Adeus, até ao meu regresso
As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
14 agosto 2026
13 agosto 2026
Dos mundos de cada um de nós
| Belém, um destes dias ao fim da tarde |
Para quê tanta pressa de singrar a todo o custo e em empreendimentos tão desesperados? Talvez quem não acompanha os companheiros marche ao som de outro tambor. Deixemo-lo seguir ao ritmo da música que ouve, por muito lenta ou distante que seja.
(Henry David Thoreau, Walden)
***
Cruzei-me com esta frase muito antes de ter lido o livro. Num certo sentido, li-a sempre de uma forma ascendente, isto é, olhando para aquele que marcha a um ritmo diferente como tendo uma extravagância elevada, na iminência de um pensamento rasgado de originalidade ou, como Thoreau, voluntariamente afastado da vida mundana, cansado da sua frivolidade. Tarde percebi que o meu pensamento estava errado - a frase deve ler-se de qualquer forma, não com admiração, não com desprezo.
Olha-se para uma pessoa que devota todo o seu tempo ao trabalho; olha-se para uma pessoa que dedica todo o seu labor a actividades diversas e caseiras, voltada sobre si própria; olha-se para uma pessoa cujo tema de conversa principal ou quase exclusivo é a sua prole. Para alguém cuja vida não se resume a isto, a estas pessoas o mundo parece passar-lhes ao lado: não leram um livro, não foram a um teatro ou a um concerto, pouco mais conheceram do que o seu quintal, viram apenas os filmes da moda, nunca lhes ocorreu sugerir ou perseguir um programa que alargue horizontes ou expanda a consciência. Para algumas pessoas - e roubo o sub-título de um livro de Juan José Millás - o mundo é a rua da sua infância.
Um dia percebi que o mundo não lhes passa ao lado, porque em bom rigor não existe 'o mundo'. Para estas pessoas o seu universo é o trabalho, a agitação, o sangue do seu sangue; o mundo de algumas destas pessoas conjuga-se no verbo fazer, porque é aí que a sua mente ganha distracção ou as suas mãos adquirem conhecimento; o mundo de algumas destas pessoas é a realização - o empreendimento! - pelo que toda a energia do seu pensamento se esgota aí. O mundo destas pessoas não é a literatura, a pintura, a música ou as viagens - são outras coisas, aparentemente mais simples, ou, segundo alguns, menos interessantes ou valiosas. Na verdade, só quem se interessa por literatura, pintura, música ou viagens é que dá importância a estas áreas, ou que classifica o mundo dos outros como pequenino. E só quem se interessa quase exclusivamente por trabalho, labor manual, filhos e netos é que pode valorizar este modo de vida, não mexendo um músculo para outras formas de ocupação do tempo.
Há muitos mundos; cabe-nos escolher o que mais nos interessa, ou aquele a que atribuímos mais importância. Ou conseguir juntar tudo.
JdB
12 agosto 2026
Vai um gin do Peter’s ?
INFLUENCER DO SÉC. XIX
Sempre houve figuras, sobretudo femininas, a marcar a moda da sua época! O que mudou foi a implantação dos canais de divulgação em larga escala, como as redes sociais de acesso quase universal. As novidades deixaram de demorar anos, décadas, a propagar-se pela sociedade e por outros países. O imediatismo actual incentiva mais gente a tentar a sorte como influencer, democratizando (massificando) o estatuto, a função e os efeitos. O que antes estava circunscrito a uma elite social e política ínfima, ficou escancarado a um universo interplanetário, logo que os media e outros meios tecnológicos proporcionaram essa disseminação alargada, a partir de meados do século XIX.
No alvor do lançamento dos jornais e da fotografia, França pontificava na vanguarda dos grandes movimentos sociais que agitaram o século XIX e reverberaram ao longo do século XX, alguns com especial ferocidade. Nos vários experimentalismos políticos dos gauleses, surgiu a tentativa de revitalização da monarquia, sob a forma de Segundo Império, com um sobrinho de Napoleão. Em boa verdade, aquele herdeiro de Bonaparte tinha sido eleito em voto directo, tornando-se no primeiro Presidente de França. Mas como a Constituição o impedia de renovar o mandato, por via de um golpe (1851), Carlos Luís Napoleão instaurou o Segundo Império, pretendendo perpetuar-se no poder como imperador. Mas após 18 anos de reinado, foi preso pelos alemães (1870) após a derrota humilhante na Guerra Franco-Prussiana e morreu três anos depois, no exílio em Londres. Sob a sua batuta, registaram-se avanços importantes, como a construção do Canal do Suez e a modernização da agricultura, elevando-a a sector exportador, entre outros feitos.
Ao instaurar o Segundo Império, Napoleão III preferiu tomar para mulher uma aristocrata bonita e com charme, em vez de uma princesa das casas reais europeias, para conferir mediatismo e modernidade ao regime. Porém, essa opção dificultou o reconhecimento do novo regime por parte da maioria das potências europeias. A honrosa excepção fora a rainha Vitória, hábil política, que apreciava muito a imperatriz Eugénia de Montijo (1826-1920), de quem, aliás, ficou amiga. Quando o trono francês caiu sob as conquistas do Kaiser, Vitória acolheu a imperatriz, em Inglaterra, continuou a tratá-la por Sua Alteza Imperial e a manter uma relação muito próxima.
A amizade entre Vitória e Eugénia remonta à memorável viagem dos imperadores gauleses a Inglaterra, em 1855. A elegância e a simpatia da imperatriz conquistaram a corte e a imprensa britânicas. Nos diários da rainha Vitória constam elogios rasgados à soberana de França. Curiosamente, a visita começou com um percalço maçador, pois a bagagem de Eugénia chegou demasiado tarde, a ponto de o imperador a aconselhar a falhar o jantar de recepção, no palácio de Windsor. Mas Eugénia ultrapassou a dificuldade e causou sensação, improvisando um traje de festa com a veste emprestada de uma dama de companhia. Para disfarçar a falta de joias, salpicou o tecido e o cabelo com flores de crisântemo, que encontrou numa jarra. Foi tal o furor, que a moda pegou e a rainha Vitória passou a usar flores verdadeiras em vestidos de festa.
Se em sofisticação França pontificava, através de Eugénia de Montijo (sendo irónico provir da filha de um conde espanhol), o palmarés da popularidade pertencia à rainha Vitória, que geria o poder primorosamente, conseguindo ter ascendente além-fronteiras. Embora partisse de um contexto favorável, por chefiar um país alheio aos ventos subversivos que agitavam a Europa continental, esforçava-se por ter um governo competente e, em simultâneo, adaptável aos novos tempos, sem precisar de revoluções para empreender as reformas necessárias. Ela própria recorreu à moda para unir o Reino:
Por isso, as Ilhas Britânicas detinham a primazia da expansão ultramarina e da estabilidade política. Todavia, nas artes e nas novas ideias, voltava a pontificar a Cidade das Luzes, onde fervilhavam os experimentalismos mais vanguardistas, nomeadamente na pintura. Como mecenas e apoiante de artistas talentosos, Eugénia deu o seu contributo, apadrinhando sobretudo pintores e estilistas. Um dos seus costureiros preferidos foi o britânico Charles Frederick Worth, fundador da marca House of Worth e considerado o precursor da alta costura, que lhe desenhou vários dos trajes imortalizados em telas e em fotografias:
| Retrato de Eugenia de Montijo, imperatriz dos Franceses, no ano do seu casamento (1853), pintado pelo artista que a adoptou como musa – Franz Xaver Winterhalter. |
Embora Eugénia tenha entrado para a História pelo glamour e pelo prestígio internacional (além da rainha Vitória, era também muito próxima de Sissi da Áustria), sofreu enormes desgostos. A somar às constantes traições públicas do marido, que aguentava estoicamente, perdeu o seu único filho, morto em combate na África do Sul, ao serviço da coroa britânica. Viveu também a derrocada do Segundo Império, quando as tropas alemãs entraram em Paris e aprisionaram o seu marido. Só teve tempo de fugir para Londres, onde ficou exilada. No início do conto de fadas com Napoleão III, conta-se que se conheceram nos salões de Paris, quando Eugénia e a mãe ali se radicaram (1848). Fascinado pela beleza da espanhola nascida no Sul (Granada), o sobrinho de Bonaparte perguntou-lhe: «Senhora, qual é o caminho para chegar aos vossos aposentos?». Resposta pronta da jovem: «Pela capela, senhor, pela capela»… Assim se casaram, a 15 de janeiro de 1853. Mais tarde, na fase das constantes infidelidades do marido, a troca de palavras tomou outro rumo, começando com um remoque trocista do imperador à mulher: «Sabeis a diferença entre a vossa pessoa e um espelho?». «Não», respondeu Eugénia. «É que o espelho reflecte, mas vós não …». Réplica certeira de Eugénia ao dichote: «E vós, sabeis qual a diferença entre a vossa pessoa e um espelho? É que o espelho é polido, e vós não!»
Em Lisboa, um leque lindo, que pertencera à imperatriz Eugénia (espanhola de nascimento), está exposto na Fundação Medeiros e Almeida (M&A), dando testemunho do esplendor da corte do último Império francês. Fora encomendado a Edmond Hédouin (1820-1889), para celebrar o primeiro ano do casamento dos novos Imperadores. A pintura da face principal desdobra-se numa festa palaciana com momentos musicais e de convívio, que decorre num jardim de buxos. Ironia dos tempos, o Segundo Império (tal como Napoleão Bonaparte) fez tábua rasa do ideário de igualitarismo propagado pela Revolução Francesa, empenhando-se antes em recriar a sumptuosidade da monarquia que fora guilhotinada décadas antes, na Bastilha. O próprio uso do leque tinha sido estabelecido pelo Rei Sol e por Luís XV. Ironicamente, também Maria Antonieta – depreciativamente cognominada ‘a austríaca’ – fora uma influencer, à época, revolucionando o vestuário e a decoração com o branco e os tons claros, que tornaram mais leve e luminoso o ambiente pesado e solene da corte de setecentos.
O leque da Imperatriz Eugénia foi comprado à antiquária Elena Sarto de Hortega (1900-1994) pelo empresário e coleccionador de arte português, António Medeiros e Almeida (1895-1986), após a Segunda Guerra Mundial, sendo o leque estrela do acervo da M&A. A sua estrutura é constituída por uma armação em madrepérola, decorada com esmaltes, pedraria, dourados e prateados. O reverso, igualmente magnífico, exibe os brasões de Napoleão III e de Eugénia, rematados no topo pela coroa imperial e pelos monogramas de ambos: ‘N’ e ‘E’.
| Frente e verso. |
| Zoom sobre a armação em madrepérola e sobre o reservo com as armas das duas famílias e a coroa imperial centrada em cima. |
| Zoom sobre a festa palaciana pintada na face principal. |
Quando revisitamos a história, descobrimos que, afinal, a nossa época é bem menos fértil em novas ideias do que supomos. Demasiado colados ao presente, tendemos a sobrevalorizá-lo, como se quase tudo tivesse surgido de ‘geração espontânea’. Lembramos pouco, que somos herdeiros de um legado imenso, riquíssimo, transmitido generosa e esforçadamente, de geração em geração. Como dizia uma velhinha muito lúcida: os miúdos que, hoje, não concebem o mundo sem telemóvel, não o inventaram; são meros beneficiários do invento extraordinário de um avô, que se dão ao luxo de ignorar. São, no fundo, anões sem consciência de viverem às cavalitas de gigantes...
O descanso no Verão convida a boas leituras, daquelas que ajudam a lembrar (informar sobre) o longo caminho percorrido até à actualidade. Boas férias!
11 agosto 2026
Texto e imagem dos dias que correm *
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| Duas crianças, 4 e 5 anos. Agosto de 2021. |
O Encanto da Vida
Todas as noites acordado até desoras, à espera da última cena de pancadaria num jogo de futebol, do último insulto num debate parlamentar, do último discurso demagógico num comício eleitoral, da última pirueta dum cabotino entrevistado, da última farsa no palco internacional. Crucificações masoquistas, que a prudência desaconselha e a imprudência impõe. Vou deste mundo farto de o conhecer e faminto de o descobrir.
Mas não há perspicácia, nem constância de atenção capazes de lhe prefigurar os imprevistos. O que acontece hoje excede sempre o que sucedeu ontem. A violência, o facciosismo, a ambição de poder, a crueldade e o exibicionismo não têm limites. Felizmente que a abnegação, a generosidade e o altruísmo também não. E o encanto da vida é precisamente esse: nenhum excesso nela ser previsível. Nem no mal nem no bem. E não me canso de o verificar, de surpresa em surpresa, à luz dos acontecimentos.
Miguel Torga, in 'Diário (1993)'
10 agosto 2026
09 agosto 2026
XIX Domingo do Tempo Comum
EVANGELHO - Mt 14,22-33
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Depois de ter saciado a fome à multidão,
Jesus obrigou os discípulos a subir para o barco
e a esperá-l'O na outra margem,
enquanto Ele despedia a multidão.
Logo que a despediu,
subiu a um monte, para orar a sós.
Ao cair da tarde, estava ali sozinho.
O barco ia já no meio do mar,
açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário.
Na quarta vigília da noite,
Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar.
Os discípulos, vendo-O a caminhar sobre o mar,
assustaram-se, pensando que fosse um fantasma.
E gritaram cheios de medo.
Mas logo Jesus lhes dirigiu a palavra, dizendo:
«Tende confiança. Sou Eu. Não temais».
Respondeu-Lhe Pedro: «Se és Tu, Senhor,
manda-me ir ter contigo sobre as águas».
«Vem!» - disse Jesus.
Então, Pedro desceu do barco e caminhou sobre as águas,
para ir ter com Jesus.
Mas, sentindo a violência do vento e começando a afundar-se,
gritou: «Salva-me, Senhor!»
Jesus estendeu-lhe logo a mão e segurou-o.
Depois disse-lhe:
«Homem de pouca fé, porque duvidaste?»
Logo que saíram para o barco, o ventou amainou.
Então, os que estavam no barco prostraram-se diante de Jesus,
e disseram-Lhe:
«Tu és verdadeiramente o Filho de Deus».
07 agosto 2026
Textos dos dias que correm
Perdoar e Esquecer
Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'
O Perdão e a Promessa
Hannah Arendt, in 'A Condição Humana'
06 agosto 2026
05 agosto 2026
Poemas dos dias que correm
| Sítio do costume, hora do costume |
04 agosto 2026
Das perguntas *
| Kyoto, Novembro 2018 |
JdB
* publicado originalmente a 27 de Dezembro de 2018
03 agosto 2026
02 agosto 2026
XVIII Domingo do Tempo Comum
EVANGELHO - Mt 14,13-21
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
quando Jesus ouviu dizer que João Baptista tinha sido morto,
retirou-Se num barco para um local deserto e afastado.
Mas logo que as multidões o souberam,
deixando as suas cidades, seguiram-n'O a pé.
Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão
e, cheio de compaixão, curou os seus doentes.
Ao cair da tarde, os discípulos aproximaram-se de Jesus
e disseram-Lhe:
"Este local é deserto e a hora avançada.
Manda embora toda esta gente,
para que vá às aldeias comprar alimento".
Mas Jesus respondeu-lhes:
"Não precisam de se ir embora; dai-lhes vós de comer".
Disseram-Lhe eles:
"Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes".
Disse Jesus: "Trazei-mos cá".
Ordenou então à multidão que se sentasse na relva.
Tomou os cinco pães e os dois peixes,
ergueu os olhos ao Céu e recitou a bênção.
Depois partiu os pães e deu-os aos discípulos
e os discípulos deram-nos à multidão.
Todos comeram e ficaram saciados.
E, dos pedaços que sobraram, encheram doze cestos.
sem contar mulheres e crianças.
31 julho 2026
Poemas dos dias que correm
Alcácer do Sal, Janeiro de 2021
Alcácer que vier
Em Alcácer eram verdes
as aves do pensamento.
Eram tão leves tão leves
como as lanternas do vento.
os cavalos encarnados.
Eram tão fortes tão negros
como os punhos decepados.
as armas que eu inventei.
Eram tão leves tão leves
tão leves que nem eu sei.
os homens que não voltaram.
Eram tão verdes tão verdes
como os campos que deixaram.
as maçãs feitas de lume.
Eram tão frias tão frias
como as dobras do ciúme.
estas palavras que agora
são tão caladas tão cernes
tão feitas desta demora.
as flores da sepultura.
Eram tão verdes tão verdes
tão verdes como a loucura.
meu amor o teu olhar.
Era tão verde tão verde
quase à beira de cegar.
os lençóis onde morri.
Eram tão frios tão verdes
como os campos que eu não vi.
as feridas do meu país.
Eram tão fundas tão verdes
como este mal de raiz.
125 poemas
antologia poética
litexa
1982
30 julho 2026
29 julho 2026
Vai um gin do Peter’s ?
PAIS DUAS VEZES
Felizmente que nos 365 dias do ano consagrou-se um dia para festejar os avós – o 26 de Julho –, associando à festa dos avós de um neto famosíssimo!...
Nas divertidas colectâneas de conselhos dados por crianças, uma canadiana pequenina aconselhava os amigos a arranjar uma avó, se tivessem o azar de não haver disponíveis na família. De facto, muitas das melhores memórias da nossa infância estão associadas aos avós, aqueles pilares de ternura e de humor, que ajudaram a forjar a nossa identidade. Talvez sejam a memória que escolhemos para criarmos raízes e crescermos saudavelmente, cientes de serem aquele porto seguro, onde podemos abrigar-nos e recuperar forças, sentido até! Um testemunho reconhecível para muitos reza assim: ‘Quando jovem, não tinha tempo para os meus pais, mas amava muito os meus avós. Quando velho meus filhos não têm tempo para mim, mas sou amado pelos meus netos.’ É misterioso por que já só os apanhamos num ciclo mais avançado de vida, mais breve.
As estatísticas confirmam o papel dos avós como educadores, chegando a assumir o papel principal em milhões de famílias, por anos a fio, sobretudo quando os pais precisam de emigrar para outro país ou outra região. Isto sem falar das rotinas mais comuns, de lhes caber ir buscar os netos à escola, de serem os confidentes ideias, além da sua arte para manterem a família unida.
| Relato gráfico do episódio de Timurid, o Conquistador, a procurar o conselho da avó. |
A ARTE DOS AVÓS
«Os avós são mestres de uma arte esplêndida e rara: a arte de ser.
Os avós sabem tornar um mero encontro quotidiano numa apetitosa celebração. Sabem olhar e olhar-nos sem pressas, vendo-nos esperançosamente mais adiante. Sabem dar valor às coisas de nada.
Nunca consideram que quando se entretêm connosco estão a perder tempo, muito pelo contrário. Sabem que o amor dá-se bem com essa gratuita co-divisão.
Os avós são docemente silenciosos, mesmo se muito tagarelas.
Os avós parecem distraídos, e isso é bom.
Os avós caminham a nosso lado sem pressa. Têm tanto de distante como de próximo no arco do tempo. Têm uma sabedoria que se expressa por histórias calorosas e não por conceitos. Têm uma memória que nos parece inesgotável, cheia de aventuras, de bagatelas e de detalhes para divertir. Têm armários carregados de objetos (alguns incompreensíveis) que nos põem a sonhar. Apresentam-nos a gostos e a sabores que passamos a identificar com eles. Os avós já foram muitas vezes aos lugares onde nos levam pela primeira vez.
Chamam a atenção para coisas incalculáveis, como a forma de uma nuvem ou a cor diferente que ganham as folhas. Ensinam-nos com serenidade, colocando-se a nosso lado. Nunca acham despropositada a fantasia, nem os medos, nem o mimo. Têm o sentido das pequenas coisas e colos onde cabem as grandes.
Eles não separam, como o resto das pessoas, aquilo que é útil do que é inútil. Fazem-nos sentir que é assim, que já passaram por isso e que existe uma solução que nos vão revelar, só a nós, como um grande segredo.
Amparam os nossos desequilíbrios com o corrimão invisível e seguro do seu afeto, disponíveis degrau a degrau. Adivinham o que não dizemos sem se confundirem com a nossa confusão.
Quando não estão connosco, pensam em nós, repetem aos amigos as frases que dissemos, disputam-nos, orgulham-se de coisas parvas, como o modo como sorrimos ou respiramos.
Penso que se sentimos tão intensamente que os devemos salvar é porque percebemos, desde muito cedo, que somos salvos por eles.»
Por ocasião do Dia dos Avós, Leão XIV deu cinco recados aos mais velhos: há sempre alguém que nunca os esquece e os ama incondicionalmente, começando por Deus; são muito mais do que a sua provecta idade e as eventuais fragilidades, pois cada indivíduo continua a ser único e insubstituível, exactamente como quando estava na força da vida; nunca é tarde para recomeçarem e tentarem fazer melhor; a vulnerabilidade não devia assustá-los, pois o crescimento interior não é um exclusivo dos novos; por fim, as suas orações são valiosíssimas, assim como marcantes os seus gestos de amor com a família e com outros. A própria Organização Mundial de Saúde emitiu, recentemente, uma recomendação, que valoriza o papel dos idosos, quando desaceleram, recuperando um ritmo tranquilo, capaz de saborear melhor a vida: ‘reduz o risco de demência gastar mais tempo à mesa, com a família e os amigos’ e praticar o diálogo inter-geracional.
J.R. Tolkien recomendava: «Não despreze a tradição que vem de anos longínquos; talvez as velhas avós guardem na memória relatos sobre coisas que alguma vez foram úteis para o conhecimento dos sábios.» E Churchill, aconselhando a recuar às gerações que nos precederam, deixou este conselho lapidar à jovem rainha Isabel II: «The farther backward you can look, the farther forward you can see». Vivam os avós e a sabedoria imensa do seu legado vitamínico!
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