18 julho 2026

Pensamentos Impensados

Chamava-se Tristão e toda a vida quis ser latoeiro. Abriu uma oficina que se chamava Tristão & Solda.

Chamar à colação será o mesmo que dizer venham jantar?

D. Afonso Henriques fundou Portugal. A política afundou Portugal.

Conforto. Não percebo porque não há casas no Polo Norte; poderiam ser tão quentinhas com todas a fachadas voltadas a Sul! Já no Polo Sul, percebe-se; um frio de rachar com todas as fachadas voltadas a Norte.

Doçaria. Deram-lhe a provar um doce que estava óptimo. Foi o que pode chamar-se o bónus da prova.

SdB (I)


17 julho 2026

Poemas dos dias que correm *

 

Fotografia de JMAC, o homem de Azeitão

lisboa, depois de ti

escuto uma música concreta, algures na mesma cidade onde respiras. 
as fotos são folhas mortas, caídas do tempo, das gavetas onde te arrumei, 
entreabertas, de tão atulhadas de substâncias tóxicas.  
respiro e partilho, provavelmente, o mesmo ar que de que te alimentas, 
entre cafés e fatias milimétricas de queijos exóticos e de pão acabado de cozer 
naqueles fornos a lenha que desencantavas perante os meus olhos, 
como um mágico e os seus misteriosos milagres espanta as crianças. 
era agosto, cheirava a verão e a alfazema e a tua pele tisnada
era o mais próximo  que alguma vez estive do sol, do coração do mundo. 
em setembro, quando me disseste que ias ver outras galáxias, 
senti a exacta dor de mil agulhas a perfurarem-me, de dentro para fora, 
essa dor única que só a morte e o coração quebrado sabem.
foi um verão de amor ou um amor de verão, pergunto-me tantas vezes, 
enquanto caminho sob as acácias, os choupos, os diospireiros,
pequenos resquícios de humanidade que resistem ao betão, 
tal como aquelas frágeis ervas que irrompem do asfalto.
tantos anos depois, ainda acredito em milagres. por exemplo, 
que um dia vou acordar e estarás, como dantes, deitada ao meu lado
e no silêncio da madrugada tecerei com saliva um vestido só teu 
e as lágrimas que hoje movem os meus dedos serão, então, 
uma renascida máquina de alegria, um colar feito do melhor de mim, 
uma homenagem aos deuses que me te concederam,
nem que seja apenas a memória da memória de ti. 

escuto uma música concreta, algures na mesma cidade onde respiras.

gi.

* publicado originalmente a 7 de Maio de 2015

15 julho 2026

Vai um gin do Peter’s ?

 O QUARTO DE MILÉNIO DOS EUA

A comemoração da grande efeméride dos 250 anos da assinatura da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, para se emanciparem da vassalagem britânica, tem feito correr muita tinta. Com justiça, tem sobressaído o legado revolucionário sulcado pela ex-colónia britânica, desde o histórico 4 de Julho de 1776, até aos dias de hoje. Na vanguarda dos maiores avanços tecnológicos e económicos do planeta, o país resiste como a primeira superpotência mundial, apesar de a China lhe seguir no encalce…

São imperdíveis: o artigo de António Barreto (Público de 4.JUN.) sobre o maior contributo para a liberdade humana, dado pelos EUA; o texto de Pedro Norton no Público (7.JUN.), a sublinhar a requalificação da democracia, ao fundirem o ideal de representatividade com o liberalismo, sob uma governação balizada e escrutinada por ‘checks and balances’; trechos vários de Jaime Nogueira Pinto (Observador, a 9.JUL.), em contraciclo com o olhar sombrio de muitos ocidentais sobre o badalado ‘ocaso’ da superpotência; ou artigos de economistas estrangeiros, que elogiam o facto de o sucesso norte-americano não provir de «um compromisso dogmático com os mercados nem com o Estado. (É) uma vontade pragmática de utilizar ambos. (…) Desde o início que têm sido um Estado disposto a usar estrategicamente o seu poder face ao que considera ser o fracasso do "laissez faire", mantendo simultaneamente um setor privado competitivo». Já nem se fala do contributo dado pelo famoso conde francês, Alexis de Tocqueville, no segundo quartel de oitocentos, ao observar e registar as especialíssimas idiossincrasias da nova nação, que revolucionou o paradigma político, económico e social herdado da Europa, de onde descendia e em quem se inspirava a maioria da nova elite norte-americana, nascida sob o signo da meritocracia. 

Destino de imigração europeia por excelência, desde o séc. XVII, reza a tradição ter sido algo renhida a decisão de consagrar o inglês como língua oficial da nova nação. O alemão era uma alternativa renhida nalguns Estados (constavam apenas 13 na Declaração de Independência), denunciando quanto a matriz norte-americana era uma convergência de influências complementar, entre o pragmatismo britânico e a eficiente ordem germânica, entre outras. Tal ‘melting pot’ pôde florescer num contexto bem estruturado, que assegurou uma previsibilidade assente em regras universais e igualitárias, a que todos se submetiam e submetem (em geral), desde o líder máximo ao cidadão anónimo. 

A breve história dos EUA, segundo os padrões orientais e europeus, é marcada pela pujança económica e técnica, alimentada pela panóplia de oportunidades, que permitiu aos imigrantes recém-chegados ao outro lado do Atlântico singrarem e desenvolverem o país. Algo diferenciador aconteceu na América do Norte – entre Canadá e EUA – para justificar uma prosperidade recorde, nos antípodas das demais potências do Novo Mundo, igualmente dotadas de matérias-primas e de potencial de desenvolvimento. Porém, grassa na generalidade dessoutros países do continente – os latino-americanos – pobreza e subdesenvolvimento, com gritantes desigualdades sociais, onde coabita a miséria da maioria com pequenas bolsas de magnatas, que detêm a quase totalidade dos recursos nacionais.

Qual o segredo do estrondoso sucesso norte-americano e canadiano? Sem repetir os articulistas já citados (sobre os EUA), apenas acrescentaria uma nota à margem sobre a argúcia e a lucidez política herdadas (maioritariamente) do Reino Unido, ilustrada nos alertas da poderosa Rainha Vitória à sua família para a urgência em adaptarem-se aos novos tempos. Percebera bem os clamores populares a que a Revolução Francesa dera voz, de modo descontrolado e sangrento. Apesar de gozar de popularidade no Império Britânico, foi a soberana mais vocal a recomendar a necessidade de liberalizar e tornar mais representativa a gestão política do país, defendendo o constitucionalismo e a redução dos privilégios régios. Considerava impensável as casas reais continuarem a assentar nos privilégios tradicionais. Sem se deixar obnubilar pelo êxito pessoal, aconselhava os monarcas europeus a aproximarem-se das populações, a prescindir de benesses crescentemente intoleráveis para o cidadão comum, a pugnarem por governos eficientes e capazes de responder aos anseios do povo. São antológicos as suas cartas à meia irmã, a Princesa Feodora of Hohenlohe-Langenburg, e ao tio Leopoldo, rei dos Belgas, discernindo primorosamente os sinais dos tempos e pugnando por soluções actualizadas. Aos Czares da Rússia (seus netos) bombardeou com conselhos para evitarem os erros dos soberanos franceses (guilhotinados), pedindo-lhes maior proximidade com a população russa, até para ouvirem e captarem as reivindicações na ordem do dia. Especificamente, à Czarina Alexandra sua neta implorou menos ingerência no governo da nação e mais atenção ao povo, considerando fundamental a jovem soberana, nascida na Alemanha, conquistar a simpatia e o respeito dos russos. Também encorajou Nicolas II a cultivar uma relação próxima com os seus ministros e a acompanhar o rumo dos acontecimentos. A resposta auto satisfeita, no fundo, semi autista dos jovens czares explica parte da rápida degradação política e económica do país e o enfraquecimento da governação, incapaz de acudir às necessidades mais prementes das pessoas. Aproveitando as brechas do poder, os revolucionários bolcheviques tomaram o Kremlin de assalto, dispostos a reduzir tudo a escombros e a impor a sua liderança por meio de um colossal banho de sangue, que vitimou milhões de russos, incluindo os Romanov. 

Numa versão mais Monty Phyton, segue um diagnóstico delicioso sobre os ideais (menos citados) que o novo Estado da América do Norte quis abraçar com entusiasmo, confiando num futuro promissor… Num momento crucial da batalha pela independência, o mítico general George Washington partilha com os seus soldados o sonho maior que o animava naquela luta fundacional:   


São refrescantes os conselhos de sobriedade e de sentido solidário de quem está numa posição de força, assim como é adorável e desarmante o humor sobre os pontos fracos e as descaradas incongruências dos casos e das gentes de sucesso. Parece paradoxal, mas são meros (embora raros) gestos de lucidez e de bom senso, impregnados de uma certa bonomia generosa, maravilhosa!  

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

14 julho 2026

Textos dos dias que correm

 As cidades ocultas. 2. 

Não é feliz, a vida em Raissa. Pelas ruas a gente caminha torcendo as mãos, ralha com as crianças que choram, apoia-se aos parapeitos sobre o rio de cabeça nas mãos, de manhã acorda de um mau sonho e começa logo outro. Entre as bigornas onde a toda a hora se esmaga os dedos com o martelo ou se pica com a agulha, ou nas colunas de números todos tortos dos registos dos negociantes e dos banqueiros, ou diante das filas de copos sobre o zinco dos balcões das tabernas, ainda bem que as cabeças baixas nos poupam a olhares turvos. Dentro das casas é pior, e nem é preciso entrar lá para sabê-lo: de Verão as janelas ressoam de brigas e de pratos quebrados.

E no entanto, em Raissa, a cada momento há uma criança que de uma janela ri a um cão que saltou sobre um alpendre para morder um bocado de massa que caiu a um pedreiro que do alto do andaime exclamou: — Alegria minha, deixa-me pintar-te! — a uma jovem taberneira que atravessa a pérgula com um prato de carne nas mãos, contente por servi-lo ao fabricante de chapéus de chuva que festeja um bom negócio, uma sombrinha de renda branca comprada por uma grande dama para se pavonear nas corridas, enamorada de um oficial que lhe sorriu ao saltar a última barreira, feliz ele mas mais feliz ainda o seu cavalo que voava sobre os obstáculos vendo voar no céu um francolim, feliz ave liberta da gaiola por um pintor feliz por tê-la pintado pena a pena com manchinhas vermelhas e amarelas na miniatura daquela página do livro em que diz o filósofo: «Mesmo em Raissa, cidade triste, corre um fio invisível que liga um ser vivo a outro por um instante e a seguir se desfaz, e depois torna a estender-se entre pontos em movimento desenhando novas rápidas figuras de modo que a cada segundo a cidade infeliz contém uma cidade feliz que nem sequer sabe que existe».  

italo calvino
as cidades invisíveis
trad. josé colaço barreiros
teorema
1999

12 julho 2026

XV Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Mt 13,1-23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele dia,
Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira-mar.
Reuniu-se à sua volta tão grande multidão
que teve de subir para um barco e sentar-Se,
enquanto a multidão ficava na margem.
Disse muitas coisas em parábolas, nestes termos:
"Saiu o semeador a semear.
Quando semeava,
caíram algumas sementes ao longo do caminho:
vieram as aves e comeram-nas.
Outras caíram em sítios pedregosos,
onde não havia muita terra,
e logo nasceram porque a terra era pouco profunda;
mas depois de nascer o sol, queimaram-se e secaram,
por não terem raiz.
Outras caíram entre espinhos
e os espinhos cresceram e afogaram-nas.
Outras caíram em boa terra e deram fruto:
umas, cem; outras, sessenta; outras, trinta por um.
Quem tem ouvidos, oiça".

Os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe:
"Porque lhes falas em parábolas?"
Jesus respondeu-lhes:
"Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos Céus,
mas a eles não.
Pois àquele que tem dar-se-á e terá em abundância;
mas àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado.
É por isso que lhes falo em parábolas,
porque vêem sem ver e ouvem sem ouvir nem entender.
Neles se cumpre a profecia de Isaías que diz:
'Ouvindo ouvireis, mas sem compreender;
olhando olhareis, mas não vereis.
Porque o coração deste povo tornou-se duro:
endureceram os seus ouvidos e fecharam os seus olhos,
para não acontecer
que, vendo com os olhos e ouvindo com os ouvidos
e compreendendo com o coração,
se convertam e Eu os cure'.
Quanto a vós, felizes os vossos olhos porque vêem
e os vossos ouvidos porque ouvem!
Em verdade vos digo: muitos profetas e justos
desejaram ver o que vós vedes e não viram
e ouvir o que vós ouvis e não ouviram.
Vós, portanto, escutai o que significa a parábola do semeador:
Quando um homem ouve a palavra do reino
e não a compreende,
vem o Maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração.
Este é o que recebeu a semente ao longo do caminho.
Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos
é o que ouve a palavra e a acolhe de momento,
mas não tem raiz em si mesmo, porque é inconstante,
e, ao chegar a tribulação ou a perseguição por causa da palavra,
sucumbe logo.
Aquele que recebeu a semente entre espinhos
é o que ouve a palavra,
mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza
sufocam a palavra, que assim não dá fruto.
E aquele que recebeu a palavra em boa terra
é o que ouve a palavra e a compreende.
Esse dá fruto,
produz ora cem, ora sessenta, ora trinta por um".

11 julho 2026

Pensamentos impensados

Velocidades Há dias fui ultrapassado por um daqueles motoristas que fazem condução agressiva e não respeitam as regras; apeteceu-me dizer-lhe: chegas a casa mais cedo e arriscas-te a uma surpresa desagradável. x

Comodidade. A burka deve ser a vestimenta mais prática e cómoda que há. A mulher enfia aquilo pela cabeça, não se penteia, não põe rouge, rimmel ou blush, não lava as orelhas, não lava os dentes, não põe baton, e o mais que se queira pensar. Enfia aquilo pela cabeça, e já está.

Datas. Para Jesus Cristo, o ano de 33 foi crucial. x

Tracção animal Dizia-se que a bicicleta era o único meio de transporte em que a besta que puxava ia sentada. Então e o barco a remos?

Vi, na TV, um polícia a arrastar um tipo, isto é, levava um sujeito a reboque. Será que esse tipo estaria parado em frente duma garagem que dizia sujeito a reboque?

SdB (I) x


10 julho 2026

Poemas dos dias que correm

 FADO DO HOMEM VELHO .

Abro a boca fecho a boca
Não digo nada a ninguém
Não me interessa quem me toca
Nem abro a porta a quem vem.
.
Fico num canto a roer
As unhas do desespero
Não vale a pena bater
Não abro porque não quero.
.
Gostava, isso sim, gostava
de ver crescer neste nada
Uma semente de lava
Em olhos de água parada.
.
De modo que fico ao espelho
Vendo o que a vida me fez
E ou bem que fico velho
Ou bem que nasço outra vez.
.
António Lobo Antunes
(1942 - 2026)
In "Livro de Poemas"
(Colectânea de Poemas e Letras de Canções)

08 julho 2026

Textos dos dias que correm

As férias são uma coisa do passado. Não me lembro de ter férias pelo menos desde que se inventou a agricultura, desde Caim, aproximadamente. Noutros tempos eu ia para uma praia fedorenta de algas secas, também com alguns narcisos nas dunas, e gostava assim-assim.
 
Em vez de férias, faço viagens – que não é a mesma coisa.
 
As férias eram lentas, duravam meses, eram uma sucessão de longos dias decorridos em diversos estados de alegria. Um objecto de alegria era diferente de outro, e por isso a alegria era diferente. Não era a mesma coisa ir ao cinema, entrar numa gincana, comer um gelado, ler um livro de aventuras ou de amor. Nada se confundia, a natureza de cada paixão (encontrar a circunstância perdida desde as férias passadas podia significar paixão) era explicada como a natureza da pessoa, o facto que nos afectava era observado, e posto em causa, e feito motivo de confidência e diálogo. Os amigos eram diferentemente reconhecidos, multiplicadas as espécies de simpatia ou de desagrado que cabiam num longo dia de férias. Os mestres deixavam de ter o mesmo poder sobre as nossas vidas; tornavam-se inofensivos, vestidos «à paisana», como cobras a que arrancassem o dente do veneno. De repente, notava-se se eram pobres ou se não sabiam falar com mulheres novas, e se coravam porque eram tímidos, e remediados. Durante o ano inteiro tinham-nos humilhado, catalogado, numerado, impondo-nos notas boas e más, medalhas e castigos, tudo um pouco ao acaso, conforme o regime da impaciência, o estilo da disciplina. Tinham-se rido de nós – hã? Tinham pensado mal dos nossos pensamentos, dos nossos corações, da nossa virtude – hã? não basta ter a experiência, é preciso avaliar a parte de ignorância que a experiência deixa à deriva.
 
Os professores, como estavam fora das nossas vidas, agora que em vez da bata vestíamos o fato de banho! Eram estranhos, sabiam mesmo que o eram, e tratavam-nos com uma espécie de adulação perniciosas, um caloroso apelo à nossa identidade de estranhos, que nós éramos também. As espias, desempregadas, caídas na mísera condição sem expediente de mães de família, já não as temíamos. «Bom dia, Dona Albina, estupor mentiroso!» – dizíamos, entre dentes. As férias davam para tudo. Amor de mil rostos, ódio de mil artes e maneiras. Um dia era como novecentos anos e ainda chegava para ler Wenceslau de Morais, que era já um sintoma de estar bem com a nossa consciência e fazermos uma coisa completamente por capricho, uma coisa para o «quadro de honra» e que nos dava de repente a impressão de que as férias duravam demais. Mas, ao outro dia, recomeçava-se, e os projectos, como um ramo de flores, desfolhavam-se um a um, já chegada a hora da viagem – que não era nada parecida com as férias. E nunca há-de ser.  
 
agustina bessa-luís
dicionário imperfeito
guimarães editores

2008 

06 julho 2026

Carta a um anjo

 Nasceste hoje, mas há 32 anos.

***

Estes últimos dias fui pensando no que escrever no dia de hoje. Veio-me sempre ao alcance dos olhos a expressão serendipismo (do inglês serendipity). Conheci a expressão há um ror de anos (parece-me até que me lembro de quem ma apresentou) e ela foi ganhando em mim uma actualidade permanente. Ou seja, não é uma expressão datada, localizada num contexto e num momento. E ganhou foros de notoriedade quando, para efeitos da minha tese de doutoramento, entrevistei vários Pais em luto, maioritariamente mães. 

Viktor Frankl (prisioneiro em vários campos de concentração), um autor sobre o qual pensei muito e escrevi muito, partilha a sua experiência em Um homem em busca de sentido: 

[s]enti como transcendia aquele mundo de desespero sem sentido e, vindo não sei bem de onde, escutei um vitorioso ‘Sim’ em resposta à minha pergunta sobre a existência de um sentido último. Nesse momento, numa quinta distante, uma luz acendeu-se e permaneceu no horizonte como se tivesse sido pintada nele, no meio do cinzento miserável de um alvorecer na Baviera. ‘Et lux in tenebris lucet’ - e a luz brilhou nas trevas [...] [e]stive durante horas a tentar escavar o chão gelado. O guarda passou, insultando-me, e uma vez mais comunguei com a minha amada. Sentia a sua presença com cada vez maior intensidade, sentia que estava comigo; tinha a sensação de poder tocá-la, de poder esticar a minha mão para pegar na dela. Esse sentimento era muito forte: ela estava ali. Então, nesse preciso momento, um pássaro voou em silêncio e veio pousar mesmo à minha frente, num monte de terra que tinha escavado da vala, e ficou a olhar fixamente para mim.

Fora já das discussões / entrevistas para efeitos de tese, três mães partilharam comigo os seus episódio de serendipismo. 

A filha de uma delas, e que morrera, tivera sempre uma paixão por França, embora nunca lá tivesse vivido. A mãe, divorciada do seu marido após a morte da filha de ambos, refez a vida com um francês. Impossibilitada de comparecer,  a conservadora que os iria casar delegou a tarefa numa colega que tinha o nome da filha. Na ilha onde tinham decidido passar a lua de mel cruzaram-se com um cartaz turístico: bem-vindos a... Desconheciam por completo que a capital da ilha tinha o mesmo nome da filha que 

O filho de uma outra mãe, fã de um cantor português, identificava uma determinada música como sendo dele e da mãe. Um dia, por alturas do aniversário da morte da criança, a mãe foi a Paris com o marido e o outro filho. Sentada nos degraus de uma igreja, terá pedido um sinal de que o filho estaria “por ali”. Desceu as escadas, palmilhou uma rua e cruzou-se com o tal cantor.

Por último, uma outra mãe contava que gostava muito de pássaros. Numa das missas por alma da filha, num momento de silêncio após a homilia, ouviu-se na igreja o piar de um pássaro. Talvez fosse o mesmo pássaro que olhou fixamente para Viktor Frankl. 

A investigação de Christian Busch (um professor norte-americano que se debruçou sobre estes temas) sugere que “o serendipismo apresenta três características principais. Começa com um gatilho de serendipismo – o momento em que a pessoa se depara com algo invulgar ou inesperado. Em seguida, é necessário ligar os pontos – isto é, observar o gatilho e ligá-lo com algo aparentemente não relacionado, percebendo assim o valor potencial dentro do evento fortuito (por vezes chamado momento ‘Eureka!’). Finalmente, são necessárias perspicácia e tenacidade para prosseguir e criar um resultado positivo inesperado.” 

Há quem diga que a capacidade para perceber estas características é uma faculdade; há quem lhe chame um dom. Acima de tudo é um momento de enorme conforto interior, porque é a evidência de que os nossos filhos andam por aí.

*** 

Na sua bondade sem fim
Quis Deus olhar para mim
Dar-me um pouco do que é seu
Deu-me uma estrela pequena
A quem chamou Madalena
Que é uma das santas do Céu 

JdB, em nome de todos os que te lembram.

05 julho 2026

XIV Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Mt 11,25-30

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, Jesus exclamou:
"Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra,
porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes
e as revelaste aos pequeninos.
Tudo me foi dado por meu Pai.
Sim, Pai, Eu Te bendigo,
porque assim foi do teu agrado.
Ninguém conhece o Filho senão o Pai
e ninguém conhece o Pai senão o Filho
e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
Vinde a Mim,
todos os que andais cansados e oprimidos,
e Eu vos aliviarei.
Tomai sobre vós o meu jugo
e aprendei de Mim,
que sou manso e humilde de coração,
e encontrareis descanso para as vossas almas.
Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve".

04 julho 2026

Pensamentos impensados

Atendendo a que Portugal é um dos melhores fabricantes de calçado, são de acarinhar os turistas de pé descalço, pois são potenciais compradores de sapatos.

Visitas guiadas. Há cerca de 50 anos visitei o Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães; nesse tempo não havia guias nem cicerones, e as visitas eram guiadas por contínuos ou porteiros. A pessoa que guiou o grupo lá foi debitando umas patacodas até que a certa altura, e para acabar, encolheu os ombros e disse: coisas dos tempos dos Condes e dos Marqueses.

Derrapagem. Quando há derrapagens nas obras públicas, alguém se lembra de mandar soprar no balão os ministros envolvidos?

SdB (I)

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