Adeus, até ao meu regresso
As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
29 outubro 2026
28 outubro 2026
Textos dos dias que correm
| Florença, Maio de 2011 |
O Solitário
O Solitário
As observações e as vivências do solitário que só fala consigo próprio são simultaneamente mais indistintas e intensas do que as do homem social e os seus pensamentos são mais graves, mais fantasiosos e nunca sem uma coloração de melancolia. Imagens e impressões que outros poriam naturalmente de lado após um olhar, um sorriso, um comentário, ocupam-no mais do que é devido, tornam-se profundas no silêncio, ganham significado, transformam-se em acontecimento, aventura, emoção. A solidão cria o original, o belo ousado e estranho cria a poesia. Mas cria também o distorcido, o desproporcionado, o absurdo e o proibido.
Thomas Mann, in "Morte em Veneza"
27 outubro 2026
Crónicas de um doutorando tardio
Gosto de datas e gosto de rituais; gosto de 'casar' acontecimentos, canetas, pessoas, músicas. Gosto de associar momentos importantes na minha vida a objectos ou a memórias, a santos ou a passagens relevantes do Evangelho do dia. O dia em que defendo a tese não coincide com nada de particularmente relevante na minha vida ou nos meus interesses; mas o ano sim. Na verdade, completam-se este ano 25 anos sobre o início e fim de um processo doloroso que tinha 'oncologia pediátrica' como marca de água: iniciou-se no dia 19 de Março de 2001, terminou no dia 4 de Novembro desse mesmo ano.
Esta tese específica é fruto, também, de um sortilégio. Na minha mente estava um tema bem diferente, todo ele relacionado com despojamento, com a ideia de que less is more. Em três ano escrevera pouco mais de 30 páginas, das quais se aproveitaria pouco. Era o tempo da minha presidência da Childhood Cancer International que se tornaria num voluntariado em full time. Até que um dia alguém me desafiou à mudança radical de tema: do despojamento passava para a oncologia pediátrica e para as narrativas dos Pais que passam por este processo - era preciso 'capitalizar' a minha experiência de Pai e presidente de uma organização nacional e internacional de Pais de crianças com cancro. E fechar um ciclo que se iniciara há 25 anos.
Não cabe na dimensão de um post o gosto que deu a escrita das 200 páginas: entrevistei Pais, revisitei temas que me eram obsessivos há muito tempo, li sobre morte, luto, sofrimento, esperança, sentido da vida, alegria, histórias, fé e milagres. Desafiei-me a cruzar literatura com filosofia com narratologia com testemunhos, aprendi o que eram grupos focais, revi mentalmente centenas de pessoas com histórias difíceis, cheias de sentido ou de revolta.
Tenho a nítida sensação de que me atirei para fora de pé. A memória falha-me, não tenho experiência nem vocabulário académico, domino apenas uma parte muito diminuta da tese, tenho medo de não perceber todas as perguntas, ou dar respostas demasiado básicas. Alguém me desejava boa sorte para o momento, acrescentando 'have fun!' O meu 'fun' virá quando o júri se der por satisfeito e me mandar sair da sala para deliberar. Até lá sou apenas um homem enervado, ansioso, com uma secreta esperança de receber um telefonema: 'olhe, foi tudo adiado...'.
Adeus, até ao meu regresso...
JdB
26 outubro 2026
25 outubro 2026
XXX Domingo do Tempo Comum
EVANGELHO – Mateus 22,34-40
Naquele tempo,
os fariseus, ouvindo dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus,
reuniram-se em grupo,
e um doutor da Lei perguntou a Jesus, para O experimentar:
«Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?».
Jesus respondeu:
«‘Amarás o Senhor, teu Deus,
com todo o teu coração, com toda a tua alma
e com todo o teu espírito’.
Este é o maior e o primeiro mandamento.
O segundo, porém, é semelhante a este:
‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’.
Nestes dois mandamentos se resumem
toda a Lei e os Profetas».
24 outubro 2026
Pensamentos Impensados
Fruto estragado: As doenças do fígado podem ser fruto de hepatite. A obesidade é fruto do apetite.
Coceiras: fez tudo para ser homem estátua mas nunca conseguiu; tinha bicho-carpinteiro.
Modas: já na antiga Roma havia guerras entre os costureiros; daí as guerras túnicas.
Culinária: para se fazer arroz de cabidela será necessário saber o tipo de sangue da galinha?
Contorcionismo: devido a problemas de coluna já se me torna difícil chegar aos pés; Ou seja, não estão do pé para a mão.
23 outubro 2026
Poemas dos dias que correm
Teoria das cores
Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.
os passos em volta
assírio & alvim
2001
22 outubro 2026
21 outubro 2026
Vai um gin do Peter’s ?
MÚSICA EM MAFRA, QUANDO O REI FAZ ANOS - 22.OUT.-16h00
O Palácio-convento de Mafra – edificado a mando de D.João V, em 1717 – celebra, amanhã, em cerimónia pública, a conclusão do projeto dedicado ao património musical português, intitulado «A BÚSSOLA BARROCA». Inclui também uma surpresa, para os sortudos que conseguirem participar no evento…
A escolha do dia 22 de Outubro coincide com o aniversário do nascimento do rei de cognome Magnânimo, fazendo jus aos grandes monumentos construídos por sua iniciativa: Aqueduto das Águas Livres, a lindíssima Biblioteca Joanina de Coimbra, a Capela de S.João Baptista na Igreja de S.Roque, a renovação do Palácio das Necessidades, o restauro e enriquecimento de inúmeros conventos e palácios de Norte a Sul do país. Essa azáfama obreira trouxe para Portugal um escol de artistas, arquitectos, engenheiros e construtores, que tornaram depois possível a (relativamente) rápida reconstrução de Lisboa, após a razia da cidade no terramoto de 1755. Inclusive, coube-lhes a proeza arquiectónica anti-sísmica, com a invenção de uma estrutura de madeira para embutir nas paredes dos edifícios e lhes conferir flexibilidade, que ficou conhecida por ‘gaiola pombalina’.
Voltando aos festejos em Mafra, no Museu Nacional da Música, instalado no Real Palácio, o programa começa às 16h00 e desdobra-se em duas grandes apresentações:
i) do CD e LP com a gravação de A BÚSSOLA BARROCA, que reúne música barroca e contemporânea. O projeto nasceu de uma parceria italo-portuguesa – Museu da Música, Fundação Gaudium Magnum e Fondazione Pietà de' Turchini – e culminou na gravação (2025) de um repertório multissecular, executado num cravo Antunes, de 1758 e interpretado pela cravista francesa Béatrice Martin. Tem a originalidade de explorar o património musical antigo e de colocar em diálogo a época barroca do período joanino (Carlos Seixas, Domenico Scarlatti) com o vanguardismo hodierno de António Pinho Vargas;
ii) da tela do italiano Giorgio Domenico Duprà (1689–1770) com um retrato de D.João V, executado em 1727, durante os anos da estadia do pintor em Lisboa, entre 1719 e 1730. A tela foi adquirida pela Colecção Gaudium Magnum, de Maria e João Cortez de Lobão, em Maio de 2025. Logo no momento da aquisição – na edição de 2025 da LAAF- Lisbon Art & Antiques Fair – o meio artístico nacional, incluindo os antiquários e os coleccionidaores festejaram o facto de a peça ter integrado uma colecção portuguesa e aplaudiram a «oportunidade única de unir um grande rei e um grande artista» em solo português. A obra foi cedida, por empréstimo, ao museu sediado em Mafra:
Giorgio Domenico Duprà pintou mais retratos de D.João V, alguns dos quais também permanecem em Portugal: no MNAA, adquirido em 2017, através de crowfunding, a comemorar a exaltação da armada e da Batalha do Cabo Matapão (1717); na Biblioteca Joanina, em Coimbra; no tecto do Paço Ducal de Vila Viçosa, na Sala dos Tudescos.
Seguem mais detalhes sobre a cerimónia em Mafra, na tarde de Quinta-feira, que será o ponto de partida para revelar uma nova (e muito especial) surpresa na exposição de longa duração no Museu de Música:
«Quando o Rei faz anos
A Bússola Barroca regressa a Mafra
No dia 22 de Outubro, a Fundação Gaudium Magnum – Maria e João Cortez de Lobão, o Museu Nacional da Música e a Fondazione Pietà de’ Turchini reúnem-se em Mafra para assinalar a conclusão de A Bússola Barroca, um projecto desenvolvido ao longo dos últimos dois anos em torno do património musical português.
A data coincide com o aniversário do nascimento de D. João V, cujo reinado marcou um importante período de desenvolvimento artístico e musical em Portugal. O Palácio Nacional de Mafra, onde se encontra actualmente instalado o Museu Nacional da Música, permanece uma das expressões mais visíveis deste legado cultural.
É neste enquadramento histórico que se cruzam dois momentos importantes: o lançamento da gravação de A Bússola Barroca em CD e LP e a apresentação de um retrato de D. João V, da autoria de Giorgio Domenico Duprà, pertencente à Colecção Gaudium Magnum e cedido ao Museu em regime de empréstimo de longa duração.
Editado pela Turchini Records, o álbum reúne sete sonatas de Carlos Seixas, interpretadas pela cravista francesa Béatrice Martin, e Il Ritorno, do compositor português contemporâneo António Pinho Vargas. A gravação foi realizada no histórico cravo construído em 1758 por Joaquim José Antunes, classificado como Tesouro Nacional e pertencente ao acervo do Museu.
A apresentação terá lugar às 16h00, no auditório do Museu Nacional da Música, e incluirá uma conversa informal entre Edward Ayres de Abreu, Director do Museu, e Maria Cortez de Lobão, co-Presidente da Fundação Gaudium Magnum, em torno do contexto histórico e musical do projecto e do empréstimo. A entrada é livre.
Em conjunto, a gravação e o empréstimo reflectem o compromisso da Fundação com a preservação e divulgação do património cultural português, promovendo simultaneamente a colaboração entre instituições em Portugal e no estrangeiro.»
Para mais informações: A Bússola Barroca regressa a Mafra · Fundação Gaudium Magnum
É espantoso haver mecenas da música nacional, relativamente pouco conhecida, mesmo nos círculos melómanos. Mais invulgar ainda, é o mecenato estender-se à música contemporânea clássica. Quinta-feira será, por isso, dia de festa para a arte musical portuguesa!
20 outubro 2026
Da privacidade e do povo Sakalava *
Há uma linha quase imperceptível que une as redes sociais ao povo Sakalava, de Madagáscar: essa linha chama-se privacidade - e ambos (tribo e redes) estão do mesmo lado da barricada, o lado que diz não à privacidade, ainda que por motivos diferentes.
19 outubro 2026
18 outubro 2026
XXIX Domingo do Tempo Comum
EVANGELHO – Mateus 22,15-21
Naquele tempo,
os fariseus reuniram-se para deliberar
sobre a maneira de surpreender Jesus no que dissesse.
Enviaram-Lhe alguns dos seus discípulos,
juntamente com os herodianos, e disseram-Lhe:
«Mestre, sabemos que és sincero
e que ensinas, segundo a verdade, o caminho de Deus,
sem Te deixares influenciar por ninguém,
pois não fazes aceção de pessoas.
Diz-nos o teu parecer:
É lícito ou não pagar tributo a César?».
Jesus, conhecendo a sua malícia, respondeu:
«Porque Me tentais, hipócritas?
Mostrai-me a moeda do tributo».
Eles apresentaram-Lhe um denário,
e Jesus perguntou:
«De quem é esta imagem e esta inscrição?».
Eles responderam: «De César».
Disse-lhes Jesus:
«Então, daí a César o que é de César
e a Deus o que é de Deus».
17 outubro 2026
Pensamentos Impensados
Ralharam-forte e feio; ficou perturbado. Foi a emoção da censura.
Estar à coca é o mesmo que estar à espera do "dealer"?
SdB (I)
16 outubro 2026
Poemas dos dias que correm
Povo
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia...
Mas a tua vida, não!
Bebendo em malga que esconda
Água pura, fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida, não!
Procissões de praia e monte,
Areais, píncaros, passos
Atrás dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros da fonte?
Guardo o jeito desses braços...
Mas a tua vida, não!
Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama...
Tive a mesma condição.
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las...
Mas a tua vida, não!
Subi às frias montanhas,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão.
Rasguei certo corpo ao meio...
Vi certa curva em teu seio...
Mas a tua vida, não!
Só tu! Só tu és verdade!
Quando o remorso me invade
E me leva à confissão...
Povo! Povo! eu te pertenço.
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida, não!
Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado,
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!
miserere (1948)
poesias escolhidas
imprensa nacional-casa da moeda
1983
15 outubro 2026
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