08 setembro 2026

Do espanto e do maravilhamento

Palácio Anjos (exposição de pintura de Graça Morais, Agosto de 2026) 

De um post destes dias no LinkedIn sobre o Relatório de Espanto: 

(...) Esta prática convida estudantes e investigadores a documentarem o momento exacto em que uma descoberta, uma leitura ou um dado científico os deixou genuinamente maravilhados. É o registo do “clique”, daquele instante em que a complexidade do mundo nos esmaga e nos fascina ao mesmo tempo. (...)

É verdade que o texto refere especificamente estudantes e investigadores; e não quero cair no lugar-comum, relativamente ao primeiro grupo, de que somos todos estudantes até ao final da vida, caso tenhamos vontade, disponibilidade e capacidade para aprender. Pode o pensamento replicar-se para o dia-a-dia de pessoas a chegar aos 70 anos, ou já para lá deles?

Janto com amigos: ela, professora universitária na Faculdade de Ciências; ele, engenheiro, com um percurso de gestor de sucesso, actualmente com um mindset religioso forte. Há outra pessoa ainda, muito pragmática e racional, dada a leituras “técnicas” (a ficção é praticamente inexistente na sua estante de interesses). O que nos espanta? Simplifico posições e argumentos em benefício da dimensão do texto.

Para a professora universitária, o espanto está na leitura de umas placas que pôs a incubar a diferentes temperaturas. O resultado desejado, talvez não esperado, espanta-a; e espanta-se ainda com a regularidade diária do nascer e do pôr do sol. Para o gestor, o espanto está na contemplação da maravilha da criação de Deus. Para a pragmática, o espanto está no facto de, num renque de três casas com piscina, as andorinhas virem em bando fazer voos rasantes na sua. Porque não na dos outros? Para outro amigo — não presente na discussão —, o espanto advém (também ou principalmente) do que vai lendo na voragem de livros que consome.

Não sei se os tempos actuais são férteis para o espanto (positivo ou negativo, já lá vou): a escola ensina-nos a afirmar e a dar respostas certas, não a fazer perguntas interessantes; o discurso público está contaminado de desejos de afirmação de certeza; o comentariado é assertivo, feito por especialistas que não têm dúvidas ou raramente se enganam; o ponto de exclamação está mais na moda do que o ponto de interrogação.

Acontece que o espanto advém de uma certa ideia de desconhecido. Eu não me espanto com o grau de crueza de um ovo imerso cinco minutos em água a ferver. Também não me espanto com o conforto que suscita uma imperial gelada ao estalar de um dia de Verão. Conheço ambas as realidades. Já o espanto com o voo das andorinhas nasce do desconhecimento de todos os comportamentos das andorinhas. Ora, num mundo feito de grande assertividade, de horror à frase “não sei” dita em voz alta, de desejo de exibição de uma certa aura de “pessoa que sabe”, há ainda lugar para o espanto? Seja a olhar para uma placa onde nadam micróbios, seja a olhar para uma frase que, num livro folheado, nos enche de surpresa?

Numa outra dimensão, qual a diferença entre espanto e maravilha? A criação de Deus espanta-nos ou maravilha-nos? A suave rotina das marés, ou a constância do nascer e do pôr do sol, espanta-nos ou maravilha-nos? O espanto é filho do desconhecimento; a maravilha é filha, talvez, da disponibilidade interior para uma certa emoção. O espanto pode ser negativo — o comportamento odioso de certa pessoa espantou-nos, porque não a víamos capaz disso —, mas o maravilhamento é sempre positivo.

E haverá mesmo espanto negativo? Ou a isso chamaríamos desilusão? Talvez não. Talvez o espanto seja sempre uma espécie de suspensão: o momento em que aquilo que julgávamos saber deixa de ser suficiente. E talvez a diferença esteja no que fazemos depois desse instante: podemos afastar-nos, indignar-nos, procurar compreender ou simplesmente ficar a olhar. A maravilha talvez seja o espanto quando escolhemos ficar a olhar.      

JdB   

06 setembro 2026

XXIII Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Mt 18,15-20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Se o teu irmão te ofender,
vai ter com ele e repreende-o a sós.
Se te escutar, terás ganho o teu irmão.
Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas,
para que toda a questão fique resolvida
pela palavra de duas ou três testemunhas.
Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja;
e se também não der ouvidos à Igreja,
considera-o como um pagão ou um publicano.
Em verdade vos digo:
Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu;
e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu.
Digo-vos ainda:
Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa,
ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus.
Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome,
Eu estou no meio deles».

05 setembro 2026

Pensamentos impensados

Anacronismos. Quando vejo os filmes passados no século XVIII, com aqueles vestidos cheios de tufos, rendas, saias rodadas, etc., não posso deixar de pensar que por baixo disso tudo estarão umas cuecas fio dental.

Impostos. O Governo está preocupado com a evasão fiscal. Eu estou preocupado com a invasão fiscal.

Portugal na vanguarda. Há grande excitação com o aparecimento do IPad, IPod e outros que tais. Há muitos anos, no tempo da outra senhora, já Portugal tinha o Ai Pide

Perigos. Visto na TV: implantes mamários perigosos. A Sophia Loren tinha desplantes mamários perigosos

Classificações. Há anos havia uma classificação para filmes que dizia: contém cenas eventualmente chocantes. No tempo de D. João V havia cenas conventualmente chocantes.

SdB (I)



04 setembro 2026

Poemas dos dias que correm

Na praça

Há duas semanas que ele anda a observar a mesma rapariga,
Alguém que costuma ver na praça. Na casa dos vinte, talvez,
tomando café à tarde, uma pequena cabeça escura
inclinada sobre uma revista.
Fica a observá-la do outro lado da praça, fingindo
comprar alguma coisa, cigarros, um ramo de flores, talvez.
 
Por ela ignorar o seu próprio poder,
este é agora imenso, fundido nas necessidades da imaginação dele.
Ele é seu prisioneiro. Ela diz as palavras que ele lhe atribui
numa voz por si imaginada, num tom baixo e brando,
uma voz do Sul, tal como os cabelos negros serão certamente do Sul.
 
Em breve, ela irá reconhecê-lo, e depois começará a esperá-lo.
E talvez a partir daí traga todos os dias os cabelos acabados de lavar
e olhe abertamente em redor na praça antes de baixar outra vez o olhar.
E depois disso tornar-se-ão amantes.
 
Mas ele espera que isso não aconteça logo,
pois seja que poder for que ela agora exerça sobre o seu corpo,
     sobre as suas emoções,
é um poder que ela deixará de possuir assim que se comprometer –
 
recolher-se-á naquele mundo privado do sentimento
a que as mulheres acedem quando amam. E, aí vivendo, será como
uma pessoa que não projecta sombra, que não está presente no mundo;
nesse sentido, achando-a ele de pouca serventia,
pouco importa se ela vive ou morre.   
 
louise glück
uma vida de aldeia
tradução de Frederico Pedreira
relógio d´água
2021

02 setembro 2026

Moleskine

 

Paço Ducal de Vila Viçosa, Agosto de 2026

Na telefonia, uma jornalista informa os ouvintes de que o mercúrio vai subir nos termómetros. Refere-se, obviamente, ao aumento de temperatura previsto para os próximos dias. Acontece que a venda ao público de termómetros de mercúrio está proibida na União Europeia há mais de 10 anos, dada a sua perigosidade caso se partissem. Do ponto de vista factual, a informação está errada. Estou convencido, porém, que a associação mercúrio - termómetro demorará a desaparecer. Resta saber se a jornalista foi levada pela criatividade noticiosa ou vencida pela ignorância. Sei para onde me inclino. 

***

Dirijo-me à loja do chinês para comprar sabão azul. Pergunto à funcionária (chinesa, obviamente) onde está o artigo. Ela pensa dez segundos e responde: primeira linha, em baixo. Dirijo-me ao primeiro corredor e olho para baixo. Nada de sabão azul. Insisto, e nada. A funcionária acaba por me mostrar umas escadas que conduzem à cave. No primeiro corredor lá estava, sorridente, uma barra de sabão azul. Fui derrotado pela sequência das informações: primeira linha, em baixo só aparentemente é igual a em baixo, primeira linha. A ordem dos factores não é arbitrária, como na soma ou na multiplicação. O primeiro hemistíquio da frase determina a coordenada principal; o segundo hemistíquio determina a coordenada secundária. 

Podia ter discutido esta questão com a funcionária, mas o meu mandarim (ou seria cantonês?) está enferrujado. 

***

No Livro dos Reis (1Reis 3:5-13) Deus aparece a Salomão em sonhos e diz-lhe: Pede! Que posso eu dar-te? A versão que ouvi um dia destes na missa diz que Salomão pede um coração inteligente. A expressão suscita dúvidas em quem ouve a leitura, porque inteligente parece ser um conceito moderno. Uma breve investigação explica que a palavra ‘inteligência’ vem do latim intelligentia, derivada do verbo intelligere (composto por inter + legere, que significa 'escolher', 'discernir' ou 'ler entre'). O termo foi introduzido no vocabulário filosófico ocidental por Cícero, no século I a.C. Não é por aí, portanto. 

Para mim, porém, inteligência não é uma qualidade, mas uma característica. Nasce-se inteligente (qualquer que seja a forma de inteligência) mas a qualidade deriva da aplicação dessa inteligência. Um aldrabão pode ser superiormente inteligente, um ditador sanguinário também. Como é que Salomão pede um coração inteligente

A versão inglesa da Bíblia usa a expressão discerning heart. A minha versão da Bíblia refere um coração cheio de entendimento. Ambas as opções são claramente melhores do que coração inteligente. Aguardo que partilhem comigo a expressão usada por Frederico Lourenço na sua tradução da Bíblia. 

JdB 

01 setembro 2026

Textos dos dias que correm

 «O bom português deve cultivar em si o patriota, que abrange o indivíduo, o pai e o munícipe e os excede, criando um novo ser espiritual mais complexo, caracterizado por uma profunda lembrança étnica e histórica e um profundo desejo concordante, que é a repercussão sublimada no Futuro da voz secular daquela herança ou lembrança...

É já grande o homem que subordina à Pátria, sem os destruir, os seus interesses individuais, familiares e municipais.

Por isso, o viver como patriota não é fácil, principalmente num meio em que as almas, incolores, duvidosas da sua existência, materializadas, não atingem a vida da Pátria, rastejando cá em baixo, entretido em mesquinhas questões individuais e partidárias. Mas para Portugal continuar a ser, precisamos de elevar até ele a nossa pessoa e conhecê-lo na sua lembrança e na sua esperança, na sua alma, enfim.

Não podemos amar o que ignoramos.

Impõe-se, portanto, o conhecimento da alma pátria, nos seus caracteres essenciais. Por ela, devemos moldar a nossa própria, dando-lhe actividade moral e força representativa, o que será de grande alcance para a obra que empreenderemos, como patriotas, no campo social e político.

O político estranho à sua Raça não saberá orientar nem satisfazer as aspirações nacionais. É preciso que ele encarne o sonho popular e lhe dê concreta realidade. Do contrário, fará obra artificial, transitória e nociva, por contrariar e mesmo comprometer o destino superior de uma Pátria.

Sim: o bom português necessita de conhecer e comungar a alma pátria, a fim de se guiar por ela, no seu labor. Depois legislará, reformará ou criará literária e artisticamente uma obra duradoura e útil.» 

Teixeira de Pascoaes
in «Arte de Ser Português», Assírio & Alvim (2007).

30 agosto 2026

XXII Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Mt 16,21-27

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus começou a explicar aos seus discípulos
que tinha de ir a Jerusalém
e sofrer da parte dos anciãos,
dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas;
que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia.
Pedro, tomando-O à parte,
começou a contestá-l'O, dizendo:
«Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há-de acontecer!»
Jesus voltou-Se para Pedro e disse-he:
«Vai-te daqui, Satanás.
Tu és para mim uma ocasião de escândalo,
pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens».
Jesus disse então aos seus discípulos:
«Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo,
tome a sua cruz e siga-Me.
Porque, quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la;
mas quem perder a sua vida por minha causa,
há-de encontrá-la.
Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro,
se perder a sua vida?
O Filho do homem há-de vir na glória de seu Pai,
com os seus Anjos,
e então dará a cada um segundo as suas obras».

28 agosto 2026

Poemas dos dias que correm

 

Grande sorte é
não se saber exactamente
em que mundo se vive.
 
Seria necessária
uma existência longuíssima,
decididamente mais longa
que a do próprio mundo.
 
Ao menos para comparar,
conhecermos outros mundos.
 
Erguermo-nos para lá do corpo
que nada sabe fazer tão bem
como limitar
e criar obstáculos.
 
A bem das pesquisas,
da clareza da imagem
e das conclusões finais,
elevarmo-nos para lá do tempo,
no qual tudo em turbilhão se precipita.
 
Nesta perspectiva,
desistam para sempre
de detalhes e episódios.
 
Contar os dias da semana
deveria parecer
um acto sem sentido,
pôr uma carta no correio
capricho da louca mocidade,
 
a tabuleta «não pisar a relva»,
uma tabuleta estúpida.
 
wislawa szymborska
paisagem com grão de areia
trad. júlio sousa gomes
relógio d’água
1998

26 agosto 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 150 KMS PELO TRILHO DO TEJO 

Igualmente emocionante, embora menos conhecido do que os multimilenares Caminhos de Santiago, existe junto a Lisboa o Caminho do Tejo, que liga a capital a Fátima. Para quem goste de fazer footing ou de ‘papar’ kms em bicicleta, a nova app daquele trilho – Fátima Walking Routes® App – Caminhos de Fátima – dá assistência constante (quase em baby-sitting) aos peregrinos e caminheiros. Lançada, recentemente, pelo Centro Nacional de Cultura, propõe uma versão de 6 etapas correspondentes aos 6 dias de caminhada tranquila a pé (grau básico) para os 150km desde o ponto de partida sugerido – a antiquíssima Sé Catedral de Lisboa – e o famoso Santuário mariano. Além das dicas logísticas detalhadas, também há sugestões culturais para enriquecer a experiência, permitindo conhecer inúmeros monumentos e outras curiosidades interessantes daquela zona do país.

Sei, por experiência, a enorme diferença entre chegar a um local ‘mítico’ depois de vários dias de caminhada e a alternativa da viagem em acelerado, de carro ou noutro meio de transporte rápido, sem dar tempo para uma aproximação bem digerida até ao destino. O ritmo humano pede tempo para preparar uma chegada importante. O próprio esforço físico e os pequenos contratempos envolvidos numa distância percorrida com o corpo e com a mente explicam a tal diferença abissal, pois torna a vivência humana muito mais completa. Isto vale para lugares de culto religioso, mas também para outros destinos de especial significado histórico ou de esplendor da natureza, como é o caso de Machu Picchu ou do Sítio da Nazaré com as ondas gigantescas da Praia do Norte ou de uma montanha grandiosa dos Himalayas, daquelas que se distinguem por um nome próprio, etc.  

Um bom aperitivo para o Caminho do Tejo foi publicado num site norte-americano, pensando em caminhantes com diferentes motivações:

« THE TAGUS ROUTE

For anyone seeking an accessible, authentic way to know Portugal, the Tagus Route (both a path and an experience) stands out.

Between Lisbon’s waterfront and the Sanctuary of Fátima lies a 150-kilometer path that many travelers consider one of Portugal’s most meaningful journeys. The Tagus Route, part of the wider Fátima Walking Routes project, offers six days of movement, culture, and spiritual depth – open not only to Catholic pilgrims but to anyone seeking purpose and beauty.

Beginning this route in Lisbon is only fitting, and it sets the tone for the days ahead. The trail officially starts at the Cathedral, where centuries of devotion echo through stone arches. Soon after, the urban rhythm begins to soften. The first stage - 12.5 kilometers to Parque das Nações - introduces walkers to a gentle transformation: sidewalks give way to riverside paths and the Tagus river becomes a steady companion.

Panoramic view of Lisbon from the Tagus River, on the Tagus Route

From there, the route bends north, leaving the city’s edges to enter the territories of Loures and Vila Franca de Xira. Here, the scenery shifts: fields open, birdlife becomes more present, and small communities welcome travelers with the kind of hospitality that has long shaped the culture of pilgrimage. The Tagus Route reveals Portugal at walking pace - the colors of the landscape, the sound of local life, the sense of time expanding.

Wooden walkway from Loures to Vila Franca de Xira on the Tagus Route

As with historic routes across Europe, pilgrims and hikers along the Fátima trails can carry a Credential, the symbolic passport of the journey. Each stamp - collected at parishes, museums, hostels, tourist offices, and other welcoming stops - is a memory pressed onto paper. The official Credential (…) can be obtained at the CNC office or at recognized locations including Lisbon Cathedral and the Sacavém Ceramics Museum.

Modern travelers also have a digital companion: the Fátima Walking Routes® app. Designed for independent, safe, and immersive exploration, it provides interactive maps, accommodation details, health and safety contacts, and information on museums, churches, gardens, and Credential stamping points. Basically, everything the pilgrim might need while on route. Regular updates connect walkers with news related to the project (…).

Reaching Fátima brings a profound, transformative shift. In Cova da Iria - where the Virgin Mary appeared to three shepherd children in 1917 - the Sanctuary welcomes millions each year. From the Chapel of the Apparitions to the Basilica of Our Lady of the Rosary and the striking Church of the Holy Trinity, the complex blends artistic expression with a universal invitation to peace. Even visitors without a religious background often speak of an atmosphere marked by stillness and hope.

The Fátima Walking Routes as a whole (…) aims to offer safe, beautiful, and culturally rich itineraries. Their purpose is simple yet telling: to make space for people to encounter landscapes, heritage, spiritual meaning, and community while moving toward one of the world’s most significant pilgrimage destinations.

For anyone seeking an accessible, authentic way to know Portugal, the Tagus Route stands out. It is both a path and an experience - one that invites travelers to walk, learn, and discover what the journey can awaken within them.»

Daniel Esparza in https://aleteia.org/, a 12.Março.2025 

Para além da diversidade da paisagem naqueles kms a serpentear bosques, planícies, vinhas, vales e colinas ao longo do azul do Tejo, várias e povoações antigas valem um pequeno desvio. Apenas alguns exemplos: 

Mapa extraído do site www.vagamundos.pt/caminho-de-fatima-guia/

Vila Franca de Xira, de tradição campina bem ribatejana

À esq. – Valada;  à dta. – Azambuja com o pelourinho da Pç dos Imperadores

Trilho do Tejo até Fátima, à esq. junto a Azambuja e à dta. no pinhal frondoso e perfumado de Minde

Santarém, capital do gótico. 

Bom Verão a todos, com boas oportunidades para caminhadas desintoxicantes, tranquilas, idealmente a pé, de bicicleta, de barco… com tempo para saborear cada pequeno avanço. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

25 agosto 2026

Do passado *

 É diferente... O sol feito de luz ardente
Do mesmo sol poente 
Que arrasta consigo um dia passado
Já basta saber... Que há em nós a saudade a doer
Se afinal recordar é sofrer
Rasga o passado

Rasga o passado (letra de Álvaro Duarte Simões)

***

Um destes dias, pessoa jovem ainda e que me é recém-próxima, dizia-me mais ou menos isto: mas porque se há-de querer matar um passado? A frase podia ter sido dita por mim, que tenho o hábito estranho, e também criticado, de olhar muito para trás, apesar de tudo o que vejo tirar algo: uma saudade, uma lembrança, uma aprendizagem, um remorso ou um arrependimento, um factor de imobilidade. Mas não fui eu que disse a frase, repito. Foi uma pessoa décadas mais nova do que eu, para quem, estatisticamente falando, o futuro é ainda maior do que o passado. Foi na ressaca da frase, totalmente apropriada à conversa em curso, que me apercebi deste senso comum absolutamente la paliciano: todos, em certo momento, olhamos para trás; e é isso que transforma o passado numa espécie de faca que nos serve ou nos corta, tudo dependendo se lhe pegamos pela lâmina ou pelo cabo. 

Seja sempre, seja em momentos específicos (não sei bem...) dentro de nós trava-se uma estranha batalha: o passado, feito de factos palpáveis e mensuráveis, mas também de sentimentos existentes, memórias e saudades, trava uma luta com o futuro, essa coisa que não existe a não ser na nossa imaginação ou no nosso desejo. O resultado desta contenda é sempre um presente que muda a todo o instante, resultado dinâmico desse combate interno entre dois tempos, um existente e o outro por existir. 

Olhar para o passado não é olhar para o que foi, como se esta conjugação pretérita conferisse ao exercício uma conotação negativa, ou apenas desinteressante, porque para a frente é que é caminho. O passado é a única coisa que, de facto, existe dentro de nós e em nosso redor. Não é uma criação, um caminho que vamos definindo momento a momento, um desejo ou uma projecção. O passado é a nossa única realidade, é o único activo da nossa existência, o curriculum vitae com que nos candidatamos ao mundo, porque ninguém se apresenta com o que irá fazer, mas com o que fez. 

A frase que me foi dita é representativa da mais simples realidade: olhar para o passado não é uma actividade de velho de espírito ou de velho de corpo, de criatura imobilizada e cristalizada naquilo que existiu. Falar no passado pode ser um exercício de enorme lucidez porque, com a existência posta em perigo, não há nada que seja mais parecido com uma bóia de salvação, nem que seja para rejeitar o que houve, para construir um que , talvez ainda um que haverá. Na sua música Solsbury Hill, Peter Gabriel canta: my heart going boom, boom, boom / son, he said, grab your things, I've come to take you home. Onde é - ou o que é - a nossa casa? É o passado, porque é a única realidade. Por isso a jovem me perguntava, mais duvidosa do que inquieta, porque se havia de matar um passado, já que isso (digo eu...) equivaleria a deixá-la sem abrigo. 

O presente é sempre o resultado de uma luta entre o passado e o futuro. Quem nunca olhar para trás - achando ingenuamente que é um campeão do optimismo e do avanço - terá sempre uma vitória por falta de comparência, que é a pior vitória de todas. A vitória nunca é certa, que por vezes o futuro agiganta-se.

JdB 

* publicado originalmente a 20 de Junho de 2016




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