06 outubro 2026

Moleskine *

Desceu a rua, atravessou a estrada e voltou à esquerda. Esperou que o comboio das vinte e oito passasse antes de se aventurar no túnel. Não havendo memória de acidentes naquele túnel, ele sabia que o receio lhe assentava mal, como uma pústula incomodativa na face imberbe de uma criança. Repetiu rotinas: olhou para o mar, depois para a direita e para a esquerda, fixou as horas no telemóvel. Só depois se atirou a uma espécie de marcha lenta, algo semelhante a um passeio rápido. 

Ao quilómetro 1,250 cruzou-se com a russa, corpo de lançadora de peso, que palmilhava falando demoradamente ao telefone; alguns metros depois encontrou a jovem adolescente que corria ligeira e que sempre o impressionara pela magreza dos pés, pernas, coxas e ancas, transformando a futura maternidade num exercício quase impossível: onde caberia um feto com três quilos ali dentro? Continuou o passeio e cruzou-se com a temente a Deus, pouco antes do quilómetro 2,500, uma caminhante de braços muito abertos, com um terço numa mão e uma garrafa de água na outra, acenando a toda a gente, como se o mundo dela girasse entre avé-Marias e catiões; já ao quilómetro 2,850 encontrou a rapariga bonita e com boa figura, rondando os 30 anos, que se cruzava com ele baixando os olhos, vítima inconsciente, quiçá, de uma cultura injusta de submissão feminina; mais à frente era o bancário absorto na sua música, depois o idoso com os pés metidos para dentro num andar vagaroso, a senhora elegante que ao longe poderia ser uma das próprias filhas, o que a tornaria numa tia dos netos que já tinha, e ainda os atletas que corriam suados e esforçados, ou as colegiais que àquela hora matutina já fumavam junto às gaivotas e beijavam os namorados numa boca que ainda sabia a noite.

No dia seguinte tudo se repetia: o túnel, a russa, o bancário talvez não, o idoso dos pés metidos para dentro, a adolescente com a espessura de um pergaminho, as colegiais de beijos dengosos e cabelos matutinos já a cheirar a fumo, a rapariga dos 30 anos que baixava os olhos e cujo oscilar dos braços era ligeiramente assimétrico, a temente a Deus, os atletas e mais o homem que punha as cadeiras da esplanada num alinhamento de zona exclusiva, os pescadores, os jovens surfistas a olhar para o mar e a cavalgar a onda, o homem com o labrador, a estrangeira a dar instruções alemãs ao rafeiro, as duas amigas entretidas na sua conversa, o antigo ministro, e tantos outros. De todos estes personagens fixaria a rapariga dos 30 anos pela graça física e pelo mistério, inventando-lhe histórias, imaginando-lhe livros preferidos, motivos de riso e de choro, irmãos, namorados, intensidade dos beijos, fetiches, desejos, bolos preferidos, formas do corpo, sensualidades escondidas. 

Tudo se intensificaria quando uma dia, numa distracção qualquer, quase chocara com ela e lhe pedira desculpa, tocando-lhe ao de leve num braço. Sorriram, porque afinal já se conheciam dali, de todos os dias, do quilómetro 2,850, talvez, ou um pouco antes, se ele passasse o túnel antes do comboio das vinte e oito. Ao cruzarem-se na volta inversa voltaram a sorrir um para o outro e ela corou, olhando para o chão, engolindo a resposta a um até amanhã que ansiava por um sinal claro.   

Mudemos de tempo verbal. 6ªfeira desce a rua, atravessa a estrada, e volta à esquerda. Espera que passe o comboio e atravessa o túnel. O mar está alteroso, nuvens negras formam-se no céu a uma velocidade vertiginosa. Olha para a esquerda e para a direita, fixa as horas no telemóvel. Começa a andar mas não encontra ninguém, porque o tempo não está propício nem mesmo para os atletas, e as colegiais beijarão os namorados de calças caídas noutro lugar menos bonito, mas igualmente eficiente para o fim em questão. Dois minutos depois caem bolas de golfe do céu, como se o granizo fosse vómito mecânico de um dispositivo desregulado e violento. Regressa rapidamente ao túnel que se transforma agora no seu nautilus, no seu mundo seguro onde tudo está ao alcance de uma mão, ainda que o universo desabe em água e gelo. Dois minutos depois, ao som de uma trovoada gigante, entra a rapariga dos 30 anos, e os olhares de ambos cruzam-se numa fugacidade quase incómoda. Estão ali os dois, em silêncio e numa prisão, porque abandonar o túnel é largar a nave rumo à ausência da gravidade, à inexistência das coisas. 

Há o medo do granizo, do ruído, do mar alteroso, da escuridão que tudo envolve, da água onde já se chapinha nas extremas do túnel. Há o desejo latente, a protecção, a certeza de que nada mais mexe a não ser o coração de cada um, o sangue que corre desenfreado nas veias, uns braços que se agitam numa ligeira assimetria, uns olhos que fixam o chão num pudor de faces coradas, a curvatura de umas costas que desaguam em duas dunas, umas mãos que querem soltar-se. Há uma respiração mais ofegante e que projecta fumos intensos, uma aproximação gradual dos corpos e das vontades, o granizo, o vento, duas bocas entreabertas, dois rostos que se vêm embora vislumbrem ambos o mar que cresce ao limite do temor físico. Não há nomes, apenas encontros regulares ao quilómetro 2,850 ou antes, depende do comboio das vinte e oito, das greves, da operacionalidade do material circulante, da resistência da catenária.

O telefone toca insistentemente, metalicamente, inoportuno e desajeitado. Do lado de lá uma voz irritada:

- Estou! Zé Maria? É o Martim. Eh pá, estou cá em baixo há meia-hora! Adormeceste, pá?  

Zé Maria, assim se chama ele, olha em volta do quarto, agitado e confuso. Vê os livros de gestão hoteleira, o retrato do avô quando fez 80 anos, a saga do senhor dos anéis, o diploma de melhor jogador juvenil no seu primeiro torneio de golfe, as fotografias com a Carlota em Aspen e Angra dos Reis, a prancha de surf, uma gravata com o nó ainda feito, umas calças de fazenda atiradas para uma cadeira, a fotografia da mãe com o padrasto em Veneza, do pai com um capacete na Arábia Saudita, da irmã não sabe onde. Olha em volta e não encontra a rapariga dos 30 anos, não vê granizo, não ouve o mar, não sente o vento nem a curvatura de umas costas que desaguam em duas dunas. 

- Ouve lá, Martim. Se eu adormecer agora ainda consigo recuperar um sonho? 

JdB

* publicado originalmente a 26 de Fevereiro de 2013

04 outubro 2026

XXVII Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Mt 21,33-43

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo:
«Ouvi outra parábola:
Havia um proprietário que plantou uma vinha,
cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar
e levantou uma torre;
depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe.
Quando chegou a época das colheitas,
mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos.
Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos,
espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram-no.
Tornou ele a mandar outros servos,
em maior número que
os primeiros.
E eles trataram-nos do mesmo modo.
Por fim, mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo:
'Respeitarão o meu filho'.
Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si:
'Este é o herdeiro;
matemo-lo e ficaremos com a sua herança'.
E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no.
Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?».
Eles responderam:
«Mandará matar sem piedade esses malvados
e arrendará a vinha a outros vinhateiros,
que lhe entreguem os frutos a seu tempo».
Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura:
'A pedra que os construtores rejeitaram
tornou-se a pedra angular;
tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos'?
Por isso vos digo:
Ser-vos-á tirado o reino de Deus
e dado a um povo que produza os seus frutos».

03 outubro 2026

Pensamentos Impensados

Sim e não. Manuel Alegre escreveu há sempre alguém que diz não. Por que razão Elizabeth Taylor, Henrique VIII e Charlie Chaplin casaram tantas vezes? Porque há sempre alguém que diz sim.

Judiarias. Sabia tão pouco da religião judaica que pensava que Tora era aquele bocado de chouriço que se põe no caldo verde.

Sufrágios. Dizem que os judeus são um povo eleito; eu pensava que povo eleito eram os deputados.

Doença. O aparecimento de gordura à volta da cintura, a partir de uma certa idade, é uma doença, e chama-se pneu-monia.

A mesma doença. Pessoas que só pensam em livrar-se do pneu sofrem de pneu-mania.

SdB (I)

 

02 outubro 2026

Poemas dos dias que correm *

 O olho que vê

Os cães pequenos olham para os cães grandes;
Observam as intratáveis dimensões
E as curiosas imperfeições do odor.
Eis um grupo de machos compenetrados:
Os homens jovens olham de cima os mais velhos
Consideram-lhes a mente de meia-idade
Observam-lhes as correlações inexplicáveis.

Tsin-Tsu disse:
Somente nos cães pequenos e nos jovens
Encontramos a observação minuciosa.

ezra pound
antologia poética
personae
tradução m. faustino
editora ulisseia
1960

* tirado daqui

30 setembro 2026

Outono, outra vez *

Fundação Calouste Gulbenkian, Junho de 2026

A vontade anda timbrosa e o humor anda como os dias, mais ou menos húmido. O amor anda caduco, desafina com qualquer ventinho e cai todo para o chão, como as folhitas estaladiças, que morrem todos os anos só para alimentar metáforas e que ficam por aí a amarelar a cidade até que alguém as apanhe. O malabarismo é difícil e a única certeza é que, ainda que esteja sol agora, mais logo pode chover, ou ao contrário, pouco importa para o caso. Os Outonos de ser gente obedecem, ainda que não por regra firme, à ordem das estações como as conhecemos, sendo, portanto, comummente precedidos por Verões quentes, melosos e curtos. É só no fim dos Verões que o sono tira férias, para garantir que não perdemos pitada do que vai esmorecendo à nossa volta, e damos por nós a tentar encontrar desculpas esfarrapadas para amaciar o espírito, como as cores que são tão bonitas, ou o cheiro que vem do chão, ou o quente das castanhas que, ao quilo, nos custam a jorna e os sapatos, e um bocadinho da alma, se formos mais pobres. Quem esteve atento às lições de estudo do meio, saberá de antemão que um bocadinho de persistência e uns meses de galhos despidos, apontados ao céu, são suficientes para que a sorte se denuncie e o jogo recomece do início. No entanto, por enquanto, é Outono, outra vez. 

ZdT

* publicado originalmente a 19 de Outubro de 2010

29 setembro 2026

Textos dos dias que correm *

O meu nome é Andreia, e tenho 35 anos.

Para que precisamos dos olhos, se o essencial se vê com o coração?

Porque não assumimos o tacto como a extensão privilegiada da mente para identificar as coisas materiais e os contornos humanos?

Porque não escutamos com atenção, decifrando os ruídos que identificam os pássaros, as emoções audíveis, os movimentos da terra e das pessoas?

Porque não usamos o olfacto como o usam os animais que tudo identificam pelo cheiro, como se mais nada fizesse falta para deambularem pelo mundo na sua felicidade sem fingimento nem dissimulação?

O mundo é feito de excessos: dinheiro, comida, prazeres carnais, obras de arte, amigos, livros, publicidade, telenovelas, enganos da realidade, carros em circulação, níveis de radioactividade, fotografias digitais. Dentro de nós são os sentidos e os seus descomedimentos. Nada parece chegar para esta voragem colectora de bens e sentimentos.

Como conseguimos abarcar tudo isto num cérebro que definha sem retorno, numa memória que se esgota como bem precioso, numa alma cuja existência suscita dúvidas? Como arrumamos os cheiros, as texturas e as formas, os sons da natureza e dos gatos, dos motores potentes e das conversas? Como guardamos o contorno de umas costas ou de uma mão calejada se não for de olhos fechados? O que fazemos com esta panóplia de sensações que nos invade e ocupa os espaços livres de uma máquina envelhecida? Porque não conseguimos fechar uma assoalhada do cérebro, viver num espaço diminuto, alcançar tudo com uma mão aberta?

Cresci sem medo. Talvez um destemor, uma indiferença aos perigos que espreitam em cada esquina, em cada pessoa, em cada circunstância. Talvez uma ousadia no desafio à vida. ‘Uma imprudência’, dizem-me. Talvez.  

Toco, cheiro, oiço. Desenho imagens, adivinho sinuosidades do outro, encosto os barulhos a quem os produz, ligo os risos a uma boca bem desenhada, a uns dentes brancos com uma assimetria elegante. Passo os dedos por um corpo esculpido de humores e cheiros. Sinto-lhe o peito, as coxas musculadas, adivinho-lhe tudo.

Não tenho medo de nada. Não receio voar, nadar na imensidão do oceano, correr na direcção do precipício, parar um instante antes da queda.  

O meu nome é Andreia, e tenho 35 anos. Cega de nascença, a técnica devolve-me hoje, quando o sol se puser no fio do horizonte, a visão que nunca tive. Nada receio, nem sequer o meu destemor. Só tenho medo da desilusão. Ou do excesso.

JdB 

* publicado originalmente a 11 de Dezembro de 2013

27 setembro 2026

XXVI Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Mt 21,28-32

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes
e aos anciãos do povo:
«Que vos parece?
Um homem tinha dois filhos.
Foi ter com o primeiro e disse-lhe:
'Filho, vai hoje trabalhar na vinha'.
Mas ele respondeu-lhe: 'Não quero'.
Depois, porém, arrependeu-se e foi.
O homem dirigiu-se ao segundo filho
e falou-lhe do mesmo modo.
Ele respondeu: 'Eu vou, Senhor'.
Mas de facto não foi.
Qual dos dois fez a vontade ao pai?»
Eles responderam-Lhe: «O primeiro».
Jesus disse-lhes:
«Em verdade vos digo:
Os publicanos e as mulheres de má vida
irão diante de vós para o reino de Deus.
João Baptista veio até vós,
ensinando-vos o caminho da justiça,
e não acreditastes nele;
mas os publicanos e as mulheres de má vida acreditaram.
E vós, que bem o vistes,
não vos arrependestes, acreditando nele».


26 setembro 2026

Pensamentos Impensados

Provérbio. Ouvi na televisão que determinados pássaros que se alimentam no mar estão a desaparecer devido a haver pouco alimento na água. Deviam informar esses pássaros que quem vai ao mar avia-se em terra.

Fitas. Lembro-me de ter visto, há muitos anos, um filme brasileiro sobre a chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil. Na praia estavam uns índios e, ao longe, no mar, viam-se umas caravelas. A páginas tantas os índios começaram a gritar: fomos descobertos! Fomos descobertos!

Concurso. Ouvido no concurso O Elo Mais Fraco - Pergunta: que patente tinha Humberto Delgado quando concorreu a Presidente da República? Resposta: Ministro das Finanças.

Telemóveis. Há tempos, quando me encontrava na rua, quis falar ao telemóvel, mas a bateria estava descarregada. Embora a culpa fosse minha, olhei para o telemóvel com ódio e gritei-lhe: vai para o Diabo que te carregue. Esperei um pouco, mas a bateria continuou descarregada.

SdB (I) 

25 setembro 2026

Poemas dos dias que correm

1910 (intermédio) *

Aqueles olhos meus de mil novecentos e dez
não viram enterrar os mortos,
nem a feira de cinza do que chora de madrugada,
nem o coração que treme acantonado como um cavalinho do mar. 

Aqueles olhos de mil novecentos e dez
viram a branca parede onde urinavam meninas,
o focinho do touro, a seta venenosa
e uma luz incompreensível que iluminava pelos cantos
pedaços de limão seco sob o negro duro das garrafas. 

Aqueles olhos meus no pescoço do poldro,
no seio trespassado de Santa Rosa adormecida,
nos telhados do amor, com gemidos e mãos sem vergonha
num jardim onde os gatos comiam as rãs. 

Sótão onde o velho pó junta estátuas e musgos.
Caixas que guardam silêncios de caranguejos devorados.
No sítio onde o sonho tropeçava na sua realidade.
Ali os meus pequenos olhos. 

Não me perguntem nada. Já vi como as coisas
procuram a sua direcção e encontram o seu vazio.
No ar deserto há uma dor de ausências
e nos meus olhos pessoas vestidas, sem nudez!  

federico garcia lorca
nova iorque num poeta
trad. antónio moura
hiena editora
1995

* tirado daqui

24 setembro 2026

Duas Últimas * - em memória de Jorge Palma (1950 - 2026)

Na semana passada assisti no Tivoli a um concerto de Jorge Palma com casa cheia, o que nos tempos actuais sempre pode ser visto como uma bofetadinha na crise. Embora fosse uma enchente previsível, atendendo à exiguidade da velha sala, aos preços módicos e à qualidade e empatia de JP com o publico lisboeta. Muito mais difícil será por certo encher, ou perto disso, o Estádio do Restelo, o maior estádio do país por isso mesmo! Foi a segunda vez que o ouvi ao vivo – a primeira foi no Coliseu, se não me engano em 2007 – e gostei francamente mais desta última.  

Tratou-se de um espectáculo mais intimista, em que Jorge Palma esteve muito tempo e muitas músicas entregue apenas ao seu magnífico piano ou à viola. No resto simplesmente acompanhado, e bem, por um acordeão, um saxofone e uma segunda viola. Um espectáculo longo, com músicas do seu álbum mais recente e outras (muito) mais antigas, em que agarrou bem o publico. Que gosta dele, dos seus ritmos, arranjos e letras, da sua voz rouca e propensa a uma ou outra fífia, do piano, da sua presença próxima e calorosa em palco. 

Jorge Palma tem uma carreira comprida e singular, talvez de acordo com a sua personalidade algo estrambólica. O sucesso alcançou-o já sobre o tarde, mas pressinto que não devia estar muito preocupado com isso. Também eu o descobri tarde e aos poucos, mas ainda a boas horas, e hoje em dia posso dizer que sou apreciador deste lisboeta nascido no início dos anos cinquenta, ao ponto o ir ver em noite chuvosa que mais convidava ao remanso do lar. 

Dele escolhi três músicas que não serão das mais conhecidas ou óbvias, mas que estão entre as minhas preferidas. 

Espero que também gostem. 

fq





* publicado originalmente a 30 de Outubro de 2012

23 setembro 2026

Vai um gin do Peter’s ?

 DICA FÁCIL COM CRIANÇAS FAVORECE O SUCESSO 

Nas infinitas dicas de educação para ajudar os mais novos a crescer com autoestima, sentido de responsabilidade e as demais soft skills úteis para a idade adulta, há muitas já consagradas, como por exemplo: praticar um desporto, aprender música e outras expressões artísticas, treinar uma segunda língua, ler os clássicos. Menos comum é recomendar uma actividade prosaica, gratuita e acessível: ajudar nas lides caseiras. De tão banal, este conselho poderá ser desvalorizado na panóplia de conselhos para uma educação integral. 

Porém, diversos fundamentos psicológicos confirmam os benefícios de incitar os miúdos, logo na primeira infância e segundo as capacidades de cada um, a colaborar em casa, arrumando a loiça na máquina, dobrando a roupa lavada, pondo a mesa, etc. 

Em países desenvolvidos – sobretudo, de língua inglesa – chegou a circular uma estatística (supostamente, vinda de Harvard), que ditava uma probabilidade muito expressiva de 75% de sucesso em adulto, para as crianças que tinham participado nas lides caseiras. Embora tal quantificação não tenha sido certificada por Harvard, resultados de estudos de várias universidades (da Austrália aos EUA) concordam nas vantagens de as crianças participarem nas tarefas domésticas, para o desenvolvimento precoce de competências úteis, ainda que nem todas sejam sonantes. Destacam-se a: maior autonomia individual, persistência, paciência, maior destreza na sociabilização com ganhos de satisfação pessoal, aumento da empatia traduzida em melhor relacionamento intergeracional, maior compromisso social, melhor gestão emocional. Observou-se ainda que estimula o desenvolvimento do cérebro, ganhando-se maior proficiência a resolver situações correntes e enriquece-se o espectro das interações e das rotinas. Todavia, o trunfo mais valioso para forjar uma personalidade rica, autoconfiante e consistente advém do sentido de pertença, ao dar aos mais novos a noção clara de terem lugar no ‘grupo’, de serem valorizados pelos outros. No início de vida, a casa e a família serão o melhor contexto para esse reconhecimento gratificante e palpável de serem precisos, de serem capazes, de integrarem algo maior do que eles. Para os pais, será também gratificante constatar que, algumas vezes, os filhos pequeninos estão dispostos a largar os brinquedos e os jogos para ajudar a pôr o jantar na mesa! Mais tarde, esses pequeninos perceberão o privilégio de ter nascido num chão seguro.      

O gozo único dos brinquedos a sério…

Os jogos mais inesquecíveis incluem os pais.

Se os prós são evidentes, um contra poderá surgir para uns quantos, pelo motivo mais paradoxal: o facto de esta dica pedagógica ser excessivamente fácil, acumulando sintomas percepcionados como menos credíveis, para quem dê (e são muitos) maior credibilidade às soluções complexas, pouco acessíveis, preferencialmente de toque elitista. Para esses, a dificuldade, em vez de intimidar, costuma servir-lhes de selo de qualidade e de fiabilidade. Sob esse ângulo, esta dica transbordará de sinais suspeitos, começando pela extrema simplicidade. Segue-se, o custo zero. E, qual ‘cereja no topo do bolo’: é de acesso universal!

Quando um conselho simplicíssimo de educação, com provas dadas, for rejeitado pelo facto de ser simples, algo está mal nessa avaliação, dando a medida de uma hierarquia de valores fortemente invertida. Uma alegoria tradicional explica o perigo dessa inversão: conta-se que um duende estouvado aproveitou a calada da noite para ir às lojas de um centro comercial, com as luzes já apagadas, para se divertir a trocar os preços dos produtos, da forma mais aberrante. Nenhuma etiqueta ficou no sítio. A do frigorífico mais caro saltou para a caixa de pilhas, a do Rolex para o tubo de cola, a do vestido de marca para os ovos, e assim por diante. No dia seguinte, quando as lojas abriram, instalou-se o caos, com clientes a precipitarem-se para comprar a máquina de lavar marcada a 2€ e o frigorífico a 5€, enquanto outros reclamavam do pano do pó a 2.000€. Mal nos damos conta que, em vários aspectos, a alegoria do duende retrata situações insólitas da actualidade (outras épocas sobrevalorizaram outras modas também descabidas), pagando-se fortunas colossais por profissionais do entretenimento (de comediantes, a futebolistas, passando por actores), enquanto se ignoram as condições infra-humanas de muita gente, no planeta. Estranhas escolhas, que serão incompreensíveis para as gerações futuras…   

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

22 setembro 2026

Moleskine texano

San Antonio, Texas (Setembro de 2026)

Tal como referi a semana passada neste estabelecimento, estive a semana passada no Texas, mais precisamente em San Antonio, para a conferência anual da oncologia pediátrica. Alguns episódios soltos:

Copos. Sou convidado para o que se chama Presidential dinner, oferecido pelo presidente do SIOP (sociedade internacional de oncologia pediátrica, na quase totalidade profissionais de saúde). O jantar, de cerca de 70 - 80 pessoas é, normalmente (já fui a quase 10) em sítios com alguma categoria. No ano passado, por exemplo, foi no Rijksmuseum, em Amsterdão. Não é todos os dias que se trinca um naco de carne olhando de frente para a Ronda da Noite. Este ano foi na Coates Chapel, um recinto vocacionado para eventos. A nota desconfortável? O calor. A nota detestável? Vinho tinto servido em copos de plástico.

Rapidez de serviço. Refiro-me ao mesmo jantar. Meses de 10 pessoas onde há, forçosamente, ritmos diferentes. 8 pessoas acabaram o prato principal, duas ainda não. Os empregados não se importam - retiram os pratos de quem acabou e servem a sobremesa. A nota desconfortável e detestável? A sobremesa era arroz doce - mau - e o talher colocado era apenas um garfo. 

Quantidades. Tudo nos EUA é grande: o frio nos aviões e nos aeroportos, o copo de água nos jantares (atulhado de gelo) as refeições que nos deram generosamente - em caixas de plástico - as pessoas nas ruas. Apanhei um Uber para ir a um centro comercial fazer uma compra. Era um carro enorme - para o qual tive dificuldade em subir - com uma caixa aberta descomunal, onde caberia um boi.

Centro comercial. Terminada a compra, dirijo-me à saída do centro comercial para apanhar um Uber. Faço uma pergunta a duas pessoas que aparentavam ser funcionários; não eram, e percebo que têm uns auriculares como se vê nos filmes nas orelhas dos agentes dos serviços secretos. 5 minutos mais tarde assomam à porta de saída dois personagens: um, na casa dos 50, de fato cinzento; o outro, de botins e calças de ganga, ligeiramente mais novo. Num instante são rodeados por 7 ou 8 guarda-costas que os encaminham para dois carros enormes e pretos, de vidros fumados. Seria empresários, políticos ou barões da droga?

San Antonio, Texas (Setembro de 2026)

Civilização. Não tenho problemas 'morais' com a potencial injustiça da generalização, talvez tenha com o potencial erro intelectual que decorre desta generalização: nada nos EUA parece ter classe, ou vislumbre de requinte. As pessoas almoçam ou jantam de chapéu de pala na cabeça, falam alto, bebem vinho em copos de cartão ou de plástico, colocam o pão num jantar a meio do prato principal, servem os pratos pela direita ou pela esquerda de forma indiscriminada. 

Espanto. Diz-me uma amiga local que houve, num determinado momento, uma grande emigração de alemães para San Antonio. O próprio marido é descendente de 2ª ou 3ª geração de um desses emigrantes. Não fazia ideia: para mim, Texas só tinha influência mexicana. 

Música a desoras. Gala dinner do CCI: é convidado um grupo de mariachi, tipicamente mexicano. Sentamo-nos a jantar e o grupo começa a tocar. As pessoas querem conversar e o grupo continua a tocar. Ninguém ouve a música, ninguém ouve o seu parceiro do lado, ninguém bate palmas. Quem é que terá tido a peregrina ideia de convidar um grupo mexicano - cuja música é muito audível - a performar enquanto as pessoas estão a jantar e a conversar. Americanices: não lhes ocorre dedicar à música a importância que ela - e os músicos - merece.

Conferência. Voltarei ao tema - para lamentar uma ou outro aspecto e, sobretudo, para dizer bem.

JdB       


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