Em suas casas cheira a tomilho a limpo a lavanda a palavras antigas
Mesmo vivendo em Paris vive-se sempre na província quando se vive demais
Será de tanto terem rido que as suas vozes encarquilham quando falam de ontem
E de tanto terem chorado que lágrimas esquecidas lhes orvalham as pálpebras
E se tremem um pouco será por verem envelhecer o relógio de prata
Que ronrona na sala que ora diz sim ora diz não e diz por vós espero
O gatinho morreu o moscatel dos domingos já os não faz cantar
Os velhos já não mexem os seus gestos são todos rugas o seu mundo é tão pequeno
Da cama para a janela depois da cama para a poltrona por fim da cama para a cama
E se ainda vêm à rua de braço dado envoltos num manto hirto
É para acompanhar pelo sol o enterro de um mais velho o enterro de uma mais feia
E enquanto dura um soluço esquecer por uma hora o relógio de prata
Que ronrona na sala que ora diz sim ora diz não e por eles espera
Dão a mão um ao outro receiam perder-se e todavia perdem-se
E o outro para ali fica o melhor ou o pior o meigo ou o severo
Pouco importa porque aquele que fica acorda num inferno
Vê-lo-emos por vezes à chuva e à mágoa
Atravessar o presente pedindo perdão por não estar já mais além
E uma última vez fugir de nós o relógio de prata
Que ronrona na sala que ora diz sim ora diz não e lhe diz por ti espero
Que ronrona na sal que ora diz sim ora diz não e que por fim nos espera
antologia poética
trad. eduardo maia
assírio & alvim
1997