10 março 2026

Da genética *

Nota prévia: muito embora o tema seja da ordem do quotidiano das pessoas, a motivação para este post não é pessoal; apanhei o tema ontem, numa aula, e escrevi-o a correr antes do jantar. 

***

Seguramente que já todos nós dissemos ou ouvimos dizer a frase de alguém referindo-se a um dos seus progenitores: só espero é não ficar como ele / ela... Isto significa que há uma determinada característica ou feitio dos nossos Pais que, de facto, não queremos herdar. Algo que detestamos. Estou certo de que dizemos isto dos nossos Pais, mas não estou certo de que tenhamos consciência que os nossos Pais disseram isto dos Pais deles, porque algumas características são como heranças bem geridas - passam de Pais para filhos. E eles, os nossos Pais, talvez não tivessem querido também ficar com aquela característica.

A genética é tramada. Cabe-nos o melhor e o pior, e é esse melhor e esse pior, temperado - bem ou mal - com outro sangue e com outras circunstâncias, que deixaremos aos nossos filhos. Curiosamente, quando temos consciência de que não queremos herdar determinada característica temos suficiente clareza de espírito e suficiente maturidade para poder avaliar se já temos esse defeito dentro de nós. Mas ,ao dizer só espero é não ficar como ele / ela, estamos a usar uma espécie de desejo pagão ou fezada no destino, como se a genética má estivesse sujeita a encomenda ou fosse uma fatalidade de que gostaríamos de fugir, mas cujo destino não está nas nossas mãos. O problema é que está e, ao olharmos demasiadamente para os nossos Pais naquilo que eles têm de mau, esquecemo-nos que por vezes somos iguais.

Por outro lado, conheço gente suficiente para me ter cruzado com pessoas adictas, com pessoas coléricas, com pessoas que desapareciam da circulação de pai, mães e irmãos para nunca mais terem voltado, com pessoas que mentem sempre. Há um gene que provoca tudo isto ou algumas destas pessoas têm uma enzima a mais ou a menos? Há alguma motivação química por trás de pessoas que partem portas com uma fúria, jogam, bebem ou compram desalmadamente. 

Gosto de pensar que a genética é tramada, mas que felizmente há a genética e que isso depende de características que correm em famílias, não em substâncias desequilibradas nas nossas veias. Não chegarei a esse estado da técnica (não do progresso, porque me parece que não é) mas há o risco de um investigador descobrir a tal enzima e, com isso, diminuir a população de adictos ou coléricos no mundo. Um dia mais tarde eliminamos os preguiçosos em nome da produtividade e, logo logo a seguir, abatemos os orgulhosos ao efectivo, para depois atacar os que precisam de atenção e os que choram com mais facilidade.

JdB 

* publicado originalmente a 15 de Abril de 2016

08 março 2026

III Domingo da Quaresma

 EVANGELHO – João 4,5-42

Naquele tempo,
chegou Jesus a uma cidade da Samaria, chamada Sicar,
junto da propriedade que Jacob tinha dado a seu filho José,
onde estava a fonte de Jacob.
Jesus, cansado da caminhada, sentou Se à beira do poço.
Era por volta do meio dia.
Veio uma mulher da Samaria para tirar água.
Disse lhe Jesus: «Dá Me de beber».
Os discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos.
Respondeu Lhe a samaritana:
«Como é que Tu, sendo judeu,
me pedes de beber, sendo eu samaritana?»
De facto, os judeus não se dão com os samaritanos.
Disse lhe Jesus:
«Se conhecesses o dom de Deus
e quem é Aquele que te diz: ‘Dá Me de beber’,
tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva».
Respondeu Lhe a mulher:
«Senhor, Tu nem sequer tens um balde, e o poço é fundo:
donde Te vem a água viva?
Serás Tu maior do que o nosso pai Jacob,
que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu,
com os seus filhos a os seus rebanhos?»
Disse Lhe Jesus:
«Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede.
Mas aquele que beber da água que Eu lhe der
nunca mais terá sede:
a água que Eu lhe der tornar se á nele uma nascente
que jorra para a vida eterna».
«Senhor, suplicou a mulher dá me dessa água,
para que eu não sinta mais sede
e não tenha de vir aqui buscá-la».
Disse-lhe Jesus:
«Vai chamar o teu marido e volta aqui».
Respondeu-lhe a mulher: «Não tenho marido».
Jesus replicou:
«Disseste bem que não tens marido,
pois tiveste cinco
e aquele que tens agora não é teu marido.
Neste ponto falaste verdade».
Disse-lhe a mulher:
Senhor, vejo que és profeta.
Os nossos antepassados adoraram neste monte
e vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar».
Disse lhe Jesus:
«Mulher, podes acreditar em Mim:
Vai chegar a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai.
Vós adorais o que não conheceis;
nós adoramos o que conhecemos,
porque a salvação vem dos judeus.
Mas vai chegar a hora – e já chegou –
em que os verdadeiros adoradores
hão de adorar o Pai em espírito a verdade,
pois são esses os adoradores que o Pai deseja.
Deus é espírito
e os seus adoradores devem adorá-l’O em espírito e verdade».
Disse Lhe a mulher:
«Eu sei que há de vir o Messias,
isto é, Aquele que chamam Cristo.
Quando vier há de anunciar nos todas as coisas».
Respondeu lhe Jesus:
«Sou Eu, que estou a falar contigo».
Nisto, chegaram os discípulos
e ficaram admirados por Ele estar a falar com aquela mulher,
mas nenhum deles Lhe perguntou:
«Que pretendes?», ou então: «Porque falas com ela?»
A mulher deixou a bilha, correu à cidade e falou a todos:
«Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz.
Não será Ele o Messias?»
Eles saíram da cidade e vieram ter com Jesus.
Entretanto, os discípulos insistiam com Ele, dizendo:
«Mestre, come».
Mas Ele respondeu-lhes:
«Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis».
Os discípulos perguntavam uns aos outros:
«Porventura alguém Lhe trouxe de comer?»
Disse-lhes Jesus:
«O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que me enviou
e realizar a sua obra.
Não dizeis vós que dentro de quatro meses
chegará o tempo da colheita?
Pois bem, Eu digo-vos:
Erguei os olhos e vede os campos,
que já estão loiros para a ceifa.
Já o ceifeira recebe o salário
e recolhe o fruto para a vida eterna
e, deste modo, se alegra o semeador juntamente com o ceifeiro.
Nisto se verifica o ditado:
‘um é o que semeia e outro o que ceifa’.
Eu «mandei-vos ceifar o que não trabalhastes.
Outros trabalharam e vós aproveitais-vos do seu trabalho».
Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus,
por causa da palavra da mulher, que testemunhava:
«Ele disse-me tudo o que eu fiz».
Por isso os samaritanos, quando vieram ao encontro de Jesus,
pediram Lhe que ficasse com eles.
E ficou lá dois dias.
Ao ouvi l’O, muitos acreditaram e diziam à mulher:
«Já não é por causa das tuas palavras que acreditamos.
Nós próprios ouvimos
e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo».

07 março 2026

Pensamentos Impensados

Choque em cadeia - terá a ver com execuções na cadeira eléctrica?

Se alguém for ouvir uma orquestra sinfónica a tocar um Requiem pode dizer que ouviu música ao vivo?

Porque é que o Infante D. Henrique é a figura de proa do Padrão dos Descobrimentos? Porque era o patrão dos descobrimentos.

A galinha pôs ovos de várias cores; vai daí o galo matou o pavão.

Pode ser que alguém se lembre, e possivelmente use, um objecto para escrever a que deram, erradamente, o nome de caneta de tinta permanente. Atendendo a a que volta e meia era preciso enchê-la, deveria ter-se chamado caneta de tinta provisória.

SdB (I)

06 março 2026

Em memória de Lobo Antunes (1942 - 2026)

A Morte pela Solidão

Morrer é quando há um espaço a mais na mesa afastando as cadeiras para disfarçar, percebe-se o desconforto da ausência porque o quadro mais à esquerda e o aparador mais longe, sobretudo o quadro mais à esquerda e o buraco do primeiro prego, em que a moldura não se fixou, à vista, fala-se de maneira diferente esperando uma voz que não chega, come-se de maneira diferente, deixando uma porção na travessa de que ninguém se serve, os cotovelos vizinhos deixam de impedir os nossos e faz-nos falta que impeçam os nossos. 

António Lobo Antunes, in 'Não é Meia Noite Quem Quer'

***

A Vaidade e a Inveja Desaparecem com a Idade

Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: «Quanto é que ele deixou?» O advogado respondeu: «Deixou tudo.» Ninguém é mais pobre do que os mortos. 

António Lobo Antunes, in "Diário de Notícias (2004)"

05 março 2026

Poemas dos dias que correm

Pecados capitais

Cada vez que tive vontade e pude
entreguei-me à gula e à luxúria.
Com a preguiça vivo amancebada.
Só fui seduzida pela avareza
como meio para outros desvios.
Sempre me mostrei irada e soberba,
orgulhosa, arbitrária e teimosa.
Talvez por isso não sentisse inveja.
Tão segura de mim, tão inflexível,
não podia invejar nada nem ninguém.
Hoje, contudo, derrotada e só,
sem esperança e vencida, tão inútil,
sinto inveja de mim quando me amavas. 

amalia bautista
estou ausente
tradução de inês dias
averno
2013


***

a foto

Tira-me uma dessas fotos que tiras,
embacia a objectiva, desfoca
um pouco e mede mal a luz. Agora
que termina o dia não é difícil
eu sair favorecida. Que os traços
se suavizem, que todas as rugas
da alma e do contorno dos olhos
desapareçam e que quem me veja
pense que posso merecer a pena.
E sobretudo, que o que impressione
nessa foto não seja eu, que estou
ali, mas os teus olhos que a tiraram. 

amália bautista
estou ausente
tradução de inês dias
averno
2013

03 março 2026

Da observação *

 

Fotografia de Sebastião Salgado (tira da net)

Um destes dias, num jantar algo inusitado, alguém afirmava mais ou menos isto, em forma de boutade sentida: não estou interessado em cinema; para quê ver a vida dos outros durante duas horas? A frase pode ser entendida de duas formas - a que nos faz sorrir e a que nos faz pensar. Opto pela segunda, porque se assim não fosse nada escreveria sobre o tema. 

No dicionário, ver tem 14 definições; observar tem 13. Equiparam-se, portanto, embora haja um mundo a dividi-las. Ver é uma faculdade de quem não é cego - vemos os comboios passar, vemos o trapezista no circo, vemos um casal a beijar-se, vemos um jogo de futebol. Os exemplos repetem-se até à exaustão. Observar é diferente, é ver o trapezista e perceber-lhe o treino, a agilidade, o arrojo; é ver o casal e imaginar o resto da vida deles reflectido num beijo; é ver os comboios em circulação e encontrar-lhes uma metáfora para a fugacidade da vida. 

Observar, como dizia alguém, é criar um intervalo entre nós e o ser observado. E é criar, neste exercício, uma relação biunívoca que nos altera sem nos alterar. Somos os mesmos, já não sendo os mesmos. A observação é uma aprendizagem; ao observarmos os outros, estamos a observar-nos a nós próprios, não porque sejamos todos iguais, mas porque a observação é algo que se reflecte, que nos sobressalta: quem sou eu, já que aquele é o que é? O que faço eu, já que aquele faz o que faz? Observar é ver a vida connosco lá dentro; é ver, do lado de fora, o carrossel onde nós próprios estamos, mesmo que não cavalguemos o cavalo de pau.

O que nos impede de observar? O desinteresse, o medo, a auto-suficiência, o horror ao espelho. Não observar é fazer a barba pelo tacto, é traçar a risca do cabelo passando um polegar pela cabeça, é tapar o espelho que nos devolve o olhar que lhe lançamos. Ver é nada; observar é estudar o outro que somos nós. E isso é libertador - ou pode ser aterrador. 

JdB

* publicado originalmente a 10 de Abril de 2015

01 março 2026

II Domingo da Quaresma

 EVANGELHO – Mateus 17,1-9

Naquele tempo,
Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João seu irmão
e levou os, em particular, a um alto monte
e transfigurou Se diante deles:
o seu rosto ficou resplandecente como o sol
e as suas vestes tornaram se brancas como a luz.
E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele.
Pedro disse a Jesus:
«Senhor, como é bom estarmos aqui!
Se quiseres, farei aqui três tendas:
uma para Ti, outra para Moisés a outra para Elias».
Ainda ele falava,
quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra
e da nuvem uma voz dizia:
«Este é o meu Filho muito amado,
no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O».
Ao ouvirem estas palavras,
os discípulos caíram de rosto por terra a assustaram se muito.
Então Jesus aproximou se e, tocando os, disse:
«Levantai vos e não temais».
Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus.
Ao descerem do monte, Jesus deu lhes esta ordem:
«Não conteis a ninguém esta visão,
até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».

28 fevereiro 2026

Pensamentos impensados

Antigamente escutava-se o fado com ar de sofrimento; eram os fado-masoquistas.

O compositor Bach escreveu o cravo bem temperado; o 25 de Abril produziu o cravo destemperado.

Levou umas marteladas na cabeça e ficou com um galo; chama-se galo de martelos.

A massa associativa é feita com margarina para folhados?

Circunscrição - operação inventada pelos judeus feita com circunspecção, por sujeitos circunspectos e em lugares circunscritos.

SdB (I) 

27 fevereiro 2026

Poemas dos dias que correm

Não me demorei em mosteiros europeus

Não me demorei em mosteiros europeus 
nem descobri por entre as ervas altas campas de cavaleiros
que caíram tão formosamente quanto as suas baladas contam;
não separei as ervas
nem intencionalmente as deixei cobertas de colmo.

Não libertei o meu pensamento para que vagueasse e aguardasse
naquelas grandiosas distâncias
entre as montanhas de neve e os pescadores,
como uma lua,
ou uma concha debaixo da água que corre.

Não contive a minha respiração
para que pudesse ouvir o fôlego de Deus,
nem domei o bater do meu coração com um exercício,
nem tive fome de visões.

Embora o tenha observado muitas vezes
não me transformei na garça,
deixando o meu corpo na praia,
e não me transformei na truta luminosa,
deixando o meu corpo no ar.

Não venerei feridas e relíquias,
nem pentes de ferro,
nem corpos envoltos e queimados em pergaminhos.

Não sou infeliz há dez mil anos.
Durante o dia rio-me e durante a noite durmo.
Os meus cozinheiros favoritos preparam as minhas refeições,
o meu corpo purifica-se e restaura-se a si mesmo,
e todo o meu trabalho corre bem. 

leonard cohen
a rosa do mundo 2001 poemas para o futuro
tradução de cecília rego pinheiro 
assírio & alvim
2001

***

I Have Not Lingered In European Monasteries 

I Have Not Lingered In European Monasteries
and discovered among the tall grasses tombs of knights
who fell as beautifully as their ballads tell;
I have not parted the grasses
or purposefully left them thatched.

I have not held my breath
so that I might hear the breathing of God
or tamed my heartbeat with an exercise,
or starved for visions.
Although I have watched him often
I have not become the heron,
leaving my body on the shore,
and I have not become the luminous trout,
leaving my body in the air.

I have not worshipped wounds and relics,
or combs of iron,
or bodies wrapped and burnt in scrolls.

I have not been unhappy for ten thousands years.
During the day I laugh and during the night I sleep.
My favourite cooks prepare my meals,
my body cleans and repairs itself,
and all my work goes well.

25 fevereiro 2026

Vai um gin do Peter’s ?

 ARTISTA PLÁSTICO ESQUECIDO – A. LINO

É bem verdade que, em Portugal, há pouco cuidado em lembrar os nomes, gravar os factos conhecidos, em suma, registar a História. Como se tivéssemos ficado cristalizados na Idade Média, em que a preocupação com o reconhecimento da autoria, da propriedade intelectual não era prática corrente, quase tudo rondando em torno do soberano e de um par de figuras maiores da sua entourage/corte.  Desleixo? Excesso de humildade?  Uma tradição muito centralizadora e algo redutora da história? Falta de investigadores e de gosto pelo arquivismo?... Mais estranho ainda, quando nos antípodas desta lacuna está o povo judeu, que teve uma presença marcante em Portugal e é cuidadosíssimo a contar e a fazer ouvir tudo o que lhe aconteceu, naturalmente segundo a sua perspectiva, como toda a narrativa histórica. 

Em pleno século XX, esta tendência pouco cuidadosa com a memória ainda se faz sentir, com nomes de artistas e de intelectuais a deixar-se cair no esquecimento, mais ainda quando há mudanças de regime e os novos governantes gostam de ignorar e evaporar as figuras conotadas (ainda que injustamente) com os depostos. Estranha forma de vida, esta de um povo pouco atento ao seu passado…

Assim perdura, por exemplo, património artístico espalhado pelo país, mas de autoria quase anónima. Um caso paradigmático é o do artista plástico do século passado – António Lino – nascido em Guimarães, em 1914. Depois de estudar Belas Artes no Porto, passou mais de uma década a deambular pela Europa Ocidental, onde estudou tapeçaria (Espanha, França, Bélgica, Alemanha), pintura de vitrais (Chartres e na Alemanha), mosaico (Florença, Ravena e Veneza). Explorou grutas pré-históricas (Espanha e França); coleccionou apontamentos em desenho, aguarela, óleo, gravura, dos países em que viveu; colaborou assiduamente com revistas e jornais estrangeiros; ilustrou livros de arte e de literatura; foi colaborador da Enciplopédia  Verbo na secção de Belas Artes; notabilizou-se por descobertas artísticas importantes (ex: para o estudo do políptico de S.Vicente de Fora; identificou a origem de uma casula guardada em Milão, proveniente da Casa de Aviz); expôs em Portugal e no estrangeiro (Itália à cabeça); fundou o Movimento de Renovação de Arte Religiosa em Portugal, presidido por Nuno Teotónio Pereira; desdobrou-se em conferências sobre arte. Tem painéis e grandes murais expostos em Ministérios, Igrejas, Museus, Palácios de Justiça, Câmaras Municipais, entre outros monumentos públicos, e também casas particulares, privilegiando 4 expressões artísticas: a pintura mural, o fresco vitral, a tapeçaria e o mosaico. 

1914-1996

Talvez o facto de ter feito carreira durante o Estado Novo (decorre de ter nascido em 1914) explique algum esquecimento, mas tratando-se de arte, são sempre impróprias as (eventuais) colagens políticas. Curiosamente, a generalidade dos cineastas foi poupada, mas os músicos, os escultores e os pintores não escaparam a um olhar crítico censório. Amália é um caso flagrante de tentativa de marginalização radical, devendo à dupla Soares (como PR) e Herman José (como figura influente dos anos 80) a sua reabilitação, uma década depois de o PCP ter feito de tudo para a ostracizar da vida pública e obliterar o seu nome da história. A injustiça foi clamorosa, até porque a fadista abrigara, em sua casa, vários comunistas condenados a viver na clandestinidade, arriscando-se a dissabores graves com a horrenda PIDE. 

Voltando ao artista plástico nortenho, há muito património nacional em que já teremos esbarrado, sem lembrar o autor, como a própria concepção arquitectónica da Igreja de S.João de Deus e que é hoje o Espelho d’Agua (originalmente, o Pavilhão dos Desportos na Exposição do Mundo Português, em 1940), a somar às obras que tem na Igreja da Natividade (Terra Santa), no Vaticano, na Síria, etc. Uma amostra, em Portugal:  

Mosaico no Tribunal da Figueira da Foz

Painéis na entrada principal da Reitoria da Universidade de Lisboa, feitos de mosaicos de tipo bizantino

Colunata do Santuário de Fátima, obra de António Lino, constituída por 200 colunas e meias colunas, além de 14 altares. Inclui a Via-sacra com painéis cerâmicos executados na Fábrica "Viúva Lamego", segundo o desenho de Lino António e em colaboração com o ceramista Manuel Cargaleiro.

Painéis de 1966, no átrio do edifício do Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social (MTSSSS), na Praça de Londres. Fotografias de Carlos Varela. À esq. «O Comércio, a Indústria e a Agricultura» e à dta. «As Ciências, as Letras e as Artes»  


Painéis do átrio do MTSSS. À esq. «A Família, a Pesca e os Seguros» e à dta. «A Prudência, a Previdência e a Cooperação»

Tapeçaria «Glória de Lisboa» no Museu de Lisboa, encomendada pela Câmara Municipal de Lisboa ao artista. Fabricada pela Manufactura de Portalegre, a partir de cartões de António Lino, datados de 1955.


A inconveniente semelhança com outros nomes – o arquitecto Raúl Lino (1879-1974) e o pintor modernista Lino António (1898-1974) – atrapalharam a memorização capaz da sua identidade.  

Nesse desleixo histórico colectivo, um hiato mais excepcional terá sido a Segunda Dinastia, marcada por sangue inglês, diria… Alguns exemplos ilustrativos do novo paradigma (que se perdeu, a partir da Dinastia Filipina): a instituição ordenada e regular dos cronistas do reino e o hábito da escrita da maioria dos monarcas da Casa de Aviz; o desvelo das autoridades a apontar e a colecionar todos os avanços náuticos, geográficos, astronómicos, matemáticos, até médicos, botânicos, etc. – por junto: tecnológico-científicos –, que criaram a base de dados necessária para as arriscadas navegações em alto mar, durante os Descobrimentos; as celebrações dos grandes feitos, onde se destacam as lindíssimas Tapeçarias de Pastrana (gin de 11 de Agosto de 2010), a exaltar as cruciais conquistas portuguesas no Norte de África.  

Quarta tapeçaria de Pastrana, intitulada «Tomada de Tânger» (1470-71), a homenagear os avanços estratégicos de D.Afonso V no Magrebe, de merecido cognome O Africano. Esta glorificação artística da História, em vida, inscreve-se mais na tradição anglo-saxónica que na ibérica.

Que risco, prescindir de guardar os vestígios do passado, tão importantes para sustentar a memória de um povo. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

24 fevereiro 2026

Excerto da mensagem do Papa Leão XIV para a Quaresma de 2026

Este ano gostaria de chamar a atenção, em primeiro lugar, para a importância de dar lugar à Palavra através da escuta, pois a disponibilidade para escutar é o primeiro sinal com que se manifesta o desejo de entrar em relação com o outro.

O próprio Deus, revelando-se a Moisés na sarça ardente, mostra que a escuta é uma característica distintiva do seu ser: «Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egipto, e ouvi o seu clamor» (Ex 3, 7). Escutar o clamor dos oprimidos é o início de uma história de libertação, na qual o Senhor envolve também Moisés, enviando-o a abrir um caminho de salvação para os seus filhos reduzidos à escravidão.

É um Deus que nos envolve e, hoje, também vem até nós com os pensamentos que fazem vibrar o seu coração. Por isso, escutar a Palavra na liturgia educa-nos para uma escuta mais verdadeira da realidade: entre as muitas vozes que passam pela nossa vida pessoal e social, as Sagradas Escrituras tornam-nos capazes de reconhecer aquela que surge do sofrimento e da injustiça, para que não fique sem resposta. Entrar nesta disposição interior de recetividade significa deixar-se instruir hoje por Deus para escutar como Ele, até reconhecer que «a condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e económicos e, sobretudo, a Igreja». [1]

Jejuar

Se a Quaresma é um tempo de escuta, o jejum constitui uma prática concreta que nos predispõe a acolher a Palavra de Deus. Na verdade, a abstinência de alimentos é um exercício ascético muito antigo e insubstituível no caminho da conversão. Precisamente porque implica o corpo, torna mais evidente aquilo de que temos “fome” e o que consideramos essencial para o nosso sustento. Portanto, é útil para discernir e ordenar os “apetites”, para manter vigilante a fome e a sede de justiça, subtraindo-a à resignação e instruindo-a a fim de se tornar oração e responsabilidade para com o próximo.

Com grande sensibilidade espiritual, Santo Agostinho deixa transparecer a tensão entre o tempo presente e a realização futura que atravessa esta salvaguarda do coração, quando observa que: «Ao longo da vida terrena, cabe aos homens ter fome e sede de justiça, mas ser saciados pertence à outra vida. Os anjos saciam-se deste pão, deste alimento. Os homens, pelo contrário, sentem fome dele, estão inclinados ao seu desejo. Esta inclinação ao desejo dilata a alma, aumentando a sua capacidade». [2] Compreendido neste sentido, o jejum permite-nos não só disciplinar o desejo, purificá-lo e torná-lo mais livre, mas também ampliá-lo, de tal modo que se volte para Deus e se oriente para agir no bem.

No entanto, para que o jejum conserve a sua autenticidade evangélica e evite a tentação de envaidecer o coração, deve ser sempre vivido com fé e humildade. Ele exige um permanente enraizar-se na comunhão com o Senhor, porque «não jejua verdadeiramente quem não sabe alimentar-se da Palavra de Deus». [3] Como sinal visível do nosso compromisso interior de, com o apoio da graça, nos afastarmos do pecado e do mal, o jejum deve incluir também outras formas de privação destinadas a fazer-nos assumir um estilo de vida mais sóbrio, pois «só a austeridade torna forte e autêntica a vida cristã». 

Por isso, gostaria de vos convidar a uma forma de abstinência muito concreta e frequentemente pouco apreciada, ou seja, a abstinência de palavras que atingem e ferem o nosso próximo. Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não se pode defender, às calúnias. Em vez disso, esforcemo-nos por aprender a medir as palavras e a cultivar a gentileza: na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, nos meios de comunicação social, nas comunidades cristãs. Assim, muitas palavras de ódio darão lugar a palavras de esperança e paz.

Juntos

Por fim, a Quaresma realça a dimensão comunitária da escuta da Palavra e da prática do jejum. A Escritura sublinha também este aspeto de várias maneiras. Por exemplo, ao narrar no livro de Neemias que o povo se reuniu para escutar a leitura pública do livro da Lei e, praticando o jejum, se dispôs à confissão de fé e à adoração, a fim de renovar a aliança com Deus (cf. Ne 9, 1-3).

Do mesmo modo, as nossas paróquias, famílias, grupos eclesiais e comunidades religiosas são chamadas a percorrer, durante a Quaresma, um caminho partilhado, no qual a escuta da Palavra de Deus, assim como do clamor dos pobres e da terra, se torne forma de vida comum e o jejum suporte um verdadeiro arrependimento. Neste contexto, a conversão diz respeito não só à consciência do indivíduo, mas também ao estilo das relações, à qualidade do diálogo, à capacidade de se deixar interpelar pela realidade e de reconhecer o que realmente orienta o desejo, tanto nas nossas comunidades eclesiais como na humanidade sedenta de justiça e reconciliação.

Caríssimos, peçamos a graça de uma Quaresma que torne os nossos ouvidos mais atentos a Deus e aos últimos. Peçamos a força dum jejum que também passe pela língua, para que diminuam as palavras ofensivas e aumente o espaço dado à voz do outro. E comprometamo-nos a fazer das nossas comunidades lugares onde o clamor de quem sofre seja acolhido e a escuta abra caminhos de libertação, tornando-nos mais disponíveis e diligentes no contributo para construir a civilização do amor.

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