INFLUENCER DO SÉC. XIX
Sempre houve figuras, sobretudo femininas, a marcar a moda da sua época! O que mudou foi a implantação dos canais de divulgação em larga escala, como as redes sociais de acesso quase universal. As novidades deixaram de demorar anos, décadas, a propagar-se pela sociedade e por outros países. O imediatismo actual incentiva mais gente a tentar a sorte como influencer, democratizando (massificando) o estatuto, a função e os efeitos. O que antes estava circunscrito a uma elite social e política ínfima, ficou escancarado a um universo interplanetário, logo que os media e outros meios tecnológicos proporcionaram essa disseminação alargada, a partir de meados do século XIX.
No alvor do lançamento dos jornais e da fotografia, França pontificava na vanguarda dos grandes movimentos sociais que agitaram o século XIX e reverberaram ao longo do século XX, alguns com especial ferocidade. Nos vários experimentalismos políticos dos gauleses, surgiu a tentativa de revitalização da monarquia, sob a forma de Segundo Império, com um sobrinho de Napoleão. Em boa verdade, aquele herdeiro de Bonaparte tinha sido eleito em voto directo, tornando-se no primeiro Presidente de França. Mas como a Constituição o impedia de renovar o mandato, por via de um golpe (1851), Carlos Luís Napoleão instaurou o Segundo Império, pretendendo perpetuar-se no poder como imperador. Mas após 18 anos de reinado, foi preso pelos alemães (1870) após a derrota humilhante na Guerra Franco-Prussiana e morreu três anos depois, no exílio em Londres. Sob a sua batuta, registaram-se avanços importantes, como a construção do Canal do Suez e a modernização da agricultura, elevando-a a sector exportador, entre outros feitos.
Ao instaurar o Segundo Império, Napoleão III preferiu tomar para mulher uma aristocrata bonita e com charme, em vez de uma princesa das casas reais europeias, para conferir mediatismo e modernidade ao regime. Porém, essa opção dificultou o reconhecimento do novo regime por parte da maioria das potências europeias. A honrosa excepção fora a rainha Vitória, hábil política, que apreciava muito a imperatriz Eugénia de Montijo (1826-1920), de quem, aliás, ficou amiga. Quando o trono francês caiu sob as conquistas do Kaiser, Vitória acolheu a imperatriz, em Inglaterra, continuou a tratá-la por Sua Alteza Imperial e a manter uma relação muito próxima.
A amizade entre Vitória e Eugénia remonta à memorável viagem dos imperadores gauleses a Inglaterra, em 1855. A elegância e a simpatia da imperatriz conquistaram a corte e a imprensa britânicas. Nos diários da rainha Vitória constam elogios rasgados à soberana de França. Curiosamente, a visita começou com um percalço maçador, pois a bagagem de Eugénia chegou demasiado tarde, a ponto de o imperador a aconselhar a falhar o jantar de recepção, no palácio de Windsor. Mas Eugénia ultrapassou a dificuldade e causou sensação, improvisando um traje de festa com a veste emprestada de uma dama de companhia. Para disfarçar a falta de joias, salpicou o tecido e o cabelo com flores de crisântemo, que encontrou numa jarra. Foi tal o furor, que a moda pegou e a rainha Vitória passou a usar flores verdadeiras em vestidos de festa.
Se em sofisticação França pontificava, através de Eugénia de Montijo (sendo irónico provir da filha de um conde espanhol), o palmarés da popularidade pertencia à rainha Vitória, que geria o poder primorosamente, conseguindo ter ascendente além-fronteiras. Embora partisse de um contexto favorável, por chefiar um país alheio aos ventos subversivos que agitavam a Europa continental, esforçava-se por ter um governo competente e, em simultâneo, adaptável aos novos tempos, sem precisar de revoluções para empreender as reformas necessárias. Ela própria recorreu à moda para unir o Reino:
Por isso, as Ilhas Britânicas detinham a primazia da expansão ultramarina e da estabilidade política. Todavia, nas artes e nas novas ideias, voltava a pontificar a Cidade das Luzes, onde fervilhavam os experimentalismos mais vanguardistas, nomeadamente na pintura. Como mecenas e apoiante de artistas talentosos, Eugénia deu o seu contributo, apadrinhando sobretudo pintores e estilistas. Um dos seus costureiros preferidos foi o britânico Charles Frederick Worth, fundador da marca House of Worth e considerado o precursor da alta costura, que lhe desenhou vários dos trajes imortalizados em telas e em fotografias:
| Retrato de Eugenia de Montijo, imperatriz dos Franceses, no ano do seu casamento (1853), pintado pelo artista que a adoptou como musa – Franz Xaver Winterhalter. |
Embora Eugénia tenha entrado para a História pelo glamour e pelo prestígio internacional (além da rainha Vitória, era também muito próxima de Sissi da Áustria), sofreu enormes desgostos. A somar às constantes traições públicas do marido, que aguentava estoicamente, perdeu o seu único filho, morto em combate na África do Sul, ao serviço da coroa britânica. Viveu também a derrocada do Segundo Império, quando as tropas alemãs entraram em Paris e aprisionaram o seu marido. Só teve tempo de fugir para Londres, onde ficou exilada. No início do conto de fadas com Napoleão III, conta-se que se conheceram nos salões de Paris, quando Eugénia e a mãe ali se radicaram (1848). Fascinado pela beleza da espanhola nascida no Sul (Granada), o sobrinho de Bonaparte perguntou-lhe: «Senhora, qual é o caminho para chegar aos vossos aposentos?». Resposta pronta da jovem: «Pela capela, senhor, pela capela»… Assim se casaram, a 15 de janeiro de 1853. Mais tarde, na fase das constantes infidelidades do marido, a troca de palavras tomou outro rumo, começando com um remoque trocista do imperador à mulher: «Sabeis a diferença entre a vossa pessoa e um espelho?». «Não», respondeu Eugénia. «É que o espelho reflecte, mas vós não …». Réplica certeira de Eugénia ao dichote: «E vós, sabeis qual a diferença entre a vossa pessoa e um espelho? É que o espelho é polido, e vós não!»
Em Lisboa, um leque lindo, que pertencera à imperatriz Eugénia (espanhola de nascimento), está exposto na Fundação Medeiros e Almeida (M&A), dando testemunho do esplendor da corte do último Império francês. Fora encomendado a Edmond Hédouin (1820-1889), para celebrar o primeiro ano do casamento dos novos Imperadores. A pintura da face principal desdobra-se numa festa palaciana com momentos musicais e de convívio, que decorre num jardim de buxos. Ironia dos tempos, o Segundo Império (tal como Napoleão Bonaparte) fez tábua rasa do ideário de igualitarismo propagado pela Revolução Francesa, empenhando-se antes em recriar a sumptuosidade da monarquia que fora guilhotinada décadas antes, na Bastilha. O próprio uso do leque tinha sido estabelecido pelo Rei Sol e por Luís XV. Ironicamente, também Maria Antonieta – depreciativamente cognominada ‘a austríaca’ – fora uma influencer, à época, revolucionando o vestuário e a decoração com o branco e os tons claros, que tornaram mais leve e luminoso o ambiente pesado e solene da corte de setecentos.
O leque da Imperatriz Eugénia foi comprado à antiquária Elena Sarto de Hortega (1900-1994) pelo empresário e coleccionador de arte português, António Medeiros e Almeida (1895-1986), após a Segunda Guerra Mundial, sendo o leque estrela do acervo da M&A. A sua estrutura é constituída por uma armação em madrepérola, decorada com esmaltes, pedraria, dourados e prateados. O reverso, igualmente magnífico, exibe os brasões de Napoleão III e de Eugénia, rematados no topo pela coroa imperial e pelos monogramas de ambos: ‘N’ e ‘E’.
| Frente e verso. |
| Zoom sobre a armação em madrepérola e sobre o reservo com as armas das duas famílias e a coroa imperial centrada em cima. |
| Zoom sobre a festa palaciana pintada na face principal. |
Quando revisitamos a história, descobrimos que, afinal, a nossa época é bem menos fértil em novas ideias do que supomos. Demasiado colados ao presente, tendemos a sobrevalorizá-lo, como se quase tudo tivesse surgido de ‘geração espontânea’. Lembramos pouco, que somos herdeiros de um legado imenso, riquíssimo, transmitido generosa e esforçadamente, de geração em geração. Como dizia uma velhinha muito lúcida: os miúdos que, hoje, não concebem o mundo sem telemóvel, não o inventaram; são meros beneficiários do invento extraordinário de um avô, que se dão ao luxo de ignorar. São, no fundo, anões sem consciência de viverem às cavalitas de gigantes...
O descanso no Verão convida a boas leituras, daquelas que ajudam a lembrar (informar sobre) o longo caminho percorrido até à actualidade. Boas férias!


