14 junho 2024

A educação como pormenor estético

Estive durante três dias num Hotel no Dubai. Parte substantiva das pessoas que lá estavam hospedadas eram ingleses provenientes de cidades laboriosas e industriais: pessoas muito tatuadas, com piercings, a tomar o pequeno almoço com chapéu de pala voltado para a nuca ou levar a boca ao prato, porque esse movimento é mais confortável do que levar um talher à boca. 

***

Há alguns anos, numa festa semi-pública, fui-me apresentar a um ex-jogador de futebol, bastante mais novo do que eu, que era conhecido da minha filha. Ao ver-me aproximar dele, o jovem levantou-se e apertou imediatamente um botão do casaco.

***

O que têm estas duas referências em comum? Uma certa ideia de educação. Ou, talvez para ser mais preciso, uma certa forma visível de educação - uma certa cultura traduzida em gestos.

A minha geração / rede social ou familiar foi educada numa série de gestos - ou ausência de gestos - que eram considerados manifestações de boa vontade. Alguns exemplos: não se estava de chapéu em casa, não se dançava com uma rapariga a fumar ou a beber, não se falava com uma pessoa de respeito com um casado desabotoado, não se almoçava ou jantava - ainda que fosse numa esplanada - de tronco nu. Também não se comia de boca aberta e era o talher que ia à boca, não a inversa.

Alguns hábitos mantêm-se, nomeadamente os que traduzem uma certa consideração por pessoas de mais respeito, como dar o lugar a alguém idoso. Por outro lado, como se explica a um jovem que não se fala com uma senhora com casaco aberto, ou que não se dança com uma rapariga a beber uma mini pelo gargalo, ou que não se toma o pequeno almoço com um chapéu de pala voltado para a nuca?  

Muitos gestos que traduzem uma certa educação são detalhes. Apertar um casaco para falar com alguém de respeito, apagar um cigarro antes de dançar com uma rapariga, ou tirar o chapéu dentro de casa são pormenores estéticos. Se formos confrontados com um jovem rebelde a nossa capacidade de argumentação é fraca. Se me perguntarem: mas porque é feio estar de chapéu de pala voltado para a nuca, o que é que respondo? Como se explica a estética num mundo que privilegia o funcional? Em bom rigor, qual é o mal de estar de chapéu dentro de casa? Nenhum! Qual é o mal de estar de casaco aberto a falar com uma senhora? Nenhum! São pormenores estéticos que num certo tempo traduziam uma educação, ou um respeito por alguém. 

Como se explica o detalhe ou a estética a quem não lhes dá importância?

JdB         

12 junho 2024

Textos dos dias que correm

Uma formidável moça, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das ramagens do lenço cruzado, ainda suada e esbraseada do calor da lareira, entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incelências lhe perdoassem porque faltara tempo para o caldinho apurar… Jacinto ocupou a sede ancestral – e durante momentos (de esgazeada ansiedade para o caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o garfo negro e a fusca colher de estanho. Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e recendia. Provou – e levantou para mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, com espanto: – “Está bom!”

Estava precioso: tinha fígado e tinha moela; o seu perfume enternecia; três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.

– Também lá volto! – exclamava Jacinto com uma convicção imensa. – É que estou com uma fome… Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome.

Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta, esperando a portadora dos pitéus, a rija moça de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado – e pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominava favas!… Tentou todavia uma garfada tímida – e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado:

– Óptimo!… Ah, destas favas, sim! Ó que fava! Que delícia!


Eça de Queiroz in A Cidade e as Serras

10 junho 2024

Crónica de um viajante no Dubai (I)

 

Museu do Futuro (Dubai)

Ao longo de quase 50 anos de viagens mais ou menos regulares, conheci de tudo: locais que não me disseram nada embora tenha gostado deles, locais aos quais voltaria com gosto, locais que gostei de conhecer mas aos quais não tenho interesse em voltar. O Dubai insere-se nesta última categoria. Uma vez que aqui fazíamos escala no regresso da África do Sul, decidimos ficar 3 dias. Em abono da verdade, chega - e talvez sobre. 

Vir ao Dubai é confrontarmo-nos com uma experiência diferente - um país árabe muito rico, por onde passam turistas de muitos locais. No hotel onde ficámos, ingleses tatuados provenientes de cidades industriais inglesas, alguns russos (?), alguns alemães. Porém, apesar deste cosmopolitismo, é sempre um país árabe, altamente seguro, altamente controlado, muito quente. Por estes dias as temperaturas andam pelos 36 - 42ºC, o que para mim é terrível, uma vez que a minha temperatura de conforto não ultrapassa os 26ºC. 

No Dubai não há nada barato - talvez apenas a areia do deserto, caso esteja disponível. Os centros comerciais - sempre apinhados de gente que ali procura entretenimento e ar fresco - são luxuosos, com boas marcas, embora tenha visto mais luxo num de Singapura. Os preços são, na generalidade, altos. O vinho, por estarmos num país muçulmano, é também caro. Ontem bebemos uma garrafa de vinho branco chileno, qualidade média, por 20€. A subida ao arranha-céus mais alto do mundo custa para cima de 100 ou 120€. Dispensámos... O Dubai não produz nada - vive de imobiliário ou de serviços, pelo que importa tudo.

O hotel onde ficámos tem praia privativa, o que é um must para enfrentar estas temperaturas de quase Verão. O senão? A água está a roçar (se não for mais) os 30ºC. Significa isto que uma pessoa não se refresca - apenas se molha. 

Numa praia no Dubai

A arquitectura do Dubai é bonita - não só os edifícios com traça mais local, como os que têm um design internacional. Podem ver-se prédios semelhantes na Malásia (Kuala Lumpur) ou Singapura, só para dar um exemplo de países muito financeiros e não europeus.

Não estou a dizer que o Dubai é um destino incontornável. Porém, uma vez que é um hub aéreo muito frequente para quem viaja na Emirates, talvez faça sentido parar-se por 2 ou 3 dias (seguramente não mais) e perceber o que é isto - algumas (poucas) burkas, alguns (muitos) hijabs, muita gente ocidental, algumas mulheres (russas, talvez) muito produzidas e cheias de botox, chamadas sugar daddy, por prestarem serviço - temporário ou mais permanente - a árabes ricos. 

Centro Comercial no Dubai

Nota curiosa: fomos abordados no voo de Joanesburgo para o Dubai por uma assistente de bordo portuguesa que detectou a nossa identidade pelo passaporte. Muito simpática, conversou um bom bocado connosco a meio do voo e ofereceu-nos chocolates. Percebe-se que gostou de falar português com alguém não colega, e partilhou connosco uma parte mais difícil desta vida de assistente de bordo da Emirates - um certo desenraizamento, uma certa dúvida sobre e quando e para quê regressar a Portugal. Na Emirates ganha-se bem, mas não é um emprego para a vida. Dois dias depois passeávamos num centro comercial e encontrámo-la, juntamente com mais dois portugueses igualmente empregados na Emirate. Um encontro nacional - e improvável.

JdB

09 junho 2024

X Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Marcos 3,20-35

Naquele tempo,
Jesus chegou a casa com os seus discípulos.
E de novo acorreu tanta gente,
de modo que nem sequer podiam comer.
Ao saberem disto, os parentes de Jesus
puseram-se a caminho para O deter,
pois diziam: «está fora de Si».
Os escribas que tinham descido de Jerusalém diziam:
«Está possesso de Belzebu,
e ainda:
«É pelo chefe dos demónios que Ele expulsa os demónios».
Mas Jesus chamou-os e começou a falar-lhes em parábolas:
«Como pode Satanás expulsar Satanás?»
Se um reino estiver dividido contra si mesmo,
tal reino não pode aguentar-se.
E se uma casa estiver dividida contra si mesma,
essa casa não pode aguentar-se.
Portanto, se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide,
não pode subsistir: está perdido.
Ninguém pode entrar em casa de um homem forte
e roubar-lhe os bens, sem primeiro o amarrar:
só então poderá saquear a casa.
Em verdade vos digo:
Tudo será perdoado aos filhos dos homens:
os pecados e blasfémias que tiverem proferido;
mas quem blasfemar contra o Espírito Santo
nunca terá perdão: será réu de pecado eterno».
Referia-Se aos que diziam:
«Está possesso dum espírito impuro».
Entretanto, chegaram sua Mãe e seus irmãos,
que, ficando fora, mandaram-n’O chamar.
A multidão estava sentada em volta d’Ele,
quando Lhe disseram:
«Tua Mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura».
Mas Jesus respondeu-lhes:
«Quem é minha Mãe e meus irmãos?»
E, olhando para aqueles que estavam à sua volta, disse:
«Eis minha Mãe e meus irmãos.
Quem fizer a vontade de Deus
esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe».

07 junho 2024

De um congresso em África

Quem me vai acompanhando pelo blogue ou pelas conversas não lerá neste post nada de novo, porque não escreverei nada de novo. O que me impele então à repetição? A necessidade de manter o foco numa área importante da minha vida - a oncologia pediátrica ou, numa expressão mais impactante, o cancro nas crianças. 

Estive 3ª e 4ª feiras em Joanesburgo, numa reunião e num encontro de associações de pais / sobreviventes doentes de África. Encontrei-me com pessoas do Zimbabwe, África do Sul, Gana, Zâmbia, Malawi, Ilhas Maurícias, Egipto, etc. Falamos de países onde a taxa de sobrevivência pode ser 30%, a taxa de abandono altíssima, onde os recursos humanos, financeiros e técnicos são escassos. No decurso deste encontro deslocámo-nos a duas Casas da CHOC, a associação sul-africana (uma delas no famoso bairro do Soweto). O modelo das Casas é igual às da Acreditar - receber crianças / jovens doentes e as suas famílias durante o tempo que for preciso. Ali encontrei uma família moçambicana, cuja criança abriu os olhos de espanto quando perguntei: quem fala português aqui?  

Gosto da comunidade africana, com quem já me encontrei algumas vezes: são amáveis, simpáticos, bem-dispostos, risonhos, cheios de esperança. Falam alto, abraçam, apertam a mão demoradamente e riem-se das piadas alheias. Esta é a vertente divertida dos encontros. A vertente importante é perceber as necessidades, o que ainda falta por fazer. Enquanto a Europa fala de melhor sobrevivência, em África (e noutras regiões) ainda se fala de sobrevivência. É nestes encontros, no cruzamento com mães e crianças doentes, que eu me lembro do que aqui me trouxe, do que me mantém aqui. No fundo, é aqui que me lembro, de forma muito comovida, o que dá sentido à minha vida. 

No congresso de Ottawa disse o que já (me) é um lugar-comum: os anos de membro e presidente do CCI foram os anos humanamente mais enriquecedores da minha vida. Nunca terei nada que me tenha oferecido uma visão tão clara das desigualdades por que passa o mundo. Nunca mais farei amigos que, embora de países e culturas diferentes, falam a mesma língua que eu: uma linguagem feita de uma uma história pessoal desafiante mas uma linguagem feita, também, de esperança.

Apesar de tudo a vida foi generosa, ao dar-me tudo isto.

Adeus até ao meu regresso.

JdB   

06 junho 2024

Poemas dos dias que correm

 CÉLULAS DO CANCRO


"As células do cancro são aquelas que se esqueceram de como morrer"
(Enfermeira, Hospital Royal Marsden)

Esqueceram-se de como se morre
E por isso prolongam a sua vida de morte.

Eu e meu tumor carinhosamente lutamos.
Esperemos que não saia uma dupla morte.

Preciso de ver o meu tumor morto
Um tumor que se esquece de morrer
E que em vez disso planeia matar-me.

Mas eu lembro-me de como se morre
Se bem que estejam mortas as minhas testemunhas.
Mas eu lembro-me do que disseram
Dos tumores que os haveriam de tornar
Tão cegos e tão tontos quanto tinham sido
Antes de nascer dessa doença
Que trouxe o tumor até à cena.

Às células pretas hão-de secar e morrer
Ou farão o seu caminho a cantar em alegria.
Reproduzem-se tão calmas noite e dia,
Nunca se saberá, não o vão dizer.

(Março de 2002)

Harold Pinter*
*Prémio Nobel de Literatura em 2005
(1930 - 2008)
In "Várias Vozes"

05 junho 2024

Vai um gin do Peter’s ?

A VERDADE BELA, LIBERTADORA 

O grupo de miúdos, que organiza a edição anual do Faith’s Night Out (FNO), desde 2013, inspirou-se nas TedTalks para convidar oradores cativantes, de diferentes proveniências, para darem um testemunho de fé na sua vida, num par de minutos. Em 2018, a FNO propôs a vários pintores comporem uma obra alusiva à ousada promessa de Cristo citada nos Evangelhos: A VERDADE VOS FARÁ LIVRES.  O resultado ficou gravado numa curta-metragem com as peças artísticas apresentadas pelos próprios autores:  


A propósito de arte que nos emancipa, eleva, desintoxica até ao âmago, a Gulbenkian concluiu a temporada com um concerto memorável a interpretar uma das obras-primas de Verdi – o Requiem de homenagem ao grande escritor e pai da língua italiana moderna Alessandro Manzoni (1785-1873). O poeta e senador também se destacara como referência moral da jovem nação italiana, apenas nascida como Estado soberano, em 1861. A reunificação só ficaria completa uma década depois. O primeiro dia do concerto decorreu ao final da tarde do feriado do Corpo de Deus, este ano celebrado a 30 de Maio, num dia primaveril e de poente tardio, que esticou até ao limite a luz do entardecer que entrava no Grande Auditório pela parede de vidro por trás do palco.

Das lindíssimas composições para a Missa de Sufrágio pelo primeiro ano da morte de Manzoni, a mais famosa é a épica «Dies Irae», soberbamente executada pelo coro Gulbenkian. Outra de especial subtileza é a área final de título auto-explicativo: «Libera Me». Toda a peça fluiu com uma tranquilidade cristalina, intercalando trechos celebrativos com admoestações apocalípticas e momentos de oração pungente.  



Sentiu-se o papel preponderante do maestro russo Stanislav Kochanovsky (1981-…) a dirigir a orquestra, os cantores líricos e o coro com um rigor invulgar. Já é  considerado uma sumidade no Ocidente, onde actua nas melhores salas de espectáculos. Parco de gestos, q.b. incomum para a função, revelou uma autoridade extraordinária. Não me lembro de ver cantores líricos tão atentos aos pequenos movimentos do regente. No fim, houve um momento sublime com o minuto de silêncio conquistado pelo maestro, antes de dar por finda a atuação e o público aplaudir de pé o concerto magnífico. Kochanovsky ilustrou, ao vivo, a validade da definição simplificada sobre música como combinação harmoniosa de sons e silêncios.  Aquele seu gesto final certeiro, discreto mas firme, a baixar os braços em câmara lenta para aguentar um silêncio longo após a última nota, dignificou a exibição do Requiem, colocando-o num patamar sacralizado, intocável. A beleza da peça de Verdi quadrou maravilhosamente com o feriado português.   

PROGRAMA DE SALA 

«REQUIEM DE VERDI
Coro e Orquestra Gulbenkian

Stanislav Kochanovsky Maestro
Carmela Remigio Soprano
Sonia Ganassi Meio-Soprano
David Junghoon Kim* Tenor
Luca Pisaroni Baixo-Barítono

Giuseppe Verdi
Messa da Requiem
1. INTROITUS: REQUIEM AETERNAM – KYRIE
2. SEQUENTIA: DIES IRAE
3. OFFERTORIUM: DOMINE JESU CHRISTE
4. SANCTUS – BENEDICTUS
5. AGNUS DEI
6. COMMUNIO: LUX AETERNA
7. LIBERA ME

COMPOSIÇÃO 1873-74 / rev. 1875
ESTREIA Milão, 22 de maio de 1874
DURAÇÃO c. 1h 25 min


A morte de Alessandro Manzoni, a 22 de maio de 1873, foi um acontecimento transcendente para a jovem Itália. Poeta e novelista, símbolo nuclear do Risorgimento, o movimento político e social que havia conduzido à unificação da península itálica num só estado, Manzoni era considerado, unanimemente, o pai da moderna língua italiana e a reserva moral da nação. 

No dia imediato à morte de Manzoni, Giuseppe Verdi escrevia ao editor Tito Ricordi que era seu desejo promover algo em memória do poeta. A proposta não tardou a chegar às mãos do Presidente da Câmara de Milão, Giulio Belinzaghi, que aceitou os termos do compositor: um Requiem, a ser estreado no primeiro aniversário da morte de Manzoni. As despesas de execução correriam pelo município milanês e Verdi asseguraria o pagamento da impressão das partituras, dos músicos envolvidos, bem como a direção musical. 

O compositor foi célere na escrita e, a 10 de abril do ano seguinte, enviou o manuscrito final à Ricordi. Contudo, dada a insistência de Verdi para que a homenagem decorresse numa igreja, começaram a surgir entraves à concretização do projeto. Era necessário que o Arcebispo de Milão autorizasse, a título excecional, o uso de vozes femininas e aceitasse o texto padrão do rito romano da Missa de Defuntos, ao invés do rito ambrosiano, prerrogativa da arquidiocese milanesa. As dispensas foram dadas, mas com a obrigação de todas as cantoras se apresentarem vestidas de preto e de cabeça coberta com um véu. 

A 22 de maio de 1874, estreava na igreja de São Marcos a Messa da Requiem per l’anniversario della morte de Manzoni, com efetivos musicais generosos, um coro de 120 vozes, uma orquestra de 100 instrumentistas e os solistas Teresa Stolz (soprano), Maria Waldmann (mezzo), Giuseppe Capponi (tenor) e Ormondo Maini (baixo).

Obra maior do repertório coral do séc. XIX, o Requiem de Verdi representa a libertação dos constrangimentos do género, alcançando uma liberdade e flexibilidade musicais que dificultam a sua caracterização ou, pelo menos, categorização. 

Principia com um murmúrio, numa atmosfera emocional de profundo desalento. A secção central, Te decet hymnus, contrasta pela rigidez vocal, num tecido contrapontístico estrito. O ambiente inicial é retomado, desembocando no Kyrie, primeira manifestação de um registo teatral assumido. A frase melódica ascendente de contorno virtuosístico percorre os solistas, aos quais se junta o coro nas sucessivas invocações. 

O Dies irae começa com uma massa instrumental tempestuosa, a que se sobrepõe o coro, proclamando o texto e forma incisiva e cromática, numa ilustração sonora impressionante. O sussurro pianíssimo nas palavras Quantus tremor extingue-se no preciso momento em que soa uma longa fanfarra, num crescendo telúrico, metáfora da trombeta do Juízo Final, Tuba mirum, sobreposta pelas entradas sucessivas do coro até uma suspensão apoteótica. (…)

O andamento final, Libera me, foi, na realidade, o ponto de partida de toda a composição. Escrito, na sua versão original em 1868, correspondia ao contributo de Verdi para um projeto que não chegou a bom porto, uma Messa da Requiem per Rossini, obra de composição coletiva, reunindo os doze compositores italianos em atividade mais conceituados, cabendo a cada um deles uma secção, segundo um plano formal e tonal pré-estabelecido. Apesar de revisto em 1874, as ideias essenciais do Introitus e do Dies irae, estavam já aí delineadas de forma concisa. Diálogo entre o soprano, o coro e a orquestra, o Libera me é, por si só, um verdadeiro monumento de intensidade dramática, de profundo impacto emocional, testemunhando o medo, a absolvição, a paz e a incerteza, um mundo tão humano quanto divino.»

Comentário musical assinado por José Bruto da Costa

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

   

03 junho 2024

Crónica de um viajante à África do Sul (IV)


Nascer do Sol no Kruger Park (África do Sul)
 

Waterfront (Cidade do Cabo)

Vista da Montanha da Mesa (Cidade do Cabo)

02 junho 2024

IX Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Marcos 2,23–3,6

Passava Jesus através das searas, num dia de sábado,
e os discípulos, enquanto caminhavam,
começaram a apanhar espigas.
Disseram-Lhe então os fariseus:
«Vê como eles fazem ao sábado o que não é permitido».
Respondeu-lhes Jesus:
«Nunca lestes o que fez David,
quando ele e os seus companheiros
tiveram necessidade e sentiram fome?
Entrou na casa de Deus,
no tempo do sumo sacerdote Abiatar,
e comeu dos pães da proposição,
que só os sacerdotes podiam comer,
e os deu também aos companheiros».
E acrescentou:
«O sábado foi feito para o homem
e não o homem para o sábado.
Por isso, o Filho do homem é também Senhor do sábado».
Jesus entrou de novo na sinagoga,
onde estava um homem com uma das mãos atrofiada.
Os fariseus observavam Jesus,
para verem se Ele ia curá-lo ao sábado
e poderem assim acusá-l’O.
Jesus disse ao homem que tinha a mão atrofiada:
«Levanta-te e vem aqui para o meio».
Depois perguntou-lhes:
«Será permitido ao sábado fazer bem ou fazer mal,
salvar a vida ou tirá-la?».
Mas eles ficaram calados.
Então, olhando-os com indignação
e entristecido com a dureza dos seus corações,
disse ao homem:
«Estende a mão».
Ele estendeu-a e a mão ficou curada.
Os fariseus, porém, logo que saíram dali,
reuniram-se com os herodianos 
para deliberarem como haviam de acabar com Ele. 

31 maio 2024

Crónica de um viajante à África do Sul (III)

Chegámos à Cidade do Cabo no sábado. Estamos em África, mas o diálogo poderia ser curioso:

- então que animais já viram?
- pinguins, focas e baleias... 

É uma cidade fantástica que merece uma visita. É uma cidade relativamente barata, onde se come bem - e em quantidades muito apreciáveis - por pouco dinheiro. Um jantar muito simpático pode custar menos de 30€. O transporte em Uber - um serviço rápido e simpático, com motoristas quase exclusivamente do Zimbabwe - é muito barato

A cidade tem uma frente de mar igualmente bonita (da qual coloco algumas fotografias) que é larga, comprida, espaçosa, e que a contorna durante vários quilómetros. 

As pessoas são simpáticas, educadas e civilizadas. Não se buzina, há cumprimentos permanentes, toda a gente sorri e está disponível para ajudar. 

Fora do Centro da Cidade (porei algumas fotografias nos próximos dias) há praias fantásticas, em enseadas rodeadas de boas casas. 

A segurança é ainda boa, ao contrário de Joanesburgo onde parece que já não é aconselhável andar na rua. O Cabo vive ainda uma realidade globalmente diferente, embora haja sítios - como em todo o mundo - menos aconselháveis. 

Tive uma oportunidade de vir à Cidade do Cabo há 30 anos, talvez. Por diversos motivos não vim, mas já tinha vindo a Pretória e Joanesburgo em 1981, ainda nos tempos do apartheid. Talvez seja melhor vir só agora - aprecio a cidade com outros olhos, comparando o que vejo com o que vi noutros sítios. e tenho mais vagar para tudo.

De tudo o que conheço do mundo, a Cidade do Cabo está seguramente no top ten. Ao contrário do que senti na Malásia / Singapura ou na Índia, vir aqui não é uma experiência, como agora se diz. Estamos num mundo ocidental. Porém, apesar de não ser uma experiência, é um local onde gostaria de voltar. 

Amanhã parto partimos para Joanesburgo, sábado zarpamos para o Kruger, para um misto de trabalho e lazer

JdB

As fotografias abaixo são da zona de Sea Point / Green Point




30 maio 2024

Santissimo Corpo e Sangue de Cristo

Evangelho segundo São Marcos 14,12-16.22-26.

No primeiro dia dos Ázimos, em que se imolava o cordeiro pascal, os discípulos perguntaram a Jesus: «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?».
Jesus enviou dois discípulos e disse-lhes: «Ide à cidade. Virá ao vosso encontro um homem com uma bilha de água. Segui-o
e, onde ele entrar, dizei ao dono da casa: "O Mestre pergunta: onde está a sala em que hei de comer a Páscoa com os meus discípulos?".
Ele vos mostrará uma grande sala no andar superior, alcatifada e pronta. Preparai-nos lá o que é preciso».
Os discípulos partiram e foram à cidade. Encontraram tudo como Jesus lhes tinha dito e prepararam a Páscoa.
Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, recitou a bênção e partiu-o, deu-o aos discípulos e disse: «Tomai: isto é o meu corpo».
Depois, tomou um cálice, deu graças e entregou-lho. E todos beberam dele.
Disse Jesus: «Este é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado pela multidão dos homens.
Em verdade vos digo, não voltarei a beber do fruto da videira até ao dia em que beberei do vinho novo no Reino de Deus».
Cantaram os salmos e saíram para o monte das Oliveiras.

Textos dos dias que correm

 O Peso Bruto da Irritação

Se fôssemos contabilizar as paixões desta vida, os ódios e os amores, os grandes sobressaltos, as comoções, os transtornos, os arrebatamentos e os arroubos, os momentos de terror e de esperança, os ataques de ansiedade e de ternura, a violência dos desejos, os acessos de saudade e as elevações religiosas e se as somássemos todas numa só sensação, não seria nada comparada com o peso bruto da irritação. Passamos mais tempo e gastamos mais coração a sermos irritados do que em qualquer outro estado de espírito.

Apaixonamo-nos uma vez na vida, odiamos duas, sofremos três, mas somos irritados pelo menos vinte vezes por dia. Mais que o divórcio, mais que o despedimento, mais que ser traído por um amigo, a irritação é a principal causa de «stress» — e logo de mortalidade — da nossa existência.

É a torneira que pinga e o colega que funga, a criança que bate com o garfinho no rebordo do prato, a empregada que se esquece sempre de comprar maionnaise, a namorada que não enche o tabuleiro de gelo, o namorado que se esquece de tapar a pasta dentrífica, a nossa própria incompetência ao tentar programar o vídeo, o homem que mete um conto de gasolina e pede para verificar a pressão dos pneus, a mania de pôr o pacotinho vazio de açúcar debaixo da chávena de café, a esferográfica de Mário Crespo... é por estas e por outras que as pessoas se suicidam. E têm toda a razão.

É nos engarrafamentos, na bicha do supermercado ou do multibanco, no cinema atrás do cabeçudo que não nos deixa ver, no autocarro cheio de gente, que somos diariamente irritados. Há-de reparar-se que as pessoas que mais nos irritam são as que estão à nossa frente. São estas as pessoas que demoram, que levam horas a tirar o porta-moedas para pagar o táxi, que insistem em passar um cheque para comprar um quilo de cebolas e uma embalagem de Super-Pop, que se mexem na cadeira e desembrulham rebuçados durante a cena mais dramática do filme, que têm um tempo de reacção ao semáforo verde de aproximadamente 360 segundos, que pagam as contas da água, da luz e do telefone ao Multibanco, que se esquecem de tomar banho antes de usar um transporte público e depois insistem em esfregar-se contra quem tomou.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'

29 maio 2024

Crónica de um viajante à África do Sul (II)

 Nunca gostei de ir ao barbeiro; gostei sempre de sair de lá - não pelo horror inerente, que não tinha, mas porque tinha o cabelo cortado. Era, por assim dizer, a alegria que advinha de um serviço comprido. A lembrança mais interessante que tenho de um barbeiro é da Barbearia Campos, ao Chiado, onde cortei o cabelo enquanto miúdo. Gostava da dimensão do estabelecimento, do alinhamento das cadeiras e da senhora que, sentada numa cadeira e com um ar educadamente íntimo, arranjava as unhas aos fregueses de mais idade. 

Entrei neste cabeleireiro no centro comercial Victoria & Alfred na Waterfront, Cidade do Cabo. Fi-lo, não por necessidade de desbastar a gaforina (precavi-me disso antes de partir de viagem) mas por absoluto fascínio. Criado por um inglês amigo do Príncipe Filipe de Inglaterra (atestado por fotografias) é agora gerido pelo genro, que também foi cabeleireiro / barbeiro - um homem simpático que me pacificou com os produtos pós-barba, depois de me ter oferecido uma loção não alcoólica onde deitou um pingo de água de colónia. Eu, que não uso nada, estive a pontos de adquirir bálsamos benfazejos. 


Tal como dizia a um amigo a quem enviei estas fotografias, estabelecimentos como este fazem parte de um Portugal que nunca existiu, ou desapareceu. Aqui, cortar o cabelo ou aparar a barba são experiências, como agora se diz; não são coisas de índole prática. Eliminado o branco decorativo dos cabeleireiros actuais que revela uma assepsia que maça, estamos em casa, ou numa casa que nunca tivemos mas que suscita um certo fascínio. Ficamos então rodeados de artigos que nos atiram para um tempo em que havia vagar, havia estética, havia objectos de madeira e, talvez mesmo, objectos pouco práticos. 30 minutos aqui e sai-se com o cabelo cortado - e a alma lavada. 

JdB 

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