08 maio 2026

Poemas dos dias que correm

As regras do jogo 

Devias superar algumas provas,
e não era difícil ires ganhando
as batalhas de engenho, habilidade,
reflexos, determinação ou força
que a minha vaidade te ia impondo.
Acompanhavas bem o jogo, parecia
quase um conto de príncipes e fadas.
Mas estragaste tudo. Preferiste
a primeira e sedutora bruxa
que te mostrou um atalho para o tesouro.  
 
amalia bautista
trevo
tradução de inês dias
averno
2021

06 maio 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 CINEMA E MÚSICA   

Quem queira mergulhar em bons decores italianos, aproveite o último filme de Torrentino – «LA GRAZIA» – com alguns bons diálogos, óptimos desempenhos, mas q.b. descosido na trama, numa amálgama de apontamentos engraçados recolhidos ao longo do tempo, difíceis de conjugar coerentemente no mesmo argumento. Ainda por cima, está marcado por uma agenda semi woke cansativa e algo manipulativa, repetindo as críticas típicas de quem nasceu e cresceu em sociedades marcadas por valores cristãos, mas tornados incompreensíveis (sobretudo, intraduzíveis) para quem não tem fé. É especialmente confrangedora e irritante a cena com a visita de um Presidente português ao Quirinal, de andar cambaleante, olhar vago, típicos de uma idade excessivamente avançada, imprópria para cargos públicos, menos ainda de responsabilidade! O ar acabado do estrangeiro dá azo a um tombo inusitado numa visita de Estado. Só um soldado da formatura o socorre, face à inépcia do assessor com o guarda-chuva, que não consegue chegar a tempo de nada! Inaceitável, mas para ser lido como mais uma das metáforas bizarras e desgarradas de Sorrentino, integrada numa sequência de imagens poéticas e primorosamente fotografadas. Chuva, rajadas de vento, gente a desequilibrar-se, tudo sai da câmara do realizador italiano com poesia e um toque de humor embaraçoso.      

Os ambientes resultam nos grandes protagonistas de «LA GRAZIA», cujo título evoca os indultos concedidos pelos mais altos dignitários de um país, em fim de mandato ou em ocasiões especiais. 

Rodado na salas à meia luz do Palácio do Quirinal, onde vivem e trabalham os Presidentes de Itália, o filme abre-nos o escritório-biblioteca, os terraços soberbos de onde se avista Roma em 360º, os corredores de mármores deslumbrantes (como só os italianos), os pátios de colunatas de pedra, os portões antigos e os bastidores da vida de um presidente em fim de carreira. Nas antepenúltimas imagens, percorremos a Via Condotti, ficando à vista da Piazza d’España e Trinita dei Monti, no regresso a casa, após sair do Quirinal. É interessante o passeio a pé até casa, aproximando-se da condição do cidadão comum.   

Em Portugal, algumas curta-metragens têm merecidos prémios, como o filme de Marta Reis Andrade «CÃO SOZINHO», considerada a Melhor Curta nos Prémios Quirino de Animação Ibero-Americana, entre outras distinções internacionais. Conquistou também o Grande Prémio CINANIMA 2025. A solidão dá tema a esta coprodução luso-francesa, baseando-se na experiência da realizadora e da sua avó, apesar de estarem rodeadas de pessoas:  

Outro filme galardoado na Monstrinha do Monstra 2026, com o Prémio do Público, é o «O BORDEIRA – ZÉ». Corresponde à criação do animador 2D e ilustrador Francisco Valle, que criou sozinho, ao longo de um ano, o videoclip da Bordeira Associados (Bordeira/Basset Hounds) para ilustrar a música «ZÉ», de homenagem ao sobrinho do músico António Vieira. Concebida como uma fotografia sonora, a obra pretende condensar as melhores memórias da infância feliz do compositor e do seu irmão: “O nascimento do meu sobrinho “Zé” soou como uma badalada do tempo que passou, mas também do enorme futuro que ele tem pela frente. Sendo filho do meu irmão, também chamado “Zé”, senti a necessidade de homenagear os dois, fazendo uma recolha das nossas memórias e do imaginário de Aljezur, partilhado durante a infância (…), para que possam guardar e lembrar que há um lugar onde podem ser sempre felizes.”  
Inspirando-se na terra da infância do músico, a curta-metragem mergulha na cidade algarvia junto ao atlântico – Aljezur. Mar, praia (da Bordeira), barcos, tradições locais e até imagens de arquivo (sobretudo, a partir do min. 2:57) fluem neste filme, que nos traz o cheiro fresco da maresia: 

 
Para boa música são incontornáveis as composições de sons profundos de António Olaio, onde desagua uma miscelânea de influências, que ressoam a Leonardo Cohen!  Não é fácil de adivinhar que provêm de um músico português (na primeira composição, em parceria com o britânico Richard Strange): 

Concluir com sons de hoje, compostos em Portugal e a lembrarem Cohen, é uma feliz acumulação de sucessos!

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

05 maio 2026

Textos dos dias que correm

 (...)

Na vida da generalidade das pessoas, até uma determinada altura olha-se para o mundo – as pontes, a música, a pintura, os contratos de trabalho ou de arrendamento - com os olhos de uma relativa ignorância. As coisas agradam-nos, soam-nos bem, parecem-nos correctas. Há um primeiro olhar, digamos, não técnico. Vinga a nossa sensibilidade, a nossa perspicácia e também, nalguns casos, os genes que nos fazem dar mais atenção a alguns pormenores. No seguimento normal da vida das pessoas aparecem os cursos, as formações, a entrada no nosso cérebro de informação científica transmitida por quem se supõe saber mais. As doses de conhecimento são dadas gradualmente, de acordo com critérios pedagógicos, para que tudo fique retido e possa ser aplicado posteriormente.

A partir de uma dada altura já não olhamos para as mesmas coisas com os mesmos olhos: o engenheiro atravessa a ponte sabendo os cálculos que foram feitos para suportar as cargas previsíveis. A ponte deixou de ser uma bonita obra de arquitectura para passar a ser um conjunto de cálculos, uma sucessão enorme de equações matemáticas onde entram a resistências dos materiais, a predominância dos ventos e das correntes, a circulação estatística das viaturas multiplicada por um coeficiente de segurança. 

A partir de uma dada altura, para assemelharmos a frase ao raciocínio, o músico já não ouve apenas uma peça musical. Para ele, e sobretudo para ele, que estudou essas matérias, há notas dominantes, influências identificáveis no tempo, melodias que o naipe de metais ressalta, os instrumentos de corda abafam, os coros sublinham. Deixou de ser apenas uma peça audível, para ser o produto da técnica da composição e da criatividade do autor.

Há, portanto, uma dimensão científica, profissional, académica, que só os iniciados encontram naquilo que observam – seja uma ponte ou uma sinfonia.

Como é que um padre olha para uma mulher? Existe seguramente, na mente de muitos, uma injustiça ao nível do entendimento versus acesso. A partir do momento em que se forma na escola do direito, o outrora universitário, agora licenciado, olha para o contrato, entende-o, domina-o, converte-o em benefício do seu cliente, não esquecendo a ética profissional. Com o entendimento (também) vem o acesso, a possibilidade de uso, sendo que a expressão tem aqui a sua dimensão mais nobre. É fácil entender que esta aproximação de ideias se aplica ao músico ou ao engenheiro, este na construção da ponte, aquele na composição da sinfonia.

Onde está, então, a injustiça? Enquanto não profissional, digamos assim, o sacerdote pode fruir a mulher, tendo dela o entendimento e a compreensão que a maturidade lhe confere. Ao aceder ao nível superior, isto é, ao estudar a matéria que lhe permite o entendimento da alma humana e, assim, da mulher, ainda que com as especificidades inerentes, é-lhe retirado, gradualmente, o acesso ao objecto estudado. O engenheiro é-o na sua plenitude legal e afaga o ferro com que se construirá a ponte. Estabelece-se entre ambos uma relação próxima, íntima, sem mais segredos do que aqueles que advêm de algum desconhecimento que sempre existe.

O sacerdote, ao contrário, faz votos, estabelece imediatamente uma distância entre si e o corpo daqueles que são a sua preocupação primária. O músico passa os dedos por uma partitura, corre o arco sobre as cordas do violoncelo, retira-lhe o som sublime da tristeza. O padre, por seu lado, conforta a alma, que alguns afiançam não existir, outros sustentam não ter opinião, havendo um número significativo que crê nelas. No entanto, a alma não se palpa, por não ser corpórea. 

(...)

António Costa Carlos, in Subsídios para a Materialidade das Profissões (2012, edição do autor)


03 maio 2026

V Domingo da Páscoa

EVANGELHO – João 14,1-12

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
«Não se perturbe o vosso coração.
Se acreditais em Deus, acreditai também em Mim.
Em casa de meu Pai há muitas moradas;
se assim não fosse, Eu vo-lo teria dito.
Vou preparar vos um lugar
e virei novamente para vos levar comigo,
para que, onde Eu estou, estejais vós também.
Para onde Eu vou, conheceis o caminho».
Disse Lhe Tomé:
«Senhor, não sabemos para onde vais:
como podemos conhecer o caminho?»
Respondeu lhe Jesus:
«Eu sou o caminho, a verdade e a vida.
Ninguém vai ao Pai senão por Mim.
Se Me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai.
Mas desde agora já O conheceis e já O vistes».
Disse Lhe Filipe:
«Senhor, mostra nos o Pai e isto nos basta».
Respondeu lhe Jesus:
«Há tanto tempo que estou convosco
e não Me conheces, Filipe?
Quem Me vê, vê o Pai.
Como podes tu dizer: ‘Mostra nos o Pai’?
Não acreditas que Eu estou no Pai e o Pai está em Mim?
As palavras que Eu vos digo, não as digo por Mim próprio;
mas é o Pai, permanecendo em Mim, que faz as obras.
Acreditai Me: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim;
acreditai ao menos pelas minhas obras.
Em verdade, em verdade vos digo:
quem acredita em Mim fará também as obras que Eu faço
e fará ainda maiores que estas,
porque Eu vou para o Pai».

02 maio 2026

Pensamentos Impensados

Quando Lázaro ressuscitou alguém disse: não há duas sem três. Lázaro só disse: livra!

Praga é a capital da República Checa. Lisboa é a capital da República choca.

Os bipolares necessitam de tomar lítio, sendo, por vezes, apanhados em flagrante de lítio; se caírem no chão, são apanhados em flagrante delíquio. O Fernando Pessoa era apanhado em flagrante de litro (dito pelo próprio).

Retenção de urinas é uma espécie de retenção na fonte.

"Human rights" toda a gente sabe o que é; haverá "human lefts" para protecção dos canhotos?

SdB (I) 

01 maio 2026

Textos dos dias que correm

 Acho que, na maioria dos casos, quando uma pessoa se ri torna-se nojento olharmos para ela. Manifesta-se no riso das pessoas, na maioria das vezes, qualquer coisa de grosseiro que humilha a quem ri, embora essa pessoa quase nunca saiba que efeito o seu riso provoca. Tal como não sabe (ninguém sabe, aliás) a cara que faz quando dorme. Há quem mantenha no sono uma cara inteligente, mas outros há que, embora inteligentes, fazem uma cara tão estúpida a dormir que se torna ridícula. 

Não sei por que tal acontece, apenas quero salientar que a pessoa que ri, tal como a pessoa que dorme, não sabe a cara que faz. De uma maneira geral, há muitíssimas pessoas que não sabem rir. Aliás, isso não é coisa que se aprenda: é um dom, não se pode aperfeiçoar o riso. A não ser que nos reeduquemos interiormente, que nos desenvolvamos para melhor e que superemos os maus instintos do nosso carácter: então também o riso poderá possivelmente mudar para melhor. A pessoa manifesta no riso aquilo que é, é possível conhecermos num instante todos os seus segredos. 

Mesmo o riso incontestavelmente inteligente é, às vezes, abominável. O riso exige em primeiro lugar sinceridade, mas onde está a sinceridade das pessoas? O riso exige a ausência de maldade, mas as pessoas, na maioria dos casos, riem com maldade. Um riso sincero e sem maldade é uma pura alegria, mas, nos tempos que correm, onde está a alegria? E poderão as pessoas ser alegres? 

A alegria é um dos mais reveladores traços humanos, basta a alegria para revelar as pessoas dos pés à cabeça. Por vezes não há meio de percebermos o carácter de uma pessoa, mas basta ela rir para lhe conhecermos o feitio como às palmas das nossas mãos. Só as pessoas desenvolvidas do modo mais elevado e feliz sabem ser contagiosamente alegres, de uma maneira irresistível e benévola. Não falo de desenvolvimento intelectual, mas de carácter, do homem como um todo. Portanto: se quiserdes compreender uma pessoa e conhecer-lhe a alma não presteis atenção à sua maneira de se calar, ou de falar, ou de chorar, ou de se emocionar com as ideias mais nobres, olhai antes para ela quando se ri. Ri-se bem - é boa pessoa. 

Observai depois todos os matizes: por exemplo, é preciso que o riso não pareça estúpido, por mais alegre e ingénuo que seja. Mal detecteis a mais pequena nota de estupidez num riso, ficai sabendo que a pessoa que assim ri é intelectualmente limitada, apesar de deitar cá para fora um sem-fim de ideias. Mesmo que o riso não seja estúpido, se vos parecer ridículo, nem que seja um pouquinho, ficai sabendo que não há na pessoa que o ri uma verdadeira dignidade, pelo menos uma dignidade suficiente. Por último, notai que, mesmo que um riso seja contagioso mas por qualquer razão vos pareça vulgar, também a natureza dessa pessoa é vulgar, que toda a nobreza e espírito sublime que tínheis visto nela ou são fingidos ou imitados inconscientemente, e que essa pessoa, no futuro, mudará inevitavelmente para pior, dedicar-se-á ao «útil», abandonando sem pena as ideias nobres como sendo erros e paixões da juventude. 

(...) Apenas entendo que o riso é a mais certeira prova da alma. Olhai para uma criança: só as crianças sabem rir com perfeição, por isso são fascinantes. É abominável a criança que chora, mas a que ri alegremente é um raio do paraíso, é o futuro do homem quando ele, finalmente, se tornar tão puro e ingénuo como uma criança. 

Fiodor Dostoievski, in 'O Adolescente'

29 abril 2026

Das saudades de quando éramos pequenos *


Praia d'El Rey vista por um iPhone, 6ªfeira, 28 de Maio, pelas 20.00h

No seu ensaio intitulado Meden Agan, Álvaro T Monteiro fala sobre a iminente partida da mãe, dizendo que na morte dela vê a morte de todos os que lhe são mais próximos. Perante uma óbvia tristeza, remata: "são as saudades de quando éramos pequenos." Não há filosofia elaborada nestes dois pensamentos; não há ideias de além, de reencontros, de eternidade; não há dimensão de fé ou da sua inversa. Há, nestas duas frases que refiro / cito, uma humanidade singela, uma fragilidade terrena que só sente quem vê o mundo expandir-se (passe a contradição) até ficar do tamanho da sua infância. Num repente, são as memórias de "quando éramos pequenos" que ocupam todo o espaço de uma tela, o branco de uma página de livro, as quatorze linhas de um soneto, a infinidade de sinapses. Há um instante onde estas memórias absorvem tudo para, no instante seguinte, serem arrebatadas por uma viagem de onde não se regressa a não ser no formato fotografia, filme, roupa pendurada num armário, recibo da farmácia. Ou talvez não só.

O assunto não vem a despropósito: ontem, ao escrever este texto, cruzei-me com um artigo onde o autor mencionava sons - no caso vertente, um galo a cantar de manhã, um cão a ladrar ao fim da tarde. E falava da arqueologia que evidencia uma armadura ou um ânfora, mas que não consegue evidenciar um som. Todos temos esta incapacidade de transmitirmos aos que nos sucedem na vida e nas gerações, por mais próximos que sejam em afecto e / ou sangue, o que são os sons e os cheiros que colamos à frase são as saudades de quando éramos pequenos. Evidenciamos um casaco, um par de sapatos, uma carta antiga, um livro dedicado. Mas como explicamos o som das gaivotas a perseguirem os barcos que regressam da faina? Como descrevemos o cheiro dos eucaliptos outonais ou das compotas ou do peixe-espada grelhado ao estalar do verão? Como explicamos os sons e os cheiros da praia, dos fins de tarde, das noites quentes, das férias grandes, das famílias todas felizes e inteiras e cá?

Penso que o jogo da apanhada atravessa gerações. Há alguém que foge, há alguém que persegue. Ganha quem chegar ao sítio certo e gritar "coito!", porque ali está em segurança, ali ganhou o jogo, ali não é mais perseguido ou agarrado por um fralda de camisa. Os sons e os cheiros de quando éramos pequenos são o coito das apanhadas dos adultos. É aí que nos refugiamos quando um telefonema quebra a largueza do céu que prolonga o mar e instala uma nota desajustada na afinação do dia. Quando a alma se enregela a partir de fora, é aí que buscamos conforto, porque os cheiros e os sons da nossa infância são o agasalho que nos protege. 

São as saudades de quando éramos pequenos...

JdB  

* publicado originalmente a 31 de Agosto de 2015

28 abril 2026

Joana *

Deve ter sido o cheiro do quarto. Ou a cor da paisagem das janelas. Ontem lembrei-me de ti. No início nem foi lembrança, foi como se nunca tivesses existido. Foi como quem relê um livro esquecido e recorda vagamente que já tinha imaginado, a conta gotas, todos aqueles lugares. Todos aqueles sorrisos. Depois veio tudo de uma vez.

Cantavas com a tua imitação de sotaque baiano as músicas da rádio, muito afinadinha, e pedias-me que te ensinasse os acordes. Cheiravas sempre a protector solar e nunca me negavas um sorriso, a mim, o rei dos tolos. Abraçavas-me por trás sem pedir licença e ignoravas a minha indiferença. Tinhas um coração grande de mais no peito, grande demais para mim, pelo menos.

Nunca te deixaste cair, apesar dos dias insistirem em seguir a regra, apesar de eu continuar a arranjar maneira de te afogar as ideias em seco. Mandavas-me bilhetes a dizer que era eu que te dava asas e desenhavas joaninhas para explicar melhor. Não guardei nenhum.

Depois veio o vendaval que foi e eu percebi tudo. Levaram-te o coração, as asas e a música. Nunca me perdoei, sabes? Tu ainda me agradeceste, com os olhos a brilhar, e eu a saber que era tarde demais para te valer. Para nos valer.

Acabou por ser o medo a entalar-me as palavras na garganta e a arrumar-te no fundo da gaveta das recordações. Sempre o mesmo medo.

ZdT

* publicado originalmente a 20 de Julho de 2010

26 abril 2026

IV Domingo da Páscoa

 EVANGELHO – João 10,1-10

Naquele tempo, disse Jesus:
«Em verdade, em verdade vos digo:
Aquele que não entra no aprisco das ovelhas pela porta,
mas entra por outro lado,
é ladrão e salteador.
Mas aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas.
0 porteiro abre lhe a porta e as ovelhas conhecem a sua voz.
Ele chama cada uma delas pelo seu nome e leva as para fora.
Depois de ter feito sair todas as que lhe pertencem,
caminha à sua frente
e as ovelhas seguem-no, porque conhecem a sua voz.
Se for um estranho, não o seguem, mas fogem dele,
porque não conhecem a voz dos estranhos».
Jesus apresentou lhes esta comparação,
mas eles não compreenderam o que queria dizer.
Jesus continuo: «Em verdade, em verdade vos digo:
Eu sou a porta das ovelhas.
Aqueles que vieram antes de Mim são ladrões e salteadores,
mas as ovelhas não os escutaram.
Eu sou a porta.
Quem entrar por Mim será salvo:
é como a ovelha que entra e sai do aprisco e encontra pastagem.
O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir.
Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida
e a tenham em abundância».


25 abril 2026

Pensamentos Impensados

What's in a name. Nasceu numa família pobre e cedo foi engrossar as hostes do trabalho infantil; começou como trolha, depois tornou-se pedreiro e o passo seguinte lógico foi ascender a pato-bravo. Quando nasceu e o registaram puseram-lhe o nome de Henrique Cimento.

Justiça. Há regiões nos países muçulmanos onde não se pode aplicar a pena de morte por lapidação; o deserto do Saara, por exemplo.

Tratamento. Parece que beber água é bom para quem tem pedras nos rins; daí...água mole em pedra dura...

Botânica. A couve-flor pode ser considerada verdura?

Nas Missas, por alturas do Ofertório, recolhem-se os donativos dos fieis; não é considerado recolher obrigatório.

Aos homens-estátua dá-se dinheiro para não fazerem nada; o mesmo se passa com alguns políticos.

SdB (I)

24 abril 2026

Poemas dos dias que correm

Bilhete Postal

tenho um livro (em branco) na mala do carro
esplêndido photomaton destes meses (também eles brancos)
tal como estes versos (de rima branca)
e uns tantos poemas ainda por escrever (brancos).

não sei bem porquê, mas é alva a memória que guardo
das paredes de tua casa,
dos livros que nela guardas,
da ponta dos teus cigarros,
da quase não-cor da tua bebida preferida,
das minhas palavras a mais
das tuas palavras a menos
- e de mais umas quantas coisas que não vou aqui escrever
(o poeta a que falta coragem é, também ele, um poeta em branco).

só os teus olhos não eram brancos, 
antes de uma impossível cor de avelã,
mas disso, ou também disso,
não tenho eu qualquer culpa.

é como gostar de uma canção: 
há coisas que não se explicam,
coisas que não precisam de explicação,

coisas simples que simplesmente são.
ou então não.

mas em tudo o que não é
há ainda uma vertical vitória
dos sonhos que caíram
como árvores:
impecavelmente lúcidas,
morrendo de pé.

ou pelo seu próprio pé. 


gi.

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