sábado, 21 de janeiro de 2017

Pensamentos Impensados

Gramáticas
No princípio era o verbo; os adjectivos vieram mais tarde.

Parentelas
A Ilha do Corvo é tão pequena que não há primos afastados.

Fogos
Os feelings são combustíveis, daí o arde filingue.

E não bufes
Quando o "Zé" tiver que pagar pelo BES é que vai ver como a factura é salgada.

Poderes
Um ditador é um plenipotenciário.

Degustações
Daqueles Homens que dizem, babados, aquela mulher tem corpo de sereia, fico sem saber se gostam mais de carne ou de peixe.

Higienes
Qual o sabonete mais adequado para um banho de multidão?

Ditados
Quem tudo quer tudo pede.

SdB (I)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Das termas




Há um poema de João de Deus, intitulado "Boas Noites", em que, segundo Miguel Tamen na conferência de ontem, nada acontece. Uma lavadeira e um caçador cruzam-se, desejam-se boas tardes, e trocam banalidades. Talvez ele não encontre a perdigueira que perdeu, talvez seja melhor procurar uma costureira (os versos só têm duas rimas, em "or" e em "eira"); despedem-se, desejando boas noites - boa noite lavadeira, boa noite caçador. Ouvido atento à conferência de ontem referiu o facto de talvez se ter passado algo, porque os versos começam com boas tardes e acabam com boas noites

O par de fotografias acima foi tirado em instantes diferentes - quantos já não me lembro. Talvez cinco minutos, dez. Em bom rigor tanto faz, porque a ordem destes factores é arbitrária. Tal como no poema de João de Deus, nada parece acontecer: umas termas ao calor do sol, pessoas que se sentam nos bancos ou nos muretes, mais ao longe, não retratado, gente que forma uma fila para beber uma água benfazeja que sai de uma fonte. Lá dentro, um mundo próprio: as dores, os chás, as refeições equilibradas, o tratamento personalizado por parte do pessoal: dona francisca, como vai o fígado? Senhor meirelas, não o via há um ano... , as vidas saudáveis, os corpos sofridos que acreditam num jacto de água que faz milagres, na ingestão de líquidos certos a horas certas para curar males da pele ou do baço ou do cólon que anda irritado. 

A ordem das fotografias é, repito, irrelevante, mas essa irrelevância pode suscitar uma multitude de interpretações em torno de dois elementos comuns e fixos - um banco e uma mulher. Há uma idosa e um senhor que não se sentam em simultâneo, embora seja óbvio que ambos têm uma relação com a senhora do casaco de cabedal e calças brancas. Quem está a mais na fotografia?

Umas termas são um micro-cosmos, porque revelam a fragilidade das pessoas: um intestino preguiçoso, uma tosse permanente, uma azia que não desaparece. Há um convite ao desabafo, ao desalento mas, também, ao elogio - que bonita que está a sua pele, dona jaquelina... Há um convite à partilha, às ausências certas para o jacto de água, para a água rica em minerais ou em sais, para a fisioterapia. E há, por fim, um convite à dúvida: vem ter comigo ao banco do pátio que a minha mãe às 16.30h tem a sua sessão de ginástica geriátrica e podemos estar sossegados. Queres que te esfregue as cruzes? Ou, no extremo quase oposto, nunca gostei do teu marido e o teu pai, que deus tenha, também não. O que vem ele cá fazer hoje? Deixa-me ir para dentro, que é hora da água sulfurosa e ao menos esse mau cheiro faz-me bem...

JdB 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Eventos dos dias que correm


Foi ontem. Perante uma plateia bem composta de colegas de faculdade e outras pessoas que não conhecia, declamei, a meias com um rapaz actor de teatro e com quem também me cruzei nas aulas, quatro poemas de João de Deus, um dos quais reproduzido abaixo juntamente com uma versão declamada que encontrei na net. Foi uma experiência interessante, ainda que com alguns nervos à mistura. E lembro-me de um post que escrevi há algumas semanas sobre o que nos tinha dado a idade. A mim deu-me, entre outras, esta capacidade de vencer uma vergonha e uma dificuldade de exposição.

Agradeço à Helena Miranda e ao Tomás Castro o desafio. Que tenham gostado, é o que me interessa mais.

JdB

***

O DINHEIRO

O dinheiro é tão bonito, 
Tão bonito, o maganão! 
Tem tanta graça, o maldito, 
Tem tanto chiste, o ladrão! 
O falar, fala de um modo... 
Todo ele, aquele todo... 
E elas acham-no tão guapo! 
Velhinha ou moça que veja, 
Por mais esquiva que seja, 
                            Tlim! 
                            Papo. 

E a cegueira da justiça 
Como ele a tira num ai! 
Sem lhe tocar com a pinça; 
E só dizer-lhe: «Aí vai...» 
Operação melindrosa, 
Que não é lá qualquer coisa; 
Catarata, tome conta! 
Pois não faz mais do que isto, 
Diz-me um juiz que o tem visto: 
                            Tlim! 
                            Pronta. 

Nessas espécies de exames 
Que a gente faz em rapaz, 
São milagres aos enxames 
O que aquele demo faz! 
Sem saber nem patavina 
De gramática latina, 
Quer-se um rapaz dali fora? 
Vai ele com tais falinhas, 
Tais gaifonas, tais coisinhas... 
                            Tlim! 
                            Ora... 

Aquela fisionomia 
É lábia que o demo tem! 
Mas numa secretaria 
Aí é que é vê-lo bem! 
Quando ele de grande gala, 
Entra o ministro na sala, 
Aproveita a ocasião: 
«Conhece este amigo antigo?» 
— Oh, meu tão antigo amigo! 
                            (Tlim!) 
                            Pois não! 

João de Deus


quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Pensamento Impensado

Para...lamentar

Quando apertada, a Assunção crispa-se.

SdB (I)

Oh my God!

Aqui há poucos meses fui ao lançamento do último livro da Rita Ferro. Uma vez que a sala do Palácio Foz se veio a tornar pequena para o número de convidados, muita gente ficou à porta, mesmo os que, como eu, haviam chegado com cinco minutos de atraso. Junta-se um pequeno grupo à conversa com o porteiro que, cumprindo ordens, tenta explicar o que parece ser difícil de entender - pura e simplesmente não entra mais ninguém. Ao meu lado fala-se que também não teriam querido deixado entrar o António Vitorino, um dos apresentadores do livro. Senhora ligeiramente mais velha que eu, com quem me cruzei duas ou três vezes em eventos sociais, reage indignada: não queriam deixar entrar o António Vitorino? Mas ele é deputado...

***

Faço zapping um destes dias. Num programa norte-americano, talvez com o Jimmy Fallon  (há-de ter um nome, este tipo de programas, mas não me lembro) desafiam algumas pessoas a dirigir umas frases a Michelle Obama. Fazem-no voltados para uma imagem dela num ecrã. Vi meia dúzia de intervenções: curtas, elogiosas, algumas muito elogiosas, outras de lembrança por uma contemporaneidade numa faculdade há muitos anos. Filmam Michelle Obama por trás de um cenário, que vai abrindo a boca de espanto e comoção por aquilo que as pessoas comuns dizem. Oh my God é corrente e repetido. De repente a ex-primeira dama norte americana sai de trás do cenário e coloca-se em frente desta gente comum que lhe dissera coisas elogiosas. Vale a pena ver o ar de espanto, incredulidade e surpresa. Mas, acima de tudo, vale a pena ver as caras de total e absoluto fascínio por poderem abraçar, tocar mesmo, uma senhora que viram durante oito anos numa televisão e que, de uma forma que desconheço, lhes terá tocado a vida. Todos dizem oh my God!

***

Para a senhora ao meu lado era inacreditável não terem deixado entrar o António Vitorino, que até era deputado...  Em primeiro lugar, inacreditável é a senhora não saber que ele não é há muito tempo. Em segundo lugar o que torna o António Vitorino (com excepção da sua condição de apresentador do livro) detentor de um livre acesso que eu, ou outros iguais, não teria? Por ser deputado? E isso é maios ou menos do que ser neuro-cirurgião, advogado num bom escritório ou cantor com discos de platina? Refira-se que o político socialista é um homem que me merece consideração e respeito, não me suscitando qualquer irritação, muito pelo contrário.

Não emito opiniões sobre o mérito da intervenção de Michelle Obama na vida pública norte-americana, que desconheço. Mas é sempre interessante ver este povo infantilmente fascinado com estes encontros, como se a verdadeira existência dela (ou de um lorde inglês vestido de tweed, ou de um marajá, de turbante) só fosse comprovável pelo toque humano, e esta americana ou este americano se configurassem numa espécie de povo eleito e iniciado a quem foi dado o privilégio de tocar no sobrenatural.

Talvez a senhora ao meu lado fosse americana e gostasse de abraçar a primeira-dama (que agora não há) comovendo-se numa expressão lírica: oh meu Deus...

JdB

PS: Ver, como eu vejo no iPad no remanso de minha casa, as capas das revistas sociais todas lado a lado é um exercício sociológico para uma realidade que será estudada um dia. Ali estão as pessoas a quem os americanos diriam oh my god! - os actores, as actrizes, os modelos, as histórias das telenovelas, tudo misturado como se fizesse parte da mesma realidade. São estes os heróis do nosso tempo. Como é heroína a mãe da princesa Nônô (uma criança que morreu de cancro há poucos anos, cuja vida e morte foi muito mediatizada, até por bons motivos) a indignar-se na capa de uma revista cor de rosa com o ex-marido, que já se tinha indignado, ele próprio, com a ex-mulher, porque ambos dizem o mesmo - o outro cônjuge abandonou a filha às portas da morte. Que mundo! 

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Duas Últimas

Samuel Úria já passou por este estabelecimento trazido pelo meu querido amigo fq. Confesso, em bom rigor, que não me lembro dele... Hoje fui ouvi-lo a cantar a música abaixo e não me prendeu...

Há alguns dias cruzei-me com o o cantor num blogue onde se privilegiava, penso eu que acima de tudo, a letra da música em questão. Não havia explicação sobre a letra, um racional qualquer - ou mesmo uma emoção - por trás daqueles versos. Não investiguei mais nada, até porque não me interessava. Por vezes, como me disse uma vez pessoa que lida com a mente dos outros, uma explicação é um fosso. Não obstante, os versos dizem alguma coisa - talvez nos falem de Jesus Cristo que pouco respondeu às acusações de que era alvo. Não obstante, repito, os versos dizem alguma coisa - e talvez nos falem das respostas que damos às respostas que nos dão que são dadas como respostas às respostas. Quando damos por nós já só respondemos, ou já só falámos. 

Que lição nos dá o silêncio?

JdB



Ei-lo

Tinhas palavras para calar o mar
E até citavas quem basicamente
Esteve a citar as coisas que vinhas fazer
Mas o que é que usaste para te defenderes?
Palavras não, nem uma!

E que lição nos dás por não responderes?

Eu já lá estava pra te negar
Mas porque negaste tu próprio a missão
De te defenderes? Eu sei bem que eras capaz
No vai ou racha foste a rachar
Corpo quebrado e mudo

Mas como imitar alguém que se calou?
E que lição nos dás por não responderes?

Ei-lo, verbo antigo, a suster a voz
Pra que o copo não passasse por nós
Eis o rei dos réus, o agitador
E que lição nos dá mesmo sem falar

E que lição nos dá mesmo sem falar

Eras convite também à expulsão
Tinhas o dedo para pôr na ferida
Nalguns pra sarar e noutros para fazer doer
Ei-lo, o homem: de onde é que vens?
Posso soltar-te, só que não

E que extensão nos dás por não responderes?

E que lição nos dás por não responderes?
E que lição nos dás por não responderes?
E que lição nos dás por não responderes?

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Pensamento Impensado

Querer ou não querer, eis a questão

Obama Care, Trump não Care.

SdB (I)


Textos dos dias que correm

Fracasso, palavra censurada

No ar dos nossos dias aparece às vezes, mas é logo removido, o medo do fracasso. As grandes palavras como esperança e confiança, sobretudo no espaço cristão, parecem proibir a possibilidade de ler um acontecimento ou a própria vida como um fracasso. Esta parece-me ser uma doença espiritual do nosso tempo: habituados a procurar o sucesso, a aprovação dos outros, comprometidos em tarefas "boas" e conformes ao Evangelho, deixámos de ser capazes de entrever a possibilidade de debilidade e do consequente fracasso.

Parece que nós, cristãos, temos já "as palavras prontas" para impedir a constatação do fracasso, e portanto de o dizer, e para o poder viver não como uma dor real, um acontecimento que nos pode colher na nossa longa vida. E todavia declaramo-nos discípulos de um mestre, um profeta, que conheceu como resultado da sua vida o fracasso: a recusa do povo, o abandono e a traição dos seus discípulos, uma morte na vergonha de quem é julgado como homem nocivo ao bem da humanidade, inclusive um endemoninhado, um louco, um homem falso. É surpreendente, portanto, que nós, cristãos, falemos facilmente e até a sorrir do «escândalo da cruz», mas sem nos sentirmos intrigados por ele, sem absolutamente pensar que esse poderia ser o destino que nos espera.

Contudo o sentido do fracasso não pode ser eliminado, e quando se conhecem não superficialmente alguns grandes testemunhos cristãos deve-se constatar que o fracasso foi vivido dramaticamente nas suas vidas. Porquê? Porque em cada pessoa está presente, até à sua profundidade, antes ainda do pecado, aquela que na tradição cristã é dita "infirmitas" ou, com sinónimos, "fragilitas" e "miseria". A "fragilitas", a debilidade, é a condição da nossa carne, se somos capazes de a ler, e quanto mais «o espírito está pronto», mais «a carne está fraca». A debilidade é em nós radical: somos frágeis e débeis até nos encontramos na miséria, somos inadequados a secundar o Espírito que em nós geme e suspira, e por esta debilidade somos forçados a cair, a fracassar.

Pode-se por isso fracassar na vida, inclusive na vida que se quer cristã, pode-se chegar ao pensamento de uma vida perdida, de uma vida que não se foi capaz de salvar. A vida passada aparece como farrapos de carne lacerada que deixou de ser integrável, deixou de poder estar disponível para ser a imagem de uma vida. A única certeza é que o silêncio que envolve o fracasso e a queda os preserva de se dispersarem no nada, de terem o destino de uma estrela num buraco negro do universo. Nasce-se e renasce-se, cai-se e levanta-se, recomeça-se sempre: o protagonista não sou eu.

A nada favorece a mentalidade mundana que pretende que se tenha sempre e só sucesso, reconhecimento, quase uma imparável ascensão! Na vida há também o fracasso, a queda, e quem chega a dizer que errou tudo deve ser escutado em silêncio e não ser consolado com palavras baratas. S. Bernardo chegará a exclamar: «Ó feliz, desejável fragilidade, repleta do poder de Cristo, que me permite não só ser frágil, mas também fracassar inteiramente por mim próprio, para ser tornado firme pelo poder do Senhor dos poderes. "O seu poder, com efeito, manifesta-se plenamente na minha debilidade"».

Verdadeiramente, a força de Deus encontra a sua medida na medida da nossa fragilidade. Mas aqui estamos já para além do fracasso, como Paulo, que chega a dizer: «Quando sou fraco, é então que sou forte». “Naufragium feci, bene navigavi”: não se o diz na tempestade, mas quando a tempestade termina e se aporta ao porto desejado ou, como quer que seja, ao cais que nos salvará.


Enzo Bianchi 
In "Monastero di Bose" 
Trad.: Rui Jorge Martins 

domingo, 15 de janeiro de 2017

2º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Jo 1,29-34

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
João Baptista viu Jesus, que vinha ao seu encontro,
e exclamou:
«Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.
Era d’Ele que eu dizia:
“Depois de mim virá um homem,
que passou à minha frente, porque existia antes de mim”.
Eu não O conhecia,
mas para Ele Se manifestar a Israel
é que eu vim baptizar em água».
João deu mais este testemunho:
«Eu vi o Espírito Santo
descer do Céu como uma pomba e repousar sobre Ele.
Eu não O conhecia,
mas quem me enviou a baptizar em água é que me disse:
“Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e repousar
é que baptiza no Espírito Santo”.
Ora eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus».

sábado, 14 de janeiro de 2017

Pensamentos Impensados

Imitando Dalai Lima
1, 2, 3, 5, e 7 são primos muito chegados.

Indigestões
Parece que Adão comeu um figo e não uma maçã; sendo assim, faz sentido o dito: uns comem os figos (Adão) e aos outros (humanidade) rebenta a boca.

Pulos
Os bailarinos sabem as danças de cor e saltitado.

Finanças
Qual será a esperança média de (dí)vida portuguesa.

Medidas
Portugal com altos e baixos: António Barreto e António Victorino.

Lugarejos
Paulo Portas foi o primeiro vice-primeiro.

Que paz!
No princípio da Humanidade era só Adão e erva.

Forças ocultas
Comer é responsável pelas energias renováveis.

SdB (I)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Imagem e textos dos dias que correm



A Humildade é a Base da Sociedade

A humildade oferece a todos, mesmo ao que se desespera na solidão, a relação mais forte com o semelhante, e, na realidade, imediatamente, mas, com certeza, só no caso da humildade completa e duradoura. Ela é capaz disso por ser ao mesmo tempo a verdadeira linguagem da oração e a mais sólida das ligações. A relação com o semelhante é a relação da prece; a relação consigo mesmo, a relação do esforço para alcançar algo; a energia para esse esforço é extraída da oração. 

Podes conhecer outra coisa que não seja a fraude? Fosse ela um dia obstruída, tu de modo nenhum poderias olhar para lá a não ser que quisesses tranformar-te numa estátua de sal. 

Franz Kafka, in 'Os Aforismos de Zurau ou Reflexões no Pecado, Esperança, Sofrimento, e o Caminho da Verdade (106)'

***
Exercício Espiritual

Ouço-os de todo o lado. 
Eu é que sou assim. 
Eu é que sou assado, 
Eu é que sou o anjo revoltado, 
Eu é que não tenho santidade... 

Quando, afinal, ninguém 
Põe nos ombros a capa da humildade, 
E vem. 

Miguel Torga, in 'Diário (1939)'

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Textos dos dias que correm

O que é um poema?

E se a gente ouvisse um texto e entrasse lá dentro e começasse a dizer só para nós que ele tem razão, é um poeta, que já tínhamos aquela teoria mais ou menos arquitetada mas nunca com o jeito e a coragem de a trazer à luz, de apreciar o som e lhe perceber as tonalidades; que parece não ser um poema mas uma teoria, um protesto, uma irreverência com o uso de palavras que costumam ser usadas para dizer o contrário. Por todos, exceto pelos poetas. Que ali, afinal, está um poema, um compêndio da história de ontem e de hoje que poderia ser dita há dez mil anos ou daqui a vinte mil; que até as crianças se deixariam embalar se o ouvissem na voz áspera, clara e doce de Maria Betânia, que não hesita um verbo e acaricia cada sílaba. E se o repetíssemos uma, duas, dez vezes e reparássemos que nenhuma é igual à outra, e se nos deixássemos abismar pelo rolar da palavra sem uma única rima, e sentíssemos que existe apenas para este momento, esta realidade, que descreve este anseio, que exprime esta revolta, que transporta esta recusa tocada de beleza que vai desaguar num infinito abstrato. Ah, é mesmo um poeta, um poema. Tinha-me esquecido que tem asas, se transfigura, se torna em salmo ou impropério, rasga a fronteira dos horizontes, das convenções, atreve-se a passar as nuvens, não se prende a fórmulas, esvoaça, livre como a alma. O poema dá-me uma certeza: a alma existe e está lá discretamente escondida na folhagem das palavras nos tons mesmo azedos que perguntam sem querer resposta, nas dúvidas que se escondem dentro de todos os humanos. O poema não é uma proclamação de direitos, é ele próprio um direito porque nasce da arte nobre de pensar e gritar no tom que entender o que de mais sublime habita o coração do homem. É um hino, um salmo, um versículo, uma prece balbuciada por milhões de seres humanos mas que só os poetas sabem interpretar. E sem dizer que tudo é divino adivinha-se-lhes o traço no subliminar do transcendente.

Não sei o poema de cor. Não serei capaz de repetir a maior parte das suas palavras. Os poemas não são para se fixar e cantar com a nossa voz nem para traduzir com as nossas ideias. O poema é, ele mesmo, senhor do seu universo, ímpeto criador, a um tempo santo, sábio e louco, deixando a lógica de lado, só permitindo  a fala do coração e a sua inexcedível linguagem. Gostava de me juntar a todos os nãos deste manifesto, abraçar os sonhos que esboça, o planeta que inventa. Foi isso que o poeta soube desenterrar e me deixou perplexo e feliz porque já sabia aquilo tudo mas nunca o tinha pensado da forma que só os poetas sabem expor. E podem criar. Mesmo em forma de sátira, sublimada pela invenção do dizer. Nunca saberia ir por aquele caminho nem encontrar nas bermas as maravilhas que ele me revelou. No fim percebi que por vezes é preciso “fechar o cofre e deitar a chave fora”. E por isso aceitei humildemente que tudo o que fora dito e escrito não era para compreender mas apenas para sentir. Tinha de ser. Era o Ultimatum de Álvaro de Campos, 1917. Foi há cem anos.


P. António Rego
Publicado em 10.01.2017, aqui

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Da semelhança entre coisas aparentemente distintas

Imaginemos dois cenários:

(i) Wilhelm Roentgen olhado por mim, nascido em 1958;
(ii) Mário Soares olhado por um jovem português, nascido em 1987.

O que distingue os dois cenários? Aparentemente tudo. Qual a relação entre ambos? Aparentemente nenhuma. No entanto, parece-me que é exactamente o contrário. Não há qualquer diferença entre ambos os cenários, mesmo sabendo que o físico era alemão e nasceu em 1845 e Mário Soares, português, 80 anos depois.  

Wilhelm Roentgen, primeiro prémio Nobel da Física, é considerado o descobridor dos Raios X, acontecimento que levou ao estabelecimento de um novo ramo da ciência, a Radiologia (para além de ter dado início à era eletrónica na Física). Em termos de saúde, as vantagens desta descoberta são inegáveis e mundiais. Eu fui beneficiário deste facto, pese embora nunca ter vivido na era pré-Raios X. Quando nasci eles já existiam.

Nascer em 1987 é nascer 13 anos depois da revolução do 25 de Abril. É já viver com a realidade das eleições, das campanhas eleitorais, da liberdade de expressão, dos partidos políticos, da democracia participativa, do serviço nacional de saúde, do voto como arma do povo, do PREC como um conjunto de letras e um frenesim para as gerações acima. É conhecer a ditadura de Salazar por via dos livros, dos programas de televisão, dos discursos inflamados, das opiniões isentas. Quando o jovem nasceu a democracia já existia.

Consideremos sem grande alarido, e para benefício da discussão, que Mário Soares teve um papel determinante na consolidação da democracia portuguesa. Qual a diferença entre ter-se 30 anos e admirar-se o ex-Presidente da República, e ter-se 59 anos e admirar-se Roentgen? Nenhuma, não só porque nenhum dos dois protagonistas deste raciocínio (o jovem de 29 anos e o menos jovem de 59) conheceram o socialista lutador da liberdade e o físico investigador, mas porque ambos são coevos de uma época pós-qualquer coisa. Os Raios X são, para mim, um dado adquirido. A democracia é, para a geração dos meus filhos, um dado adquirido. Os Raios X são a democracia do jovem. 

Não se trata de saber se Mário Soares é merecedor ou não de admiração, se a sua intervenção política produziu x ou y resultados. Trata-se de pensar o que leva um(a) jovem de 30 anos a fazer um discurso inflamado, de cravo na mão, sobre a importância determinante do falecido. O que é a liberdade para uma pessoa que nunca conheceu o oposto em Portugal? O que são os Raios X para um adulto que nunca conheceu o oposto? E o que são, para nós, os (co-)obreiros dessas duas realidades já firmes quando nascemos?

JdB

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Pensamento Impensado

Pérolas de incultura
A propósito do funeral de Mário Soares, as calinadas na televisão são mais do que muitas.
Ontem, cerca das 12.30h, oiço / vejo na SIC uma reporter dizer que um armão é uma charrete a cavalo. Fiquei estarrecido.
Um armão é um veículo de quatro rodas, puxado por dois ou mais cavalos, que transporta uma urna com um morto.
Uma charrete tem duas rodas, é puxada por um cavalo, leva quatro passageiros, vivos...

SdB (I)

Vai um gin do Peter’s?

Das melhores personificações da Bela Adormecida é a música, no sentido em que toda a obra musical só ganha vida quando é executada. Até lá corresponde a letra morta, na pura acepção.

Exemplo de uma Belíssima maravilhosamente acordada, em 2015, foi a obra de Igor Stravinskiy (1882 Rússia -1971, EUA), composta em 1908 para homenagear o seu mentor e mestre – Nicolai Rimsky-Korsakov, após a morte deste, a 21 de Junho de 1908. Intitulada «Cântico Fúnebre» (Funeral Song), a op.5 teve estreia absoluta a 17 de Janeiro de 1909. À época, mereceu críticas variadas, entre elogios e ironia. Enquanto um a apreciava reconhecendo «the lament and moaning of a heart against the backdrop of a somber landscape», outro enjeitava a sua frieza observando que fora pena ter quebrado o silêncio: «Better keep silence if losing a friend and teacher leaves us cold.» 

Fruto de vicissitudes várias, a op.5 sumiu-se sem deixar rasto, para além da vaga notícia da sua audição, cem anos antes. A turbulência devastadora após a Revolução de 10917 a que se seguiu a Guerra Civil, depois as purgas estalinistas, intercaladas da invasão nazi em 1941, não deram descanso à população. Muita sorte, ou melhor, enorme sensibilidade e requinte cultural ter-se guardado memória da sua existência. 

Logo após a derrocada da União Soviética, intensificou-se a busca da célebre partitura. Das incansáveis pesquisadoras foi a académica Natalia Braginskaya, da Universidade de Musicologia de S.Petersburgo – continuando a obsessão dos seus professores. Resultou em mais uma a vasculhar o arquivo do Conservatório da cidade, em vão, à parte de se ter tornado conhecida dos arquivistas. Curiosamente, a suspeita de que estaria por ali esquecida veio a revelar-se certeira, tapada entre papelada burocrática. Pode imaginar-se a alegria da musicóloga quando, no Verão de 2015, a bibliotecária do Conservatório, Irina Sidorenko, lhe telefonou a perguntar se a obra procurada se chamaria Cântico Fúnebre! Acabara de ser desencantada, por mero acaso.

Composta aos 26 anos, merecera referência especial nas memórias de Stravinski, escritas em 1935. Considerou-a a obra mais importante do ciclo que antecedeu a composição das famosas peças para ballet, antes de se ter transplantado para o Ocidente. Com tonalidades do «Pássaro do Fogo» e influências de Wagner (só tardiamente assumidas pelo russo), o compositor recorda-a poeticamente como uma homenagem de cada instrumento musical ao seu grande professor R.-K.: 
«Unfortunately, the score of this work disappeared during the revolution... I no longer remember the music, but I recall very well my idea for the work. It was like a procession of all the soli instruments of the orchestra, coming in turns to each leave a melody in the form of a crown on the master's tomb, all the while with a low background of murmuring tremolos, like the vibrations of bass voices singing in a choir.» 

Igor Stravinsky, compositor e maestro

Ao longo de doze minutos, chega-nos o horizonte imenso das planuras brancas e espelhadas da neve sobre as estepes russas, como se o chão estivesse lacado, cobertas por um céu prateado e glaciar, que amplia a infinitude da paisagem. Ouve-se também a musicalidade das lágrimas e a dor de um coração apertado pela saudade. Faltarão as palavras, mas não a música, que é a sonoridade com sentido quando se mergulha no mistério da vida, quase sempre em fases de sofrimento. Felizmente que Stravinski ousou romper o silêncio:  



A segunda estreia ocorreu mesmo antes do ano fechar, a 2 de Dezembro de 2016, na Sala de Concertos do Mariinsky, em S.Petersburgo, sob a batuta do maestro Valery Gergiev. Este concerto memorável (aqui http://ow.ly/yUSg306TFPC em versão integral) incluiu também a execução do «Pássaro de Fogo» e suite da ópera de Rimsky-Korsakov «A Lenda da Cidade Invisível de Kitej».  

A descoberta da partitura perdida tem sido anunciada na imprensa internacional como milagre, por ter sido «miraculosamente preservada» durante mais de um século, «miraculosamente encontrada», ou até miraculosamente lembrada e pesquisada, resistindo ao expectável esquecimento. A invulgar preferência por aquela palavra dá bem nota da surpresa geral perante a recuperação de uma frágil pauta com fortíssimos motivos para ter sucumbido aos múltiplos furacões destrutivos que assolaram a Rússia no século XX.  

Assemelha-se, assim, a um presente da Festa de Reis, daqueles que só a candura das crianças se atreve a pedir, por confiar que é possível. 

Um segundo presente, também de valor incalculável, vem condensado no slogan da marca de relógios Breitling – «The greatest luxury in life is time. Savour every second».  Embora se tenda a banalizar o tempo, corresponde à coordenada mais importante da nossa vida. Por isso, é o grito que ecoa desde o alvor da criação, quando o primeiro humano foi insuflado de vida e convidado a gozar esse dom único, que fica ofuscado pela outra coordenada mais óbvia e de maior impacto, onde se concentra toda a materialidade – o espaço. O mesmo convite lançou-nos o Bebé nascido nas palhinhas de Belém, que insiste em oferecer-nos um presente de luxo (a Breitling tem razão), como só Ele pode: um Novo Ano! Lembro-O para desejar a todos um Feliz 2017 .

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Duas Últimas

Embora os dois youtubes que agora divulgue estejam relacionados com o José Pracana, que morreu há pouco tempo, o post de hoje não pretende ser uma homenagem ao fadista. Já muito foi dito nos últimos dias, e eu não saberia acrescentar nada mais. Cruzei-me com ele meia dúzia de meses, se tanto, fruto da amizade que o ligava ao meu Pai. Tocaram juntos inúmeras vezes no estrangeiro, em eventos organizados (patrocinados? com a colaboração de?) pela TAP, onde eram ambos funcionários. 

Ouvi o fado A Rua Que Foi Nossa há muitos anos (muitos mesmo, embora não saiba exactamente quantos) provavelmente aquando da sua gravação. E deixei de o ouvir há igual número de anos porque o José Pracana não terá gravado muito (pelo que não passava na rádio, como agora se diz) e, pese embora o seu enorme conhecimento de fado, não fez grande carreira como cantor. Voltei a ouvir o fado há poucos dias, divulgado pela Teresa Lopes Alves no seu programa semanal da Rádio Amália. Quando dei por mim conhecia a letra toda de cor e salteado. Curiosamente, vim a saber que a letra tinha sido escrita por alguém bem conhecido de uma certa época, cujo nome artístico era Maria (de?) Castro.  

Por que motivo haveria eu de fixar uma letra de um fado com tantos anos e que não ouvia ao mesmo número de anos? Que processo mental se desenvolve dentro da nossa memória para retermos uma música e não retermos outra? 

Enfim. Fica José Pracana, para deleite de quem gosta de o ouvir cantar e tocar e para quem gosta de ouvir versos bonitos escritos para fado.

JdB (I)



domingo, 8 de janeiro de 2017

Solenidade da Epifania do Senhor

EVANGELHO – Mt 2,1-12

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia,
nos dias do rei Herodes,
quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente.
«Onde está – perguntaram eles –
o rei dos judeus que acaba de nascer?
Nós vimos a sua estrela no Oriente
e viemos adorá-l’O».
Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado
e, com ele, toda a cidade de Jerusalém.
Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo
e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias.
Eles responderam:
«Em Belém da Judeia,
porque assim está escrito pelo profeta:
‘Tu, Belém, terra de Judá,
n&atil
de;o és de modo nenhum a menor
entre as principais cidades de Judá,
pois de ti sairá um chefe,
que será o Pastor de Israel, meu povo’».
Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos
e pediu-lhes informações precisas
sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela.
Depois enviou-os a Belém e disse-lhes:
«Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino;
e, quando O encontrardes, avisai-me,
para que também eu vá adorá-l’O».
Ouvido o rei, puseram-se a caminho.
E eis que a estrela que tinham visto no Oriente
seguia à sua frente
e parou sobre o lugar onde estava o Menino.
Ao ver a estrela, sentiram grande alegria.
Entraram na casa,
viram o Menino com Maria, sua Mãe,
e, caindo de joelhos,
prostraram-se e adoraram-n’O.
Depois, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes:
ouro, incenso e mirra.
E, avisados em sonhos
para não voltarem à presença de Herodes,
regressaram à sua terra por outro caminho.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Pensamentos Impensados

Galardões
- Sabes que o arquitecto Niemeyer ganhou um Oscar?
- Como?
- Quando os pais o registaram.

Traduções à letra
The later the best - O leiteiro é uma besta.

Azias
Depois de comer o fruto proibido, Adão realizou que não há almoços grátis.

Quem tem calos não se mete em apertos
Já apertei a mão a Donald Trump, mas não quero que se saiba.

Desafinações
Tocava viola tão mal que parecia estar a violar o instrumento.

Apetites
Caruncho comeu cadeira, alegando que fazia parte da cadeira alimentar.

Doenças crónicas
As Finanças, em Portugal, estão com prognóstico reservado.

Gadgets
- O João comprou um daqueles telemóveis caros.
- Mas ele não pode!
- I POD, POD.

SdB (I)

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