17 junho 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

AUSCHWITZ NO TEMPO DE NERO  

Lembro-me bem da visita ao aterrador Campo de Concentração em Auschwitz, a 70 km da lindíssima cidade polaca de Cracóvia. Enregelei com o frio cortante de janeiro, apesar de estar bem agasalhada e de haver algum sol, ainda que pálido. Os -15º C pioram com a mais leve brisa, doendo até aos ossos. Nem imagino o que seja aguentar aquelas temperaturas negativas nas longas noites da Europa Central, apenas vestida com as célebres fardas de sarja às riscas azuis e brancas. 

No horror que aquele espaço evoca, chocou-me o aspecto organizado e harmonioso do casario imenso de Birkenau, ordenado como um magnífico acampamento romano a espraiar-se por uma planície imensa, coberta do branco lustroso da neve fofa. Do lado de fora do muro, erguiam-se cedros de folhagem  verdejante, dando solenidade e força àquela paisagem límpida. Que paradoxo aquela beleza tranquila ter sido o cenário de um genocídio monstruoso, felizmente erradicado há 81 anos!  

A crueldade da paisagem de Auschwitz, insensível à barbárie sanguinária ali perpetrada, reverbera de forma ampliada nas festas sumptuosas do imperador romano, que instituiu uma perseguição pérfida e incompreensível a um grupo religioso, que nada lhe fizera. Depois de Nero ter ateado fogo à cidade de Roma (segundo reza a história), resolveu passar as culpas do tremendo flagelo para os cristãos, impondo-lhes o pior anátema: a morte da forma mais escabrosa e indigna, sacrificando as vítimas como joguetes de diversão nos espectáculos insanos do Coliseu romano. Ou, pior ainda, usando-os como tochas vivas para iluminar as alamedas dos jardins imperiais! Não há palavras para tamanho horror, mas felizmente ficou a memória histórica desses crimes indecorosos e do escândalo daqueles festins hediondos, manchados de sangue inocente. 

A arte tem sido pródiga na denúncia do mal e na revelação da subtileza complexa daquela iniquidade. Além de fazer jus aos factos, relembrando séculos de mortandade gratuita, tem sido incansável a expor o emaranhado paradoxal de um tipo de perfídia estranhamente compatível com uma certa beleza exterior. Coube, precisamente, a um pintor polaco compor a tela intitulada «As Tochas de Nero», também conhecida por «As Velas da Cristandade», referindo-se aos lampiões de carne-e-osso que iluminaram as repugnantes festas de um dos imperadores mais depravados e ferozes da Roma antiga. Nem de propósito, a obra de Henryk Hektor Siemiradzki (1843-1902) está exposta no Museu de Cracóvia, a uns escassos 70 km de Auschwitz… 

«As Tochas de Nero» - pintado por Henryk Hektor Siemiradzki, em 1876/78. © Museu Nacional de Cracóvia

Para dificultar esta difícil equação onde o belo e a infâmia desumana se autoalimentam, calhou aqueles lampiões inofensivos terem dado a vida por Quem lhes pedia para amarem os inimigos! Volta-se à tela de Siemiradzki e não parece fácil sequer tolerar, quanto mais amar, um anfitrião e uns convidados impiedosos, que aceitam participar em festejos onde inocentes são queimados vivos, à sua frente!  O pintor capta com especial acuidade a opulência inebriante dos jardins romanos e o fausto luxuoso da festa de um dos governantes mais poderosos do seu tempo. Em contraponto, o especialista em arte, depois ordenado sacerdote e encarregue da Catedral londrina de Westminter – Pe. Patrick van der Vorst – faz a ponte entre essa mundanidade bela, mas desumana, e a bondade desmesurada (desproporcionada para os padrões humanos) do Mestre dos archotes vivos. No fundo, coloca o dedo na ferida ao convocar a base do amor cristão, que emerge sempre de um acto luminoso de liberdade autêntica, inalcançável para a IA: «when Jesus calls his disciples to love their enemies, he is not speaking primarily about emotions or feelings. He is speaking about an act of the will. Christian love is not sentimental. It means choosing not to hate, refusing to seek revenge, resisting bitterness, and continuing to recognise the dignity of the other person, even when relationships are wounded. To love an enemy does not mean approving of what they have done; it means refusing to allow darkness to have the final word in our own hearts.»

Repassando a história, assaltam-nos perguntas várias: como seria estar na festa do Imperador ou nos shows do Coliseu, em qualquer das posições? Seria louca a maioria da população do magno Império da Pax Romana, como insistem animadamente Asterix e Obelix?... 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas) 

16 junho 2026

Do regresso ao Regimento de Infantaria de Abrantes, 45 anos depois

Há pouco mais de um ano recebi um telefonema proveniente de um número que me era desconhecido: o senhor foi aspirante em Abrantes em 1981?. Confirmei que sim, que estava a cumprir o serviço militar nessa altura e naquele local. O meu nome é x, e o senhor foi meu instrutor há 44 anos... Com mais curiosidade do que indignação, perguntei como tinham conseguido o meu telemóvel. De lá veio uma resposta que me pareceu carregada de malícia, não de arrependimento: "o camarada y é funcionário das Finanças..."

Infelizmente não consegui ir ao almoço que se estava a organizar para juntar os recrutas e instrutores daquela longínqua primeira incorporação de 1981. Este ano, para celebrar os 45 anos desse tempo, juntámo-nos também para uma visita ao quartel de Abrantes, que já foi Regimento de Infantaria 2, Regimento de Infantaria de Abrantes, e agora é Regimento de Apoio Militar de Emergência. 

O que retive deste encontro (e não vale a pena falar do almoço que se seguiu, que foi convívio apenas): 

1. Desde que passei à disponibilidade - Agosto de 1981 - nunca mais tinha entrado no quartel. Curiosamente, achei tudo muito maior; da porta de armas à parada, passando pelas diversas companhias, a minha memória dava a tudo uma dimensão mais pequena. 

2. Parte substantiva do quartel está quase ao abandono ou, pelo menos, sem ocupação nem actividade.

3. No grupo estavam 3 ou 4 recrutas do pelotão a que me coube em sorte dar a recruta. Contaram histórias a meu respeito (nenhuma de que me envergonhe, talvez de que me arrependa) e só me apeteceu perguntar: de quem é que estão a falar?

4. A memória dos soldados que fizeram parte desta incorporação era muitíssimo superior à minha. Penso até que muito superior à memória que tenho da minha própria recruta. e eu sou uma pessoa com boa memória...

5. Nunca tive dúvidas do que liga pessoas que cumpriram o serviço militar em conjunto. Nalguns casos - e que não é o meu - essas pessoas fizeram tropa em tempo de guerra: mataram, viram morrer, confrontaram-se com os estropiados e com o medo, correram perigo de vida, sentiram um grande alívio no regresso à metrópole ou numa cerveja numa esplanada. Eu - e estes recrutas - fomos confrontados com o desconforto de uma farda ou de um rancho pouco melhorado, com um aspirante que podia ser mais duro ou com uma cidade onde não havia vida nocturna. Mas, mesmo assim, há algo que os liga uns aos outros que quase enternece: foram todos contemporâneos de uma fase marcante da vida - ou que parece ser marcante. 

6. Fizemos 1 minuto de silêncio em homenagem a um camarada que morrera há uns anos, vítima de doença, talvez, ou de um desastre de automóvel. De todos os locais do quartel onde poderíamos fazê-lo, escolheu-se o monumento dedicado aos soldados que morreram no ultramar. O meu nome foi referido enquanto pessoa mais graduada do grupo, e o sargento-mor presente (há muito na disponibilidade) proferiu umas palavras a propósito. Atrás de nós, gravado na pedra, o nome dos que morreram ao serviço da Pátria.  

7. A tropa - ou o serviço militar - tem uma carga afectiva muito maior do que aquilo que eu imaginava. Não é sou um tempo de camaradagem, de solidariedade no desenraizamento de casa, de afastamento das rotinas que confortam e do confronto com uma vida feita de regras e disciplina; é um tempo que marca enquanto escola de vida e de valores, que deixa saudades e cria lembranças impactantes, mesmo em tempo de paz. Há todo um vocabulário afectivo e linguístico que acabou. Para as gerações de hoje, ouvir um recruta da primeira incorporação de 1981 em Abrantes é ouvir um ET.

JdB      

 

14 junho 2026

XI Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Mt 9,36-10,8

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus, ao ver as multidões, encheu-Se de compaixão,
porque andavam fatigadas e abatidas,
como ovelhas sem pastor.
Jesus disse então aos seus discípulos:
«A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos.
Pedi ao Senhor da seara
que mande trabalhadores para a sua seara».
Depois chamou a Si os seus doze discípulos
e deu-lhes poder de expulsar os espíritos impuros
e de curar todas as doenças e enfermidades.
São estes os nomes dos doze apóstolos:
primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão;
Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão;
Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano;
Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu;
Simão, o Cananeu, e Judas Iscariotes, que foi quem O entregou.
Jesus enviou estes Doze, dando-lhes as seguintes instruções:
«Não sigais o caminho dos gentios,
nem entreis em cidade de samaritanos.
Ide primeiramente às ovelhas perdidas da casa de Israel.
Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus.
Curai os enfermos, ressuscitai os mortos,
sarai os leprosos, expulsai os demónios.
Recebestes de graça, dai de graça».

13 junho 2026

Pensamentos Impensados

A árvore estava tão velha que até a própria sombra era uma sombra do que já tinha sido.

O Estado está preocupado com a evasão fiscal. O contribuinte está preocupado com a invasão fiscal.

Será que o Perfeito da Congregação para as Causas dos Santos é tão pobrezinho que tem de andar às beatas?

Incongruente: aquele que não queria pagar a côngrua.

A propósito de dívidas, dinheiros, ajudas, etc., usa-se a palavra tranche; prefiro a tranche de salmão.

SdB (I) 

12 junho 2026

Poemas dos dias que correm

 Sonhei que vi St.º Agostinho

Sonhei que vi St.º Agostinho
Tão vivo como tu e eu
Irrompendo por esses bairros
Na mais extrema miséria
Com uma manta debaixo do braço
E uma capa de ouro maciço
À procura das próprias almas
Que já foram vendidas

«Erguei-vos, erguei-vos,» gritou alto
Numa voz sem freio
«Saí, ó prendados reis e rainhas
E ouvi o meu triste lamento
Não está agora entre vós nenhum mártir
A quem possais chamar vosso
Segui então o vosso caminho e acordo com isso
Mas sabei que não estais sós»

Sonhei que vi St.º Agostinho
Vivo com fôlego ardente
E sonhei que estava entre aqueles
Que o abandonaram à morte
Oh, acordei enfurecido
Tão só e aterrorizado
Espalmei as mãos contra o vidro
E curvei a cabeça e chorei

bob dylan
canções 1962-2001
volume 1 (1962-1973)
john wesley harding
trad. angelina barbosa e pedro serrano
relógio d´água
2008

10 junho 2026

10 de Junho

 O INFANTE 

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

s.d.
Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).  - 57.

***


Poema e imagem tirados daqui 

09 junho 2026

Do controlo da imperfeição *

Fiat lux. Depois disto, e ao longo de seis dias, tudo se criou: a separação da terra e das águas, a verdura, a erva com semente, as árvores de frutos; a tarde e a manhã, ao terceiro dia; os monstros marinhos e todos os seres vivos que se movem na água, e todas as aves aladas; depois os animais domésticos, os répteis e os animais ferozes. Por fim, o ser humano, a quem foi dado tudo o que havia sido criado nos dias antes. O Homem agarrou então naquilo que existia em seu redor e na inteligência com que tinha sido bafejado e criou as coisas científicas: a roda, as válvulas, a máquina a vapor, o pressóstato, a electricidade, o bico de bunsen, os computadores, a placa de petri, a gasolina, o óleo lubrificante, o viscosímetro e o jacto de tinta. 

Assim como Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, o homem criou a técnica à sua imagem e semelhança. No entanto, enquanto Um desejou a permanente perfeição, o outro contentou-se com a eterna imperfeição. A consciência da imperfeição é um princípio de sabedoria, talvez o ponto mental mais chegado ao absoluto primor de que o ser humano é capaz. E por isso tudo é inventado, não pelo esmero das coisas, mas por uma espécie de quase oposto. Não se inventa a perfeição, mas o controlo da imperfeição. Porque se inventou o pressóstato? Para manter constantes as pressões dos fluidos. O que motivou Petri a inventar a placa? A dominação do crescimento microbiano. Para que serve o óleo lubrificante? Para reduzir o atrito.

A imperfeição é o apelido pelo qual todos os homens se tornam iguais, membros de uma mesma congregação - que mais não é do que uma família que se entende pelo jargão. É por isto que o homem não consegue dominar uma certa vida própria dos fluidos, a assepsia nos ambientes, a fricção entre materiais que gemem e aquecem de dor. Dar como supérfluo a existência de alguns equipamentos, imaginar-lhes obsolescência face à perfeição que se deseja é ambicionar em cada rosto frágil o olhar de Deus sobre o mundo, é usurpar o trono onde Ele se senta com um amor que não o é senão. Só o inacabado é nosso, cabe nas nossas mãos, circula livremente pela nossa mente. Por isso a placa, o lubrificante, tudo o resto. A perfeição não nos pertence - apenas somos donos do caminho que a tem como destino nunca alcançado.

Só a guerra é nossa, que a paz é coisa do Céu. Talvez por isso o homem tenha inventado os acordos, que mais não são do que o pressóstato das pessoas que respiram.

JdB     

* publicado originalmente em 20 de Fevereiro de 2015 

07 junho 2026

X Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 9,9-13

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus ia a passar,
quando viu um homem chamado Mateus,
sentado no posto de cobrança dos impostos,
e disse-lhe: «Segue-Me».
Ele levantou-se e seguiu Jesus.
Um dia em que Jesus estava à mesa em casa de Mateus,
muitos publicanos e pecadores
vieram sentar-se com Ele e os seus discípulos.
Vendo isto, os fariseus diziam aos discípulos:
«Por que motivo é que o vosso Mestre
come com os publicanos e os pecadores?».
Jesus ouviu-os e respondeu:
«Não são os que têm saúde que precisam de médico,
mas sim os doentes.
Ide aprender o que significa:
‘Prefiro a misericórdia ao sacrifício’.
Porque Eu não vim chamar os justos,
mas os pecadores».

06 junho 2026

Pensamentos impensados

Leadership é uma peça de metal que se põe por baixo da pele dos cães guia.

Ofídios: as cobras, se falassem, seriam bilingues.

Bifidus activos é um produto que se extrai por destilação das línguas das cobras vivas.

Lojas de conveniência, sabe-se o que são. E lojas de inconveniência? Serão as sex shops?

O desdentado não pode ser sorridente.

Se eu comprar vinho tinto a granel, será que o posso vender como produto branco?

SdB (I)


04 junho 2026

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

 EVANGELHO - Jo 6, 51-58

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
disse Jesus à multidão:
«Eu sou o pão vivo descido do Céu.
Quem comer deste pão viverá eternamente.
E o pão que Eu hei de dar é a minha Carne
pela vida do mundo».
os judeus discutiam entre si:
«Como pode Ele dar-nos a sua Carne a comer?»
Jesus disse-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
Se não comerdes a Carne do Filho do homem
e não beberdes o seu Sangue,
não tereis a vida em vós.
Quem come a mina Carne e bebe o meu Sangue
tem a vida eterna;
e Eu o ressuscitarei no último dia.
A minha Carne é verdadeira comida
e o meu Sangue é verdadeira bebida.
Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue
permanece em Mim, e Eu nele.
Assim como o Pai, que vive, Me enviou, e Eu vivo pelo Pai,
também aquele que me come viverá por Mim.
Este é o pão que desceu do Céu;
não é como aquele que os vossos pais comeram, e morreram;
quem comer deste pão viverá eternamente».

03 junho 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 O PAPA E «2001 ODISSEIA NO ESPAÇO»  

O Papa vindo do Novo Mundo ecoa na recém publicada Encíclica sobre IA o alerta de Stanley Kubrick em «2001 - Odisseia no Espaço». No famosíssimo filme de 1968, o computador HAL preparava-se para controlar os humanos e liderar a missão espacial, entre outras peripécias, de uma humanidade fascinada com a exploração do espaço. Numa explicação deliciosa, Kubrick contou como se inspirara no título de Homero – Odisseia – para a sua obra magna do cinema: «Ocorreu-nos que, para os gregos, as vastas extensões do mar devem ter tido o mesmo tipo de mistério e de afastamento que o espaço tem para a nossa geração.»

O predomínio da máquina, que soava a ficção longínqua, há 50 anos, aproximou-se demasiado depressa da nossa realidade, hoje! Daí o alerta papal, diferenciando muito bem entre a imensidão de benefícios da IA e da tecnologia (ou não fosse um craque a matemática, além de nado & criado no país campeão dos maiores avanços tecnológicos do séc. XX) e o risco de redução do ser humano. ’Apenas’ essa possível e profunda subalternização preocupa Leão XIV. Recorro-me de óptimas súmulas já circuladas sobre o conteúdo da pequena (mas densa) encíclica e sobre a originalíssima cerimónia de lançamento, fora de todos os cânones:   

cafe.com.tradicao: A primeira encíclica de um papa define o tom do pontificado. Leão XIII escreveu sobre o trabalho na Revolução Industrial em 1891. Exatamente 135 anos depois, Leão XIV escreveu sobre a inteligência artificial. O nome não foi escolhido por acaso

No portal do Vaticano, está disponível uma sinopse com as inúmeras ramificações temáticas associadas à IA:  


«UM PAPA, DOIS CARDEAIS, DUAS TEÓLOGAS E UM ENGENHEIRO

Uma encíclica não decreta o que se há-de crer. Tem obrigação mais grave: interpretar o tempo à luz da Revelação e orientar o homem para o que o salva.

Esta manhã, às 11h30 em Roma, 10h30 em Lisboa, Leão XIV entra no Salão Sinodal do Vaticano e apresenta apresenta pessoalmente a sua primeira encíclica. Quem investigar o protocolo vaticano vai ver que isto nunca aconteceu. Nenhum Papa, antes de Leão XIV, se sentou à mesa de apresentação da sua própria encíclica. Não delega no cardeal Fernández, não a entrega ao secretário de Estado Parolin. Senta-se a uma mesa com o cardeal Czerny, com a teóloga Anna Rowlands de Durham, com a professora Léocadie Lushombo da Jesuit School of Theology de Santa Clara, e com Christopher Olah, co-fundador da Anthropic, a empresa que construiu o Claude. Um Papa, dois cardeais, duas teólogas, um engenheiro de inteligência artificial. A composição da mesa é a primeira frase do documento: um Papa que não veio observar a máquina, mas ajudar o seu construtor a indagar o que ela faz ao homem.

O documento chama-se Magnifica humanitas: Sobre a Protecção da Dignidade Humana na Era da Inteligência Artificial. Foi assinado a 15 de Maio, exactamente 135 anos depois de Leão XIII ter assinado a Rerum Novarum. A coincidência não é coincidência: o que a revolução industrial foi para o século XIX, a inteligência artificial é para o nosso tempo. Em 1891, a doutrina social da Igreja Igreja escandalizou socialistas e liberais, porque não pertencia nem a uns nem a outros. Promete fazê-lo outra vez.

Magnifica humanitas não é um dogma de fé, nem pretende fechar a discussão com a autoridade do anátema. É outra coisa, e talvez mais difícil. É o exercício do magistério a pensar em voz alta sobre o seu tempo, a oferecer à Igreja e ao mundo uma leitura do presente à luz de uma verdade que não muda. Uma encíclica não decreta o que se há-de crer. Tem obrigação mais grave: interpretar o tempo à luz da Revelação e à luz da Revelação e orientar o homem para o que o salva. O dever do católico não está na obediência cega, que ninguém pede, mas no esforço de a ler e de a deixar interrogar-nos. Porque só assim se cumpre o que Cristo prometeu: Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará (Jo 8,32).

Para perceber o que Leão XIV está a fazer é preciso voltar à Rerum Novarum, porque é dela que esta encíclica reclama herança. Em 1891, Leão XIII entrou na questão operária num momento em que a Europa se polarizava entre o socialismo revolucionário e o liberalismo manchesteriano, e fê-lo recusando os dois. Defendeu a propriedade privada contra os colectivistas e o direito à associação operária contra os patrões. Afirmou o salário justo contra a redução do trabalho a mercadoria e o dever do Estado de proteger os mais fracos contra os que viam no laissez-faire uma lei natural. Não foi um documento de equilíbrio prudente. Foi uma intervenção que reorganizou o terreno do debate europeu sobre o trabalho, e fê-lo com a autoridade de quem se recusou a escolher entre duas ortodoxias que partilhavam, ambas, uma antropologia mutilada. A Rerum Novarum foi possível porque Leão XIII percebeu que a questão social não era primariamente económica: era antropológica. A pergunta não era como repartir o produto do trabalho. Já no Génesis Deus nos recorda que colocou o homem no jardim do Éden para o cultivar e o guardar, antes da Queda e antes do suor do rosto (Gn 2,15). O trabalho não é a pena que se paga por viver. É a forma como Deus convida o homem a participar na obra que o precede. Quem esquece que o homem foi criado à imagem de Deus não comete um erro disciplinar. Comete um erro sobre tudo o resto. Leão XIV vem corrigir esse erro.

A tradição que Leão XIV herda é longa e tem o hábito de estar certa antes de o mundo estar pronto para ouvir. A Quadragesimo Anno de Pio XI formulou em 1931 a subsidiariedade que a União Europeia viria a inscrever em Maastricht sem confessar a dívida. A Humanae Vitae de Paulo VI foi recebida com escândalo em 1968 e relida, décadas depois, com uma atenção diferente por quem se deu ao trabalho. A Centesimus Annus de João Paulo II, escrita em 1991 enquanto o mundo ainda processava o colapso soviético, continua a ser o texto mais rigoroso sobre o que o capitalismo pode e o que não pode. A Caritas in Veritate de Bento XVI abordou a globalização com uma profundidade filosófica que a maioria dos leitores não quis ter. O padrão é o mesmo. A Igreja, quando intervém a sério, intervém sobre a antropologia do seu tempo, e costuma ter razão antes de ser conveniente reconhecê-lo.

Leão XIV inscreveu-se nessa tradição antes de escrever uma palavra. O nome de um Papa é o seu primeiro acto de governo, escolhido antes da primeira palavra pública, e lê-se como programa. Leão XIV explicou que, nos nossos dias, a Igreja oferece a todos o tesouro da sua doutrina social em resposta a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos no campo da inteligência artificial, que colocam novos desafios à defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho. A Time incluiu-o entre as personalidades mais influentes em inteligência artificial, não como observador piedoso de um fenómeno alheio, mas como interlocutor de quem o constrói. A presença de Christopher Olah na apresentação desta manhã confirma-o. As outras mesas optimizam meios para fins já fixados: eficiência, produtividade, segurança dos sistemas. O Vaticano parte de um fim que não negocia. Por isso tem uma pergunta que as outras mesas não fazem. A Anthropic, que hoje lidera o sector com o Claude, nasceu de uma ruptura: os seus fundadores saíram da OpenAI por acreditarem que uma máquina que não serve o homem não é uma ferramenta imperfeita. É uma ameaça.

A ruptura que fundou a Anthropic aponta para algo que vai além da segurança dos sistemas. Toda a tecnologia que altera o modo como o homem trabalha acaba por alterar o exercício das suas faculdades. Quando delegamos à máquina o pensamento, a escrita e o raciocínio não deixamos de ser quem somos. Mas deixamos de exercer o potencial que temos. E esse potencial não é neutro. O homem foi criado para conhecer, para contemplar, para participar na obra da criação e para se aproximar de Deus através do exercício pleno das suas capacidades. Uma humanidade que progressivamente abdica das suas capacidades mais próprias não evolui. Empobrece. A pergunta que Leão XIV retoma da Rerum Novarum e devolve actualizada é esta: que tipo de pessoa a inteligência artificial pressupõe, e que tipo de pessoa ela produz. Sem essa pergunta, todas as respostas são técnicas. E por isso provisórias.

A resposta cristã a esta pergunta não é a única possível, mas é a mais antiga e a mais testada, e tem um instrumento que nenhuma outra tradição possui: dois mil anos de magistério que é simultaneamente tesouro acumulado e chave viva para ler o presente. A razão serve-se desse tesouro, não para substituir a fé, mas para perceber o que a fé ilumina. O dualismo cartesiano,  ao separar o pensamento do corpo, criou uma antropologia onde o homem se reduz à sua capacidade de raciocinar. A fé cristã sempre recusou essa redução. Não por decreto filosófico. Porque o próprio Deus escolheu encarnar-se: e o Verbo se fez carne, e habitou entre nós (João 1,14). A diferença não é menor: é a diferença entre uma antropologia que torna o homem indistinguível da máquina que o imita e uma antropologia que sabe que cada homem é irrepetível, porque foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27). Nenhuma máquina replica o irrepetível. É este o desafio a que Magnifica humanitas se propõe responder, e é o desafio que toda a humanidade, crente ou não, está a ser convocada a enfrentar.

Dir-se-á que esperar de qualquer país ou instituição que pare para ler um documento pontifício é nostalgia mal disfarçada. A Igreja já não comanda o debate público em lado nenhum, e seria ingenuidade pretender o contrário. Talvez. Mas a nostalgia, neste caso, é a única forma honesta de medir o que se perdeu. Não se trata de exigir consenso teológico onde já não há partilha religiosa. Trata-se de reconhecer que o instrumento mais antigo do Ocidente para pensar a pessoa humana acaba de entregar uma análise séria sobre a transformação mais profunda em curso, e que o modo como esta análise será recebida dirá mais sobre o estado da sociedade e do debate público do que sobre o estado da Igreja.

O critério que Magnifica humanitas oferece não é sobre a técnica. É sobre o homem. A técnica está em constante mutação. A tentação de sermos como deuses, desde o Génesis, é a mesma que nos chega agora pelos sistemas que construímos para nos imitarem. O instrumento é novo. A natureza humana é eterna. Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito (Rm 12,2).»

João A.B. da Silva – 25.MAIO.2026 

O título escolhido por Leão XIV «MAGNIFICA HUMANITAS» resulta no melhor arranque para abordar os desafios gigantescos colocados à humanidade pela IA e pela robotização da vida quotidiana. Reevoca o aviso de Kubrick contra um computador HAL à solta, capaz de acantonar (no filme, matar) os humanos num limbo onde ficam ‘sem chão’, desorientados, com maior dificuldade em descortinar o seu papel no mundo. Um panorama desestruturante! Alguém duvida da superioridade produtiva da máquina, em concreto a processar dados? Alguém ignora a eficiência dos algoritmos criados por humanos talentosíssimos, mas rapidamente a dar mil a zero aos seus criadores, quais Frankensteins com poderes, até certo ponto, sobrehumanos?  A catadupa de perigos no horizonte é tão real e ameaçadora, que é impossível subestimá-la. Por isso impressiona mais que Leão XIV se detenha nas boas razões para acreditarmos na humanidade, incutindo-nos esperança no futuro, se hoje tomarmos as decisões certas… Desta vez, a nossa identidade está em causa… reactualizando e estendendo com ferocidade ao nosso tempo o clamor de Hamlet: to be or not to be!   

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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