Nos últimos anos tenho frequentado aquilo a que talvez se chame clubes de homens - e uso esta expressão para diferenciar estes clubes de outras agremiações - clubes de futebol, de bairro, de outras actividades lúdicas ou desportivas mais ou menos amadoras. A expressão clubes de homens também está actualmente parcialmente desactualizada; apesar de muitos terem começado com sócios masculinos apenas, outros sempre foram mistos ou, noutro caso, embora não aceitando senhoras como sócias, recebem-nas com gosto ao almoço, ficando numa sala diferente, juntamente com os homens que também não são sócios.
Sentarmo-nos à mesa nestes clubes é uma actividade social: vamos com amigos, encontramos amigos, fazemos amigos ou limitamo-nos a conhecer pessoas. As conversas são variadas: pode falar-se de futebol ou de política (pouco, felizmente), de finanças ou de corridas de touros, podem contar-se histórias antigas da família ou do Portugal de outros tempos, ou lembrar sócios ausentes. À mesa podem estar 7 pessoas ou 20 e tudo isso também contribui para que as conversas variem muito; por vezes fazem-se grupos, por vezes todas as pessoas conversam sobre o mesmo tema. Por vezes a companhia é boa, por vezes nem por isso. Nada de muito espantoso, portanto - menos ainda de secreto. Quando se chega a casa é natural que nos perguntem: então a mesa no clube X? Era uma boa mesa? Reportamos quem estava, do que se conversou, o que era o almoço. Igualmente, nada de muito espantoso.
É natural que nestes clubes haja um ou mais empregados a servirem à mesa, ou a darem apoio à refeição - estão por ali, em movimento ou parados, prontos para o que for preciso. Ao contrário de um restaurante, estes empregados podem servir apenas uma mesa composta por um grupo homogéneo de pessoas. Um dia destes, ao olhar para um deles que seguia de forma muito interessada uma conversa sobre a actividade bancária do antigo regime - quem era quem, quem tinha feito o quê ou quem tinha sido administrador de que banco - dei por mim a pensar: o que lhe pergunta a mulher quando ele chega a casa, e o que lhe diz ele? Isto é, como olha ele para um conjunto de 15 ou 20 pessoas engravatadas, que falam disto e daquilo, desde o golfe à Feira de Sevilha, passando pelos novos sócios ou pela comparação com outros clubes? E o que diz ele à mulher como informação relevante: fala nos nomes (todos estes empregados conhecem os nomes dos sócios), no que cada um disse, no nível da gorjeta, nas conversas?
O sócio olha para o empregado e vê-lhe simpatia, educação, bom serviço. Mas não lhe exige discrição, pelo que, chagado a casa, o empregado X se sente à vontade para comentar o almoço e os comensais. O que dirá ele, caso alguém se interesse pelo seu dia de trabalho? Como é que os empregados de um clube vêem os sócios?
JdB
