UM PINTOR DA ‘JOIE DE VIVRE’
Paris aproveitou a Primavera para lançar mais uma mega exposição, no imperdível Musée d’Orsay, dedicada a um dos expoentes do impressionismo – Pierre-Auguste Renoir. O título da mostra é eloquente – «Renoir et l’amour», assim como as garridas manchetes dos media, a evocar o denominador comum das suas telas: «MERCI LA VIE!»
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| À DTA. - auto-retrato, de 1910 |
Renoir acrescentou ao fascínio dos impressionistas pela luz, a audácia de pintar o sabor da vida, apanhando-a na pose mais festiva e alegre. Segundo os curadores: «Renoir regarde le monde comme on embrasse quelqu’un que l’on aime depuis toujours». Explicava o artista: «c’est avec mon pinceau que j’aime». Por isso, é frequente considerar-se que pintou o amor, a beleza (sobretudo, a do arquétipo feminino), a alegria, a paixão pela vida.
Oriundo de um meio pobre, com uma infância marcada por grandes privações, a mera ousadia de apostar numa profissão de alto risco, como a pintura, roçava o aventureirismo irresponsável. Nascido em 1841, ainda apanhou os resquícios da mortandade da Revolução Francesa (1789) e a estrondosa derrota gaulesa nas Guerras napoleónicas. Em vida, assistiu à humilhante derrota de França na Guerra Franco-Prussiana e à guerra civil durante as dolorosas experiências da Comuna de Paris, para além dos tumultos sociais causados pela Revolução Industrial! Tudo isso Renoir enfrentou com garbo e um sentido positivo inesperado! De onde lhe viria tanta confiança no futuro, face ao mundo algo sombrio que o rodeava?
Com os comparsas impressionistas, Renoir convocou a ‘joie de vivre à la française’ para contribuir para as mudanças de mentalidade de oitocentos, quando as sociedades se democratizavam; o cidadão comum ganhava destaque; a indústria do entretenimento despontava, sobretudo nas grandes cidades; a maior facilidade de locomoção aumentava os horizontes das gentes rurais, antes confinadas ao lugar onde tinham nascido; novos países nasciam, redesenhando-se as fronteiras da Europa e dos impérios ultramarinos. Todo o mundo era composto de mudança e o apetite pelo presente aguçava-se, na ânsia de acompanhar a voragem do tempo, saborear os pequenos momentos, os prazeres visíveis, ainda que fugazes. Os artistas estavam ávidos de devorar as modas nascentes e plasmá-las numa expressão artística de vanguarda.
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| Duas das mais célebres obras de Renoir, imortalizam momentos efémeros, captando os ambientes festivos, que o pintor tanto apreciava. |
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| Vinte anos depois, a exposição conseguiu reunir as três telas de pares dançantes. A mesma felicidade irradia em casais diferentes, numa união de corpos arrojada para a época, seja na versão burguesa, seja na campestre, seja nos trajes de gala. |
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| A música veio antes da pintura na vida de Renoir. Mas as dificuldades financeiras da família obrigaram-no a desistir das aulas de canto, que adorava, e a empregar-se numa fábrica de porcelana para ajudar ao sustento da casa dos pais. |
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| Retratista muito procurado pelos seus contemporâneos, Renoir pintava com enorme rapidez, como foi o caso com o compositor alemão. |
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| As figuras femininas eram as musas do pintor: «La Balancoire», 1876. |
Até ao Barroco, pedir a um pintor para ser luminoso poderia parecer uma redundância, mesmo nos temas sobre guerras e outros episódios sangrentos da História. Porém, essa tendência mudou, quando o sofrimento personalizado entrou para a tela. O ambiente sombrio e as marcas de desgosto num rosto anónimo, mais próximo do espectador, adquiriu uma ressonância nova no público. Pouco a pouco, caiu em desuso o recurso ao efeito teatral das pinturas povoadas de heróis ancestrais ou mitológicos em cenários grandiloquentes, demasiado longe da realidade prosaica do cidadão comum. O século XX avançou mais uns passos e mostrou ad nauseam quanto a arte aguenta cargas indigestas de sofrimento humano concreto, reconhecível e de muitas gradações do mal, até ao desespero mais agudo.
Voltando a Renoir, são espantosas as pessoas que irradiam alegria no meio da turbulência e das incertezas do dia-a-dia. Como se estivessem sentadas ao nosso lado, enquanto todos atravessamos a tempestade… São companhias fantásticas na vida, corajosamente pascais, abertas ao desfecho luminoso da ressurreição.
Páscoa Feliz com a ‘joie de vivre’ de Renoir, se possível, com um salto a Paris!
Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)