04 novembro 2026

Carta a um anjo

 Foi hoje, mas há 25 anos.

***

[...]  foi a primavera da esperança, foi o inverno do desespero [...]

- Charles Dickens, História em Duas Cidades 

Defendi a minha tese de doutoramento há pouco mais de uma semana. Intitulada Sobreviver a este tempo – narrativas de pais na oncologia pediátrica, abre com duas epígrafes. A primeira, de Dickens, evoca o percurso dos pais, tantas vezes feito, num mesmo dia, de primavera da esperança e de inverno do desespero. A segunda, atribuída a Albert Schweitzer, fala da fraternidade daqueles que carregam a marca da dor. É dessa fraternidade que vêm as vozes que procurei trazer para a tese — e é também a essa fraternidade que pertenço. 

Tomei contacto pela primeira vez com a expressão 'oncologia pediátrica' no dia 19 de Março de 2001, quando foste diagnosticada. Vivi o inverno do desespero no dia 4 de Novembro desse mesmo ano, quando deixaste de estar fisicamente connosco. Entre uma data e a outra houve sempre a primavera da esperança. Ouvir 35 pais, como fiz ao longo de dois anos, é perceber que todos tiveram o seu momento de inverno, mas nem todos conheceram a graça de um tempo de primavera. 

Talvez a tese, por um capricho ou mistério, tenha começado ao contrário. Podia tê-la iniciado num qualquer momento e dá-la por terminada quando estivesse concluída. Há um certo encanto — que talvez só eu e poucos outros consigam ver — em pensar que começou a desenhar-se a tempo de ser defendida 25 anos depois do ano de todos os anos. Isto é, que começou a tomar forma a tempo de chegar ao fim agora, a poucos dias desta efeméride. 

Estes últimos 25 anos foram intensos, carregados, com uma proporção nem sempre justa, de tempos mais tristes e de tempos mais fagueiros, de desalento e confiança, de desilusão e luminosidade. Acima de tudo, foram tempos ricos em desafios e na procura daquilo que é importante e permanece: o amor, o sentido das coisas, o olhar que se perde no fio do horizonte onde estão a paz e o sossego interior. 

Do terror de um campo de concentração, alguém dirá a Etty Hillesum: Se sobreviver a estes tempos, sairei deles como alguém mais maduro e profundo; e, se morrer, morrerei como alguém mais maduro e mais profundo. Não se comparam terrores. Mas esta frase encontra-se com o pensamento de Emmanuel Mounier: Se não fizermos mais nada do que sofrer — padecer, aguentar, suportar — não resistiremos e faltaremos ao que nos é pedido. 

A tese encerra um ciclo. Não sendo autobiográfica — as vozes são as de outros Pais —, está lá toda a minha história, a tua história, a história daqueles que olharam para ti num longínquo 6 de Julho e nunca mais perderam esse olhar. A tese existe por ti e para ti. Porque é em ti, que já só vemos com os olhos do coração, que encontramos a permanente fonte de inspiração para não faltarmos ao que nos é pedido pelo destino, pela consciência, pelos outros, por nós próprios, pela fé.

Ver-te, imaginar-te, pensar-te ou sonhar-te só é possível porque já não estás entre nós. A permanência só nos é garantida pela memória dos que já não permanecem. 

A vida muda; a vida muda-nos. Obrigado por aquilo que fizeste de nós.

J, em nome de todos os que te lembram.

03 novembro 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

D.QUIXOTISMO NA SEGUNDA GUERRA? – UM BOM FILME FRANCÊS 

No seu livro sobre seis grandes líderes do século XX – «Liderança: seis estudos sobre Estratégia Mundial», Henry Kissinger dedicou um capítulo ao general francês Charles de Gaulle, não apenas por se ter destacado durante a Segunda Guerra Mundial como voz de uma França contra a capitulação do Marechal Pétain, mas sobretudo por ter conseguido reerguer a França recém libertada do jugo nazi e colocá-la no patamar dos Vencedores. A sua fama quase dom quixotesca, adquirida ao longo da guerra, permitiu o insólito branqueamento de imagem a um país que se rendera aos nazis e produzira inúmeros colaboracionistas com o sinistro ocupante! De facto, Paris acolhera com glamour e pompa os deslumbrados oficiais da Wehrmacht. Bem menos dóceis à tirania nazi tinham sido holandeses e dinamarqueses, mas nenhum daqueles países gozou dos privilégios do núcleo duro dos vitoriosos. Naturalmente, que a dimensão de um e de outros pesou... No ‘day after’, interessava aos Aliados viabilizar a paz, desencantando alguém capaz de unir uma França dividida entre colaboracionistas e os heróis da Resistência. De Gaulle afirmou-se logo no minuto zero, desfilando pelos Campos Elísios, aclamado por multidões, mal os Aliados libertaram Paris, no Verão de 1944.  

Apesar do seu feitio difícil, com tiques autoritários e megalómanos, De Gaulle foi admirado por Churchill, tolerado por Roosevelt (as circunstâncias impuseram-no), que o detestava e fez tudo para o ignorar (em vão) e respeitado por Estaline. Entrou para a história do século XX com reflexões antológicas, expressivas de uma sagacidade geopolítica invulgar. Essa era uma das suas afinidades com Churchill. Ambos nascidos no final do século XIX, tinham vivido a Primeira Guerra e correspondiam a figuras arcaicas, semi desfasadas num século já muito tecnológico e de pragmatismo tecnocrata. Ambos encontravam no passado inspiração e legitimação para as batalhas da sua vida, no caso de De Gaulle:  restituir a França a grandeza de outrora. Manifestamente atípicos, assemelhavam-se a personagens de um bom romance de ‘capa e espada’, sensíveis a valores de cavalheirismo e de bravata militar incompreensíveis nas décadas de 30 e de 40 do século XX. Um e outro tinham personalidades paradoxais, marcadas por grandes tensões. Em De Gaulle é impressionante o contraste entre o seu autoritarismo militar, exercido à antiga cheio de maneirismos hierárquicos antiquados e a ternura em casa, derretendo-se com a filha mais nova, Anne, que tinha Trissomia 21. Protetor e meigo em família, duro e exigentíssimo no quartel, astuto e firme nas negociações, sábio a ler os sinais do tempo, reunia um conjunto de qualidades e de características invulgares. A ele se deve a percepção cristalina do pós guerra, dominado pelos EUA no Ocidente, apenas sob ameaça da URSS, com a Europa entalada entre as duas potências rivais. 

Tinha um especial  carinho por Anne, a filha nascido com Síndrome de Down. 

Nunca se iludiu quanto à fragilidade das alianças, por mais benignas e sólidas que parecessem. Por isso, não descansou enquanto não dotou França da arma nuclear, resistindo à pressão norte-americana para confiar no escudo norte-americano. Em 1961, Kennedy argumentou que a segurança da Europa ocidental e da América do Norte eram indivisíveis, pelo que França não devia desperdiçar recursos a obter a bomba atómica. Charles De Gaulle, que insistia na «imprevisibilidade da História», contrapôs: «Como é que podemos ter a certeza disso (dessa indissociabilidade)?», num futuro mais longínquo?  

O debate sobre o nuclear foi um tema quente da agenda da visita dos Kennedys a Paris, de 31 de Maio a 2 de Junho de 1961.

Nunca se iludiu acerca das reservas e da postura, por vezes, subversiva do Reino Unido face à Europa continental, apesar de ter sido Churchill a dar-lhe acesso à BBC, reconhecendo-o como líder da França resistente, durante a Segunda Guerra, para fúria do Governo de Vichy e de Roosevelt. É eloquente a tirada do General, quando lhe pediram o nome dos três maiores vultos europeus: «Dante, Goethe e Chateaubriand». Tendo-lhe perguntado se se esquecera Shakespeare, replicou sem hesitar: «Europeu?»  De Gaulle era um defensor intrépido da unidade europeia, por a considerar crucial para: «não sermos dominados pelos Estados Unidos, nem pela Rússia”. Mas tinha a noção dos limites dessa Europa cooperante, com menos sintonia do outro lado do Canal da Mancha…

Nunca se iludiu sobre a impossibilidade de França insistir num Império colonial no Magrebe, ainda que possa não ter gerido a retirada, da melhor forma. 

Nunca se iludiu sobre a mistura de sentimentos na batalha estudantil cunhada de «Maio de 68», evaporando-a em dois tempos, ao convocar eleições, para retirar palco aos  universitários, eliminando as condições para continuarem a falar (e a festejar) sozinhos com um megafone que se fazia ouvir longe. A decisão de passar a palavra para a sociedade, em jeito de plebiscito, foi um rotundo sucesso, conseguindo a proeza de uma vitória com maioria absoluta e a pacificação das ruas de Paris! O veredito da maioria a favor da estabilidade política e do respeito pelo Estado de Direito ditou o fim das manifs. 

Também não se iludiu acerca da sua indispensabilidade no poder, por isso, abdicou, após a conquista daquela histórica maioria absoluta, deixando França tranquilizada. Recolheu, finalmente, à sua austera casa no Nordeste francês, em Colombey-les-Deux-Églises, preferindo gozar os últimos anos de vida com a família, na máxima discrição, declinando quase todos os convites para os grandes eventos políticos gauleses e internacionais. França sabe o quanto deve ao General de coragem ilimitada, começando pelo estatuto tão honroso que o país obteve no final da Guerra, que lhe proporcionou um dos cinco lugares permanentes no Conselho de Segurança das Nações Unidas! Percebe-se por que é das figuras políticas mais homenageadas na toponímia gaulesa, tendo devolvido a França algum do antigo peso histórico da grande potência do Velho Continente, com (alguma) voz a ditar as regras da ordem internacional do pós guerra. 

Parte disto consta no primeiro filme dedicado ao líder francês, pelo realizador Antonin Baudry:  «De Gaulle - Resistência»(1), focado nos anos negros de 1940 a 1944. O subtítulo francês é mais eloquente e épico – “Résistance, L’âge de fer” –  evocando uma expressão de De Gaulle, ao explicar que a idade de ouro é precedida pela de ferro. Num argumento adaptado do livro do historiador britânico Julian Jackson – «A Certain Idea of France: The Life of Charles de Gaulle» –, o filme de Baudry concentra-se na fase mais ingrata (mas também de ascensão) de um oficial desconhecido, que resolve desafiar a rendição de Pétain a Hitler, autoproclamando-se regente da França Livre… basicamente, na cabeça dele e nos interesses de Churchill, que também apreciava a galhardia e a coragem desmesuradas do dito oficial francês. Mais sabia o britânico o poder dessas mentes tão fora da caixa, capazes de desencantar soluções audaciosas e improváveis, que devolvem futuro a horizontes sem saída. Ele próprio partilhava parcialmente aquela abordagem, não se coibindo de defender posições em contraciclo e de concretização improvável.  

Um jantar em tête-à-tête entre os dois titãs.

A obra de Baudry traz para o ecrã dois titãs cheios de tiques e de arcaísmos, de contradições e de loucuras, entre De Gaulle e Churchill. Em pano de fundo, repassam-se grandes momentos da Segunda Guerra e as poucas batalhas onde o mini exército da França Livre teve um mínimo de sucesso. O rocambolesco e o humor impregnam este filme de guerra, sem apoucar os factos narrados, mas antes expondo a bizarria de algumas das personalidades relevantes da época. Se Churchill transbordava de contrastes e exotismos, De Gaulle ainda lhe acrescentava a loucura do exercício de um poder assente em sonhos e na vontade intrépida do seu protagonista. O desempenho dos actores, em concreto do franco-arménio que personifica o General, ajuda a revelar a personalidade atípica do francês. Diz tudo a indiferença com que recebe a notícia da sua condenação à morte, por traição, ordenada por Pétain! É anedótico, mas real, a captura das Ilhas de Saint Pierre et Miquelon pelas tropas de De Gaulle, nas vésperas do Natal de 1941, enfurecendo Roosevelt, que acabara de ser forçado a entrar na Segunda Guerra, após o ataque japonês à base norte-americana do Pacífico, em Pearl Harbour.  Mais valor teve a resistência inesperada e muito competente das milícias da França Livre contra o regimento de Rommel, em Bir Hackeim, que permitiu aos britânicos uma folga crucial para se reorganizarem. Verdade que o filme é omisso, quer sobre a qualidade da Legião Estrangeira Francesa presente naquele pequeno contingente de elite liderado pelo General Jean-Marie Koenig, quer sobre a honradez de Rommel, algo brando na perseguição aos sitiados franceses, quando já só lhes restava fugir para se abrigarem no quartel britânico mais próximo. 

Em paralelo, flui a história de um liceal francês, profundamente revoltado contra o armistício assinado com o Reich. Mal ouve num aparelho de rádio clandestino, o estribilho passado na BBC «Ici Londres», com que De Gaulle iniciava as preleções aos seus compatriotas, entusiasma-se com aquele líder fantasma, que muitos pensavam ser um actor contratado por Churchill para contrapor ao governo de Pétain. A vida do pequeno Ferdinand Bonnier de la Chapelle, na Cidade das Luzes, transmite bem as tensões ambivalentes que coabitam em Paris, entre os colaboracionistas e os muitos patriotas revoltados contra a ocupação nazi, sobretudo entre os mais novos, que cediam contrafeitos ao tacticismo de governantes envelhecidos, caducos, acobardados. 

As duas horas e meia do filme sabem a pouco, como acontece nas histórias bem contadas, sendo invulgarmente comedido no uso da violência e até na gestão do suspense. Flui com ritmo e equilíbrio entre as diferentes cenas e as narrativas paralelas, sem se dispersar. Faltará o segundo filme da série, subintitulado: «Liberdade».

Os desafios actuais convocam a lucidez de Charles De Gaulle, sendo curioso o provérbio citado por Churchill, no filme, para referir a insólita reviravolta que trouxe o francês à tona (sem me explicar melhor, para não ser spoiler): Deus protege as crianças e os loucos… na hora certa e mais imprevista, quando a realidade ultrapassa a ficção. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas) 

___________________

(1) Série desdobrada em 2 partes, sobre «La Bataille de Gaulle», seguindo a ficha técnica do primeiro filme:

TÍTULO ORIGINAL: De Gaulle: Résistance – L’âge de Fer 

TÍTULO TRADUZIDO EM PORTUGUÊS: De Gaulle: Resistência

REALIZADOR: Antonin Baudry

ARGUMENTO: Antonin Baudry e Bérénice Vila

OBRA LITERÁRIA DE INSPIRAÇÃO: «A Certain Idea of France: The Life of Charles De Gaulle de Julian Jackson

ELENCO:
- Simon Abkarian – De Gaulle
- Simon Russel Beale - Churchill
- Florian Lesieur – Ferdinand
- Anamaria Vartolomei -  Livia
- Mathieu Kassovitz – Almirante Darlan
- Adèle Jayle- Yvonne de Gaulle 
- Campbell Scott - Roosevelt 
- Karim Leklou  - Blazej (secretário de De Gaulle)
- Alain Libolt  - Mar.Pétain 

PRODUÇÃO: Pierre Cottereau e Giora Bejach

PRODUÇÃO E DISTRIBUIÇÃO: Pathé

BANDA SONORA: Volker Bertelmann (1º filme)  e Théo Cascio (2º filme)

DATAS:
-  20.Maio.2026 – estreia em Cannes
-  3.Junho.2026 (Résistance)
-  26.Junho.2026 (Liberté)

DURAÇÃO:
-  158 minutes (Résistance) 
-  159 minutes (Liberté) 

NACIONALIDADE DO FILME: França e Bélgica

LÍNGUAS FALADAS (PRINCIPAIS): Francês e inglês

01 novembro 2026

Solenidade de Todos os Santos

 EVANGELHO – Mt 5,1-12

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se.
Rodearam-n’O os discípulos
e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
«Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados os humildes,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que choram,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa,
vos insultarem, vos perseguirem
e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa».

31 outubro 2026

Pensamentos Impensados

Tive um primo que viveu em Londres no tempo dos célebres nevoeiros (smog) e dizia: não me faz diferença, alugo um cego.

Quer ver cenas picantes? Experimente pôr piripiri nos olhos.

Nem tudo o que vem à rede é peixe; às vezes é o tenista.

Devagar se vai ao longe; a divagar não se vai longe.

Vi, não me lembro onde, um restaurante que publicitava vinhos, petiscos e seus derivados. Derivado de petisco deve ser a indigestão; de vinho só se for a bebedeira e o vómito.

Há tipos que são "bons garfos". Jack, o Estripador, era uma "boa faca".

SdB (I)


30 outubro 2026

Poemas dos dias que correm

 XXIV. E AJOELHANDO-ME NA MARGEM DO MAR TRANSPARENTE FAREI PARA MIM UM NOVO CORAÇÃO DE SAL E LAMA


Uma esposa está debaixo das garras do ser.
Fácil dizer Porque não desistir disto?
Mas suponhamos que o teu marido e uma certa mulher obscura
gostam de se encontrar num bar ao princípio da tarde.
O amor não é condicional.
Viver é muito condicional.
A esposa posiciona-se numa varanda fechada do outro lado da rua.
Observa a mulher obscura
estica-se para lhe tocar a têmpera como que inserindo algo.
Observa-o
dobrar-se ligeiramente para a mulher e para trás. Os dois estão sérios.
A seriedade deles arruína-a.
Pessoas que conseguem ser sérias em conjunto, é profundo.
Têm uma garrafa de água mineral na mesa entre eles
e dois copos.
Não há necessidades inebriantes!
Quando é que ele desenvolveu
este novo gosto puritano?
Um navio frio
sai de um porto algures dentro da esposa
e desliza em direcção ao horizonte plano e cinzento,

nem um pássaro nem um sopro à vista.

Anne Carson (Prémio Nobel de Literatura de 2026)
(Canadá, 1950 - )
In "A Beleza do Marido"
(Tradução de Tatiana Faia)

28 outubro 2026

Textos dos dias que correm

 

Florença, Maio de 2011

O Solitário

O solitário leva uma sociedade inteira dentro de si: o solitário é multidão. E daqui deriva a sua sociedade. Ninguém tem uma personalidade tão acusada como aquele que junta em si mais generalidade, aquele que leva no seu interior mais dos outros. O génio, foi dito e convém repeti-lo frequentemente, é uma multidão. É a multidão individualizada, e é um povo feito pessoa. Aquele que tem mais de próprio é, no fundo, aquele que tem mais de todos, é aquele em quem melhor se une e concentra o que é dos outros.

(...) O que de melhor ocorre aos homens é o que lhes ocorre quando estão sozinhos, aquilo que não se atrevem a confessar, não já ao próximo mas nem sequer, muitas vezes, a si mesmos, aquilo de que fogem, aquilo que encerram em si quando estão em puro pensamento e antes de que possa florescer em palavras. E o solitário costuma atrever-se a expressá-lo, a deixar que isso floresça, e assim acaba por dizer o que todos pensam quando estão sozinhos, sem que ninguém se atreva a publicá-lo. O solitário pensa tudo em voz alta, e surpreende os outros dizendo-lhes o que eles pensam em voz baixa, enquanto querem enganar-se uns aos outros, pretendendo acreditar que pensam outra coisa, e sem conseguir que alguém acredite.

Miguel de Unamuno, in 'Solidão'

***

O Solitário

As observações e as vivências do solitário que só fala consigo próprio são simultaneamente mais indistintas e intensas do que as do homem social e os seus pensamentos são mais graves, mais fantasiosos e nunca sem uma coloração de melancolia. Imagens e impressões que outros poriam naturalmente de lado após um olhar, um sorriso, um comentário, ocupam-no mais do que é devido, tornam-se profundas no silêncio, ganham significado, transformam-se em acontecimento, aventura, emoção. A solidão cria o original, o belo ousado e estranho cria a poesia. Mas cria também o distorcido, o desproporcionado, o absurdo e o proibido.

Thomas Mann, in "Morte em Veneza"

27 outubro 2026

Crónicas de um doutorando tardio

 


Hoje de manhã, numa sala da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, defenderei a minha tese de doutoramento. 

Gosto de datas e gosto de rituais; gosto de 'casar' acontecimentos, canetas, pessoas, músicas. Gosto de associar momentos importantes na minha vida a objectos ou a memórias, a santos ou a passagens relevantes do Evangelho do dia. O dia em que defendo a tese não coincide com nada de particularmente relevante na minha vida ou nos meus interesses; mas o ano sim. Na verdade, completam-se este ano 25 anos sobre o início e fim de um processo doloroso que tinha 'oncologia pediátrica' como marca de água: iniciou-se no dia 19 de Março de 2001, terminou no dia 4 de Novembro desse mesmo ano.

Esta tese específica é fruto, também, de um sortilégio. Na minha mente estava um tema bem diferente, todo ele relacionado com despojamento, com a ideia de que less is more. Em três ano escrevera pouco mais de 30 páginas, das quais se aproveitaria pouco. Era o tempo da minha presidência da Childhood Cancer International que se tornaria num voluntariado em full time. Até que um dia alguém me desafiou à mudança radical de tema: do despojamento passava para a oncologia pediátrica e para as narrativas dos Pais que passam por este processo - era preciso 'capitalizar' a minha experiência de Pai e presidente de uma organização nacional e internacional de Pais de crianças com cancro. E fechar um ciclo que se iniciara há 25 anos.

Não cabe na dimensão de um post o gosto que deu a escrita das 200 páginas: entrevistei Pais, revisitei temas que me eram obsessivos há muito tempo, li sobre morte, luto, sofrimento, esperança, sentido da vida, alegria, histórias, fé e milagres. Desafiei-me a cruzar literatura com filosofia com narratologia com testemunhos, aprendi o que eram grupos focais, revi mentalmente centenas de pessoas com histórias difíceis, cheias de sentido ou de revolta. 

Tenho a nítida sensação de que me atirei para fora de pé. A memória falha-me, não tenho experiência nem vocabulário académico, domino apenas uma parte muito diminuta da tese, tenho medo de não perceber todas as perguntas, ou dar respostas demasiado básicas. Alguém me desejava boa sorte para o momento, acrescentando 'have fun!' O meu 'fun' virá quando o júri se der por satisfeito e me mandar sair da sala para deliberar. Até lá sou apenas um homem enervado, ansioso, com uma secreta esperança de receber um telefonema: 'olhe, foi tudo adiado...'.

Adeus, até ao meu regresso...

JdB      

25 outubro 2026

XXX Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO – Mateus 22,34-40

Naquele tempo,
os fariseus, ouvindo dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus,
reuniram-se em grupo,
e um doutor da Lei perguntou a Jesus, para O experimentar:
«Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?».
Jesus respondeu:
«‘Amarás o Senhor, teu Deus,
com todo o teu coração, com toda a tua alma
e com todo o teu espírito’.
Este é o maior e o primeiro mandamento.
O segundo, porém, é semelhante a este:
‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’.
Nestes dois mandamentos se resumem
toda a Lei e os Profetas».

24 outubro 2026

Pensamentos Impensados

Fruto estragado: As doenças do fígado podem ser fruto de hepatite. A obesidade é fruto do apetite.

Coceiras: fez tudo para ser homem estátua mas nunca conseguiu; tinha bicho-carpinteiro.

Modas: já na antiga Roma havia guerras entre os costureiros; daí as guerras túnicas.

Culinária: para se fazer arroz de cabidela será necessário saber o tipo de sangue da galinha?

Contorcionismo: devido a problemas de coluna já se me torna difícil chegar aos pés; Ou seja, não estão do pé para a mão.

Culinária: as cebolas eram tão boas que eram de cortar e chorar por mais.

SdB (I)

23 outubro 2026

Poemas dos dias que correm

 Teoria das cores

Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.
 
O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor – sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
 
Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.
 
Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.  
 
herberto helder
os passos em volta
assírio & alvim
2001

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