Adeus, até ao meu regresso
As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
26 fevereiro 2026
25 fevereiro 2026
Vai um gin do Peter’s ?
ARTISTA PLÁSTICO ESQUECIDO – A. LINO
É bem verdade que, em Portugal, há pouco cuidado em lembrar os nomes, gravar os factos conhecidos, em suma, registar a História. Como se tivéssemos ficado cristalizados na Idade Média, em que a preocupação com o reconhecimento da autoria, da propriedade intelectual não era prática corrente, quase tudo rondando em torno do soberano e de um par de figuras maiores da sua entourage/corte. Desleixo? Excesso de humildade? Uma tradição muito centralizadora e algo redutora da história? Falta de investigadores e de gosto pelo arquivismo?... Mais estranho ainda, quando nos antípodas desta lacuna está o povo judeu, que teve uma presença marcante em Portugal e é cuidadosíssimo a contar e a fazer ouvir tudo o que lhe aconteceu, naturalmente segundo a sua perspectiva, como toda a narrativa histórica.
Em pleno século XX, esta tendência pouco cuidadosa com a memória ainda se faz sentir, com nomes de artistas e de intelectuais a deixar-se cair no esquecimento, mais ainda quando há mudanças de regime e os novos governantes gostam de ignorar e evaporar as figuras conotadas (ainda que injustamente) com os depostos. Estranha forma de vida, esta de um povo pouco atento ao seu passado…
Assim perdura, por exemplo, património artístico espalhado pelo país, mas de autoria quase anónima. Um caso paradigmático é o do artista plástico do século passado – António Lino – nascido em Guimarães, em 1914. Depois de estudar Belas Artes no Porto, passou mais de uma década a deambular pela Europa Ocidental, onde estudou tapeçaria (Espanha, França, Bélgica, Alemanha), pintura de vitrais (Chartres e na Alemanha), mosaico (Florença, Ravena e Veneza). Explorou grutas pré-históricas (Espanha e França); coleccionou apontamentos em desenho, aguarela, óleo, gravura, dos países em que viveu; colaborou assiduamente com revistas e jornais estrangeiros; ilustrou livros de arte e de literatura; foi colaborador da Enciplopédia Verbo na secção de Belas Artes; notabilizou-se por descobertas artísticas importantes (ex: para o estudo do políptico de S.Vicente de Fora; identificou a origem de uma casula guardada em Milão, proveniente da Casa de Aviz); expôs em Portugal e no estrangeiro (Itália à cabeça); fundou o Movimento de Renovação de Arte Religiosa em Portugal, presidido por Nuno Teotónio Pereira; desdobrou-se em conferências sobre arte. Tem painéis e grandes murais expostos em Ministérios, Igrejas, Museus, Palácios de Justiça, Câmaras Municipais, entre outros monumentos públicos, e também casas particulares, privilegiando 4 expressões artísticas: a pintura mural, o fresco vitral, a tapeçaria e o mosaico.
| 1914-1996 |
Talvez o facto de ter feito carreira durante o Estado Novo (decorre de ter nascido em 1914) explique algum esquecimento, mas tratando-se de arte, são sempre impróprias as (eventuais) colagens políticas. Curiosamente, a generalidade dos cineastas foi poupada, mas os músicos, os escultores e os pintores não escaparam a um olhar crítico censório. Amália é um caso flagrante de tentativa de marginalização radical, devendo à dupla Soares (como PR) e Herman José (como figura influente dos anos 80) a sua reabilitação, uma década depois de o PCP ter feito de tudo para a ostracizar da vida pública e obliterar o seu nome da história. A injustiça foi clamorosa, até porque a fadista abrigara, em sua casa, vários comunistas condenados a viver na clandestinidade, arriscando-se a dissabores graves com a horrenda PIDE.
Voltando ao artista plástico nortenho, há muito património nacional em que já teremos esbarrado, sem lembrar o autor, como a própria concepção arquitectónica da Igreja de S.João de Deus e que é hoje o Espelho d’Agua (originalmente, o Pavilhão dos Desportos na Exposição do Mundo Português, em 1940), a somar às obras que tem na Igreja da Natividade (Terra Santa), no Vaticano, na Síria, etc. Uma amostra, em Portugal:
| Mosaico no Tribunal da Figueira da Foz |
| Painéis na entrada principal da Reitoria da Universidade de Lisboa, feitos de mosaicos de tipo bizantino |
| Painéis do átrio do MTSSS. À esq. «A Família, a Pesca e os Seguros» e à dta. «A Prudência, a Previdência e a Cooperação» |
A inconveniente semelhança com outros nomes – o arquitecto Raúl Lino (1879-1974) e o pintor modernista Lino António (1898-1974) – atrapalharam a memorização capaz da sua identidade.
Nesse desleixo histórico colectivo, um hiato mais excepcional terá sido a Segunda Dinastia, marcada por sangue inglês, diria… Alguns exemplos ilustrativos do novo paradigma (que se perdeu, a partir da Dinastia Filipina): a instituição ordenada e regular dos cronistas do reino e o hábito da escrita da maioria dos monarcas da Casa de Aviz; o desvelo das autoridades a apontar e a colecionar todos os avanços náuticos, geográficos, astronómicos, matemáticos, até médicos, botânicos, etc. – por junto: tecnológico-científicos –, que criaram a base de dados necessária para as arriscadas navegações em alto mar, durante os Descobrimentos; as celebrações dos grandes feitos, onde se destacam as lindíssimas Tapeçarias de Pastrana (gin de 11 de Agosto de 2010), a exaltar as cruciais conquistas portuguesas no Norte de África.
Que risco, prescindir de guardar os vestígios do passado, tão importantes para sustentar a memória de um povo.
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
24 fevereiro 2026
Excerto da mensagem do Papa Leão XIV para a Quaresma de 2026
Este ano gostaria de chamar a atenção, em primeiro lugar, para a importância de dar lugar à Palavra através da escuta, pois a disponibilidade para escutar é o primeiro sinal com que se manifesta o desejo de entrar em relação com o outro.
O próprio Deus, revelando-se a Moisés na sarça ardente, mostra que a escuta é uma característica distintiva do seu ser: «Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egipto, e ouvi o seu clamor» (Ex 3, 7). Escutar o clamor dos oprimidos é o início de uma história de libertação, na qual o Senhor envolve também Moisés, enviando-o a abrir um caminho de salvação para os seus filhos reduzidos à escravidão.
É um Deus que nos envolve e, hoje, também vem até nós com os pensamentos que fazem vibrar o seu coração. Por isso, escutar a Palavra na liturgia educa-nos para uma escuta mais verdadeira da realidade: entre as muitas vozes que passam pela nossa vida pessoal e social, as Sagradas Escrituras tornam-nos capazes de reconhecer aquela que surge do sofrimento e da injustiça, para que não fique sem resposta. Entrar nesta disposição interior de recetividade significa deixar-se instruir hoje por Deus para escutar como Ele, até reconhecer que «a condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e económicos e, sobretudo, a Igreja». [1]
Jejuar
Se a Quaresma é um tempo de escuta, o jejum constitui uma prática concreta que nos predispõe a acolher a Palavra de Deus. Na verdade, a abstinência de alimentos é um exercício ascético muito antigo e insubstituível no caminho da conversão. Precisamente porque implica o corpo, torna mais evidente aquilo de que temos “fome” e o que consideramos essencial para o nosso sustento. Portanto, é útil para discernir e ordenar os “apetites”, para manter vigilante a fome e a sede de justiça, subtraindo-a à resignação e instruindo-a a fim de se tornar oração e responsabilidade para com o próximo.
Com grande sensibilidade espiritual, Santo Agostinho deixa transparecer a tensão entre o tempo presente e a realização futura que atravessa esta salvaguarda do coração, quando observa que: «Ao longo da vida terrena, cabe aos homens ter fome e sede de justiça, mas ser saciados pertence à outra vida. Os anjos saciam-se deste pão, deste alimento. Os homens, pelo contrário, sentem fome dele, estão inclinados ao seu desejo. Esta inclinação ao desejo dilata a alma, aumentando a sua capacidade». [2] Compreendido neste sentido, o jejum permite-nos não só disciplinar o desejo, purificá-lo e torná-lo mais livre, mas também ampliá-lo, de tal modo que se volte para Deus e se oriente para agir no bem.
No entanto, para que o jejum conserve a sua autenticidade evangélica e evite a tentação de envaidecer o coração, deve ser sempre vivido com fé e humildade. Ele exige um permanente enraizar-se na comunhão com o Senhor, porque «não jejua verdadeiramente quem não sabe alimentar-se da Palavra de Deus». [3] Como sinal visível do nosso compromisso interior de, com o apoio da graça, nos afastarmos do pecado e do mal, o jejum deve incluir também outras formas de privação destinadas a fazer-nos assumir um estilo de vida mais sóbrio, pois «só a austeridade torna forte e autêntica a vida cristã».
Por isso, gostaria de vos convidar a uma forma de abstinência muito concreta e frequentemente pouco apreciada, ou seja, a abstinência de palavras que atingem e ferem o nosso próximo. Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não se pode defender, às calúnias. Em vez disso, esforcemo-nos por aprender a medir as palavras e a cultivar a gentileza: na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, nos meios de comunicação social, nas comunidades cristãs. Assim, muitas palavras de ódio darão lugar a palavras de esperança e paz.
Juntos
Por fim, a Quaresma realça a dimensão comunitária da escuta da Palavra e da prática do jejum. A Escritura sublinha também este aspeto de várias maneiras. Por exemplo, ao narrar no livro de Neemias que o povo se reuniu para escutar a leitura pública do livro da Lei e, praticando o jejum, se dispôs à confissão de fé e à adoração, a fim de renovar a aliança com Deus (cf. Ne 9, 1-3).
Do mesmo modo, as nossas paróquias, famílias, grupos eclesiais e comunidades religiosas são chamadas a percorrer, durante a Quaresma, um caminho partilhado, no qual a escuta da Palavra de Deus, assim como do clamor dos pobres e da terra, se torne forma de vida comum e o jejum suporte um verdadeiro arrependimento. Neste contexto, a conversão diz respeito não só à consciência do indivíduo, mas também ao estilo das relações, à qualidade do diálogo, à capacidade de se deixar interpelar pela realidade e de reconhecer o que realmente orienta o desejo, tanto nas nossas comunidades eclesiais como na humanidade sedenta de justiça e reconciliação.
Caríssimos, peçamos a graça de uma Quaresma que torne os nossos ouvidos mais atentos a Deus e aos últimos. Peçamos a força dum jejum que também passe pela língua, para que diminuam as palavras ofensivas e aumente o espaço dado à voz do outro. E comprometamo-nos a fazer das nossas comunidades lugares onde o clamor de quem sofre seja acolhido e a escuta abra caminhos de libertação, tornando-nos mais disponíveis e diligentes no contributo para construir a civilização do amor.
23 fevereiro 2026
22 fevereiro 2026
I Domingo da Quaresma
LEITURA I – Génesis 2,7-9;3,1-7
O Senhor Deus formou o homem do pó da terra,
insuflou em suas narinas um sopro de vida,
e o homem tornou-se um ser vivo.
Depois, o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, a oriente,
e nele colocou o homem que tinha formado.
Fez nascer na terra toda a espécie de árvores,
de frutos agradáveis à vista e bons para comer,
entre as quais a árvore da vida, no meio do jardim,
e a árvore da ciência do bem e do mal.
Ora, a serpente era o mais astucioso
de todos os animais do campo
que o Senhor Deus tinha feito.
Ela disse à mulher:
«É verdade que Deus vos disse:
“Não podeis comer o fruto de nenhuma árvore do Jardim”?»
A mulher respondeu:
«Podemos comer o fruto das árvores do jardim;
mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim,
Deus avisou-nos:
“Não podeis comer dele nem tocar-lhe, senão morrereis”».
A serpente replicou à mulher:
«De maneira nenhuma! Não morrereis.
Mas Deus sabe que, no dia em que o comerdes,
abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como deuses,
ficando a conhecer o bem e o mal».
A mulher viu então que o fruto da árvore
era bom para comer e agradável à vista,
e precioso para esclarecer a inteligência.
Colheu o fruto e comeu-o;
depois deu-o ao marido, que estava junto dela,
e ele também comeu.
Abriram-se então os seus olhos
e compreenderam que estavam despidos.
Por isso, entrelaçaram folhas de figueira
e cingiram os rins com elas.
21 fevereiro 2026
Pensamentos Impensados
A propósito das portagens, acho que todos devem pagar; não se diSCUT.
Por que é que as promessas se quebram com facilidade? Porque o prometido é de vidro.
Rossini compôs aberturas: as Chaves do Areeiro compõem fechaduras.
Há raparigas que têm tatuagens nos rins, que não podem ver; a única explicação que me ocorre é porque querem que os namorados as vejam pelas costas.
Por que é que os fogões a gás são considerados electrodomésticos?
A água só é potável se tiver mais de 16 anos; se tiver menos é inimputável.
SdB (I)
20 fevereiro 2026
Poemas dos dias que correm
I cried she was deaf
And she worked on my face until breaking my eyes
And saying "What else you got left?"
But she said, "Don't forget
Everybody must give something back
For something they get"
I asked her how come
And she buttoned her boot, and straightened her suit
And she said, "Don't be cute"
And felt with my thumbs
And gallantly handed her my very last piece of gum
Where everyone walked
And, when finding out I'd forgotten my shirt
I went back and knocked
And I tried to make sense
Out of that picture of you in your wheelchair
That leaned up against
I asked her for some
She said, "No, dear", I said, "Your words are not clear
You'd better spit out your gum"
Then she fell on the floor
And, I covered her up and then went and looked through her drawer
And brought it to you
And you, you took me in, you loved me then
You never wasted time
And I, I never took much, I never asked for your crutch
Now don't ask for mine
19 fevereiro 2026
Textos dos dias que correm
| Tudo (local, hora, máquina...) como de costume |
Amor e Intimidade
Toda a gente tem medo da intimidade — ter ou não ter consciência desse medo é outra história. A intimidade significa expor-se perante um estranho — e todos nós somos estranhos; ninguém conhece ninguém. Somos mesmo estranhos a nós próprios, porque não sabemos quem somos.
A intimidade aproxima-o de um estranho. Tem de deixar cair todas as suas defesas; só assim a intimidade é possível. E o seu medo é que se deixar cair todas as suas defesas, todas as suas máscaras, quem sabe o que o estranho lhe poderá fazer. Todos nós andamos a esconder mil e uma coisas, não só dos outros mas de nós próprios, porque fomos criados por uma humanidade doente com toda a espécie de repressões, inibições e tabus. E o medo é que, com alguém que seja um estranho — e não importa se se viveu com a pessoa durante trinta ou quarenta anos; a estranheza nunca desaparece —, parece mais seguro manter uma ligeira defesa, uma pequena distância, porque alguém se poderá aproveitar das suas fraquezas, da sua fragilidade, da sua vulnerabilidade.
Toda a gente tem medo da intimidade. O problema torna-se mais complicado porque toda a gente quer intimidade. Toda a gente quer intimidade porque, de outro modo, está sozinho neste Universo — sem um amigo, sem um amante, sem ninguém em quem confiar, sem ninguém a quem abrir todas as suas feridas. E as feridas não saram se não forem abertas.
Osho, in 'Intimidade'
18 fevereiro 2026
Quarta-feira de Cinzas
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Aliás, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está nos Céus. Assim, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita, para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. Quando rezardes, não sejais como os hipócritas, porque eles gostam de orar de pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os homens não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai, que está presente em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa».
17 fevereiro 2026
Do dualismo em Shakespeare *
And I lov’d her that she didi pity them.
["Ela amava-me pelos perigos que eu passara; eu amava-a por que se apiedara de mim.” (na tradução do Rei Dom Luís de Bragança, Publicações Europa-América, 1999)]
Shakespeare, in Othello (Acto I, Cena III)
A relação amorosa é um diálogo. E um diálogo, até pela sua própria natureza, é um jogo duplo, no sentido de ser protagonizado por duas pessoas. É um movimento de vaivém, de pergunta e resposta, de afirmação e afirmação, de interrogação e interrogação. A relação amorosa que começa, que perdura ou que termina é um mistério cuja decifração está na frase que se diz e que se ouve, no olhar que se derrama ou que se pressente, ou no detalhe, esse activo que é propriedade intermitente de Deus e do diabo, coisa dual que constrói e destrói.
O amor nasce de um dualismo que concentra em si a simultaneidade. Não é A que olha para B e B que olha para A. O olhar de A para B tem de ser simultâneo com o olhar de B para A, pelo que, naquele preciso instante, os olhos se cruzam no espaço e no tempo, permitindo o amor. Na mesma linha de raciocínio, a frase que A diz a B não é simultânea com a frase que B diz a A porque um diálogo não é uma composição de monólogos. Há, no entanto, uma simultaneidade sequencial, um nexo causal, uma causa e efeito, uma força exercida sobre um corpo, corpo esse que reage – é o princípio da acção e da reacção – e, por mais microscópico que seja, desvia o seu percurso.
O amor nasce desta diversidade de dualismos: a troca de olhares, a troca de frases, a troca de sorrisos que estabelece o comércio, o toque dual de uma mão na outra. Mas o amor nasce também do motivo, do porquê? com que interrogamos o céu, o destino, as estrelas. O dualismo nasce do motivo duplo: A ama B porque...; B ama A porque... O sucesso do amor não reside no conhecimento de uma resposta, de outra resposta, de ambas as respostas. O sucesso do amor reside no dualismo perfeito das duas respostas, no encaixe perfeito de uma saliência e de uma reentrância, na conjugação harmoniosa do claro e do escuro, de Veneza e de Chipre, ou mesmo do claro e do claro, de Veneza e Veneza.
Otelo e Desdémona amam-se e casaram. Neste casal há, aparentemente, dualismo: há claro e escuro, há novo e velho, há Veneza e Chipre. E há amor, que é uma espécie de aglutinante de todos estes ingredientes adicionados à malga em proporções de par. Por vezes, quando estes dualismos assumem foros desafiantes, como se a todos os elementos se juntasse o advérbio muito (muito claro e muito escuro, muito Veneza e muito Chipre) o amor é um emulsionante, homogeneizando dois fluidos imiscíveis.
Assim sendo, o amor de um pelo outro chegaria para conferir felicidade ao par? Sim, mas...
Na terceira cena do primeiro acto, no entanto, o desfecho está traçado. Não haverá felicidade, não porque entre A e B se interponha C, ou porque um determinado lenço (tingido do sangue que não tingiu nunca os lençóis) caiu nas mãos erradas, no momento errado. Não haverá felicidade, não porque A e B se não amem mutuamente, mas porque no dualismo que contém o motivo do amor o conjunto intersecção é nulo; não houve acção / reacção; A olhou para B numa fracção de instante diferente do momento em que B olhou para A. E nessa fracção de instante o mundo rodou, a posição relativa das coisas deslocou-se, B tinha fechado os olhos um milímetro, e os olhos alheios viram coisas diferentes.
Otelo ama Desdémona; Desdémona ama Otelo. Mas este amor não é aglutinante nem mesmo emulsionante. O amor que um nutre pelo outro tem uma natureza diferente, e é isso que mata o amor.
Recorramos à tradução portuguesa: Desdémona ama Otelo pelos perigos que ele passara. Desdémona nutre por Otelo uma amor que tem uma natureza simultaneamente sexual e romântica. É o amor em toda a sua plenitude física e emocional. O amor nasce-lhe da visão que tem de Otelo, dos perigos pelos quais ele passara. Otelo encantou Desdémona com a história sobre ele próprio. Uma história que ganharia o coração de outras mulheres, tal o seu fascínio.
Recorramos de novo à tradução portuguesa: “eu amava-a por que se apiedara de mim.” Otelo não ama Desdémona por aquilo que ela é, pela história da sua vida ou pelos perigos que passara, mas ama Desdémona pela forma como Desdémona o ama a ele. Em Otelo, a haver amor, não é carnal, uma vez que não deseja que a mulher parta com ele para Chipre para satisfazer desejos carnais. Otelo ama Desdémona? Talvez à sua maneira, se entendermos como maneira legítima o mouro apenas amar a forma como Desdémona o ama a ele. E isso, por mais terrível que seja, inviabiliza o amor, ou a possibilidade do amor. Não há dualismo, não há olhar simultâneo, não há frase e outra frase numa simultaneidade consecutiva.
O casamento de Otelo e Desdémona não é consumado nunca. No leito onde nada começa, tudo acaba. O casamento, tal como a sua consumação num leito onde mora o amor, é um dualismo, o encaixe divino de dois seres, dois diálogos, dois olhares entrecruzados. Talvez, em bom rigor, não tenha havido falta de consumação por idade do mouro que redunda em menos desejo carnal, ou por falta de um amor eros. Talvez, em bom rigor, não tenha havido consumação porque não tenha havido nada de conjugal para consumar. O amor que ambos nutriam um pelo outro era de tal forma diferente, de tal forma distante no espaço e no tempo que nada mais lhes restava, a não ser uma tragédia em cima de outra tragédia. E talvez Otelo tenha cravado um punhal em si próprio, não por remorso ou medo do cárcere, mas porque não conseguia amar-se se ninguém o amava a ele. O caos invade-o porque, tendo morto Desdémona, já não há ninguém para reflectir a imagem que ele tem, ou quer ter, de si próprio.
O dualismo permite o amor, ou a possibilidade do amor; mas permite a tragédia porque ambos podem andar a par. No entanto, a falta de dualismo, quando entre dois seres criados à imagem e semelhança de Deus, só permite a tragédia. Aconteceu assim com Otelo e Desdémona.
JdB
* publicado originalmente a 14 de Novembro de 2017. Relembrado a propósito do filme Hamnet (no qual Shakespeare é um personagem central) que vi neste fim de semana e ao qual voltarei em breve.
16 fevereiro 2026
15 fevereiro 2026
VI Domingo do Tempo Comum
EVANGELHO – Mateus 5,17-37
Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas;
não vim revogar, mas completar.
Em verdade vos digo:
Antes que passem o céu e a terra,
não passará da Lei a mais pequena letra
ou o mais pequeno sinal,
sem que tudo se cumpra.
Portanto, se alguém transgredir um só destes mandamentos,
por mais pequenos que sejam,
e ensinar assim aos homens,
será o menor no reino dos Céus.
Mas aquele que os praticar e ensinar
será grande no reino dos Céus.
Porque Eu vos digo:
Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus,
não entrareis no reino dos Céus.
Ouvistes que foi dito aos antigos:
‘Não matarás; quem matar será submetido a julgamento’.
Eu, porém, digo-vos:
Todo aquele que se irar contra o seu irmão
será submetido a julgamento.
Quem chamar imbecil a seu irmão
será submetido ao Sinédrio,
e quem lhe chamar louco
será submetido à geena de fogo.
Portanto, se fores apresentar a tua oferta sobre o altar
e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti,
deixa lá a tua oferta diante do altar,
vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão
e vem depois apresentar a tua oferta.
Reconcilia-te com o teu adversário,
enquanto vais com ele a caminho,
não seja caso que te entregue ao juiz,
o juiz ao guarda, e sejas metido na prisão.
Em verdade te digo:
Não sairás de lá, enquanto não pagares o último centavo.
Ouvistes que foi dito:
‘Não cometerás adultério’.
Eu, porém, digo-vos:
Todo aquele que olhar para uma mulher desejando-a,
já cometeu adultério com ela no seu coração.
Se o teu olho é para ti ocasião de pecado,
arranca-o e lança-o para longe de ti,
pois é melhor perder-se um dos teus membros
do que todo o corpo ser lançado na geena.
E se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado,
corta-a e lança-a para longe de ti,
porque é melhor que se perca um dos teus membros,
do que todo o corpo ser lançado na geena.
Também foi dito:
‘Quem repudiar sua mulher dê-lhe certidão de repúdio’.
Eu, porém, digo-vos:
Todo aquele que repudiar sua mulher,
salvo em caso de união ilegal,
fá-la cometer adultério.
Ouvistes que foi dito aos antigos:
‘Não faltarás ao que tiveres jurado,
mas cumprirás os teus juramentos para com o Senhor’.
Eu, porém, digo-vos que não jureis em caso algum:
nem pelo Céu, que é o trono de Deus;
nem pela terra, que é o escabelo dos seus pés;
nem por Jerusalém, que é a cidade do grande Rei.
Também não jures pela tua cabeça,
porque não podes fazer branco ou preto um só cabelo.
A vossa linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’.
O que passa disto vem do Maligno».
14 fevereiro 2026
Pensamentos Impensados
Mais um pensamento filosófico: quando as pessoas se queixam de que estão a ficar mais velhas eu digo: é natural; já pensaste que nasceste e no dia seguinte já tinhas o dobro da idade?
O fruto do casamento entre dois irmãos chama-se insecto.
O gelo é o único produto da natureza que não ferve; nem mesmo a 90 graus, como o ângulo recto.
Os ingleses podem ter feições de meridionais, basta que tenham nascido no meridiano de Greenwich.
O que eram as bacarnais? Eram os festejos em honra de Baco que acabavam em orgias carnais.
SdB (I)
13 fevereiro 2026
Textos dos dias que correm
Não Deixes Que Metam o Nariz na Tua Vida
Quando falas ou simulas falar de ti próprio e amalgamas passado, presente, futuro, há sempre os que perguntam se o que contaste é verdade ou não. Nunca indagam se vai ser verdade. O que lhes interessa é saber, com a curiosidade dos intriguistas, se o que se passou (ou parece ter-se passado) se passou mesmo contigo. É um erro de gente vulgar. Parasitários ou não, qualquer invenção ou patranha, qualquer «mentir verdadeiro» é acepipe biográfico, é pretexto para te enfileirarem na nulidade biográfica que é a deles próprios e tecerem incansavelmente histórias a teu respeito.
Não te deixes seduzir pelo gosto da conversa. Essa pequena gente não merece a mais pequena atenção, nem tu precisas de espectadores para o salutar exercício diário de falar por falar.
(...) Não deixes que metam o nariz na tua vida. Caso contrário, vais ficar cheio de gente, com a sua vida escassamente interessante. O tombo da vida vulgar já foi feito por escritores como Camilo. E tenho a impressão de que, no essencial, a vida vulgar continua a mesma.
Desunha-te a escrever (olha que já tens pouco tempo!), mas fá-lo com a discrição e a reserva de quem não se dá às primeiras. É outro exercício salutar.
Alexandre O'Neill, in "Uma Coisa em Forma de Assim"
12 fevereiro 2026
Acerca de mim
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- Vai um gin do Peter’s ?
- Excerto da mensagem do Papa Leão XIV para a Quares...
- Para um começo de semana sereno (XL)
- I Domingo da Quaresma
- Pensamentos Impensados
- Poemas dos dias que correm
- Textos dos dias que correm
- Quarta-feira de Cinzas
- Música para o dia de hoje
- Do dualismo em Shakespeare *
- Para um começo de semana sereno (XXXIX)
- VI Domingo do Tempo Comum
- Pensamentos Impensados
- Textos dos dias que correm
- Músicas dos dias que correm
- Vai um gin do Peter’s ?
- Poemas dos dias que correm
- Para um começo de semana sereno (XXXVIII)
- V Domingo do Tempo Comum
- Pensamentos impensados
- Poemas dos dias que correm
- Músicas dos dias que correm *
- Do silêncio e da lentidão *
- Poemas dos dias que correm
- Músicas dos dias que correm
- IV Domingo do Tempo Comum
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