23 abril 2021

O Fado, canção de vencidos

As duas mães
1930 | G. Santos Monteiro
Ao encomendar-se o morto,
Ao fazer-se o batisado,
As duas mães se encontraram
Junto do templo sagrado.

Pela mãe acompanhado
Entra a capela um anjinho,
Tão lindo no caixãosinho
Descoberto e enfeitado.
E enquanto o padre anafado
Orava, frio, absorto,
Da pobre mãe sem cofôrto
P’las faces febris, candentes,
Caía o pranto em torrentes
Ao encomendar-se o morto.

Nisto, ao pé da capelinha,
Outro cortejo aparece,
Outra mãe que ao colo aquece,
Uma linda criancinha.
Vai levar, a inocentinha,
Da pia o banho sagrado.
Com que amor e cuidado,
Vendo esse botão de rosa,
A mãe sorrirá ditosa
Ao fazer-se o batisado…

Vai o morto a retirar
No descoberto caixão,
Entra ridente e brincão
O vivo p’ra batisar.
Daquele a cor faz chorar,
Deste os olhos se escancararam,
E quando ambos passaram,
Um saindo outro entrando,
No adro bom e nefando
As duas mães se encontraram.

Cheio de afecto e carinho
Trocam elas um olhar
E vê-se a feliz chorar
Ao olhar o caixãosinho.
Entretanto ao inocentinho
Sorri a mãe do finado.
Essas mães, coração dado,
Tão bem se compreenderam
Que o seu sentir inverteram
Junto do templo sagrado.
G. Santos Monteiro – «As duas mães», Guitarra de Portugal, 30 de abril de 1930, n.º 196, ano n.º 8, p. 4.
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22 abril 2021

Duas Últimas

Estou certo de que dancei Sylvia's Mother cantado pelo Dr. Hook. É uma música de 1972, e eu estava na fase de pedir para dançar, de dançar, e de agradecer a dança. Entre o pedir e o agradecer, um slow de quatro minutos com uma rapariga da minha idade, do meu grupo de amigos, com o cabelo a cheirar a Timotei, talvez, a ser mais ou menos comedida no aperto de dois corpos juvenis. Não havia nunca maldade, apenas um gosto (ou uma necessidade) de sentir um corpo próximo, quase imóvel, uma perspectiva de qualquer coisa ou de coisa nenhuma. Talvez fosse apenas uma música de que se gostava, numa altura em que dançar muito junto era uma emoção que não se consegue descrever à luz do vocabulário de hoje. 

Algumas músicas sei com quem dancei; esta não me lembro. Mas que dancei, estou certo que dancei. E Também cantei, porque cantávamos o que dançávamos, embora nem sempre percebêssemos o que cantávamos. A frase Sylvia's Mother, permanentemente repetida, está bem presente na minha memória, juntamente com a melodia.

Ler o poema - e coloco-o a seguir ao youtube - dá uma ideia precisa do que cantávamos: a mediação de uma mãe entre a sua filha e um pretendente. Nunca saberemos se a mãe de Sylvia a protegia ou se protegia a si própria; nunca saberemos se Sylvia foi feliz com o homem de Galveston, ou se preferia aquele que se quer despedir dela e de quem a mãe a afasta. Nunca saberemos isso, como nunca saberemos muitas coisas que se passaram no passado, porque foi assim e como teria sido se fosse diferente. 

Nota: como explicamos à gente de agora o que era um período de telefone, o que era por moedas numa máquina para podermos falar mais três minutos?

JdB

Sylvia's mother says Sylvia's busy
Too busy to come to the phone
Sylvia's mother says Sylvia's trying
To start a new life of her own
Sylvia's mother says Sylvia's happy
So why don't you leave her alone?
And the operator says forty cents more
For the next three minutes
Please, Mrs. Avery, I just gotta talk to her
I'll only keep her awhile
Please, Mrs. Avery, I just want to tell her goodbye
Sylvia's mother says Sylvia's packing
She's gonna be leaving today
Sylvia's mother says Sylvia's marrying
A fella down Galveston way
Sylvia's mother says please don't say nothing
To make her start crying and stay
And the operator says forty cents more
For the next three minutes
Please, Mrs. Avery, I just gotta talk to her
I'll only keep her awhile
Please, Mrs. Avery, I just want to tell her goodbye
Sylvia's mother says Sylvia's hurrying
She's catching the nine o'clock train
Sylvia's mother says take your umbrella
'Cause, Sylvie, it's starting to rain
And Sylvia's mother says thank you for calling
And, sir, won't you call back again?
And the operator says forty cents more
For the next three minutes
Please, Mrs. Avery, I just gotta talk to her
I'll only keep her a while
Please, Mrs. Avery, I just want to tell her goodbye
Tell her goodbye
Please, tell her goodbye

21 abril 2021

Textos dos dias que correm

O PROVINCIANISMO PORTUGUÊS

Se, por um daqueles artifícios cómodos, pelos quais simplificamos a realidade com o fito de a compreender, quisermos resumir num síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo. O facto é triste, mas não nos é peculiar. De igual doença enfermam muitos outros países, que se consideram civilizantes com orgulho e erro.

O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela — em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz.

O síndroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia.

Se há característico que imediatamente distinga o provinciano, é a admiração pelos grandes meios. Um parisiense não admira Paris; gosta de Paris. Como há-de admirar aquilo que é parte dele? Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranóico com o delírio das grandezas. Recordo-me de que uma vez, nos tempos do « Orpheu», disse a Mário de Sá-Carneiro: «V. é europeu e civilizado, salvo em uma coisa, e nessa V. é vítima da educação portuguesa. V. admira Paris, admira as grandes cidades. Se V. tivesse sido educado no estrangeiro, e sob o influxo de uma grande cultura europeia, como eu, não daria pelas grandes cidades. Estavam todas dentro de si».

O amor ao progresso e ao moderno é a outra forma do mesmo característico provinciano. Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso lhes não atribuem importância de maior. Ninguém atribui importância ao que produz. Quem não produz é que admira a produção. Diga-se incidentalmente: é esta uma das explicações do socialismo. Se alguma tendência têm os criadores de civilização, é a de não repararem bem na importância do que criam. O Infante D. Henrique, com ser o mais sistemático de todos os criadores de civilização, não viu contudo que prodígio estava criando — toda a civilização transoceânica moderna, embora com consequências abomináveis, como a existência dos Estados Unidos. Dante adorava Vergílio como um exemplar e uma estrela, nunca sonharia em comparar-se com ele; nada há, todavia, mais certo que o ser a «Divina Comédia» superior à «Eneida». O provinciano, porém, pasma do que não fez, precisamente porque o não fez; e orgulha-se de sentir esse pasmo. Se assim não sentisse, não seria provinciano.

É na incapacidade de ironia que reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Por ironia entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redacções, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário. A essência da ironia consiste em não se poder descobrir o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele, deduzindo-se porém esse segundo sentido do facto de ser impossível dever o texto dizer aquilo que diz. Assim, o maior de todos os ironistas, Swift, redigiu, durante uma das fomes na Irlanda, e como sátira brutal à Inglaterra, um breve escrito propondo uma solução para essa fome. Propõe que os irlandeses comam os próprios filhos. Exarnina com grande seriedade o problema, e expõe com clareza e ciência a utilidade das crianças de menos de sete anos como bom alimento. Nenhuma palavra nessas páginas assombrosas quebra a absoluta gravidade da exposição; ninguém poderia concluir, do texto, que a proposta não fosse feita com absoluta seriedade, se não fosse a circunstância, exterior ao texto, de que uma proposta dessas não poderia ser feita a sério.

A ironia é isto. Para a sua realização exige-se um domínio absoluto da expressão, produto de uma cultura intensa; e aquilo a que os ingleses chamam detachment — o poder de afastar-se de si mesmo, de dividir-se em dois, produto daquele «desenvolvimento da largueza de consciência», em que, segundo o historiador alemão Lamprecht, reside a essência da civilização. Para a sua realização exige-se, em outras palavras, o não se ser provinciano.

O exemplo mais flagrante do provincianismo português é Eça de Queirós. É o exemplo mais flagrante porque foi o escritor português que mais se preocupou (como todos os provincianos) em ser civilizado. As suas tentativas de ironia aterram não só pelo grau de falência, senão também pela inconsciência dela. Neste capítulo, «A Relíquia», Paio Pires a falar francês, é um documento doloroso. As próprias páginas sobre Pacheco, quase civilizadas, são estragadas por vários lapsos verbais, quebradores da imperturbabilidade que a ironia exige, e arruinadas por inteiro na introdução do desgraçado episódio da viúva de Pacheco. Compare-se Eça de Queirós, não direi já com Swift, mas, por exemplo, com Anatole France. Ver-se-á a diferença entre um jornalista, embora brilhante, de província, e um verdadeiro, se bem que limitado, artista.

Para o provincianismo há só uma terapêutica: é o saber que ele existe. O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, disse Novalis, quando sonhamos que sonhamos.


Textos de Crítica e de Intervenção. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980.  - 159.

1ª publ. in “Notícias Ilustrado”, série II, nº 9. Lisboa: Agosto. 1928.

19 abril 2021

Do protocolo

Foi seguramente por ser monárquico e anglófilo que assisti, com interesse, às cerimónias fúnebres do Príncipe Filipe de Inglaterra. A conjunção "e" é importante: não acompanharia com a mesma curiosidade se se tratasse de um Presidente da República inglês, não seguiria com o mesmo gosto se fosse um Príncipe consorte da Holanda. 

Em sentido lato, o protocolo é o grande inimigo do improviso, com tudo o que isso tem de bom e de mau. Porém, neste tipo de cerimónias - pode ser um jantar de gala, um casamento, uma cerimónia fúnebre, uma homenagem aos caídos nas várias guerras - o protocolo é o inimigo de uma certa barbárie; é a regra que ordena o caos, é a informação que dá segurança ao inexperiente, é a instrução que confina o saloio ou retrai o criativo. O protocolo define o que não pode ser universalmente intuído: o tempo das coisas, a posição relativa das pessoas, as precedências, os ritmos feitos de som e silêncio, de movimento e quietude. 

Ninguém bate os ingleses neste tipo de protocolo. Assistir a uma cerimónia desta envergadura - mesmo que com apenas 30 convidados - é perceber que nada é deixado ao acaso, que os tempos se cumprem, que cada um sabe o seu sítio e que ninguém diz a ninguém "com licença" para passar num corredor estreito. Há, em tudo, uma atenção impressionante aos mais ínfimos detalhes. Não falo da precisão de um relógio suíço ou do controlo de uma missão espacial: falo de uma organização que tem tanto de funcional como de estético. Nada se faz que não tenha um propósito, ou que não esteja suportado numa tradição que se quer manter, sob risco de perda de uma civilização assente (também) nos símbolos.

Poderá parecer anacrónico saber-se que o próprio Príncipe Filipe participou, ao longo dos últimos 18 anos, na preparação do seu próprio funeral. Estamos habituados a ouvir das pessoas, como eu próprio ouvi, que querem ser cremadas ou não, que querem música ou não, que querem flores ou não. O que ele decidiu é independente da sua condição de marido da rainha de Inglaterra: não encomendou a composição de um Requiem, não sugeriu grandes coros ou grandes desfiles. Limitou-se a decidir coisas que definissem quem ele era, quais as suas origens, a que dava ele importância, o que o constituía. Não surpreende ver-se, num local mais discreto mas, mesmo assim, parte integrante de tudo, um carro puxado por dois cavalos; em cima do banco da frente a sua manta, o seu par de luvas, a caixa de plástico onde guardava os torrões de açúcar com que mimava os cavalos.

Independentemente da minha condição de monárquico ou de anglófilo, ou de pessoa que encontra grandes virtudes no protocolo (mesmo que com uma dimensão caseira) sou um homem muito dado aos símbolos. Ver centenas de soldados de cabeça tombada para baixo, ver os estandartes apontados para o chão, ouvir as músicas escolhidas é, do ponto de vista estético (e emocional, que a estética é uma emoção) perceber uma lógica, um fio condutor que une tudo. Sábado fiquei com a convicção pequenina e vaidosa de que o meu apego ao simbolismo das coisas é uma qualidade. A minha vaidade será perdoada, espero eu.

JdB

 

18 abril 2021

III Domingo da Páscoa

EVANGELHO - Lc 24,35-48


Naquele tempo,
os discípulos de Emaús
contaram o que tinha acontecido no caminho
e como tinham reconhecido Jesus ao partir do pão. Enquanto diziam isto,
Jesus apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco».
Espantados e cheios de medo, julgavam ver um espírito. Disse-lhes Jesus:
«Porque estais perturbados
e porque se levantam esses pensamentos nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo;
tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos,
Como vedes que Eu tenho».
Dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. E como eles, na sua alegria e admiração,
não queriam ainda acreditar, perguntou-lhes:
«Tendes aí alguma coisa para comer?» Deram-Lhe uma posta de peixe assado,
que Ele tomou e começou a comer diante deles. Depois disse-lhes:
«Foram estas as palavras que vos dirigi, quando ainda estava convosco:
'Tem de se cumprir tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos'».
Abriu-lhes então o entendimento
para compreenderem as Escrituras
e disse-lhes:
«Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia,
e que havia de ser pregado em seu nome
o arrependimento e o perdão dos pecados
a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas de todas estas coisas».

16 abril 2021

15 abril 2021

Das rimas pobres

Frank Gelett Burgess (1866 – 1951)  natural de Boston, EUA, foi um artista, crítico de arte, poeta, autor e humorista, conhecido pelos seus versos non-sense, dos quais incluo dois abaixo

The Purple Cow 

I never saw a Purple Cow,
I never hope to see one;
But I can tell you, anyhow,
I'd rather see than be one.


Cinq Ans Apres 

Ah, yes! I wrote the "Purple Cow"-- 
I'm Sorry, now, I Wrote it!
But I can Tell you, Anyhow,
I'll Kill you if you Quote it

Imaginemo-nos incultos, sem qualquer conhecimento da língua inglesa, e que, de olhos fechados, atentássemos apenas na rima. O que ressalta destas quadras singelas? A repetição da última palavra dos segundo e terceiros versos: one / one e it / it. Dir-se-ia uma rima pobre. 

Imaginemo-nos agora sem qualquer conhecimento da língua portuguesa e que, de olhos fechados, atentássemos apenas na rima. No poema Fonte, de Pedro Homem de Mello, acontece o mesmo nas quatro quadras seguidas: a última palavra do primeiro e terceiro verso repetem-se. Já não se diria uma rima pobre.

Fonte

Meu amor diz-me o teu nome
— Nome que desaprendi...
Diz-me apenas o teu nome.
Nada mais quero de ti.
Diz-me apenas se em teus olhos
Minhas lágrimas não vi,
Se era noite nos teus olhos,
Só por que passei por ti!
Depois, calaram-se os versos
— Versos que desaprendi...
E nasceram outros versos
Que me afastaram de ti.
Meu amor, diz-me o teu nome.
Alumia o meu ouvido.
Diz-me apenas o teu nome,
Antes que eu rasgue estes versos,
Como quem rasga um vestido!


Atentemos, por último, no poema de Amália Rodrigues: quatro quintilhas, em que o primeiro e o quinto verso se repetem sempre. Não se dirá uma rima pobre.


Estranha Forma de Vida

Foi por vontade de Deus
Que eu vivo nesta ansiedade
Que todos os ais são meus
Que é toda minha a saudade
Foi por vontade de Deus

Que estranha forma de vida
Tem este meu coração
Vives de forma perdida
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida

Coração independente
Coração que não comando
Vives perdido entre a gente
Teimosamente sangrando
Coração independente

Eu não te acompanho mais
Para deixa de bater
Se não sabes onde vais
Porque teimas em correr
Eu não te acompanho mais

Se não sabes onde vais
Para deixa de bater
Eu não te acompanho mais

Do ponto de vista puramente acústico, o que separa as quadras de Burgess, de Pedro Homem de Mello ou as quintilhas de Amália Rodrigues? Talvez uma coisa muito simples: a quantidade de quadras / quintilhas. Se Burgess se alongasse a falar na Purple Cow, repetindo sempre a última palavra dos segundo e quarto versos, talvez criasse um estilo. Assim, limitou-se a uma coisa sem sentido. Se o meu argumento estiver certo, ainda bem que Amália e Pedro Homem de Mello se atiraram a mais. E ainda bem que tudo isto é um disparate.

JdB   

14 abril 2021

Vai um gin do Peter’s ?

 NOVO DESIGN DE JÓIAS – A CORAGEM DE RESISTIR

Com o comércio local especialmente penalizado pelos sucessivos confinamentos, que tentam reduzir os contágios do coronavírus e assim reduzir a pressão sobre o nosso frágil sistema de saúde, muitas pequenas empresas foram forçadas a reinventar-se para não falir! As vendas online foram o primeiro passo e com ele vieram mais serviços, maior variedade de produtos e de designs, um novo marketing, etc. Talvez o maior salto tenha sido dado pelos sectores tradicionais mais dependentes dos clientes de boa idade, em geral, menos digitais. É, por exemplo, o caso da história feliz de inúmeras ourivesarias & joalheiros, que souberam reemergir, com galhardia, através de montras virtuais. Alguns viram-se recompensados com públicos mais novos e alargado a outras geografias, experimentando a facilidade de o digital galgar fronteiras. 

Em Dezembro de 2020, a bi-centenária Leitão & Irmãos acrescentou a uma loja online já em velocidade de cruzeiro, uma decoração mais jovial na sua loja do Chiado. Mantiveram os veludos e as vitrinas de iluminação indirecta, mas arriscaram no tom ao escolher um amarelo forte e festivo, que quadra bem com um chão agora revestido a calçada portuguesa. Assim tentam o ponto de equilíbrio entre um legado histórico como joalheiros da Casa Real e o aggionarmento necessário para a longevidade da marca. A primeira loja foi inaugurada no Porto, em pleno séc. XIX. Passados poucos anos, já no terceiro quartel de oitocentos, instalaram-se em Lisboa, perto da sua oficina do Bairro Alto, para ficarem mais próximos da corte. Com versatilidade e bom senso, já chegaram à sexta geração. 

Largo do Chiado, 16 (Chiado), entre a Vista Alegre e a Igreja do Loreto. TELEFONE 213257870

Algumas peças tradicionais persistem, como a colher de café ou a medalha de Nossa Senhora de Fátima do tempo da Guerra (a partir de 1942) ou os faqueiros e os castiçais clássicos. Mas, por exemplo, nos últimos anos, o design de taças e potes passou a misturar prata com porcelana de cores garridas, num efeito refrescante.



As colecções temáticas começaram a pulular como cogumelos e os padrões decorativos de outros sectores transitaram para a joalharia com naturalidade, evocando a azulejaria, a cerâmica, a escultura, a profusão de texturas dos materiais de construção, os têxteis, etc. A própria natureza também tem sido uma fonte de inspiração inesgotável para peças funcionais ou apenas decorativas. 

Caixas em prata – a fila de cima da série “frutos do mar” e a de baixo de “frutos do bosque”

Já tinha chegado a vez de as joias se transfigurarem e inclusive se estenderem a peças sem metais nobres, apostando em designs modernos, embora de linhas clássicas mais intemporais. Umas vezes adoptam leit-motiv temáticos, outras simplesmente estilizam a traça antiga, tendo por fio condutor a portugalidade.

Colecção Azulejo português

Da filigrana tradicional com os corações de Viana às linhas geométricas.

Botões de punho das colecções “Knot me” e da “Boa Esperança”.

Nos ateliers nascidos já neste século, a transição para o negócio online foi directa, pelo que a pandemia apenas intensificou a tendência. A novidade foi terem optado por estabelecer uma parceria alargada com a concorrência, num gesto pouco comum em Portugal. Em conjunto, lançaram uma série de estéticas bastante diversificadas. Chamaram-lhe «shaped by nature» para forjar brincos, anéis, colares e outros acessórios, que vão do estilo neo-barroco até às linhas mais depuradas:



Duas amigas de sectores diferentes – uma de ourivesaria e outra do sector alimentar – resolveram tornar-se complementares e lançar um pacote com uma jóia e doçaria inspiradas nos lenços que eram bordados para os namorados. Designaram-na de “Com Amor”:  

Há 7 peças diferentes e na caixa de chocolates, os corações têm cobertura de pistácio ou framboesa ou rosa. 

Merece um enorme aplauso a quantidade imensa de gente empreendedora e corajosa, que continua a lutar e a resistir às dificuldades incríveis que se lhe atravessaram no caminho, em vez de ‘atirar a toalha ao chão’. Eles têm-se esmerado a fazer a sua parte, pelo que o mínimo – de quem está do lado de cá da barricada – é noticiá-los, lembrá-los e, quem sabe, abrir-lhes mais públicos?...


Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

12 abril 2021

“Para quê poetas” *

Eis o título de um dos textos de Caminhos da floresta de Heidegger: “Para quê poetas”. Seriam necessários poetas mesmo se tudo ficasse reduzido ao que a ciência nos dá a conhecer, não perdera o mundo o seu encanto sempre que se apagasse a magia de nos maravilharmos com o que existe e acontece. Começamos a habitar um mundo desencantado sempre que compreendemos tudo através do conhecimento científico. Quando já não há lugar para o mistério, passamos a ser Senhores de todo o processo que crie realidade. Talvez até queiramos controlar tudo, ou quase tudo. Talvez até há quem deseje ser um Senhor Criador do real, como se pudesse tudo prever e construir por meio da tecnologia. Mas é aí que precisamos de poetas, para nos ajudarem a dar ao mundo que habitamos um novo encanto e sabor.

Foi a Carta Apostólica Candor lucis aeternae do Papa Francisco que me fez lembrar do texto de Heidegger. Para não deixar passar despercebido o 7.º centenário da morte de Dante Alighieri, o Santo Padre leva-nos a revisitar a figura deste poeta e o que ela significa para a Igreja, em particular, e para a humanidade, em geral. Citando o seu predecessor Paulo VI, Francisco afirma: “em Dante, todos os valores humanos (intelectuais, morais, afetivos, culturais, civis) são reconhecidos, exaltados; e é muito importante notar que este apreço e honra se verificam enquanto ele mergulha no divino, quando a contemplação teria podido anular os elementos terrenos”.

A celebração da efeméride não procura apenas homenagear a obra de Dante, mas sobretudo o Homem que ele foi. Pois o poeta não nos fala apenas nos enredos que escreveu. A sua vida é ela mesma um texto cuja trama narrativa não desencanta o mundo, nem fecha os seus protagonistas na contingência do sofrimento e do desencanto. “Dante descobre [diz o Papa] a vocação e a missão que lhe foram confiadas, de modo que, paradoxalmente, de homem aparentemente falido e desiludido, pecador e desanimado, transforma-se em profeta de esperança”.

Não se trata apenas de afirmar a Ressurreição no final do caminho, mas de a saborear no presente. Não se trata apenas de acreditar num futuro que poderá remotamente vir a acontecer. Trata-se, pois, de confiar que não é vão o “desejo humano de felicidade”; um desejo presente, atual. Por mais dura que seja a vida e por mais desencantado que o mundo possa parecer, o poeta deixa-se maravilhar no seu presente ansiando por uma “plenitude de vida” que nunca deixa de o habitar.

A missão do poeta é profética, não só porque revela toda a falta de autenticidade – criticando até mesmo “os crentes, tanto Pontífices como simples fiéis, que atraiçoam a adesão a Cristo e transformam a Igreja num instrumento em prol dos próprios interesses” –, mas também porque o seu poetar nos faz sentir como pessoas que não são de aqui de baixo. A este respeito, Francisco emprega o termo “transumanar”, no sentido de “ultrapassar o humano”, que São João Paulo II terá referido a propósito de Dante. “«Transumanar». Foi este o esforço supremo de Dante: fazer que o peso do humano não destruísse o divino que existe em nós, nem a grandeza do divino anulasse o valor do humano. Por esta razão, o Poeta leu justamente a própria vicissitude pessoal e a da inteira humanidade em chave teológica”.

O poeta não começa por acreditar em Deus. Nem olha em primeiro lugar para o futuro prometido lá do alto, para uma Ressurreição que há de acontecer num depois longínquo. Nada disso. Ele começa aí mesmo onde está. Acredita no desejo que agora o habita. Acredita no homem, por mais miserável que seja. Quanto mais sombrio for o horizonte que se lhe afigure, tanto mais ele se deixa alimentar pelo seu desejo interior. E é dessa forma que ele se revela capaz de se fascinar por tudo quanto exista, mesmo num mundo dilacerado pela dor e pela angústia. O poeta maravilha-se, simplesmente, no presente que experimenta. No fundo, ele começa por acreditar no homem para acabar por acreditar num Deus que habita o seu coração. Em vez de dirigir o olhar e o entendimento logo para Deus, o poeta começa por usufruir humildemente dos vestígios que o Criador nos deixa. Sente e saboreia assim a presença de Deus no mundo, um pouco como São Francisco de Assis faz no seu célebre Cântico das Criaturas. Em vez de esperar pela consumação final de todas as coisas, antecipa-se à comunhão dos santos, vivendo já em harmonia com tudo e todos.

Talvez por isso o papel das figuras femininas seja tão importante em Dante: Maria, a virgem mãe, “figura da caridade”; Beatriz, qual “símbolo da esperança”; e Santa Luzia, personificando “a fé”. Em todas estas figuras, o feminino é sinónimo de fecundidade e generatividade. Mais uma vez, em vez de nos apresentar o resultado final de uma humanidade acabada, o poeta faz-nos viver um processo que nos transforma por dentro. Pouco a pouco, ele ajuda-nos a ver o mundo doutra forma, não só com mais esperança, mas também com mais sabor. Porque pior do que a “morte de Deus” é deixar morrer o fulgor pela divindade. Sempre que esse fulgor, esse maravilhamento, nos habitar, poderemos saborear a beleza de todas as coisas presentes. E é por isso que precisamos de poetas.

Que eu queira, Senhor, receber-Vos com aquela pureza, humildade e devoção com que Vos recebeu a Vossa Santíssima Mãe; com o espírito e o fervor de todos os santos. Amén.

P. Andreas Lind, sj

Publicado no Ponto sj, site dos jesuítas em Portugal, em 11.04.21

11 abril 2021

II Domingo da Páscoa ou da Divina Misericórdia

 EVANGELHO - Jo 20,19-31

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse-lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhe-ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».
Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo,
não estava com eles quando veio Jesus.
Disseram-lhe os outros discípulos:
«Vimos o Senhor».
Mas ele respondeu-lhes:
«Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos,
se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado,
não acreditarei».
Oito dias depois,
estavam os discípulos outra vez em casa,
e Tomé com eles.
Veio Jesus, estando as portas fechadas,
apresentou-Se no meio deles e disse:
«A paz esteja convosco».
Depois disse a Tomé:
«Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos;
aproxima a tua mão e mete-a no meu lado;
e não sejas incrédulo, mas crente».
Tomé respondeu-Lhe:
«Meu Senhor e meu Deus!»
Disse-lhe Jesus:
«Porque Me viste acreditaste:
felizes os que acreditam sem terem visto».
Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos,
que não estão escritos neste livro.
Estes, porém, foram escritos
para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus,
e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.

09 abril 2021

Textos dos dias que correm

Que Preceitos Ministrar com o Nosso Semelhante?

Passemos a outra questão: o modo de tratarmos com o nosso semelhante. Como devemos agir, que preceitos ministrar? Que não derramemos sangue humano? Ao nosso semelhante devemos fazer o bem: aconselhar a não lhe fazer mal, que ridículo! Até parece que encontrar algum homem que não seja uma fera para os outros já é coisa merecedora de encómios... Vamos aconselhar a que se estenda a mão ao náufrago, se indique o caminho a quem anda perdido, se divida o pão com o esfomeado? Mas para que hei-de eu enumerar todos os actos que devemos ou não devemos praticar quando posso numa só frase resumir todos os nossos deveres para com os outros? Tudo quanto vês, este espaço em que se contém o divino e o humano, é uno, e nós não somos senão os membros de um vasto corpo. A natureza gerou-nos como uma só família, pois nos criou da mesma matéria e nos dará o mesmo destino; a natureza faz-nos sentir amor uns pelos outros, e aponta-nos a vida em sociedade. A natureza determinou tudo quanto é lícito e justo; pela própria lei da natureza, é mais terrível fazer o mal do que sofrê-lo; em obediência à natureza, as nossas mãos devem estar prontas a auxiliar quem delas necessite. Devemos ter gravado na alma, e sempre na ponta da língua, o verso famoso: "sou homem, tudo quanto é humano me concerne!" (Terêncio). Possuamos tudo em comunidade, uma vez que como comunidade fomos gerados. A sociedade humana assemelha-se em tudo a um arco abobadado: as pedras que, sozinhas, cairiam, sustentam-se mutuamente, e assim conseguem manter-se firmes!


Séneca, in 'Cartas a Lucílio'

07 abril 2021

Do que morre por causa do que nasce

Num discurso proferido em 1901, Frank Lloyd Wright, um dos mais famosos arquitectos norte-americanos, cita Notre-Dame, de Victor Hugo: [t]he prophecy of Frollo, that "the book will kill the edifice," I remember was to me as a boy one of the grandest sad things of the world.

Em 1980, a banda The Buggles lançava uma música chamada Video killed the radio star, com o seguinte (e criativo refrão): Video killed the radio star / Video killed the radio star / Pictures came and broke your heart / Oh-a-a-a oh.

Em The muse learns to write, afirma Eric A. Havelock: (...) Rousseau had failed to perceive the true source of the "catastrophe" - the reduction of language to text. An "interior" consciousness has been forced forward and virtually destroyed   

Em O infinito num junco, Irene Vallejo afirma: [a]ntes da invenção da imprensa, cada livro era único.

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Estas quatro referências, aparentemente desconexas entre si, têm um fio condutor: o que desaparece com aquilo que nasce: a máquina matou a criatividade, o vídeo matou a estrela da rádio, a escrita matou a uma certa consciência interior, a imprensa matou o acto único (antes desta expressão ter uma conotação fiscal).

Lembrei-me deste devaneio por via do livro, de Gutenberg, do carácter único das coisas, daquilo que desaparece por causa da evolução, do progresso, da melhoria da qualidade de vida, da ideia de dignificação da profissão, ou coisas quejandas. 

Antes da invenção da prensa, antes de Gutenberg ter revolucionado o mundo, cada livro era uma obra única, uma preciosidade não replicável, mas copiada por mãos firmes, olhares argutos, vidas dedicadas a um certo silêncio. Em bom rigor, uma conversa é um livro pré-prensa: não é replicável mas pode ser copiada, vulnerável, como era a actividade do copista, à confusão, à má interpretação, à tresleitura da palavra dita ou escrita.

A prensa melhorou o mundo, a escrita melhorou o mundo; não sei, contudo, se o mundo ficou inquestionavelmente melhor , se é que me faço entender. Talvez Frank Lloyd Wright e os The Buggles tivessem, ironicamente, alguma razão.

JdB 

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