Perdoar e Esquecer
Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'
O Perdão e a Promessa
Hannah Arendt, in 'A Condição Humana'
As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
Perdoar e Esquecer
| Sítio do costume, hora do costume |
| Kyoto, Novembro 2018 |
JdB
* publicado originalmente a 27 de Dezembro de 2018
EVANGELHO - Mt 14,13-21
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
quando Jesus ouviu dizer que João Baptista tinha sido morto,
retirou-Se num barco para um local deserto e afastado.
Mas logo que as multidões o souberam,
deixando as suas cidades, seguiram-n'O a pé.
Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão
e, cheio de compaixão, curou os seus doentes.
Ao cair da tarde, os discípulos aproximaram-se de Jesus
e disseram-Lhe:
"Este local é deserto e a hora avançada.
Manda embora toda esta gente,
para que vá às aldeias comprar alimento".
Mas Jesus respondeu-lhes:
"Não precisam de se ir embora; dai-lhes vós de comer".
Disseram-Lhe eles:
"Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes".
Disse Jesus: "Trazei-mos cá".
Ordenou então à multidão que se sentasse na relva.
Tomou os cinco pães e os dois peixes,
ergueu os olhos ao Céu e recitou a bênção.
Depois partiu os pães e deu-os aos discípulos
e os discípulos deram-nos à multidão.
Todos comeram e ficaram saciados.
E, dos pedaços que sobraram, encheram doze cestos.
Alcácer do Sal, Janeiro de 2021
Alcácer que vier
Em Alcácer eram verdes
as aves do pensamento.
Eram tão leves tão leves
como as lanternas do vento.
os cavalos encarnados.
Eram tão fortes tão negros
como os punhos decepados.
as armas que eu inventei.
Eram tão leves tão leves
tão leves que nem eu sei.
os homens que não voltaram.
Eram tão verdes tão verdes
como os campos que deixaram.
as maçãs feitas de lume.
Eram tão frias tão frias
como as dobras do ciúme.
estas palavras que agora
são tão caladas tão cernes
tão feitas desta demora.
as flores da sepultura.
Eram tão verdes tão verdes
tão verdes como a loucura.
meu amor o teu olhar.
Era tão verde tão verde
quase à beira de cegar.
os lençóis onde morri.
Eram tão frios tão verdes
como os campos que eu não vi.
as feridas do meu país.
Eram tão fundas tão verdes
como este mal de raiz.
125 poemas
antologia poética
litexa
1982
PAIS DUAS VEZES
Felizmente que nos 365 dias do ano consagrou-se um dia para festejar os avós – o 26 de Julho –, associando à festa dos avós de um neto famosíssimo!...
Nas divertidas colectâneas de conselhos dados por crianças, uma canadiana pequenina aconselhava os amigos a arranjar uma avó, se tivessem o azar de não haver disponíveis na família. De facto, muitas das melhores memórias da nossa infância estão associadas aos avós, aqueles pilares de ternura e de humor, que ajudaram a forjar a nossa identidade. Talvez sejam a memória que escolhemos para criarmos raízes e crescermos saudavelmente, cientes de serem aquele porto seguro, onde podemos abrigar-nos e recuperar forças, sentido até! Um testemunho reconhecível para muitos reza assim: ‘Quando jovem, não tinha tempo para os meus pais, mas amava muito os meus avós. Quando velho meus filhos não têm tempo para mim, mas sou amado pelos meus netos.’ É misterioso por que já só os apanhamos num ciclo mais avançado de vida, mais breve.
As estatísticas confirmam o papel dos avós como educadores, chegando a assumir o papel principal em milhões de famílias, por anos a fio, sobretudo quando os pais precisam de emigrar para outro país ou outra região. Isto sem falar das rotinas mais comuns, de lhes caber ir buscar os netos à escola, de serem os confidentes ideias, além da sua arte para manterem a família unida.
| Relato gráfico do episódio de Timurid, o Conquistador, a procurar o conselho da avó. |
A ARTE DOS AVÓS
«Os avós são mestres de uma arte esplêndida e rara: a arte de ser.
Os avós sabem tornar um mero encontro quotidiano numa apetitosa celebração. Sabem olhar e olhar-nos sem pressas, vendo-nos esperançosamente mais adiante. Sabem dar valor às coisas de nada.
Nunca consideram que quando se entretêm connosco estão a perder tempo, muito pelo contrário. Sabem que o amor dá-se bem com essa gratuita co-divisão.
Os avós são docemente silenciosos, mesmo se muito tagarelas.
Os avós parecem distraídos, e isso é bom.
Os avós caminham a nosso lado sem pressa. Têm tanto de distante como de próximo no arco do tempo. Têm uma sabedoria que se expressa por histórias calorosas e não por conceitos. Têm uma memória que nos parece inesgotável, cheia de aventuras, de bagatelas e de detalhes para divertir. Têm armários carregados de objetos (alguns incompreensíveis) que nos põem a sonhar. Apresentam-nos a gostos e a sabores que passamos a identificar com eles. Os avós já foram muitas vezes aos lugares onde nos levam pela primeira vez.
Chamam a atenção para coisas incalculáveis, como a forma de uma nuvem ou a cor diferente que ganham as folhas. Ensinam-nos com serenidade, colocando-se a nosso lado. Nunca acham despropositada a fantasia, nem os medos, nem o mimo. Têm o sentido das pequenas coisas e colos onde cabem as grandes.
Eles não separam, como o resto das pessoas, aquilo que é útil do que é inútil. Fazem-nos sentir que é assim, que já passaram por isso e que existe uma solução que nos vão revelar, só a nós, como um grande segredo.
Amparam os nossos desequilíbrios com o corrimão invisível e seguro do seu afeto, disponíveis degrau a degrau. Adivinham o que não dizemos sem se confundirem com a nossa confusão.
Quando não estão connosco, pensam em nós, repetem aos amigos as frases que dissemos, disputam-nos, orgulham-se de coisas parvas, como o modo como sorrimos ou respiramos.
Penso que se sentimos tão intensamente que os devemos salvar é porque percebemos, desde muito cedo, que somos salvos por eles.»
Por ocasião do Dia dos Avós, Leão XIV deu cinco recados aos mais velhos: há sempre alguém que nunca os esquece e os ama incondicionalmente, começando por Deus; são muito mais do que a sua provecta idade e as eventuais fragilidades, pois cada indivíduo continua a ser único e insubstituível, exactamente como quando estava na força da vida; nunca é tarde para recomeçarem e tentarem fazer melhor; a vulnerabilidade não devia assustá-los, pois o crescimento interior não é um exclusivo dos novos; por fim, as suas orações são valiosíssimas, assim como marcantes os seus gestos de amor com a família e com outros. A própria Organização Mundial de Saúde emitiu, recentemente, uma recomendação, que valoriza o papel dos idosos, quando desaceleram, recuperando um ritmo tranquilo, capaz de saborear melhor a vida: ‘reduz o risco de demência gastar mais tempo à mesa, com a família e os amigos’ e praticar o diálogo inter-geracional.
J.R. Tolkien recomendava: «Não despreze a tradição que vem de anos longínquos; talvez as velhas avós guardem na memória relatos sobre coisas que alguma vez foram úteis para o conhecimento dos sábios.» E Churchill, aconselhando a recuar às gerações que nos precederam, deixou este conselho lapidar à jovem rainha Isabel II: «The farther backward you can look, the farther forward you can see». Vivam os avós e a sabedoria imensa do seu legado vitamínico!
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| Algarve, ontem, cerca das 20.30h |
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| Algarve, ontem, cerca das 20.30h |
Tal como milhões de outras pessoas, em Portugal ou na Europa, tenho vindo a viver sob o signo do calor. Ao contrário de muitos outros, no entanto, passei o mês quente de Julho em condições favoráveis, numa casa confortável, suficientemente perto de uma praia algarvia para se dispensar o carro, rodeado de ar condicionado, piscina e cerveja gelada, em a querendo. Apesar disso, deste burguesismo que consola o corpo, sofro com o calor. Atento na minha temperatura de conforto e percebo que posso estar 15ºC acima do que considero digno para um homem com um termostato próprio.
Não se liga muito aos que sofrem com o calor; na verdade, acha-se um bizarria - pode perceber-se, mas não deixa de ser uma bizarria. A sociologia (ou outra ciência semelhante) ou talvez mesmo a história das nações concorre para esta ideia. De facto, o sofrimento com o calor é esquisitice; já o sofrimento com o frio pode ser pobreza. Salvo em condições especiais - e tem havido casos - morre-se menos com o calor do que com o frio. Pode não ser preciso nada para se manter uma casa moderadamente fresca no pinho do Verão mas, no pico do Inverno será preciso recorrer a equipamentos e incorrer em despesas mensais para manter a casa moderadamente quente. E muitas das pessoas que morrem por efeitos do calor terão sido vítimas de descuido - pouca hidratação, golpes de calor excessivos para idades avanças, demasiado sol. O raciocínio não é replicável para as pessoas que morrem de frio, ou que vivem em pobreza energética. Por último, a uma criança com calor dá-se um cornetto e a vida segue em frente; ninguém aceita que uma criança tenha frio.
Sim, tenho cerveja gelada, ar condicionado, piscina, praia a oito minutos de caminhada lenta. Sou um privilegiado. Porém, não obstante, sofro com o calor...
JdB
EVANGELHO - Mt 13,44-52
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
disse Jesus às multidões:
"O reino dos Céus é semelhante
a um tesouro escondido num campo.
O homem que o encontrou tornou a escondê-lo
e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía
e comprou aquele campo.
O reino dos Céus é semelhante
a um negociante que procura pérolas preciosas.
Ao encontrar uma de grande valor,
foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola.
O reino dos Céus é semelhante
a uma rede que, lançada ao mar,
apanha toda a espécie de peixes.
Logo que se enche, puxam-na para a praia
e, sentando-se, escolhem os bons para os cestos
e o que não presta deitam-no fora.
Assim será no fim do mundo:
os Anjos sairão a separar os maus do meio dos justos
e a lançá-los na fornalha ardente.
Aí haverá choro e ranger de dentes.
Entendestes tudo isto?"
Eles responderam-Lhe: "Entendemos".
Disse-lhes então Jesus:
"Por isso, todo o escriba instruído sobre o reino dos Céus
é semelhante a um pai de família
que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas".
Ouve-se falar na reforma da Justiça. Será reforma por inteiro?
Vales à caixa... torácica. Entre os "peitos" das senhoras forma-se como que um vale. Nalguns casos pode ser considerado Silicone Valley.
O príncipe era tão feio que a Cinderela saiu à dez e meia.
Adivinha: o que tinham em comum Adão e Eça de Queiroz? Ambos eram filhos de mães incógnitas.
Tédio. Há tempos tive de ir a um hospital para fazer vários exames; a páginas tantas diz-me uma enfermeira: tem aqui esta aguinha para bocejar.
SdB (I)
Férias: Dieta da alma para o encontro com Deus, consigo e com quem está esquecido
A minha própria natureza e as várias circunstâncias da vida - nomeadamente andar muito menos de carro de há quase 20 anos para cá, o que implica que ouça menos telefonia - levam a que esteja pouco atento ao que se produz de música em Portugal. Nesse sentido, acompanhei muito pouco - talvez mesmo nada! - a produção musical de Luís Represas na sua fase pós-Trovante (em 1990, mais coisa menos coisa).
Nunca fui um indefectível dos Trovante, nunca fui um crítico dos Trovante. Ouvia o que gostava - e ouvia pouco, confesso. As músicas que aqui posto em jeito de homenagem musical não serão as melhores, seguramente, mas são as de que me lembro mais - e com gosto. Vila Viçosa e Timor unidos pela voz de Luís Represas.
JdB