terça-feira, 7 de abril de 2020

Duas Últimas

Vale a pena ver e ouvir o youtube abaixo, que me foi enviado por mão amiga. Ver, porque é sobre Itália, sobre a beleza de Itália. Ouvir porque a versão de Volare, interpretada por Malika Ayane (que não sei quem é) é muito interessante.

Aproveitem a beleza em tempos de pandemia.

JdB   

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Do perdão e da memória

Dos meus tempos de menino da catequese ficou o preceito que estabelecia a frequência da Comunhão: ao menos uma vez por ano, por ocasião da Páscoa da Ressurreição (3º Mandamento da Santa Madre Igreja). Dos meus tempos de sexagenário que googla ficou a informação sobre o que estabeleceu o IV Concílio de Latrão: [...] cada fiel, de um e de outro sexo, chegando à idade da razão, confesse lealmente, sozinho, todos os seus pecados ao seu próprio sacerdote, ao menos uma vez ao ano [...]. A semana maior, que agora começa, é um momento, portanto, de reconciliação. Um tempo de reconhecimento das faltas e de promessa de emenda. Porém, os tempos de pandemia transformam este tempo num tempo estranho, com a dificuldade quase inultrapassável de reconciliação (mais do que de confissão) e de comunhão.

Numa dimensão mais laica do tema, a ideia de reconhecimento das falhas e de perdão é um tema que se prende muito com a memória. Sei de pessoas para quem o perdão aos outros é uma decorrência do esquecimento da ofensa sentida; para outras, a memória não tem um botão de desligar: não é o próprio que decide o que fixar, mas a sua "cabeça" (o que quer que isso signifique) que, feliz ou infelizmente, nem sempre obedece a quem a detém, que tem vontade própria. 

Detentor que sou de uma memória toda voltada para a inutilidade, ainda assim é no segundo grupo que me integro. Fixo muitas coisas: pequenos pormenores que me enterneceram, sons e pessoas em momentos dramáticos da minha vida, frases que me agrediram, pequenos gestos ternurentos, talvez injustiças ou violências desmedidas, músicas e sensações boas. Fixo o que fixo, sem critério de momento no tempo, pois tenho memórias impactantes com mais de 50 anos. É a forma como enquadro a memória na minha prática com os outros que me ofenderam que dá a dimensão do perdão. Posso dizer que perdoo, mas se recupero uma frase com dez anos e a uso como argumento, lá se vai a virtude: não esqueci e não perdoei; entre as 4 aparentes combinações das expressões esquecer / não esquecer e perdoar / não perdoar, esta parece-me ser a mais inútil e negativa  

Não me parece que seja credível - nem sequer proveitoso - dizer que se esquece. Uma vez que não somos donos da nossa memória, significaria isso que há um processo, não controlado por nós, que apagaria o registo da memória. Algo químico que desfaria aquele episódio da nossa vida. Ora, se acontece isso com as ofensas de que somos vítimas, será que poderia acontecer com as ofensas de que somos autores? E, se sim, será que isso faria de nós, ofensores, uma espécie de pessoas inimputáveis? A sério que te disse isso tão desagradável? Olha que não tenho nem ideia de tê-lo feito.... A memória, como a vida,  é uma faca de dois gumes; tudo depende do lado pelo qual a agarramos. Se esquecemos sem critério, será que conseguimos aprender com critério?

Daniel Oliveira, jornalista da SIC, pergunta nas suas já famosas entrevistas: alguém te deve um pedido de desculpa? Estou certo que sim, e gostaria que pagassem essa dívida. Talvez para eu pagar as minhas também - ou apenas para poder seguir em frente. 

JdB 

domingo, 5 de abril de 2020

Domingo de Ramos

LEITURA II - Fil 2,6-11

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses

Cristo Jesus, que era de condição divina,
não Se valeu da sua igualdade com Deus,
mas aniquilou-Se a Si próprio.
Assumindo a condição de servo,
tornou-Se semelhante aos homens.
Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais,
obedecendo até à morte e morte de cruz.
Por isso Deus O exaltou
e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes,
para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem
no céu, na terra e nos abismos,
e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor,
para glória de Deus Pai.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Textos dos dias que correm

A Paixão nos dias do coronavírus

Escrevo com embaraço estas linhas. Parecia-me, com efeito, ouvir a voz, rouca pelos gritos em demasia, de Job, que rejeitava as palavras dos amigos teólogos que o tinham vindo consolar, definindo-os como «infusões de malva», incapazes de extinguir a sua dor lacerante. Ou, começando a escrever algumas linhas, ouvia ressoar ao ouvido a frase áspera de um outro sábio bíblico, Qohélet, que me advertia: «Todas as palavras estão gastas, e o homem não pode mais usá-las» (1,8).

Por fim, decidir rasgar o silêncio, como fizeram o papa e muitos outros pastores com palavras intensas, só para dizer que todos experimentamos na alma os mesmos estremecimentos dos muitos doentes com a boca colada a um ventilador. E sobretudo para estar ombro a ombro com a multidão de parentes, amigos, vizinhos paralisados pelo sofrimento dos seus amados, impossibilitados de dar uma só carícia nos seus rostos, ou inclusive de os acompanhar até ao fim com um rito de despedida.

Mas há uma outra razão que convida todos nós (por agora) sãos a não calar, e está precisamente ligada aos iminentes dias da Semana Santa, quando à nossa frente caminhar Cristo nas suas últimas horas terrenas. Imagino-o como no filme “Andrei Rublëv”, do grande realizador russo Andrei Tarkovski, enquanto avança tropeçando na neve, colorindo-a com o sangue das suas feridas, arrastando, exausto, a cruz, seguido pela multidão dos pobres agricultores e dos últimos daquelas terras.

O Deus cristão é diferente das divindades antigas como Júpiter, relegadas para o seu mundo olímpico dourado, apáticos em relação ao sofrimento humano. É, pelo contrário, um Deus que escolheu assumir o mesmo nosso bilhete de identidade, feito, sim, também de alegria, mas sobretudo de limite, de dor e de morte. Ainda que estejamos distantes das igrejas desertas, ouviremos da voz do sacerdote solitário a narrativa evangélica daquelas horas últimas de um Deus verdadeiramente irmão da humanidade. E veremos desfilar diante dos olhos, vividas nele, todas as desolações destes nossos dias.

Também Ele tem medo e horror da morte, cujo rosto severo de apresenta diante dele e de nós, ainda que o tivéssemos antes exorcizado e ignorado: «Pai, se é possível, passe de mim este cálice» envenenado. Também Ele experimenta o isolamento dos amigos, os discípulos que permanecem distantes, ou, como no caso de tantas pessoas sós doentes, o abandonam. Também Ele tem a carne ferida pelas torturas, e experimenta até a pior das solidões, o silêncio do Pai («Deus meu, Deus meu, porque me abandonaste?»).

Por fim, também Ele, por causa da crucificação, morre como muitos doentes de coronavírus, por asfixia, depois de ter emanado um respiro extremo. Tinha razão um teólogo mártir do nazismo, o alemão Dietrich Bonhoeffer, quando no seu diário na prisão escrevia: «Deus em Cristo não nos salva em virtude da sua omnipotência, mas pela força da sua impotência». Sim porque naqueles momentos não se dobra sobre um qualquer doente para o curar, como tinha feito durante a sua vida terrena, mas torna-se Ele próprio sofredor e mortal. Não nos liberta do mal, mas está connosco no /em> mal físico e interior.

No entanto, mesmo quando é um cadáver sacudido aqui e ali, como acontece hoje às vítimas do vírus, Ele é sempre o Filho de Deus. É por isto que – experimentando na sua carne a nossa humanidade mísera, frágil e mortal – depôs nela para sempre uma semente de eternidade e de esperança destinada a desabrochar. É este o sentido da Páscoa, «a outra face da vida em relação àquela que está voltada para nós», como dizia o poeta austríaco Rainer M. Rilke.

Muitas outras coisas ensinou este mal a quem crê e também a quem não crê. Desvelou-nos, com efeito, a grandeza da ciência, mas também os seus limites; reescreveu a escala dos valores que não tem no seu vértice o dinheiro ou o poder; o estar em casa juntos, pais e filhos, jovens e idosos, repropôs cansaços e alegrias das relações não só virtuais; simplificou o supérfluo e ensinou-nos a essencialidade; tornou-nos irmãos e irmãs dos muitos Job, dando-nos o direito até de protestar com Deus, de erguer as nossas perguntas e lamentos a Ele.

Mas sobretudo revelou um valor supremo, o amor. Muitos dos leitores conhecem o romance do escritor colombiano Gabriel García Márquez, “O amor nos tempos de cólera” (1982), um título que poderia ser transcrito para o coronavírus. Um título que é verdade sobretudo nos muitos médicos, enfermeiros, voluntários, agentes vários, prontos a ir para além da lei do «amar o próximo como a si mesmos», para seguir aquela extrema de Jesus: «Não há amor maior do que aquele que dá a vida pelos seus amigos».

Na Bíblia ressoa 365 vezes esta saudação divina: «Não ter medo!». É quase o «bom dia» que Deus repete a cada aurora. Repete-o também nestes dias de terror. E para quem perdeu a fé, proporei a confissão do mesmo escritor García Márquez: «Desafortunadamente, Deus não tem um espaço na minha vida. Nutro a esperança, se existe, de ter eu um espaço na sua».


Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Consleho Pontifício da Cultura
In Cortile dei Gentili
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 31.03.2020

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Textos dos dias que correm

O tempo

Há uma tribo em África, de que o nome e geografia não são relevantes, em cujo vocabulário não consta a palavra presente. A expressão que talvez mais se aproxime do conceito é instante. Têm passado e têm futuro, mas não têm presente, remetido para a dimensão de um ponto microscópico no tempo. 

A ideia não é disparatada, nem talvez original. Para essa tribo, o movimento da cabeça representa o olhar do homem para uma realidade que só aparentemente é tripartida: fixam, geográfica e fisicamente falando, o local onde nasce o sol e onde este se põe; é um movimento realizado com a cabeça erecta, perscrutando a linha do horizonte, num movimento que poderá ser circular: nascente é o passado, poente é o futuro. Nesta linha de raciocínio, o presente não tem representação ao nível do olhar. No preciso instante em que algo é presente já se tornou passado, porque o sol, no seu "movimento", não tem um único momento de imobilidade. O instante é uma palavra que quase não tem tradução em tempo ou em objecto; é algo invisível a olho nu. Ser agora e ser passado são coincidentes.

O conceito desta tribo africana poderia ser aplicado ao olhar ocidental que temos sobre o tempo, no sentido de passado, presente e futuro. O passado existe - é a realidade; o futuro não existe, é a expectativa; o presente, a existir, de pouco serve. Viver o tempo presente seria, para esta tribo africana, um olhar constante sobre uns pés quietos, imobilizados na terra batida. Seria, para eles, um imobilismo ocular que se traduziria num imobilismo físico e, nesse sentido, um risco para si próprio e para a tribo, presa fácil de predadores e inimigos.

Num raciocínio um pouco lateral, o passado é a única realidade que conhecemos. Em bom rigor não será uma realidade, mas uma leitura da realidade. Não estando a convivência das pessoas ao nível do mensurável e da exactidão, a forma como cada um de nós vê o passado é a forma como cada um de nós vê o passado. Um mesmo tempo será lido como uma alegria ou como uma tristeza por pessoas diferentes, ainda que protagonistas, ambas, do mesmo teatro. Como se resolve essa dualidade que, nalguns casos, pode ser inibidora de consensos? Olhando apenas para o futuro, que é a única massa que cada um de nós pode ainda moldar.  Fazer como os membros dessa tribo: olham para o passado para aprender, para o futuro para moldar. 

(...)

Ashley Coates Colbert, in The notion of time in Africa - a western look (tradução minha, livre)     

     

terça-feira, 31 de março de 2020

Duas Últimas *


A música escolhida faz-me regressar aos idos tempos do liceu, na outra banda, antes de Abril de 74. A talhe de foice, convém esclarecer que provenho de uma família (conservadora) em que essa arte não desempenhava um papel central: não tínhamos pick-up, ouvíamos programas musicais numa telefonia manhosa e desafinada, à mistura com relatos do Belenenses, na época o clube com mais adeptos naquela zona. E que, podem crer, ganhava então uns joguinhos!

Como era, e sou, o mais velho de vários irmãos, coube-me ir desbravando vários caminhos. Um deles o musical. Eram tempos fortes de contestação e atrevimento, sobretudo naquela margem esquerda do Tejo, que não eram acompanhados pela família, pouco ou nada propensa à revolucionarite em acelerado curso. Lembro-me bem das discussões políticas sobre questões de que mal ouvira falar em casa, das livrarias em que, por detrás de uma porta escondida, se vendiam livros proibidos, dos cantores de protesto, dos discursos inflamados de alguns colegas nos intervalos das aulas…..

Essas ideologias pseudo-vanguardistas nunca me encantaram e, basicamente, prevaleceram nessa matéria os princípios familiares em que fui educado. Acho que os tempos que se seguiram me deram razão nessa escolha. Vinda dessa área, privilegio sobretudo alguma música popular portuguesa, da melhor que se fez neste cantinho do mundo, e alguns dos seus magníficos intérpretes, a que me dedicarei qualquer dia.

Também fui tomando contacto com grupos estrangeiros. Os Procol Harum foram um deles, tendo-me sido oferecido por um dos meus colegas desse tempo, hoje em dia político de renome, o single “Conquistador”, o primeiro disco a entrar no meu quarto. Passados uns tempos, chegou um pequeno gira-discos, que muito nos alegrou.

Como gosto mais de “A Salty Dog”, fiz uma pequena batota.

Espero que gostem!
fq

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* publicado originalmente a 22 de Março de 2011


segunda-feira, 30 de março de 2020

Por acaso até sou...

Na semana passada falei com a minha gestora de conta sobre dinheiros, um tema que, num certo intervalo, varia entre o maçador e o críptico. Note-se que não sou uma espécie de anárquico cheio de desprezo pelo vil metal, nem sou daquelas pessoas muito finas para quem o dinheiro ou se tem ou se não tem - mas do qual não se fala. Gosto de dinheiro, porque é disso que vivo e é isso que me permite satisfazer alguns devaneios. O problema está na terminologia - aplicações, diversificação, mercados, dívida pública, investidor conservador, praças, etc. que me chega aos ouvidos com um esoterismo enfadonho e indecifrável. Volto ao tema da minha gestora de contas...

Dizia-me ela que "por acaso" [é uma expressão muito usada nestes tempos, como  se fosse um acidente do destino, não uma (quase) decisão] é uma pessoa muito optimista que acredita na solidariedade da espécie humana. Conhecendo-a como conheço não tenho uma dúvida disso. Mas acho curioso que todos os comentadores ou entrevistados na televisão (agora, quando aparecem via skype, têm sempre uma estante com livros por trás) acham o mesmo: todos eles são optimistas e positivos. No fundo, o que qualquer cristão que queira cumprir os mínimos deve ser. Ao contrário de toda esta gente mais sabedora do que eu, tenho uma confiança moderada na espécie humana, porque parte dela apedreja ambulâncias pejadas com velhos; a outra parte sim, é atenta ao seu próximo; e há ainda o ministro das Finanças holandês.

Ora, estas qualidades, como os prognósticos, devem ser vistas retrospectivamente. Sente-se no ar uma espécie de irmandade face ao infortúnio, como se a humanidade sentisse o impulso de por as carruagens em círculo para protecção colectiva do inimigo. Mas a pandemia chegará ao fim e eu, descrente (ou não tão crente, vá...) nas virtudes da espécie humana, temo rever-me neste texto de Juan Manuel de Prada que me enviaram há tempos:

La plaga del coronavirus, cuyas consecuencias apenas hemos empezado a paladear, nos ofrece una ocasión inmejorable para cambiar nuestra desquiciada forma de vida. Pero, como nos enseña el Apocalipsis, los hombres se distinguen siempre, después de sufrir una calamidad, por volver a las andadas; y esta conducta irracional, tristemente repetida en todos los crepúsculos de la Historia, se repetirá también ahora.

Gostava de não ser assim. Gostava de falar para a televisão via Skype e, com um renque de livros por trás a demonstrarem o meu apreço pela cultura, dizer que sim, que por acaso acredito muito na espécie humana. Mas conseguiremos, individual e colectivamente, uma mudança tão radical nos nossos comportamentos? Ou rapidamente esqueceremos, não a pandemia (porque ninguém com idade bastante a esquecerá jamais) mas o que ela poderia ter feito por cada um de nós - famílias, empregadores, casais, pessoas singulares, que passaram por momentos tormentosos, desafiantes, dolorosos. A humanidade em que por acaso acreditamos, mudará?

***

Numa nota um pouco à margem, escrevo este texto algo pessimista (mas só por acaso é que sou pessimista) no dia em que li a crónica de Alberto Gonçalves no Observador. Dei por mim a pensar que, na essência, não há diferença entre ele e o Vasco Pulido Valente. Este dizia mal de tudo tendo aos ombros a capa da sapiência histórica; aquele diz mal de tudo tendo aos ombros a capa do humor sarcástico. O que há em comum? Dizerem mal de tudo.

JdB 

domingo, 29 de março de 2020

V Domingo da Quaresma

EVANGELHO - Jo 11,1-45

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
estava doente certo homem, Lázaro de Betânia,
aldeia de Marta e de Maria, sua irmã.
Maria era aquela que tinha ungido o Senhor com perfume
e Lhe tinha enxugado os pés com os cabelos.
Era seu irmão Lázaro que estava doente.
As irmãs mandaram então dizer a Jesus:
«Senhor, o teu amigo está doente».
Ouvindo isto, Jesus disse:
«Essa doença não é mortal, mas é para a glória de Deus,
para que por ela seja glorificado o Filho do homem».
Jesus era amigo de Marta, de sua irmã e de Lázaro.
Entretanto, depois de ouvir dizer que ele estava doente,
ficou ainda dois dias no local onde Se encontrava.
Depois disse aos discípulos:
«Vamos de novo para a Judeia».
Os discípulos disseram-Lhe:
«Mestre, ainda há pouco os judeus procuravam apedrejar-Te
e voltas para lá?»
Jesus respondeu:
«Não são doze as horas do dia?
Se alguém andar de dia, não tropeça,
porque vê a luz deste mundo.
Mas se andar de noite, tropeça,
porque não tem luz consigo».
Dito isto, acrescentou:
«O nosso amigo Lázaro dorme, mas Eu vou despertá-lo».
Disseram então os discípulos:
«Senhor, se dorme, está salvo».
Jesus referia-se à morte de Lázaro,
mas eles entenderam que falava do sono natural.
Disse-lhes então Jesus abertamente:
«Lázaro morreu;
por vossa causa, alegro-Me de não ter estado lá,
para que acrediteis.
Mas, vamos ter com ele».
Tomé, chamado Dídimo, disse aos companheiros:
«Vamos nós também, para morrermos com Ele».
Ao chegar, Jesus encontrou o amigo sepultado havia quatro dias.
Betânia distava de Jerusalém cerca de três quilómetros.
Muitos judeus tinham ido visitar Marta e Maria,
para lhes apresentar condolências pela morte do irmão.
Quando ouviu dizer que Jesus estava a chegar,
Marta saiu ao seu encontro,
enquanto Maria ficou sentada em casa.
Marta disse a Jesus:
«Senhor, se tivesses estado aqui,
meu irmão não teria morrido.
Mas sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus,
Deus To concederá».
Disse-lhe Jesus: «Teu irmão ressuscitará».
Marta respondeu:
«Eu sei que há-de ressuscitar na ressurreição, no último dia».
Disse-lhe Jesus:
«Eu sou a ressurreição e a vida.
Quem acredita em Mim,
ainda que tenha morrido, viverá;
E todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá.
Acreditas nisto?»
Disse-Lhe Marta:
«Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus,
que havia de vir ao mundo».
Dito isto, retirou-se e foi chamar Maria,
a quem disse em segredo:
«O Mestre está ali e manda-te chamar».
Logo que ouviu isto, Maria levantou-se e foi ter com Jesus.
Jesus ainda não tinha chegado à aldeia,
mas estava no lugar em que Marta viera ao seu encontro.
Então os judeus que estavam com Maria em casa
para lhe apresentar condolências,
ao verem-na levantar-se e sair rapidamente,
seguiram-na, pensando que se dirigia ao túmulo para chorar.
Quando chegou aonde estava Jesus,
Maria, logo que O viu, caiu-Lhe aos pés e disse-Lhe:
«Senhor, se tivesses estado aqui,
meu irmão não teria morrido».
Jesus, ao vê-la chorar,
e vendo chorar também os judeus que vinham com ela,
comoveu-Se profundamente e perturbou-Se.
Depois perguntou: «Onde o pusestes?»
Responderam-Lhe: «Vem ver, Senhor».
E Jesus chorou.
Diziam então os judeus:
«Vede como era seu amigo».
Mas alguns deles observaram:
«Então Ele, que abriu os olhos ao cego,
não podia também ter feito que este homem não morresse?»
Entretanto, Jesus, intimamente comovido, chegou ao túmulo.
Era uma gruta, com uma pedra posta à entrada.
Disse Jesus: «Tirai a pedra».
Respondeu Marta, irmã do morto:
«Já cheira mal, Senhor, pois morreu há quatro dias».
Disse Jesus:
«Eu não te disse que, se acreditasses,
verias a glória de Deus?»
Tiraram então a pedra.
Jesus, levantando os olhos ao Céu, disse:
«Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido.
Eu bem sei que sempre Me ouves,
mas falei assim por causa da multidão que nos cerca,
para acreditarem que Tu Me enviaste».
Dito isto, bradou com voz forte:
«Lázaro, sai para fora».
O morto saiu, de mãos e pés enfaixados com ligaduras
e o rosto envolvido num sudário.
Disse-lhes Jesus:
«Desligai-o e deixai-o ir».
Então muitos judeus, que tinham ido visitar Maria,
ao verem o que Jesus fizera, acreditaram n'Ele.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Nada será como dantes

Não haverá, seguramente, ninguém vivo que nos explique de viva voz o que foi o impacto da gripe espanhola ou em que é que se compara com o impacto do COVID-19. Em 1918-1919 morreram dezenas de milhares de portugueses. Vamos contar que agora não morra tanta gente, embora a previsão de mortos configure uma tragédia.

Dou por mim a pensar no que vai mudar daqui para a frente. Um pensamento já elaborado por outros, seguramente, e de forma mais profunda ou científica. O que sabemos todos é que nada será igual. Há quem ache que o nosso modo de vida acabou, há quem ache que os laços de família saem reforçados. 

Tenho uma amiga espanhola, professora universitária de arquitectura. Esteve estes últimos dias a preparar aulas que serão dadas à distância. E dizia-me ontem que o futuro (ela viaja muito por causa do voluntariado internacional que nos une) pode passar por estas aulas quando ela tem de se ausentar de Espanha. Anteontem, uma pessoa que me é próxima e que faz quarentena com marido e três filhos num andar em Lisboa, dizia-me que tem ido mais ao supermercado - uma actividade motivada não pela necessidade de comprar mantimentos...

Podia pensar na parte mais visível da tragédia: quantos empregos se perderão, quantas economias irão à vida, quantas empresas fecharão? Mas penso também nas oportunidades: quantas pessoas quererão passar a fazer teletrabalho para estar mais tempo em casa, poder ter mais filhos? Quantas pessoas mudaram radicalmente a sua forma de pensar relativamente a este assunto? O que farão as empresas com isto. A este respeito, o último número do TLS (Times Literary Supplement) afirmava: this issue is the first in the TLS’s nearly 120 years of existence to have been edited and sent off to press by a group of people contributing solely from their own homes. Se se consegue fazer um suplemento literário a partir de casa (e há outros exemplos em Portugal) porque é que tanta gente tem de ir para o emprego se preferir ficar em casa? O que se poupa e o que se ganha? 

Também penso em coisas mais comezinhas: daqui a quanto tempo poderemos viajar ou dar um encontrão numa carruagem de metro? Quanto tempo demorará a recuperarmos a confiança nos abraços, na proximidade física tão latina, nos ajuntamentos? Como me perguntava alguém próximo, daqui a alguns meses haverá mais divórcios ou mais bebés? Que impacto teve esta pandemia nas relações familiares? Foi maioritariamente benéfica ou muito pelo contrário? O que afectou a proximidade excessiva ou o afastamento excessivo?

Passado o momento da tragédia, o mundo tornar-se-á uma boa fonte de estudo. O que vai mudar, que se perceba já, daqui a alguns meses? Conseguiremos perceber que podemos viver com menos? E quereremos? De facto, nada será como dantes. 

JdB

quinta-feira, 26 de março de 2020

Duas Últimas

António Pedro da Silva Chora Barroso (1950 - 2020)

quarta-feira, 25 de março de 2020

Vai um gin do Peter’s ?

VPV PÕE O DEDO NA FERIDA SOBRE A GUERRA NA SÍRIA

Se a nós, ocidentais do dito ‘primeiro mundo’, nos custa os estragos provocados pelo COVID-19, primeiro como calamidade sanitária, depois como hecatombe económica, o que dizer das vítimas da longa guerra na Síria, agora também atingidas pelo coronavírus?

Talvez uma comparação mínima entre a situação de uns e de outros, ajude a dar a medida do sofrimento das vítimas de um conflito armado sanguinário, bem mais letal do que as perdas pesadas desta pandemia. Por exemplo, como explicar, a quem corre o risco de ter a casa bombardeada, os nossos problemas (legítimos, à nossa escala) para repor a despensa? Como comparar algumas aflições no acesso à net, fundamental para o teletrabalho, com o drama dos que estão sujeitos a longos períodos sem electricidade nem água potável? Como encarar o problema dos pais e filhos pequenos apertados num apartamento, face a quem vive em roleta russa sem saber se se sobrevive mais um dia? O que dizer do drama dos nossos hospitais sobrelotados e dos profissionais de saúde em burnout, à vista dos hospitais sírios também sobrelotados e em constante risco de serem alvejados por morteiros?

Entre 2015 e 2017, Vasco Pulido Valente (VPV), com o olho clínico dos bons historiadores, denunciou algumas das causas menos faladas da Guerra contra Assad, um tirano pouco recomendável mas que não justifica o preço de uma sangria inumana:



«À NOSSA PORTA

–  17.JAN.2016 –


As fronteiras do Médio Oriente foram impostas, como toda a gente sabe, pelo acordo Sykes-Picot no fim da I Guerra Mundial e tentavam equilibrar as pretensões da Inglaterra e da França. As fronteiras da África do Norte são a consequência de uma guerra de conquista, que começou em meados do século XIX com o último rei de França, Luís Filipe, e em que pouco a pouco se envolveram a Inglaterra, a Itália e mesmo a Alemanha de Guilherme II. Nenhuma destas divisões e redivisões considerou a religião ou a afinidade tribal da gente que ia dispersando pelo mundo a régua e a esquadro, como se ela não valesse mais do que peças sem valor num jogo que não podia de toda a evidência jogar. As coisas correram bem até à guerra contra Hitler e à emergência do petróleo como a principal fonte de energia do Ocidente.   
Dali em diante as grandes potências tiveram de evacuar, a bem ou mal, do Médio Oriente e da África do Norte e deixaram para trás países sem qualquer espécie de viabilidade como o Iraque, ou a Líbia, geralmente governados por velhos funcionários do colonialismo ou por indígenas de confiança, que acabaram por ser submersos por uma civilização primitiva, dirigida pelo fanatismo e pela violência. Hoje, o Médio Oriente é o campo livre para as guerras religiosas do islão e naturalmente as facções detestam a interferência do Ocidente em querelas para que o dito Ocidente não é chamado, que não percebe e que vem sempre perturbar com a sua superioridade económica e militar.  Os terroristas de Nova Iorque, de Londres, de Copenhaga ou de Paris querem ficar sozinhos para se exterminarem em paz.
Hoje as duas maiores potências regionais deslizaram para uma situação de guerra não declarada, mas que está em perigo de se tornar uma catástrofe para o Médio Oriente, para o Norte de África e para o mundo. Ora a Europa não tem meios para reagir a essa ameaça. Se o choque entre o Irão (xiita) e a Arábia (sunita) não for evitado, acabará por se estender da Turquia a Marrocos, e provavelmente à Índia e à Ásia central, e não existe força alguma capaz de o sufocar ou reter. Em Portugal, […] consciente ou inconscientemente, sofreremos como o resto da Europa as consequências do conflito que vai crescendo à nossa porta.

HÁBITOS QUE NÃO PASSAM

–  15.NOV.2015 –

O Ocidente, por razões que variaram com a época e o país, sempre se achou dono da África do Norte e do Médio Oriente. A impotência de Istambul tornava o imenso território do Império Otomano em terra de ninguém e de toda a gente, que os diplomatas da “civilização” dividiam e redividiam a régua e esquadro. Mesmo a Rússia perdeu a sua única guerra – na Crimeia, com a França e a Inglaterra – por causa de uma querela com a Igreja Católica em Jerusalém. O canal de Suez, caminho para a “jóia da coroa” e para o Oriente, e a seguir o petróleo prolongaram até hoje o longo envolvimento da Europa e da América em questões que não lhes diziam respeito. […] Sobretudo para a França que se continua a considerar tutora e protectora das suas velhas colónias.
A situação do Norte de África e do Médio Oriente é agora uma situação de guerra religiosa entre sunitas e xiitas (e as várias seitas de cada lado) e também, em certos países, de guerra entre islamitas e secularistas. Não ocorreria a nenhum estrangeiro de senso intervir neste caldeirão, como não ocorreria a um budista, por muita força e apetite que tivesse, intervir na “Guerra dos 30 Anos”. Mas nem o Ocidente nem a Rússia hesitaram um segundo em tomar partido pela palavra e pela bomba na região inteira. Julgavam que nenhum muçulmano se atreveria a transportar as suas sujas questões para o continente da liberdade e da tolerância. Um erro primário. […] As relações entre o Ocidente e o islão deviam ser mínimas e estritamente materiais: petróleo por tecnologia – e acabou. Fora isso, o terrorismo vai continuar e aumentar, quer a “grande” França queira, quer não.


O OCIDENTE E O MUNDO MUÇULMANO

– 23.ABR.2017 –

Dar um pontapé num formigueiro é uma estratégia? Em princípio, parece que não é. Mas que tem feito o Ocidente, senão isso? E, quando falo do Ocidente, falo da Inglaterra, da França e da América. Desde a primeira invasão do Iraque à chamada “Primavera Árabe” as velhas potências coloniais e a nova potência “global” não perdem uma oportunidade para influenciar, ou mesmo dirigir, o mundo islâmico. Ora esse mundo islâmico, de fora tão simples, está em guerra consigo próprio, para defender ou fortalecer as suas posições em África e no Médio Oriente e por razões religiosas que, às vezes, não se distinguem muito de razões políticas e militares. 
E por isso o Ocidente não sabe ao certo quem são as suas vítimas e menos quem a prazo vai beneficiar ou prejudicar. Não admira que quase todos os grupos de muçulmanos odeiem imparcialmente a Europa e a América e uma civilização inconciliável com a deles. […] 


O OCIDENTE E O ISLÃO

– 10 JUN.2017 –

O terceiro atentado terrorista em Inglaterra desde Março produziu os lugares comuns do costume. […] Mas como sempre ninguém tentou explicar politicamente o que sucedera. Porquê? Porque ninguém se atreve a revelar as verdadeiras causas desta violência contra sociedades [ocidentais] à superfície pacíficas. As causas são claras. Em primeiro lugar, a América estabeleceu uma base na “terra santa” da Arábia e a seguir começou duas guerras em países muçulmanos: no Iraque e no Afeganistão. Esta criminosa estupidez está em grande parte na origem da violência que veio depois. Bush, Blair e os governos que na Europa lhes deram apoio militar e diplomático não conheciam nem se interessavam pelas condições no terreno ou pela natureza do seu inimigo, historicamente dividido em dois ramos inconciliáveis e em dezenas de seitas e organizações.
O islão é um mundo em crise, um mundo imerso numa guerra religiosa, que se confunde, como invariavelmente sucede, com a luta pela hegemonia de um bilião de muçulmanos. Qualquer intervenção de fora implica duas consequências. Por um lado, favorece uma facção ou facções dos beligerantes. Por outro, leva a América e as potências da Europa a conduzir elas mesmas uma guerra por interposta pessoa. A Síria é um bom exemplo. Não admira por isso que o ódio gerado no islão transborde para Nova York, Paris, Marselha, Manchester ou Londres, que os jihadistas compreensivelmente consideram parte do seu campo de acção.
A única maneira de acabar com ataques terroristas ao Ocidente seria que o Ocidente se retirasse por completo do islão, o que implicaria o fim da mais leve presença militar, económica ou política e mesmo de alianças formais com qualquer Estado muçulmano. Para nossa má sorte, […] basta olhar à volta para perceber até que ponto o dinheiro do islão ou, pelo menos, de uma fracção dele penetrou nas sociedades em que vivemos.



                     
Vasco Pulido Valente em crónicas do PÚBLICO


Aplica-se a esta hora algo quaresmal e insólita das nossas vidas (para lá de a quarentena não ser custosa para todos) a resposta visionária de uma alta patente do recém-derrotado exército japonês, no final da Segunda Guerra Mundial na frente do Pacífico. Perguntaram-lhe até que ponto o Império do Sol Nascente tinha soçobrado à superioridade bélica norte-americana. Ele retorquiu, sem hesitar: o verdadeiro vencedor desta guerra será o povo que melhor se reerguer no day-after. A sua capacidade de focar o olhar acima dos escombros e de apontar ao futuro, foi correspondida pela maioria da população nipónica, permitindo uma reconstrução em tempo recorde e até ascender ao pequeno núcleo das economias mais pujantes do mundo – o G7. Naturalmente, que o Japão também contou com o forte apoio do vencedor directo daquela guerra – os EUA, à data, o país mais visionário, a par da Grã-Bretanha! De igual forma, após este combate contra o vírus, enfrentaremos outro tsunami, não menos feroz, no plano económico e bem podemos começar já a preparar o futuro. A falência de inúmeras micro-empresas, depois desta paragem técnica, fará disparar o desemprego.

O busílis está, sobretudo, na brusquidão das mudanças em curso, muitas delas irreversíveis, deixando multidões à margem da revolução digital já a rolar. Sem folga mínima para se adaptarem, arriscam-se ao empobrecimento por exclusão. O filme com mais Óscares, em 2020  – «PARASITAS», de realizador sul-coreano –  explica bem o sub-mundo de pobreza que coabita, quase invisível, semi-clandestino, com bolsas de riqueza e de bem-estar pacatamente egocêntricas e mimadas. Apenas curtem a dolce vita, sem reparar naqueles sobreviventes, até o limite da humilhação e da frustração ser ultrapassado e esses frágeis extravasarem em explosões de violência imprevisíveis. É um facto que a ferida das desigualdades acompanha a história humana, desde os primórdios, mas assume contornos muito diversos conforme a reacção dos dois segmentos. Há uma diferença abissal entre a dupla do rico e de Lázaro (em parábola, que parte de situações reais) e os grupos que se cruzam na ficção cinematográfica premiada por Hollywood, certeira a retratar realidades do nosso presente, sem cair no estereótipo reducionista e ideológico da luta de classes.

No lado positivo do pós-Covid19 está o provável reforço de novos hábitos como o teletrabalho e uma melhor gestão do tempo, menos poluição e menos stress nas idas para e vindas do trabalho. Na mesma senda, fecharam-se as Igrejas, mas a oração universal ganhou força e visibilidade; a generosidade de muitos crentes saiu para a rua e tem inspirado conversões nos lugares onde faz mais falta levar a paz e algum sentido de vida. Assim tem acontecido no desespero dos hospitais italianos, onde também se multiplicaram os gestos heróicos, como o do sacerdote de setentas e tais, que dispensou máscara para que não faltasse ao rapaz novo ao seu lado. O novo salvou-se e o mais velho partiu para o céu, com a maior serenidade, marcando muitos em seu redor. Hoje mesmo, o Papa Francisco pediu para o mundo rezar em conjunto o Pai-nosso, às 12h (de Roma, 11h de Portugal continental).  Outras ideias criativas pairam sobre os céus de Roma…

Religiosas romanas fizeram terços gigantescos, de 21m de comprimento, com balões azúis e brancos. Presos a uma varanda, vêem-se de toda a cidade e, de quando em vez, são soltos para subirem até às estrelas. A ideia original veio da Congregação das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus.

Algumas vozes portuguesas, lembram brechas que podem ter aberto bons trilhos para um futuro melhor:

No semanário SOL – edição de 21 de Março de 2020.

Do Turismo de Portugal chegou uma mensagem de esperança para este difícil contra-relógio de contenção da insidiosa pandemia. De certo modo, já aponta e contribui para o day-after:



Citando um amigo divertido, é hora de desejar a todos a continuação de uma santa quarentena.

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

terça-feira, 24 de março de 2020

Textos dos dias que correm

O poder da esperança: Mãos que sustenham a alma do mundo

Bruscamente, sem pré-avisos, a nossa vida foi sorvida para o interior de uma daquelas imagens inquietantes de Giovanni Battista Piranesi, cujo terceiro centenário de nascimento, por coincidência, este 2020 assinala. Poucas vezes se descreveu a angústia, o efeito do caos, as intransigentes paredes de vidro do isolamento com a precisão que o artista alcançou nas suas alegorias sombrias, onde os seres humanos parecem pontos ainda mais minúsculos e torturados, ilhas ainda mais desprotegidas, num mundo contaminado e distorcido até ao absurdo. A fantasmagórica visão de uma ponte levadiça que se recolhe, numa das gravuras mais famosas de Piranesi, – determinando com isso uma incomunicabilidade forçada – dá-nos como que o símbolo para representar, quase à pele, uma realidade que se transmuta, do dia para a noite, em forma distópica. Pois o desconcertado sentimento geral que hoje predomina é esse: o de que entramos, à maneira de Jonas no ventre da baleia, nas entranhas imprevisíveis e confusas de uma distopia.


Dentro de um mundo desconhecido

E, temos de reconhecer, esta situação apanha as nossas sociedades impreparadas. E não falo já do ponto de vista dos recursos sanitários para fazer face a um desafio tal. Falo do ponto de vista da nossa experiência e daquilo que a nossa memória pode extrair em nosso socorro. Falo da nossa visão do mundo e da existência. Do que julgamos distante e longínquo e do que está efetivamente perto. Do que que temos por estritamente individual e do que é coletivo. Do que consideramos que nos protege e do que nos expõe. Do que temos (ou tínhamos) por adquirido ou como completamente improvável. Da consciência da nossa real força e da nossa exata vulnerabilidade. Da dimensão do medo que podemos experimentar e dos trabalhos necessários para trazer, à alma, o nosso quinhão de paz. Não, não é fácil, repentinamente, constatar que sabemos, de nós próprios e da vida, menos do que pensávamos. Não é fácil despertar dentro de um mundo desconhecido, como o pobre caixeiro viajante, na novela de Kafka. Há uns dias atrás, o escritor italiano Antonio Scurati recordava que a nossa geração tem sido uma jeunesse dorée na história europeia. Todas as coisas más (que, na verdade, nunca deixaram de acontecer) aconteciam, porém, lá longe e aos outros, eram tragédias que assistíamos pela televisão, em diferido. E nem nos dávamos conta que a perceção que construímos das nossas sociedades – a da humanidade com mais saúde, com maior esperança de vida, com mais segurança e proteção, melhor nutrida e vestida – assenta num contexto histórico que não é inabalável ou, pelo menos, não tão inabalável como acreditávamos.


A necessidade de parábolas

Um dado curioso, no atual contexto, tem sido a necessidade de encontrar parábolas. Sem chaves interpretativas para lidar interiormente com a situação presente, assiste-se a uma corrida a alguns textos clássicos capazes não só, por comparação, de ilustrar aquilo que vivemos, mas também de nos fornecer ferramentas narrativas para podermos contar, a nós próprios e uns aos outros, o que está a acontecer. Que, de uma hora para outra, tenham voltado ao top dos livros mais vendidos, em alguns países, “A peste”, de Albert Camus, ou “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago, não deixa de ser um elemento significativo. O texto de Saramago, uma poderosa e escuríssima parábola moral, cuja escrita ele próprio descreveu como das mais dolorosas experiências por que passou (“são 300 páginas de constante aflição” ), está repleto de termos que se impuseram recentemente ao jargão dos nossos quotidianos: epidemia, infeção, quarentena, medidas de coerção, debate ético sobre o valor da vida, carência, medo e compaixão. Mas não só as palavras como que ultrapassaram o estrito campo da ficção e se infiltraram no nosso domínio histórico. Saramago encena ali, com genial agudeza, os fantasmas e os pesadelos que temos de fazer tudo para evitar. Porque, não nos enganemos, tudo pode ser sempre pior. Nesse sentido, o seu romance permite uma leitura preventiva em relação à realidade. Por sua vez, o romance de Albert Camus, publicado em 1947, constitui uma incisiva reflexão sobre o mal, e certamente ali, como pano de fundo, está a sombra macabra do nazismo, denunciado como a “peste” que encurralou, naqueles anos, a nossa humanidade. Mas Camus escolhe para narrador-protagonista da sua simbólica crónica de resistência um médico. E isso certamente permite uma ligação direta ao presente, onde queremos sobretudo ouvir o que pensam os virólogos, os infectologistas, os especialistas em contágio, os clínicos em geral. De repente, o doutor Bernard Rieux, que desde aquela manhã de Abril em que, saindo do consultório, se torna o narrador-protagonista do que sucede na cidade algerina de Oran, é um interlocutor plausível e familiar também daquilo que experimentamos, e para o qual nos faltam ainda narradores. E há três coisas que aprendemos ouvindo o Dr.Rieux contar “A Peste”. A primeira delas é que a sobrevivência, perante surtos infeciosos desta dimensão, passa por adotar os cordões sanitários e seguir escrupulosamente, de forma continuada, as regras terapêuticas estabelecidas. A segunda é que a declaração de estado de peste e do fecho da cidade são também informações para uso das almas, pois colocam em questão aspetos da condição humana e do seu destino. A terceira, e não menos decisiva, é que, no meio de toda esta tribulação, abrem-se imprevistos espaços para a fraternidade entre os seres humanos.


Podemos reaprender tantas coisas

Parece paradoxal, mas o tempo presente representa também uma oportunidade para nos reencontrarmos. Confinados a um isolamento compreendemos talvez melhor o que significa ser – e ser de forma radical – uma comunidade. A nossa vida não depende apenas de nós e das nossas escolhas: todos estamos nas mãos uns dos outros, todos experimentamos como é vital esta interdependência, esta trama feita de reconhecimento e de dom, de respeito e solidariedade, de autonomia e relação. Todos esperam uns dos outros e estimulam-se positivamente a que façam a sua parte. Todos contam. Os cuidados individuais, que somos chamados a exercitar, não são a expressão de uma fobia ou do interesse próprio apenas, como se destinados a nos enclausurar na torre de marfim do nosso ego. São, sim, a forma de colaborar para uma construção maior, de colocar os outros no centro, de sacrificar-se por eles, de privilegiar o bem comum. Esta é a hora em que podemos, de facto, reaprender tantas coisas. Podemos reaprender a estar nas nossas casas, mas também a sentir que depende de nós o nosso prédio, a nossa rua, o nosso bairro, a nossa cidade, o nosso país, dando substância efetiva a palavras, tantas vezes destituídas dela, como são as palavras proximidade, vizinhança, humanidade, povo e cidadania. Podemos reaprender a utilizar as redes sociais não só como forma de divertimento e de evasão, mas como canais de presença, de solicitude e de escuta. Sem nos tocarmos, podemos reaprender o valor da saudação, o estímulo de um cumprimento, a incrível força que recebemos de um sorriso ou de um olhar. Sem que os nossos braços se estendam na direção uns dos outros podemo-nos abraçar afetuosamente, como já o fazíamos ou de um modo mais intenso ainda, transmitindo nesses abraços reinventados o encorajamento, a hospitalidade, a certeza de que ninguém será deixado só. Sem nos conhecermos podemos finalmente reaprender a não votar ninguém à indiferença ou a não tratar os nossos semelhantes como desconhecidos. Nenhum ser humano nos é desconhecido, pois sabemos por nós próprios o que é um ser humano: o que é esse pulsar de medo e de desejo, essa mistura de escassez e de prodigalidade, esse mapa que cruza o pó da terra com o pó das estrelas.


A distância e a proximidade

Conhecemos a semântica da proximidade e da distância, e, para dizer a verdade, precisamos de ambas. São elementos de comprovada importância na arquitetura do que somos: sem uma ou sem outra nós não seríamos. Sem a proximidade primordial nem seríamos gerados. Mas também sem a separação e a distinção progressivas a nossa existência não teria lugar. Na linguagem parabólica do livro do Génesis, Deus cria o homem amassando-o da argila da terra e oferecendo-lhe o seu próprio sopro, mas depois deixa o casal humano a sós no jardim para que a aventura da liberdade possa ter início. Do mesmo modo, cada um de nós, foi chamado a construir o seu mundo interno no balanço destas duas palavras: fusão e distinção. E através delas descobrimos, a tatear, o significado do amor, da confiança, do cuidado, da criação e do desejo. É verdade que no campo pessoal e social há tantas distâncias que são distorcidas formas de afirmar barreiras, de inocular com o vírus ideológico da desigualdade o corpo comunitário, de desnivelar a existência comum com assimetrias de toda a ordem (económicas, políticas, culturais, etc). E, temos de reconhecer igualmente que tantas formas de proximidade não passam de prepotência sobre os outros, exercício perturbado de poder, como se os outros fossem propriedade nossa. A distância e a proximidade precisam, por isso, de ser purificadas. Este tempo em que repentinamente ficamos todos mais perto (penso nas famílias em quarentena numa casa, 24 horas sobre 24 horas) e todos mais separados (é recomendado para o contacto interpessoal que se mantenha, pelo menos, 1 metro de distância) pode representar uma oportunidade para redescobrir aquelas proximidade e distância que garantem a qualificação ética da existência.


As modalidades do tempo

Que somos nós se não escravos do tempo? Vivemos sob a ditadura do tempo cronológico: aquele tempo utilitário e voraz, aquele contador ininterrupto que não dorme, aquele corredor que ninguém consegue travar. Somos literalmente engolidos pelo tempo, como a sugestiva imagem da mitologia diz ser a prática de chrónos, o inexpugnável rei dos titãs que, sem piedade, devorava os próprios filhos. E damos por nós a habitar dentro desse processo de devoração, correndo na ofegante corrente dos dias, acreditando que nada pode parar, temendo qualquer ralentização ou pausa e deixando com isso adiado o coração para outro século; e, com isso, adiando a vida para outra vida. Estamos sempre a empurrar para o fim de semana, ou então para as férias, ou para uma ocasião propícia que nunca chega. Porque o tempo não estica. Mas os inconformados gregos, a par do chrónos, tinham uma outra conceção de tempo para a qual reservavam o termo kairòs. No chrónos predomina uma visão quantitativa do tempo, uma espécie de contabilização vertiginosa, uma inalterável linha contínua que nos aprisiona na sua teia. E uma coisa sabemos: não é essa experiência de tempo que dará uma alma ao mundo. Porém, o tempo pode também experimentar-se como uma realidade qualitativa, isto é, pode ser finalmente definido como “o tempo de”, “o tempo para”. O que se sublinha não é tanto a duração, mas o momento propício, o ponto determinante, a hora do acolhimento da graça capaz de alterar os referentes do mundo. Se assim acontecer, o chrónos foi transformado em kairòs.


De quarentena a tempo gratuito

No imaginário contemporâneo o termo “quarentena” remete-nos para mundos recuados, que a modernidade superou. Quanto muito, podia-se aplicar a alguns poucos casos individuais, onde a gravidade das patologias impunha essa arcana prática securitária. A ideia de metrópoles inteiras ou de países em quarentena constitui uma absoluta estranheza. Não admira, por isso, que a primeira reação seja a de medo e dê lugar às formas mais diversas de expressão de claustrofobia exasperada. Aqueles que - movidos por motivações religiosas ou por escolhas conscientes de vida - aprenderam a tornar fecunda e solidária a própria solidão fizeram antes um percurso iniciático, educaram o seu coração nesse sentido, mas tiveram de se posicionar contra a corrente. De facto, essa educação falta a uma sociedade onde os estímulos maiores vão na direção contrária: na linha do escapismo, do atordoamento consumista, da vida massificada e dispersa. Por isso, somos convocados como sociedades a uma experiência pedagógica. Que a quarentena não seja só um violento recurso forçado, do qual vemos apenas os aspetos negativos, mas, mesmo com indesmentível esforço, nos possa ajudar a transmutar o chrónos em kairòs. Passamos uma vida inteira a repetir que “time is Money” e nem nos apercebemos do custo existencial dessa proposição. Este pode ser o momento para irmos ao encontro daquilo que perdemos; daquilo que deixamos sistematicamente por dizer; daquele amor para o qual nunca encontramos nem voz, nem vez; daquela gratuidade reprimida que podemos agora saborear e exercer. Temos de olhar para a quarentena não apenas como um adverso congelamento da vida que nos deixa manietados, elencando de modo maníaco o que estamos a perder. Sairemos mais amadurecidos se a aproveitarmos como um dom, como um espaço plástico e aberto, como um tempo para ser.


Não basta encher o frigorífico

A nossa segurança não pode provir da despensa bem guarnecida ou do  frigorífico a abarrotar. A vida é mais do que a materialidade necessária à sobrevivência. É isso, mas é mais do que isso. Esta estação que vivemos representa, assim, também uma oportunidade para refletir sobre aquilo que nos nutre. É que nos alimentamos de tanta contrafação, reduzindo a vida a um fast-food, de preferência sem pensar muito. É que nos alimentamos de tiques rotineiros e empalidecidos; de ideias-feitas que não deixam lugar a percursos de escuta e de descoberta; de automatismos que pairam como pura abstração; de imagens filtradas que reduzem sempre mais a realidade a uma coisa plana, esvaziando-a da sua natureza rugosa, polifónica e concreta; de palavras que, mais do que uma real declaração de presença, se parecem a uma estratégia que nos subtrai às chamadas sucessivas que a vida faz. Recordo o discurso sapiencial de Jesus e como esse restabelece o contacto da nossa realidade com as suas fontes mais profundas:  “quanto à vossa vida, não coloqueis o cuidado no que haveis de comer ou beber; nem quanto ao vosso corpo, no que haveis de vestir. Pois não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo, mais do que aquilo que o reveste? Reparem nas aves do céu, que não semeiam, nem colhem, nem armazenam em celeiros; e o Pai celeste as alimenta... Reparem nos lírios do campo: eles não trabalham, nem tecem. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um só deles” (Mateus 6:25-29). Numa das horas mais opacas do século passado, uma rapariga holandesa de nome Etty Hillesum escreveu num campo de concentração este comentário às palavras do evangelho de Mateus: “Uma vez escrevi num dos meus diários: ‘gostava de tatear com as pontas dos dedos os contornos desta época’. Nessa altura estava sentada à secretária sem saber bem como atingir a vida... E então, de repente, fui lançada num foco de sofrimento humano numa das múltiplas frentes espalhadas por toda a Europa. E foi aí que eu experimentei isto abruptamente: a partir dos rostos das pessoas, de milhares de gestos, de pequenas manifestações, de biografias, comecei a interpretar estes tempos... Se as pessoas entendessem esta época, seriam capazes de aprender com ela a viver como os lírios do campo”. O que significa sermos capazes de olhar os lírios do campo e as aves do céu? Significa adotar uma atitude contemplativa. Precisamos de olhar, mas não apenas como habitualmente o fazemos, pois a maior parte das vezes o nosso olhar morre junto aos sapatos. Somos desafiados a um olhar que vá além de nós, que supere os limites do nosso tracejado, que transcenda o perímetro das nossas preocupações imediatas, que se projete para lá do que sozinhos conseguimos ver... porque a vida não se resolve apenas com aquilo que trazemos ou conseguimos, mas sim no diálogo misterioso entre a nossa escala e a escala mais ampla que a própria vida é; no diálogo entre o que surge como conquista e o que brota como inexplicável dom; na interação entre o aqui e o agora e o que é da ordem do eterno.


As histórias de amor que estão a ser escritas

No meio da emergência que vivemos, não podemos esquecer o testemunho humano altíssimo que está a ser dado por todos os cuidadores. Esses são heróis desta história coletiva. E são milhões que, de forma anónima, e com um extraordinário sentido de abnegação, mantêm abertas fábricas e serviços, continuam a produção alimentar e de bens indispensáveis, vigilam pela segurança e, claro, nos hospitais combatem por todos nós na primeiríssima linha. Enumero três histórias minúsculas no universo de bem e dedicação que, nestes dias tão difíceis, se está também a construir. No sábado fui à pequena padaria do meu bairro. É o proprietário que atende ao balcão, um senhor dos seus setenta e muitos, um olhar cheio de cordialidade, um humor sempre a assomar. Vi-o, como o nunca vi, desolado, meditabundo, exausto. Perguntei-lhe se a padaria continuaria aberta. E ele confessou que por ele já a teria fechado. Mas depois começa a pensar nos clientes, nas pessoas que serve há tantos anos, muitas delas idosas como ele: como farão, se não há outra padaria nas redondezas! Outra história li-a no jornal. Uma senhora ligou para o posto da polícia do seu quarteirão, que naturalmente continua aberto, apenas para fazer esta pergunta: “E vocês como estão?”. A terceira é contada, sem palavras, por uma fotografia que mostra os bastidores de um hospital. Uma enfermeira adormecida com a cabeça em cima de um teclado do computador. Tem os óculos e a máscara colocados no rosto. Os braços caídos ao longo do corpo, sem nenhum apoio. É uma imagem comovedora, no seu desamparo extremo, porque se percebe tudo. Há quantas horas aquela mulher não dormia? E que dimensão tem de ter o cansaço, que peso tem de atingir para fazer tombar assim um corpo? Há já quem diga que a geração que vive o turbilhão desta pandemia olhará inevitavelmente para a vida de outra maneira. Esperemos que sim. Mas que na equação, que porventura despoletará uma mudança de mentalidade, entre não só o poder desconhecido do medo e da urgência, que nos faz relativizar tanta coisa. Que saibamos considerar devidamente todas as histórias de amor que estão a ser escritas, a começar por esta inteira multidão de profissionais e de voluntários que aproximam da nossa experiência hodierna a inesquecível parábola do bom samaritano.


As mãos sustêm a alma

Uma das esculturas mais conhecidas de Rodin revela, numa primeira abordagem, uma impressionante simplicidade. Trata-se de uma composição em pedra constituída por um par de mãos. Na verdade, duas mãos direitas, de duas pessoas diferentes cujos braços se entrecruzam e alongam para que os dedos, no ponto mais alto, se toquem, desenhando a forma de um arco. Um programa aparentemente elementar, portanto. A poesia deflagra – e, desse modo, nos remete para uma outra visão da obra - quando nos é anunciado o seu título. Primeiramente, Rodin pensou denominá-la “A arca da aliança”, mas optou depois por chamá-la “A catedral”. O que é uma catedral? A escultura de Rodin pode socorrer-nos na necessidade atual de obter uma resposta. Uma catedral não é apenas um território sagrado exterior onde os nossos pés nos levam. Nem é apenas um templo fixado num determinado espaço. Nem apenas um porto de abrigo que os mapas assinalam. Uma catedral também se alcança com as nossas mãos abertas, disponíveis e suplicantes, onde quer que nos encontremos. Porque onde está um ser humano, ferido de finitude e de infinito, está o eixo de uma catedral. Onde possamos realizar essa experiência vital de busca e de escuta para a qual a imanência não é resposta. Onde as nossas mãos se possam erguer para o alto em desejo, urgência e sede. Esse será sempre um dos eixos da catedral. O outro eixo é o mistério de Deus que o desenha, avizinhando-se de nós e segurando-nos, mesmo quando não nos apercebemos logo, mesmo quando o silêncio, o duro e espesso silêncio, parece a verdade mais tangível. Foi Pascal que escreveu que “as mãos sustêm a alma”. Hoje precisamos de mãos – mãos religiosas e laicas – que sustenham a alma do mundo. E que mostrem que a redescoberta do poder da esperança é primeira oração global do século XXI.

Card. José Tolentino Mendonça
In Expresso
Publicado pelo SNPC em 22.03.2020

segunda-feira, 23 de março de 2020

Do direito ao esquecimento

Vi sábado de noite, no remanso caseiro de um estado de emergência pandémico, um filme chamado "Thanks for Sharing", que a criatividade demente de um qualquer especialista na matéria decidiu traduzir por "Uma boa dose de sexo". Apesar deste título sugestivo, desenganem-se as pessoas que se atiram ao filme pelo desejo de um erotismo potenciado pelo isolamento. No pico da nudez, Gwyneth Paltrow (uma das protagonistas e uma mulher sempre interessante) limita-se a aparecer em roupa interior. Reproduzo uma parte do que, do filme, diz o jornal Público (não sei a data): 

Apesar de muito diferentes, Adam, Mike e Neil (Mark Ruffalo, Tim Robbins e Josh Gad) travam uma luta comum: o vício em sexo. Ao perceberem como essa obsessão lhes dificulta a relação com os outros e consigo mesmos, decidem inscrever-se num programa de reabilitação que promete curá-los em 12 passos.

Os três personagens do filme referido reivindicam, à sua forma, o direito ao esquecimento. Trata-se da reconstrução das suas vidas, e o direito ao esquecimento do passado é um dever de luta pelo futuro. O passado de cada um de nós, quer sejamos vítimas de uma adição, de uma doença ou de uma desacerto de comportamento, não deve ficar gravado para sempre na internet das nossas vidas. Esquecer não é, neste caso, negar a existência de, mas negar o impacto condenatório e vitalício da existência de. "Sóbrios" durante alguns anos ou durante algumas horas, todos eles (re)caíram porque em dada altura lhes foi negado o direito ao esquecimento, isto é, o seu passado foi um entrave ao presente que se converteria em futuro. Numa dada altura cada um deles deitou fora a medalha que celebrava um tempo de sobriedade, tendo que começar tudo de novo. O que aconteceu? Um passado que os acossou - ou que foi usado como argumento de ruptura.  

Num nível diferente, ninguém sabe como ficará o mundo, Portugal ou a comunidade familiar de cada um de nós quando assentar a poeira do coronavirus. Também aqui teremos de aplicar o direito ao esquecimento. Não negar que ele existiu, que deixou um rasto de cadáveres e sofrimento pelo caminho, mas negar que a pandemia deve ficar para sempre na internet das nossas vidas. O mundo não será o mesmo, mas devemos usar o direito ao esquecimento para nos podermos abraçar, cumprimentar, beijar sem que soframos do horror ao contágio - ou simplesmente do horror ao próximo desconhecido

JdB  

domingo, 22 de março de 2020

IV Domingo da Quaresma

EVANGELHO - Jo 9,1-41

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
Jesus encontrou no seu caminho um cego de nascença.
Os discípulos perguntaram-Lhe:
«Mestre, quem é que pecou para ele nasceu cego?
Ele ou os seus pais?
Jesus respondeu-lhes:
«Isso não tem nada que ver com os pecados dele ou dos pais;
mas aconteceu assim
para se manifestarem nele as obras de Deus.
É preciso trabalhar, enquanto é dia,
nas obras d'Aquele que Me enviou.
Vai cegar a noite, em que ninguém pode trabalhar.
Enquanto Eu estou no mundo, sou a luz do mundo».
Dito isto, cuspiu em terra,
fez com a saliva um pouco de lodo e ungiu os olhos do cego.
Depois disse-lhe:
«Vai lavar-te à piscina de Siloé»; Siloé quer dizer «Enviado».
Ele foi, lavou-se e ficou a ver.
Entretanto, perguntavam os vizinhos
e os que antes o viam a mendigar:
«Não é este o que costumava estar sentado a pedir esmola?»
Uns diziam: «É ele».
Outros afirmavam: «Não é. É parecido com ele».
Mas ele próprio dizia: «Sou eu».
Perguntaram-lhe então:
«Como foi que se abriram os teus olhos?»
Ele respondeu:
«Esse homem, que se chama Jesus, fez um pouco de lodo,
ungiu-me os olhos e disse-me:
'Vai lavar-te à piscina de Siloé'.
Eu fui, lavei-me e comecei a ver».
Perguntaram-lhe ainda: «Onde está Ele?»
O homem respondeu: «Não sei».
Levaram aos fariseus o que tinha sido cego.
Era sábado esse dia em que Jesus fizeram lodo
e lhe tinha aberto os olhos.
Por isso, os fariseus perguntaram ao homem
como tinha recuperado a vista.
Ele declarou-lhes: «Jesus pôs-me lodo nos olhos;
depois fui lavar-me e agora vejo».
Diziam alguns dos fariseus:
«Esse homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado».
Outros observavam:
«Como pode um pecador fazer tais milagres?»
E havia desacordo entre eles.
Perguntaram então novamente ao cego:
«Tu que dizias d'Aquele que te deu a vista?»
O homem respondeu: «É um profeta».
Os judeus não quiseram acreditar
que ele tinha sido cego e começara a ver.
Chamaram então os pais dele e perguntaram-lhes:
«É este o vosso filho? É verdade que nasceu cego?
Como é que agora vê?»
Os pais responderam:
«Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego;
mas não sabemos como é que ele agora vê,
nem sabemos quem lhe abriu os olhos.
Ele já tem idade para responder: perguntai-lho vós».
Foi por medo que eles deram esta resposta,
porque os judeus tinham decidido expulsar da sinagoga
quem reconhecesse que Jesus era o Messias.
Por isso é que disseram:
«Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós».
Os judeus chamaram outra vez o que tinha sido curado
e disseram-lhe: «Dá glória a Deus.
Nós sabemos que esse homem é pecador».
Ele respondeu: «Se é pecador, não sei.
O que sei é que eu era cego e agora vejo».
Perguntaram-lhe então:
«Que te fez Ele? Como te abriu os olhos?»
O homem replicou:
«Já vos disse e não destes ouvidos.
Porque desejais ouvi-lo novamente?
Também quereis fazer-vos seus discípulos?»
Então insultaram-no e disseram-lhe:
«Tu é que és seu discípulo; nós somos discípulos de Moisés;
mas este, nem sabemos de onde é».
O homem respondeu-lhes:
«Isto é realmente estranho: não sabeis de onde Ele é,
mas a verdade é que Ele me deu a vista.
Ora, nós sabemos que Deus não escuta os pecadores,
mas escuta aqueles que O adoram e fazem a sua vontade.
Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos
a um cego de nascença.
Se Ele não viesse de Deus, nada podia fazer».
Replicaram-lhe então eles:
«Tu nasceste inteiramente em pecado e pretendes ensinar-nos?»
E expulsaram-no.
Jesus soube que o tinham expulsado
e, encontrando-o, disse-lhe:
«Tu acreditas no Filho do homem?»
Ele respondeu-Lhe:
«Senhor, quem é Ele, para que eu acredite?»
Disse-lhe Jesus;
«Já O viste: é Quem está a falar contigo».
O homem prostrou-se diante de Jesus e exclamou:
«Eu creio, Senhor».
Então Jesus disse-lhe:
«Eu vim para exercer um juízo:
os que não vêem ficarão a ver;
os que vêem ficarão cegos».
Alguns fariseus que estavam com Ele, ouvindo isto,
perguntaram-Lhe:
«Nós também somos cegos?»
Respondeu-lhes Jesus:
«Se fôsseis cegos, não teríeis pecado.
Mas como agora dizeis: 'Não vemos',
o vosso pecado permanece».

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