13 março 2026

Poemas dos dias que correm

A mesma chuva de sempre

Voltamos para casa tarde
(a cama: ainda
por fazer)
o lençol afeiçoado àquele
vinco da manhã e
percebo pela imagem como assentimos a pressa
como o
dia é uma partida com a meia cinzenta rota
no dedo grande do pé. Eu e
o cadeirão de madeira gastamos o
mesmo número de ombros
(hoje usou o dia inteiro a
minha camisa aos quadrados).
O fim de tarde repousa em vasilhas
junto à entrada no
canto da sala onde fomos deixando apinhoar o
monte de jornais antigos com recortes por fazer
(na nódoa que
assentimos: passasse a ser parte integrante do
padrão do sofá)
no cabelo que imolaste ao
meu lado do lençol testemunhando que ontem
ontem sim
ontem sim. A
felicidade entra em casa em sacos de hipermercado –
está de volta o estranhamento de
fugaz tranquilidade por
sabermos que o ruído que insiste sobre o telhado
não
é o céu a cair
(não são anjos a chorar)
são apenas os acordes da
mesma
chuva de sempre. 

João Luís Barreto Guimarães
rés-do-chão (2003)
o tempo avança por sílabas
poemas escolhidos
quetzal
2019

12 março 2026

Artificialidades dos dias que correm

 

Não posso ter a certeza, mas as evidências apontam para que tudo isto seja produto de inteligência artificial: a música, a letra, a interpretação, o filme. Se assim for, talvez a grande ameaça aos compositores e autores não seja se a plataforma onde divulgam a sua música paga bem ou mal, se as pessoas descarregam músicas sem que os autores recebem os devidos direitos. A grande ameaça talvez seja a criatividade artificial. A música é bonita, a interpretação é bonita, a letra é razoável, quase boa. 

Um dia destes uma pessoa ao meu lado, com um smartphone mais do que modesto, criou uma música muito aceitável, com uma interpretação muito aceitável. Nada era da pessoa que estava ao meu lado, com excepção do telemóvel - a inteligência artificial fez tudo, da letra à música passando pela interpretação. O momento foi de fascínio. Mas eu não sou músico...

JdB 

11 março 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 LEGADOS DE PINTORA E DE CHOPIN 

Aos olhos de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1993), pintura é cor. Foi a definição sumária que a pintora portuguesa deu à jornalista francesa sua amiga, Anne Philipe, registada no livro «O FULGOR DA LUZ». Isso explica por que deixou como legado aos amigos uma palete de cores, a melhor que conhecia. Nesse testamento simbólico e informal, descoberto postumamente, desfiou a ligação de cada tom à vida, pois encontrava neles pedaços importantes da realidade, que valia a pena partilhar:  

«TESTAMENT 

Je lègue à mes amis 
Un bleu céruléum pour voler haut 
Un bleu de cobalt pour le bonheur 
Un bleu d’outremer pour stimuler l’esprit 
Un vermillon pour faire circuler le sang allègrement 
Un vert mousse pour apaiser les nerfs 
Un jaune d’or…richesse 
Un violet de cobalt pour la rêverie 
Une garance qui fait entendre le violoncelle 
Un jaune barite: science-fiction, brillance, éclat 
Un ocre jaune pour accepter la terre 
Un vert Véronèse pour la mémoire du printemps 
Un indigo pour pouvoir accorder l’esprit à l’orage 
Un orange pour exercer la vue d’un citronnier au loin 
Un jaune citron pour la grâce 
Un blanc pur: pureté 
Une terre de Sienne naturelle: la transmutation de l’or 
Un noir somptueux pour voir Titien 
Une terre d’ombre pour mieux accepter la mélancolie noire 
Une terre de Sienne brûlée pour le sentiment de durée.»

-- Versão traduzida --  

«Deixo aos meus amigos
Um azul cerúleo para voar alto.
Um azul cobalto para a felicidade.
Um azul ultramarino para estimular o espírito.
Um vermelhão para o sangue circular alegremente.
Um verde musgo para apaziguar os nervos.
Um amarelo ouro… riqueza.
Um violeta cobalto para o sonho.
Um vermelho-vivo garança para deixar ouvir o violoncelo.
Um amarelo do cristal natural de barite: ficção científica, brilho, resplendor.
Um ocre amarelo para aceitar a terra.
Um verde Veronese para a memória da Primavera.
Um anil para poder afinar o espírito com a tempestade.
Um laranja para exercitar a visão de um limoeiro ao longe.
Um amarelo limão para o encanto.
Um branco puro: pureza.
Terra de siena natural: a transmutação do ouro.
Um preto sumptuoso para ver Ticiano.
Um terra de sombra natural para aceitar melhor a melancolia negra.
Um terra de siena queimada para o sentimento de longevidade.»

Manuscrito descoberto nos papéis de 
Maria Helena Vieira da Silva, após a sua morte. 

Talvez este estranho começo de ano, em que se adensa o ribombar dos tambores de guerra, relembrem outros tempos, outras guerras. Recuando à last good war, começada, formalmente, com a invasão da Polónia, no início de Setembro de 1939, é espantosa a última música emitida pela Rádio Polaca, minutos antes de a sede da empresa ser bombardeada pela Luftwaffe. Era o dia 23 de Setembro de 1939 e actuava, em directo, o pianista polaco judeu Wladyslaw Szpilman, tocando o Nocturno nº 20 de Chopin. Szpilman dedicara a actuação daquele dia ao mais conhecido pianista nascido na Polónia – Chopin (1810-1849) – que tivera o condão de encher a música de poesia e de afectividade. Tratava-se de um acto de resistência simbólica do seu povo contra a invasão nazi, através da arte do compositor romântico, que morreu e foi enterrado em Paris (no Cemitério Père Lachaise), mas quis que o coração fosse trasladado para Varsóvia, onde permanece. Naquele dia de Setembro, o edifício radiofónico ficou demasiado danificado e só pôde reabrir cinco anos depois, estreando-se com o mesmo Nocturno de Chopin, tocado pelo mesmo pianista, que o deixara inacabado, em 1939. 

A feliz escolha daquele Nocturno tornara-se especialmente significativa, pois fora composto, em 1830, como uma relíquia de família, para a irmã mais velha – Ludwika. A ponto de Chopin não ter querido publicá-lo, para não turvar o carácter intimista com que fora concebido: 


A vida aventurosa de Szpilman, que conseguiu escapar às perseguições aos judeus, durante a Segunda Guerra, apesar de viver no olho do furacão, em Varsóvia, inspirou o protagonista do filme «O PIANISTA», de Polanski, também ele de origem polaca e judaica, também ele vitorioso a ludibriar o ocupante nazi. O filme foi lançado dois anos depois da morte de Szpilman.

Władysław Szpilman na sede da Rádio Polaca, em Varsóvia, em 1946.

O protagonista de «O PIANISTA», com feições semelhantes ao próprio Chopin.

Mesmo sem ter sido possível antecipar o tsunami tenebroso, que assolaria a Polónia por mais de 50 anos – primeiro, com a invasão nazi; a partir de 17 de Setembro, com o avanço soviético a Leste, cumprindo o pérfido tratado Ribbentrop-Molotov; perto de um ano depois, acolhia o Campo de Concentração mais mortífero do Reich; de 1945 até à queda do Muro de Berlim (9.NOV.1989), como satélite da URSS, à força e ao preço de sangue inocente – é extraordinário o país ter-se despedido da liberdade com uma composição de Chopin transbordante de intimidade familiar. Fora o último som humano antes de um pesado silêncio.

Precocemente, essa longa noite escura conheceu as primeiras brechas (públicas), em Outubro de 1978, com o imprevisto clamor de Esperança que ecoou da varanda da Basílica de S.Pedro, no Vaticano. A voz potente de um polaco de sorriso aberto despertou o Ocidente do torpor céptico e fez estremecer a Cortina de Ferro com a sua convicção: «Non abbiate paura di accogliere Cristo» (Não tenham medo de acolher Cristo). O tempo mostrou quanto aquele sobressalto luminoso e corajoso iria abanar a mais vasta região do mundo, desde a Europa de Leste até à fronteira asiática onde termina a Rússia. Petrificada no tempo, através da vigilância feroz das versões nacionais da KGB, impunha-se como um império inexpugnável, armado até aos dentes… de ogivas nucleares. Quem diria que caberia a um polaco desarmado dar um contributo inigualável para o esboroar de uma super potência militar. Sem tanques, sem tiros, sem ameaças… ajudou a despoletar a mais inacreditável das revoluções pacíficas que o mundo viveu!   

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

10 março 2026

Da genética *

Nota prévia: muito embora o tema seja da ordem do quotidiano das pessoas, a motivação para este post não é pessoal; apanhei o tema ontem, numa aula, e escrevi-o a correr antes do jantar. 

***

Seguramente que já todos nós dissemos ou ouvimos dizer a frase de alguém referindo-se a um dos seus progenitores: só espero é não ficar como ele / ela... Isto significa que há uma determinada característica ou feitio dos nossos Pais que, de facto, não queremos herdar. Algo que detestamos. Estou certo de que dizemos isto dos nossos Pais, mas não estou certo de que tenhamos consciência que os nossos Pais disseram isto dos Pais deles, porque algumas características são como heranças bem geridas - passam de Pais para filhos. E eles, os nossos Pais, talvez não tivessem querido também ficar com aquela característica.

A genética é tramada. Cabe-nos o melhor e o pior, e é esse melhor e esse pior, temperado - bem ou mal - com outro sangue e com outras circunstâncias, que deixaremos aos nossos filhos. Curiosamente, quando temos consciência de que não queremos herdar determinada característica temos suficiente clareza de espírito e suficiente maturidade para poder avaliar se já temos esse defeito dentro de nós. Mas ,ao dizer só espero é não ficar como ele / ela, estamos a usar uma espécie de desejo pagão ou fezada no destino, como se a genética má estivesse sujeita a encomenda ou fosse uma fatalidade de que gostaríamos de fugir, mas cujo destino não está nas nossas mãos. O problema é que está e, ao olharmos demasiadamente para os nossos Pais naquilo que eles têm de mau, esquecemo-nos que por vezes somos iguais.

Por outro lado, conheço gente suficiente para me ter cruzado com pessoas adictas, com pessoas coléricas, com pessoas que desapareciam da circulação de pai, mães e irmãos para nunca mais terem voltado, com pessoas que mentem sempre. Há um gene que provoca tudo isto ou algumas destas pessoas têm uma enzima a mais ou a menos? Há alguma motivação química por trás de pessoas que partem portas com uma fúria, jogam, bebem ou compram desalmadamente. 

Gosto de pensar que a genética é tramada, mas que felizmente há a genética e que isso depende de características que correm em famílias, não em substâncias desequilibradas nas nossas veias. Não chegarei a esse estado da técnica (não do progresso, porque me parece que não é) mas há o risco de um investigador descobrir a tal enzima e, com isso, diminuir a população de adictos ou coléricos no mundo. Um dia mais tarde eliminamos os preguiçosos em nome da produtividade e, logo logo a seguir, abatemos os orgulhosos ao efectivo, para depois atacar os que precisam de atenção e os que choram com mais facilidade.

JdB 

* publicado originalmente a 15 de Abril de 2016

08 março 2026

III Domingo da Quaresma

 EVANGELHO – João 4,5-42

Naquele tempo,
chegou Jesus a uma cidade da Samaria, chamada Sicar,
junto da propriedade que Jacob tinha dado a seu filho José,
onde estava a fonte de Jacob.
Jesus, cansado da caminhada, sentou Se à beira do poço.
Era por volta do meio dia.
Veio uma mulher da Samaria para tirar água.
Disse lhe Jesus: «Dá Me de beber».
Os discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos.
Respondeu Lhe a samaritana:
«Como é que Tu, sendo judeu,
me pedes de beber, sendo eu samaritana?»
De facto, os judeus não se dão com os samaritanos.
Disse lhe Jesus:
«Se conhecesses o dom de Deus
e quem é Aquele que te diz: ‘Dá Me de beber’,
tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva».
Respondeu Lhe a mulher:
«Senhor, Tu nem sequer tens um balde, e o poço é fundo:
donde Te vem a água viva?
Serás Tu maior do que o nosso pai Jacob,
que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu,
com os seus filhos a os seus rebanhos?»
Disse Lhe Jesus:
«Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede.
Mas aquele que beber da água que Eu lhe der
nunca mais terá sede:
a água que Eu lhe der tornar se á nele uma nascente
que jorra para a vida eterna».
«Senhor, suplicou a mulher dá me dessa água,
para que eu não sinta mais sede
e não tenha de vir aqui buscá-la».
Disse-lhe Jesus:
«Vai chamar o teu marido e volta aqui».
Respondeu-lhe a mulher: «Não tenho marido».
Jesus replicou:
«Disseste bem que não tens marido,
pois tiveste cinco
e aquele que tens agora não é teu marido.
Neste ponto falaste verdade».
Disse-lhe a mulher:
Senhor, vejo que és profeta.
Os nossos antepassados adoraram neste monte
e vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar».
Disse lhe Jesus:
«Mulher, podes acreditar em Mim:
Vai chegar a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai.
Vós adorais o que não conheceis;
nós adoramos o que conhecemos,
porque a salvação vem dos judeus.
Mas vai chegar a hora – e já chegou –
em que os verdadeiros adoradores
hão de adorar o Pai em espírito a verdade,
pois são esses os adoradores que o Pai deseja.
Deus é espírito
e os seus adoradores devem adorá-l’O em espírito e verdade».
Disse Lhe a mulher:
«Eu sei que há de vir o Messias,
isto é, Aquele que chamam Cristo.
Quando vier há de anunciar nos todas as coisas».
Respondeu lhe Jesus:
«Sou Eu, que estou a falar contigo».
Nisto, chegaram os discípulos
e ficaram admirados por Ele estar a falar com aquela mulher,
mas nenhum deles Lhe perguntou:
«Que pretendes?», ou então: «Porque falas com ela?»
A mulher deixou a bilha, correu à cidade e falou a todos:
«Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz.
Não será Ele o Messias?»
Eles saíram da cidade e vieram ter com Jesus.
Entretanto, os discípulos insistiam com Ele, dizendo:
«Mestre, come».
Mas Ele respondeu-lhes:
«Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis».
Os discípulos perguntavam uns aos outros:
«Porventura alguém Lhe trouxe de comer?»
Disse-lhes Jesus:
«O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que me enviou
e realizar a sua obra.
Não dizeis vós que dentro de quatro meses
chegará o tempo da colheita?
Pois bem, Eu digo-vos:
Erguei os olhos e vede os campos,
que já estão loiros para a ceifa.
Já o ceifeira recebe o salário
e recolhe o fruto para a vida eterna
e, deste modo, se alegra o semeador juntamente com o ceifeiro.
Nisto se verifica o ditado:
‘um é o que semeia e outro o que ceifa’.
Eu «mandei-vos ceifar o que não trabalhastes.
Outros trabalharam e vós aproveitais-vos do seu trabalho».
Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus,
por causa da palavra da mulher, que testemunhava:
«Ele disse-me tudo o que eu fiz».
Por isso os samaritanos, quando vieram ao encontro de Jesus,
pediram Lhe que ficasse com eles.
E ficou lá dois dias.
Ao ouvi l’O, muitos acreditaram e diziam à mulher:
«Já não é por causa das tuas palavras que acreditamos.
Nós próprios ouvimos
e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo».

07 março 2026

Pensamentos Impensados

Choque em cadeia - terá a ver com execuções na cadeira eléctrica?

Se alguém for ouvir uma orquestra sinfónica a tocar um Requiem pode dizer que ouviu música ao vivo?

Porque é que o Infante D. Henrique é a figura de proa do Padrão dos Descobrimentos? Porque era o patrão dos descobrimentos.

A galinha pôs ovos de várias cores; vai daí o galo matou o pavão.

Pode ser que alguém se lembre, e possivelmente use, um objecto para escrever a que deram, erradamente, o nome de caneta de tinta permanente. Atendendo a a que volta e meia era preciso enchê-la, deveria ter-se chamado caneta de tinta provisória.

SdB (I)

06 março 2026

Em memória de Lobo Antunes (1942 - 2026)

A Morte pela Solidão

Morrer é quando há um espaço a mais na mesa afastando as cadeiras para disfarçar, percebe-se o desconforto da ausência porque o quadro mais à esquerda e o aparador mais longe, sobretudo o quadro mais à esquerda e o buraco do primeiro prego, em que a moldura não se fixou, à vista, fala-se de maneira diferente esperando uma voz que não chega, come-se de maneira diferente, deixando uma porção na travessa de que ninguém se serve, os cotovelos vizinhos deixam de impedir os nossos e faz-nos falta que impeçam os nossos. 

António Lobo Antunes, in 'Não é Meia Noite Quem Quer'

***

A Vaidade e a Inveja Desaparecem com a Idade

Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: «Quanto é que ele deixou?» O advogado respondeu: «Deixou tudo.» Ninguém é mais pobre do que os mortos. 

António Lobo Antunes, in "Diário de Notícias (2004)"

05 março 2026

Poemas dos dias que correm

Pecados capitais

Cada vez que tive vontade e pude
entreguei-me à gula e à luxúria.
Com a preguiça vivo amancebada.
Só fui seduzida pela avareza
como meio para outros desvios.
Sempre me mostrei irada e soberba,
orgulhosa, arbitrária e teimosa.
Talvez por isso não sentisse inveja.
Tão segura de mim, tão inflexível,
não podia invejar nada nem ninguém.
Hoje, contudo, derrotada e só,
sem esperança e vencida, tão inútil,
sinto inveja de mim quando me amavas. 

amalia bautista
estou ausente
tradução de inês dias
averno
2013


***

a foto

Tira-me uma dessas fotos que tiras,
embacia a objectiva, desfoca
um pouco e mede mal a luz. Agora
que termina o dia não é difícil
eu sair favorecida. Que os traços
se suavizem, que todas as rugas
da alma e do contorno dos olhos
desapareçam e que quem me veja
pense que posso merecer a pena.
E sobretudo, que o que impressione
nessa foto não seja eu, que estou
ali, mas os teus olhos que a tiraram. 

amália bautista
estou ausente
tradução de inês dias
averno
2013

03 março 2026

Da observação *

 

Fotografia de Sebastião Salgado (tira da net)

Um destes dias, num jantar algo inusitado, alguém afirmava mais ou menos isto, em forma de boutade sentida: não estou interessado em cinema; para quê ver a vida dos outros durante duas horas? A frase pode ser entendida de duas formas - a que nos faz sorrir e a que nos faz pensar. Opto pela segunda, porque se assim não fosse nada escreveria sobre o tema. 

No dicionário, ver tem 14 definições; observar tem 13. Equiparam-se, portanto, embora haja um mundo a dividi-las. Ver é uma faculdade de quem não é cego - vemos os comboios passar, vemos o trapezista no circo, vemos um casal a beijar-se, vemos um jogo de futebol. Os exemplos repetem-se até à exaustão. Observar é diferente, é ver o trapezista e perceber-lhe o treino, a agilidade, o arrojo; é ver o casal e imaginar o resto da vida deles reflectido num beijo; é ver os comboios em circulação e encontrar-lhes uma metáfora para a fugacidade da vida. 

Observar, como dizia alguém, é criar um intervalo entre nós e o ser observado. E é criar, neste exercício, uma relação biunívoca que nos altera sem nos alterar. Somos os mesmos, já não sendo os mesmos. A observação é uma aprendizagem; ao observarmos os outros, estamos a observar-nos a nós próprios, não porque sejamos todos iguais, mas porque a observação é algo que se reflecte, que nos sobressalta: quem sou eu, já que aquele é o que é? O que faço eu, já que aquele faz o que faz? Observar é ver a vida connosco lá dentro; é ver, do lado de fora, o carrossel onde nós próprios estamos, mesmo que não cavalguemos o cavalo de pau.

O que nos impede de observar? O desinteresse, o medo, a auto-suficiência, o horror ao espelho. Não observar é fazer a barba pelo tacto, é traçar a risca do cabelo passando um polegar pela cabeça, é tapar o espelho que nos devolve o olhar que lhe lançamos. Ver é nada; observar é estudar o outro que somos nós. E isso é libertador - ou pode ser aterrador. 

JdB

* publicado originalmente a 10 de Abril de 2015

01 março 2026

II Domingo da Quaresma

 EVANGELHO – Mateus 17,1-9

Naquele tempo,
Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João seu irmão
e levou os, em particular, a um alto monte
e transfigurou Se diante deles:
o seu rosto ficou resplandecente como o sol
e as suas vestes tornaram se brancas como a luz.
E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele.
Pedro disse a Jesus:
«Senhor, como é bom estarmos aqui!
Se quiseres, farei aqui três tendas:
uma para Ti, outra para Moisés a outra para Elias».
Ainda ele falava,
quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra
e da nuvem uma voz dizia:
«Este é o meu Filho muito amado,
no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O».
Ao ouvirem estas palavras,
os discípulos caíram de rosto por terra a assustaram se muito.
Então Jesus aproximou se e, tocando os, disse:
«Levantai vos e não temais».
Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus.
Ao descerem do monte, Jesus deu lhes esta ordem:
«Não conteis a ninguém esta visão,
até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».

28 fevereiro 2026

Pensamentos impensados

Antigamente escutava-se o fado com ar de sofrimento; eram os fado-masoquistas.

O compositor Bach escreveu o cravo bem temperado; o 25 de Abril produziu o cravo destemperado.

Levou umas marteladas na cabeça e ficou com um galo; chama-se galo de martelos.

A massa associativa é feita com margarina para folhados?

Circunscrição - operação inventada pelos judeus feita com circunspecção, por sujeitos circunspectos e em lugares circunscritos.

SdB (I) 

27 fevereiro 2026

Poemas dos dias que correm

Não me demorei em mosteiros europeus

Não me demorei em mosteiros europeus 
nem descobri por entre as ervas altas campas de cavaleiros
que caíram tão formosamente quanto as suas baladas contam;
não separei as ervas
nem intencionalmente as deixei cobertas de colmo.

Não libertei o meu pensamento para que vagueasse e aguardasse
naquelas grandiosas distâncias
entre as montanhas de neve e os pescadores,
como uma lua,
ou uma concha debaixo da água que corre.

Não contive a minha respiração
para que pudesse ouvir o fôlego de Deus,
nem domei o bater do meu coração com um exercício,
nem tive fome de visões.

Embora o tenha observado muitas vezes
não me transformei na garça,
deixando o meu corpo na praia,
e não me transformei na truta luminosa,
deixando o meu corpo no ar.

Não venerei feridas e relíquias,
nem pentes de ferro,
nem corpos envoltos e queimados em pergaminhos.

Não sou infeliz há dez mil anos.
Durante o dia rio-me e durante a noite durmo.
Os meus cozinheiros favoritos preparam as minhas refeições,
o meu corpo purifica-se e restaura-se a si mesmo,
e todo o meu trabalho corre bem. 

leonard cohen
a rosa do mundo 2001 poemas para o futuro
tradução de cecília rego pinheiro 
assírio & alvim
2001

***

I Have Not Lingered In European Monasteries 

I Have Not Lingered In European Monasteries
and discovered among the tall grasses tombs of knights
who fell as beautifully as their ballads tell;
I have not parted the grasses
or purposefully left them thatched.

I have not held my breath
so that I might hear the breathing of God
or tamed my heartbeat with an exercise,
or starved for visions.
Although I have watched him often
I have not become the heron,
leaving my body on the shore,
and I have not become the luminous trout,
leaving my body in the air.

I have not worshipped wounds and relics,
or combs of iron,
or bodies wrapped and burnt in scrolls.

I have not been unhappy for ten thousands years.
During the day I laugh and during the night I sleep.
My favourite cooks prepare my meals,
my body cleans and repairs itself,
and all my work goes well.

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