20 maio 2026

Vai um gin do Peter’s ?

 FUNDADOR DO MAIOR BANCO DO MUNDO ACREDITAVA NAS PESSOAS 

Estranho ser pouco conhecido o banqueiro que mais revolucionou o sistema bancário, fundou e geriu o maior banco do mundo, colocando-o ao serviço das pessoas, e não das fortunas! Claramente privilegiava os pobres, apostando sempre em gente desfavorecida, mas empenhada em trabalhar honestamente, e não em magnatas interessados (legitimamente, entenda-se) em ganhar dinheiro através de investimentos financeiros, como faziam os bancos no início do séc. XX. Ainda por cima, teve uma vida algo aventurosa, pontuada por decisões vanguardistas, empolgantes para um argumento cinéfilo. Aliás, teve alguns – «It’s a Wonderful Life» do seu amigo Frank Capra (1946), «The First Dollar» (em rodagem) e os documentários: «A.P. Giannini – Bank of the Future» (2023) e «A Little Fellow: The Legacy of A.P. Giannini» (2025) – mas a personalidade inspiradora de Amadeo Peter Giannini (1870-1949) caiu no esquecimento demasiado depressa.

Descendente de italianos, nasceu em San José, na Califórnia, inserido numa comunidade de imigrantes da Ligúria, no Noroeste de Itália, que se aplicavam arduamente ao trabalho agrícola para singrarem no Novo Mundo. Aos seis anos, viu o pai ser morto por um trabalhador, que tinha vindo recolher a jorna de 1 USD, embora tivesse faltado ao trabalho. Como o pai Giannini se recusara a pagar-lhe um dia não trabalhado… acabou por pagar com a vida. Apesar do horror daquele desfecho macabro, o pequeno órfão de seis anos não se tornou vingativo, nem ressabiado contra aquele e outros empregados (e empregadores) violentos, antes enquadrando o acto brutal no desespero da pobreza generalizada, patrões incluídos. Explicava que na sua família não se falavam de tragédias, apesar de terem vivido várias, mas apenas das grandes oportunidades encontradas no novo país. Em relação ao assassinato do pai, Amadeo limitava-se a repetir, com realismo e noção da importância da vida de cada pessoa: «Não se pode morrer por um dólar». Percebera bem o nível de aflição de quem mata por tão pouco, sentindo-se chamado a ajudar os mais carenciados. Aprendera com os pais uma forma de solidariedade lúcida e construtiva, proporcionada à comunidade local pelo ‘Swiss Hotel’, gerido pelo casal Giannini.  

Valeu à sua mãe, que enviuvou com pouco mais de vinte anos e 3 filhos pequenos (Amadeo era o mais velho), o apoio da comunidade italiana. Passado uns anos, voltou a casar e Amadeo descobriu o gosto pelo negócio e pela relação com os clientes na microempresa do padrasto (comércio alimentar). Entusiasmado pelo sucesso no trabalho, faltava-lhe tempo para estudar. Pressionado pela mãe e pelo padrasto, continuou os estudos, onde também teve êxito, chegando a conseguir abreviar alguns anos de escolaridade. No liceu, apaixonou-se pela matemática, de grande utilidade para a vida. Na faculdade, os professores deram-lhe o diploma ao fim de pouco tempo, reconhecendo que Amadeo sabia mais do que eles, fruto do estudo em casa e da prática na empresa do padrasto, que delegava nele tarefas e decisões estratégicas. Ficou-lhe do curso a máxima «no comércio, quem mais sabe, mais ganha». 

A jovem mais cobiçada entre os italo-americanos de S.Francisco – Clorinda Cuneo – veio a ser a mulher de Amadeo. Este repetia com humor e sinceridade, que fora o «melhor investimento da sua vida». Tratava-se da rica e bonita herdeira do empresário Giuseppe Cuneo. Quando este morreu, a viúva e os outros 9 filhos não hesitaram em pedir a Amadeo para ser o seu representante na gestão da fortuna familiar. Mas Giannini recusou, só se rendendo às insistências da mulher, que lhe implorou esse sacrifício! Percebe-se quanto os talentos de Amadeo eram evidentes e inspiradores de confiança, a ponto de sogra e cunhados apostarem todas as fichas nele.  Coube-lhe, assim, suceder ao sogro no Conselho de Administração do banco local – o Columbus Savings & Loans. Foi nessa função, que se apercebeu da atitude algo agiota dos bancos, apenas disponíveis para os ricos. Ficou escandalizado com os juros homéricos de 4% a 7% cobrados aos pobres imigrantes italianos, nas magras transferências para as suas famílias de origem, em Itália. Conseguiu reduzir esses juros, mas o crescendo de divergências com os seus pares no Conselho, levaram-no a bater com a porta e a prometer criar um banco para o povo – a People’s Bank – muito mais rentável do que o Columbus Savings & Loans. Claro que o acharam um lunático louco…

O casal Clorinda e Amadeo Peter Giannini, conhecido por ‘A.P. Giannini’

Em família, da esq. para a dta: o filho L.M. Giannini, a mulher Clorinda, A.P. Giannini, a filha Clara e o terceiro filho – Virgil.

Embora soubesse pouco de banca, Amadeo foi pedir ajuda ao seu amigo irlandês James Fagan, especialista no mister. Também estudou afincadamente a matéria e resolveu guiar-se pelas primeiras instituições financeiras de cariz público não lucrativas, surgidas no Renascimento para proteger os pobres da usura comum. Essas confrarias, chamadas ‘Monti di Pietà’ (Montepios), concediam microcréditos sem juros, para viabilizar os negócios dos pobres – a maioria da população. Em 1904, nascia o Bank of Italy, rebaptizado de Bank of America, em 1930, dando créditos isentos de garantias financeiras, desde que Amadeo confiasse no empreendedorismo do pequeno empresário. Baseado na confiança pessoal, Giannini acreditava que lucro e ajuda ao próximo eram compatíveis, considerando convergentes o crescimento do banco e o sucesso do cliente! Por isso, caberia ao banco cuidar e assessorar o cliente. Seguia regras exóticas para o mundo financeiro: «um banqueiro digno desse nome não deve negar crédito a ninguém, desde que seja honesto».  Não arriscava na riqueza acumulada, mas na pessoa calejada e afeiçoada à família. Seguia três critérios para investir nos negócios alheios, privilegiando os trabalhadores desfavorecidos e sem acesso ao crédito, como acontecia às comunidades imigrantes de italianos, irlandeses e chinesas, que bem conhecera: 1º empenho e capacidade de trabalho; 2º  estabilidade e enraizamento, como ter uma família para sustentar; 3º o projeto empresarial/pessoal ter viabilidade, depois de avaliado meticulosamente por Giannini, que apreciava vanguardismos.    

Em 1906, houve mais um revés para a maioria, mas não para Amadeo: na madrugada de 18 de Abril, um sismo de magnitude 7,9, seguido de incêndio (como em Lisboa, a 1 de Novembro de 1755), arrasou S.Francisco. De um total de 4000 edifícios, só uns 300 sobreviveram. Foi o caso da modesta sede do Bank of Italy. Por precaução, Amadeo mudou as reservas de ouro ali guardadas para uma zona mais segura, transportando-as em três carroças camufladas por legumes. 

Os efeitos do terramoto de 1906, na Union Square de S.Francisco.

Dois dias depois do sismo, enquanto os demais bancos continuavam fechados, Amadeo montou uma mesa na zona do porto da cidade com a tabuleta: «Empréstimos como dantes, até mais do que antes». Em contra ciclo, ofereceu crédito a quantos lhe apareciam com as mãos calejadas (à época, marca de hábitos de trabalho árduo) e uma aliança no dedo – sinal de estabilidade e de necessidade de sustentar a família.  O resultado foi a reconstrução do bairro dos migrantes, em tempo recorde (menos de um ano), além do crescimento do Bank of Italy! Em 1930, 96% dos microcréditos concedidos sem garantia tinham sido reembolsados! Além do apoio financeiro, o seu Banco também prestava assistência social gratuita aos migrantes italianos, para melhor se integrarem na sociedade norte-americana. Oferecia-lhes, por exemplo, aulas de língua inglesa, importantes para o exame de naturalização.  

A sua aposta nos pequenos empresários e o aguçado entendimento da psicologia humana levou-o a investir em gente que iniciava negócios nas garagens da família, como Hewlett e Packard, que também se notabilizaram como pioneiros de Sillicon Valley. Giannini incentivava os inventos tecnológicos, percebendo o seu impacto na melhoria das condições de vida das pessoas. A proeza de engenharia da ponte suspensa na Golden Gate foi mais um dos seus investimentos, recusado pelos outros bancos. Amadeo tinha a noção da relevância social daquela ponte para o distrito de Golden Gate. Por isso, perguntou ao engenheiro do projecto – Joseph Strauss: «quanto tempo durará?». Strauss respondeu-lhe  «para sempre!» e Giannini, confiante, disse-lhe para avançar: «A Califórnia precisa dela». 

Terminada a Segunda Guerra Mundial, Giannini adiantou verbas do seu património pessoal para financiar parte do Plano Marshall, destinado à reconstrução da Europa. Adiantou também dinheiro, sem juros, ao Governo americano, para o envio de bens essenciais para os países europeus empobrecidos pelo conflito. O esforço de reconstrução do pós-guerra coincidiu e favoreceu a internacionalização do Bank of America, que abriu filiais em cidades asiáticas especialmente carenciadas como: Tóquio e Osaka, Manila, Xangai, Bangkok. 

À medida que o Bank of America prosperava e se destacava da concorrência pelo sucesso e pelo modus operandi atípico na banca da época, Amadeo enriquecia, mas preocupava-se em não acumular em demasia, para não ficar escravo do dinheiro. Estabeleceu o limiar máximo de 500.000 USD e o sobrante (cerca de metade do seu património) encaminhou para uma Fundação recém-constituída, que oferecia bolsas de estudo aos filhos dos funcionários do banco e financiava investigações na área médica, entre outros projectos beneméritos.  

Não só o enriquecimento não o obnubilou, como não lhe estreitou os hobbies, interessando-se pelas artes e pela cultura, em geral, que considerava vitais para o pleno desenvolvimento humano. Foi o primeiro banqueiro a investir fortemente na indústria cinematográfica de Hollywood, privilegiando os filmes com conteúdo, que fossem além do entretenimento imediatista. Tornou-se amigo de Walt Disney e foi o único banco a conceder crédito à «Branca de Neve e os Sete Anões», cujo orçamento gigantesco desincentivara os outros bancos. Na mesma senda, foi mecenas de Charlie Chaplin, quando o realizador e actor britânico era desconhecido e o excesso de originalidade afugentava a banca tradicional. Ajudou Frank Capra, de quem era amigo, e animou tertúlias culturais com artistas e intelectuais do seu tempo, para aprofundarem temas de intervenção social.

Amadeo com Joe Rosenberg e Vivien Leigh durante a filmagem de «E tudo o vento levou».

A invulgar perspetiva de vida de Giannini está bem condensada nos princípios orientadores que deixou ao Bank of America, a soar a um guia para escuteiros, completamente alien na banca: «Nunca nos devemos tornar tão grandes, a ponto de nos esquecermos das pessoas comuns». Especificamente para a fundação, financiada com o seu património pessoal, traçou as seguintes orientações: «Administrem esta instituição com generosidade e nobreza, tendo sempre em mente o sofrimento humano. Não permitam que subtilezas legais (…) anulem os propósitos desta instituição. Como S. Francisco de Assis, façam o bem, não teorizem apenas sobre a bondade.»  



Quando morreu, em 1949, o seu era o maior banco do mundo, pautando-se pelas regras mais generosas e justas que o mundo das finanças conhecera, fiel ao seu propósito magnânimo: «Tenho dinheiro suficiente para a minha família. Só posso comer três refeições por dia. Só posso usar um fato de cada vez. Precisamos apenas de uma casa para viver. Porquê ser ganancioso? Se acumulasse muito mais riqueza, só iria acumular preocupações para mim mesmo... (Q)uero gerir um Banco sério e transparente, tratar bem os nossos clientes e conceder empréstimos que tragam o máximo benefício às comunidades em que operamos. Se fizermos isso, os homens e as mulheres que trabalham para o nosso Banco poderão ter a certeza de uma vida digna para todos.» 

Giannini com a filha Claire (fotogr. de 1928), que lhe sucedeu no Conselho de Administração do Bank of America, numa época em que os cargos de direcção na banca eram um exclusivo masculino.

Tão certo, revolucionário e raro, que quase parece ficção…

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

19 maio 2026

Irene e Alfonso *


Les beaux esprits se rencontrent, disse-lhe Alfonso quando, à porta do Café Tortoni, começaram o acerto do espectáculo das semanas seguintes. Irene sorriu - conhecia a citação de Voltaire, pois antes de se dedicar também à dança dos tangos e milongas tinha feito uma pós-graduação em pensamento europeu. Meditou sobre essa espécie de força gravitacional que, numa urbe pejada de desconhecidos e numa escala de probabilidades que se aproxima do quase impossível, impele duas pessoas determinadas uma para a outra.  

Alfonso era uma homem decididamente bonito - umas pernas altas e esguias, um tronco proporcionado, uma melena negra, muito negra, penteada com esmero e fixador para trás, uns olhos verdes de uma transparência estonteante. Tinha 34 anos e uma vida curta mas intensa dedicada ao estudo de Carlos Gardel, das origens do tango, da influência do clima uruguaio na sensualidade do mestre, da possibilidade de colocar a milonga dançada num trio (dois homens a disputarem a mesma mulher, por exemplo) ao nível de um erotismo marmoreado de infidelidade consentida. Dançar no Tortoni era o sonho de alguém para quem o ambiente vence a quantidade, para quem a pequenez do recinto casa com a grandeza da técnica e com o arrebatamento da alma. Dançar com Irene era o encontro de dois espíritos superiores, como se a brisa porteña só transportasse aquele odor que aproximava os dois amantes da música e da dança.

Irene parava o trânsito, imobilizava uma loja, congelava um assistência. Havia naquele nariz adunco, naqueles olhos negros de azeviche muito abertos, naquele andar de gazela magra e naquela boca quase imperceptível, tal a finura dos lábios, uma mistura milagrosa - ou maldita. Tinha-se formado em literatura sul-americana com uma tese de doutoramento onde defendia que a cegueira de Jorge Luís Borges não era uma fatalidade, mas uma escolha do escritor para se proteger de uma certa barbárie dos costumes e de uma incómoda estética das capas. Aos 31 anos, filha de uma dançarina profissional e de um tocador de bandonéon, optara pela vida nocturna no Tortoni para poder pagar um curso de Verão em Paris sobre o despojamento ao serviço da elevação da alma e da nobreza do carácter.

Les beaux esprits se rencontrent, repetiu-lhe Alfonso, estendendo-lhe uma mão firme, bem tratada e sem as calosidades que ofendem um toque que se quer subtil, ainda que erotizado. Ela sorriu e devolveu-lhe cumprimento, apercebendo-se do impacto que causara o nariz, a boca, a perspectiva do andar de elegância animal. E apercebeu-se ainda, fruto de um sexto sentido que mais não é do que o olhar atento a pormenores específicos, do desejo fortemente sexuado do seu parceiro das próximas semanas. Ele queria-a e ela sabia-o; a certeza foi-se confirmando no decorrer dos ensaios semanais que culminariam na estreia do espectáculo, numa noite amena do final de Abril.

O cantor, de olhos fechados, casaco apertado e gravata desalinhada com o renque de botões da camisa azul celeste com folhos, tremia sem remissão à medida que cantava el dia que me quieras / la rosa que engalana / Se vestirá de fiesta con su mejor color, porque não há, no tango, uma emoção de cantar que se desgarre da emoção das palavras. Alfonso sorriu, estreitou Irene nos braços, sentiu-lhe a perna ágil, a coxa torneada, as nádegas rijas, o desejo à flor da pele, a boca quase imperceptível que se abriria para o beijar. Quiero emborrachar al corazón / Para después poder brindar / Por los fracasos del amor. O artista já mudara de tango mas nada se alterava entre eles: as pernas juntas, os lábios tocados, as mãos apertadas, a tensão erotizante.

Já nos camarins Alfonso, afastando uma melena negra que tapava uns olhos verdes, como se houvesse um prenúncio de luto, pegou-lhe nas mãos e sussurrou-lhe: desejo-te como nunca desejei ninguém. Estou certo de que também me desejas. Fica comigo esta noite. Os olhos de Irene abriram-se, a boca desapareceu numa finura rara e o nariz permaneceu adunco e sensual: Sabes Alfonso, o sexo é uma concessão que as pessoas vulgares fazem ao burguesismo conjugal. Danças muito bem, mas não me verás desnudaPassa bem. Amanhã começamos com a Milonga del Angel? 

10 minutos depois Alfonso observava Irene a sair do estabelecimento de braço dado com um senhor mais velho, que ele vira a servir à mesa no café Tortoni. Imaginou que seria o pai, tocador de bandonéon atirado para o olvido por via da idade, das técnicas modernas e da ausência de artroses. Só percebeu que não era quando a mão do acompanhante se agitou num movimento de vaivém erótico e pecaminoso, detendo-se aberta na nádega rija de Irene, doutorada em cegueira borgeana e adepta do despojamento e das carícias idosas.

JdB   

* publicado originalmente a 29 de Maio de 2017  
                

17 maio 2026

Solenidade da Ascensão

EVANGELHO - Mt 28,16-20

Conclusão do santo Evangelho segundo São Mateus.

Naquele tempo,
os onze discípulos partiram para a Galileia,
em direcção ao monte que Jesus lhes indicara.
Quando O viram, adoraram n'O;
mas alguns ainda duvidaram.
Jesus aproximou Se e disse lhes:
«Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra.
Ide e ensinai todas as nações,
baptizando as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo,
ensinando as a cumprir tudo o que vos mandei.
Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos».

16 maio 2026

Pensamentos Impensados

 Devagar se vai ao longe; a divagar não se vai longe.

Um juiz pode condenar alguém a fazer voluntariado?

Vi, não me lembro onde, um restaurante que publicitava vinhos, petiscos e seus derivados. Derivado de petisco deve ser a indigestão; de vinho só se for a bebedeira.

Há tipos que são bons garfos. Jack o Estripador era uma boa faca.

Os árbitros não vêem razão para penalty, os dirigentes sim. Os árbitros serão do Arco do Cego e os dirigentes de Olhão?

SdB (I) 

15 maio 2026

Textos dos dias que correm


Roma, Maio de 2011

A solidão necessária

«Uma só coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir para dentro de si e não encontrar ninguém durante horas: a isto é preciso chegar.

Estar só como está só a criança. Se nos aproximamos de uma criança absorta num jogo ou na exploração de um objeto, tem-se repentinamente da sua parte uma reação brusca: ele gosta de estar só consigo próprio, com as suas fantasias, os seus arabescos gestuais e mentais.

Depois, quando cresce, perde esta capacidade de estar consigo próprio e começa, sim, a vida em companhia, mas também a lógica do bando e do rumor de fundo, uma espécie de distração permanente do silêncio. Desta maneira perde-se a possibilidade de se encontrar a si próprio, de escutar-se, de penetrar no secreto da consciência.»

É isto que o grande poeta austríaco Rainer Maria Rilke (1875-1926) evoca numa das suas “Cartas a um jovem poeta”. Estar só contém em si o germe da reflexão, da maturação, da fineza espiritual, da própria contemplação de fé.

Infelizmente é um exercício que desapareceu do horizonte educativo e das práticas quotidianas, inclusive dos adultos. É assim que sobe o grau da superficialidade, da irritabilidade, da banalidade e da indiferença.

O silêncio para «ir para dentro de si» é uma espécie de dieta da alma que nos purifica das misérias, nos eleva das coisas, nos liberta do tagarelar, nos despoja das realidades inúteis.

Mas atenção: ainda que sejam parecidos exteriormente, a verdadeira solidão não é isolamento, porque este é uma prisão da alma e um terreno onde pode florescer a erva daninha da infelicidade ou acontecer a morte do amor. 

P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Publicado em 15.02.2018

13 maio 2026

Poemas dos dias que correm

I. maneiras oitocentistas
 
este é o caso flácido da baleia morta
que deu à costa perto da póvoa do varzim:
com o que o bicho sofreu ninguém se importa,
tinha morrido há muito e estava toda torta.
em todo o caso bem dava um folhetim.
 
teria sido baleia forasteira.
é fácil de supô-la todo o verão
a dar às barbatanas, hercúlea, galhofeira,
o seu ledo repuxo tomava sempre a dianteira.
podre gerava agora só focos de infecção.
 
toneladas de banha, imensas, imprevistas,
vinham sabe-se lá de que ignotas águas fundas,
sem jonas na barriga, mas provocando imundas,
repentinas tonturas nos banhistas. 
  
vasco graça moura
sequência da baleia
poesia 1963/1995
quetzal editores
2007

12 maio 2026

Da surpreendente inteligência do "somos o que comemos"

 Há um espécie de sabedoria, que não imagino se antiga, que diz: somos o que comemos; ou seja, diz-me o que comes, dir-te-ei quem és. Sempre entendi que a frase era o elogio da alimentação regrada, feita de alimentos saudáveis cozinhados de forma saudável; e sempre entendi que a frase me era dita de uma forma crítica, numa alusão velada à minha dieta (aparentemente, ou de acordo com alguns critérios) pouco saudável. 

O volte-face na minha auto-crítica aconteceu quando conversava com alguém sobre uma fase mais confusa da minha vida, cheia de actividades e compromissos e prazos em assuntos muito díspares: a recta final do doutoramento, uma viagem ao estrangeiro em serviço de voluntariado, a organização de um almoço com mais de 100 pessoas, uma apresentação no Algarve, webinars para preparar, etc. Quando essa pessoa me disse pois percebo, não estás habituado... a minha resposta foi imediata: não estou e não quero estar! Não quero stress, não quero excesso de solicitações, não quero adormecer a pensar no que tenho de fazer e acordar a meio da noite a pensar no que tenho de fazer. Quero ter tempo para almoçar com amigos, quero ler, escrever, andar a pé, viajar, ir a museus ou ao teatro. Quero ter tempo para tudo!

Tinha eu acabado de defender o meu actual modelo de vida quando percebi que a frase somos o que comemos assentava que nem uma luva às minhas convicções. Na verdade, a minha teoria sobre a alimentação (uma teoria pouco original e pouco científica) baseia-se numa ideia simples: comer de tudo - e pouco. Num repente dei por mim a lembrar-me de uma frase que disse a uma colega internacional vegetariana, por quem tinha pouca amizade: tenho sempre a sensação de que os vegetarianos / vegans são pessoas potencialmente infelizes, sempre a dizer que não aos prazeres da vida: um bife do lombo? Não, não, sou vegan... Uma cataplana de marisco? Não, não, sou vegan... Um cozido à portuguesa? Não, não sou vegan... 

Ao contrário do que eu pensava, a frase somos o que comemos é, afinal, um elogio ao meu modo de vida, que eu pretendo diversificado. Basta para isso percebermos que, dentro de limites, um cachaço de porco assado no forno, uma salada rica cheia de vitaminas ou uns carapaus assados com molho à espanhola, são o equivalente gastronómico - ou um complemento - de um teatro, de uma visita a um museu ou de uma viagem ao Chile. São vidas diversificadas nas suas várias vertentes. 

Desconfiem das pessoas que têm uma alimentação pouco variada, e desconfiem das pessoas que têm uma vida pouco variada, embora provavelmente uma coisa vá com a outra. 

Somos o que comemos é, portanto, uma frase muito inteligente; basta que percebamos que entre umas migas gatas e um concerto de Beethoven pode não haver mais do que um fio de cabelo a separá-los.

JdB    

10 maio 2026

VI Domingo da Páscoa

 EVANGELHO - João 14,15-21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
«Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos.
E Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Defensor,
para estar sempre convosco:
o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber,
porque não O vê nem O conhece,
mas que vós conheceis,
porque habita convosco e está em vós.
Não vos deixarei órfãos: voltarei para junto de vós.
Daqui a pouco o mundo já não Me verá,
mas vós ver Me eis, porque Eu vivo e vós vivereis.
Nesse dia reconhecereis que Eu estou no Pai
e que vós estais em Mim e Eu em vós.
Se alguém aceita os meus mandamentos e os cumpre,
esse realmente Me ama.
E quem Me ama será amado por meu Pai
e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele».

09 maio 2026

Pensamentos Impensados

Culinária. Se puser uma posta de salmão nas brasas fico com salmão grelhado; se puser sardinhas fico com sardinhas assadas. A cozinha portuguesa é muito traiçoeira.

Tive um primo que viveu em Londres no tempo dos célebres nevoeiros (smog) e dizia: não me faz diferença, alugo um cego.

Parece que a Câmara Municipal de Lisboa vai para o Intendente. Quem boa câmara fizer, nela se há-de deitar.

Quer ver cenas picantes? Experimente pôr piripiri nos olhos.

Nem tudo o que vem à rede é peixe; às vezes é o tenista.

SdB (I) 

08 maio 2026

Poemas dos dias que correm

As regras do jogo 

Devias superar algumas provas,
e não era difícil ires ganhando
as batalhas de engenho, habilidade,
reflexos, determinação ou força
que a minha vaidade te ia impondo.
Acompanhavas bem o jogo, parecia
quase um conto de príncipes e fadas.
Mas estragaste tudo. Preferiste
a primeira e sedutora bruxa
que te mostrou um atalho para o tesouro.  
 
amalia bautista
trevo
tradução de inês dias
averno
2021

06 maio 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 CINEMA E MÚSICA   

Quem queira mergulhar em bons decores italianos, aproveite o último filme de Torrentino – «LA GRAZIA» – com alguns bons diálogos, óptimos desempenhos, mas q.b. descosido na trama, numa amálgama de apontamentos engraçados recolhidos ao longo do tempo, difíceis de conjugar coerentemente no mesmo argumento. Ainda por cima, está marcado por uma agenda semi woke cansativa e algo manipulativa, repetindo as críticas típicas de quem nasceu e cresceu em sociedades marcadas por valores cristãos, mas tornados incompreensíveis (sobretudo, intraduzíveis) para quem não tem fé. É especialmente confrangedora e irritante a cena com a visita de um Presidente português ao Quirinal, de andar cambaleante, olhar vago, típicos de uma idade excessivamente avançada, imprópria para cargos públicos, menos ainda de responsabilidade! O ar acabado do estrangeiro dá azo a um tombo inusitado numa visita de Estado. Só um soldado da formatura o socorre, face à inépcia do assessor com o guarda-chuva, que não consegue chegar a tempo de nada! Inaceitável, mas para ser lido como mais uma das metáforas bizarras e desgarradas de Sorrentino, integrada numa sequência de imagens poéticas e primorosamente fotografadas. Chuva, rajadas de vento, gente a desequilibrar-se, tudo sai da câmara do realizador italiano com poesia e um toque de humor embaraçoso.      

Os ambientes resultam nos grandes protagonistas de «LA GRAZIA», cujo título evoca os indultos concedidos pelos mais altos dignitários de um país, em fim de mandato ou em ocasiões especiais. 

Rodado na salas à meia luz do Palácio do Quirinal, onde vivem e trabalham os Presidentes de Itália, o filme abre-nos o escritório-biblioteca, os terraços soberbos de onde se avista Roma em 360º, os corredores de mármores deslumbrantes (como só os italianos), os pátios de colunatas de pedra, os portões antigos e os bastidores da vida de um presidente em fim de carreira. Nas antepenúltimas imagens, percorremos a Via Condotti, ficando à vista da Piazza d’España e Trinita dei Monti, no regresso a casa, após sair do Quirinal. É interessante o passeio a pé até casa, aproximando-se da condição do cidadão comum.   

Em Portugal, algumas curta-metragens têm merecidos prémios, como o filme de Marta Reis Andrade «CÃO SOZINHO», considerada a Melhor Curta nos Prémios Quirino de Animação Ibero-Americana, entre outras distinções internacionais. Conquistou também o Grande Prémio CINANIMA 2025. A solidão dá tema a esta coprodução luso-francesa, baseando-se na experiência da realizadora e da sua avó, apesar de estarem rodeadas de pessoas:  

Outro filme galardoado na Monstrinha do Monstra 2026, com o Prémio do Público, é o «O BORDEIRA – ZÉ». Corresponde à criação do animador 2D e ilustrador Francisco Valle, que criou sozinho, ao longo de um ano, o videoclip da Bordeira Associados (Bordeira/Basset Hounds) para ilustrar a música «ZÉ», de homenagem ao sobrinho do músico António Vieira. Concebida como uma fotografia sonora, a obra pretende condensar as melhores memórias da infância feliz do compositor e do seu irmão: “O nascimento do meu sobrinho “Zé” soou como uma badalada do tempo que passou, mas também do enorme futuro que ele tem pela frente. Sendo filho do meu irmão, também chamado “Zé”, senti a necessidade de homenagear os dois, fazendo uma recolha das nossas memórias e do imaginário de Aljezur, partilhado durante a infância (…), para que possam guardar e lembrar que há um lugar onde podem ser sempre felizes.”  
Inspirando-se na terra da infância do músico, a curta-metragem mergulha na cidade algarvia junto ao atlântico – Aljezur. Mar, praia (da Bordeira), barcos, tradições locais e até imagens de arquivo (sobretudo, a partir do min. 2:57) fluem neste filme, que nos traz o cheiro fresco da maresia: 

 
Para boa música são incontornáveis as composições de sons profundos de António Olaio, onde desagua uma miscelânea de influências, que ressoam a Leonardo Cohen!  Não é fácil de adivinhar que provêm de um músico português (na primeira composição, em parceria com o britânico Richard Strange): 

Concluir com sons de hoje, compostos em Portugal e a lembrarem Cohen, é uma feliz acumulação de sucessos!

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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