05 julho 2022

Textos dos dias que correm

Os Convencidos da Vida

Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear.
Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os polígrafos? Voltaram, pois, e em força.
Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista.
Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?
(...) No corre-que-corre, o convencido da vida não é um vaidoso à toa. Ele é o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca é gratuita, todo o rendimento possível. Nos negócios, na política, no jornalismo, nas letras, nas artes. É tão capaz de aceitar uma condecoração como de rejeitá-la. Depende do que, na circunstância, ele julgar que lhe será mais útil.
Para quem o sabe observar, para quem tem a pachorra de lhe seguir a trajectória, o convencido da vida farta-se de cometer «gaffes». Não importa: o caminho é em frente e para cima. A pior das «gaffes», além daquelas, apenas formais, que decorrem da sua ignorância de certos sinais ou etiquetas de casta, de classe, e que o inculcam como um arrivista, um «parvenu», a pior das «gaffes» é o convencido da vida julgar-se mais hábil manobrador do que qualquer outro.
Daí que não seja tão raro como isso ver um convencido da vida fazer plof e descer, liquidado, para as profundas. Se tiver raça, pôr-se-á, imediatamente, a «refaire surface». Cá chegado, ei-lo a retomar, metamorfoseado ou não, o seu propósito de se convencer da vida - da sua, claro - para de novo ser, com toda a plenitude, o convencido da vida que, afinal... sempre foi.

Alexandre O'Neill, in "Uma Coisa em Forma de Assim"

04 julho 2022

Das capas das revistas

 


Já uma vez escrevi sobre as capas da ditas revistas cor-de-rosa. Em querendo basta seguir o link - em quatro anos pouco ou nada mudou.

A revista Mariana (quem será a Mariana que dá nome a uma revista?), publicada a 2 de Julho deste ano suscitou a minha atenção. Porquê? Por duas ordens de razão, a primeira prendendo-se com o facto de falar menos de telenovelas do que algumas revistas semelhantes. Por junto ficamos a saber que Ana Carolina deixa Carlos - quem quer que seja a Ana Carolina e o Carlos, e qualquer que seja a telenovela.

O que me suscita sempre curiosidade e interesse nestas capas são os títulos que, quais teasers, suscitam os incautos - ou apenas interessados - a comprar a revista para lerem os detalhes que estão no interior. Ao contrário dos jornais iminentemente desportivos ou económicos, uma revista como a Mariana é eclética, e isso percebe-se na capa - apelativa, diversa, desafiante. Assim, em conselho de redacção, o que foi considerado relevante para uma chamada de capa?

- a frase "chocante" de Fernanda Antunes que afirma não "esperar estar cá muito tempo";

- a Dra. Esmeralda Martins que fala de saúde oral;

- Bruna, que surpreende, ao procurar emprego por amor a Bernardo;

- a defesa dos oceanos;

- por último, mas seguramente não menos importante, o facto de Ronaldo injectar botox nos genitais.

Por si só, cada um destes temas é susceptível de um número próprio: o luto de uma mãe que, segundo sei, tem dois filhos vivos. 

(Enquanto pai que perdeu uma filha poderia discutir o destaque que se dá a este drama e as frases que os pais dizem de si próprios ou a este respeito, mas não vou fazê-lo.)

O facto de Bruna procurar emprego por amor a Bernardo não deixa de me surpreender. Talvez por viver numa bolha privilegiada, nunca conheci ninguém que procurasse emprego por amor ao companheiro/a. As pessoas podem procurar uma ocupação / emprego por uma questão de ética de vida, de realização profissional ou pessoal, de necessidade financeira. Mas por amor? Não sabendo o suporte financeiro de Bruna (e do Bernardo só o que se diz nas revistas) imagino-a a ser empregada numa pastelaria ou numa repartição com milhões num banco. Chega a casa a cheirar a croissant ou com os dedos crivados de agrafes, mas o amor a Bernardo tudo justifica. Amar perdidamente, com amou desgraçadamente Florbela Espanca, tem agora uma conotação diferente - a inscrição numa folha de pagamentos, com direito a 13º e 14º meses e, numa futura modernidade, uns dias por mês para aquilo que não escolhe dia nem hora.

Sobre a defesa dos oceanos e sobre a Dra. Esmeralda Martins, que falará de saúde oral, nada tenho a dizer - parecem-me temas relevantes e actuais, sobre os quais tudo o que se diga é pouco, estou certo. Gostaria de falar sobre as injecções de botox nos genitais de Ronaldo mas, confesso, sou vencido pelo pudor e pela ignorância. Para que quer ele injectar botox nos genitais? Para perder as rugas? Para eliminar os papos ou os pés de galinha? E teremos fotografias no interior sobre os interiores de Cristiano? 

A revista Mariana não me suscita qualquer interesse pelos temas propostos na capa. O que me chamou a atenção foi o facto de estarem todos na capa - os genitais de Ronaldo, o drama de Fernanda Antunes, a saúde oral da Dra. Esmeralda, o emprego de Bruna por amor. O facto de Ana Carolina deixar Carlos é a nota dissonante, porque a ficção não ultrapassa a realidade.

JdB

03 julho 2022

XIV Domingo do Tempo Comum

 Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
designou o Senhor setenta e dois discípulos
e enviou-os dois a dois à sua frente,
a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir.
E dizia-lhes:
«A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos.
Pedi ao dono da seara
que mande trabalhadores para a sua seara.
Ide: Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos.
Não leveis bolsa nem alforge nem sandálias,
nem vos demoreis a saudar alguém pelo caminho.
Quando entrardes nalguma casa,
dizei primeiro: ‘Paz a esta casa’.
E se lá houver gente de paz,
a vossa paz repousará sobre eles:
senão, ficará convosco.
Ficai nessa casa, comei e bebei do que tiverem,
que o trabalhador merece o seu salário.
Não andeis de casa em casa.
Quando entrardes nalguma cidade e vos receberem,
comei do que vos servirem,
curai os enfermos que nela houver
e dizei-lhes: ‘Está perto de vós o reino de Deus’.
Mas quando entrardes nalguma cidade e não vos receberem,
saí à praça pública e dizei:
‘Até o pó da vossa cidade que se pegou aos nossos pés
sacudimos para vós.
No entanto, ficai sabendo:
Está perto o reino de Deus’.
Eu vos digo:
Haverá mais tolerância, naquele dia, para Sodoma
do que para essa cidade».
Os setenta e dois discípulos voltaram cheios de alegria, dizendo:
«Senhor, até os demónios nos obedeciam em teu nome».
Jesus respondeu-lhes:
«Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago.
Dei-vos o poder de pisar serpentes e escorpiões
e dominar toda a força do inimigo;
nada poderá causar-vos dano.
Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem;
alegrai-vos antes
porque os vossos nomes estão escritos nos Céus».

30 junho 2022

Da sabedoria popular *

Todos os ditados portugueses - e talvez mesmo os que são proferidos em língua estrangeira - são verdade e o seu oposto. Há os que dizem bem de se ser gordo e os que dizem mal de se ser gordo. E há os que fazem o pleno na mesma frase: a gordura é formosura, a magreza é beleza - e fico-me por este exemplo, que a época é de acumulação de calorias. Um pouco como se o povo português não fosse, afinal, tão sabedor quanto isso, ou não se definisse quanto às vantagens ou desvantagens de uma certa obesidade. 

Ora, para efeitos deste post pré-natalino escolhi um provérbio sobre o qual irei discorrer breves instantes: em casa de ferreiro espeto de pau. Significa isto, porque não temos de dar-lhe outra conotação para além daquela que as palavras específicas o traduzem, que em sua casa, o ferreiro, um artesão que trabalha o ferro, faz espetadas (para que mais serve um espeto?) em pau de louro, por exemplo. Pode ser alecrim também, mas não pode ser ferro, nem sequer inoxidável. Assim sendo, e se a sabedoria popular se estendesse a todos os misteres, poderíamos dizer, com igual propriedade, em casa de médico gente doente, ou ainda, em casa de engenheiro civil telhados que caem

Não acontece isso de facto. Em casa dos médicos há gente saudável e em casa dos engenheiros civis os telhados não caem; em casa de um ferreiro também há espetos de ferro, porque têm igualmente o seu encanto na confecção das viandas que vão ao lume. Replicando, em casa dos arquitectos há alçados, em casa dos advogados há contratos legais, em casa dos electricistas não há curto-circuitos em permanência. 

No entanto, há desconformidades neste meu raciocínio, o que acrescenta valor ao mundo. Afinal, nada de mais ingrato do que um texto inabalável, inquestionável, sem uma brecha por onde discordar. Onde está a desconformidade? Na classe dos psiquiatras, dos terapeutas familiares, daqueles outros que se dedicam a aliviar a alma dos que sofrem mediante um pagamento e o desvendar de uma vida e de um passado, que do futuro ninguém sabe. Como dizer, em casa de psiquiatras gente desequilibrada, ou ainda, em casa de terapeutas familiares casamentos infelizes

Um médico sabe tratar as pessoas que estão em sua casa e sabe tratar-se; um electricista arranja candeeiros em casa própria e nas dos outros; um arquitecto projecta uma marquise e um engenheiro sabe construí-la, se por acaso o casal tiver essa valência profissional. Então porque motivo em casa dos psiquiatras há gente com obsessões e desequilíbrios e em casa dos terapeutas familiares os cônjuges discutem o mesmo que no resto dos lares - ou ainda mais? Um médico vê doenças em casa, um arquitecto vê colunas em casa, um electricista vê fios eléctricos partidos em casa - e todos eles aplicam a teoria que aprenderam com os seus maiores, resolvendo minimamente a contento os problemas com que se deparam. E um terapeuta? Não vê crises em casa? Ou se as vê, não aplica conhecimentos para resolver aquilo que é uma espécie de fios descarnados da alma e do comportamento?

Em casa de ferreiro espeto de pau. A frase é bonita e tem ritmo, mas não é por isso que não deixa de ser um disparate parcial, a não ser que a leiamos como uma metáfora. 

JdB

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* publicado originalmente a 22 de Dezembro de 2016

29 junho 2022

Textos dos dias que correm

A Felicidade vem da Monotonia

Em sua essência a vida é monótona. A felicidade consiste pois numa adaptação razoavelmente exacta à monotonia da vida. Tornarmo-nos monótonos é tornarmo-nos iguais à vida; é, em suma, viver plenamente. E viver plenamente é ser feliz.
Os ilógicos doentes riem - de mau grado, no fundo - da felicidade burguesa, da monotonia da vida do burguês que vive em regularidade quotidiana e, da mulher dele que se entretém no arranjo da casa e se distrai nas minúcias de cuidar dos filhos e fala dos vizinhos e dos conhecidos. Isto, porém, é que é a felicidade.
Parece, a princípio, que as cousas novas é que devem dar prazer ao espírito; mas as cousas novas são poucas e cada uma delas é nova só uma vez. Depois, a sensibilidade é limitada, e não vibra indefinidamente. Um excesso de cousas novas acabará por cansar, porque não há sensibilidade para acompanhar os estímulos dela.
Conformar-se com a monotonia é achar tudo novo sempre. A visão burguesa da vida é a visão científica; porque, com efeito, tudo é sempre novo, e antes de este hoje nunca houve este hoje.
É claro que ele não diria nada disto. Às minhas observações, limita-se a sorrir; e é o seu sorriso que me traz, pormenorizadas, as considerações que deixo escritas, por meditação dos pósteros.

Fernando Pessoa, in 'Reflexões Pessoais'

28 junho 2022

Duas Últimas


Perguntam-me se vi o concerto da Anitta no Rock in Rio. Respondi que não, acrescentando que nem sequer sabia quem era a Anitta (só no youtube é que percebi que era Anitta com dois 't', por momentos pensei que seria uma espécie de Anita vai ao Rock in Rio). As críticas - de que me quedei pelos títulos - falam de sucesso, e coisas igualmente elogiosas. Nenhum músculo do meu corpo se havia movido - até me fazerem a pergunta - para colar um nome a um tipo de música. Quando perguntei qualquer coisa sobre a Anitta disseram-me que era muito já não sei o quê, mas que se relacionava com um rabo que abanava em permanência. 

A minha experiência do Rock in Rio é única, isto é, fui uma vez apenas. Tocou o Elton John, que eu vi como um homem velho, se voz, a martelar as teclas de um piano. Nunca mais voltei, nem sequer para ouvir bandas (eu ainda gosto de dizer 'conjuntos') vagamente do meu tempo - um tempo mais tardio, como aprendi na faculdade. Vi reportagens em directo de rapaziada quase da minha idade a agitarem-se ao som de Duran Duran ou de a-ha. Conheço ambas as bandas de nome, não conseguiria citar uma única música. Talvez porque já era uma altura em que não ia a discotecas mas ouvia a Antena 2, pelo que o meu conhecimento de música pop daquele tempo me estaria bastante vedado. Olhando para as pessoas naquela aparente felicidade penso se as pessoas gostam de se agitar no recinto ou se acham que devem agitar-se no recinto, para dar o ar de curtição satisfeita.

Deixo-vos com Anitta - mais do que uma voz, um corpo; mais do que uma coreografia, uma sugestão. Se ela cantou e dançou esta música (ou outras semelhantes) percebo bem o empolgamento da rapaziada da minha idade...

JdB  

26 junho 2022

XIII Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Lc 9,51-62

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo,
Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém
e mandou mensageiros à sua frente.
Estes puseram-se a caminho
e entraram numa povoação de samaritanos,
a fim de Lhe prepararem hospedagem.
Mas aquela gente não O quis receber,
porque ia a caminho de Jerusalém.
Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram a Jesus:
«Senhor,
queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?»
Mas Jesus voltou-Se e repreendeu-os.
E seguiram para outra povoação.
Pelo caminho, alguém disse a Jesus:
«Seguir-Te-ei para onde quer que fores».
Jesus respondeu-lhe:
«As raposas têm as suas tocas
e as aves do céu os seus ninhos;
mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça».
Depois disse a outro: «Segue-Me».
Ele respondeu:
«Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai».
Disse-lhe Jesus:
«Deixa que os mortos sepultem os seus mortos;
tu, vai anunciar o reino de Deus».
Disse-Lhe ainda outro:
«Seguir-Te-ei, Senhor;
mas deixa-me ir primeiro despedir-me da minha família».
Jesus respondeu-lhe:
«Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás
não serve para o reino de Deus».

24 junho 2022

Textos dos dias que correm

 Contra uma classe média-alta de verbos reflexivos

Numa entrevista ao Expresso há cerca de um ano, o ator Luís Miguel Cintra descrevia como, após o 25 de Abril, os seus colegas e ele próprio compreendiam o teatro que praticavam. “Havia a ideia de que alguns tinham a sorte de ter estudos superiores e formação cultural. Essas pessoas tinham uma responsabilidade pública, que assumia algum didatismo. Na altura, dizia-se ‘formar’. Queríamos formar um público, formar espectadores. Ao ler o que escrevi ao longo dos anos, vejo uma reflexão permanente sobre o próprio ofício, como se estivesse sempre a passar uma espécie de exame de consciência. Não sei se herdei isso da minha formação católica: a ideia de fazer o bem, de generosidade, de viver para os outros.”

Esta passagem tem permanecido comigo. Como sempre que ouço falar quem participou naquele capítulo da nossa história coletiva, acorda em mim o fascínio daquele tempo inaugural, repleto de cisões e decisões, que nos conduziu à democracia participativa. Um tempo de entusiasmo e que nos contagia, só de o ouvir relatado. A segunda reação, automaticamente provocada, foi de algum espanto pelo despudor com que Luís Miguel Cintra fala de uma responsabilidade que – creio podermos assim denominar – é definida por classe de instrução: aqueles que tinham a sorte de ter educação superior, sentiam a responsabilidade de formar os outros, que lhes eram inferiores na instrução.

Parece-me reveladora a utilização das palavras “sorte” e “formar”. Porque nenhuma destas palavras tem hoje grande reputação: a sorte foi destronada pelo mérito, e a formação de quem-pouco-tem foi substituída pelo respeitoso distanciamento face à autonomia individual do sujeito.

Mas não foi isso que me cativou a sensibilidade, nem tão pouco a fugaz ideia de os acusar de paternalismo-classista. Aquilo que me moveu foi o facto do relato de Cintra do pós-’74 descrever aquilo de que sinto falta, de forma instintiva, e que considero absolutamente valioso, em 2022 como há cinquenta anos.

Hoje, e já há algum tempo, segundo consta, a classe média alta comporta-se como se fosse pobre. A diferença é que, enquanto os pobres estão limitados pelas circunstâncias materiais, os ricos limitam-se por ideias imateriais e por opção. Aproveitam a suposta liberdade que lhes é conferida pelo conforto financeiro, não para descobrirem a ocupação e caminho de vida que mais os realiza, mas antes para se submeter a uma doutrina inquestionável e rígida, que lhes é imposta e alimentam.

Nesta doutrina existe como que um decálogo que define coisas como o que são carreiras profissionais dignas; o que são estilos de vida dignos de admiração; o que merece ser descrito por “ah… que desperdício ele ter ido por ali”; quem devemos seguir ou invejar, entre outras coisas. O principal critério é, tanto quanto a minha hermenêutica permite, o dinheiro. Se paga bem, em princípio é digno; se paga mal, é desperdício.

Aquilo que era suposto “libertar” e permitir optar por uma multiplicidade de estilos de vida, ocupações ou profissões, acaba por ser ter o efeito contrário. É um paradoxo revelador. Quem beneficia daquilo que é considerado como o principal pressuposto para a liberdade de escolha – o dinheiro – é quem mais conscientemente renuncia a tomar uma verdadeira escolha em liberdade.

Parece que, quanto mais numeroso o leque de caminhos, motivações e ocupações que podemos seguir, maior a tentação em escolher o caminho da produtividade e capitalização económica e de estatuto. Como se fôssemos máquinas de produção. E uma vez que o mercado é cada vez mais competitivo, cada vez maior se torna a necessidade de nos focarmos em nós próprios. É fundamental concentrarmo-nos, potencializarmo-nos, otimizarmo-nos e outros verbos reflexivos centrados no próprio sujeito.

Com as escolhas de uns, sofremos todos. Não sofremos diretamente, pois ninguém agride ninguém. Mas todos perdemos o bem potencial que daí poderia advir. Regressemos ao exemplo luminoso de Luís Miguel Cintra e dos primórdios da nossa democracia. Se Cintra e os seus companheiros adotassem uma outra postura, mais egoísta, descomprometida e menos formativa ou altruísta, não magoavam nem desrespeitavam ninguém. A sua omissão ficaria escondida no anonimato. Mas todos perderíamos: os que não têm, a quem deixou de ser dado; os que têm mas não deram, deixaram a sua humanidade por cumprir; e todos nós porque, perdendo uma oportunidade de colaborar, enfraquecemos os laços que nos unem e a justiça que nos chama.

Não tenho dados que sustentem esta tese, pois resulta mais do olhar do que da matemática. Tão pouco tenho soluções que a resolvam. Desconfio que comece pela reflexão da “sorte” que temos, pois daí nasce a responsabilidade que temos uns pelos outros. Só assim teremos capacidade para viver e trabalhar acompanhados de “uma reflexão permanente sobre o próprio ofício” a que nos entregamos. Seja ele qual for, onde for, com quem for, será para os outros.

Vasco Ressano Garcia, tirado daqui

22 junho 2022

Vai um gin do Peter’s ?

 A UCRÂNIA ESTÁ A MUDAR-NOS

NO …. 
O tempo voa e mantém-se ao rubro a guerra pelo futuro da História, pelos valores mais sagrados, enquanto as armas continuam a ressoar selvaticamente na devastada Ucrânia. Nesta frente comunicacional e até civilizacional, Zelensky esgrime com mestria o combate das palavras, bramando por todos os meios os motivos que legitimam a defesa da soberania ucraniana. 

Na contagem certeira desta guerra – em dias, para melhor se acompanhar o horror diário das vítimas – as palavras vão-se intercalando com uma simbologia forte, que procura fazer jus à identidade ucraniana, ameaçada pela brutalidade do invasor russo. 
 
A 2 de Junho, aproveitando a apresentação de credenciais dos novos Embaixadores dos EUA, da Índia e da Moldávia, num acto generoso de reabertura daqueles postos diplomáticos em Kyiv, o Presidente ucraniano decidiu reformular o protocolo diplomático. Assim, inaugurou um novo local para a cerimónia de recepção ao Corpo Diplomático, que passará a decorrer na Catedral de Santa Sofia, depois de um primeiro momento de concentração na Praça do Arcanjo S.Miguel, guardião da cidade.  

«President received credentials from the Ambassadors of the United States, India and Moldova to Ukraine and started a new tradition of such ceremonies in St. Sophia's Cathedral.»
[2.JUN.] «I’m in a great place. The Great St. Sophia Cathedral. In the cathedral, which was founded a thousand years ago, on the field of the sacred battle where the army of Kyivan Rus’-Ukraine defeated the Pechenegs. In the cathedral, which was not destroyed by the Horde invasion or the Nazi occupation, which withstood in spite of everything!»
[24.ABR.] -- no portal oficial da Presidência da República ucraniana.

«Ambassador Extraordinary and Plenipotentiary of the United States of America to Ukraine, Bridget Brink holds a press conference in Sofiiska Square outside the bell tower of Saint Sophia Cathedral after presenting her credentials to President of Ukraine Volodymyr Zelensky.» -- portal da PR ucraniana.

No discurso, explicou os motivos da escolha do novo local, quer por o monumento milenar constituir prova maior da antiguidade ucraniana, quer pela resistência da catedral às investidas inimigas ao longo da história, quer ainda pela matriz cristã impressa no âmago da cultura do país.  Berço da conversão do Principado à religião ortodoxa (1011), ali estão guardados os vestígios dos primeiros Príncipes de Kiev. Por isso, foi considerada o cenário mais eloquente para a base de relacionamento que a Ucrânia pretende estabelecer com os países representados no país: 

«From now on, it is in Sophia that the newly appointed ambassadors of foreign countries will present their credentials

This is a step by which Ukraine emphasizes its attitude to each ambassador and to relations with each state. (…) We are ready to be your ally not by protocol or etiquette. But by conscience and honor. We are ready to be true friends, strongly and forever. But we are ready only this way, and no other way. (…) 

This new tradition symbolises three main things: trust, sincerity and responsibility. The first is trust. This is a sacred place for us. Those who stand here must be worthy representatives of their people. Those who stand here must be true friends of our people. 

The second thing is sincerity. Exactly sincerity. From our side. In this holy place for us, Ukraine promises to be a faithful friend and reliable partner before God. Those who stand here must never doubt the word of Ukraine. 

The third thing is responsibility. From your side. Those who stand here treat us the same way we treat them. Their intentions will always be bright, friendship - sincere, word - firm, and action – decisive. (…)

[Sobre a mudança de percepção internacional do povo ucraniano, pela luta heroica contra a agressão russa] The world applauds and admires our resilience and courage. Understands who we are, where we come from, what we want and, most importantly, where we are going. Sees us real. The people who defend their freedom and their land. Yes, this is us. Those who choose not to leave, not to run away, not to give up, not to kneel, but to fight. Struggle and fight. (…) And that's exactly what our ancestors did. Many generations of Ukrainians who fought for an independent state. And every next generation knows about the feat of ancestors and is ready to defend their own land, no matter what occupier sets foot on it. »



Aproveitou a cerimónia para condecorar os dois Embaixadores corajosos, que nunca abandonaram a capital ucraniana: da Santa Sé e da Polónia. Aos poucos, outros se lhes foram juntando, havendo já 33 diplomatas, dos quais 13 são de países da União Europeia (como Portugal, ausente por pouco tempo), além do Reino Unido, do Canadá, da Suíça, da Arménia, entre outro. A uns, Zelensky agradeceu terem ficado “as long as possible” e a outros terem voltado “as soon as possible”, reconhecendo assim a soberania ucraniana. E lançou um convite aos que tardam em regressar: «I will be glad as much as possible to welcome all those who will soon return to our heart, to Kyiv”.

Por último, sublinhou o facto de a Ucrânia estar a servir de escudo à Europa, aos valores de liberdade e prosperidade dos que confiam no Estados de Direito, lembrando que os escudos precisam de armas para cumprir a missão: to protect ourselves and you, your states. (…) Our countries are united by the belief in justice. I do not want to say today that our countries are united by disaster, because we know what occupation is.  We are united by happiness, because we know what freedom is. (…) Our countries are united by the belief in freedom. Belief in humanity. Belief that the world can and should be changed for the better».

À maneira de Churchill, que teve a arte de convocar a língua inglesa para a guerra (nas palavras de um jornalista norte-americano, impressionado com discursos do Primeiro-Ministro britânico), também Zelensky tem sido pródigo em mensagens contagiantes, urbi et orbi, aproveitando todos os palcos que o mundo ocidental lhe tem franqueado: 


21.JUN. – Festival de Cannes
«I believe that the power of human creativity is greater than the power of a nuclear state Speak of Ukraine! Don't let the world switch to something else! The world must remember that Ukraine is fighting for freedom. This fight must end in our victory as soon as possible.» 

11.JUN. – na Cimeira de Segurança da Ásia, em Shangri-La
«On the battlefield in Ukraine, it is being decided what rules the world will live by Let's save the world from going back to the days when everything was decided on the basis of the so-called right of force, and individuals and any of their ideas, like many nations, simply did not matter.» 

10.JUN. – num encontro com as Universidades britânicas 
«Ukraine is fighting for its future, Russia is fighting for someone else's past, which is why we will win. Russia's goal is to erase all associations about Ukraine except the war. Ukraine without the past, without the bright moments of the present, and therefore without the right to the future. But it will lose. We are fighting for our future, they are fighting for someone else's past.» 

10.JUN. – Cimeira internacional em Copenhaga
«Democracy can lose on the European continent if words are not backed up by action. The aggressor must feel the power of the democratic world, the power of international law as soon as he intends to violate the existing basic norms.»

9.JUN. – na Gala da Time (EUA)
«We can defeat tyranny. Indeed, every one of us – every one – is the leader of our time. We can reliably defend freedom. We can stop blackmail by a person who has no place on our list at all. If we are up to it, then we must do it. Because influence obliges us to do so.  We must use all our influence and leadership to protect freedom and ensure the defeat of tyranny.» 

2.JUN. 
«Every person matters, this is the main thing that distinguishes us from the occupiers. (…) But first of all, we must teach it on the battlefield that Ukraine will not be conquered, that our people will not surrender, and our children will not become the property of the occupiers.»

24.ABR. (Páscoa ortodoxa) -  cumprimentos pascais do Presidente
«The great holiday today gives us great hope and unwavering faith that light will overcome darkness, good will overcome evil, life will overcome death, and therefore Ukraine will surely win! (…)
And on Easter, we ask God for great grace to make our great dream come true (…) 
One can destroy the walls, but can't destroy the foundation on which the morale stands. The morale of our warriors. The morale of the whole country. (…) 
Our souls are full of fierce hatred for the invaders and all that they have done. Don't let fury destroy us from within. Turn it into our accomplishments from the outside. Turn it into a force of good to defeat the forces of evil. Save us from strife and division. Don't let us lose unity.
Strengthen our will and our spirit. Don't let us lose ourselves. Don't let us lose our longing for freedom. Therefore, do not let us lose our zeal for a righteous struggle. (…)
And may everyone who does everything possible to save Ukraine never lose faith that everything is possible.»
  
É prova do impacto das palavras e da atitude do líder ucraniano, desde a primeira hora, a forma como a opinião pública europeia e dos demais países democráticos se uniu em favor da Ucrânia, onde a sua bandeira tem sido hasteada em todas as latitudes e o hino entoado por inúmeras orquestras. 

Uma das primeiras e mais impressionantes interpretações do hino ucraniano teve lugar no Met de Nova Iorque, uma semana após o início da bárbara invasão russa. Nesse 1 de Março, os cantores líricos vieram à boca de cena para dar voz à magnífica ária, já tão familiar aos ocidentais. Na legenda da gravação quis-se assinalar a presença de um artista ucraniano – o único a dispensar pauta e com a mão sobre o coração (ao centro, perto da figura trajada com o hábito branco de monge):  


Outro momento musical impressivo teve lugar por ocasião dos festejos do Dia da Europa, a 9 de Maio, em homenagem à Ucrânia. Curiosamente, a data coincidiu com as comemorações da vitória soviética contra os nazis na chamada (na Rússia) Grande Guerra Patriótica. Mas, em 2022, Putin discursou para uma assembleia quase sem líderes estrangeiros nem Corpo Diplomático a acompanhá-lo, como acontecera nos anos anteriores. Nas comemorações da Europa a 27, o Hino da Alegria (e da UE) serve de banda sonora a um bailado de mãos nas cores da bandeira ucraniana, numa mensagem coreográfica cristalina: 


Se o testemunho da bravura ucraniana conseguir contagiar outros pontos do globo, onde se ama a liberdade, o sangue do povo da Ucrânia não terá sido derramado em vão. O sentido ulterior da sua luta continuará vivo e a revigorar os valores maiores da nossa civilização, fundada sobre o legado judaico-cristão onde se alicerçam as democracias de raiz livre. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

21 junho 2022

Do sossego absoluto *

 Philip Mechanicus, jornalista, esteve preso no campo holandês de Westerbork. Etty Hillesum [Cartas, 1941-1943, Assírio e Alvim] numa carta escrita entre 5 e 9 de Julho de 1943, cita-o bem, porque ouviu da boca dele: se sobreviver a estes tempos, sairei deles como alguém mais maduro e mais profundo, e se morrer morrerei como alguém mais maduro e mais profundo. Não seria nesse dia que Mechanicus embarcaria no comboio com destino à morte, iminência que lhe suscitou a frase. Morreria em Auschwitz, em 1944. 

A frase suscitou-me um pensamento imediato e, por isso, mais intuído. O jornalista holandês confronta-se com uma espécie de momento perfeito na sua vida: aquela fracção de tempo - um segundo ou um dia inteiro - em que viver ou morrer representam o mesmo; isto é, a soma de todos os olhares sobre a vida ou sobre a morte é zero, não porque se anulam, mas porque tendem para infinito, lugar geométrico do sossego absoluto. 

Naquele preciso instante, Mechanicus estava pronto para sobreviver, como estava pronto para morrer. Não havia pontas soltas na sua vida - pazes por fazer, contas por ajustar, palavras por dizer ou feridas por sarar. Tudo na sua existência estava acertado e, de frente para o Deus em que acreditaria, pôde dizer-lhe: é o que Tu quiseres; estou pronto. Disse-o de alma tranquila, apesar de toda a angústia de que se revestiam aquelas viagens de comboio rumo a uma Polónia para onde os bilhetes eram só de ida.  

Saber que, morrendo ou vivendo, se é o mesmo homem, é ter a certeza de um equilíbrio interior a que todos podemos aspirar, mas a que nem todos conseguimos ascender: porque partimos cedo demais, porque sofremos demais, porque perdemos a dignidade de uma vida totalmente autónoma, porque nos sentimos peso desconfortável para os que ficam, porque a morte (ou o momento antes dela) nos suscitam medo, ou ainda porque há tanto por fazer. Olhar com os mesmos olhos a morte ou a vida é poder pairar no ar sem medo da gravidade terrena; é estar face a face, no momento zero, com o passado e com o futuro, segurando ambos na mesma mão aberta para o destino. 

Viver ou morrer só é igual para os indiferentes ou para os bafejados por um sopro divino. Porque olhar nos olhos do que foi e do que há-de vir é poder abraçar Deus, senti-Lo fisicamente, seja na forma de um anjo, de um sentido para a vida, de um sorriso de plenitude. E quando o sentimos, estamos prontos.

Se sobreviver a estes tempos, sairei deles como alguém mais maduro e mais profundo, e se morrer morrerei como alguém mais maduro e mais profundo.   

JdB

* publicado originalmente a 21 de Dezembro de 2015

20 junho 2022

Poemas dos dias que correm

Das Pessoas que Atingem Posições Elevadas

Das pessoas que atingem posições elevadas,
cerimónias, riqueza, erudição, e similares:
para mim tudo isso a que chegam tais pessoas
afunda diante delas — a não ser quando acrescenta
um resultado qualquer para seus corpos e almas —
de modo que elas muitas vezes me parecem
desajeitadas e nuas, e para mim
uma está sempre zombando das outras
e a zombar dele mesmo ou dela mesma,
e o cerne da vida de cada qual
(a que se dá o nome de felicidade)
está cheio de pútrido excremento de larvas,
e para mim muitas vezes esses homens e mulheres
passam sem testemunhar as verdades da vida
e andam correndo atrás de coisas falsas,
e para mim são muitas vezes pessoas
que pautam as suas vidas por um hábito
que a elas foi imposto, e nada mais,
e para mim é gente triste muitas vezes,
gente afobada, estremunhados sonâmbulos
tacteando no escuro.

Walt Whitman, in "Leaves of Grass"

19 junho 2022

XII Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 9,18-24

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Um dia, Jesus orava sozinho,
estando com Ele apenas os discípulos.
Então perguntou-lhes:
«Quem dizem as multidões que Eu sou?»
Eles responderam:
«Uns, João Baptista; outros, que és Elias;
e outros, que és um dos antigos
profetas que ressuscitou».
Disse-lhes Jesus:
«E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Pedro tomou a palavra e respondeu:
«És o Messias de Deus».
Ele, porém, proibiu-lhes severamente
de o dizerem fosse a quem fosse
e acrescentou:
«O Filho do homem tem de sofrer muito,
ser rejeitado pelos anciãos,
pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas;
tem de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia».
Depois, dirigindo-Se a todos, disse:
«Se alguém quiser vir comigo,
renuncie a si mesmo,
tome a sua cruz todos os dias e siga-Me.
Pois quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la;
mas quem perder a sua vida por minha causa,
salvá-la-á».

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