08 abril 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 UM PINTOR DA ‘JOIE DE VIVRE’ 

Paris aproveitou a Primavera para lançar mais uma mega exposição, no imperdível Musée d’Orsay, dedicada a um dos expoentes do impressionismo – Pierre-Auguste Renoir. O título da mostra é eloquente – «Renoir et l’amour», assim como as garridas manchetes dos media, a evocar o denominador comum das suas telas: «MERCI LA VIE!»

À DTA. - auto-retrato, de 1910

Renoir acrescentou ao fascínio dos impressionistas pela luz, a audácia de pintar o sabor da vida, apanhando-a na pose mais festiva e alegre. Segundo os curadores: «Renoir regarde le monde comme on embrasse quelqu’un que l’on aime depuis toujours». Explicava o artista: «c’est avec mon pinceau que j’aime». Por isso, é frequente considerar-se que pintou o amor, a beleza (sobretudo, a do arquétipo feminino), a alegria, a paixão pela vida. 

Oriundo de um meio pobre, com uma infância marcada por grandes privações, a mera ousadia de apostar numa profissão de alto risco, como a pintura, roçava o aventureirismo irresponsável. Nascido em 1841, ainda apanhou os resquícios da mortandade da Revolução Francesa (1789) e a estrondosa derrota gaulesa nas Guerras napoleónicas. Em vida, assistiu à humilhante derrota de França na Guerra Franco-Prussiana e à guerra civil durante as dolorosas experiências da Comuna de Paris, para além dos tumultos sociais causados pela Revolução Industrial! Tudo isso Renoir enfrentou com garbo e um sentido positivo inesperado! De onde lhe viria tanta confiança no futuro, face ao mundo algo sombrio que o rodeava?  

Com os comparsas impressionistas, Renoir convocou a ‘joie de vivre à la française’ para contribuir para as mudanças de mentalidade de oitocentos, quando as sociedades se  democratizavam; o cidadão comum ganhava destaque; a indústria do entretenimento despontava, sobretudo nas grandes cidades; a maior facilidade de locomoção aumentava os horizontes das gentes rurais, antes confinadas ao lugar onde tinham nascido; novos países nasciam, redesenhando-se as fronteiras da Europa e dos impérios ultramarinos. Todo o mundo era composto de mudança e o apetite pelo presente aguçava-se, na ânsia de acompanhar a voragem do tempo, saborear os pequenos momentos, os prazeres visíveis, ainda que fugazes. Os artistas estavam ávidos de devorar as modas nascentes e plasmá-las numa expressão artística de vanguarda.  

Duas das mais célebres obras de Renoir, imortalizam momentos efémeros, captando os ambientes festivos, que o pintor tanto apreciava.  

Vinte anos depois, a exposição conseguiu reunir as três telas de pares dançantes. A mesma felicidade irradia em casais diferentes, numa união de corpos arrojada para a época, seja na versão burguesa, seja na campestre, seja nos trajes de gala.  

A música veio antes da pintura na vida de Renoir. Mas as dificuldades financeiras da família obrigaram-no a desistir das aulas de canto, que adorava, e a empregar-se numa fábrica de porcelana para ajudar ao sustento da casa dos pais.

Retratista muito procurado pelos seus contemporâneos, Renoir pintava com enorme rapidez, como foi o caso com o compositor alemão. 

As figuras femininas eram as musas do pintor: «La Balancoire», 1876. 

Até ao Barroco, pedir a um pintor para ser luminoso poderia parecer uma redundância, mesmo nos temas sobre guerras e outros episódios sangrentos da História. Porém, essa tendência mudou, quando o sofrimento personalizado entrou para a tela. O ambiente sombrio e as marcas de desgosto num rosto anónimo, mais próximo do espectador, adquiriu uma ressonância nova no público. Pouco a pouco, caiu em desuso o recurso ao efeito teatral das pinturas povoadas de heróis ancestrais ou mitológicos em cenários grandiloquentes, demasiado longe da realidade prosaica do cidadão comum. O século XX avançou mais uns passos e mostrou ad nauseam quanto a arte aguenta cargas indigestas de sofrimento humano concreto, reconhecível e de muitas gradações do mal, até ao desespero mais agudo. 

Voltando a Renoir, são espantosas as pessoas que irradiam alegria no meio da turbulência e das incertezas do dia-a-dia. Como se estivessem sentadas ao nosso lado, enquanto todos atravessamos a tempestade… São companhias fantásticas na vida, corajosamente pascais, abertas ao desfecho luminoso da ressurreição.

Páscoa Feliz com a ‘joie de vivre’ de Renoir, se possível, com um salto a Paris!

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas) 

07 abril 2026

Do elogio *

 Não fui educado no, e para o elogio. Como é normal na natureza humana, não eduquei no, e para o elogio. Para efeitos desta pequena dissertação interessa-me pouco as consequências desse modo de educar: sei o peso que isso teve em mim, sei o peso que teve naqueles que me competiu educar; o que está feito não tem conserto, apenas pode servir de lamentação saudável e honesta ou de aprendizagem para o futuro. Mas a história do elogio não é apenas de pais para filhos, mas de amigo para amigo, de cônjuge para cônjuge, de colega de trabalho para colega de trabalho.

Olho para trás. Talvez eu tenha crescido numa época em que se dava pouca importância às crianças, em que se achava que elas não deviam ser salientes nem ter o poder de perorar sobre tudo. Talvez eu tenha crescido num meio cheio de pudores de vocabulário: não se dizia vermelho nem se dizia lábios, como não se dizia ovários nem virilha. E também não se dizia amor - pelo que a expressão amo-te estava reservada para o cinema ou para a literatura - ou simplesmente para as pessoas com menor pudor expressivo. Talvez então possa pensar que havia um pudor qualquer de linguagem no elogio: dizer-se muito bem!, ou de facto tens muito jeito!, estava vedado aos que também não diziam amo-te. Eu sei que não é verdade, mas a argumentação dá-me jeito. 

Não elogiar uma criança não é a mesma coisa que não elogiar um adulto. Não elogiar um filho não é, por isso, a mesma coisa que não elogiar a pessoa com quem se vive. Não se elogia uma criança porque não se tem feitio para isso ou se acha que as crianças não devem ter elogios. Ora, elogiar um adulto não obedece a nenhuma teoria educativa: é um acto de delicadeza, de incentivo, de simpatia ou da mais elementar justiça. Mas elogiar um adulto - o adulto com quem se vive, por exemplo - é colocá-lo num patamar mais elevado do que o nosso. É reconhecer algo no outro que merece uma certa admiração. E talvez esteja aí um dos motivos para não se elogiar o próximo: não queremos colocar o outro a um nível superior ao nosso. Não queremos vê-lo elevar-se relativamente à nossa normalidade. 

Elogiar pode ser um acto de generosidade ou de reconhecimento. Não o fazer a um adulto pode significar uma estratégia, sobretudo - algo que acontece em muitos casos - quando se é particularmente generoso nos elogios aos que nos são menos próximos. A inveja não é só desejar o que os outros têm; pode ser simplesmente, como ouvi no outro dia, não nos regozijarmos com o sucesso do outro. Ainda estou para perceber o que nos leva, na verdade, à parcimónia no elogio. É de graça e tem vantagens, pelo que...

JdB 

* publicado originalmente a 4 de Abril de 2019

05 abril 2026

I Domingo de Páscoa

EVANGELHO – Jo 20,1-9

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

No primeiro dia da semana,
Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro
e viu a pedra retirada do sepulcro.
Correu então e foi ter com Simão Pedro
e com o discípulo predilecto de Jesus
e disse-lhes:
«Levaram o Senhor do sepulcro,
e não sabemos onde O puseram».
Pedro partiu com o outro discípulo
e foram ambos ao sepulcro.
Corriam os dois juntos,
mas o outro discípulo antecipou-se,
correndo mais depressa do que Pedro,
e chegou primeiro ao sepulcro.
Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou.
Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira.
Entrou no sepulcro
e viu as ligaduras no chão
e o sud&aacu
te;rio que tinha estado sobre a cabeça de Jesus,
não com as ligaduras, mas enrolado à parte.
Entrou também o outro discípulo
que chegara primeiro ao sepulcro:
viu e acreditou.
Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura,
segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

03 abril 2026

6ª feira Santa

 

Raising of the cross (Rembrandt, 1633)

Pietà 

Vejo-te ainda, Mãe, de olhar parado,
Da pedra e da tristeza, no teu canto,
Comigo ao colo, morto e nu, gelado,
Embrulhado nas dobras do teu manto. 

Sobre o golpe sem fundo do meu lado
Ia caindo o rio do teu pranto;
E o meu corpo pasmava, amortalhado,
De um rio amargo que adoçava tanto. 

Depois, a noite de uma outra vida
Veio descendo lenta, apetecida
Pela terra-polar de que me fiz; 

Mas o teu pranto, pela noite além,
Seiva do mundo, ia caindo, Mãe,
Na sepultura fria da raiz. 

Miguel Torga


02 abril 2026

5ªfeira Santa

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim. No decorrer da ceia, tendo já o Demónio metido no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, a ideia de O entregar, Jesus, sabendo que o Pai Lhe tinha dado toda a autoridade, sabendo que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-Se da mesa, tirou o manto e tomou uma toalha, que pôs à cintura. Depois, deitou água numa bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que pusera à cintura. Quando chegou a Simão Pedro, este disse-Lhe: «Senhor, Tu vais lavar-me os pés?». Jesus respondeu: «O que estou a fazer, não o podes entender agora, mas compreendê-lo-ás mais tarde». Pedro insistiu: «Nunca consentirei que me laves os pés». Jesus respondeu-lhe: «Se não tos lavar, não terás parte comigo». Simão Pedro replicou: «Senhor, então não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça». Jesus respondeu-lhe: «Aquele que já tomou banho está limpo e não precisa de lavar senão os pés. Vós estais limpos, mas não todos». Jesus bem sabia quem O havia de entregar. Foi por isso que acrescentou: «Nem todos estais limpos». Depois de lhes lavar os pés, Jesus tomou o manto e pôs-Se de novo à mesa. Então disse-lhes: «Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também».

Palavra da salvação.

01 abril 2026

Poemas dos dias que correm

camões dirige-se aos seus contemporâneos

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

jorge de sena
metamorfoses (1963)
trinta anos de poesia
editorial inova
1972

31 março 2026

Das válvulas de segurança sociais

Alguém criticou alguém dizendo a respeito desse alguém: não faz nada por emoção; é tudo por sentimento de dever.

Alguém elogiou os filhos de alguém dizendo: os teus filhos são sempre tão educados.

Há uma grande proximidade de raciocínio entre ambas as afirmações, pese uma ser uma crítica e outra ser um elogio. E há, também, as expressões nada e tudo, que introduzem no par um contraste interessante. O que une ambos os raciocínios é uma espécie de válvula de segurança social. As válvulas de segurança foram feitas para actuar em caso de excesso de ou em caso de falta de. Existem para garantir - daí o nome - a segurança das instalações, das máquinas, dos órgãos. 

O sentimento de dever e a educação são as válvulas de segurança das instalações sociais e actuam quando há falta de emoção ou falta de simpatia. Obviamente que todos desejaríamos que as coisas (e falamos de coisas boas) fossem feitas motivadas pela emoção, e não pela razão; e todos gostaríamos que fôssemos - ou fossem os nossos - tão simpáticos que não precisariam da educação.

Acontece que não podemos garantir que nos apetece sempre fazer as coisas que devem ser feitas - o sentimento do dever garante, então, que as coisas que devem ser feitas serão feitas. Acontece que nem sempre queremos ser simpáticos com alguém, qualquer que seja o motivo - a educação garante, então, que a socialização se mantém ao nível aceitável.

O pedido de desculpas - já o escrevi neste estabelecimento - é uma tradição mal vista. Muita gente diz que as desculpas evitam-se, não se pedem. Com certeza! Mas o pedido de desculpa - e o que lhe está associado - é uma espécie de sentimento de dever ou educação: existem para colmatar uma falha, não para justificar uma falha. Exigir a permanente emoção ou a permanente simpatia é exigir que uma máquina não aqueça, que não lhe falte nenhuma matéria prima, que não entre em sobre-pressão. Vai acontecer? Não. 

Uma válvula de segurança é um elemento fundamental numa máquina ou numa relação, embora deva ser usada como o cardamomo - com parcimónia. 

JdB 


  

29 março 2026

Domingo de Ramos

 Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses

Cristo Jesus, que era de condição divina,
não Se valeu da sua igualdade com Deus,
mas aniquilou-Se a Si próprio.
Assumindo a condição de servo,
tornou-Se semelhante aos homens.
Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais,
obedecendo até à morte e morte de cruz.
Por isso Deus O exaltou
e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes,
para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem
no céu, na terra e nos abismos,
e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor,
para glória de Deus Pai.

28 março 2026

Pensamentos Impensados

Isto dos testes de ADN pode ser perigoso; podem descobrir que não descendemos dos nossos antepassados.

A pescadinha de rabo na boca está em auto-digestão.

Tirei um curso de relojoaria só para me entreter; tenho certidão de hobby.

É possível haver alguém que se saiba quem é o pai e não se saiba quem é a mãe? É: Adão era filho de mãe incógnita.

As médicos não passam receitas; passam despesas.

O fadista Alfredo Marceneiro fazia lavagem de dinheiro. Pois é: Todas as notas que ganhava eram por ele lavadas, penduradas na corda da roupa e, quando estavam secas, punha-lhes água de colónia.

SdB (I) 

27 março 2026

Da misericórdia, ou das noites de cada um de nós *

Theodor Adorno afirmou: to write poetry after Auschwitz is barbaric. Cruzei-me com esta frase anteontem. Opto pela interpretação simples, ainda que potencialmente incorrecta: a noite de Auschwitz matou a possibilidade do belo. O pensamento veio também a propósito de outras lucubrações derivadas de dizer coisas, ouvir outras, ler frases, apanhar fragmentos de fragmentos, fazer dos fins de tarde quentes em esplanadas sossegadas momentos de inspiração e espanto. 

Cada um de nós tem o seu rol de noites de Auschwitz, ainda que elevadas à potência comezinha das vidas mais ou menos fagueiras. São os dramas, os desgostos, as perdas, as traições; são os olhos postos no chão com que enfrentamos os nossos mais próximos a quem, com vergonha inútil, imaginamos a palavra desilusão inscrita nas pálpebras. Transpor a frase de Adorno para a nossa ruela terrena seria afirmar que nenhuma felicidade (nos) é completa - talvez mesmo nem permitida, nalguns casos - depois do renque de sofrimentos acima. Como se a existência degenerasse então numa espécie de loiça de refugo, vedada que nos está a partilha de refeições em pratos de primeiríssima qualidade. 

A vida tem de ser a procura da paz, mais do que da felicidade. Já aqui o disse, citando Hans Kung. À noite de Auschwitz temos de contrapor os olhos postos no Céu, onde está a resposta de tudo para tudo, a luz perene que ilumina a alma de quem sofre e de quem cuida. Antes de olharmos para o lado temos de olhar para cima, dar à relação horizontal uma dimensão vertical. Só o Amor nos salva - o amor pelos que nos estão mais próximos, o amor que é verdade, transparência, partilha, pedido de ajuda, mãos abertas que significam impotência e ansiedade. Ao olhar que pede damos uma palavra que enxuga lágrimas, não um cilício que aperta ilhargas.

Erbarme dich, significa, em alemão, tem misericórdia. Ouvir a beleza mais triste pode ser um acto redentor, um módico de iluminação na noite de Auschwitz, a generosidade divina que nos converte, nos faz perceber que é mais importante deixar traços do que provas. Só o Amor nos salva - e a misericórdia, que é compaixão. 

JdB  


* publicado originalmente a 3 de Outubro de 2014

25 março 2026

Vai um gin do Peter’s ?

 ARTE DE HOJE IRROMPE NO VATICANO COM NOVA VIA SACRA 

O pintor suíço de apenas 36 anos, protestante, pai de 3 filhos, não imaginava ser escolhido, por unanimidade, pelo exigente júri vaticanista, para pintar uma versão actual das 14 Estações da Via Sacra e expô-las (temporariamente, parece) no interior da Basílica de S.Pedro, no templo mais importante da cristandade, que transborda de arte e de beleza, a começar na arquitectura!

O concurso foi lançado em Dezembro de 2023, no tempo do Papa Francisco, com o objectivo de atualizar o diálogo entre arte e culto, para oferecer aos visitantes um sinal renovado de beleza, que continua a ser a via privilegiada pelo Vaticano para a contemplação dos mistérios da fé, em especial, dos difíceis mistérios da Paixão e da Crucifixão. Puderam concorrer artistas de todas as nacionalidades, etnias, confissões religiosas, etc. Acorreram mais de mil concorrentes de 80 países, pelo que o júri – composto por historiadores de arte, liturgistas e representantes da Santa Sé – teve a árdua tarefa de reduzir o grupo a 14 nomes, a quem pediram dois sketches, um deles de tema pré-definido: a 12ª Estação, da morte de Jesus. Neste teste derradeiro, Manuel Andreas Dürr distinguiu-se pela expressividade da sua interpretação do mistério pascal e pelo equilíbrio da composição.    

À ESQ. – Manuel Andreas Dürr na inauguração da sua Via Sacra, na Basílica de S.Pedro, na primeira Sexta-feira da Quaresma de 2026 (20.Fev. - OSV News photo/Courtney Mares). À DTA. – o pintor no seu atelier rodeado dos painéis destinado ao Vaticano.

Dürr fora apanhado de surpresa, desde o princípio, pois só se inscrevera no concurso por insistência de um amigo. E vira poucas hipóteses de vencer, até porque pertencia à pequena comunidade cristã Jahu, saída da Reforma protestante, embora muito aberta e de cariz ecuménico. Curiosamente, do ponto de vista teológico, o pintor sente-se próximo do catolicismo. 

Logo que foi escolhido, em Dezembro de 2024, rumou ao Vaticano para estudar o local de destino da sua Via Sacra. A nova surpresa foi a descoberta da universalidade do famoso templo: «One thing that came as a bit of a shock, in a ense, was when I came to Rome, I suddenly realized that really this is a global Church. My own church at home feels very provincial when I come here and I see people from all ages, from all continents, and from all income classes, are gathering around shared expressions of faith.

Começou também a apercebeu-se melhor e a preocupar-se com o desafio que seria  representar a figura mais marcante da nossa cultura, ainda por cima, na fase terrível da morte a que se sujeitara: «To paint Jesus is very, very difficult because he is not someone I am introducing; he is someone that billions of people already have an idea of and have a personal relationship with». Sobre a crucifixão, que foi o painel onde começou a empreitada e onde a concluiu, explicou assim o desafio de conceber a cruz, que paradoxalmente se convertera em expoente de esperança e de amor: «This story has shaped Christian art and European culture … the world’s culture, like no other story has. And how this cross, which was intended as a symbol of terror, instilling fear into the subjects of the Roman Empire, suddenly becomes something that we wear around our necks as a symbol of hope.»

O terceiro receio seria fazer algo para um dos monumentos com maior concentração de arte acumulada ao longo de séculos e harmoniosamente disposta para transmitir uma beleza interpelativa, capaz de engrandecer a natureza humana. Dürr lembrava, com graça, que os artistas contemporâneos estão habituados a expor em paredes monocromáticas, quase sempre brancas, onde as peças se destacam facilmente, sem terem de dialogar nem entrosar-se com nenhuma outra. 

Como os receios se multiplicavam, o suíço resolveu mergulhar na cultura italiana e inspirar-se nos artistas que considerou mais aptos a ajudá-lo a oferecer ao público uma nova abordagem ao mistério da Páscoa. Escolheu para mestres de inspiração Michelangelo e Fra Angelico. Resultou, porque a beleza depurada e sumamente subtil dos painéis de Dürr estão a causar sensação entre os turistas e peregrinos que têm visitado a Basílica de S.Pedro, não destoando da sumptuosidade belíssima do templo multissecular. 

Percebe-se que a simplicidade das suas pinturas é o resultado de um enorme esforço de maturação, até chegar à expressão mais simples, que condensa e se cinge ao principal. Os painéis com a crucifixão e a Pietá são especialmente eloquentes e de uma beleza cristalina. Na composição da morte de Jesus, o entrelaçado dos madeiros dos três condenados condensa o drama da primeira Sexta-feira Santa da História, manchada de sangue, parte dele inocente. A figura destacada de Cristo sugere que assume a maior quota de dor, sustentando os outros. Adianta-se na hora mais humilhante para salvar todo o ser humano, que queira. Na Pietá, o chão assemelha-se a um céu salpicado de estrelas, como se se tratasse de uma imagem cósmica do planeta azul, visto de cima; a haste do madeiro onde Jesus morrera, ampara a Mãe, que agora ampara o Filho; a veste branca, que cobrira Jesus e agora se enovela aos seus pés, replica a morte daquele corpo inerte, cuja alma já partira para o Pai. Talvez o significado directo destes paíneis, como entrega total em favor da humanidade, os tornem mais comoventes e impactantes: 

A crucifixão. À DTA. - magnificamente enquadrada no interior da Basílica, num diálogo fluído e enriquecedor entre gerações distantes. 

A monumental Pietá de Dürr, linda, serena, sofrida, mas sempre Mãe, a amparar o Filho com enorme subtileza, sem se impor, apenas a oferecer a segurança de uma mão e de um colo meigos. 
As Estações com as quedas na subida para o Calvário expõem a máxima fragilidade de Jesus, mas sem desespero. Percebe-se que aquele Condenado nunca atirou a ‘toalha ao chão’. Tinha mesmo oferecido a sua vida à morte mais cruel e indigna, sem desistir da sua missão redentora. A aspereza do chão pedregoso dos painéis acentua o peso de uma cruz demasiado grande para um homem já sem forças: 

As quedas no caminho para o Calvário. Na imagem à direita constata-se a forma harmoniosa como a Via Sacra de Dürr se integrou na magnífica Basílica.

É espantosa a associação que o pintor faz entre o gesto de Veronica e a pintura, no afã de registar uma imagem mais profunda da realidade. Era, por isso, o seu painel preferido: «To my surprise, maybe, a little bit, Veronica was the most special station for me. She holds up a cloth which then has an imprint of the image of Christ. And I found basically that’s what I’m attempting to do. I’m painting on cloth in a small way. … And for me, this kind of dignified, I think, what the painter is attempting to do which is … to provide a trace of something deeper to be experienced. It gives dignity to what the painter is trying to do: offer a small trace of something deeper.» 

6ª Estação – Verónica tem a coragem de sair da multidão para confortar um marginal. É o painel preferido do suíço, que a considera uma metáfora óptima da própria pintura. Em Verónica, a imagem provém do dom puro; no artista, acrescenta-se ao dom o trabalho árduo. 
A uma semana de revivermos as 14 Estações do Calvário, na Sexta-Feira que consideramos Santa, a obra do suíço ajuda a iluminar os infinitos momentos e detalhes da misteriosa história de sofrimento (e salvação), mais lembrada e reactualizada dos últimos dois milénios.  

A condenação do Governador romano Pôncio Pilatos e o início da subida para o Calvário. À ESQ.- a des-sintonia entre Jesus e o Governador romano está bem patente nas posições de ambos, um na ilusão de ainda pontificar sobre o rumo dos acontecimentos, e o Outro sem ilusões sobre as fraquezas e os perigosos ‘equívocos’ humanos.  Sofria-os todos na pele!

À ESQ. – a 5ª Estação, talvez do recrutamento forçado do Cireneu, para ajudar um Condenado demasiado enfraquecido a chegar ao cimo do Calvário. Tudo o que os romanos não queriam, era que morressem antes de ser crucificados! À DTA. – a docilidade de Jesus, enquanto os soldados o despem, momentos antes de ser pregado no madeiro. Percebe-se por que impressionou tanto o Bom Ladrão (S.Dimas).

Boa Semana Santa e Feliz Páscoa 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)


24 março 2026

Textos dos dias que correm

 Perdoar e Esquecer 

Perdoar e esquecer equivale a jogar pela janela experiências adquiridas com muito custo. Se uma pessoa com quem temos ligação ou convívio nos faz algo de desagradável ou irritante, temos apenas de nos perguntar se ela nos é ou não valiosa o suficiente para aceitarmos que repita segunda vez e com frequência semelhante tratamento, e até de maneira mais grave. Em caso afirmativo, não há muito a dizer, porque falar ajuda pouco. Temos, portanto, de deixar passar essa ofensa, com ou sem reprimenda; todavia, devemos saber que agindo assim estaremos a expor-nos à sua repetição. Em caso negativo, temos de romper de modo imediato e definitivo com o valioso amigo ou, se for um servente, dispensá-lo. Pois, quando a situação se repetir, será inevitável que ele faça exactamente a mesma coisa, ou algo inteiramente análogo, apesar de, nesse momento, nos assegurar o contrário de modo profundo e sincero. Pode-se esquecer tudo, tudo, menos a si mesmo, menos o próprio ser, pois o carácter é absolutamente incorrigível e todas as acções humanas brotam de um princípio íntimo, em virtude do qual, o homem, em circunstâncias iguais, tem sempre de fazer o mesmo, e não o que é diferente. (...) Por conseguinte, reconciliarmo-nos com o amigo com quem rompemos relações é uma fraqueza pela qual se expiará quando, na primeira oportunidade, ele fizer exactamente a mesma coisa que produziu a ruptura, até com mais ousadia, munido da consciência secreta da sua imprescindibilidade. 

Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'

***

O Perdão e a Promessa

Se não fôssemos perdoados, eximidos das consequências daquilo que fizemos, a nossa capacidade de agir ficaria por assim dizer limitada a um único acto do qual jamais nos recuperaríamos; seríamos para sempre as vítimas das suas consequências, à semelhança do aprendiz de feiticeiro que não dispunha da fórmula mágica para desfazer o feitiço. Se não nos obrigássemos a cumprir as nossas promessas não seríamos capazes de conservar a nossa identidade; estaríamos condenados a errar desamparados e desnorteados nas trevas do coração de cada homem, enredados nas suas contradições e equívocos - trevas que só a luz derramada na esfera pública pela presença de outros que confirmam a identidade entre o que promete e o que cumpre poderia dissipar. Ambas as faculdades, portanto, dependem da pluralidade; na solidão e no isolamento, o perdão e a promessa não chegam a ter realidade: são no máximo um papel que a pessoa encena para si mesma. 

Hannah Arendt, in 'A Condição Humana'

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