Não há silêncio bastante Para o meu silêncio. Nas prisões e nos conventos Nas igrejas e na noite Não há silêncio bastante Para o meu silêncio.
Os amantes no quarto Os ratos no muro. A menina Nos longos corredores do colégio. Todos os cães perdidos Pelos quais tenho sofrido Quero que saibam: O meu silêncio é maior Que toda solidão E que todo silêncio.
Naquele tempo, ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se. Rodearam-n’O os discípulos e Ele começou a ensiná-los, dizendo: «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Bem-aventurados os humildes, porque possuirão a terra. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus. Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa».
adjectivo de 2 géneros 1.teimoso 2.pouco receptivo a inovações
nome de 2 géneros 1.pessoa teimosa 2.pessoa apegada a pontos de vista ultrapassados
nome feminino
ORNITOLOGIA (Nymphicus hollandicus) ave australiana, da família dos Psitacídeos, apresenta geralmente plumagem cinzenta no corpo e face amarelada com mancha laranja e penacho na cabeça, sendo muito apreciada como animal de estimação; calopsita.
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Todas as famílias têm os seus códigos linguísticos. Na minha, como na de outras com quem privei, usava-se muito as palavras caturra / caturrice, aplicadas, normalmente, para caracterizar pessoas que tinham feitios especiais, com algumas manias ou peculiaridades. As pessoas riam-se de fulano porque era caturra, riam-se das caturrices de fulano. Ser-se caturra era bom! Num certo extremo oposto desta categoria estava ocalisto, que definia gente maçadora. Mas era mais do que isto: gente maçadora mas com pretensões, dizendo frases banais com uma roupagem de pompa, gente a querer ser saliente sem nada que os salientasse, gente a explicar trocadilhos ou a perorar anedotas com esquecimentos pelo meio, a contar histórias com excesso de discurso directo.
Ora, caturra, comopode ver-se pela definição do dicionário, está muito longe de ser aquilo que algumas famílias entendem ser. E calisto não é mais, ainda segundo o dicionário, do que indivíduo cuja presença, no jogo, é de mau agouro. No entanto, apesar das definições correctas, algumas famílias continuarão a usar calisto e caturra como uma espécie de opostos, ainda que nada tenham a ver um com o outro.
À medida que o tempo passa, olhamos com outros olhos para os caturras (e vamos deixar os calistos de parte). Maçador como consigo ser, há muito que deixei de entender como caturrice o que algumas pessoas faziam, e cujas histórias me eram contadas por gente que ria delas. Partir com um machado uma mobília que se fez com as próprias mãos, só porque o destinatário pediu que fosse pintada de roxinho, não é caturrice. Deixar mulher e filhos e debandar para o Brasil à procura de aventura, de solidão ou de sei lá o quê, não é caturrice. Lembro-me ainda, era eu detentor de uma enorme ignorância (ainda assim menor do que aquela de que sou detentor hoje) de dizer que estas pessoas não eram caturras, mas apenas gente que infernizou a vida do próximo. Achamos graça só porque não vivemos com eles, não sofremos na pele ou no coração os seus aparentes disparates.
Ontem almocei com um amigo. No meio de conversas sobre perturbações do nosso sistema neuronal tomei conhecimento com uma doença, mais especificamente com o nome de uma doença, reconhecida como estado patológico desde 1990: misofonia, de miso (aversão, ódio) e fonia (som), o que significa que é uma reação forte a determinados sons. Sons que podem ser de alguém que clica insistentemente numa caneta, alguém que tamborila com os dedos no tampo de uma mesa, alguém que assobia baixinho uma toada qualquer. Sons esses, como me foi contado, que provocam alterações graves e perturbadoras em pessoas que sofrem desta patologia.
Olho para trás, para derramar um olhar mais lúcido sobre uma ideia que já tinha: estas famílias de que falo não tinham caturras, não tinham gente com graça ou com hábitos curiosos ou peculiares. E, mais grave ainda, aquilo que eu entendia, ignorantemente, como um processo de infernização das vidas alheias, tem um nome: chama-se síndrome de Asperger, bipolaridade, misofonia, esquizofrenia ou cólera. A ciência e o conhecimento psiquiátrico ou psicológico da mente humana desqualificaram algumas pessoas: de divertidos passaram a doentes, de caturras passaram a doentes.
Olhar para trás com este conhecimento técnico é perceber que o humor pode só ser interessante se divertir o nosso mais próximo. Caso contrário pode ser uma doença, com um nome já existente ou a existir, que a catalogará. O assustador são os padrões que descortinamos numa família...
JdB
* publicado originalmente a 29 de Dezembro de 2017
O desgosto pela perda da mãe, aproximou os dois adolescentes melómanos, que se tinham conhecido há pouco tempo – Lennon e McCartney. A matriarca Julia Lennon morrera repentinamente, num acidente, tinha John uns 18 anos, enquanto Mary McCartney fora vítima de cancro, tinha Paul 14 anos. Embora trabalhasse muito e parasse pouco em casa, a família respirava e apoiava-se na sua presença maternal. Depois de chegar tarde do trabalho, ainda cozinhava as refeições para o dia seguinte. Os filhos mal a viam, mas adivinhavam a sua ajuda incansável! Não conseguiam ter carro – comentava Paul – mas geriam bem o dia-a-dia, sustentado no trabalho árduo da mãe e do pai. Por isso, também do ponto de vista financeiro, a morte de Mary desestabilizou o modesto equilíbrio dos McCartney.
Lennon, filho de pais separados logo nos primeiros anos de vida, sofreu cedo a morte do tio que o acompanhou na infância, pois fora adoptado por ele e pela irmã da sua mãe – a tia Mimi. Ainda assim, mantinha contacto com a mãe Julia, que tinha imenso humor e veia musical. Foi considerada por biógrafos de J.Lennon como a sua principal musa. Recebera dela a primeira guitarra e com ela aprendera a apreciar o rock’n roll. Aos 18 anos, sofreu uma dupla perda materna: a primeira, com a mudança para casa dos tios por impossibilidade de viver com a instável mãe, a segunda com o atropelamento fatal de Julia. A sequência de perdas afectivas, na infância e na juventude, poderão estar na origem do seu carácter agressivo e rebelde, que encontrou um escape na música, por onde ecoou o desgosto insarável da maior dor – a Partida materna. Os títulos de algumas composições são auto-explicativos: «Julia», «My Mummy’s death», «Mother». Esta ária inaugura o álbum homónimo, publicado em 1970, sob a marca John Lennon/Plastic Ono Band. Termina num estrilho dorido, entoado, quase gritado, a evocar a ferida antiga, nunca sarada: «Mama don't go /Daddy come home». O álbum fecha com «My Mummy's Dead», onde o Beatle canta a incompreensão pelo aguilhão persistente e doloroso causado pelo trágico falecimento da mãe.
John Lennon (8 /9 anos) e a mãe, aprox. em 1949, em Rock Ferry, Cheshire, Inglaterra.
O pai de John Lennon, com quem o filho tinha uma relação conflituosa.
O sofrimento deu uma cumplicidade adicional à parceria imbatível dos dois órfãos de mãe, John e Lennon, ambos q.b. perdidos na vida, mas transbordantes de talento musical e de vontade de viver as novidades entusiasmantes dos loucos anos 60. Entre guitarradas, composições musicais, drogas e namoradas, saboreavam o dia-a-dia com voragem, sem limites, maximamente inebriados. Enfrentavam, depois, a hora das teimosas ressacas e insónias, a relembrar-lhes o vazio das suas vidas desenraizadas, demasiado inconstantes, feridas por um desamor profundo, que exacerbava a fragilidade de tanto rodopio divertido, mas alucinante, fugaz.
Numa noite de insónia mais feroz, em 1965, McCartney acabou por dormitar e ter um sonho profético com a mãe, que lhe transmitiu palavras consoladoras, reconciliando-o com o desgosto da sua Partida prematura e, sobretudo, incutindo-lhe esperança no futuro: «I woke up with a great feeling. It was really like she had visited me at this very difficult point in my life and gave me this message: ‘Be gentle, don’t fight things, just try and go with the flow and it will all work out. It’ll be all right. Don’t worry too much, it will turn out OK’». De facto, acordou cheio de paz e até revigorado, falando daquele reencontro com a mãe, em sonhos, como um clímax de felicidade numa vida de altos e baixos acentuados. Apressou-se, por isso, a escrever a mensagem do sonho, que vinha já envolta em música: «When I find myself in times of trouble, Mother Mary comes to me / Speaking words of wisdom: LET IT BE.». Assim nasceu uma das obras mais famosas dos Beatles. A gravação só arrancou em 1969, quando o grupo se aproximava da ruptura. Conheceu, em 1970, uma versão remasterizada, após a cisão do quarteto com Lennon, pelo que foi gravada a três. Mas teve o contributo da voz da namorada de McCartney – a fotógrafa norte-americana Linda Eastman – no acompanhamento coral. Começava a parceria musical de Paul e Linda. Conhecera-a num bar, em 1967, e rapidamente ela tornou-se no seu sustentáculo, inclusive a nível artístico. Considerava-a um presente da atenta mother Mary: «Not very long after the dream, I got together with Linda, which was the saving of me. And it was as if my mum had sent her, you could say.»
Como a conhecida ária se inspirara num encontro com alguém do Além, acabou igualmente associada à Mãe do Céu, o que McCartney aceitou de bom grado, valorizando esta mais-valia do olhar de fé, pois cumpre em pleno o trilho universalista e o cunho de Esperança, que lhe tinham sido transmitidos pela mãe. Nas suas palavras: «Mother Mary makes it a quasi-religious thing, so you can take it that way, I don’t mind. I’m quite happy if people want to use it to shore up their faith. I have no problem with that. I think it’s a great thing to have faith of any sort, particularly in the world we live in.»
Se LET IT BE surgira numa manhã radiosa, após uma epifania nocturna, outra famosa composição dos Beatles chorava a Partida prematura das mães dos jovens músicos. Chamou-se «YESTERDAY», procurando refúgio num passado menos cruel do que o inóspito presente de orfandade. Escrita por McCartney, foi lançada em Agosto de 1965, integrada no álbum ‘Help’. Destacou-se logo pelo tom nostálgico, intimista e firme, algo reivindicativo, impregnado do ar do tempo. Nalguns versos assume-se e exorciza-se o remorso, como em «I said something wrong», arrependido pelos remoques desagradáveis disparados à mãe, numa fase bravia da adolescência. Num ápice, YESTERDAY entrou no top de vendas e, claro, no património cultural da Humanidade (tal como LET IT BE):
Quase todas as composições dos Beatles estão entranhadas da sua biografia atribulada, muitas com um sentido generoso de homenagem aos mais queridos. Genericamente, clamam pelo amor infinito, que habita o ser humano. Foi providencial aqueles miúdos de Liverpool terem sido bafejados com tanto talento, para dar forma musical aos diferentes anseios humanos, quando embatem na realidade, sobretudo nas mais desafiantes. Assim nos legaram sons luminosos, a par de outros mais sombrios, mas ávidos de viver no seu modo livre e artístico de celebrar a paixão pela vida. Viva la vita, com todos e para lá de todos os contrastes.
Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
O mais comum é agradecer o que nos foi dado. E não nos faltam motivos de gratidão. Há, é claro, imensas coisas que dependem do nosso esforço e engenho, coisas que fomos capazes de conquistar ao longo do tempo, contrariando mesmo o que seria previsível, ou que nos surgiram ao fim de um laborioso e solitário processo. Mas isso em nada apaga o essencial: as nossas vidas são um recetáculo do dom.
Por pura dádiva recebemos o bem mais precioso, a própria existência, e do mesmo modo gratuito fizemos e fazemos a experiência de que somos protegidos, cuidados, acolhidos e amados. Se tivéssemos de fazer a listagem daquilo que recebemos dos outros (e é pena que esse exercício não nos seja mais habitual), perceberíamos o que a poetisa Adília Lopes repete como sendo a sua verdade: «sou uma obra dos outros». Todos somos.
A nossa história começou antes de nós e persistirá depois. Somos o resultado de uma cadeia inumerável de encontros, de gestos, boas vontades, sementeiras, afagos, afetos. Colhemos inspiração e sentido de vidas que não são nossas, mas que se inclinam pacientemente para nós, iluminando-nos, fundando-nos na confiança. Esse movimento, sabemo-lo bem, não tem preço, nem se compra em parte alguma: só se efetiva através do dom.
Por isso é que quando ele falta a sua ausência indelével faz-se sentir a vida inteira. O seu lugar não consegue ser preenchido, mesmo se abunda uma poderosa indústria de ficções de todo o tipo com a inútil pretensão de ser oblívio e substituição para essa espécie de fala geológica que nos morde.
Hoje, porém, dei comigo a pensar também na importância do que não nos foi dado. E a provocação chegou-me por uma amiga que confidenciou: «Gosto de agradecer a Deus tudo o que Ele me dá, e é sempre tanto que nem tenho palavras para descrever. Sinto, contudo, que lhe tenho de agradecer igualmente o que Ele não me dá, as coisas que seriam boas e que eu não tive, o que até pedi e desejei muito, mas não encontrei. O facto de não me ter sido dado obrigou-me a descobrir forças que não sabia que tinha e, de certa maneira, permitiu-se ser eu».
Isto é tão verdadeiro. Mas exige uma transformação radical da nossa atitude interior. Tornar-se adulto por dentro não é propriamente um parto imediato ou indolor. No entanto, enquanto não agradecermos a Deus, à vida ou aos outros o que não nos deram, parece que a nossa prece permanece incompleta. Podemos facilmente continuar pela vida dentro a nutrir o ressentimento pelo que não nos foi dado, a compararmo-nos e a considerarmo-nos injustiçados, a prantear a dureza daquilo que em cada estação não corresponde ao que idealizamos.
Ou podemos olhar o que não nos foi dado como a oportunidade, ainda que misteriosa, ainda que ao inverso, para entabular um caminho de aprofundamento... e de ressurreição. Foi assim que numa das horas mais sombrias do século XX; desde o interior de um campo de concentração, a escritora Etty Hillesum conseguiu, por exemplo, protagonizar uma das mais admiráveis aventuras espirituais da contemporaneidade. No seu diário deixou escrito:
«A grandeza do ser humano, a sua verdadeira riqueza, não está naquilo que se vê, mas naquilo que traz no coração. A grandeza do homem não lhe advém do lugar que ocupa na sociedade, nem no papel que nela desempenha, nem do seu êxito social. Tudo isso pode ser-lhe tirado de um dia para o outro. Tudo isso pode desaparecer num nada de tempo. A grandeza do homem está naquilo que lhe resta precisamente quando tudo o que lhe dava algum brilho exterior, se apaga. E que lhe resta? Os seus recursos interiores e nada mais.»
Quando Jesus ouviu dizer que João Baptista fora preso, retirou-Se para a Galileia. Deixou Nazaré e foi habitar em Cafarnaum, terra à beira-mar, no território de Zabulão e Neftali. Assim se cumpria o que o profeta Isaías anunciara, ao dizer: «Terra de Zabulão e terra de Neftali, estrada do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios: o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam na sombria região da morte, uma luz se levantou». Desde então, Jesus começou a pregar: «Arrependei-vos, porque o reino de Deus está próximo». Caminhando ao longo do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Disse-lhes Jesus: «Vinde e segui-Me e farei de vós pescadores de homens». Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O. Um pouco mais adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, que estavam no barco, na companhia de seu pai Zebedeu, a consertar as redes. Jesus chamou-os e eles, deixando o barco e o pai, seguiram-n’O. Depois começou a percorrer toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do reino e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.
— Pequim é um monstro! — disse Camilloff oscilando refletidamente a calva. — E agora considere que a esta capital, à classe tártara e conquistadora que a possui, obedecem trezentos milhões de homens, uma raça subtil, laboriosa, sofredora, prolífica, invasora... Estudam as nossas ciências... Um cálice de Médoc, Teodoro!... Têm uma marinha formidável! O exército, que outrora julgava destroçar o estrangeiro com dragões de papelão donde saíam bichas de fogo, tem agora tática prussiana e espingarda de agulha! Grave!
— E todavia, general, no meu país, quando, a propósito de Macau, se fala do Império Celeste, os patriotas passam os dedos pela grenha, e dizem negligentemente: «Mandamos lá cinquenta homens, e varremos a China...»
A esta sandice — fez-se um silêncio. E o general, depois de tossir formidavelmente, murmurou, com condescendência:
Um dia destes, entre uma bicada numas amêijoas à Bulhão Pato e uma bicada numas plumas de porco preto, dei por mim a dialogar sobre a diferença entre alguém 'queixar-se' e alguém 'manifestar uma preocupação'. Afinal, o tema não é despiciendo: tendemos naturalmente para nos impacientarmos com os primeiros, e tendemos de forma igualmente natural para nos solidarizarmos com os segundos. Ouvir uma pessoa e decidir que ela está a queixar-se ou apenas a demonstrar uma preocupação pode suscitar respostas completamente diferentes.
O dicionário Priberam define 'queixar[-se]' (também) como lamentar-se, mostrar-se ofendido ou indignado. Por outro lado, a expressão 'manifestar preocupação por' pode definir-se (também) como um estado de inquietação, ansiedade ou receio sobre algo que pode dar errado ou que necessita de atenção. É uma demonstração de apreensão por uma situação, pessoa ou problema.
A diferença entre 'queixar-se' e 'manifestar uma preocupação' poderá estar no tom, na intenção e na forma como ouvimos quem profere o lamento. 'Queixar-se' envolve insatisfação ou descontentamento com algo e costuma ter um tom mais emocional, negativo ou crítico, podendo ser percebido como simples reclamação ou como algo pouco construtivo. Já a 'manifestação de preocupação' envolve cuidado, atenção ou alerta sobre um possível problema. Tem um tom mais neutro, respeitoso e racional, sugerindo intenção construtiva, muitas vezes com um foco na prevenção de consequências ou na melhoria de uma situação.
O meu interlocutor defendia que a queixa é de alguma forma egoísta, nomeadamente quando a pessoa se lamenta, não tomando nenhuma decisão. Exemplo: tem muito trabalho. Porém, quando o lamento tem impacto noutras pessoas já configura a manifestação de uma preocupação. Exemplo: o trabalho que dá a manutenção de casas porque a sua alienação pode afectar potenciais herdeiros. Eu defendi que a diferença entre a queixa e a manifestação de preocupação está, também, no tom de voz e na repetição; e defendi que apenas em casos claramente óbvios essa diferença é óbvia. Fora isso, há uma enorme zona cinzenta relativamente à qual a diferença entre um estado e o outro é muito ténue, sendo que depende, também, de quem ouve. Na verdade, do que dizemos só metade nos pertence; a outra metade é de quem nos escuta.
A definição constante acima é bastante clara. No entanto, quem pode dizer que a queixa de muito trabalho não tem uma motivação construtiva por trás? No seu roman à clef intitulado Vidas Concêntricas, escreve Adalberto Cristina Carvalho: Hélder tinha uma generosidade que era filha da preguiça, como que a comprovar que uma virtude poderia ser motivada por um pecado; e tinha uma forma de lamento homeopática que, dizia ele, o ajudavam a combater a misantropia - a queixa como alívio. O incómodo para os outros - uma espécie de pecado social - era motivado pela virtude.
Há diferença entre dizer 'queixo-me dos custos dos materiais' ou dizer 'tenho uma preocupação com os custos dos materiais'? Podemos dizer à primeira que, no fundo, embora use a expressão 'queixa', essa pessoa está a manifestar uma preocupação? E podemos dizer à segunda que, no fundo, apesar de manifestar preocupação, essa pessoa não faz mais do que queixar-se? O que as diferencia?
Neste tema, como em tantos outros, teremos de usar de bom senso:a forma como ouvimos o lamento, se o lamento é transformado numa acção, a motivação, o histórico da pessoa que profere o lamento, a forma como o ouvimos e a nossa opinião sobre a referida pessoa, o universo humano associado ao lamento.
Os meus livros (que não sabem que existo) São uma parte de mim, como este rosto De têmporas e olhos já cinzentos Que em vão vou procurando nos espelhos E que percorro com a minha mão côncava. Não sem alguma lógica amargura Entendo que as palavras essenciais, As que me exprimem, estarão nessas folhas Que não sabem quem sou, não nas que escrevo. Mais vale assim. As vozes desses mortos Dir-me-ão para sempre.