14 outubro 2026

Um dia um homem também chora *

 A tua guerra, essa luta que travas contra mim, contra todos a quem chamas oponentes, é só tua. Começou, eras menino. Houve uns olhos que te olharam e a denunciaram, um coração em desespero que a partilhou contigo, uma boca que não conseguiu calar a voz amargurada da angústia. Há muitos homens em combate como tu. Que arremessam pedras, disparam tiros e põem bombas durante uma vida inteira. Cegos de raiva. Em toda a esquina topam o inimigo, em cada alma auguram o traidor. Carregam desde meninos a dor de alguém que amaram e que os amou, devolvem-na ao mundo, espalham-na à sua volta, sem nunca duvidarem do que sentem. Erguem o indicador sobre quem estiver à mão, em pequena ou grande falha, ignorando que nesse gesto outros quatro dedos apontam, na sua própria direcção. Não reparam, ocupados que estão na sua douta opinião. “Estarei equivocado?”, é questão que não reclama naquelas mentes. As guerras vêem de longe, sim. Destroem o teu mais intenso amor, a tua paz, a fraternidade que tantas vezes apregoas. Há muito, muito tempo, eras tu tão pequenino, e foi profundamente injusto, insano, inconsequente. 

Homens, procurem a origem do vosso inferno. Persigam a razão da vossa guerra. Revejam, tim-tim por tim-tim, o que assistísteis quando meninos. De que misérias fostes vós testemunhas caladas entre os jogos de bola, o caminho da escola, os fins de tarde, as manhãs de sábado, os passeios de domingo, a ida à missa? No vosso quarto, à mesa de jantar, no silêncio aterrador da madrugada? Do que sentistéis, talvez não tereis lembrança. Ou surgirão vagas recordações de uma criança simplesmente amedrontada. Mas ficai certos: dentro de vós, como num papiro milenar, se guardam tais vivências descritas ao milímetro. Têm a forma de terríveis consequências e poder sobre a vossa condição. Desabrocham como ervas daninhas entre as vossas opiniões, acções, reflexões. Toldam o timbre das vozes e manipulam os gestos mais naturais. Homens, não se detenham. Procurai a origem do vosso inferno, a razão de toda a guerra, e voai, sem medo. 

DaLheGas

* publicado originalmente a 18 de Julho de 2009

13 outubro 2026

Textos dos dias que correm

O Princípio da Simpatia e Antipatia

O princípio da simpatia e antipatia tende ao máximo a pecar por severidade excessiva. Tende ele a aplicar castigo em muitos casos em que é injusto fazê-lo, e, em casos em que se justifica uma punição, a aplicar severidade maior do que a merecida. Não existe acto algum imaginável, por mais trivial e por menos censurável que seja, que o princípio da simpatia e antipatia não encontre algum motivo para punir. Quer se trate de diferenças de gosto, quer se trate de diferenças de opinião, sempre se encontra motivo para punir. Não existe nenhum desacordo, por mais trivial que seja, que a perseverança não consiga transformar num incidente sério. Cada qual se torna, aos olhos do seu semelhante, um inimigo e, se a lei o permitir, um criminoso. Este é um dos aspectos sob os quais a espécie humana se distingue - para seu desabono - dos animais.

Por princípio de simpatia e antipatia entendo o princípio que aprova ou desaprova certas acções, não na medida em que estas tendem a aumentar ou a diminuir a felicidade da parte interessada, mas simplesmente pelo facto de que alguém se sente disposto a aprová-las ou reprová-las.Os partidários deste princípio mantêm que a aprovação ou a reprovação constituem uma razão suficiente em si mesma, negando a necessidade de procurar qualquer fundamento extrínseco. Isto, no sector genético da moral; na área específica da política, tais autores avaliam o grau da punição de acordo com o grau de desaprovação.


Jeremy Bentham, in 'Uma Introdução aos Princípios da Moral e da Legislação'

11 outubro 2026

XXVIII Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO – Mateus 22,1-14

Naquele tempo,
Jesus dirigiu-Se de novo
aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo
e, falando em parábolas, disse-lhes:
«O reino dos Céus pode comparar-se a um rei
que preparou um banquete nupcial para o seu filho.
Mandou os servos chamar os convidados para as bodas,
mas eles não quiseram vir.
Mandou ainda outros servos, ordenando-lhes:
‘Dizei aos convidados:
Preparei o meu banquete, os bois e os cevados foram abatidos,
tudo está pronto. Vinde às bodas’.
Mas eles, sem fazerem caso,
foram um para o seu campo e outro para o seu negócio;
os outros apoderaram-se dos servos,
trataram-nos mal e mataram-nos.
O rei ficou muito indignado e enviou os seus exércitos,
que acabaram com aqueles assassinos e incendiaram a cidade.
Disse então aos servos:
‘O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos.
Ide às encruzilhadas dos caminhos
e convidai para as bodas todos os que encontrardes’.
Então os servos, saindo pelos caminhos,
reuniram todos os que encontraram, maus e bons.
E a sala do banquete encheu-se de convidados.
O rei, quando entrou para ver os convidados,
viu um homem que não estava vestido com o traje nupcial.
E disse-lhe:
‘Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?’.
Mas ele ficou calado.
O rei disse então aos servos:
‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o às trevas exteriores;
aí haverá choro e ranger de dentes’.
Na verdade, muitos são os chamados,
mas poucos os escolhidos».

10 outubro 2026

Pensamentos Impensados

Caçadas. Quem rouba fruta chama-se caçador frutífero.

Veterinária. Hipo-tenusa é uma doença dos cavalos.

Publicidade. Vi um anúncio a sapatos em segunda mão; não faz sentido. A única coisa em segunda mão são as luvas.

Culinária. Fabergé, o grande fabricante de ovos, saberia fazer ovos estrelados?

Dinheiro. Tenho uma máquina de fazer notas falsas, mas está obsoleta: só faz escudos. Pelo sim, pelo não, vou guardá-la.

SdB (I) 

09 outubro 2026

Poemas dos dias que correm

 Canção do verdadeiro abandono

Podem todos rir de mim,
Podem correr-me à pedrada
Podem espreitar-me à janela
E ter a porta fechada.
 
Com palavras de ilusão
Não me convence ninguém.
Tudo o que guardo na mão
Não tem vislumbres de além.
 
Não sou irmã das estrelas,
Nem das pombas, nem dos astros.
Tenho uma dor consciente
De bicho que sofre as pedras
E se desloca de rastros.  
 
Natércia Freire
rio infindável (1947)
antologia poética
assírio & alvim
2001

07 outubro 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 AS NOVAS 7 MARAVILHAS DE PORTUGAL 

Em 2007, foram votadas pelo público a escolha das 7 maravilhas do património e da identidade nacionais, aproveitando o facto de estar a decorrer a atualização das novas 7 Maravilhas do Mundo, que foram anunciadas, em Lisboa, no dia 7 do mês 7 (Julho). 

Inspirada nas maravilhas globais, nasceu o projeto «7 Maravilhas de Portugal» (https://7maravilhas.pt/), que continua a submeter à votação popular e das autarquias a escolha de novas maravilhas arquitectónicas, gastronómicas, paisagísticas, etc. Uma das categorias mais interessante (creio) incide sobre as maravilhas portuguesas além-fronteiras. Impressiona a quantidade e a qualidade de muitas, fruto dos cinco séculos da presença portuguesa pelas quatro partidas do mundo. 

Este ano, as novas maravilhas nacionais foram anunciadas em Sintra, no dia 12 de Setembro, recaindo sobre um grupo variado de espaços, que evita repetir os monumentos mais óbvios, já votados em sondagens anteriores. As novas coqueluches têm em comum a riqueza histórica característica de um país antigo:  

Castelo de Leiria, mandado construir por D.Afonso Henriques, em 1135.
Bem preservado, vale a visita. 

O Aqueduto (maneirista) da Usseira, em Óbidos, que foi iniciado em 1573, no reinado de D.João III.

Ruínas da vila romana de São Cucufate Ruins, em Vila de Frades.
À dta. - versão reconstruída da casa principal. 

Sé Catedral de Lisboa, edificada logo após a conquista da cidade aos mouros, no alvor da nacionalidade – 1147, mas só concluída no século seguinte, por volta de 1220.

Junto à Ria Formosa, subsistem os Mercados de Olhão (do 1º quartel do séc.XX), um para o peixe e outro para os legumes. Em estrutura de ferro, revestida a tijolo e vidro, adoptou a moda das grandes construções da Revolução Industrial. 

Ousadia arquitectónica, do início do séc.XXI (2004), abriga a Casa Vinícola “Tiago Cabaço”,
localizada na Quinta da Berlica, em Estremoz.

Jardim barroco do Paço Episcopal de Castelo Branco deslumbra pela azulejaria, as estátuas, os inúmeros lagos com jogos de água, as escadarias em pedra para o acesso aos diferentes patamares e os canteiros dos jardins à francesa. Datado do séc.XVIII, foi dedicado a S.João Baptista e encontra na água o elemento central, símbolo da purificação. Durante a República, passou para a posse do Estado.

Abrigado junto ao Atlântico, este país milenar teve a arte de resistir às ofensivas de Castela, de cruzar raças e civilizações e de se esgueirar mar adentro para crescer e se desenvolver em paragens mais longínquas. Assim recebeu (e deixou) influências da Ásia, de África, das Américas, consolidando uma matriz sábia, subtil, feita de muitos silêncios e poesia. Alguma conseguiu chegar ao fado, como cantou Amália na composição de José Régio sobre o mais famoso canto português. Outra continuou só nas letras, como Florbela Espanca nas linhas onde repassou o país:  

« O TEU OLHAR  (…)

Mares onde não cabem teus desejos; 
Passam no teu olhar mundos inteiros,
Todo um povo de heróis e marinheiros,
Lanças nuas em rútilos lampejos;

Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,
Em centelhas de crença e de certeza! 

E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!»


Hoje, cumprindo-se outra tradição mariana e muito portuguesa, a AIS (Ajuda à Igreja que Sofre) volta a juntar um Milhão de Crianças para rezar o Terço pela paz no mundo.  Caberá aos mais novos animar a oraçao, transmitida a partir da Capelinha das Aparições (Fátima), às 18h30.  Esperemos que o clamor dos mais novos ajude a aliviar as tensões dramáticas destes tempos tão agitados, que resistem mal a tanta provocação perigosa... 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

06 outubro 2026

Moleskine *

Desceu a rua, atravessou a estrada e voltou à esquerda. Esperou que o comboio das vinte e oito passasse antes de se aventurar no túnel. Não havendo memória de acidentes naquele túnel, ele sabia que o receio lhe assentava mal, como uma pústula incomodativa na face imberbe de uma criança. Repetiu rotinas: olhou para o mar, depois para a direita e para a esquerda, fixou as horas no telemóvel. Só depois se atirou a uma espécie de marcha lenta, algo semelhante a um passeio rápido. 

Ao quilómetro 1,250 cruzou-se com a russa, corpo de lançadora de peso, que palmilhava falando demoradamente ao telefone; alguns metros depois encontrou a jovem adolescente que corria ligeira e que sempre o impressionara pela magreza dos pés, pernas, coxas e ancas, transformando a futura maternidade num exercício quase impossível: onde caberia um feto com três quilos ali dentro? Continuou o passeio e cruzou-se com a temente a Deus, pouco antes do quilómetro 2,500, uma caminhante de braços muito abertos, com um terço numa mão e uma garrafa de água na outra, acenando a toda a gente, como se o mundo dela girasse entre avé-Marias e catiões; já ao quilómetro 2,850 encontrou a rapariga bonita e com boa figura, rondando os 30 anos, que se cruzava com ele baixando os olhos, vítima inconsciente, quiçá, de uma cultura injusta de submissão feminina; mais à frente era o bancário absorto na sua música, depois o idoso com os pés metidos para dentro num andar vagaroso, a senhora elegante que ao longe poderia ser uma das próprias filhas, o que a tornaria numa tia dos netos que já tinha, e ainda os atletas que corriam suados e esforçados, ou as colegiais que àquela hora matutina já fumavam junto às gaivotas e beijavam os namorados numa boca que ainda sabia a noite.

No dia seguinte tudo se repetia: o túnel, a russa, o bancário talvez não, o idoso dos pés metidos para dentro, a adolescente com a espessura de um pergaminho, as colegiais de beijos dengosos e cabelos matutinos já a cheirar a fumo, a rapariga dos 30 anos que baixava os olhos e cujo oscilar dos braços era ligeiramente assimétrico, a temente a Deus, os atletas e mais o homem que punha as cadeiras da esplanada num alinhamento de zona exclusiva, os pescadores, os jovens surfistas a olhar para o mar e a cavalgar a onda, o homem com o labrador, a estrangeira a dar instruções alemãs ao rafeiro, as duas amigas entretidas na sua conversa, o antigo ministro, e tantos outros. De todos estes personagens fixaria a rapariga dos 30 anos pela graça física e pelo mistério, inventando-lhe histórias, imaginando-lhe livros preferidos, motivos de riso e de choro, irmãos, namorados, intensidade dos beijos, fetiches, desejos, bolos preferidos, formas do corpo, sensualidades escondidas. 

Tudo se intensificaria quando uma dia, numa distracção qualquer, quase chocara com ela e lhe pedira desculpa, tocando-lhe ao de leve num braço. Sorriram, porque afinal já se conheciam dali, de todos os dias, do quilómetro 2,850, talvez, ou um pouco antes, se ele passasse o túnel antes do comboio das vinte e oito. Ao cruzarem-se na volta inversa voltaram a sorrir um para o outro e ela corou, olhando para o chão, engolindo a resposta a um até amanhã que ansiava por um sinal claro.   

Mudemos de tempo verbal. 6ªfeira desce a rua, atravessa a estrada, e volta à esquerda. Espera que passe o comboio e atravessa o túnel. O mar está alteroso, nuvens negras formam-se no céu a uma velocidade vertiginosa. Olha para a esquerda e para a direita, fixa as horas no telemóvel. Começa a andar mas não encontra ninguém, porque o tempo não está propício nem mesmo para os atletas, e as colegiais beijarão os namorados de calças caídas noutro lugar menos bonito, mas igualmente eficiente para o fim em questão. Dois minutos depois caem bolas de golfe do céu, como se o granizo fosse vómito mecânico de um dispositivo desregulado e violento. Regressa rapidamente ao túnel que se transforma agora no seu nautilus, no seu mundo seguro onde tudo está ao alcance de uma mão, ainda que o universo desabe em água e gelo. Dois minutos depois, ao som de uma trovoada gigante, entra a rapariga dos 30 anos, e os olhares de ambos cruzam-se numa fugacidade quase incómoda. Estão ali os dois, em silêncio e numa prisão, porque abandonar o túnel é largar a nave rumo à ausência da gravidade, à inexistência das coisas. 

Há o medo do granizo, do ruído, do mar alteroso, da escuridão que tudo envolve, da água onde já se chapinha nas extremas do túnel. Há o desejo latente, a protecção, a certeza de que nada mais mexe a não ser o coração de cada um, o sangue que corre desenfreado nas veias, uns braços que se agitam numa ligeira assimetria, uns olhos que fixam o chão num pudor de faces coradas, a curvatura de umas costas que desaguam em duas dunas, umas mãos que querem soltar-se. Há uma respiração mais ofegante e que projecta fumos intensos, uma aproximação gradual dos corpos e das vontades, o granizo, o vento, duas bocas entreabertas, dois rostos que se vêm embora vislumbrem ambos o mar que cresce ao limite do temor físico. Não há nomes, apenas encontros regulares ao quilómetro 2,850 ou antes, depende do comboio das vinte e oito, das greves, da operacionalidade do material circulante, da resistência da catenária.

O telefone toca insistentemente, metalicamente, inoportuno e desajeitado. Do lado de lá uma voz irritada:

- Estou! Zé Maria? É o Martim. Eh pá, estou cá em baixo há meia-hora! Adormeceste, pá?  

Zé Maria, assim se chama ele, olha em volta do quarto, agitado e confuso. Vê os livros de gestão hoteleira, o retrato do avô quando fez 80 anos, a saga do senhor dos anéis, o diploma de melhor jogador juvenil no seu primeiro torneio de golfe, as fotografias com a Carlota em Aspen e Angra dos Reis, a prancha de surf, uma gravata com o nó ainda feito, umas calças de fazenda atiradas para uma cadeira, a fotografia da mãe com o padrasto em Veneza, do pai com um capacete na Arábia Saudita, da irmã não sabe onde. Olha em volta e não encontra a rapariga dos 30 anos, não vê granizo, não ouve o mar, não sente o vento nem a curvatura de umas costas que desaguam em duas dunas. 

- Ouve lá, Martim. Se eu adormecer agora ainda consigo recuperar um sonho? 

JdB

* publicado originalmente a 26 de Fevereiro de 2013

04 outubro 2026

XXVII Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Mt 21,33-43

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo:
«Ouvi outra parábola:
Havia um proprietário que plantou uma vinha,
cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar
e levantou uma torre;
depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe.
Quando chegou a época das colheitas,
mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos.
Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos,
espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram-no.
Tornou ele a mandar outros servos,
em maior número que
os primeiros.
E eles trataram-nos do mesmo modo.
Por fim, mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo:
'Respeitarão o meu filho'.
Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si:
'Este é o herdeiro;
matemo-lo e ficaremos com a sua herança'.
E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no.
Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?».
Eles responderam:
«Mandará matar sem piedade esses malvados
e arrendará a vinha a outros vinhateiros,
que lhe entreguem os frutos a seu tempo».
Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura:
'A pedra que os construtores rejeitaram
tornou-se a pedra angular;
tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos'?
Por isso vos digo:
Ser-vos-á tirado o reino de Deus
e dado a um povo que produza os seus frutos».

03 outubro 2026

Pensamentos Impensados

Sim e não. Manuel Alegre escreveu há sempre alguém que diz não. Por que razão Elizabeth Taylor, Henrique VIII e Charlie Chaplin casaram tantas vezes? Porque há sempre alguém que diz sim.

Judiarias. Sabia tão pouco da religião judaica que pensava que Tora era aquele bocado de chouriço que se põe no caldo verde.

Sufrágios. Dizem que os judeus são um povo eleito; eu pensava que povo eleito eram os deputados.

Doença. O aparecimento de gordura à volta da cintura, a partir de uma certa idade, é uma doença, e chama-se pneu-monia.

A mesma doença. Pessoas que só pensam em livrar-se do pneu sofrem de pneu-mania.

SdB (I)

 

02 outubro 2026

Poemas dos dias que correm *

 O olho que vê

Os cães pequenos olham para os cães grandes;
Observam as intratáveis dimensões
E as curiosas imperfeições do odor.
Eis um grupo de machos compenetrados:
Os homens jovens olham de cima os mais velhos
Consideram-lhes a mente de meia-idade
Observam-lhes as correlações inexplicáveis.

Tsin-Tsu disse:
Somente nos cães pequenos e nos jovens
Encontramos a observação minuciosa.

ezra pound
antologia poética
personae
tradução m. faustino
editora ulisseia
1960

* tirado daqui

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