Adeus, até ao meu regresso
As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
18 maio 2026
17 maio 2026
Solenidade da Ascensão
EVANGELHO - Mt 28,16-20
Conclusão do santo Evangelho segundo São Mateus.
Naquele tempo,
os onze discípulos partiram para a Galileia,
em direcção ao monte que Jesus lhes indicara.
Quando O viram, adoraram n'O;
mas alguns ainda duvidaram.
Jesus aproximou Se e disse lhes:
«Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra.
Ide e ensinai todas as nações,
baptizando as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo,
ensinando as a cumprir tudo o que vos mandei.
Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos».
16 maio 2026
Pensamentos Impensados
Devagar se vai ao longe; a divagar não se vai longe.
Um juiz pode condenar alguém a fazer voluntariado?
Vi, não me lembro onde, um restaurante que publicitava vinhos, petiscos e seus derivados. Derivado de petisco deve ser a indigestão; de vinho só se for a bebedeira.
Há tipos que são bons garfos. Jack o Estripador era uma boa faca.
Os árbitros não vêem razão para penalty, os dirigentes sim. Os árbitros serão do Arco do Cego e os dirigentes de Olhão?
SdB (I)
15 maio 2026
Textos dos dias que correm
| Roma, Maio de 2011 |
A solidão necessária
«Uma só coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir para dentro de si e não encontrar ninguém durante horas: a isto é preciso chegar.
Estar só como está só a criança. Se nos aproximamos de uma criança absorta num jogo ou na exploração de um objeto, tem-se repentinamente da sua parte uma reação brusca: ele gosta de estar só consigo próprio, com as suas fantasias, os seus arabescos gestuais e mentais.
Depois, quando cresce, perde esta capacidade de estar consigo próprio e começa, sim, a vida em companhia, mas também a lógica do bando e do rumor de fundo, uma espécie de distração permanente do silêncio. Desta maneira perde-se a possibilidade de se encontrar a si próprio, de escutar-se, de penetrar no secreto da consciência.»
É isto que o grande poeta austríaco Rainer Maria Rilke (1875-1926) evoca numa das suas “Cartas a um jovem poeta”. Estar só contém em si o germe da reflexão, da maturação, da fineza espiritual, da própria contemplação de fé.
Infelizmente é um exercício que desapareceu do horizonte educativo e das práticas quotidianas, inclusive dos adultos. É assim que sobe o grau da superficialidade, da irritabilidade, da banalidade e da indiferença.
O silêncio para «ir para dentro de si» é uma espécie de dieta da alma que nos purifica das misérias, nos eleva das coisas, nos liberta do tagarelar, nos despoja das realidades inúteis.
Mas atenção: ainda que sejam parecidos exteriormente, a verdadeira solidão não é isolamento, porque este é uma prisão da alma e um terreno onde pode florescer a erva daninha da infelicidade ou acontecer a morte do amor.
P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Publicado em 15.02.2018
14 maio 2026
13 maio 2026
Poemas dos dias que correm
I. maneiras oitocentistas
que deu à costa perto da póvoa do varzim:
com o que o bicho sofreu ninguém se importa,
tinha morrido há muito e estava toda torta.
em todo o caso bem dava um folhetim.
é fácil de supô-la todo o verão
a dar às barbatanas, hercúlea, galhofeira,
o seu ledo repuxo tomava sempre a dianteira.
podre gerava agora só focos de infecção.
vinham sabe-se lá de que ignotas águas fundas,
sem jonas na barriga, mas provocando imundas,
repentinas tonturas nos banhistas.
sequência da baleia
poesia 1963/1995
quetzal editores
2007
12 maio 2026
Da surpreendente inteligência do "somos o que comemos"
Há um espécie de sabedoria, que não imagino se antiga, que diz: somos o que comemos; ou seja, diz-me o que comes, dir-te-ei quem és. Sempre entendi que a frase era o elogio da alimentação regrada, feita de alimentos saudáveis cozinhados de forma saudável; e sempre entendi que a frase me era dita de uma forma crítica, numa alusão velada à minha dieta (aparentemente, ou de acordo com alguns critérios) pouco saudável.
O volte-face na minha auto-crítica aconteceu quando conversava com alguém sobre uma fase mais confusa da minha vida, cheia de actividades e compromissos e prazos em assuntos muito díspares: a recta final do doutoramento, uma viagem ao estrangeiro em serviço de voluntariado, a organização de um almoço com mais de 100 pessoas, uma apresentação no Algarve, webinars para preparar, etc. Quando essa pessoa me disse pois percebo, não estás habituado... a minha resposta foi imediata: não estou e não quero estar! Não quero stress, não quero excesso de solicitações, não quero adormecer a pensar no que tenho de fazer e acordar a meio da noite a pensar no que tenho de fazer. Quero ter tempo para almoçar com amigos, quero ler, escrever, andar a pé, viajar, ir a museus ou ao teatro. Quero ter tempo para tudo!
Tinha eu acabado de defender o meu actual modelo de vida quando percebi que a frase somos o que comemos assentava que nem uma luva às minhas convicções. Na verdade, a minha teoria sobre a alimentação (uma teoria pouco original e pouco científica) baseia-se numa ideia simples: comer de tudo - e pouco. Num repente dei por mim a lembrar-me de uma frase que disse a uma colega internacional vegetariana, por quem tinha pouca amizade: tenho sempre a sensação de que os vegetarianos / vegans são pessoas potencialmente infelizes, sempre a dizer que não aos prazeres da vida: um bife do lombo? Não, não, sou vegan... Uma cataplana de marisco? Não, não, sou vegan... Um cozido à portuguesa? Não, não sou vegan...
Ao contrário do que eu pensava, a frase somos o que comemos é, afinal, um elogio ao meu modo de vida, que eu pretendo diversificado. Basta para isso percebermos que, dentro de limites, um cachaço de porco assado no forno, uma salada rica cheia de vitaminas ou uns carapaus assados com molho à espanhola, são o equivalente gastronómico - ou um complemento - de um teatro, de uma visita a um museu ou de uma viagem ao Chile. São vidas diversificadas nas suas várias vertentes.
Desconfiem das pessoas que têm uma alimentação pouco variada, e desconfiem das pessoas que têm uma vida pouco variada, embora provavelmente uma coisa vá com a outra.
Somos o que comemos é, portanto, uma frase muito inteligente; basta que percebamos que entre umas migas gatas e um concerto de Beethoven pode não haver mais do que um fio de cabelo a separá-los.
JdB
11 maio 2026
10 maio 2026
VI Domingo da Páscoa
EVANGELHO - João 14,15-21
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
«Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos.
E Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Defensor,
para estar sempre convosco:
o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber,
porque não O vê nem O conhece,
mas que vós conheceis,
porque habita convosco e está em vós.
Não vos deixarei órfãos: voltarei para junto de vós.
Daqui a pouco o mundo já não Me verá,
mas vós ver Me eis, porque Eu vivo e vós vivereis.
Nesse dia reconhecereis que Eu estou no Pai
e que vós estais em Mim e Eu em vós.
Se alguém aceita os meus mandamentos e os cumpre,
esse realmente Me ama.
E quem Me ama será amado por meu Pai
e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele».
09 maio 2026
Pensamentos Impensados
Culinária. Se puser uma posta de salmão nas brasas fico com salmão grelhado; se puser sardinhas fico com sardinhas assadas. A cozinha portuguesa é muito traiçoeira.
Tive um primo que viveu em Londres no tempo dos célebres nevoeiros (smog) e dizia: não me faz diferença, alugo um cego.
Parece que a Câmara Municipal de Lisboa vai para o Intendente. Quem boa câmara fizer, nela se há-de deitar.
Quer ver cenas picantes? Experimente pôr piripiri nos olhos.
Nem tudo o que vem à rede é peixe; às vezes é o tenista.
SdB (I)
08 maio 2026
Poemas dos dias que correm
As regras do jogo
e não era difícil ires ganhando
as batalhas de engenho, habilidade,
reflexos, determinação ou força
que a minha vaidade te ia impondo.
Acompanhavas bem o jogo, parecia
quase um conto de príncipes e fadas.
Mas estragaste tudo. Preferiste
a primeira e sedutora bruxa
que te mostrou um atalho para o tesouro.
trevo
tradução de inês dias
averno
2021
07 maio 2026
06 maio 2026
Vai um gin do Peter’s ?
CINEMA E MÚSICA
Quem queira mergulhar em bons decores italianos, aproveite o último filme de Torrentino – «LA GRAZIA» – com alguns bons diálogos, óptimos desempenhos, mas q.b. descosido na trama, numa amálgama de apontamentos engraçados recolhidos ao longo do tempo, difíceis de conjugar coerentemente no mesmo argumento. Ainda por cima, está marcado por uma agenda semi woke cansativa e algo manipulativa, repetindo as críticas típicas de quem nasceu e cresceu em sociedades marcadas por valores cristãos, mas tornados incompreensíveis (sobretudo, intraduzíveis) para quem não tem fé. É especialmente confrangedora e irritante a cena com a visita de um Presidente português ao Quirinal, de andar cambaleante, olhar vago, típicos de uma idade excessivamente avançada, imprópria para cargos públicos, menos ainda de responsabilidade! O ar acabado do estrangeiro dá azo a um tombo inusitado numa visita de Estado. Só um soldado da formatura o socorre, face à inépcia do assessor com o guarda-chuva, que não consegue chegar a tempo de nada! Inaceitável, mas para ser lido como mais uma das metáforas bizarras e desgarradas de Sorrentino, integrada numa sequência de imagens poéticas e primorosamente fotografadas. Chuva, rajadas de vento, gente a desequilibrar-se, tudo sai da câmara do realizador italiano com poesia e um toque de humor embaraçoso.
Os ambientes resultam nos grandes protagonistas de «LA GRAZIA», cujo título evoca os indultos concedidos pelos mais altos dignitários de um país, em fim de mandato ou em ocasiões especiais.
Rodado na salas à meia luz do Palácio do Quirinal, onde vivem e trabalham os Presidentes de Itália, o filme abre-nos o escritório-biblioteca, os terraços soberbos de onde se avista Roma em 360º, os corredores de mármores deslumbrantes (como só os italianos), os pátios de colunatas de pedra, os portões antigos e os bastidores da vida de um presidente em fim de carreira. Nas antepenúltimas imagens, percorremos a Via Condotti, ficando à vista da Piazza d’España e Trinita dei Monti, no regresso a casa, após sair do Quirinal. É interessante o passeio a pé até casa, aproximando-se da condição do cidadão comum.
Em Portugal, algumas curta-metragens têm merecidos prémios, como o filme de Marta Reis Andrade «CÃO SOZINHO», considerada a Melhor Curta nos Prémios Quirino de Animação Ibero-Americana, entre outras distinções internacionais. Conquistou também o Grande Prémio CINANIMA 2025. A solidão dá tema a esta coprodução luso-francesa, baseando-se na experiência da realizadora e da sua avó, apesar de estarem rodeadas de pessoas:
05 maio 2026
Textos dos dias que correm
(...)
Na vida da generalidade das pessoas, até uma determinada altura olha-se para o mundo – as pontes, a música, a pintura, os contratos de trabalho ou de arrendamento - com os olhos de uma relativa ignorância. As coisas agradam-nos, soam-nos bem, parecem-nos correctas. Há um primeiro olhar, digamos, não técnico. Vinga a nossa sensibilidade, a nossa perspicácia e também, nalguns casos, os genes que nos fazem dar mais atenção a alguns pormenores. No seguimento normal da vida das pessoas aparecem os cursos, as formações, a entrada no nosso cérebro de informação científica transmitida por quem se supõe saber mais. As doses de conhecimento são dadas gradualmente, de acordo com critérios pedagógicos, para que tudo fique retido e possa ser aplicado posteriormente.
A partir de uma dada altura já não olhamos para as mesmas coisas com os mesmos olhos: o engenheiro atravessa a ponte sabendo os cálculos que foram feitos para suportar as cargas previsíveis. A ponte deixou de ser uma bonita obra de arquitectura para passar a ser um conjunto de cálculos, uma sucessão enorme de equações matemáticas onde entram a resistências dos materiais, a predominância dos ventos e das correntes, a circulação estatística das viaturas multiplicada por um coeficiente de segurança.
A partir de uma dada altura, para assemelharmos a frase ao raciocínio, o músico já não ouve apenas uma peça musical. Para ele, e sobretudo para ele, que estudou essas matérias, há notas dominantes, influências identificáveis no tempo, melodias que o naipe de metais ressalta, os instrumentos de corda abafam, os coros sublinham. Deixou de ser apenas uma peça audível, para ser o produto da técnica da composição e da criatividade do autor.
Há, portanto, uma dimensão científica, profissional, académica, que só os iniciados encontram naquilo que observam – seja uma ponte ou uma sinfonia.
Como é que um padre olha para uma mulher? Existe seguramente, na mente de muitos, uma injustiça ao nível do entendimento versus acesso. A partir do momento em que se forma na escola do direito, o outrora universitário, agora licenciado, olha para o contrato, entende-o, domina-o, converte-o em benefício do seu cliente, não esquecendo a ética profissional. Com o entendimento (também) vem o acesso, a possibilidade de uso, sendo que a expressão tem aqui a sua dimensão mais nobre. É fácil entender que esta aproximação de ideias se aplica ao músico ou ao engenheiro, este na construção da ponte, aquele na composição da sinfonia.
Onde está, então, a injustiça? Enquanto não profissional, digamos assim, o sacerdote pode fruir a mulher, tendo dela o entendimento e a compreensão que a maturidade lhe confere. Ao aceder ao nível superior, isto é, ao estudar a matéria que lhe permite o entendimento da alma humana e, assim, da mulher, ainda que com as especificidades inerentes, é-lhe retirado, gradualmente, o acesso ao objecto estudado. O engenheiro é-o na sua plenitude legal e afaga o ferro com que se construirá a ponte. Estabelece-se entre ambos uma relação próxima, íntima, sem mais segredos do que aqueles que advêm de algum desconhecimento que sempre existe.
O sacerdote, ao contrário, faz votos, estabelece imediatamente uma distância entre si e o corpo daqueles que são a sua preocupação primária. O músico passa os dedos por uma partitura, corre o arco sobre as cordas do violoncelo, retira-lhe o som sublime da tristeza. O padre, por seu lado, conforta a alma, que alguns afiançam não existir, outros sustentam não ter opinião, havendo um número significativo que crê nelas. No entanto, a alma não se palpa, por não ser corpórea.
(...)
António Costa Carlos, in Subsídios para a Materialidade das Profissões (2012, edição do autor)
04 maio 2026
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