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18 março 2026

Poemas dos dias que correm

 Os velhos

Os velhos já não falam ou então por vezes apenas com um olhar tremido
Até ricos são pobres já não têm ilusões e só lhes resta um coração para dois
Em suas casas cheira a tomilho a limpo a lavanda a palavras antigas
Mesmo vivendo em Paris vive-se sempre na província quando se vive demais
Será de tanto terem rido que as suas vozes encarquilham quando falam de ontem
E de tanto terem chorado que lágrimas esquecidas lhes orvalham as pálpebras
E se tremem um pouco será por verem envelhecer o relógio de prata
Que ronrona na sala que ora diz sim ora diz não e diz por vós espero
 
Os velhos já não sonham os seus livros entorpecem os seus pianos não tocam
O gatinho morreu o moscatel dos domingos já os não faz cantar
Os velhos já não mexem os seus gestos são todos rugas o seu mundo é tão pequeno
Da cama para a janela depois da cama para a poltrona por fim da cama para a cama
E se ainda vêm à rua de braço dado envoltos num manto hirto 
É para acompanhar pelo sol o enterro de um mais velho o enterro de uma mais feia
E enquanto dura um soluço esquecer por uma hora o relógio de prata
Que ronrona na sala que ora diz sim ora diz não e por eles espera

Os velhos não morrem adormecem um dia e dormem demais
Dão a mão um ao outro receiam perder-se e todavia perdem-se
E o outro para ali fica o melhor ou o pior o meigo ou o severo
Pouco importa porque aquele que fica acorda num inferno
Vê-lo-emos por vezes à chuva e à mágoa
Atravessar o presente pedindo perdão por não estar já mais além
E uma última vez fugir de nós o relógio de prata
Que ronrona na sala que ora diz sim ora diz não e lhe diz por ti espero
Que ronrona na sal que ora diz sim ora diz não e que por fim nos espera
 
  
jacques brel
antologia poética
trad. eduardo maia
assírio & alvim
1997

***

Les vieux

Les vieux ne parlent plus
Ou alors seulement parfois du bout des yeux
Même riches ils sont pauvres, ils n'ont plus d'illusions et n'ont qu'un coeur pour deux
Chez eux ça sent le thym, le propre, la lavande et le verbe d'antan
Que l'on vive à Paris on vit tous en province quand on vit trop longtemps
Est-ce d'avoir trop ri que leur voix se lézarde quand ils parlent d'hier
Et d'avoir trop pleuré que des larmes encore leur perlent aux paupières
Et s'ils tremblent un peu est-ce de voir vieillir la pendule d'argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non, qui dit: je vous attends

Les vieux ne rêvent plus, leurs livres s'ensommeillent, leurs pianos sont fermés
Le petit chat est mort, le muscat du dimanche ne les fait plus chanter
Les vieux ne bougent plus leurs gestes ont trop de rides
Leur monde est trop petit
Du lit à la fenêtre, puis du lit au fauteuil et puis du lit au lit
Et s'ils sortent encore bras dessus bras dessous tout habillés de raide
C'est pour suivre au soleil
L'enterrement d'un plus vieux, l'enterrement d'une plus laide
Et le temps d'un sanglot, oublier toute une heure la pendule d'argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non, et puis qui les attend

Les vieux ne meurent pas, ils s'endorment un jour et dorment trop longtemps
Ils se tiennent la main, ils ont peur de se perdre et se perdent pourtant
Et l'autre reste là, le meilleur ou le pire, le doux ou le sévère
Cela n'importe pas, celui des deux qui reste se retrouve en enfer
Vous le verrez peut-être, vous la verrez parfois en pluie et en chagrin
Traverser le présent en s'excusant déjà de n'être pas plus loin
Et fuir devant vous une dernière fois la pendule d'argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non, qui leur dit: je t'attends
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non et puis qui nous attend

02 fevereiro 2011

Duas últimas

Na minha primeira colaboração assumida com este blogue apresento a que é, para mim, seguramente uma das músicas mais bonitas que alguma vez foi composta. A versão é, parece-me, a original, e a gravação, em estúdio. Ne me quitte pas, traduzido por um locutor do saudoso Rádio Clube Português como Não me deixes, pá, contém, quanto a mim, todos os ingredientes indispensáveis a uma grande canção: uma melodia fantástica; um poema lindíssimo e uma interpretação de arrepiar. A música já teve milhares de versões e outros tantos intérpretes, mas nada que se compare a esta.
Jacques Brel é o autor, compositor e intérprete, e esta a sua obra-prima. É uma cantiga tristíssima que nem sequer tem o humor com que Brel normalmente tempera as suas angústias quase obsessivas. Deixa que eu me torne a sombra do teu cão, mas não me abandones, é como acaba a música. Irra! Pode no entanto haver beleza na tristeza, e esta música é exemplar a esse respeito.
Oiçam Jacques Brel e desenjoem por um momento do monopólio musical anglo-saxónico. Pois é, já me esquecia: se calhar a maioria das pessoas já não consegue perceber a letra.

João da Camara

01 outubro 2009

Deixa-me rir...

Era meia-noite de uma noite deliciosamente perfumada de Julho. As janelas, abertas de par em par sobre uma varanda de pedra que se prolongava para o jardim de buxo, convidavam os mais velhos a descansarem do barulho que se fazia sentir dentro do palácio, e os mais enamorados a momentos de maior intimidade, longe dos olhares curiosos. “Mas que calor que está lá dentro”… dizia uma rapariga, empoleirada nuns extraordinários Manolo Blatnik, ao descer os degraus de pedra a caminho das sombras e da frescura dos bancos de jardim.

Dentro do velho palácio, espelhos antigos, de vidros manchados e molduras sumptuosamente douradas, decoravam as paredes de um verde jade um pouco fanné da extensa sala de baile. Tecto pintado com frescos e três enormes candelabros venezianos iluminavam a sala, roubando reflexos dourados aos belos e trabalhados cabelos das convidadas. A música tinha sido pensada ao pormenor e o DJ de serviço marcava o ritmo das músicas com a cabeça, satisfeito por ver tantos corpos dançando e rodopiando livremente ao som de canções de décadas em que o ritmo era espontâneo, descontraído e alegre. Tinha sido uma ideia engraçada da dona da casa pensava ele, enquanto mudava o vinyl no seu gira-discos de estimação, esta de organizar uma festa com músicas dos anos 50 e 60, décadas que ainda por cima lhe eram particularmente queridas. Gira também a ideia de pedir aos convidados para se vestirem à época, incorporando o espírito do swing, do rock & roll, do boogie woogie, da pop … e giríssima a ideia de ter pegado na lista telefónica e de, aleatoriamente, ter convidado 200 desconhecidos… semelhante ideia, semi extravagante no enquadramento de um grupo muito agarrado às convenções sociais, estava a revelar-se o maior sucesso!

A dona da casa estava feliz com o que via. A casa, já um pouco decadente, parecia ter voltado aos seus tempos áureos … os risos, o tilintar dos copos, o brilho dos tecidos, o menear alegre dos corpos, a brisa carregada do aroma do jasmim, e a música … sempre a música … faziam-na vibrar e pensar que tinha de organizar mais festas como aquela. Dinheiro não lhe faltava, sendo única herdeira de uma grande fortuna. Para além disso tinha tempo, dezenas de amigos, criatividade, ousadia qb e um gosto sem fim por dançar. Era tempo de enterrar o passado e o profundo luto interior que sentia há muitos e muitos anos. Desde que os pais tinham morrido e que o marido, ao fim de 2 anos de um matrimónio feliz (assim o pensara ela), a abandonara com requintes de malvadez e uma insensibilidade absoluta. Tinha, desde então, mergulhado no mais profundo desespero e numa total ausência de gosto pela vida que nem os inúmeros convites dos amigos e a presença doce e calmante da Emília, que a vira nascer, conseguiam alterar. Não que os outros avaliassem o seu verdadeiro grau de devastação interior. Nunca fora particularmente comunicativa e, nos últimos anos, tinha vindo a aperfeiçoar o seu gosto pela arte da representação. Sabia que os outros a sabiam triste, mas daí até suspeitarem que tinha um buraco negro no lugar do coração ia uma grande distância ….

Foi então que o seu olhar se cruzou com um outro que, pela expressão, já devia estar a olhar para si há algum tempo. Numa fracção de segundos inexplicável, ou só explicável por quem passou pelo mesmo, apercebeu-se que havia um homem alto, moreno, esguio, com uma camisola de gola alta azul escura e um copo de whisky na mão que a olhava com a intensidade com que a tinham olhado noutros tempos, quando ela era uma jovem mulher cheia de vida e curvas exuberantes. De repente, tudo à sua volta se transformou numa espécie de espiral faíscante de luz, cor, música e confusão. E a música, sempre a música … parecia cada vez mais alta…

Sem forças, suores frios a percorrerem-lhe as costas, sentia as pernas a cederem e uma tontura gigantesca a formar-se … até que uma mão forte e os acordes de uma canção infinitamente melódica e romântica a salvaram de cair, desamparada, no xadrez de mármore brilhante do seu salão de baile: “Au premier temps de la valse, je te voi et tu m’aperçois … “


PCP

05 agosto 2009

Músicas dos dias que correm

Hoje é quarta-feira, e habituámo-nos ao Largo da Boa-Hora. Porque há férias, e necessidade de descanso e de recuperar inspirações, ficamo-nos com um largo vazio, sem quem nos revele o seu olhar pelo mundo. Fica a língua francesa (ainda que com sotaque) cantada pela boca de Jacques Brel, porque há gente que gosta muito de França, de Paris, dos franceses, de Napoleão, de Laurent Gaudet, sei lá eu! Sim, sim, o Brel não é francês, mas é a língua sabem...

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