sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Poema dos dias que correm

Toronto, Outubro de 2014


O Album

Minha Júlia, um conselho de amigo;
Deixa em branco este livro gentil:
Uma só das memórias da vida
Vale a pena guardar, entre mil.

E essa n’alma em silêncio gravada
Pelas mãos do mistério há-de ser;
Que não tem língua humana palavras,
Não tem letra que a possa escrever.

Por mais belo e variado que seja
De uma vida o tecido matiz ,
Um só fio da tela bordada,
Um só fio há-de ser o feliz.

Tudo o mais é ilusão, é mentira,
Brilho falso que um tempo seduz,
Que se apaga, que morre, que é nada
Quando o sol verdadeiro reluz.

De que serve guardar monumentos
Dos enganos que a esp’rança forjou?
Vãos reflexos de um sol que tardava
Ou vãs sombras de um sol que passou!

Crê-me, Júlia: mil vezes na vida
Eu coa minha ventura sonhei;
E uma só, dentre tantas, o juro,
Uma só com verdade a encontrei.

Essa entrou-me pela alma tão firme,
Tão segura por dentro a fechou,
Que o passado fugiu da memória,
Do porvir nem desejo ficou.

Toma pois, Júlia bela, o conselho:
Deixa em branco este livro gentil,
Que as memórias da vida são nada,
E uma só se conserva entre mil.

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Pensamentos dos dias que correm

A Coragem da Resignação

A palavra «resignação» não tem boa reputação. Lembra atitude devota, passividade, lágrima ao canto do olho. E todavia, não é isso. Em face dos limites de uma condição, da morte e do nada que vem nela, que outro nome dar à aceitação calma, à fria impassibili­dade? A revolta em tal caso pode falar ao nosso orgulho, à imagem de grandeza que queiramos se tenha de nós. Mas é uma imagem ridícula. Ela responde ainda, não ao reconhecimento do que nos espera, mas a uma notícia recente e não assimilada que disso nos dessem. A coragem não está na atitude espectacular, mas na serena e recolhida e modesta aceitação. Temos assim tendência a julgar herói o que enfrenta a morte com atitudes de grandiosidade, não o que a enfrenta no seu recanto, em silêncio e discrição. Mas o espec­táculo é ainda uma forma de compensar o desastre da morte — é ainda uma forma de uma parcela de nós se recusar a morrer. Quem morre resignado morre todo por inteiro, nada ele assim recusa do que a morte lhe exige. 

Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente 2"

***

A Culpa é Sempre Nossa


Sempre admirei aqueles que nos fazem sentir culpados do que dantes nos julgáramos inocentes. A culpa é uma riqueza, à qual se vai acrescentando. O resultado oscila entre a lista telefónica e as Obras Completas mas pesa sempre. 

Os grandes mestres são os nossos pais e os nossos filhos - ambos mostram de onde veio a inspiração para o pecado original. Ora se é culpado por ter nascido e interrompido, ora se é culpado por ter dado a nascer e não se ter interrompido tanto quanto precisariam os nascidos. A culpa não é uma coisa que se tenha, como um pescoço. É uma coisa que se transmite, como uma gripe. Tanto faz ser-se inocente ou culpado «à partida», que tem aspas porque não existe. Os malvados constipam-se tanto como os bonzinhos. Mas ambos são vulneráveis à ideia que até fizeram por isso e merecem pagar. Até com as lâmpadas de casa de banho acontece. Não há domínio de banalidade que a culpa não contamine. Tenho passado, nos últimos anos, várias semanas, dispersas no tempo, sem luz na casa de banho. Uso pilhas e a luz da lua, quando é oferecida. Depois aparece o electricista que é afoito e resolve tudo num segundo. Não desaparece, contudo, sem bafejar-me primeiro com o ónus da culpa. «Usa muito a casa de banho de noite?», pergunta, como se fosse uma perversão ou uma coisa má. Eu caio na asneira de responder que não. Ele dá-me o olhar culpabilizante: «Andas a cagar muito e a más horas, a ler o Proust...» Santa culpa, que é sempre nossa. 


Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Público (19 Jan 2012)'

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Vai um gin do Peter’s? 

Há gente nova fantástica! Falar em “geração rasca” é das maiores heresias, além de rematado mau gosto. Claro que serve de atenuante, o facto de estar tão desfasada da realidade.

Quantos universitários e recém-licenciados têm aproveitado as férias para ajudar outros da sua idade a sair da espiral de carência em que nasceram. Oferecem, assim, boa parte do tempo de descanso (alguns, um ano sabático) para ser úteis a quem passa fome, dispondo-se a inventar oportunidades capazes de conferir rumo a vidas aparentemente perdidas. 

É neste espírito que a organização «Leigos para o Desenvolvimento» lança, há décadas, programas de voluntariado para a antiga África portuguesa. No início foram os pais. Agora, parte a geração dos filhos. 


Santomeneses e «Leigos» formam equipa para desenvolver S.Tomé, começando pelos mais novos.


Um dos primeiros destinos foi S.Tomé, onde as jazidas de petróleo não conseguiram reverter o estado de subdesenvolvimento extremo em que o país se arrasta. Forrados de imaginação, este ano, um grupo de «Leigos» desencantou uma alternativa para proporcionar à juventude santomense um hobby saudável e exequível, pois mar não lhes falta: o surf. 


Pranchas alinhadas para dar esperança à geração mais nova. A alegria serena da criança de feições redondas e meigas, é o melhor argumento em favor do projecto.


Como tudo o mais escasseia na ilha, a começar por pranchas e equipamento náutico adequado, iniciaram um crowfunding (https://novobancocrowdfunding.ppl.pt/surf-alegre) para aquisição do material necessário à prática daquele desporto. O custo exorbitante do transporte tem inviabilizado os donativos em género, motivo por que são preferidos os contributos financeiros, através do tal crowdfunding, activo até 11 de Setembro. Se, até lá, não forem atingidos os dois mil euros, a campanha fica sem efeito e o dinheiro recolhido será devolvido aos doadores. 


É visível o entusiasmo com o novo brinquedo, que pode ser o motor
de desenvolvimento da economia local. 


Com humor, chamaram à iniciativa «Surf Alegre», jogando com o nome do povoado marítimo que serve de sede ao programa – Porto Alegre – a replicar a toponímia brasileira, talvez por virem desta margem os navios de escravos que povoaram o outro lado do Atlântico… Perguntamo-nos, sem encontrar resposta à altura: porque se acumulou tanto sofrimento naquela pequena ilha africana, fadada para ser um paraíso, pois até a comida nasce nas árvores, pejadas de fruta suculenta? 

De facto, há sítios e vidas que descaem para o torto com demasiada facilidade. Mas, felizmente, que os «Leigos» persistem em tentar quebrar o ciclo da marginalidade. Desta vez, pretendem ajudar os santomenses a apanhar a onda certa, na mais pura acepção, sonhando-a ainda como embrião de uma oferta turística extensível a toda a região. O facto é que não se têm poupado a trabalhos, chegando a montar o primeiro torneio de surf, que querem internacionalizar para atrair campeões de todo o mundo. Depois, uns chamarão outros, convertendo a ilha num chamariz náutico imparável. 


Os efeitos da iniciativa já se fazem sentir, com miúdos a levar
 a sério um desporto recém-descoberto


Se o crowdfunding “borregar”, todo este projecto de realização
pessoal e profissional fica comprometido. 


Tudo planeado ao milímetro, os «Leigos» estão já a desdobrar-se numa multiplicidade de workshops, desde os surfistas, aos logísticos para reparação e reciclagem de pranchas, ginástica preparatória e todo o conjunto de actividades lúdicas em torno do surf, onde a disciplina e o entusiasmo se aprendem com subtileza e muito divertimento. 

Depois da generosidade infinda destes pequenos missionários da actualidade, resta-nos a parte mais fácil: viabilizar um crowdfunding que poderá resgatar a geração mais promissora da ilha de S.Tomé. Compensará inclusive parte do que, ao longo da História, correu mal por aquelas paragens tropicais. Já é um privilégio podermos também apanhar tão boa onda, graças a estudantes «Leigos» inspirados!... 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta-feira)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria

Hoje, mas há 23 anos, baptizava-se na Igreja de Santo António do Estoril uma criança que, estou certo, já nascera consagrada a Nossa Senhora.

JdB

***

Consagração a Nossa Senhora

Ó Senhora minha, ó minha Mãe, eu me ofereço todo a Vós, e em prova da minha devoção para convosco, Vos consagro neste dia e para sempre, os meus olhos, os meus ouvidos, a minha boca, o meu coração e inteiramente todo o meu ser.
E porque assim sou Vosso, ó incomparável Mãe, guardai-me e defendei-me como propriedade vossa.
Lembrai-Vos que Vos pertenço, terna Mãe, Senhora Nossa.
Ah, guardai-me e defendei-me como coisa própria Vossa.


***

EVANGELHO – Lc 1,39-56


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naqueles dias,
Maria pôs-se a caminho
e dirigiu-se apressadamente para a montanha,
em direcção a uma cidade de Judá.
Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel.
Quando Isabel ouviu a saudação de Maria,
o menino exultou-lhe no seio.
Isabel ficou cheia do Espírito Santo
e exclamou em alta voz:
«Bendita és tu entre as mulheres
e bendito é o fruto do teu ventre.
Donde me é dado
que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?
Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos
a voz da tua saudação,
o menino exultou de alegria no meu seio.
Bem-aventurada aquela que acreditou
no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito
da parte do Senhor».
Maria disse então:
«A minha alma glorifica o Senhor
e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador,
porque pôs os olhos na humildade da sua serva:
de hoje em diante me chamarão bem-aventurada
todas as gerações.
O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas:
Santo é o seu nome.
A sua misericórdia se estende de geração em geração
sobre aqueles que O temem.
Manifestou o poder do seu braço
e dispersou os soberbos.
Derrubou os poderosos de seus tronos
e exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bens
e aos ricos despediu de mãos vazias.
Acolheu a Israel, seu servo,
lembrado da sua misericórdia,
como tinha prometido a nossos pais,
a Abraão e à sua descendência para sempre».
Maria ficou junto de Isabel cerca de três meses
e depois regressou a sua casa.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Livros dos dias que correm

A crer como certo o que consta da badana, li o livro com 40 anos de atraso. De facto, se "[n]unca perdendo a actualidade, continua a fascinar o público jovem sendo livro de cabeceira há já várias gerações", está correcto, Siddharta, de Hermann Hesse, chegou às minhas mãos quatro décadas depois do que devia. Não decidi perseguir tardiamente a juventude - isso seria ridículo em mim, muito em particular, que nunca fui jovem e que vive relativamente bem com a sua idade.  Na realidade, o livro foi-me sugerido por via da minha tese de doutoramento. 



Não sei se Siddartha é um livro para o "público jovem". Não sei, sequer, a que faixa etária pertence este público: 16? 18? 25? E são os jovens em 1978 (quando eu tinha vinte anos), ou são os jovens de agora, com todas as diferenças de uma geração para outra? Siddartha fala de despojamento, da pobreza que, por ser opção, não implica dificuldades, da felicidade de viver sem nada a não ser de uma banana por dia e de um rio que diz coisas sábias. 

- Muito bem, E o que tens tu para dar? O que aprendeste, o que sabes fazer?
- Sei pensar. Sei esperar. Sei jejuar.
- Isso é tudo?
- Penso que é tudo.  

Talvez, como no filme e, penso, numa música, a vida esteja ao contrário, e os rios devessem correr do mar, não para ele. Talvez fosse mais proveitoso ler Siddartha aos 20 anos - mas com o entendimento dos 60. Não estou certo do impacto perene da leitura deste livro numa juventude que, muito naturalmente, não sabe o que é despojamento, não sabe o que é querer viver com pouco, porque com muito pouco se pode viver muito bem; uma juventude que não quer prescindir da tecnologia, dos carros, da carreira ou das roupas ou das viagens de puro lazer.

Pensar, esperar, jejuar. Um bom programa, mas um programa difícil, qualquer que seja a idade. 

JdB


domingo, 13 de agosto de 2017

19º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 14,22-33

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Depois de ter saciado a fome à multidão,
Jesus obrigou os discípulos a subir para o barco
e a esperá-l’O na outra margem,
enquanto Ele despedia a multidão.
Logo que a despediu,
subiu a um monte, para orar a sós.
Ao cair da tarde, estava ali sozinho.
O barco ia já no meio do mar,
açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário.
Na quarta vigília da noite,
Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar.
Os discípulos, vendo-O a caminhar sobre o mar,
assustaram-se, pensando que fosse um fantasma.
E gritaram cheios de medo.
Mas logo Jesus lhes dirigiu a palavra, dizendo:
«Tende confiança. Sou Eu. Não temais».
Respondeu-Lhe Pedro: «Se és Tu, Senhor,
manda-me ir ter contigo sobre as águas».
«Vem!» – disse Jesus.
Então, Pedro desceu do barco e caminhou sobre as águas,
para ir ter com Jesus.
Mas, sentindo a violência do vento e começando a afundar-se,
gritou: «Salva-me, Senhor!»
Jesus estendeu-lhe logo a mão e segurou-o.
Depois disse-lhe:
«Homem de pouca fé, porque duvidaste?»
Logo que saíram para o barco, o ventou amainou.
Então, os que estavam no barco prostraram-se diante de Jesus,
e disseram-Lhe:
«Tu és verdadeiramente o Filho de Deus».

sábado, 12 de agosto de 2017

Pensamentos Impensados

No restaurante 
Cliente: Sugira-me uma boa entrada.
Empregado: As portas do Céu, mas aqui não temos.

Desportos
Há um desporto que altera o filismo; não sei o que é, mas pelo sim pelo não não vou praticar.

Pratos tradicionais
Parece-me que o Governo pede dinheiro emprestado para pagar os juros da dívida.
Assim sendo, é como uma pescadinha de rabo na boca; e já sinto a boca no meu rabo.

Anexim
Quem não défice não trémice.

Espertezas
Adão, para pressionar Deus a dar-lhe uma companheira, fez greve de sexo.

Estatísticas
Nos tempos de Adão e Eva o desemprego chegou aos cem por cento.

Nulidades
Os clubes de futebol que empatam é porque têm grande empatia.

Casinhas
Era um apartamento tão pequeno que tinha a classificação de T abaixo de zero.

SdB (I)

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Duas últimas

Conheci a música "No rancho fundo" quando fui ao Brasil pela primeira vez, penso que em 1975, pese embora a música ser mais antiga. Naquela viagem trouxe uma cassette (ainda alguém se lembra do tempo das cassettes?) com músicas de Ary Barroso, um brasileiro responsável por inúmeros sucessos, nomeadamente Aquarela do Brasil.  Desta cassette que me acompanhou durante algum tempo fixei este "No rancho fundo", integrado num medley interpretado pelo Quarteto em Cy. 

Ontem, em casa da minha filha, ela perguntou-me se eu conhecia a música, e apresentou-ma cantada pelo António Zambujo e Miguel Araújo. Gostei muito da versão, mas na minha memória estava a do quarteto brasileiro. Ontem ainda, ao pesquisar os youtubes para aqui postar, encontrei a versão que, dizem alguns internautas, é a melhor: Chitãozinho e Xororó - e só o nome é um tratado a merecer atenção. 

Deixo-vos com as três versões, embora a do Quarteto em Cy - que recomendo muito - integre apenas umas quadras, seguindo para outras músicas que vale a pena ouvir também. 

JdB  

Nota: nunca tinha ouvido a música toda, porque a versão do Quarteto em Cy tem apenas, como referi, uma pequena parte. Há quem ache que a letra fala de uma relação gay. Não sei, acho audacioso dizê-lo só pela escuta dos versos. Talvez haja pela net uma interpretação oficial. Não me interessou.






  

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Textos dos dias que correm

A Idade da Derrota Aceite

Tenho sessenta anos. Não te iludas: não estou ainda bastante fraco para ceder às imaginações do medo, quase tão absurdas como as da esperança e seguramente muito mais penosas. Se fosse preciso enganar-me a mim mesmo, preferia que fosse no sentido da confiança; não perderia mais com isso e sofreria menos. Este fim tão próximo não é necessariamente imediato; deito-me ainda, todas as noites, com a esperança de chegar à manhã seguinte. Adentro dos limites intransponíveis de que te falei há pouco, posso defender a minha posição passo a passo e recuperar mesmo algumas polegadas do terreno perdido. Não deixo por isso de ter chegado à idade em que a vida se torna, para cada homem, uma derrota aceite. Dizer que os meus dias estão contados não significa nada; sempre assim foi; é assim para todos nós. Mas a incerteza do lugar, do tempo e do modo, que nos impede de distinguir bem o fim para o qual avançamos sem cessar, diminui para mim à medida que a minha doença mortal progride. Qualquer pessoa pode morrer de um momento para o outro, mas o doente sabe que passados dez anos já não será vivo. 

A minha margem de hesitação já não se alonga em anos, mas em meses. As minhas probabilidades de acabar com uma punhalada no coração ou por uma queda de cavalo tornam-se cada vez menores; a peste parece improvável, a lepra ou o cancro afiguram-se definitivamente afastados. Já não corro o risco de cair nas fronteiras, atingido por um machado helénico ou trespassado por uma flecha parta; as tempestades não souberam aproveitar as ocasiões que se lhes ofereceram, e o feiticeiro que me predisse que eu não me afogaria parece ter acertado. Morrerei em Tíbure, em Roma ou em Nápoles quando muito, e uma crise de sufocação encarregar-se-á da tarefa. Serei levado pela décima ou pela centésima crise? É essa a única questão. Assim como o viajante que navega entre as ilhas do Arquipélago vê despontar, ao entardecer, uma espécie de névoa luminosa e descobre pouco a pouco a linha da costa, eu começo a avistar o perfil da minha morte. 

Certas fracções da minha vida assemelham-se já a salas desguarnecidas de um palácio demasiadamente vasto que um proprietário empobrecido renuncia a ocupar todo. 

Marguerite Yourcenar, in 'Memórias de Adriano'

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Duas Últimas

Devido a sortilégios informáticos muito além do meu entendimento, consigo perceber, numa determinada aplicação relacionada com música (Spotify para os mais ignorantes da tecnologia moderna) o que uma determinada pessoa, significativamente mais nova do que eu, está a ouvir no momento. Volta e meia, de visita a esta aplicação que ainda não uso com regularidade, percebo o que essa pessoa está a ouvir. Por vezes conheço a música, por vezes conheço a banda ou o cantor, por vezes, como é o caso agora, não conheço nada. Não faço, por isso, a mais pálida ideia de que género de música se trata. A decisão de postar foi, portanto, um enorme tiro no escuro, embora pareça ter identificado alguma coisa pelas imagens estáticas no youtube

Deixo-vos com os Tinariwen em Toumast Tincha. Se quiserem insultar alguém façam-no aqui, que eu reencaminho a indignação para quem de direito.

JdB


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Recordações do dia que passa

O post de hoje é todo feito sob o signo da lembrança: hoje, mas há exactamente nove anos, estava a chegar ao Zimbabwe. E hoje, mas há exactamente nove anos, escrevi dois posts: um subordinado ao título a minha mala é um queijo da serra (que copio mais abaixo) e outro subordinado ao título aniversário, no qual, lá de longe no espaço e no tempo, dava um beijo de parabéns à ETM, uma amiga que nunca me faltou quando precisei e a quem telefonarei ainda hoje. 

Hoje é isto, amanhã não sei...

JdB

***

Na generalidade, penso que todos temos um potencial racismo interior, pronto a eclodir ao menor sinal. Estou em África, pelo que falo em relação aos que cá vivem e aos que de cá são naturais. Um nativo simpático e educado ganha o estatuto de encantador. Ao lado dele, um jovem que comete um erro transforma-se num incompetente que vive num país que não funciona, porque senão tê-lo-ia despedido antes de o contratar. Entre a cristandade que deseja abraçar o seu irmão de côr e a superioridade que pretende defenestrar o mesmo cavalheiro há um nada que mal se vê. Eu conto:

Fui buscar ontem a minha mala ao aeroporto de Harare, 24 horas depois de eu próprio ter chegado. Mantive a higiene mínima graças ao pronto-a-vestir do JdC. Somos amigos há tantos anos que já temos o mesmo tamanho, pouco mais ou menos. Pela manhã afiançaram que a mala já repousava no Zimbabué, o que não se confirmou, após busca aturada. O sr. Simba, verdadeiro leão africano, sugeriu-me que esperasse pelo voo da SAA das 12.20h. O sistema, segundo ele, não falha, e afiançara que a mala saíra de Joanesburgo ainda na 3ª feira. Talvez neste aviãozinho, sugeriu ele. Aguardei, pois. Chegou enfim, passados largos minutos de espera ansiosa, enquanto os meus olhos corropiavam pelo tapete que suporta bagagem de todo o tipo e feitio - desde equipamento para o jogo do polo ao saco de comida para cães.


Estou certo de que em Joanesburgo a minha mala levantou suspeitas. Presumo o farejar de cães, o telefonema enervado para as minas e armadilhas, o contacto com o supervisor de serviço, a dúvida sobre o despoletar da emergência interna. Activou-se o plano B, que consistiu em cortar uma face inteira da minha mala, deixando a descoberto um forro alvo, feito do algodão mais macio. Felizmente não roubaram nada - das meias à máquina fotográfica, passando por um teclado de má qualidade e roupa interior do M&S.

Quando olhei para os despojos da mala que albergava os meus pertences, vi o desinteresse em tempo inútil. Senti-me como um presidente de um clube de futebol que, pagando milhões por um craque, o vê chegar no dia seguinte ao prazo legal com uma rótula flexível como basalto. Acabei por ter uma visão mais gastronómica: a minha mala é um queijo da serra ao qual cortaram uma calote, revelando um amanteigado de salivar.

JdB

PS: li algures, no espaço blogosférico de alguém, que as mulheres almejam sentido de humor nos homens. É isso que querem. Eu, apesar de tudo, tento manter o meu - para os fins mais nobres.

domingo, 6 de agosto de 2017

Transfiguração do Senhor

Evangelho segundo S. Mateus 17, 1-9.

Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os, em particular, a um alto monte e transfigurou-Se diante deles:
o seu rosto ficou resplandecente como o sol,
e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz.
E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele.
Pedro disse a Jesus:
«Senhor, como é bom estarmos aqui!
Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias».
Ainda ele falava, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra, e da nuvem uma voz dizia:
«Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O».
Ao ouvirem estas palavras, os discípulos caíram de rosto por terra e assustaram-se muito.
Então Jesus aproximou-Se e, tocando-os, disse:
«Levantai-vos e não temais».
Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus.
Ao descerem do monte, Jesus deu-lhes esta ordem:
«Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».

sábado, 5 de agosto de 2017

Pensamentos Impensados

Frases bombásticas
Sofia Loren foi uma bomba anatómica.

Classificações
O s mosquitos são insecto-contagiosos.

Só com motor de busca
É mais fácil encontrar o Pokemon que os sítios onde o Marcelo não esteve.

Lembranças
Omar Shariff foi assim baptizado depois da sua mãe ter lido Oh Mar Salgado.

Anexim
Cesteiro que faz um sexto é porque fez um quinto.

Protesto
Caracóis indignados com morticínio propõem-se fazer protesto em marcha lenta.

Justiças
Caim, como bom lavrador, lavrou a sentença de morte do irmão Abel.

A caixinha que mudou o falar
Oiço, na TV, um advogado dizer troca de palavras verbais e físicas.

SdB (I)

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