04 junho 2026

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

 EVANGELHO - Jo 6, 51-58

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
disse Jesus à multidão:
«Eu sou o pão vivo descido do Céu.
Quem comer deste pão viverá eternamente.
E o pão que Eu hei de dar é a minha Carne
pela vida do mundo».
os judeus discutiam entre si:
«Como pode Ele dar-nos a sua Carne a comer?»
Jesus disse-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
Se não comerdes a Carne do Filho do homem
e não beberdes o seu Sangue,
não tereis a vida em vós.
Quem come a mina Carne e bebe o meu Sangue
tem a vida eterna;
e Eu o ressuscitarei no último dia.
A minha Carne é verdadeira comida
e o meu Sangue é verdadeira bebida.
Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue
permanece em Mim, e Eu nele.
Assim como o Pai, que vive, Me enviou, e Eu vivo pelo Pai,
também aquele que me come viverá por Mim.
Este é o pão que desceu do Céu;
não é como aquele que os vossos pais comeram, e morreram;
quem comer deste pão viverá eternamente».

03 junho 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 O PAPA E «2001 ODISSEIA NO ESPAÇO»  

O Papa vindo do Novo Mundo ecoa na recém publicada Encíclica sobre IA o alerta de Stanley Kubrick em «2001 - Odisseia no Espaço». No famosíssimo filme de 1968, o computador HAL preparava-se para controlar os humanos e liderar a missão espacial, entre outras peripécias, de uma humanidade fascinada com a exploração do espaço. Numa explicação deliciosa, Kubrick contou como se inspirara no título de Homero – Odisseia – para a sua obra magna do cinema: «Ocorreu-nos que, para os gregos, as vastas extensões do mar devem ter tido o mesmo tipo de mistério e de afastamento que o espaço tem para a nossa geração.»

O predomínio da máquina, que soava a ficção longínqua, há 50 anos, aproximou-se demasiado depressa da nossa realidade, hoje! Daí o alerta papal, diferenciando muito bem entre a imensidão de benefícios da IA e da tecnologia (ou não fosse um craque a matemática, além de nado & criado no país campeão dos maiores avanços tecnológicos do séc. XX) e o risco de redução do ser humano. ’Apenas’ essa possível e profunda subalternização preocupa Leão XIV. Recorro-me de óptimas súmulas já circuladas sobre o conteúdo da pequena (mas densa) encíclica e sobre a originalíssima cerimónia de lançamento, fora de todos os cânones:   

cafe.com.tradicao: A primeira encíclica de um papa define o tom do pontificado. Leão XIII escreveu sobre o trabalho na Revolução Industrial em 1891. Exatamente 135 anos depois, Leão XIV escreveu sobre a inteligência artificial. O nome não foi escolhido por acaso

No portal do Vaticano, está disponível uma sinopse com as inúmeras ramificações temáticas associadas à IA:  


«UM PAPA, DOIS CARDEAIS, DUAS TEÓLOGAS E UM ENGENHEIRO

Uma encíclica não decreta o que se há-de crer. Tem obrigação mais grave: interpretar o tempo à luz da Revelação e orientar o homem para o que o salva.

Esta manhã, às 11h30 em Roma, 10h30 em Lisboa, Leão XIV entra no Salão Sinodal do Vaticano e apresenta apresenta pessoalmente a sua primeira encíclica. Quem investigar o protocolo vaticano vai ver que isto nunca aconteceu. Nenhum Papa, antes de Leão XIV, se sentou à mesa de apresentação da sua própria encíclica. Não delega no cardeal Fernández, não a entrega ao secretário de Estado Parolin. Senta-se a uma mesa com o cardeal Czerny, com a teóloga Anna Rowlands de Durham, com a professora Léocadie Lushombo da Jesuit School of Theology de Santa Clara, e com Christopher Olah, co-fundador da Anthropic, a empresa que construiu o Claude. Um Papa, dois cardeais, duas teólogas, um engenheiro de inteligência artificial. A composição da mesa é a primeira frase do documento: um Papa que não veio observar a máquina, mas ajudar o seu construtor a indagar o que ela faz ao homem.

O documento chama-se Magnifica humanitas: Sobre a Protecção da Dignidade Humana na Era da Inteligência Artificial. Foi assinado a 15 de Maio, exactamente 135 anos depois de Leão XIII ter assinado a Rerum Novarum. A coincidência não é coincidência: o que a revolução industrial foi para o século XIX, a inteligência artificial é para o nosso tempo. Em 1891, a doutrina social da Igreja Igreja escandalizou socialistas e liberais, porque não pertencia nem a uns nem a outros. Promete fazê-lo outra vez.

Magnifica humanitas não é um dogma de fé, nem pretende fechar a discussão com a autoridade do anátema. É outra coisa, e talvez mais difícil. É o exercício do magistério a pensar em voz alta sobre o seu tempo, a oferecer à Igreja e ao mundo uma leitura do presente à luz de uma verdade que não muda. Uma encíclica não decreta o que se há-de crer. Tem obrigação mais grave: interpretar o tempo à luz da Revelação e à luz da Revelação e orientar o homem para o que o salva. O dever do católico não está na obediência cega, que ninguém pede, mas no esforço de a ler e de a deixar interrogar-nos. Porque só assim se cumpre o que Cristo prometeu: Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará (Jo 8,32).

Para perceber o que Leão XIV está a fazer é preciso voltar à Rerum Novarum, porque é dela que esta encíclica reclama herança. Em 1891, Leão XIII entrou na questão operária num momento em que a Europa se polarizava entre o socialismo revolucionário e o liberalismo manchesteriano, e fê-lo recusando os dois. Defendeu a propriedade privada contra os colectivistas e o direito à associação operária contra os patrões. Afirmou o salário justo contra a redução do trabalho a mercadoria e o dever do Estado de proteger os mais fracos contra os que viam no laissez-faire uma lei natural. Não foi um documento de equilíbrio prudente. Foi uma intervenção que reorganizou o terreno do debate europeu sobre o trabalho, e fê-lo com a autoridade de quem se recusou a escolher entre duas ortodoxias que partilhavam, ambas, uma antropologia mutilada. A Rerum Novarum foi possível porque Leão XIII percebeu que a questão social não era primariamente económica: era antropológica. A pergunta não era como repartir o produto do trabalho. Já no Génesis Deus nos recorda que colocou o homem no jardim do Éden para o cultivar e o guardar, antes da Queda e antes do suor do rosto (Gn 2,15). O trabalho não é a pena que se paga por viver. É a forma como Deus convida o homem a participar na obra que o precede. Quem esquece que o homem foi criado à imagem de Deus não comete um erro disciplinar. Comete um erro sobre tudo o resto. Leão XIV vem corrigir esse erro.

A tradição que Leão XIV herda é longa e tem o hábito de estar certa antes de o mundo estar pronto para ouvir. A Quadragesimo Anno de Pio XI formulou em 1931 a subsidiariedade que a União Europeia viria a inscrever em Maastricht sem confessar a dívida. A Humanae Vitae de Paulo VI foi recebida com escândalo em 1968 e relida, décadas depois, com uma atenção diferente por quem se deu ao trabalho. A Centesimus Annus de João Paulo II, escrita em 1991 enquanto o mundo ainda processava o colapso soviético, continua a ser o texto mais rigoroso sobre o que o capitalismo pode e o que não pode. A Caritas in Veritate de Bento XVI abordou a globalização com uma profundidade filosófica que a maioria dos leitores não quis ter. O padrão é o mesmo. A Igreja, quando intervém a sério, intervém sobre a antropologia do seu tempo, e costuma ter razão antes de ser conveniente reconhecê-lo.

Leão XIV inscreveu-se nessa tradição antes de escrever uma palavra. O nome de um Papa é o seu primeiro acto de governo, escolhido antes da primeira palavra pública, e lê-se como programa. Leão XIV explicou que, nos nossos dias, a Igreja oferece a todos o tesouro da sua doutrina social em resposta a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos no campo da inteligência artificial, que colocam novos desafios à defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho. A Time incluiu-o entre as personalidades mais influentes em inteligência artificial, não como observador piedoso de um fenómeno alheio, mas como interlocutor de quem o constrói. A presença de Christopher Olah na apresentação desta manhã confirma-o. As outras mesas optimizam meios para fins já fixados: eficiência, produtividade, segurança dos sistemas. O Vaticano parte de um fim que não negocia. Por isso tem uma pergunta que as outras mesas não fazem. A Anthropic, que hoje lidera o sector com o Claude, nasceu de uma ruptura: os seus fundadores saíram da OpenAI por acreditarem que uma máquina que não serve o homem não é uma ferramenta imperfeita. É uma ameaça.

A ruptura que fundou a Anthropic aponta para algo que vai além da segurança dos sistemas. Toda a tecnologia que altera o modo como o homem trabalha acaba por alterar o exercício das suas faculdades. Quando delegamos à máquina o pensamento, a escrita e o raciocínio não deixamos de ser quem somos. Mas deixamos de exercer o potencial que temos. E esse potencial não é neutro. O homem foi criado para conhecer, para contemplar, para participar na obra da criação e para se aproximar de Deus através do exercício pleno das suas capacidades. Uma humanidade que progressivamente abdica das suas capacidades mais próprias não evolui. Empobrece. A pergunta que Leão XIV retoma da Rerum Novarum e devolve actualizada é esta: que tipo de pessoa a inteligência artificial pressupõe, e que tipo de pessoa ela produz. Sem essa pergunta, todas as respostas são técnicas. E por isso provisórias.

A resposta cristã a esta pergunta não é a única possível, mas é a mais antiga e a mais testada, e tem um instrumento que nenhuma outra tradição possui: dois mil anos de magistério que é simultaneamente tesouro acumulado e chave viva para ler o presente. A razão serve-se desse tesouro, não para substituir a fé, mas para perceber o que a fé ilumina. O dualismo cartesiano,  ao separar o pensamento do corpo, criou uma antropologia onde o homem se reduz à sua capacidade de raciocinar. A fé cristã sempre recusou essa redução. Não por decreto filosófico. Porque o próprio Deus escolheu encarnar-se: e o Verbo se fez carne, e habitou entre nós (João 1,14). A diferença não é menor: é a diferença entre uma antropologia que torna o homem indistinguível da máquina que o imita e uma antropologia que sabe que cada homem é irrepetível, porque foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27). Nenhuma máquina replica o irrepetível. É este o desafio a que Magnifica humanitas se propõe responder, e é o desafio que toda a humanidade, crente ou não, está a ser convocada a enfrentar.

Dir-se-á que esperar de qualquer país ou instituição que pare para ler um documento pontifício é nostalgia mal disfarçada. A Igreja já não comanda o debate público em lado nenhum, e seria ingenuidade pretender o contrário. Talvez. Mas a nostalgia, neste caso, é a única forma honesta de medir o que se perdeu. Não se trata de exigir consenso teológico onde já não há partilha religiosa. Trata-se de reconhecer que o instrumento mais antigo do Ocidente para pensar a pessoa humana acaba de entregar uma análise séria sobre a transformação mais profunda em curso, e que o modo como esta análise será recebida dirá mais sobre o estado da sociedade e do debate público do que sobre o estado da Igreja.

O critério que Magnifica humanitas oferece não é sobre a técnica. É sobre o homem. A técnica está em constante mutação. A tentação de sermos como deuses, desde o Génesis, é a mesma que nos chega agora pelos sistemas que construímos para nos imitarem. O instrumento é novo. A natureza humana é eterna. Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito (Rm 12,2).»

João A.B. da Silva – 25.MAIO.2026 

O título escolhido por Leão XIV «MAGNIFICA HUMANITAS» resulta no melhor arranque para abordar os desafios gigantescos colocados à humanidade pela IA e pela robotização da vida quotidiana. Reevoca o aviso de Kubrick contra um computador HAL à solta, capaz de acantonar (no filme, matar) os humanos num limbo onde ficam ‘sem chão’, desorientados, com maior dificuldade em descortinar o seu papel no mundo. Um panorama desestruturante! Alguém duvida da superioridade produtiva da máquina, em concreto a processar dados? Alguém ignora a eficiência dos algoritmos criados por humanos talentosíssimos, mas rapidamente a dar mil a zero aos seus criadores, quais Frankensteins com poderes, até certo ponto, sobrehumanos?  A catadupa de perigos no horizonte é tão real e ameaçadora, que é impossível subestimá-la. Por isso impressiona mais que Leão XIV se detenha nas boas razões para acreditarmos na humanidade, incutindo-nos esperança no futuro, se hoje tomarmos as decisões certas… Desta vez, a nossa identidade está em causa… reactualizando e estendendo com ferocidade ao nosso tempo o clamor de Hamlet: to be or not to be!   

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

02 junho 2026

Poemas dos dias que correm

 Poema da Auto-estrada 

Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta.
Vai na brasa, de lambreta.

Leva calções de pirata,
Vermelho de alizarina,
modelando a coxa fina
de impaciente nervura.
Como guache lustroso,
amarelo de indantreno,
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.

Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.

Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pela cintura.
Vai ditosa, e bem segura.

Como um rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que se enterra.
Tudo foge à sua volta,
o céu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta
lembra um demónio com asas.

Na confusão dos sentidos
já nem percebe, Leonor,
se o que lhe chega aos ouvidos
são ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor.

Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.

António Gedeão, in 'Máquina de Fogo'

***

Impressão Digital

Os meus olhos são uns olhos,
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem lutos e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

António Gedeão, in 'Movimento Perpétuo'

01 junho 2026

31 maio 2026

Solenidade da Santíssima Trindade

 EVANGELHO - Jo 3,16-18

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
disse Jesus a Nicodemos:
«Deus amou tanto o mundo
que entregou o seu Filho Unigénito,
para que todo o homem que acredita n'Ele
não pereça, mas tenha a vida eterna.
Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo
para condenar o mundo,
mas para que o mundo seja salvo por Ele.
Quem acredita n'Ele não é condenado,
mas quem não acredita n'Ele já está condenado,
porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus».

30 maio 2026

Pensamentos impensados

Os sem-abrigo dormem em cima de cartões; não sei se não seria preferível estarem em maus lençóis.

Na Assembleia da República, quando o porta-voz do partido fala, os deputados estão sempre a abanar a cabeça; penso que não é sinal de assentimento, mas sim para se manterem acordados.

Há mulheres que têm chapado na cara aquilo que são: mulheres de vida "facies".

Os médicos de família devem ter conhecimentos de genealogia?

Os porcos alimentados a bolota ficam com as patas negras.

SdB (I) 

29 maio 2026

De mais um desaparecimento

Penso que já aqui contei esta história. Por alturas da pandemia, e no espaço de alguns poucos anos, morreram várias pessoas da minha família paterna, a quase totalidade antes do seu tempo estatístico. Comentando este facto com um amigo, e lamentando a falta que as pessoas me faziam, por motivos diferentes, disse-me ele com um grande sentido de humor: a sua família é gado que morre muito.

Chegamos a esta idade e os nossos amigos - ou as pessoas que nos fazem falta, como aqui escrevi na semana passada - é gado que morre muito. Esta semana foi a G., irmã do JdC. Conhecemos-nos em 1971, já lá vão 55 anos, portanto. Sabia que estava doente e telefonei-lhe; a G. teve a amizade de me atender o telefone quando, parece-me, já não o fazia a toda a gente. Falámos durante 1 minuto, talvez, mas foi o bastante. Embora não convivêssemos muito, éramos grande amigos e fazíamos muita festa um ao outro, sempre que nos víamos. 

O desaparecimento da G., antes do seu tempo estatístico, suscita-me saudades muito diversas: dela, da família dela, dos Verões em Borba, dos candeeiros a petróleo, da compota de amora e dos cigarros fumados às escondidas, da Travessa de S. Vicente, do JdC. Quem me conhece também conhece este discurso, esta minha nostalgia. Revisitei todos estes lugares (geográficos e afectivos) sempre que escrevi sobre o desaparecimento de pessoas deste agregado familiar que foi, durante muitos anos, a minha família de afecto, se bem que de um sangue também, mas mais longínquo. Lembrar-me da G., do JdC ou dos Pais de ambos é uma espécie de regresso a casa - um tema que me é caro, quase obsessivo.

Com o desaparecimento da G. não desaparece o passado que foi, de certa forma, de ambos. Mas é menos uma pessoa com quem posso falar de um tempo que não volta; é menos uma pessoa com quem posso rir-me, lembrar histórias, cheiros, ambientes, pessoas, privilégios que tinham os mais velhos de uma família muito numerosa mas que, mesmo assim, teve sempre as portas abertas para quem quisesse aparecer. Chegar a esta idade é perceber que o nosso mundo afectivo é composto por gado que morre muito. Um dia serei eu, certo de que encontrarei a Borba dos meus Setembros (e outras memórias afectivas determinantes de outras geografias) no Céu, se Deus me quiser levar para lá. Até lá é só lembrar as histórias que já foram, porque o passado é certo, o futuro não se sabe se existe, até prova em contrário. 

Fica a última homenagem à G., que ficará no meu coração e no meu ouvido: afinal, foi ela que me apresentou a Maria Dolores Pradera, nesta exacta música, há 50 anos, talvez. Ouvi-a cantá-la, com um timbre que não esquecerei. Se ela me ler está a rir-se da minha memória para estas pequenas coisas.    

JdB

27 maio 2026

Textos dos dias que correm

 

Florença, Maio de 2011
O Solitário

O solitário leva uma sociedade inteira dentro de si: o solitário é multidão. E daqui deriva a sua sociedade. Ninguém tem uma personalidade tão acusada como aquele que junta em si mais generalidade, aquele que leva no seu interior mais dos outros. O génio, foi dito e convém repeti-lo frequentemente, é uma multidão. É a multidão individualizada, e é um povo feito pessoa. Aquele que tem mais de próprio é, no fundo, aquele que tem mais de todos, é aquele em quem melhor se une e concentra o que é dos outros.

(...) O que de melhor ocorre aos homens é o que lhes ocorre quando estão sozinhos, aquilo que não se atrevem a confessar, não já ao próximo mas nem sequer, muitas vezes, a si mesmos, aquilo de que fogem, aquilo que encerram em si quando estão em puro pensamento e antes de que possa florescer em palavras. E o solitário costuma atrever-se a expressá-lo, a deixar que isso floresça, e assim acaba por dizer o que todos pensam quando estão sozinhos, sem que ninguém se atreva a publicá-lo. O solitário pensa tudo em voz alta, e surpreende os outros dizendo-lhes o que eles pensam em voz baixa, enquanto querem enganar-se uns aos outros, pretendendo acreditar que pensam outra coisa, e sem conseguir que alguém acredite.

Miguel de Unamuno, in 'Solidão'

***

O Solitário

As observações e as vivências do solitário que só fala consigo próprio são simultaneamente mais indistintas e intensas do que as do homem social e os seus pensamentos são mais graves, mais fantasiosos e nunca sem uma coloração de melancolia. Imagens e impressões que outros poriam naturalmente de lado após um olhar, um sorriso, um comentário, ocupam-no mais do que é devido, tornam-se profundas no silêncio, ganham significado, transformam-se em acontecimento, aventura, emoção. A solidão cria o original, o belo ousado e estranho cria a poesia. Mas cria também o distorcido, o desproporcionado, o absurdo e o proibido.

Thomas Mann, in "Morte em Veneza"

26 maio 2026

Das expectativas goradas

 Ao longo das últimas duas semanas escrevi vários emails para pessoas / grupos de pessoas diferentes, sobre temas diferentes. Não eram emails operacionais; talvez fossem mais pessoais - emocionais num certo sentido - pois revelavam uma dimensão mais intangível da vida. Em nenhum havia tristeza, revolta, ansiedade ou outros sentimentos mais exacerbados. Talvez se pudesse dizer que eram sobretudo, partilhas. De todos, devo confessar, esperava uma resposta - talvez mesmo uma resposta num certo sentido, ou com um certo tom de voz. A minha expectativa assentava (também) num pressuposto: se eu recebesse um mail daqueles, teria respondido de uma certa forma - da forma como contava receber... Nada aconteceu como previsto: ou o tom de voz não era o esperado, ou nem sequer houve tom de voz. 

Não sei o que é viver sem expectativas, mesmo que a minha gestão das ditas seja errada. Viver sem esperar nada do próximo é votar o próximo à indiferença, mais do que exercer uma santidade de quem não se incomoda com o que recebe - mesmo que seja pouco ou nada. Uma expectativa é um desejo - e eu não concebo uma existência sem desejos, mesmo sabendo que daí advirão desilusões. Gerir expectativas é também um exercício de auto-análise. Se não tivermos expectativas com ninguém, é de esperar que os outros não tenham expectativas connosco. Se assim for, quando o nosso próximo cair no chão só nos resta afastarmo-nos para que os sapatos de camurça não fiquem conspurcados do sangue alheio.

Um mail - sobretudo se não for operacional - envia uma mensagem. Não receber resposta - ou receber uma resposta claramente insatisfatória confronta-nos com o seguinte: há pessoas que percebem o que dizemos, há pessoas que não conseguem perceber o que dizemos, e há pessoas que não fazem a mais leve ideia do que estamos a dizer, mesmo que falemos a mesma linguagem e tenhamos códigos linguísticos semelhantes. Por vezes é como fazer um pedido a alguém: o nosso interlocutor pode não querer satisfazer o nosso pedido, pode não saber satisfazer o nosso pedido ou pode não fazer a ideia do que estamos a pedir.

A não resposta - ou resposta insatisfatória - aos meus mails têm uma dupla valência: põem-me num lugar certo de humildade pedagógica; e ensina-me muito sobre a alma humana. Decifrar o motivo por trás destas expectativas goradas é um exercício interessante: o que leva as pessoas a não reagir ou a reagir de forma que me parece insatisfatória? E se a ausência de resposta adequada for da maioria?

Já estive em reuniões onde, no final de uma apresentação, não houve praticamente ninguém a agradecer, a dar os parabéns, a fazer uma pergunta que revele interesse. O que se passa na cabeça das pessoas?

JdB 


24 maio 2026

Solenidade do Pentecostes

 EVANGELHO - Jo 20,19-23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou Se no meio deles e disse lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou,
também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser lhes ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».

23 maio 2026

Pensamentos Impensados

O tecido urbano pode ser feito em tear manual? E em fibra sintética?

Walt Disney fazia desenhos animados e o Manoel de Oliveira filmes desanimados. Na Páscoa, os judeus têm o anho desanimado.

Há em Tomar o Museu do Fósforo que, penso, deve ter 2 administradores: um nomeado pelas cabeças e outro nomeado pelas lixas.

O ouriço do mar não precisa de "parceiro" para se reproduzir; é auto-suficiente e a esse fenómeno chama-se partenogénese. Também se poderia chamar unissexo.

Fazia "striptease" e tinha um "show" erótico que se chamava sonho de uma noite no varão.

SdB (I) 

21 maio 2026

Lembranças (versão 1980) dos dias que correm

 

Das gavetas onde pomos os que partem

A informação já era esperada – o NL tinha morrido na madrugada de sábado, vítima de uma crise súbita de saúde uma ou duas semanas antes, e da qual não recuperou. 

Conhecia o NL há 15 anos talvez. Devido a um rearranjo familiar da minha parte, e que não vem ao caso, encontrávamo-nos uma dúzia de vezes por ano. Sentámo-nos muitas vezes ao lado um do outro para almoçar ou jantar. Mantínhamos uma conversa ligeira e agradável, fruto de um interesse que era mais do que simples cortesia: perguntava-me por um ou outro dos meus projectos, eu indagava das suas actividades golfistas; falávamos disto e daquilo, interagíamos com a família alargada à qual nos ligava um afecto grande, mas naturalmente diferente – ele tinha com aquele grupo uma relação de sangue.

O NL era uma pessoa que eu conhecera tardiamente na vida, com quem convivia pouco, para além de ser 13 anos mais velho do que eu. Seria exagerado dizer que éramos amigos, mas isso não diminui a pena que me provoca o seu desaparecimento. Não só a pena solidária de quem imagina o desgosto da mulher, dos filhos, dos netos e demais família, (pessoas por quem tenho uma grande simpatia, e mesmo amizade, e que me receberam sempre bem nos seus espaços) mas uma pena genuína, de quem se vê privado de uma confraternização – ainda que esparsa – com uma pessoa que deixa saudades.

Em bom rigor não é fácil colocar em gavetas bem identificadas as pessoas com quem nos vamos cruzando ao longo da vida: temos grandes amigos, temos bons amigos, temos amigos

(o JdC diferenciava-os de forma curiosa: fulano é meu amigo; beltrano é um amigo meu.)   

de algumas pessoas dizemos que as conhecemos e de outras que sabemos quem são. 

O NL cabia numa gaveta particular – e restrita: a daquelas pessoas de quem não somos parentes chegados nem amigos próximos, mas cujas características pessoais ou sociais as colocam num patamar muito próprio, muito exclusivo. Não perdi um amigo, um confidente, alguém com quem partilhava um passado comum. Perdi uma pessoa com quem gostava de estar e de conversar e por isso, num certo sentido menos óbvio, o seu desaparecimento deixa o meu património afectivo ou social mais pobre. 

Do NL só posso dizer isto: era uma pessoa com quem eu simpatizava muito e cuja morte me entristeceu bastante. Não sei se é pouco, mas reflecte genuinamente a minha grande pena. 

JdB


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