27 março 2026

Da misericórdia, ou das noites de cada um de nós *

Theodor Adorno afirmou: to write poetry after Auschwitz is barbaric. Cruzei-me com esta frase anteontem. Opto pela interpretação simples, ainda que potencialmente incorrecta: a noite de Auschwitz matou a possibilidade do belo. O pensamento veio também a propósito de outras lucubrações derivadas de dizer coisas, ouvir outras, ler frases, apanhar fragmentos de fragmentos, fazer dos fins de tarde quentes em esplanadas sossegadas momentos de inspiração e espanto. 

Cada um de nós tem o seu rol de noites de Auschwitz, ainda que elevadas à potência comezinha das vidas mais ou menos fagueiras. São os dramas, os desgostos, as perdas, as traições; são os olhos postos no chão com que enfrentamos os nossos mais próximos a quem, com vergonha inútil, imaginamos a palavra desilusão inscrita nas pálpebras. Transpor a frase de Adorno para a nossa ruela terrena seria afirmar que nenhuma felicidade (nos) é completa - talvez mesmo nem permitida, nalguns casos - depois do renque de sofrimentos acima. Como se a existência degenerasse então numa espécie de loiça de refugo, vedada que nos está a partilha de refeições em pratos de primeiríssima qualidade. 

A vida tem de ser a procura da paz, mais do que da felicidade. Já aqui o disse, citando Hans Kung. À noite de Auschwitz temos de contrapor os olhos postos no Céu, onde está a resposta de tudo para tudo, a luz perene que ilumina a alma de quem sofre e de quem cuida. Antes de olharmos para o lado temos de olhar para cima, dar à relação horizontal uma dimensão vertical. Só o Amor nos salva - o amor pelos que nos estão mais próximos, o amor que é verdade, transparência, partilha, pedido de ajuda, mãos abertas que significam impotência e ansiedade. Ao olhar que pede damos uma palavra que enxuga lágrimas, não um cilício que aperta ilhargas.

Erbarme dich, significa, em alemão, tem misericórdia. Ouvir a beleza mais triste pode ser um acto redentor, um módico de iluminação na noite de Auschwitz, a generosidade divina que nos converte, nos faz perceber que é mais importante deixar traços do que provas. Só o Amor nos salva - e a misericórdia, que é compaixão. 

JdB  


* publicado originalmente a 3 de Outubro de 2014

25 março 2026

Vai um gin do Peter’s ?

 ARTE DE HOJE IRROMPE NO VATICANO COM NOVA VIA SACRA 

O pintor suíço de apenas 36 anos, protestante, pai de 3 filhos, não imaginava ser escolhido, por unanimidade, pelo exigente júri vaticanista, para pintar uma versão actual das 14 Estações da Via Sacra e expô-las (temporariamente, parece) no interior da Basílica de S.Pedro, no templo mais importante da cristandade, que transborda de arte e de beleza, a começar na arquitectura!

O concurso foi lançado em Dezembro de 2023, no tempo do Papa Francisco, com o objectivo de atualizar o diálogo entre arte e culto, para oferecer aos visitantes um sinal renovado de beleza, que continua a ser a via privilegiada pelo Vaticano para a contemplação dos mistérios da fé, em especial, dos difíceis mistérios da Paixão e da Crucifixão. Puderam concorrer artistas de todas as nacionalidades, etnias, confissões religiosas, etc. Acorreram mais de mil concorrentes de 80 países, pelo que o júri – composto por historiadores de arte, liturgistas e representantes da Santa Sé – teve a árdua tarefa de reduzir o grupo a 14 nomes, a quem pediram dois sketches, um deles de tema pré-definido: a 12ª Estação, da morte de Jesus. Neste teste derradeiro, Manuel Andreas Dürr distinguiu-se pela expressividade da sua interpretação do mistério pascal e pelo equilíbrio da composição.    

À ESQ. – Manuel Andreas Dürr na inauguração da sua Via Sacra, na Basílica de S.Pedro, na primeira Sexta-feira da Quaresma de 2026 (20.Fev. - OSV News photo/Courtney Mares). À DTA. – o pintor no seu atelier rodeado dos painéis destinado ao Vaticano.

Dürr fora apanhado de surpresa, desde o princípio, pois só se inscrevera no concurso por insistência de um amigo. E vira poucas hipóteses de vencer, até porque pertencia à pequena comunidade cristã Jahu, saída da Reforma protestante, embora muito aberta e de cariz ecuménico. Curiosamente, do ponto de vista teológico, o pintor sente-se próximo do catolicismo. 

Logo que foi escolhido, em Dezembro de 2024, rumou ao Vaticano para estudar o local de destino da sua Via Sacra. A nova surpresa foi a descoberta da universalidade do famoso templo: «One thing that came as a bit of a shock, in a ense, was when I came to Rome, I suddenly realized that really this is a global Church. My own church at home feels very provincial when I come here and I see people from all ages, from all continents, and from all income classes, are gathering around shared expressions of faith.

Começou também a apercebeu-se melhor e a preocupar-se com o desafio que seria  representar a figura mais marcante da nossa cultura, ainda por cima, na fase terrível da morte a que se sujeitara: «To paint Jesus is very, very difficult because he is not someone I am introducing; he is someone that billions of people already have an idea of and have a personal relationship with». Sobre a crucifixão, que foi o painel onde começou a empreitada e onde a concluiu, explicou assim o desafio de conceber a cruz, que paradoxalmente se convertera em expoente de esperança e de amor: «This story has shaped Christian art and European culture … the world’s culture, like no other story has. And how this cross, which was intended as a symbol of terror, instilling fear into the subjects of the Roman Empire, suddenly becomes something that we wear around our necks as a symbol of hope.»

O terceiro receio seria fazer algo para um dos monumentos com maior concentração de arte acumulada ao longo de séculos e harmoniosamente disposta para transmitir uma beleza interpelativa, capaz de engrandecer a natureza humana. Dürr lembrava, com graça, que os artistas contemporâneos estão habituados a expor em paredes monocromáticas, quase sempre brancas, onde as peças se destacam facilmente, sem terem de dialogar nem entrosar-se com nenhuma outra. 

Como os receios se multiplicavam, o suíço resolveu mergulhar na cultura italiana e inspirar-se nos artistas que considerou mais aptos a ajudá-lo a oferecer ao público uma nova abordagem ao mistério da Páscoa. Escolheu para mestres de inspiração Michelangelo e Fra Angelico. Resultou, porque a beleza depurada e sumamente subtil dos painéis de Dürr estão a causar sensação entre os turistas e peregrinos que têm visitado a Basílica de S.Pedro, não destoando da sumptuosidade belíssima do templo multissecular. 

Percebe-se que a simplicidade das suas pinturas é o resultado de um enorme esforço de maturação, até chegar à expressão mais simples, que condensa e se cinge ao principal. Os painéis com a crucifixão e a Pietá são especialmente eloquentes e de uma beleza cristalina. Na composição da morte de Jesus, o entrelaçado dos madeiros dos três condenados condensa o drama da primeira Sexta-feira Santa da História, manchada de sangue, parte dele inocente. A figura destacada de Cristo sugere que assume a maior quota de dor, sustentando os outros. Adianta-se na hora mais humilhante para salvar todo o ser humano, que queira. Na Pietá, o chão assemelha-se a um céu salpicado de estrelas, como se se tratasse de uma imagem cósmica do planeta azul, visto de cima; a haste do madeiro onde Jesus morrera, ampara a Mãe, que agora ampara o Filho; a veste branca, que cobrira Jesus e agora se enovela aos seus pés, replica a morte daquele corpo inerte, cuja alma já partira para o Pai. Talvez o significado directo destes paíneis, como entrega total em favor da humanidade, os tornem mais comoventes e impactantes: 

A crucifixão. À DTA. - magnificamente enquadrada no interior da Basílica, num diálogo fluído e enriquecedor entre gerações distantes. 

A monumental Pietá de Dürr, linda, serena, sofrida, mas sempre Mãe, a amparar o Filho com enorme subtileza, sem se impor, apenas a oferecer a segurança de uma mão e de um colo meigos. 
As Estações com as quedas na subida para o Calvário expõem a máxima fragilidade de Jesus, mas sem desespero. Percebe-se que aquele Condenado nunca atirou a ‘toalha ao chão’. Tinha mesmo oferecido a sua vida à morte mais cruel e indigna, sem desistir da sua missão redentora. A aspereza do chão pedregoso dos painéis acentua o peso de uma cruz demasiado grande para um homem já sem forças: 

As quedas no caminho para o Calvário. Na imagem à direita constata-se a forma harmoniosa como a Via Sacra de Dürr se integrou na magnífica Basílica.

É espantosa a associação que o pintor faz entre o gesto de Veronica e a pintura, no afã de registar uma imagem mais profunda da realidade. Era, por isso, o seu painel preferido: «To my surprise, maybe, a little bit, Veronica was the most special station for me. She holds up a cloth which then has an imprint of the image of Christ. And I found basically that’s what I’m attempting to do. I’m painting on cloth in a small way. … And for me, this kind of dignified, I think, what the painter is attempting to do which is … to provide a trace of something deeper to be experienced. It gives dignity to what the painter is trying to do: offer a small trace of something deeper.» 

6ª Estação – Verónica tem a coragem de sair da multidão para confortar um marginal. É o painel preferido do suíço, que a considera uma metáfora óptima da própria pintura. Em Verónica, a imagem provém do dom puro; no artista, acrescenta-se ao dom o trabalho árduo. 
A uma semana de revivermos as 14 Estações do Calvário, na Sexta-Feira que consideramos Santa, a obra do suíço ajuda a iluminar os infinitos momentos e detalhes da misteriosa história de sofrimento (e salvação), mais lembrada e reactualizada dos últimos dois milénios.  

A condenação do Governador romano Pôncio Pilatos e o início da subida para o Calvário. À ESQ.- a des-sintonia entre Jesus e o Governador romano está bem patente nas posições de ambos, um na ilusão de ainda pontificar sobre o rumo dos acontecimentos, e o Outro sem ilusões sobre as fraquezas e os perigosos ‘equívocos’ humanos.  Sofria-os todos na pele!

À ESQ. – a 5ª Estação, talvez do recrutamento forçado do Cireneu, para ajudar um Condenado demasiado enfraquecido a chegar ao cimo do Calvário. Tudo o que os romanos não queriam, era que morressem antes de ser crucificados! À DTA. – a docilidade de Jesus, enquanto os soldados o despem, momentos antes de ser pregado no madeiro. Percebe-se por que impressionou tanto o Bom Ladrão (S.Dimas).

Boa Semana Santa e Feliz Páscoa 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)


24 março 2026

Textos dos dias que correm

 Perdoar e Esquecer 

Perdoar e esquecer equivale a jogar pela janela experiências adquiridas com muito custo. Se uma pessoa com quem temos ligação ou convívio nos faz algo de desagradável ou irritante, temos apenas de nos perguntar se ela nos é ou não valiosa o suficiente para aceitarmos que repita segunda vez e com frequência semelhante tratamento, e até de maneira mais grave. Em caso afirmativo, não há muito a dizer, porque falar ajuda pouco. Temos, portanto, de deixar passar essa ofensa, com ou sem reprimenda; todavia, devemos saber que agindo assim estaremos a expor-nos à sua repetição. Em caso negativo, temos de romper de modo imediato e definitivo com o valioso amigo ou, se for um servente, dispensá-lo. Pois, quando a situação se repetir, será inevitável que ele faça exactamente a mesma coisa, ou algo inteiramente análogo, apesar de, nesse momento, nos assegurar o contrário de modo profundo e sincero. Pode-se esquecer tudo, tudo, menos a si mesmo, menos o próprio ser, pois o carácter é absolutamente incorrigível e todas as acções humanas brotam de um princípio íntimo, em virtude do qual, o homem, em circunstâncias iguais, tem sempre de fazer o mesmo, e não o que é diferente. (...) Por conseguinte, reconciliarmo-nos com o amigo com quem rompemos relações é uma fraqueza pela qual se expiará quando, na primeira oportunidade, ele fizer exactamente a mesma coisa que produziu a ruptura, até com mais ousadia, munido da consciência secreta da sua imprescindibilidade. 

Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'

***

O Perdão e a Promessa

Se não fôssemos perdoados, eximidos das consequências daquilo que fizemos, a nossa capacidade de agir ficaria por assim dizer limitada a um único acto do qual jamais nos recuperaríamos; seríamos para sempre as vítimas das suas consequências, à semelhança do aprendiz de feiticeiro que não dispunha da fórmula mágica para desfazer o feitiço. Se não nos obrigássemos a cumprir as nossas promessas não seríamos capazes de conservar a nossa identidade; estaríamos condenados a errar desamparados e desnorteados nas trevas do coração de cada homem, enredados nas suas contradições e equívocos - trevas que só a luz derramada na esfera pública pela presença de outros que confirmam a identidade entre o que promete e o que cumpre poderia dissipar. Ambas as faculdades, portanto, dependem da pluralidade; na solidão e no isolamento, o perdão e a promessa não chegam a ter realidade: são no máximo um papel que a pessoa encena para si mesma. 

Hannah Arendt, in 'A Condição Humana'

22 março 2026

V Domingo da Quaresma

 EVANGELHO – João 11,1-45

Naquele tempo,
estava doente certo homem, Lázaro de Betânia,
aldeia de Marta e de Maria, sua irmã.
Maria era aquela que tinha ungido o Senhor com perfume
e Lhe tinha enxugado os pés com os cabelos.
Era seu irmão Lázaro que estava doente.
As irmãs mandaram então dizer a Jesus:
«Senhor, o teu amigo está doente».
Ouvindo isto, Jesus disse:
«Essa doença não é mortal, mas é para a glória de Deus,
para que por ela seja glorificado o Filho do homem».
Jesus era amigo de Marta, de sua irmã e de Lázaro.
Entretanto, depois de ouvir dizer que ele estava doente,
ficou ainda dois dias no local onde Se encontrava.
Depois disse aos discípulos:
«Vamos de novo para a Judeia».
Os discípulos disseram-Lhe:
«Mestre, ainda há pouco os judeus procuravam apedrejar-Te
e voltas para lá?»
Jesus respondeu:
«Não são doze as horas do dia?
Se alguém andar de dia, não tropeça,
porque vê a luz deste mundo.
Mas se andar de noite, tropeça,
porque não tem luz consigo».
Dito isto, acrescentou:
«O nosso amigo Lázaro dorme, mas Eu vou despertá-lo».
Disseram então os discípulos:
«Senhor, se dorme, está salvo».
Jesus referia-se à morte de Lázaro,
mas eles entenderam que falava do sono natural.
Disse-lhes então Jesus abertamente:
«Lázaro morreu;
por vossa causa, alegro-Me de não ter estado lá,
para que acrediteis.
Mas, vamos ter com ele».
Tomé, chamado Dídimo, disse aos companheiros:
«Vamos nós também, para morrermos com Ele».
Ao chegar, Jesus encontrou o amigo sepultado havia quatro dias.
Betânia distava de Jerusalém cerca de três quilómetros.
Muitos judeus tinham ido visitar Marta e Maria,
para lhes apresentar condolências pela morte do irmão.
Quando ouviu dizer que Jesus estava a chegar,
Marta saiu ao seu encontro,
enquanto Maria ficou sentada em casa.
Marta disse a Jesus:
«Senhor, se tivesses estado aqui,
meu irmão não teria morrido.
Mas sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus,
Deus To concederá».
Disse-lhe Jesus: «Teu irmão ressuscitará».
Marta respondeu:
«Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição, no último dia».
Disse-lhe Jesus:
«Eu sou a ressurreição e a vida.
Quem acredita em Mim,
ainda que tenha morrido, viverá;
E todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá.
Acreditas nisto?»
Disse-Lhe Marta:
«Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus,
que havia de vir ao mundo».
Dito isto, retirou-se e foi chamar Maria,
a quem disse em segredo:
«O Mestre está ali e manda-te chamar».
Logo que ouviu isto, Maria levantou-se e foi ter com Jesus.
Jesus ainda não tinha chegado à aldeia,
mas estava no lugar em que Marta viera ao seu encontro.
Então os judeus que estavam com Maria em casa
para lhe apresentar condolências,
ao verem-na levantar-se e sair rapidamente,
seguiram-na, pensando que se dirigia ao túmulo para chorar.
Quando chegou aonde estava Jesus,
Maria, logo que O viu, caiu-Lhe aos pés e disse-Lhe:
«Senhor, se tivesses estado aqui,
meu irmão não teria morrido».
Jesus, ao vê-la chorar,
e vendo chorar também os judeus que vinham com ela,
comoveu-Se profundamente e perturbou-Se.
Depois perguntou: «Onde o pusestes?»
Responderam-Lhe: «Vem ver, Senhor».
E Jesus chorou.
Diziam então os judeus:
«Vede como era seu amigo».
Mas alguns deles observaram:
«Então Ele, que abriu os olhos ao cego,
não podia também ter feito que este homem não morresse?»
Entretanto, Jesus, intimamente comovido, chegou ao túmulo.
Era uma gruta, com uma pedra posta à entrada.
Disse Jesus: «Tirai a pedra».
Respondeu Marta, irmã do morto:
«Já cheira mal, Senhor, pois morreu há quatro dias».
Disse Jesus:
«Eu não te disse que, se acreditasses,
verias a glória de Deus?»
Tiraram então a pedra.
Jesus, levantando os olhos ao Céu, disse:
«Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido.
Eu bem sei que sempre Me ouves,
mas falei assim por causa da multidão que nos cerca,
para acreditarem que Tu Me enviaste».
Dito isto, bradou com voz forte:
«Lázaro, sai para fora».
O morto saiu, de mãos e pés enfaixados com ligaduras
e o rosto envolvido num sudário.
Disse-lhes Jesus:
«Desligai-o e deixai-o ir».
Então muitos judeus, que tinham ido visitar Maria,
ao verem o que Jesus fizera, acreditaram n’Ele.

20 março 2026

Da caça - ou de ir até ao campo com grandes propósitos

 

Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra
.

(Álvaro de Campos, in Tabacaria)

*** 

Não sou, nem nunca fui, caçador. Provavelmente, durante 60 anos da minha vida, nunca quis ser, nem nunca quis deixar de ser. A necessidade da escolha nunca se me pôs. Um dia disse a um amigo, com um terreno de caça no norte de Moçambique, que gostaria de ir à caça com ele. Queria ter a experiência de matar um animal (um bicho de tamanho médio, vá...) e perceber o que sentiria, eu que nunca matei um animal de um tamanho superior a um pequenino rato doméstico. Será que gostaria, que detestaria, que seria invadido por uma emoção ancestral ou pelo horror à barbárie. Por outro lado queria também ter a experiência da atmosfera da caça em África: os sons, as cores, a necessidade da atenção, os meninos à volta da fogueira.

A oportunidade não surgiu e, por força de circunstâncias prosaicas, não surgirá mais, presumo. Há uma semanas largas fui convidado por família e amigos a uma montaria (nunca sei se é montaria, se batida) aos javalis. Matar um javali não é matar a mãe do Bambi. Matar um javali é um dever, quase, face à invasão e ao nível de destruição de que estes animais são capazes. Achei graça ao programa e aceitei, claro. Numa entusiasmo quase juvenil partilhei o convite com amigos, que trataram de esquecer a dimensão sociológica da coisa para me darem conselhos e me fazerem perguntas sobre se ia ter aulas de tiro. Aulas de tiro?

No dia aprazado lá fui, com um amigo caçador, em cuja porta iria ficar e que talvez me proporcionasse pegar na arma e dar um tiro. Eu sei que tudo isto é trivial para um caçador, mas eu sou novato e desconhecia por completo como isto se processa: pequeno almoço conjunto, cumprimentos sociais, escuta de regras de segurança e de "ética caçadora", observação de caçadores franceses e ingleses trajados a rigor, ao lado de quem me senti um bimbo de Esmoriz (sem desprimor por Esmoriz). Embarque num atrelado em direcção à porta que nos tinha saído em sorteio. Eram 10.30h da manhã.

A verdadeira legenda desta fotografia é: "segura-me aí a espingarda para eu te tirar uma fotografia..."

Ao longo das 4 horas seguintes não vimos um único javali. O meu amigo e eu sentámo-nos, conversámos, urinámos contra uma giesta, roemos duas maçãs cada, falámos de pessoas, de antiguidades, de genealogia, de caça, de espingardas. Espreitámos o fio do horizonte ao som dos cães que, supostamente, espantam os javalis de onde eles se resguardam, vimos umas gamelas a correr, sobre as quais não atirámos por respeito às regras. Quando demos por nós eram 14.30h: urinámos uma última vez, vestimos os casacos, dobrámos a cadeira e voltámos a subir para o atrelado, sem um tiro dado - nem sequer um tiro falhado. A caça foi fraca: havia 38 portas, o equivalente a 38 espingardas, e mataram-se 10 ou 12 animais.

Regressados à base é hora de almoço. Portugueses vestidos como estavam antes da caça, ingleses e franceses, mudaram de farpela - sempre em tons de caça, mas uma calça mais elegante e uma gravata mais condizente. Almoço muito bom, na companhia de amigos e, sobretudo, primos que não via há muito tempo.

Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.

Voltaria outra vez? Sim, claro. Mesmo que não mate, nem sequer dispare, há uma dimensão sociológica e social nestes eventos que, mesmo - ou sobretudo - para um não caçador como eu, vale a pena. E a companhia é boa!

JdB

19 março 2026

Lembranças (1975) dos dias que correm

Dennis is a menace with his "anyone for tennis?" And beseeching me to come and keep the score... And Maud says "Oh Lord! I'm so terribly bored!" And I really can't stand it anymore... I'm going out to dinner with a gorgeous singer To a little place I've found down by the Quay; Her name is Patricia, she calls herself Delicia, And the reason isn't very hard to see... She says God made her a sinner to keep the fat men thinner, As they tumble down in heaps before her feet, They hang around in groups like battle-weary troops, One van often see then queue right down the street... You see Patricia, or Delicia, not only is a singer She also removes all her clothing... For Patricia is the best stripper in town. And with a swing of her hips she starts to strip, To tremendous applause she took off her drawers, And with a lick of her lips she undid all the clips, Threw it all in the air, and everybody stared, Ans as the last piece of clothing fell to the floor, The police were banging on the door, On a Saturday night in nineteen twenty-four... Take it away boys! But poor Patricia was arrested and everyone detested The manner in which she was exposed, And later in court, well, everyone thought, That a summer run in Gaol would be proposed. But the Judge said, "Patricia, Or may I say, Delicia, The facts of this case lie before me... Case dismissed... this girl was in her working clothes!!" And with a swing of her hips she starts to strip, To tremendous applause she took off her drawers, And with a lick of her lips she undid all the clips, Threw it all in the air, and everybody stared, Ans as the last piece of clothing fell to the floor, The police were yelling for more!!! On a Saturday night in nineteen twenty-four... On a Saturday night in nineteen twenty-four...

18 março 2026

Poemas dos dias que correm

 Os velhos

Os velhos já não falam ou então por vezes apenas com um olhar tremido
Até ricos são pobres já não têm ilusões e só lhes resta um coração para dois
Em suas casas cheira a tomilho a limpo a lavanda a palavras antigas
Mesmo vivendo em Paris vive-se sempre na província quando se vive demais
Será de tanto terem rido que as suas vozes encarquilham quando falam de ontem
E de tanto terem chorado que lágrimas esquecidas lhes orvalham as pálpebras
E se tremem um pouco será por verem envelhecer o relógio de prata
Que ronrona na sala que ora diz sim ora diz não e diz por vós espero
 
Os velhos já não sonham os seus livros entorpecem os seus pianos não tocam
O gatinho morreu o moscatel dos domingos já os não faz cantar
Os velhos já não mexem os seus gestos são todos rugas o seu mundo é tão pequeno
Da cama para a janela depois da cama para a poltrona por fim da cama para a cama
E se ainda vêm à rua de braço dado envoltos num manto hirto 
É para acompanhar pelo sol o enterro de um mais velho o enterro de uma mais feia
E enquanto dura um soluço esquecer por uma hora o relógio de prata
Que ronrona na sala que ora diz sim ora diz não e por eles espera

Os velhos não morrem adormecem um dia e dormem demais
Dão a mão um ao outro receiam perder-se e todavia perdem-se
E o outro para ali fica o melhor ou o pior o meigo ou o severo
Pouco importa porque aquele que fica acorda num inferno
Vê-lo-emos por vezes à chuva e à mágoa
Atravessar o presente pedindo perdão por não estar já mais além
E uma última vez fugir de nós o relógio de prata
Que ronrona na sala que ora diz sim ora diz não e lhe diz por ti espero
Que ronrona na sal que ora diz sim ora diz não e que por fim nos espera
 
  
jacques brel
antologia poética
trad. eduardo maia
assírio & alvim
1997

***

Les vieux

Les vieux ne parlent plus
Ou alors seulement parfois du bout des yeux
Même riches ils sont pauvres, ils n'ont plus d'illusions et n'ont qu'un coeur pour deux
Chez eux ça sent le thym, le propre, la lavande et le verbe d'antan
Que l'on vive à Paris on vit tous en province quand on vit trop longtemps
Est-ce d'avoir trop ri que leur voix se lézarde quand ils parlent d'hier
Et d'avoir trop pleuré que des larmes encore leur perlent aux paupières
Et s'ils tremblent un peu est-ce de voir vieillir la pendule d'argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non, qui dit: je vous attends

Les vieux ne rêvent plus, leurs livres s'ensommeillent, leurs pianos sont fermés
Le petit chat est mort, le muscat du dimanche ne les fait plus chanter
Les vieux ne bougent plus leurs gestes ont trop de rides
Leur monde est trop petit
Du lit à la fenêtre, puis du lit au fauteuil et puis du lit au lit
Et s'ils sortent encore bras dessus bras dessous tout habillés de raide
C'est pour suivre au soleil
L'enterrement d'un plus vieux, l'enterrement d'une plus laide
Et le temps d'un sanglot, oublier toute une heure la pendule d'argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non, et puis qui les attend

Les vieux ne meurent pas, ils s'endorment un jour et dorment trop longtemps
Ils se tiennent la main, ils ont peur de se perdre et se perdent pourtant
Et l'autre reste là, le meilleur ou le pire, le doux ou le sévère
Cela n'importe pas, celui des deux qui reste se retrouve en enfer
Vous le verrez peut-être, vous la verrez parfois en pluie et en chagrin
Traverser le présent en s'excusant déjà de n'être pas plus loin
Et fuir devant vous une dernière fois la pendule d'argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non, qui leur dit: je t'attends
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non et puis qui nous attend

17 março 2026

Dos sonetos *

 SONNET 116


Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove:
O no; it is an ever-fixed mark,
That looks on tempests, and is never shaken;
It is the star to every wandering bark,
Whose worth's unknown, although his height be taken.
Love's not Time's fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle's compass come;
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to the edge of doom.
   If this be error and upon me proved,
   I never writ, nor no man ever loved.

William Shakespeare
***

De entre as minhas embirrações inexplicáveis (se fossem explicáveis seriam embirrações?) estão os sonetos. Há qualquer coisa num soneto que me desagrada, o que é estranho, porque tem métrica, tem rima e, embora a estrutura seja peculiar - duas quadras e dois tercetos - não é bizarra. E no entanto, o que me afasta de Florbela Espanca não é um furor moral onde entra o seu irmão, Apeles Demóstenes, numa relação incestuosa que parece não ter existido, mas o soneto. Num âmbito ainda mais estranho, e porventura mais intelectualmente insultuoso, o que me pacifica com a lírica camoniana é a Amália e o Alain Oulman.

Vasco Graça Moura - dizem-me que com superior mestria - traduziu uma quantidade imensa (todos?) de sonetos de Shakespeare. Dizem-me ainda que há, apesar dessa inegável mestria, uma estranheza: uma rima e uma métrica que nos levam a pensar, excessivamente, que estamos a ler Camões. Daí que seja preferível ler os sonetos na língua original - 14 versos com rima mas sem a "nossa" métrica, com um remate de dois versos (tem um nome, mas esqueci-me).

Este soneto, que partilho, foi-me apresentado como sendo um dos mais bonitos do escritor - ou pelo menos o mais apreciado por quem me falou dele. Li-o acompanhado, explicado, pensado, relido, interpretado. É um soneto bonito, muito bonito apenas, de onde se tiram lições importantes para a vida de hoje em dia (e que maior fascínio pode haver do que ler uma coisa muito antiga e encontrar-lhe uma actualidade?): a constância do amor, a maturidade do amor, a fidelidade do amor. E, pormenor a reter, este verso: That looks on tempests, and is never shaken. Para Shakespeare e, dizem-me, para os adeptos do mindfullness, hoje em dia tanto em voga, no amor, as tempestades vêem-se, não se vivem. Isto é, olhamos para elas como algo que passa à nossa frente, não estamos embrenhados nela.

JdB   

* publicado originalmente a 19 de Janeiro de 2018 

15 março 2026

IV Domingo da Quaresma

 EVANGELHO – João 9,1-41

Naquele tempo,
Jesus encontrou no seu caminho um cego de nascença.
Os discípulos perguntaram-Lhe:
«Mestre, quem é que pecou para ele nasceu cego?
Ele ou os seus pais?
Jesus respondeu-lhes:
«Isso não tem nada que ver com os pecados dele ou dos pais;
mas aconteceu assim
para se manifestarem nele as obras de Deus.
É preciso trabalhar, enquanto é dia,
nas obras d’Aquele que Me enviou.
Vai cegar a noite, em que ninguém pode trabalhar.
Enquanto Eu estou no mundo, sou a luz do mundo».
Dito isto, cuspiu em terra,
fez com a saliva um pouco de lodo e ungiu os olhos do cego.
Depois disse-lhe:
«Vai lavar-te à piscina de Siloé»; Siloé quer dizer «Enviado».
Ele foi, lavou-se e ficou a ver.
Entretanto, perguntavam os vizinhos
e os que antes o viam a mendigar:
«Não é este o que costumava estar sentado a pedir esmola?»
Uns diziam: «É ele».
Outros afirmavam: «Não é. É parecido com ele».
Mas ele próprio dizia: «Sou eu».
Perguntaram-lhe então:
«Como foi que se abriram os teus olhos?»
Ele respondeu:
«Esse homem, que se chama Jesus, fez um pouco de lodo,
ungiu-me os olhos e disse-me:
‘Vai lavar-te à piscina de Siloé’.
Eu fui, lavei-me e comecei a ver».
Perguntaram-lhe ainda: «Onde está Ele?»
O homem respondeu: «Não sei».
Levaram aos fariseus o que tinha sido cego.
Era sábado esse dia em que Jesus fizeram lodo
e lhe tinha aberto os olhos.
Por isso, os fariseus perguntaram ao homem
como tinha recuperado a vista.
Ele declarou-lhes: «Jesus pôs-me lodo nos olhos;
depois fui lavar-me e agora vejo».
Diziam alguns dos fariseus:
«Esse homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado».
Outros observavam:
«Como pode um pecador fazer tais milagres?»
E havia desacordo entre eles.
Perguntaram então novamente ao cego:
«Tu que dizias d’Aquele que te deu a vista?»
O homem respondeu: «É um profeta».
Os judeus não quiseram acreditar
que ele tinha sido cego e começara a ver.
Chamaram então os pais dele e perguntaram-lhes:
«É este o vosso filho? É verdade que nasceu cego?
Como é que agora vê?»
Os pais responderam:
«Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego;
mas não sabemos como é que ele agora vê,
nem sabemos quem lhe abriu os olhos.
Ele já tem idade para responder: perguntai-lho vós».
Foi por medo que eles deram esta resposta,
porque os judeus tinham decidido expulsar da sinagoga
quem reconhecesse que Jesus era o Messias.
Por isso é que disseram:
«Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós».
Os judeus chamaram outra vez o que tinha sido curado
e disseram-lhe: «Dá glória a Deus.
Nós sabemos que esse homem é pecador».
Ele respondeu: «Se é pecador, não sei.
O que sei é que eu era cego e agora vejo».
Perguntaram-lhe então:
«Que te fez Ele? Como te abriu os olhos?»
O homem replicou:
«Já vos disse e não destes ouvidos.
Porque desejais ouvi-lo novamente?
Também quereis fazer-vos seus discípulos?»
Então insultaram-no e disseram-lhe:
«Tu é que és seu discípulo; nós somos discípulos de Moisés;
mas este, nem sabemos de onde é».
O homem respondeu-lhes:
«Isto é realmente estranho: não sabeis de onde Ele é,
mas a verdade é que Ele me deu a vista.
Ora, nós sabemos que Deus não escuta os pecadores,
mas escuta aqueles que O adoram e fazem a sua vontade.
Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos
a um cego de nascença.
Se Ele não viesse de Deus, nada podia fazer».
Replicaram-lhe então eles:
«Tu nasceste inteiramente em pecado e pretendes ensinar-nos?»
E expulsaram-no.
Jesus soube que o tinham expulsado
e, encontrando-o, disse-lhe:
«Tu acreditas no Filho do homem?»
Ele respondeu-Lhe:
«Senhor, quem é Ele, para que eu acredite?»
Disse-lhe Jesus;
«Já O viste: é Quem está a falar contigo».
O homem prostrou-se diante de Jesus e exclamou:
«Eu creio, Senhor».
Então Jesus disse-lhe:
«Eu vim para exercer um juízo:
os que não veem ficarão a ver;
os que veem ficarão cegos».
Alguns fariseus que estavam com Ele, ouvindo isto,
perguntaram-Lhe:
«Nós também somos cegos?»
Respondeu-lhes Jesus:
«Se fôsseis cegos, não teríeis pecado.
Mas como agora dizeis: ‘Não vemos’,
o vosso pecado permanece».

14 março 2026

Pensamentos Impensados

Há dois políticos portugueses de tal maneira baixos, que nunca poderão ser nomeados para lugares de Alto Comissário. Poderão ser úteis para a televisão, em notícias de roda-pé.

Fez um assalto em Vila Franca de Xira; fugiu para a lezíria e a Polícia diz que anda a monte.

Quando os Cristãos conquistavam mesquitas aos Mouros, não podiam pôr um letreiro a dizer "fechado para mudança de ramo, reabre com nova gerência" pois o ramo era o mesmo, a gerência é que mudava.

Há anos, à laia de troça, dizia-se que os americanos eram de tal maneira bons vendedores, que um tinha conseguido vender um frigorífico a um esquimó. Ninguém pensou que talvez o vendesse como calorífero, argumentando que no exterior estavam 40 negativos e o frigorífico ficava-se pelos 6 positivos.

A banana pode ser considerado um enchido? Acho que sim, pois tem pele por fora e comida dentro.

SdB(I)

13 março 2026

Poemas dos dias que correm

A mesma chuva de sempre

Voltamos para casa tarde
(a cama: ainda
por fazer)
o lençol afeiçoado àquele
vinco da manhã e
percebo pela imagem como assentimos a pressa
como o
dia é uma partida com a meia cinzenta rota
no dedo grande do pé. Eu e
o cadeirão de madeira gastamos o
mesmo número de ombros
(hoje usou o dia inteiro a
minha camisa aos quadrados).
O fim de tarde repousa em vasilhas
junto à entrada no
canto da sala onde fomos deixando apinhoar o
monte de jornais antigos com recortes por fazer
(na nódoa que
assentimos: passasse a ser parte integrante do
padrão do sofá)
no cabelo que imolaste ao
meu lado do lençol testemunhando que ontem
ontem sim
ontem sim. A
felicidade entra em casa em sacos de hipermercado –
está de volta o estranhamento de
fugaz tranquilidade por
sabermos que o ruído que insiste sobre o telhado
não
é o céu a cair
(não são anjos a chorar)
são apenas os acordes da
mesma
chuva de sempre. 

João Luís Barreto Guimarães
rés-do-chão (2003)
o tempo avança por sílabas
poemas escolhidos
quetzal
2019

12 março 2026

Artificialidades dos dias que correm

 

Não posso ter a certeza, mas as evidências apontam para que tudo isto seja produto de inteligência artificial: a música, a letra, a interpretação, o filme. Se assim for, talvez a grande ameaça aos compositores e autores não seja se a plataforma onde divulgam a sua música paga bem ou mal, se as pessoas descarregam músicas sem que os autores recebem os devidos direitos. A grande ameaça talvez seja a criatividade artificial. A música é bonita, a interpretação é bonita, a letra é razoável, quase boa. 

Um dia destes uma pessoa ao meu lado, com um smartphone mais do que modesto, criou uma música muito aceitável, com uma interpretação muito aceitável. Nada era da pessoa que estava ao meu lado, com excepção do telemóvel - a inteligência artificial fez tudo, da letra à música passando pela interpretação. O momento foi de fascínio. Mas eu não sou músico...

JdB 

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