Nasceste hoje, mas há 32 anos.
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Estes últimos dias fui pensando no que escrever no dia de hoje. Veio-me sempre ao alcance dos olhos a expressão serendipismo (do inglês serendipity). Conheci a expressão há um ror de anos (parece-me até que me lembro de quem ma apresentou) e ela foi ganhando em mim uma actualidade permanente. Ou seja, não é uma expressão datada, localizada num contexto e num momento. E ganhou foros de notoriedade quando, para efeitos da minha tese de doutoramento, entrevistei vários Pais em luto, maioritariamente mães.
Viktor Frankl (prisioneiro em vários campos de concentração), um autor sobre o qual pensei muito e escrevi muito, partilha a sua experiência em Um homem em busca de sentido:
[s]enti como transcendia aquele mundo de desespero sem sentido e, vindo não sei bem de onde, escutei um vitorioso ‘Sim’ em resposta à minha pergunta sobre a existência de um sentido último. Nesse momento, numa quinta distante, uma luz acendeu-se e permaneceu no horizonte como se tivesse sido pintada nele, no meio do cinzento miserável de um alvorecer na Baviera. ‘Et lux in tenebris lucet’ - e a luz brilhou nas trevas [...] [e]stive durante horas a tentar escavar o chão gelado. O guarda passou, insultando-me, e uma vez mais comunguei com a minha amada. Sentia a sua presença com cada vez maior intensidade, sentia que estava comigo; tinha a sensação de poder tocá-la, de poder esticar a minha mão para pegar na dela. Esse sentimento era muito forte: ela estava ali. Então, nesse preciso momento, um pássaro voou em silêncio e veio pousar mesmo à minha frente, num monte de terra que tinha escavado da vala, e ficou a olhar fixamente para mim.
Fora já das discussões / entrevistas para efeitos de tese, três mães partilharam comigo os seus episódio de serendipismo.
A filha de uma delas, e que morrera, tivera sempre uma paixão por França, embora nunca lá tivesse vivido. A mãe, divorciada do seu marido após a morte da filha de ambos, refez a vida com um francês. Impossibilitada de comparecer, a conservadora que os iria casar delegou a tarefa numa colega que tinha o nome da filha. Na ilha onde tinham decidido passar a lua de mel cruzaram-se com um cartaz turístico: bem-vindos a... Desconheciam por completo que a capital da ilha tinha o mesmo nome da filha que
O filho de uma outra mãe, fã de um cantor português, identificava uma determinada música como sendo dele e da mãe. Um dia, por alturas do aniversário da morte da criança, a mãe foi a Paris com o marido e o outro filho. Sentada nos degraus de uma igreja, terá pedido um sinal de que o filho estaria “por ali”. Desceu as escadas, palmilhou uma rua e cruzou-se com o tal cantor.
Por último, uma outra mãe contava que gostava muito de pássaros. Numa das missas por alma da filha, num momento de silêncio após a homilia, ouviu-se na igreja o piar de um pássaro. Talvez fosse o mesmo pássaro que olhou fixamente para Viktor Frankl.
A investigação de Christian Busch (um professor norte-americano que se debruçou sobre estes temas) sugere que “o serendipismo apresenta três características principais. Começa com um gatilho de serendipismo – o momento em que a pessoa se depara com algo invulgar ou inesperado. Em seguida, é necessário ligar os pontos – isto é, observar o gatilho e ligá-lo com algo aparentemente não relacionado, percebendo assim o valor potencial dentro do evento fortuito (por vezes chamado momento ‘Eureka!’). Finalmente, são necessárias perspicácia e tenacidade para prosseguir e criar um resultado positivo inesperado.”
Há quem diga que a capacidade para perceber estas características é uma faculdade; há quem lhe chame um dom. Acima de tudo é um momento de enorme conforto interior, porque é a evidência de que os nossos filhos andam por aí.
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JdB, em nome de todos os que te lembram.