15 abril 2026

Poemas dos dias que correm

Maria Andrade 

Maria Andrade
só com o Ciclo Preparatório
e sem saber
o que é um adjectivo
dedica-se ao estudo
da Termodinâmica Generalizada
frequenta mesmo um curso pago
no Centro Paroquial dos Anjos
o professor diz aos alunos
que ao fim de umas tantas lições
o que uma dona de casa
poupa no gás
dá-lhe para pagar o curso
e depois começa a dar-lhe mesmo
para fazer poupança
e investir
é assim que é feita
a auto-avaliação dos conhecimentos
Maria Andrade delicia-se
com a teoria
da água a ferver
do banho-maria
do frigorífico
da panela de pressão
da garrafa termos
(ah as paredes adiabáticas)
da caixa Tupperware
do demónio de Maxwell
gere o arquivo dos virginais tricots
como um sistema
minimizando a entropia dele
ou seja as traças
e a moda
influenciando
o ambiente turbulento de mudança
pelo uso do marketing
e da publicidade
que funciona com a moda
mas não com as traças  
 
adilia lopes
dobra
poesia reunida
a continuação do fim do mundo (1995)
assírio & alvim
2021

14 abril 2026

Das engrenagens *


Fotografia tirada da net

Só numa definição tecnicamente seca é que uma engrenagem é um dispositivo constituído por um sistema de rodas dentadas para transmissão de movimentos em diversos maquinismos. Numa visão metafórica do tema, uma engrenagem é um mar de possibilidades. 

Quando falamos de rodas dentadas falamos de dentes e, nesse sentido, de flanco, de passo, de círculo ou diâmetro da coroa, de espessura e de largura do dente. Em duas rodas que engrenam uma na outra as dimensões dos dentes têm de ser correspondentes, porque o espaço entre dentes é sempre igual. As rodas podem ter dimensões diferentes, diferindo por isso a relação de transmissão. Mas os dentes, o que provoca a engrenagem e contribui decisivamente para o correcto funcionamento do dispositivo mecânico, não. Esta obrigatoriedade de igual dimensão é o garante da eficácia do sistema.

Numa conversa sobre um outro tema, apanho este conceito desenvolvido por um sociólogo, parece-me: quanto mais especialização menos autonomia. Isto é, à medida que fulano se especializa na área A, depende de beltrano que se especializou na área B, sendo que A e B estão intimamente ligadas. Isto é, o especialista em sistema eléctricos precisa do especialista em travões e do especialista em segurança infantil para construir um carro onde possam circular crianças. Dentro da metáfora das rodas dentadas, cada especialista é um dente. E cada dente é individual, imprescindível, sem o qual a engrenagem tropeça - e parte. 

A tendência de especialização teve o intuito da eficácia, porque ninguém conseguiria saber de tudo. E no entanto, não me parece que a motivação para a especialização deva ser essa, mas o da subsistência da espécie humana enquanto conjunto gregário de pessoas. No limite, a sabedoria generalizada de vários temas deveria ser proibida por lei, por princípios de conduta morais, religiosos ou éticos. Não devemos saber tudo, para podermos contar com os outros. Os outros não devem saber tudo, para poderem contar connosco. Devemos, por isso, ser profundamente especializados para podermos ser profundamente (inter)dependentes.

Pode ver-se a engrenagem como um conjunto igualitário de elementos mecânicos - tudo infinita e tristemente igual. Mas pode ver-se a engrenagem como um conjunto construído para um fim - a transmissão de movimento que conduz ao infinito. Facilita se imaginarmos uma comunidade: cada dente é uma especialidade: pintor, pedreiro, alfaiate, canalizador, especialista em médio oriente, psiquiatra, técnico de ansiedades, professor de literatura. E cada reentrância é uma necessidade: quem precisa de um fato de ver a deus, quem sofre de ansiedade, quem não sabe colocar um lavatório, quem gostava de aprender sobre Miguel Torga, etc. Para cada necessidade uma especialidade.

A interdependência, que não é mais do que uma engrenagem perfeitamente concebida - não é um vantagem ou um exercício de eficácia fabril. A interdependência é apenas aquilo que nos salva.

JdB

* publicado originalmente a 23 de Março de 2016

12 abril 2026

II Domingo da Páscoa

EVANGELHO – João 20,19-31

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou Se no meio deles e disse lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser lhes ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».
Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo,
não estava com eles quando veio Jesus.
Disseram lhe os outros discípulos:
«Vimos o Senhor».
Mas ele respondeu lhes:
«Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos,
se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado,
não acreditarei».
Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa
e Tomé com eles.
Veio Jesus, estando as portas fechadas,
apresentou Se no meio deles e disse:
«A paz esteja convosco».
Depois disse a Tomé:
«Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos;
aproxima a tua mão e mete a no meu lado;
e não sejas incrédulo, mas crente».
Tomé respondeu Lhe:
«Meu Senhor e meu Deus!»
Disse lhe Jesus:
«Porque Me viste acreditaste:
felizes os que acreditam sem terem visto».
Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos,
que não estão escritos neste livro.
Estes, porém, foram escritos
para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus,
e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.

11 abril 2026

Pensamentos Impensados

Auto-estima: diz-se de quem trata bem os automóveis.

Os filhos ilegítimos também descendem dos antepassados?

Quem estiver proibido pelos médicos de comer sal também estará proibido de receber salário?

Se à Beatriz Costa tivessem cortado a franja, teria ficado com um aspecto confrangedor?

Mouzinho de Albuquerque tinha furor ultramarino?

Os flambeados também podem fazer-se com aguardente; neste caso chama-se lume brandy.

SdB (I) 

09 abril 2026

Imagem e poema dos dias que correm


A fotografia acima retrata um fenómeno natural e recorrente: pouco depois do sol nascer (esta fotografia foi tirada na 2ªfeira às 07.27h) a luz embate num edifício específico e espelhado de Cascais, provocando aquele reflexo que mais parece um fogo.

***

Nós os vencidos do catolicismo 

Nós os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana 

Nós que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos 

Já nenhum garizim nos chega agora
depois de ouvir como a samaritana
que em espírito e verdade é que se adora
Deixem-me ouvir os carmina burana 

Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos e jogamos
"Meu deus meu deus porque me abandonaste?"

Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 147 | Editorial Presença Lda., 1984

08 abril 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 UM PINTOR DA ‘JOIE DE VIVRE’ 

Paris aproveitou a Primavera para lançar mais uma mega exposição, no imperdível Musée d’Orsay, dedicada a um dos expoentes do impressionismo – Pierre-Auguste Renoir. O título da mostra é eloquente – «Renoir et l’amour», assim como as garridas manchetes dos media, a evocar o denominador comum das suas telas: «MERCI LA VIE!»

À DTA. - auto-retrato, de 1910

Renoir acrescentou ao fascínio dos impressionistas pela luz, a audácia de pintar o sabor da vida, apanhando-a na pose mais festiva e alegre. Segundo os curadores: «Renoir regarde le monde comme on embrasse quelqu’un que l’on aime depuis toujours». Explicava o artista: «c’est avec mon pinceau que j’aime». Por isso, é frequente considerar-se que pintou o amor, a beleza (sobretudo, a do arquétipo feminino), a alegria, a paixão pela vida. 

Oriundo de um meio pobre, com uma infância marcada por grandes privações, a mera ousadia de apostar numa profissão de alto risco, como a pintura, roçava o aventureirismo irresponsável. Nascido em 1841, ainda apanhou os resquícios da mortandade da Revolução Francesa (1789) e a estrondosa derrota gaulesa nas Guerras napoleónicas. Em vida, assistiu à humilhante derrota de França na Guerra Franco-Prussiana e à guerra civil durante as dolorosas experiências da Comuna de Paris, para além dos tumultos sociais causados pela Revolução Industrial! Tudo isso Renoir enfrentou com garbo e um sentido positivo inesperado! De onde lhe viria tanta confiança no futuro, face ao mundo algo sombrio que o rodeava?  

Com os comparsas impressionistas, Renoir convocou a ‘joie de vivre à la française’ para contribuir para as mudanças de mentalidade de oitocentos, quando as sociedades se  democratizavam; o cidadão comum ganhava destaque; a indústria do entretenimento despontava, sobretudo nas grandes cidades; a maior facilidade de locomoção aumentava os horizontes das gentes rurais, antes confinadas ao lugar onde tinham nascido; novos países nasciam, redesenhando-se as fronteiras da Europa e dos impérios ultramarinos. Todo o mundo era composto de mudança e o apetite pelo presente aguçava-se, na ânsia de acompanhar a voragem do tempo, saborear os pequenos momentos, os prazeres visíveis, ainda que fugazes. Os artistas estavam ávidos de devorar as modas nascentes e plasmá-las numa expressão artística de vanguarda.  

Duas das mais célebres obras de Renoir, imortalizam momentos efémeros, captando os ambientes festivos, que o pintor tanto apreciava.  

Vinte anos depois, a exposição conseguiu reunir as três telas de pares dançantes. A mesma felicidade irradia em casais diferentes, numa união de corpos arrojada para a época, seja na versão burguesa, seja na campestre, seja nos trajes de gala.  

A música veio antes da pintura na vida de Renoir. Mas as dificuldades financeiras da família obrigaram-no a desistir das aulas de canto, que adorava, e a empregar-se numa fábrica de porcelana para ajudar ao sustento da casa dos pais.

Retratista muito procurado pelos seus contemporâneos, Renoir pintava com enorme rapidez, como foi o caso com o compositor alemão. 

As figuras femininas eram as musas do pintor: «La Balancoire», 1876. 

Até ao Barroco, pedir a um pintor para ser luminoso poderia parecer uma redundância, mesmo nos temas sobre guerras e outros episódios sangrentos da História. Porém, essa tendência mudou, quando o sofrimento personalizado entrou para a tela. O ambiente sombrio e as marcas de desgosto num rosto anónimo, mais próximo do espectador, adquiriu uma ressonância nova no público. Pouco a pouco, caiu em desuso o recurso ao efeito teatral das pinturas povoadas de heróis ancestrais ou mitológicos em cenários grandiloquentes, demasiado longe da realidade prosaica do cidadão comum. O século XX avançou mais uns passos e mostrou ad nauseam quanto a arte aguenta cargas indigestas de sofrimento humano concreto, reconhecível e de muitas gradações do mal, até ao desespero mais agudo. 

Voltando a Renoir, são espantosas as pessoas que irradiam alegria no meio da turbulência e das incertezas do dia-a-dia. Como se estivessem sentadas ao nosso lado, enquanto todos atravessamos a tempestade… São companhias fantásticas na vida, corajosamente pascais, abertas ao desfecho luminoso da ressurreição.

Páscoa Feliz com a ‘joie de vivre’ de Renoir, se possível, com um salto a Paris!

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas) 

07 abril 2026

Do elogio *

 Não fui educado no, e para o elogio. Como é normal na natureza humana, não eduquei no, e para o elogio. Para efeitos desta pequena dissertação interessa-me pouco as consequências desse modo de educar: sei o peso que isso teve em mim, sei o peso que teve naqueles que me competiu educar; o que está feito não tem conserto, apenas pode servir de lamentação saudável e honesta ou de aprendizagem para o futuro. Mas a história do elogio não é apenas de pais para filhos, mas de amigo para amigo, de cônjuge para cônjuge, de colega de trabalho para colega de trabalho.

Olho para trás. Talvez eu tenha crescido numa época em que se dava pouca importância às crianças, em que se achava que elas não deviam ser salientes nem ter o poder de perorar sobre tudo. Talvez eu tenha crescido num meio cheio de pudores de vocabulário: não se dizia vermelho nem se dizia lábios, como não se dizia ovários nem virilha. E também não se dizia amor - pelo que a expressão amo-te estava reservada para o cinema ou para a literatura - ou simplesmente para as pessoas com menor pudor expressivo. Talvez então possa pensar que havia um pudor qualquer de linguagem no elogio: dizer-se muito bem!, ou de facto tens muito jeito!, estava vedado aos que também não diziam amo-te. Eu sei que não é verdade, mas a argumentação dá-me jeito. 

Não elogiar uma criança não é a mesma coisa que não elogiar um adulto. Não elogiar um filho não é, por isso, a mesma coisa que não elogiar a pessoa com quem se vive. Não se elogia uma criança porque não se tem feitio para isso ou se acha que as crianças não devem ter elogios. Ora, elogiar um adulto não obedece a nenhuma teoria educativa: é um acto de delicadeza, de incentivo, de simpatia ou da mais elementar justiça. Mas elogiar um adulto - o adulto com quem se vive, por exemplo - é colocá-lo num patamar mais elevado do que o nosso. É reconhecer algo no outro que merece uma certa admiração. E talvez esteja aí um dos motivos para não se elogiar o próximo: não queremos colocar o outro a um nível superior ao nosso. Não queremos vê-lo elevar-se relativamente à nossa normalidade. 

Elogiar pode ser um acto de generosidade ou de reconhecimento. Não o fazer a um adulto pode significar uma estratégia, sobretudo - algo que acontece em muitos casos - quando se é particularmente generoso nos elogios aos que nos são menos próximos. A inveja não é só desejar o que os outros têm; pode ser simplesmente, como ouvi no outro dia, não nos regozijarmos com o sucesso do outro. Ainda estou para perceber o que nos leva, na verdade, à parcimónia no elogio. É de graça e tem vantagens, pelo que...

JdB 

* publicado originalmente a 4 de Abril de 2019

05 abril 2026

I Domingo de Páscoa

EVANGELHO – Jo 20,1-9

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

No primeiro dia da semana,
Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro
e viu a pedra retirada do sepulcro.
Correu então e foi ter com Simão Pedro
e com o discípulo predilecto de Jesus
e disse-lhes:
«Levaram o Senhor do sepulcro,
e não sabemos onde O puseram».
Pedro partiu com o outro discípulo
e foram ambos ao sepulcro.
Corriam os dois juntos,
mas o outro discípulo antecipou-se,
correndo mais depressa do que Pedro,
e chegou primeiro ao sepulcro.
Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou.
Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira.
Entrou no sepulcro
e viu as ligaduras no chão
e o sud&aacu
te;rio que tinha estado sobre a cabeça de Jesus,
não com as ligaduras, mas enrolado à parte.
Entrou também o outro discípulo
que chegara primeiro ao sepulcro:
viu e acreditou.
Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura,
segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

03 abril 2026

6ª feira Santa

 

Raising of the cross (Rembrandt, 1633)

Pietà 

Vejo-te ainda, Mãe, de olhar parado,
Da pedra e da tristeza, no teu canto,
Comigo ao colo, morto e nu, gelado,
Embrulhado nas dobras do teu manto. 

Sobre o golpe sem fundo do meu lado
Ia caindo o rio do teu pranto;
E o meu corpo pasmava, amortalhado,
De um rio amargo que adoçava tanto. 

Depois, a noite de uma outra vida
Veio descendo lenta, apetecida
Pela terra-polar de que me fiz; 

Mas o teu pranto, pela noite além,
Seiva do mundo, ia caindo, Mãe,
Na sepultura fria da raiz. 

Miguel Torga


02 abril 2026

5ªfeira Santa

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim. No decorrer da ceia, tendo já o Demónio metido no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, a ideia de O entregar, Jesus, sabendo que o Pai Lhe tinha dado toda a autoridade, sabendo que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-Se da mesa, tirou o manto e tomou uma toalha, que pôs à cintura. Depois, deitou água numa bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que pusera à cintura. Quando chegou a Simão Pedro, este disse-Lhe: «Senhor, Tu vais lavar-me os pés?». Jesus respondeu: «O que estou a fazer, não o podes entender agora, mas compreendê-lo-ás mais tarde». Pedro insistiu: «Nunca consentirei que me laves os pés». Jesus respondeu-lhe: «Se não tos lavar, não terás parte comigo». Simão Pedro replicou: «Senhor, então não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça». Jesus respondeu-lhe: «Aquele que já tomou banho está limpo e não precisa de lavar senão os pés. Vós estais limpos, mas não todos». Jesus bem sabia quem O havia de entregar. Foi por isso que acrescentou: «Nem todos estais limpos». Depois de lhes lavar os pés, Jesus tomou o manto e pôs-Se de novo à mesa. Então disse-lhes: «Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também».

Palavra da salvação.

01 abril 2026

Poemas dos dias que correm

camões dirige-se aos seus contemporâneos

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

jorge de sena
metamorfoses (1963)
trinta anos de poesia
editorial inova
1972

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