07 agosto 2026

Textos dos dias que correm

 Perdoar e Esquecer 

Perdoar e esquecer equivale a jogar pela janela experiências adquiridas com muito custo. Se uma pessoa com quem temos ligação ou convívio nos faz algo de desagradável ou irritante, temos apenas de nos perguntar se ela nos é ou não valiosa o suficiente para aceitarmos que repita segunda vez e com frequência semelhante tratamento, e até de maneira mais grave. Em caso afirmativo, não há muito a dizer, porque falar ajuda pouco. Temos, portanto, de deixar passar essa ofensa, com ou sem reprimenda; todavia, devemos saber que agindo assim estaremos a expor-nos à sua repetição. Em caso negativo, temos de romper de modo imediato e definitivo com o valioso amigo ou, se for um servente, dispensá-lo. Pois, quando a situação se repetir, será inevitável que ele faça exactamente a mesma coisa, ou algo inteiramente análogo, apesar de, nesse momento, nos assegurar o contrário de modo profundo e sincero. Pode-se esquecer tudo, tudo, menos a si mesmo, menos o próprio ser, pois o carácter é absolutamente incorrigível e todas as acções humanas brotam de um princípio íntimo, em virtude do qual, o homem, em circunstâncias iguais, tem sempre de fazer o mesmo, e não o que é diferente. (...) Por conseguinte, reconciliarmo-nos com o amigo com quem rompemos relações é uma fraqueza pela qual se expiará quando, na primeira oportunidade, ele fizer exactamente a mesma coisa que produziu a ruptura, até com mais ousadia, munido da consciência secreta da sua imprescindibilidade. 

Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'

***

O Perdão e a Promessa

Se não fôssemos perdoados, eximidos das consequências daquilo que fizemos, a nossa capacidade de agir ficaria por assim dizer limitada a um único acto do qual jamais nos recuperaríamos; seríamos para sempre as vítimas das suas consequências, à semelhança do aprendiz de feiticeiro que não dispunha da fórmula mágica para desfazer o feitiço. Se não nos obrigássemos a cumprir as nossas promessas não seríamos capazes de conservar a nossa identidade; estaríamos condenados a errar desamparados e desnorteados nas trevas do coração de cada homem, enredados nas suas contradições e equívocos - trevas que só a luz derramada na esfera pública pela presença de outros que confirmam a identidade entre o que promete e o que cumpre poderia dissipar. Ambas as faculdades, portanto, dependem da pluralidade; na solidão e no isolamento, o perdão e a promessa não chegam a ter realidade: são no máximo um papel que a pessoa encena para si mesma. 

Hannah Arendt, in 'A Condição Humana'

05 agosto 2026

Poemas dos dias que correm

Sítio do costume, hora do costume

Pecados capitais

Cada vez que tive vontade e pude
entreguei-me à gula e à luxúria.
Com a preguiça vivo amancebada.
Só fui seduzida pela avareza
como meio para outros desvios.
Sempre me mostrei irada e soberba,
orgulhosa, arbitrária e teimosa.
Talvez por isso não sentisse inveja.
Tão segura de mim, tão inflexível,
não podia invejar nada nem ninguém.
Hoje, contudo, derrotada e só,
sem esperança e vencida, tão inútil,
sinto inveja de mim quando me amavas. 

amalia bautista
estou ausente
tradução de inês dias
averno
2013

04 agosto 2026

Das perguntas *

Então o que tens feito? Poucas frases serão mais corriqueiras no convívio entre as pessoas. Para além da pergunta demonstrar um certo interesse aparente pelo próximo, é uma variante criativa à conversa sobre o tempo. Diga-se, contudo, que o tema tempo parece não interessar tanto às gerações modernas como às antigas que eram descendentes, muito próximas, ainda, de um meio de subsistência agrícola, de olhos postos no céu de onde caíam bênçãos imerecidas e chuvas a desoras. A pergunta que encima este texto encerra, no entanto, uma dificuldade importante: a que período de tempo nos referimos? Um dia, três semanas, uma vida? Quanto tempo mediou a penúltima e última vez que vimos a pessoa a quem dirigimos a pergunta?

Vem esta divagação, ainda com odores de Natal e excesso, a propósito de uma conversa tripartida sobre redes sociais, encontros antigos, amigos de longa data perdidos da nossa memória e, quem sabe, da vida. Ouvimos, amiúde, histórias de pessoas que encontram pessoas com quem conviveram há muitas décadas, que estão iguais ou mais gordas, ou que, em tempos idos, nos suscitaram suspiros, cartas de juvenilidade arrojada e olhares perdidos sobre o nada.

Então o que tens feito? Podia ter feito esta pergunta quando, numa viagem de avião, soube o nome do comandante: havia sido meu amigo próximo no fim da década de 60 e tinha-lhe perdido entretanto o rasto. Em resposta a uma solicitação, convidou-me a ir ao cockpit; sentei-me, olhei para um adulto que não via há 40 anos e percebi nada ter para lhe perguntar, uma vez que a pergunta óbvia era de uma inutilidade igualmente óbvia: com que discernimento se pergunta então o que tens feito? a quem está aos comandos de um avião? 

Então o que tens feito? Fizeram-me esta pergunta num casamento, altura particularmente propícia para conversas vagas e de circunstância elegante. Eu já me despedira dos 50 anos e tinha pela frente alguém que fora meu amigo quando eu tinha talvez 13 anos. Como se responde à pergunta? Queres que comece por que década? Talvez o problema esteja em achar-se que cada pergunta exige uma resposta, mesmo que esta seja educada, curta e vaga, como são as melhores. Podia responder nada, mas também podia responder ando por aí, ou, melhor ainda, faz-se o que se pode. Nenhuma das respostas possíveis dizia nada de mim, porque contar uma existência de 40 anos não é contar um jogo de futebol que se resume aos golos, aos erros do árbitro e a uma sequência misteriosa de números que soma sempre dez.

Kyoto, Novembro 2018

Nunca quis ter facebook. Vivo feliz com essa opção, pese embora ter ouvido grandes defensores dessa rede social onde, diziam-me, se podem encontrar pessoas de quem nada se sabe há décadas. As duas histórias acima são elucidativas da inutilidade do facebook, se essa for uma das suas virtudes. Ao meu amigo comandante da TAP não me ocorreu perguntar-lhe nada; ao meu amigo que encontrei num casamento não me ocorreu responder-lhe nada.  

Sobre a minha vida pouco há a dizer que suscite um interesse que se prolongue por mais de um gin tónico e de um croquete redondo. Grande parte da minha existência - a que se partilha num cockpit ou numa quinta alugada para eventos - é banalidade igual à banalidade de tantas e tantas pessoas. O que não é banalidade interessa a uma minoria de pessoas, ou não se adequa sequer à dinâmica de um Boeing ou de um cocktail. A minha vida (como a vida daqueles dois interlocutores) tem momentos marcantes - perdas significativas, conquistas importantes, momentos de indizível dor ou alegria, escolhas determinantes. Esses, no entanto, não se contam em cinco minutos: requerem tempo e atenção, curiosidade continuada pelas dinâmicas humanas. 

Entre a pergunta então o que tens feito? e a música de elevador há um fio unitivo que tem tanto de imperceptível como de eficiente: a sua existência não prejudica a riqueza das nações e é um bálsamo contra o silêncio que tanto horroriza a modernidade. A pergunta e a melodia são portas que se abrem para uma potencial conversa, ou são a antecâmara para uma noite secreta e pecaminosa num quarto que se detém por uma noite. O importante é que a pergunta não requeira resposta e a noite só termine a tempo do checkout

JdB  

* publicado originalmente a 27 de Dezembro de 2018

02 agosto 2026

XVIII Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Mt 14,13-21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
quando Jesus ouviu dizer que João Baptista tinha sido morto,
retirou-Se num barco para um local deserto e afastado.
Mas logo que as multidões o souberam,
deixando as suas cidades, seguiram-n'O a pé.
Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão
e, cheio de compaixão, curou os seus doentes.
Ao cair da tarde, os discípulos aproximaram-se de Jesus
e disseram-Lhe:
"Este local é deserto e a hora avançada.
Manda embora toda esta gente,
para que vá às aldeias comprar alimento".
Mas Jesus respondeu-lhes:
"Não precisam de se ir embora; dai-lhes vós de comer".
Disseram-Lhe eles:
"Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes".
Disse Jesus: "Trazei-mos cá".
Ordenou então à multidão que se sentasse na relva.
Tomou os cinco pães e os dois peixes,
ergueu os olhos ao Céu e recitou a bênção.
Depois partiu os pães e deu-os aos discípulos
e os discípulos deram-nos à multidão.
Todos comeram e ficaram saciados.
E, dos pedaços que sobraram, encheram doze cestos.

Ora, os que comeram eram cerca de cinco mil homens,
sem contar mulheres e crianças. 

31 julho 2026

Poemas dos dias que correm

Alcácer do Sal, Janeiro de 2021

Alcácer que vier

Em Alcácer eram verdes
as aves do pensamento.
Eram tão leves tão leves
como as lanternas do vento.
 
Em Alcácer eram verdes
os cavalos encarnados.
Eram tão fortes tão negros
como os punhos decepados.
 
Em Alcácer eram verdes
as armas que eu inventei.
Eram tão leves tão leves
tão leves que nem eu sei.
 
Em Alcácer eram verdes
os homens que não voltaram.
Eram tão verdes tão verdes
como os campos que deixaram.
 
Em Alcácer eram verdes
as maçãs feitas de lume.
Eram tão frias tão frias
como as dobras do ciúme.
 
Em Alcácer eram verdes
estas palavras que agora
são tão caladas tão cernes
tão feitas desta demora.
 
Em Alcácer eram verdes
as flores da sepultura.
Eram tão verdes tão verdes
tão verdes como a loucura.
 
Em Alcácer era verde
meu amor o teu olhar.
Era tão verde tão verde
quase à beira de cegar.
 
 
Em Alcácer eram verdes
os lençóis onde morri.
Eram tão frios tão verdes
como os campos que eu não vi.
 
Em Alcácer eram verdes
as feridas do meu país.
Eram tão fundas tão verdes
como este mal de raiz.
  
joaquim pessoa
125 poemas
antologia poética
litexa
1982

29 julho 2026

Vai um gin do Peter’s ?

PAIS DUAS VEZES

Felizmente que nos 365 dias do ano consagrou-se um dia para festejar os avós – o 26 de Julho –, associando à festa dos avós de um neto famosíssimo!... 

Nas divertidas colectâneas de conselhos dados por crianças, uma canadiana pequenina aconselhava os amigos a arranjar uma avó, se tivessem o azar de não haver disponíveis na família. De facto, muitas das melhores memórias da nossa infância estão associadas aos avós, aqueles pilares de ternura e de humor, que ajudaram a forjar a nossa identidade. Talvez sejam a memória que escolhemos para criarmos raízes e crescermos saudavelmente, cientes de serem aquele porto seguro, onde podemos abrigar-nos e recuperar forças, sentido até! Um testemunho reconhecível para muitos reza assim: ‘Quando jovem, não tinha tempo para os meus pais, mas amava muito os meus avós. Quando velho meus filhos não têm tempo para mim, mas sou amado pelos meus netos.’ É misterioso por que já só os apanhamos num ciclo mais avançado de vida, mais breve. 

As estatísticas confirmam o papel dos avós como educadores, chegando a assumir o papel principal em milhões de famílias, por anos a fio, sobretudo quando os pais precisam de emigrar para outro país ou outra região. Isto sem falar das rotinas mais comuns, de lhes caber ir buscar os netos à escola, de serem os confidentes ideias, além da sua arte para manterem a família unida.  

Relato gráfico do episódio de Timurid, o Conquistador, a procurar o conselho da avó.


Um texto antológico (mais um) do Cardeal Tolentino explica os seres maravilhosos que são os avós. Poderiam ser as figuras inspiradoras e os PT das ‘fadas madrinhas’, incumbidas de ajudar as criancinhas a amadurecer com ânimo, a desenvolver talentos, no fundo, a dar rumo à vida abrindo-lhe um horizonte luminoso.

A ARTE DOS AVÓS 

«Os avós são mestres de uma arte esplêndida e rara: a arte de ser. 

Os avós sabem tornar um mero encontro quotidiano numa apetitosa celebração. Sabem olhar e olhar-nos sem pressas, vendo-nos esperançosamente mais adiante. Sabem dar valor às coisas de nada. 

Nunca consideram que quando se entretêm connosco estão a perder tempo, muito pelo contrário. Sabem que o amor dá-se bem com essa gratuita co-divisão. 

Os avós são docemente silenciosos, mesmo se muito tagarelas. 

Os avós parecem distraídos, e isso é bom. 

Os avós caminham a nosso lado sem pressa. Têm tanto de distante como de próximo no arco do tempo. Têm uma sabedoria que se expressa por histórias calorosas e não por conceitos. Têm uma memória que nos parece inesgotável, cheia de aventuras, de bagatelas e de detalhes para divertir. Têm armários carregados de objetos (alguns incompreensíveis) que nos põem a sonhar. Apresentam-nos a gostos e a sabores que passamos a identificar com eles. Os avós já foram muitas vezes aos lugares onde nos levam pela primeira vez.

Chamam a atenção para coisas incalculáveis, como a forma de uma nuvem ou a cor diferente que ganham as folhas. Ensinam-nos com serenidade, colocando-se a nosso lado. Nunca acham despropositada a fantasia, nem os medos, nem o mimo. Têm o sentido das pequenas coisas e colos onde cabem as grandes. 

Eles não separam, como o resto das pessoas, aquilo que é útil do que é inútil. Fazem-nos sentir que é assim, que já passaram por isso e que existe uma solução que nos vão revelar, só a nós, como um grande segredo. 

Amparam os nossos desequilíbrios com o corrimão invisível e seguro do seu afeto, disponíveis degrau a degrau. Adivinham o que não dizemos sem se confundirem com a nossa confusão. 

Quando não estão connosco, pensam em nós, repetem aos amigos as frases que dissemos, disputam-nos, orgulham-se de coisas parvas, como o modo como sorrimos ou respiramos. 

Penso que se sentimos tão intensamente que os devemos salvar é porque percebemos, desde muito cedo, que somos salvos por eles.»

José Tolentino Mendonça
In  «The Dancing Words»

Por ocasião do Dia dos Avós, Leão XIV deu cinco recados aos mais velhos: há sempre alguém que nunca os esquece e os ama incondicionalmente, começando por Deus; são muito mais do que a sua provecta idade e as eventuais fragilidades, pois cada indivíduo continua a ser único e insubstituível, exactamente como quando estava na força da vida; nunca é tarde para recomeçarem e tentarem fazer melhor; a vulnerabilidade não devia assustá-los, pois o crescimento interior não é um exclusivo dos novos; por fim, as suas orações são valiosíssimas, assim como marcantes os seus gestos de amor com a família e com outros.  A própria Organização Mundial de Saúde emitiu, recentemente, uma recomendação, que valoriza o papel dos idosos, quando desaceleram, recuperando um ritmo tranquilo, capaz de saborear melhor a vida: ‘reduz o risco de demência gastar mais tempo à mesa, com a família e os amigos’ e praticar o diálogo inter-geracional.  

J.R. Tolkien recomendava: «Não despreze a tradição que vem de anos longínquos; talvez as velhas avós guardem na memória relatos sobre coisas que alguma vez foram úteis para o conhecimento dos sábios.» E Churchill, aconselhando a recuar às gerações que nos precederam, deixou este conselho lapidar à jovem rainha Isabel II: «The farther backward you can look, the farther forward you can see». Vivam os avós e a sabedoria imensa do seu legado vitamínico! 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

28 julho 2026

Da solidariedade com os que sofrem com o calor

 

Algarve, ontem, cerca das 20.30h

Algarve, ontem, cerca das 20.30h

Tal como milhões de outras pessoas, em Portugal ou na Europa, tenho vindo a viver sob o signo do calor. Ao contrário de muitos outros, no entanto, passei o mês quente de Julho em condições favoráveis, numa casa confortável, suficientemente perto de uma praia algarvia para se dispensar o carro, rodeado de ar condicionado, piscina e cerveja gelada, em a querendo. Apesar disso, deste burguesismo que consola o corpo, sofro com o calor. Atento na minha temperatura de conforto e percebo que posso estar 15ºC acima do que considero digno para um homem com um termostato próprio.

Não se liga muito aos que sofrem com o calor; na verdade, acha-se um bizarria - pode perceber-se, mas não deixa de ser uma bizarria. A sociologia (ou outra ciência semelhante) ou talvez mesmo a história das nações concorre para esta ideia. De facto, o sofrimento com o calor é esquisitice; já o sofrimento com o frio pode ser pobreza. Salvo em condições especiais - e tem havido casos - morre-se menos com o calor do que com o frio. Pode não ser preciso nada para se manter uma casa moderadamente fresca no pinho do Verão mas, no pico do Inverno será preciso recorrer a equipamentos e incorrer em despesas mensais para manter a casa moderadamente quente. E muitas das pessoas que morrem por efeitos do calor terão sido vítimas de descuido - pouca hidratação, golpes de calor excessivos para idades avanças, demasiado sol. O raciocínio não é replicável para as pessoas que morrem de frio, ou que vivem em pobreza energética. Por último, a uma criança com calor dá-se um cornetto e a vida segue em frente; ninguém aceita que uma criança tenha frio.

Tudo isto concorre para a mesma ideia - o desleixo a que são votados aqueles que, vítimas da canícula, suam de todas as pregas do corpo, ingerem líquidos em quantidades astronómicas, sentem a impossibilidade da pele hidratada e que assa como um bebé de fraldas sujas.

Sim, tenho cerveja gelada, ar condicionado, piscina, praia a oito minutos de caminhada lenta. Sou um privilegiado. Porém, não obstante, sofro com o calor...

JdB    

26 julho 2026

XVII Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Mt 13,44-52

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus às multidões:
"O reino dos Céus é semelhante
a um tesouro escondido num campo.
O homem que o encontrou tornou a escondê-lo
e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía
e comprou aquele campo.
O reino dos Céus é semelhante
a um negociante que procura pérolas preciosas.
Ao encontrar uma de grande valor,
foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola.
O reino dos Céus é semelhante
a uma rede que, lançada ao mar,
apanha toda a espécie de peixes.
Logo que se enche, puxam-na para a praia
e, sentando-se, escolhem os bons para os cestos
e o que não presta deitam-no fora.
Assim será no fim do mundo:
os Anjos sairão a separar os maus do meio dos justos
e a lançá-los na fornalha ardente.
Aí haverá choro e ranger de dentes.
Entendestes tudo isto?"
Eles responderam-Lhe: "Entendemos".
Disse-lhes então Jesus:
"Por isso, todo o escriba instruído sobre o reino dos Céus
é semelhante a um pai de família
que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas".

25 julho 2026

Pensamentos impensados

Ouve-se falar na reforma da Justiça. Será reforma por inteiro?

Vales à caixa... torácica. Entre os "peitos" das senhoras forma-se como que um vale. Nalguns casos pode ser considerado Silicone Valley.

O príncipe era tão feio que a Cinderela saiu à dez e meia.

Adivinha: o que tinham em comum Adão e Eça de Queiroz? Ambos eram filhos de mães incógnitas.

Tédio. Há tempos tive de ir a um hospital para fazer vários exames; a páginas tantas diz-me uma enfermeira: tem aqui esta aguinha para bocejar.

SdB (I)

24 julho 2026

Textos dos dias que correm

 Férias: Dieta da alma para o encontro com Deus, consigo e com quem está esquecido 

Logo na primeira página da Bíblia, também Deus, após ter trabalhado seis dias a erigir essa grandiosa arquitetura que é o universo, descansou (cf. Génesis 2, 1-4). Surgia, assim, esse “repouso” que na tradição judaica e cristã teve a sua expressão no sábado/domingo e que foi codificado no terceiro mandamento do Decálogo, a magna carta da moral.

O descanso, porém, não é uma espécie de página em branco a preencher com o mesmo frenesim do resto do ano (o Algarve ou a Caparica de verão serão diferentes de uma convulsa Lisboa ou Porto de um qualquer dia de semana fora das férias?). As imagens que se depositam sobre essa página são conhecidas: uma lenta coluna de automóveis e de mãos indignadas ao volante, as visitas turísticas esgotantes oscilando entre museus e praças, o “fast food” para engolir uma sandes ou uma bebida e o dedo sempre no telemóvel a deslizar e a digitar…

“Descanso”, todavia, também não é inércia vazia (a preguiça é um dos sete vícios capitais) (…). Por isso, porque não fazer uma pausa durante uma viagem diante de uma paisagem, estar mais demoradamente à frente de uma tela de um museu ou no silêncio gótico de uma catedral, seguir a trama de um livro, sentar-se debaixo de uma árvore como Newton ou imergir numa banheira como Arquimedes a refletir, ou no terraço a observar as estrelas como os magos, escutar uma música ou mesmo o silêncio?

A este último propósito, o escritor Alberto Moravia, que não era decerto um diretor espiritual, propunha no verão de 1964 aos seus leitores este conselho: «Para reencontrar uma verdadeira fonte de energia, é preciso redescobrir o gosto da meditação. A contemplação é o dique que faz subir a água na bacia e permite aos homens acumular de novo a energia interior que o ativismo lhe privou». Nesse silêncio, que elimina o excesso de decibéis, da gritaria, da tagarelice, pode praticar-se uma espécie de dieta da alma, que volta a ser capaz de rezar.

A pessoa consegue, então, olhar para o fundo da consciência, onde talvez se aninhem algumas víboras. No silêncio a leitura de um livro pode despertar o sono da razão, e se se trata do livro por excelência, a Bíblia, transforma-se também em «lâmpada para os passos no caminho» de vida.

Neste horizonte pode igualmente insinuar-se a presença implícita de um familiar ou de um conhecido idoso, doente, estrangeiro, isolado no calor sufocante de um condomínio, sem ninguém que se recorde dele, com o seu intercomunicador sempre mudo. Jesus diria hoje que um telefonema ou uma visita feita a esse irmão solitário seria como se fosse destinada a Ele mesmo: «Tudo aquilo que fizerdes a um só destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes» (Mateus 25, 40). 

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In Famiglia Cristiana
Trad. / edição: Rui Jorge Martins 

23 julho 2026

Em memória de Luís Represas (1956 - 2026)

A minha própria natureza e as várias circunstâncias da vida - nomeadamente andar muito menos de carro de há quase 20 anos para cá, o que implica que ouça menos telefonia - levam a que esteja pouco atento ao que se produz de música em Portugal. Nesse sentido, acompanhei muito pouco - talvez mesmo nada! - a produção musical de Luís Represas na sua fase pós-Trovante (em 1990, mais coisa menos coisa).

Nunca fui um indefectível dos Trovante, nunca fui um crítico dos Trovante. Ouvia o que gostava - e ouvia pouco, confesso. As músicas que aqui posto em jeito de homenagem musical não serão as melhores, seguramente, mas são as de que me lembro mais - e com gosto. Vila Viçosa e Timor unidos pela voz de Luís Represas.

JdB     


Acerca de mim

Arquivo do blogue