sexta-feira, 24 de maio de 2019

Textos dos dias que correm

No pântano

«Sentava-se à beira-mar, como uma figura anciã e patética que grita qualquer coisa a uma flotilha de jovens que deslizavam no fatal pântano do mundo: os recursos que diminuem, as liberdades que desaparecem, os anúncios publicitários sem escrúpulos que se adaptam a uma insensata cultura popular feita de música e cerveja, e de jovens mulheres de magreza e forma física impossíveis.»

A impressão desencorajada de um educador ancião que tenta, em vão, comunicar alguns valores aos jovens, que, em vez disso, são atraídos pela música, cerveja e namoradas, todos nós, adultos, pais, professores ou sacerdotes, a experimentamos de alguma maneira.

Representa-a com amargura um dos mais conhecidos escritores americanos contemporâneos, John Updike, falecido em 2009, no seu romance de título emblemático “O terrorista”.

A tentação de sentir-se totalmente inútil e até ridículo, é sustentada por outra consideração pessimista do escritor sobre a história, vista como «uma máquina que tritura perpetuamente a humanidade, dela fazendo pó».

É verdade que muitas vezes para o qual os jovens deslizam, feito de álcool, droga, sexo, vazio ensurdecedor, é uma realidade que aperta o coração e faz extinguir dos lábios as palavras de advertência e sensatez.

No entanto, não se deve ceder à resignação por duas razões. A primeira liga-se ao facto de que, como dizia Pascal, «o homem supera infinitamente o homem», e pode, portanto, ter sempre em si uma centelha de salvação, uma semente de redenção, uma secreta capacidade de não sucumbir.

O outro motivo de esperança está também na multidão de jovens que se dedica ao voluntariado, que tem em si uma forte carga de paixão, de criatividade e de vida: são muitas vezes eles que infundem confiança e esperança a nós, adultos e anciãos.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 22.05.2019

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Crónicas de Praga


Emily, francesa, tinha 5 anos quando lhe foi diagnosticada uma leucemia. Foi tratada (talvez transplante, já não sei bem) mas, aos 10 anos, surgiram complicações. Os dois ou três anos seguintes foram dramáticos, tendo sido dada como (quase) perdida. Foi submetida a um tratamento inovador e, poucos meses depois, estava na escola. Poucos anos depois subia a uma montanha com 3.000 metros, empunhando uma bandeira onde se podia ler: "a chacun son Everest". 

Desde 2009, talvez (e a nível internacional, porque a nível nacional já levo mais tempo) que vou assistindo aos "everests" de muita gente: gente que sobe, gente que fraqueja, gente que parte na caminhada. Acho sempre - e repito-o muito, porque me esqueço - que estes "everests" me devem ficar na memória, para relativizar as minhas montanhas aparentemente tão grandes. Grande é o "everest" de Emily e o de muitas outras pessoas como ela; as nossas montanhas, por mais altas que nos pareçam, são sempre coisinhas poucas.


Ver gente a dançar em Praga (oncologistas pediátricos, investigadores, pais, membros de associações, sobreviventes - de todos os cantos da Europa) é o mesmo que ver gente a dançar na Quinta do Lago ou num casamento de gente rica de Lisboa: são as mulheres que mais dançam, que se agitam freneticamente até ao limite. Mas em todos - mulheres, mas também homens - há um denominador muito comum: a dança como manifestação primitiva de expulsão de demónios, de toxinas, de cansaços. Há gente que dança bem, há gente que dança sem ritmo ao som de uma música que não ouviria em casa. Talvez seja a reacção a um dia de trabalhos em que se fala de cancro em crianças, de taxas de sobrevivência, de remédios que tiram as dores e que não são dados universalmente nesta Europa dos direitos dos animais, das não ofensas ao Islão, das ideologias de género. Eu sei que isto é uma grande misturada, mas o estabelecimento é meu. E sim, dancei, com gente da minha idade - uma espanhola e uma holandesa.


Estar em Praga é voltar a um sítio bonito, que continua a encantar-me. Estar em Praga é conviver com tudo: com a gargalhada, com o encontro de amigos, com a gente que se conhece, com a estatística que ofende, com a quantidade de pessoas que, podendo embelezar cirurgicamente o corpo de mulheres já de si bonitas, optam por tratar o cancro em crianças, ou com pessoas que foram afectadas por isto - pais ou sobreviventes - e que fazem disto uma (quase) cruzada.

JdB 

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Vai um gin do Peter’s ?

CONVENTOS LISBOETAS DE PORTAS ABERTAS A 24 E 25 de MAIO

A iniciativa chama-se OPEN CONVENTOS e foi organizada pelo Patriarcado para o público conhecer espaços inacessíveis, que vão estar abertos Sexta e Sábado. Também haverá visitas guiadas, por inscrição (dados no final).

Talvez seja menos conhecida a quantidade imensa de monumentos que integram o património conventual, porque Lisboa era uma cidade repleta de conventos e mosteiros, muitos deles confiscados, outros cedidos, outros vendidos após a extinção das Ordens religiosas. Neste roteiro cultural está, por exemplo, o antigo convento de S.Bento, actual sede da Assembleia da República. A maioria está ocupada por serviços ligados ao Estado, nem tudo em bom estado de conservação, apesar dos esforços que têm sido feitos.

Conventos de S. Bento da Saúde e das Francesinhas, c. 1854, aguarela de Jan Lewicki. O Palácio de São Bento tem origem no primeiro mosteiro beneditino de Lisboa (1572), ocupando várias quintas, sendo uma de Antão Martines, onde se situara a Casa de Saúde para acolhimento dos pestíferos atingidos pelo surto de 1569. O mosteiro no século XIX passaria a ser o Hospital Militar da Estrela. (site da A.R.)

Perspetiva do Mosteiro de São Bento da Saúde (pormenor), cópia anónima do projeto de Baltasar Álvares, c. 1730-1750, FBAUP.

O noticiário da Pastoral da Cultura explica o programa, que abrange só uma parcela dos antigos conventos de Lisboa.

«O que têm em comum a Assembleia da República, o Museu Nacional de Arte Antiga, a Cúria Patriarcal ou os Armazéns do Chiado? Todos já foram conventos ou mosteiros. Lisboa é pontuada por edifícios que outrora foram casas de comunidades religiosas, cada uma com os seus fins – a oração, o acolhimento, a educação –, e que hoje cumprem propósitos bem diferentes. A iniciativa “Open Conventos” (…) convida o público a conhecer gratuitamente «os lugares e a memória desses edifícios», com a orientação de especialistas ou em regime de visita livre.

[ABERTURA – 23 de Maio – 18H00 -  Igreja de S. Vicente de Fora]
 - Concerto de órgão, por Sérgio Silva. 
[18H30] - Painel “O que fazer com os Conventos de Lisboa?”. Participam Catarina Vaz Pinto, vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, Raquel Henriques da Silva, da Universidade Nova de Lisboa, P. António Pedro Boto, da Direção Cultural do Patriarcado de Lisboa, Margarida Montenegro, diretora da Cultura da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e João Carlos Santos, subdiretor-geral da Direção Geral do Património Cultural.

[MONUMENTOS ABERTOS E
 ITINERÁRIO DAS VISITAS GUIADAS, QUE REQUEREM INSCRIÇÃO COMO INDICADO NO FINAL
  
  SEXTA- 10hH00]
O primeiro itinerário, pelo bairro da Madragoa, começa na sexta-feira, às 10h00, guiado por Hélia Silva, e contempla o convento de Nossa Senhora da Soledade (Convento das Trinas / Instituto Hidrográfico), mosteiro de Nossa Senhora da Nazaré de Lisboa (Convento das Bernardas / Museu da Marioneta) e mosteiro de Santa Brígida (ISEG).

“Os conventos da Pampulha” é a proposta para as 14h15, com Augusto Moutinho Borges, num percurso que passa pelos conventos de S. Francisco de Paula (Igreja de São Francisco de Paula), S. João de Deus (Convento da Pampulha / Centro Clínico da GNR), Santo Alberto (Capela das Albertas / Museu Nacional de Arte Antiga) e Nossa Senhora dos Remédios (Convento dos Marianos / Igreja Evangélica Lusitana).

No mesmo dia estão disponíveis visitas guiadas por Sofia Rodrigues e Sandra Costa Saldanha ao convento de Nossa Senhora do Bom Sucesso (Colégio de Nossa Senhora do Bom Sucesso (10h00 e 18h00), ao mosteiro de São Bento da Saúde (Assembleia da República) (10h00 e 15h00) e ao convento de Nossa Senhora de Jesus (Academia das Ciências e Museu Geológico), guiada pelo P. António Boto e Hélia Silva

[SÁBADO- 10hH00]
Também no sábado, das 10h00 às 18h00, há visitas livres (exceto nos horários das celebrações litúrgicas) nos mosteiros de Nossa Senhora da Nazaré de Lisboa (convento das Bernardas), Santíssimo Sacramento de Lisboa (igreja de Santa Catarina) e S. Vicente de Fora.

Estão também abertos os conventos de S. Francisco de Paula (igreja de São Francisco de Paula), Nossa Senhora de Jesus (igreja das Mercês), Nossa Senhora da Conceição dos Cardaes, S. Pedro de Alcântara, Nossa Senhora da Graça (igreja da Graça) e Madre de Deus (museu do azulejo), bem como na casa professa de S. Roque (igreja e museu de São Roque).

No sábado, 25 de maio, Pedro Rocha orienta, a partir das 10h00, o itinerário pelos conventos do Bairro Alto, com visitas ao mosteiro do Santíssimo Sacramento de Lisboa (igreja de Santa Catarina), casa professa de S. Roque (museu de São Roque), convento de S. Pedro de Alcântara e convento de Nossa Senhora da Conceição dos Cardaes.

À mesma hora começa o itinerário pelos conventos do Chiado, conduzido por Raquel Henriques da Silva, que prevê paragens nos conventos da Santíssima Trindade – exterior (Cervejaria Trindade), Nossa Senhora do Carmo (museu arqueológico do Carmo e quartel do Carmo), Espírito Santo – exterior (Armazéns do Chiado) e  S.Francisco da Cidade (quarteirão da Academia de Belas Artes).


Gravura de J. Novaes Jr (início do séc. XX) : A "Academia de Belas-Artes e Biblioteca Pública" no "Convento de S. Francisco de Lisboa"

Maqueta em 3D do "Convento de S. Francisco de Lisboa" e "Igreja dos Mártires", antes do terramoto de 1755.

Os conventos de Sant’Ana estão no centro do itinerário marcado para as 15h00, com Ricardo Máximo, e passagem pelo colégio de Santo Antão-o-Novo (hospital de São José), bem como pelos conventos de Nossa Senhora da Encarnação e de S. Domingos (igreja de S. Domingos).

Igualmente no sábado realizam-se, às 10h00, visitas guiadas ao mosteiro de S. Vicente de Fora (P. Bruno Machado) e convento de S. Francisco da Cidade (Fernando António Baptista Pereira).

Às 10h00 e 15h00 estão disponíveis para visita guiada os conventos de Nossa Senhora da Conceição do Monte Olivete – Convento do Grilo Isabel Guedes), Santos-o-Novo (Paulo Santos Costa), Madre de Deus (museu do azulejo) (Dora Fernandes), S. Pedro de Alcântara (Ricardo Máximo) e casa professa de S.Roque (museu de São Roque) (João Simões).

Às 15h00 é possível ainda ser guiado pelos convento de Nossa Senhora da Graça (Margarida Elias) e às 17h00 pelo convento de Nossa Senhora do Bom Sucesso (colégio de Nossa Senhora do Bom Sucesso) (Raquel Henriques da Silva).

Em regime de visita livre (10h00-18h00) podem ser (re)descobertos os mosteiros de Nossa Senhora da Nazaré de Lisboa (Convento das Bernardas), do Santíssimo Sacramento de Lisboa (igreja de Santa Catarina) e S. Vicente de Fora.

Azulejaria no Mosteiro de S. Vicente de Fora
No mesmo horário abrem as portas os conventos de S. Francisco de Paula (igreja de São Francisco de Paula), Nossa Senhora de Jesus (igreja das Mercês), Nossa Senhora da Conceição dos Cardaes, S. Pedro de Alcântara e Madre de Deus (museu do azulejo), a par da casa professa de S. Roque (igreja e museu de S. Roque).

Igreja do Convento de Jesus

 [INSCRIÇÃO]
A participação nos itinerários e visitas guiadas está sujeita a inscrição prévia, e só se realiza com um mínimo de 10 participantes e máximo de 30. As marcações e pedidos de informação devem ser dirigidas ao Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, através dos telefones 213 240 869 / 67 / 87.»


Sexta e Sábado, não faltarão oportunidades para redescobrir uma Lisboa mais secreta, desde que haja agenda para alinhar nas boas sugestões.


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

terça-feira, 21 de maio de 2019

Em Praga

Praga 2019, Centro de Congressos

Há locais que repito com um intervalo de muitos anos. Estive pela primeira vez em Praga em 1982, talvez; regressei em 2002 ou 2003, e aqui estou de novo. Fui a primeira vez em lazer, a segunda em serviço profissional, a terceira no âmbito do meu voluntariado internacional. 

Cheguei a Praga pela primeira vez de carro, vindo de Viena. Vigorava o regime comunista e eu passara por Paris, Viena, Munique, Salzburgo e Budapeste. A minha frase foi imediata: Praga é a cidade mais bonita do mundo. Em 2002, com outras paragens acrescidas ao meu cardápio, voltei a dizer a mesma coisa. Praga é menos impressionante do que Paris; talvez seja menos imperial do que Viena e não tem a beleza do Danúbio (pujante como só ali) a separar Buda e Peste. No entanto, a beleza da cidade advém-lhe do equilíbrio. 

Com uma vida muito ocupada com reuniões, não terei possibilidade de andar a pé pela cidade. Resta-me tentar, hoje ainda, ir à ponta Károly (ou Carlos ou Charles), porque é das coisas bonitas para ver nesta capital.

***

Apanho um Uber do aeroporto para o Hotel. O diálogo inicial é este (quase ipsis verbis):

Ele: how are you, man?
Eu: very good, and yourself?
Ele: not good; I broke up with my girlfriend.
Eu (muito estúpido): did you brake with her or did she brake with you?
Ele: she broke with me. 
Ele ainda: you know, man, she's always complaining. I don't know what she wants.
Eu (muito estúpido, ainda): That's what Freud said 100 years ago: you never know what women want. 
Ele: I specifically told her not to do anything in the next 3 weeks, I have to be focussed for my finals. After that she could do anything...

Gosto da Uber. Sei o que vou pagar, é gente simpática e educada. Por vezes (e aconteceu uma vez em Washington com um motorista que ouvia Santana na telefonia) interajo mais proximamente com eles. Desta vez coube-me, não música, mas um romance tristemente acabado entre um georgiano e uma russa que detesta Putin. Pior ainda, não tenho um telefone para lhe perguntar se tudo se compôs... 

JdB

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Textos dos dias que correm

O amor visto

A grande aventura cristã não é uma aventura ideológica. Os discípulos não tinham grande coisa a dizer. Imaginemos Pedro: que tinha ele a dizer, aquele pescador do lago de Tiberíades, aos atenienses, que de filosofia sabiam muito mais que ele?

Que tinha ele a dizer aos mestres judaicos que tinham escrutinado os vários sentidos da Bíblia mil vezes mais do que ele? O que tinha a propor aos romanos, que haviam criado o direito e eram uma civilização altamente sofisticada?

Pedro não levava no seu alforge nenhum tratado estimulante para o pensamento, nenhuma descoberta técnica ou teórica. A única coisa que Pedro levava consigo era Jesus, a experiência de Jesus, a sua Boa Nova pascal e o seu mandamento: «Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei».

É esta a verdadeira novidade que Pedro e a sua barca que é a Igreja guardam ao longo da história. Testemunhar que a medida do nosso amor, o modelo do nosso amor, pode ser o próprio Cristo.

E que somos chamados a amar como Ele amou, com aquela disposição, com aquela gratuidade, com aquela capacidade de ser dom até ao fim. A grande força da identidade cristã radica-se sempre aqui.

Aquilo que vemos de extraordinário no cristianismo das origens é como ele não deixa indiferente as multidões, que comentam: «Vede como se amam».


D. José Tolentino Mendonça
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 19.05.2019

domingo, 19 de maio de 2019

V Domingo da Páscoa

EVANGELHO – Jo 13,31-33a.34-35

Quando Judas saiu do cenáculo, disse Jesus aos seus discípulos:
«Agora foi glorificado o Filho do homem
e Deus glorificado n’Ele.
Se Deus foi glorificado n’Ele,
Deus também O glorificará em Si mesmo e glorificá-l’O-á sem demora.
Meus filhos, é por pouco tempo que ainda estou convosco. Dou-vos um mandamento novo:
que vos ameis uns aos outros. Como Eu vos amei,
amai-vos também uns aos outros.
Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos:
se vos amardes uns aos outros».

sábado, 18 de maio de 2019

Duas Últimas

Alguém me perguntava ontem: conhece uma cantora...? Não conhecia o nome, nunca ouvira falar, menos ainda conhecia uma única música da dita cantora. Ainda agora não conheço: ponho um youtube dela como quem vai a um blind date - sabe-se lá o que nos sai na rifa? Uma beleza, um estafermo, uma perspectiva de futuro, uma surpresa... Nada sei, mas deixo-voms com Eva Ayllón - não sei quem é, de onde vem para onde vai, como beija, como canta, se gosta de ceviche ou se masca folhas de coca.

JdB


sexta-feira, 17 de maio de 2019

Do ciúme

Refiro-me ao texto que postei há uns dias sobre o Ciúme, da autoria de Alfredo Castelino Carvalho. Em condições normais o texto ali ficaria, premiado ou criticado por um eventual comentário. Não conheço o autor em questão, e normalmente não me pronuncio sobre textos de outrem que aqui publico porque me suscitam um interesse qualquer. No entanto, o texto foi comentado por alguém que dele discordava. Ora, eu discordo da discórdia e, por isso, quebro a tradição, comentando um tema sobre o qual alguém escreveu.

***

Se é verdade que o ciúme não é o oposto do amor, também é verdade que, numa moeda, a cara não é o oposto da coroa. Ambas têm uma função complementar, que é a de constituir um objecto que foi criado para a transacção comercial - a moeda. Podia a cara viver sem a coroa? Sim, mas não seria a mesma coisa.

Por outro lado, o ciúme não é a posse de alguém, mas a posse do sentimento de alguém. Eu não detenho a posse do corpo de quem vive comigo, mas desejo ter a posse do sentimento de quem vive comigo, ter uma espécie de exclusividade daquele afecto específico, porque noutros afectos (materna / paternal / outros) o coração não me pertence. O ciúme é, por isso, a angústia da perda de um sentimento, não (ou nem sempre) a angústia da perda de alguém. 

Amar-se alguém é uma manifestação muito grande de fragilidade, porque é uma manifestação muito grande da nossa dimensão humana. Só o ser humano ama, e o amor que sente por outrem é o reconhecimento que não domina tudo, que não sabe tudo, que não pode tudo; por isso se une (ou  quer unir) àquela pessoa, para que ela o complete, o aconselhe, o ajude a ser melhor. Amar é relacional e a dimensão relacional encerra, em si, a fragilidade inerente à vida conjunta de duas pessoas que estão lado a lado, não uma atrás da outra. O amor por alguém é a afirmação mais cabal da auto-insuficiência do ser humano, porque é a assunção de que sozinhos não se consegue tudo. Se amar é dar a vida e a alma a outro, se amar é querer isso também para si, só pode amar na plenitude quem está disposto a abdicar de algo que é seu, que o constitui e que o define. Ao fazê-lo, confia, entrega-se, depende.  

O ciúme, por ser outra face (e talvez não a outra face) do amor, tem a sua dose de fragilidade, porque representa o medo da perda, a angústia da perda. Sentir ciúme é uma dupla fragilidade: a fragilidade da perda (ou da possibilidade de) relativamente à fragilidade do afecto. O ciúme evidencia a limitação do domínio: se há possibilidade de perda é que porque não se domina o objecto amado, ele tem uma liberdade que nos foi confiada, mas não entregue; O ciúme "saudável" evidencia o sentimento do amor. O ciumento não diz "quero-te" mas diz "quero o teu amor". Ora, se esse amor não é nosso por direito, temos de lutar por ele, fazermo-nos merecedores dele, desejá-lo. É por isso que amor e ciúme caminham de braço dado. 

O amor não é dependência nem independência; o amor é inter-dependência; o ciúme é o horror à perda dessa inter-dependência. O amor, no fundo, não é para todos, apenas para os que são suficientemente fortes para perceber a sua fragilidade.

JdB

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Textos dos dias que correm

O tesouro

«Cuida do tesouro que Deus te enviou. Lentamente ele escorrega entre os dedos, e já não o voltas a ver, até que tenhas de responder como o preservaste.»

Foi definido como «a consciência crítica» da sociedade escandinava: Per Olov Enquist, 84 anos, é o maior escritor sueco vivo. Ao ler o seu romance documental “A viagem de Lewi”, história do fundador do movimento pentecostal sueco, Lewi Pethrus, do seu triunfo e do seu declínio, deparei-me com esta poesia espiritual. Ela, apesar da sua simplicidade, merece atenção.

Todos nós – mesmo quem se sente falhado, incapaz, desafortunado na vida – recebemos um pequeno tesouro. E aqui vem à mente a parábola dos talentos, que é quase a fonte temática deste canto.

Não importa se o tesouro vale muito ou pouco; o importante é não o deixar fugir pelos dedos, dissipando-o, ou escondê-lo debaixo da terra, na ilusão de que é suficiente deixá-lo intacto.

Sim, porque o tesouro que Deus nos confia, na realidade não é uma gélida pedra preciosa, mas uma semente viva destinada a frutificar, é uma energia vital que deve operar, é uma luz pronta a irradiar-se.

A frase final é sombria, como o é a parábola de Jesus: no termo da vida, terás de responder pela tua inércia ou pela tua mesquinhez temerosa.

A humanidade é, assim, como um mosaico: cada tessela – ainda que seja só um pequeno quadrado colorido – é necessária para que a obra não fique esburacada e lacerada, mas um desenho completo e harmonioso.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 15.05.2019

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Duas Últimas

O meu dia de ontem amanheceu com o seguinte subtítulo no pequeno ecrã do telemóvel: Antiga estrela de Hollywood morreu aos 97 anos, vítima de pneumonia. Atriz ficou famosa pela parceria no ecrã com Rock Hudson e pelo êxito musical "Que Sera, Sera". Morrera Doris Day.

A notícia não tem, em si, nada de extraordinário nem profundamente impactante. Não era rapariga nova e não povoara - pelo menos até ao mítico ano de 2008 - o meu imaginário. Tudo mudou nesse ano quando, no também mítico restaurante Pointe, em Harare, eu me iniciei no karaoke, cantado che sera sera. Num movimento que tem mais de nostalgia do que de vaidade, deixo-vos o link para a crónica desse fantástico dia. E deixo-vos com a actriz porque, como digo na crónica, percebi, aos 50 anos, que quem habita o meu canto esmagado de entertainer se chama Doris Day… 

JdB

terça-feira, 14 de maio de 2019

Textos dos dias que correm

O ciúme

Do ciúme se disse muito. Dele falaram médicos da mente ou dos comportamentos humanos gregários, sobre ele escreveram historiadores de agremiações e dos povos, poetas eruditos ou de cariz mais popular que compensavam em criatividade repentista o que lhes faltava em sensibilidade profunda; do ciúme cantou gente das mais díspares proveniências, acompanhados a orquestra ou à guitarra. Do ciúme tudo se disse: a doença que requer tratamento, o excesso e a violência decorrente, a infelicidade de todos. Fala-se de ciúme como se fala de preguiça, de luxúria ou de inveja; o que suscita o texto, o pequeno ensaio, a dissertação académica, ou até mesmo uma sextilha, são a existência da característica. A inversa - a ausência de preguiça, de luxúria ou de inveja - não fazem parte, ingenuamente, do repertório médico, mas da vida de santos. Nesse mesmo sentido, a ausência do ciúme não é cantado no Fado Menor do Porto ou na ária lírica. Aparentemente a virtude não vende, não entretém, não desafia o pensamento.

Ora, estas linhas de um fado

tu não me digas 
que já não sentes ciúme 
que já se apagou o lume 
que aquecia o nosso amor 

só confirmam o raciocínio supra. Com efeito - e numa primeira análise - o advérbio  remete o acontecimento de ausência de ciúme, não para uma vida de virtude celeste, mas para uma questão temporal. Houve algo que desapareceu, como uma peça de fruta de um cesto: já não há pêssegos? Houve pêssegos e houve ciúme; deixou de haver e, nesse sentido o poeta é suscitado: o desaparecimento é diferente da nunca existência, pese embora a conclusão final ser a mesma: não há.

A inexistência de ciúme (que difere do desaparecimento do ciúme como combustível de um afecto) não tem sido tratada pelos especialistas com a devida atenção. Na verdade, alguém dizer o pecado da luxúria não me assiste, não é o mesmo que alguém dizer o ciúme não me assiste. Podemos não ser invadidos pelo pecado referido porque seremos por outro; em bom rigor, não é crível, nem humanamente justo, que um ser humano sinto em si todos os pecados mortais, embora sejam apenas cinco. Se não sente luxúria sente a inveja, se não sente a inveja sente o orgulho. Porém, se não sentir ciúme sente o quê? A ausência de ciúme não configura virtude, mas indiferença; do outro lado de uma moeda não pode haver apenas uma face polida que convida ao narcisismo.

Os versos reproduzidos supra enfermam de uma possível fragilidade: o advérbio não foi ali prantado para identificar um antes e um depois, mas para compor uma métrica - o corresponde, embora no início, à sétima sílaba métrica. Em não estando lá, o fadista fica com um excesso de ar na cavidade bocal, seria possuído por um volume excessivo sem nada que o ocupasse. O advérbio tem, portanto, uma valência utilitária, não explicativa.

O ciúme e o amor são duas faces da mesma moeda; não ter um é não ter o outro. É por isso que à afirmação o ciúme não me assiste se deve reagir com uma prudência de investigador, como se estivéssemos defronte de um animal raro, ou de uma tribo perdida na floresta que adora a barata e a quem a cabra repugna, pela configuração das orelhas. O ciúme é a demonstração da normalidade humana, aquela normalidade que se inquieta, que tem medo do escuro ou do mar alteroso, do inimigo que se esconde atrás de uma porta ou numa esplanada com vista para o mar, que encontra na vida, não uma sucessão de feitos heróicos, mas uma correnteza de incertezas, de sensações de efemeridade contra as quais tem de lutar.

Alfredo Castelino Carvalho, in 'Fragmentos'

segunda-feira, 13 de maio de 2019

13 de Maio



A luz de Fátima

Naquele 13 de maio, num recôndito canto da serra, três crianças portuguesas estavam a rezar o terço pelos soldados idos para a guerra. Surpreende-os um inesperado lampejar no céu azul, primeiro um clarão e depois outro. Quando erguem os olhos, veem sobre uma azinheira uma Senhora mais resplandecente que o Sol.

Não devemos esquecer que é no cenário de um mundo desumanizado, que consuma o grosso dos seus esforços na fabricação da morte, que se faz ouvir a mensagem de Fátima.

De um lado temos a primeira guerra mundial e a química da história. Do outro temos a visão que três pobres crianças têm de um coração ameaçado, apertado por espinhos, mas com a promessa de que sairá vencedor: «No fim, o meu Coração Imaculado triunfará».

O que nos sugere Fátima? A mensagem é essencial mas penetrante: comprometer-se na transformação orante da morfologia do mundo; assumir um modo de viver alternativo às formas injustas e sem esperança do presente; reconhecer a centralidade do coração, do Coração Imaculado, como modelo para uma reencontrada ética da relação e do cuidado.

Fátima, este imenso delta em que vem desaguar a humanidade ferida e à procura, ensina-nos assim como se ilumina um mundo mergulhado nas trevas.


D. José Tolentino Mendonça
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado pelo SNPC em 12.05.2019

domingo, 12 de maio de 2019

IV Domingo da Páscoa

EVANGELHO – Jo 10,27-30

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, disse Jesus:
«As minhas ovelhas escutam a minha voz.
Eu conheço as minhas ovelhas e elas seguem-Me.
Eu dou-lhes a vida eterna e nunca hão-de perecer
e ninguém as arrebatará da minha mão.
Meu Pai, que Mas deu, é maior do que todos
e ninguém pode arrebatar nada da mão do Pai.
Eu e o Pai somos um só».

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Pensamentos Impensados *

Dependências
Durante um tempo não tive acesso à Internet; em compensação tive um acesso de fúria.

Toca e foge
Diz-se que o homem é o único animal que ri; o mosquito que nos pica e desaparece, fica a rir-se de nós.

Mais vale prevenir
Irei ao médico para que me dê qualquer coisa antes que me dê qualquer coisa.

Injustiças
Se os gatos têm dentes caninos, por que é que os cães não têm dentes felinos?

Novo acordo, esse aborto
Dantes escrevia-se de facto e de direito e eu sabia o que queria dizer; agora escreve-se de fato e de direito e a única coisa que me ocorre é que o fato não está do avesso.

SdB (I)

* publicado originalmente em 22.09.2012

Duas Últimas

Enviado ontem por mão muito amiga - e não só a mão foi e é amiga, como foi providencial. Afinal, o dia tinha-se acabado, e eu, cansado com uma overdose (boa) de S. Tomás de Aquino (por motivos profissionais), sem qualquer inspiração, não sabia o que por. Eis se não quando aparece a Marisa Monte e a Sophia de Mello Breyner de mãos dadas, enviada por uma muito recente mãe. E aqui está...

JdB

***


O espírito da vida estremeceu quando 
No escuro percebi que eras tu, Maria, 
A minha filha adorada, boa como o pão
e fonte de alegria
(ilegível)

Pareceu-me que era felicidade a mais ficares
Até altas horas decifrando o azul escuro 
Dos rostos da noite e era para mim a inteira
Maria, bela, misteriosa, boa

E tudo em mim ficou confiança e amor partilhado 
E Deus tinha derramado sobre nós
A benção da sua mais alta estrela
E a beleza da noite nos acompanha
Hoje onze de Agosto 
E a noite parecia encantada



quinta-feira, 9 de maio de 2019

Textos dos dias que correm

Dez regras para a vida, de Jean Vanier

1. Aceita a realidade do teu corpo
Para que um homem se torne homem, deve estar confortável com o seu corpo. Um corpo é frágil, como todos os corpos. Nascemos na fragilidade, como bebés, morremos na fragilidade. E quando se chega a uma certa idade… 90 anos! [estas palavras foram proferidas por ocasião desse aniversário], começamos a tornar-nos mais frágeis; esquecemo-nos do que queremos dizer, esqueço as palavras; estou mais frágil, tenho de fazer uma sesta após o almoço, tenho de ir andar, porque se não ando, dizem-me: «Se não os utilizas, perde-los. Tenho de aceitar que tenho 90 anos, já não tenho 50 ou 40 ou 30. Não posso fazer tudo aquilo que gostaria de fazer. Mas descubro que é bom ser eu mesmo, hoje.

2. Fala das tuas emoções e dificuldades
Os homens têm dificuldade em exprimir as suas emoções. A maior dificuldade com os homens é que quando estão contrariados, depressa se encolerizam, e a cólera depressa pode tornar-se violência. Se têm períodos de solidão, ou sentimentos de não ter sucesso, os homens podem rapidamente compensar isso com um pouco mais de álcool, um pouco de droga, porque a realidade é difícil. Os homens têm dificuldades com a realidade. Os homens são maravilhosos na ideologia, na ideologia da normalidade. Podem desligar-se da realidade. E “ser humano” é “amar a realidade”.

3. Não tenhas medo de não ter sucesso
Os homens têm muito rapidamente a tendência para julgar, porque a necessidade de ganhar é muito profunda. Não digo que as mulheres não tenham necessidade de ter sucesso, mas há esta inclinação. Nos homens é uma questão de poder, de sucesso, e um grande medo, um dos maiores medos é o de não ter sucesso. E, portanto, o medo da doença, medo da fragilidade, medo de não ter sucesso, porque há esta equação: «Serei amado se tiver sucesso». Mas eles têm de descobrir: «Tu és belo como és».

4. Numa relação, reserva tempo para perguntar: «Como estás?»
O amor está ligado à fragilidade. Muitas vezes, os homens não veem a tirania da normalidade, enquanto que a mulher tem uma inteligência maior e vê as coisas, mas os homens podem ser apanhados… Eis um dos maiores problemas do homem: será que ele se casou com o seu sucesso no trabalho, ou casou-se com a sua mulher? O que é mais importante: subir a escala das promoções? - «vê, acabei de ter um aumento de salário! Tenho de viajar mais». Mas ele nem sempre reserva tempo para perguntar «como estás?»; «de que é que precisas?». Ele tem de amar a sua mulher na sua diferença: a sua afetividade, a sua sexualidade… Ela é diferente. Aceitar as pessoas como são.

5. Para de olhar para o teu telemóvel. Sê presente!
Estamos num mundo onde as ideias flutuam, e em que estamos mais controlados pela televisão e internet, e mais controlados pelo telemóvel. Por exemplo, eu recebi aqui [casa de repouso] cinco jovens, e todos tinham os seus telemóveis no bolso. E eu disse-lhes: «Vós sois pessoas de comunicação. Sois pessoas presentes? Sois capazes de escutar? Sois capazes “de estar com”?». Há toda uma visão com as novidades tecnológicas – que são fantásticas! –, mas como todas as tecnologias podem-nos conduzir ao extraordinário. E a interioridade, a reflexão, a presença aos outros, diminui.

6. Pergunta às pessoas: «Qual é a tua história?»
Ser humano é saber como estar em relação. E estar em relação é: «Conta-me a tua história». Vou contar-vos a história de uma responsável na Austrália que trabalhava junto de pessoas no meio da prostituição, para as ajudar a sair dela. Um dia ela estava num parque, em Sydney, e havia um jovem prestes a morrer de overdose. E as suas últimas palavras foram: «Tu quiseste sempre mudar-me, nunca me quiseste encontrar». Porque encontrar é escutar. «Conta-me a tua história, diz-me onde está a tua ferida, diz-me onde está o teu coração, as coisas que desejas». Por isso, quem é humano é alguém que sabe como encontrar-se com os outros, como trabalhar com os outros, como amar os outros, como ver que tu tens dons que eu não tenho! Eu tenho dons, claro, claro! Tenho dons. Sei coisas, tenho experiência, tenho 90 anos de experiência. Mas tu também. Tu viveste experiências. Tu tens diferenças. Por isso preciso de te escutar. Porque a tua história é diferente da minha história.

7. Sê consciente da tua própria história
Tu és tu! E eu sou eu. Tu és precioso. Tens as tuas ideias, políticas, religiosas, não religiosas… Tens a tua visão do mundo, ou só a tua visão para ti mesmo. Mas eu também. A minha educação. Porque é que eu de repente me zango tão depressa por alguém me contradizer? Temos um temperamento, temos mesmo algo mais profundo do que isso, que é o inconsciente. Por isso, quando falo da necessidade de ser mais humilde, estar mais à escuta, isso deve-se à minha história. Os primeiros anos da infância marcam-nos. Por isso tenho de compreender o meu temperamento. Isso pode ajudar-me a compreender por que é tu estás sempre a falar, enquanto que eu permaneço em silêncio. Porque é que alguns estão sempre prestes a escapar-se na sua cabeça e não se ligam facilmente à realidade; gostam de pensar em coisas, mais do que estar em contacto com a realidade. Não é apenas algo que controlemos pela nossa vontade. Há o nosso inconsciente que devemos aprender a conhecer. Temos de descobrir onde estão os nossos medos, qual é o nosso maior medo. Porque esse é o problema fundamental. Talvez na tua história haja uma história de medo…

8. Detém os preconceitos: encontra-te com as pessoas
Nós somos apanhados na tirania da cultura, que é a minha cultura, o meu grupo, a minha religião, o meu partido político, meu isto, meu aquilo, porque isso dá-me segurança. Mas «ser humano» é «tornar-se livre». Livre de ser eu mesmo. Livre de me tornar um membro da humanidade. Vou contar-vos uma história de quando estava no Chile. Fui acolhido no aeroporto por Denis, para me conduzir a Santiago. E no caminho ele abrandou e disse: «À esquerda, todas as casas ricas são defendidas e protegidas pela polícia e pelos militares. Do outro lado estão as barracas». E depois disse: «Ninguém atravessa esta estrada. Toda a gente tem medo». Portanto, o grande truque para ser humano é encontrar as pessoas. Encontrar pessoas que são diferentes. E isto não são apenas grandes ideias! O grande truque é a experiência. As pessoas precisam de viver uma experiência, não de viver ideias. Como, por exemplo, ir do bairro rico para as barracas daquela cidade. Tu precisas de encontrar as pessoas, e descobrir que a outra pessoa é magnífica. Então, como criar encontros? É a grande questão.

9. Ouve o teu desejo mais profundo e segue-o
Nós somos diferentes, muito diferentes, dos pássaros e dos cães. Há hoje uma tendência que diz que os homens são como os animais. Claro que são! Mas os animais são muito diferentes. Nós, os seres humanos, não nos contentamos por comer e ter bebés. Há algo mais. Há uma espécie de infinito no nosso interior. Não ficamos satisfeitos com o que é finito. Queremos quebrar os muros das prisões. Chamo a isso a busca espiritual, a busca do infinito. Toda a gente quer isso! Quando se está sentado no alto da montanha a contemplar o mundo, o mar, o sol, a contemplar as flores! Contemplar de onde vem tudo isso? O universo começou, o universo terminará. Onde? Porque é que começou? E onde terminará? Eu tive a oportunidade, quando tive um grande desejo, aos 13 anos, de me juntar à Marinha de Guerra britânica em plena guerra; era perigoso, mas o meu pai escutou, e disse: «Se é o que tu queres, deves fazê-lo». Ele deve ter percebido que não era apenas um desejo vão. Era um desejo autêntico. E é o que eu chamaria hoje “a voz interior”. Qual é o teu maior desejo?

10. Lembra-te de que um dias morrerás
Eu não sou o rei do mundo, e seguramente não sou Deus! Sou apenas alguém que nasceu há 90 anos e que vai morrer daqui a poucos anos… e depois toda a gente me esquecerá. É a realidade. Estamos todos aqui, mas somos apenas pessoas de passagem, em viagem. Entramos no comboio, saímos do comboio, o comboio continua. A humanidade existe há milhões de anos, e aqui estamos nós hoje, qualquer que seja o ano, 2000 e qualquer coisa. E o mundo vai continuar quando eu já não estiver nele.

Jean Vanier
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 07.05.2019

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