo, mas também nesta segunda-feira, dia normal de trabalho. Há um civismo óbvio, que é consolidado por uma ausência total de lixo nas ruas, no asseio dos passeios.

Shibuya (Japão) Novembro de 2018

- a multidão de jovens em Shibuya. Reproduzo a informação que me foi dada por um português casado com uma japonesa: em Shibuya, para ver o crossing, suba ao Starbucks - é a melhor vista numa rua lateral está o edifício circular 109, onde nasce a moda louca jovem. vale mesmo a pena. Mais bizarro não existe. Estão lá as meninas vestidas de negro, as de cor de rosa e caras prateadas. Comece do ultimo andar e vá descendo... perca-se nas ruas traseiras de Shibuya pelo por de sol, quando as tribos começam a emergir para a noite. A descrição não é exagerada. Vi quase tudo isto, numa circulação de pessoas em quantidade nunca vista. 

- o culto do estar-se descalço. Promove-se essa higiene (e o itálico significa que talvez não seja apenas asseio) no hotel onde estamos e num restaurante onde fomos. 

Tóquio, Novembro de 2018

- a comida, saudável, de digestão fácil. Almoçámos uma espécie de sopa com legumes cozidos, cujo caldo se aproveitou para aquecer um arroz e cozer um ovo mexido. Tudo isto servido (e explicado em japonês) por uma empregada vestida de quimono, de delicadeza e de tempo.

- a curiosidade de se encontrar um conterrâneo numa rua bonita de Ginza (bairro bom onde estamos), como se o solo pátrio nos acompanhasse sempre. Paramos numa montra a olhar para uns bolos: parecem ovos cozidos, digo eu. A dois metros um cavalheiro ocidental olha-nos, sorri e pergunta na língua que é a nossa pátria comum: portugueses? Conversámos cinco minutos, como velhos conhecidos e só não fizemos a pergunta que move todo o lusitano em terras estrangeiras: onde podemos comer um bom bacalhau?

- a dimensão do quarto de hotel: talvez 11 metros quadrados, o que transforma a palavra proxémia (dos dicionários: estudo das distâncias físicas que os indivíduos estabelecem entre si quando interagem socialmente e do significado e possíveis razões da variação dessas distâncias) numa inutilidade, e torna a gestão da circulação humana uma actividade particularmente desafiante...

JdB

domingo, 11 de novembro de 2018

32º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Mc 12,38-44

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus ensinava a multidão, dizendo:
«Acautelai-vos dos escribas,
que gostam de exibir longas vestes,
de receber cumprimentos nas praças,
de ocupar os primeiros assentos nas sinagogas
e os primeiros lugares nos banquetes.
Devoram as casas das viúvas
com pretexto de fazerem longas rezas.
Estes receberão uma sentença mais severa».
Jesus sentou-Se em frente da arca do tesouro
a observar como a multidão deixava o dinheiro na caixa.
Muitos ricos deitavam quantias avultadas.
Veio uma pobre viúva
e deitou duas pequenas moedas, isto é, um quadrante.
Jesus chamou os discípulos e disse-lhes:
«Em verdade vos digo:
Esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros.
Eles deitaram do que lhes sobrava,
mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha,
tudo o que possuía para viver».

sábado, 10 de novembro de 2018

Pensamentos impensados

Opções
Deus foi machista; porque é que o primeiro homem não foi uma mulher?

Chupista
Adão, quando passou a viver em  Massamá, recebia subsídio de reintegração.

Bichanos
Se tivesse uma gata, chamava-lhe Cristi; era a gata Cristi.

À condição
Sou um precário neste mundo; vou fazer greve, só não sei a quê.

Mudança de estado
Quando Jesus Cristo ressuscitou Lázaro, este já cheirava mal. Passou a cheirar a quê? A odor de santidade?

E ponto final
Ponto de vista não vale nada; um ponto não tem dimensão.

SdB (I)

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Próxima semana



À hora a que os meus fiéis leitores acederem ao post de hoje, estarei a caminho do Japão, com uma escala em Helsínquia. Durante alguns dias estarei em Tóquio. Parto depois para Kyoto onde assistirei ao congresso internacional que junta médicos oncologistas pediátricos de todo o mundo e associações de crianças com cancro. Há algum tempo para turismo, mas as reuniões, apresentações e encontros, que começam a 14 e terminam, a 20, sucedem-se a um ritmo cansativo.

Tentarei manter o blogue vivo e com notícias do império do sol nascente. Não sei a que horas e com que frequência, mas vai ser como for possível.

Adeus, até ao meu regresso,

JdB  

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Da ligeireza com que se abordam as coisas importantes

Foi Samuel Taylor Coleridge (Inglaterra, 1772 - 1834) quem cunhou a expressão willing suspension of disbelief que se traduziria em português por suspensão voluntária da descrença embora eu prefira, em benefício do meu argumento, suspensão voluntária da incredulidade. Por outro lado, numa carta aos seus irmãos George e Thomas, John Keats (Inglaterra, 1795 - Itália, 1821) usou a expressão negative capability, que poderíamos traduzir por capacidade negativa.  

Citemos Coleridge (sublinhados meus): In this idea originated the plan of the 'Lyrical Ballads'; in which it was agreed, that my endeavours should be directed to persons and characters supernatural, or at least romantic, yet so as to transfer from our inward nature a human interest and a semblance of truth sufficient to procure for these shadows of imagination that willing suspension of disbelief for the moment, which constitutes poetic faith. 

Citemos Keats: (...) and at once it struck me what quality went to form a man of achievement especially in literature and which Shakespeare possessed so enormously - I mean negative capability, that is, when a man is capable of being in uncertainties, mysteries, doubts, without any irritable reaching after fact and reason - Coleridge, for instance, would let go by a fine isolated verisimilitude caught from the penetralium of mystery, from being incapable of remaining content with half-knowledge.  

O que diz Coleridge (ou me diz a mim)? Que para alguma leituras - nomeadamente de poesia - é preciso suspendermos a incredulidade. Isto é, deixarmos-nos levar pela improbabilidade, pela inverosimilhança, pelo aparente absurdo do poema e, com isso nos encantarmos. É a suspensão da incredulidade que está por detrás da fé poética. 

Keats diz aparentemente o mesmo, só que entende que Coleridge não o consegue. Para Keats, Shakespeare conseguia-o: ficava com meias verdades, não o incomodava o mistério ou a falta de explicação ou a dúvida. Deixava-se ir. Já Coleridge, diz Keats, sendo muito mais inteligente, não o consegue, não saberia viver numa meia verdade, não conseguiria não perceber tudo, exigiria uma explicação.

A fé (no sentido religioso do termo) é a suspensão voluntária da incredulidade. Nada daquilo fará muito sentido, mas deixamo-nos "incredulizar" para descobrir o encanto. E não vale a pena querer uma explicação para tudo, perceber os meandros da coisa, encontrar uma lógica por trás do amor aos inimigos ou da morte na cruz ou da justiça no regresso do filho pródigo. 

Talvez fossemos todos um pouco mais felizes com esta suspensão voluntária da incredulidade e com uma certa dose de capacidade negativa. Por vezes a explicação é um fosso, como me disseram uma vez. 

JdB    

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Vai um gin do Peter’s ?

QUANDO AS VÍTIMAS TÊM NOME, A PERSEGUIÇÃO É MENOS TOLERADA

Os nazis e, especificamente, o dr. Goebbels percebeu muito bem o aparente paradoxo de ser mais tolerável para a opinião pública matar milhões do que um par de pessoas. E explicava: um par de pessoas é uma escala muito familiar, que dá para nomear, pelo que qualquer ser humano percebe de imediato o horror de uma agressão ao pequeno grupo. Inversamente, uma multidão é um número demasiado elevado, tendendo a tornar-se longínquo e abstrato.  Em Outubro, o mundo assistiu (ainda assiste) incrédulo às torpezas de regimes iníquos, que cruzam essa «linha vermelha», parecendo ignorar que serão os principais alvos dos estilhaços que provocaram.

A 2 de Outubro, deu-se o assassinato macabro do jornalista saudita, que denunciava as injustiças do mundo islâmico e, em especial, as perpetradas pela Casa de Saud.

No final de Outubro, os 13 juízes do Supremo Tribunal da República Islâmica do Paquistão basearam-se nas «contradições nos testemunhos» para mandar libertar uma pobre camponesa, encarcerada há 9 anos por ter bebido água de um poço, contaminando-o pelo simples facto de ser cristã. Rezava a sentença: «Se não há outras acusações contra ela, pode ser libertada (…).» A segurança reforçada na própria sala de audiências demonstrava a dificuldade de todo o processo. O advogado de defesa fugiu para a Europa. Um movimento político local pediu «represálias contra os cristãos», o que levou o Governo a aumentar a segurança junto às igrejas cristãs. Islamabad encheu-se de manifestantes assanhados contra a decisão. No Ocidente, a evolução dos acontecimentos continua a ser acompanhada nos media e em blogs, porque a paquistanesa já é conhecida pelo nome – Asia Bibi – graças às denúncias de ONGs e associações cristãs como a AIS. 



O movimento pendular das notícias, entre boas e más, dá-nos um retrato realista da extrema fragilidade da situação, de final incerto, apesar das conquistas alcançadas:

6.Nov.2018 – Marido de Asia Bibi diz que família corre perigo de vida no Paquistão (e) gravou vídeo a pedir ajuda para sair do país – Jornal i

4.Nov.2018 - Família de Asia Bibi pede asilo ao Reino Unido, Canadá e Estados Unidos - Observador e Deutsche Welle

Sat 3 Nov 2018 - «Pakistan government accused of signing death warrant by blocking Christian woman from leaving the country». 

3.Nov. - Advogado da cristã absolvida foge do Paquistão - Diário de Notícias, Público [https://www.publico.pt/.../advogado-asia-bibi-fugiu-paquistao-crista-ilibada-blasfemia] «On Saturday, Bibi's lawyer Saiful Mulook left Pakistan for an undisclosed European country "to save [my] life from [the] angry mob."»

«A Pakistani supporter of hardline religious party the ASWJ stands on an image of Asia Bibi
during a protest rally on 2 November».Photograph: Aamir Qureshi/AFP/Getty Images

Manifestações de fanáticos violentos intensificam-se na capital:
«Asia Bibi’s Release Delayed as Pakistan Supreme Court Will Review Acquittal Decision
Amid Muslim Protests»


22/10/2018 - Um milhão de crianças reza o Terço pela libertação de Asia Bibi - No último dia 18 de outubro, um milhão de crianças em 80 países rezou o Terço pela libertação de Asia Bibi, uma mãe católica paquistanesa presa há oito anos acusada injustamente de blasfémia contra o Islão, [inicialmente] condenada à morte.  

22/03/2018 – O marido e a filha mais velha levam presente do Papa Francisco - Asia Bibi, mãe católica encarcerada injustamente no Paquistão, acusada de blasfémia contra o Corão, considerou “um milagre” a decisão da prisão de Multan de permitir que ela recebesse o terço que o Papa Francisco lhe enviou.   

22/03/2018 - Asia Bibi: «É um milagre receber o terço que o Papa me enviou»

26/02/2018 - Papa Francisco teve encontro emocionante com família de Asia Bibi -  A família de Asia Bibi, foi recebida pelo Papa Francisco no sábado, 24 de fevereiro, no Palácio Apostólico do Vaticano.   

Em Fevereiro, a família de Asia Bibi foi acolhida calorosamente no Vaticano.

Por cortesia do autor, segue o relato expressivo e sintético da história impressionante de Bibi, que voltou a complicar-se: 


«Asia Bibi foi absolvida

Na terça-feira passada, o Supremo Tribunal do Paquistão tornou pública a absolvição de Asia Bibi, uma mulher cristã presa em 2009 e condenada à morte por blasfémia: pelo facto de ser católica, ao beber água de um poço contaminou a água...

Durante todos estes anos, em que a execução estava sempre anunciada para daí a poucos dias, Asia Bibi foi mantida em condições de prisão terríveis, frequentemente em isolamento total, na tentativa de que abandonasse a fé católica. O marido e os cinco filhos também sofreram duramente e, por arraste, muitos católicos do país foram perseguidos e alguns foram mortos. Quando o Ministro Shabaz Bhatti se pronunciou a favor da libertação de Asia Bibi, um dos seus próprios guarda-costas tomou a iniciativa de o matar. Até os advogados muçulmanos que defendem Asia Bibi foram acusados de blasfémia e correram grande perigo. Naturalmente, os juízes do Supremo que a absolveram foram imediatamente ameaçados de morte. Além de muitos assassinatos isolados, houve massacres anticristãos em 2009 e em 2013 e teme-se que esta decisão do Supremo Tribunal volte a incendiar o fanatismo. A decisão estava tomada há um mês, mas o veredicto só agora foi tornado público, provavelmente por medo de reacções extremistas. O processo tem agora de percorrer a cadeia hierárquica até chegar ao Director da prisão, pelo que a libertação de Asia Bibi vai demorar algum tempo. Até lá, ela continua presa e praticamente incomunicável, sem mesmo poder falar com o advogado. Entretanto, a capital do país, Islamabad, está em alerta máximo. 

Muitas centenas de polícias guardam o Supremo Tribunal e unidades do exército tomaram posição diante de outros edifícios, em particular lugares onde os cristãos se reúnem. O partido islâmico Tehreek-e-Labbaik Pakistan organiza sucessivas manifestações de protesto contra a absolvição de Asia Bibi, com grande agressividade e exibição de força. Várias cidades do Paquistão estão paradas devido à onda de violência. Em várias delas, as autoridades desligaram as redes de telemóveis para tentar controlar a informação.

Muitos paquistaneses estão contra o fanatismo e alguns líderes muçulmanos vieram a público defender Asia. A própria sentença de absolvição cita o profeta Maomé: «Atenção! Quem for cruel e duro contra uma minoria não muçulmana, ou lhes retirar direitos, ou lhes impuser exigências superiores às suas forças, ou lhes tirar alguma coisa contra a sua vontade; eu próprio, o Profeta Maomé, o hei-de acusar no Dia do Juízo».

Desde que Asia Bibi foi presa, embora os meios de comunicação social de alguns países europeus tenham evitado divulgar o caso, a comunidade internacional manteve a pressão sobre as autoridades paquistanesas.

Nos meios cristãos de todo o mundo, milhões de pessoas rezaram o terço por esta intenção. Sobretudo o Papa Bento XVI e o Papa Francisco fizeram sentir o seu apoio a Asia Bibi e a todos os católicos perseguidos no Paquistão. No início deste ano, Francisco recebeu no Vaticano Ashiq Masih, o marido de Asia Bibi, e a filha mais velha do casal, juntamente com Rebecca, uma jovem nigeriana cristã que, depois de torturada pelo Boko Haram, deu à luz um filho de um dos sequestradores. Nessa audiência, o Papa rezou por Asia Bibi e pelas mulheres que continuam prisioneiras do Boko Haram. «O testemunho de Rebecca e o de Asia Bibi representam um modelo para uma sociedade que hoje tem cada vez mais medo da dor. São duas mártires», disse Francisco. «Penso muitas vezes na vossa mãe e rezo por ela», disse o Papa à filha mais velha de Asia. Ela transmitiu-lhe o recado da mãe: «Santo Padre, a mãe pediu-me que lhe desse um beijo».

Através de vários canais, Asia Bibi conseguiu transmitir para o exterior várias outras mensagens. A principal é dizer que perdoa de todo o coração os que lhe fazem mal e pedir orações por ela, pela família, pelos cristãos perseguidos, pela Igreja e por todo o mundo.»

José Maria C.S. André
ABC Portuguese Canadian Newspaper, Correio dos Açores, Spe Deus (…)


Felizmente que a mãe paquistanesa é reconhecida no Ocidente. Fica, agora, do nosso lado não desistirmos de pressionar em favor da sua libertação, já autorizada pelo Supremo mas recusada pelas autoridades prisionais. Seria o melhor presente para uma família tão massacrada e um sinal positivo para os milhões de paquistaneses sem voz. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta-feira)

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Leituras dos dias que correm


Recebo um dia destes um mail de uma professora: João, estava aqui a preparar a aula. O Lear é que é todo sobre despojamento. E falou-me numa tradução boa para português. Curioso, para mim, não era haver uma tradução boa, mas a tradução ser de quem era. Para além da tradução, notas e ilustrações. Um luxo, caso consigam ver o fundo da capa...

JdB 

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Poemas dos dias que correm

Súplica final

Senhor: não peço mais que silêncio,
o silêncio das noites de planície como enevoadas águas,
o silêncio dos montes quando a tarde acabou e as pedras
se afiam na friagem que é azul-celeste,
o silêncio do sol encarquilhando as folhas,
e o vento na areia depois de ter passado,
o silêncio das ondas ao longe espumejando tranquilas,
o silêncio das mãos e o dos olhos,
e o das aves negras que pairam nas alturas
de um céu silencioso e límpido. Não peço
mais que silêncio. O silêncio das ideias que deslizam
no tecto escorregadio da memória silente.
E o silêncio dos sonhos coloridos, e o dos outros
a preto e branco imagens desejadas
que não pensei que desejava e esqueço
ao querer lembrá-las. E o silêncio
dos sexos que se possuem sem uma palavra.
E o do amor também, tão silencioso esse,
que não sei quem amo.

Não peço mais. Afasta
de mim o estrondo: não o das cidades,
ou dos homens, das águas, do que estala
na memória ou penumbra das salas desertas.
Afasta de mim o estrondo com que a vida
se acabará contigo, num rasgar de súbito
em que ficarei inerte e silencioso. O estrondo
em que não ouvirei mais nada. O estrondo
em que não mexerei um dedo. O estrondo
em que serei desfeito. O estrondo
em que de olhos abertos
alguém mos abrirá.

Senhor: não peço mais do que o silêncio do mundo,
o silêncio dos astros, o silêncio das coisas
que outros homens fizeram, e o das coisas
que eu próprio fiz. E o teu silêncio
de senhor que foi. Não peço mais.
Não é nada o que peço. Dá-me
o silêncio. Dá-me o que não fui:
silêncio (porque calei tanto):
o que não sou (pois que calo tanto):
o que hei- de ser (já que falar não adianta):
Silêncio.
Senhor: não peço mais.

1961

Jorge de Sena in Peregrinatio Ad Loca Infecta

domingo, 4 de novembro de 2018

Carta a um anjo

Partiste hoje, mas há dezassete anos.

Onde está o céu? O que é o céu para quem ainda está e tenta construir uma estrada terrena? O céu é um espaço de total e absoluta felicidade, de uma dimensão tal que não é explicável com o vocabulário terreno? Talvez aquilo que nos falte não seja o vocabulário para explicar, mas as pernas para fazer caminho, os braços para agarrar uma outra verdade, as mãos para tocar a santidade, os olhos para ver além do desfocado. Achamos que o céu é uma inconstância geográfica: hoje está mais perto de nós, amanhã afasta-se. Porém, nunca se aproxima com total segurança, nunca se afasta irremediavelmente. Talvez o céu tenha uma dimensão de vaivém, não por capricho divino ou defeito improvável de criação, mas como alerta para a transitoriedade das coisas, para a necessidade de ser mais, de ser melhor. Talvez para a necessidade, ou fatalidade, de se tentar mais, de se falhar melhor.

Estás no céu. Aliás, estamos certos disso, já nasceste no céu, com uma marca de água clara que te decifrava o destino, te identificava como uma de nós, não sendo, no entanto, de nós. A tua pertença era-nos ilusória, porque os olhos que te viam na escuridão em que tantas vezes vivemos se fechavam demasiadas vezes, se fecham ainda demasiadas vezes para o que é importante. Estás no céu, porque foi lá que nasceste e te criaste, foi lá que agarraste uma realidade que nos ultrapassava. Desde sempre que o teu céu está à mesma distância de nós, a tua mão sempre estendida, o teu olhar sempre permanente. Talvez por isso o céu não seja uma inconstância, mas uma permanência. Só nós, nos nossos orgulhos, nos nossos rancores, nas nossas insensibilidade e nas nossas falhas é que somos uma inconstância e nos afastamos do céu onde moras e de onde derramas o Pó do Amor de que fugimos demasiadas vezes. 

Não rezamos por ti; rezamos-te, para que nos ilumines, nos guies, nos defendas, nos mostres o caminho, por nós intercedas junto de Deus e de nós nunca te esqueças; para que o céu de onde nunca saíste seja tocado em permanência pelos nossos dedos frágeis, demasiadamente cerrados ou a dizer adeus, menos vezes abertos para acolher o Outro.


Na sua bondade sem fim 
Quis Deus olhar para mim
Dar-me um pouco do que é seu
Deu-me uma estrela pequena
A quem chamou Madalena
Que é uma das santas do Céu


J (em nome de todos os que te lembram)

31° Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Me 12,28-34

Naquele tempo,
aproximou-se de Jesus um escriba e perguntou-Lhe: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?» Jesus respondeu:
«O primeiro é este:
‘Escuta, Israel:
O Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus
com todo o teu coração, com toda a tua alma,
com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças’. O segundo é este:
‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’.
Não há nenhum mandamento maior que estes». Disse-Lhe o escriba:
«Muito bem, Mestre! Tens razão quando dizes:
Deus é único e não há outro além d’Ele. Amá-l’O com todo o coração,
com toda a inteligência e com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo,
vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios». Ao ver que o escriba dera uma resposta inteligente, Jesus disse-lhe:
«Não estás longe do reino de Deus».
E ninguém mais se atrevia a interrogá-I’O.

sábado, 3 de novembro de 2018

Pensamentos Impensados

Futebóis
Os  Leões precisam de um domador em vez de um treinador; para isso, contactem o Circo Cardinali, onde os domadores estão em vias de desemprego.

Pescarias
As redes sociais ajudam a pescar um peixe chamado chaputa.

Paparéns a você
O  dia de aniversário é uma droga que se toma anualmente para acelerar o envelhecimento.

Ordens
Instruções para o carrasco: para, executa e olha.

Ignorâncias
Na palavra ESLOVÉNIA não sei o que é ESLO.

Pudicícia
Pudibunda é uma mulher que não gosta de mostrar o rabo.

Ataques
O assaltante disse-lhe: a bolsa ou a vida; ficou tão assustado que bolsou.

SdB (I)

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Bem-aventuranças: Mateus e Lucas

O meu post de ontem suscitou o seguinte comentário do ea, que aproveito para cumprimentar:

Compare o sermão da montanha (Mateus) com o sermão da planície (Lucas).
Lucas escreve quatro Bem-aventuranças seguidas por quatro Imprecações.
Medite nestas. Lucas separa bem o que Deus oferece e o que o mundo oferece.

Cumprimenta, ea

***

O comentário despertou-me a curiosidade e, obviamente, fui ver as bem-aventuranças de Lucas, que rezam assim (Lc, 6, 20-26, Difusora Bíblica):

Erguendo os olhos para os discípulos, pôs-se a dizer:
«Felizes vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus.
Felizes vós, os que agora tendes fome, porque sereis saciados.
Felizes vós, os que agora chorais, porque haveis de rir.
Felizes sereis, quando os homens vos odiarem,
quando vos expulsarem, vos insultarem
e rejeitarem o vosso nome como infame,
por causa do Filho do homem.
Alegrai-vos e exultai nesse dia,
pois a vossa recompensa será grande no Céu.
Era assim que os pais deles tratavam os profetas.

Imprecações

Mas ai de vós, os ricos,
porque recebestes a vossa consolação!
Ai de vós, os que estais agora fartos, porque haveis de ter fome!
Ai de vós, os que agora rides, porque gemereis e chorareis!
Ai de vós, quando todos disserem bem de vós!
Era precisamente assim que os pais deles tratavam os falsos profetas».

 

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Solenidade de todos os Santos

EVANGELHO – Mt 5,1-12

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se.
Rodearam-n’O os discípulos
e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
«Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados os humildes,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que choram,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa,
vos insultarem, vos perseguirem
e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa».

***

Os santos que passam ao meu lado *

Que alegria sinto quando me fixo na santidade que, de uma maneira clara e patente, aparece em membros do Povo de Deus. Há que saber olhar com os olhos do Senhor para a ver. Convido-os por uns instantes a que, nestas festas de Todos os Santos e Fiéis Defuntos, contemplemos essa santidade entre aqueles que o papa Francisco chama «os santos da porta ao lado».

Sim, da porta ao lado. Pessoas que viveram há muitos anos, outras com quem vivemos ou estamos a viver, que ainda não foram canonizadas, mas que temos diante de nós. Olhemos para as pessoas que há poucos dias o papa Francisco elevou aos altares: Nunzio Sulprizio, Nazaria Ignacia, Katharina Kasper, Vincenzo Romano, Francesco Spinelli, Óscar Romero e Paulo VI. Mas também para quem viveu junto de nós e conhecemos, que amaram, serviram e gastaram a vida em favor dos outros; trabalhadores em todos os campos, mães e pais de família que souberam deixar a herança mais bela aos seus filhos, transmitida não com bens efémeros, mas com o bem maior: a fé em Jesus Cristo comunicada com obras e palavras.

Olhemos também para as pessoas pacientes e boas que vivem ao nosso lado, pais e mães que no meio das dificuldades da vida criam os seus filhos e transmitem-lhes a beleza que adquire o ser humano quando tem a vida mesma de Deus. Há homens e mulheres que desde muito cedo pela manhã saem das suas casas para trazer o pão para o seus, ou que sacrificam saídas para estar com os seus idosos doentes e sem possibilidade de se valerem a eles próprios; jovens e crianças que, vendo os seus pais e avós, percebem a necessidade de os ajudar, cumprindo o seu dever como fez Jesus na casa de Nazaré.

Demos graças a Deus em Todos os Santos e nos Fiéis Defuntos porque a nossa Santa Madre Igreja nos dá a possibilidade de contemplar os santos canonizados que, com o seu exemplo de seguimento de Jesus Cristo, nos iluminam um caminho que também nós podemos escolher; e também nos permite rezar pelos que nos precederam e ver neles não somente quem nos deu rosto humano e o melhor deles mesmos, mas também a quem, junto de nós, confessaram ou confessam a verdade e nos serviram e servem santamente. Eles e nós sabemos verdadeiramente tudo o que nos deram.

Deixemo-nos fascinar, estimular e atrair por quem, de uma forma heroica em momentos difíceis, ou de uma maneira simples, viveram na sua vida a fé e a caridade. Aqueles que nasceram numa povoação ou vila do interior talvez se deem conta, quando são maiores, de que a sua maneira de se relacionar, entreajudar-se, cultivar uma cultura com as características do encontro e da relação que não se estabelece pelas ideias que uns ou outros tiveram, a solidariedade empreendida em momentos fáceis e difíceis, ou o estar juntos nas alegrias e nas tristezas, solidificaram os acontecimentos decisivos da história dessa povoação. Destas pessoas nada dizem os livros, mas, com uma santidade não de palavras mas vivida no dia a dia, na convivência, foram artífices silenciosos de vida, fraternidade, acolhimento, criatividade e eliminação de marginalizações de qualquer género.

Recorrendo às palavras do profeta Jeremias, «antes de te formar no ventre materno, escolhi-te; antes que saísses do ventre materno, consagrei-te» (1, 5), quero recordar três aspetos que nos oferecem os santos que passaram ao nosso lado.

1. Temos uma missão a cumprir. Pensa nela, tu, como pai ou mãe, como filho ou filha, como trabalhador ou estudante, como avô ou avó, como empresário ou empregado, como político, como educador, como criador, como artesão, vivendo numa grande cidade ou numa povoação. Deste-te conta de que, para quem se aproxima de Jesus Cristo, é impensável passar por este mundo sem fazer um caminho de santidade? Cada um de nós tem características que têm de estruturar a nossa pessoa: somos missão e somos projeto. Em momentos diferentes da história, em circunstâncias muito diferentes, aprende a viver de Jesus Cristo. Faz um seguimento da sua pessoa, morre e ressuscita permanentemente com Ele.

2. Essa missão, realiza-a na atividade. Habituei-me a rezar uma oração de S. Pedro Poveda: «Que eu pense o que Tu queres que pense, que eu queira o que Tu queres que queira, que eu fale o que Tu queres que fale, que eu faça o que Tu queres que faça. Essa é a minha única aspiração na vida». Não queremos nós construir o Reino de Deus? Para o concretizar temos de pensar, querer, falar e agir como Cristo, com o mesmo empenho por construir o seu Reino de amor, paz, justiça, verdade e vida para todos. Vivamos com Cristo os esforços, renúncias, alegrias e paixões, os momentos de silêncio e de encontro com o outro, a oração e o serviço… Tudo isso que o façais na família, verdadeira igreja doméstica, no trabalho, no estudo, em ser buscadores da convivência.

3. Com homens, mulheres, jovens, crianças e anciãos verdadeiramente vivos e mais e mais humanos, com o humanismo de Cristo. Estareis de acordo comigo em que sempre que falamos de santidade, é como se estivéssemos a falar de homens e mulheres de outro mundo. Mas não. Falamos de nós mesmos. Recordemos as palavras de Jesus Cristo: «Não vim para buscar os justos, mas os pecadores», ou «não precisam de médico os sãos, mas os doentes». Veio buscar todos os homens. A santidade não é para uns poucos, Cristo oferece-a a todos os homens. E a santidade não é para os que estão fora do mundo, é para os que estão dentro e desejam oferecer um projeto alternativo para todo o ser humano, não oferecido por homens, mas por um Deus que se fez Homem. Não tenhamos medo da santidade. Sabes o que é não depender de escravidões que rasgam, dispersam, dividem, enfrentam, manipulam, agridem e, definitivamente, não deixam viver a própria dignidade? Não tenhas medo de viver no horizonte, no ambiente e na fecundidade da santidade. Fazes-te mais contemporâneo dos homens, entre outras coisas porque aproximas a presença de Deus da história com a tua própria vida. Fazes-te mais humano, com o humanismo verdadeiro que nos revela e oferece Jesus Cristo.


* Card. Carlos Osoro
Arcebispo de Madrid
In Alfa y Omega
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 31.10.2018

Acerca de mim

Arquivo do blogue