04 julho 2026

Pensamentos impensados

Atendendo a que Portugal é um dos melhores fabricantes de calçado, são de acarinhar os turistas de pé descalço, pois são potenciais compradores de sapatos.

Visitas guiadas. Há cerca de 50 anos visitei o Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães; nesse tempo não havia guias nem cicerones, e as visitas eram guiadas por contínuos ou porteiros. A pessoa que guiou o grupo lá foi debitando umas patacodas até que a certa altura, e para acabar, encolheu os ombros e disse: coisas dos tempos dos Condes e dos Marqueses.

Derrapagem. Quando há derrapagens nas obras públicas, alguém se lembra de mandar soprar no balão os ministros envolvidos?

SdB (I)

03 julho 2026

Textos dos dias que correm

 Aprendiendo 

Después de un tiempo, uno aprende la sutil diferencia entre sostener una mano y encadenar un alma, y uno aprende que el amor no significa acostarse y una compañía no significa seguridad, y uno empieza a aprender...

Que los besos no son contratos y los regalos no son promesas, y uno empieza a aceptar sus derrotas con la cabeza alta y los ojos abiertos, y uno aprende a construir todos sus caminos en el hoy, porque el terreno de mañana es demasiado inseguro para planes...y los futuros tienen una forma de caerse en la mitad. 

Y después de un tiempo uno aprende que si es demasiado, hasta el calor del sol quema. Así que uno planta su propio jardín y decora su propia alma, en lugar de esperar a que alguien le traiga flores. Y uno aprende que realmente puede aguantar, que uno realmente es fuerte, que uno realmente vale, y uno aprende y aprende... y con cada día uno aprende. Con el tiempo aprendes que estar con alguien porque te ofrece un buen futuro, significa que tarde o temprano querrás volver a tu pasado. 

Con el tiempo comprendes que sólo quien es capaz de amarte con tus defectos, sin pretender cambiarte, puede brindarte toda la felicidad que deseas. Con el tiempo te das cuenta de que si estás al lado de esa persona sólo por acompañar tu soledad, irremediablemente acabarás no deseando volver a verla. Con el tiempo entiendes que los verdaderos amigos son contados, y que el que no lucha por ellos tarde o temprano se verá rodeado sólo de amistades falsas.

Con el tiempo aprendes que las palabras dichas en un momento de ira pueden seguir lastimando a quien heriste, durante toda la vida. Con el tiempo aprendes que disculpar cualquiera lo hace, pero perdonar es sólo de almas grandes. Con el tiempo comprendes que si has herido a un amigo duramente, muy probablemente la amistad jamás volverá a ser igual. Con el tiempo te das cuenta que aunque seas feliz con tus amigos, algún día llorarás por aquellos! que dejaste ir. Con el tiempo te das cuenta de que cada experiencia vivida con cada persona es irrepetible.

Con el tiempo te das cuenta de que el que humilla o desprecia a un ser humano, tarde o temprano sufrirá las mismas humillaciones o desprecios multiplicados al cuadrado. Con el tiempo aprendes a construir todos tus caminos en el hoy, porque el terreno del mañana es demasiado incierto para hacer planes. Con el tiempo comprendes que apresurar las cosas o forzarlas a que pasen ocasionará que al final no sean como esperabas. Con el tiempo te das cuenta de que en realidad lo mejor no era el futuro, sino el momento que estabas viviendo justo en ese instante.

Con el tiempo verás que aunque seas feliz con los que están a tu lado,añorarás terriblemente a los que ayer estaban contigo y ahora se han marchado. Con el tiempo aprenderás que intentar perdonar o pedir perdón, decir que amas, decir que extrañas, decir que necesitas, decir que quieres ser amigo, ante una tumba, ya no tiene ningún sentido. Pero desafortunadamente, solo con el tiempo...”

Jorge Luis Borges

01 julho 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 AMOR COMO ARTE  

Se há palavra gasta no vocabulário comum é ‘amar’ em todas as derivações, até ao expoente, quando merece ser substantivado. A centralidade do tema para os humanos explica o seu uso intensivo (por vezes, abusivo), com os inevitáveis desvios semânticos que as visões pessoais vão imprimindo ao conceito. Para o caso, serão residuais as manipulações de uns poucos, que se apropriam do termo para o instrumentalizar, apostando na relevância daquele som mágico para a maioria.      

Apesar das adulterações (especialmente intensas, a partir do séc. XIX, misturando-se equívocos conceptuais com jogadas de marketing), não é fácil recuperar o conceito original com uma abordagem simples, sem simplismos, e concisa, apanhando-lhe o epicentro semântico. Esse será o grande mérito de uma breve reflexão baseada no pensamento do sociólogo, psicanalista e filósofo germano-americano judeu – Erich Fromm (1900-1980).  Nalguns aspectos, poderá soar algo extremada, como se percebe num académico que sabe estar em contra-corrente com a cultura dominante do pós Guerra, no Ocidente. Porém, Fromm consegue apontar à essência de um tema tão vasto e escorregadio, focando-se nas suas principais coordenadas, associadas à consciência, à liberdade exercida com lucidez e sentido positivo, e menos à emoção, aos sentimentos, à paixão per se. 


Talvez as convicções de Fromm não sejam as esperadas, pois reconhece sacralidade no amor, enquanto se autodefine como ateu místico. Nascido numa família alemã judia muito religiosa, com uma dinastia de rabinos, acabou por perder a fé e abandonar a Alemanha, logo em 1934, depois de Hitler subir ao poder. Doutorou-se em sociologia e enveredou pela psicanálise freudiana, depois seguindo derivas próprias. Politicamente, era socialista marxista, mas viveu anos nos EUA, onde se assumia como pacifista. Acabou por se incompatibilizar com as universidades norte-americanas e mudou-se para o México. Acabou os seus dias na Suíça. 

A reflexão aqui postada retira ideias do seu livro de 1956: «A Arte de Amar». O arranque interpelativo tira-nos da zona de conforto – «Love is not a feeling, it’s a practice» – assim forçando um reposicionamento do tema, que vai directo ao âmago da questão: «Love is an act of faith. (…) Love is an art. Like music or painting, it demands knowledge, effort, discipline (…). There’s a dangerous idea that love is passive, that it happens to us. To love is to give, without losing yourself (…), to be responsible for another’s heart, without trying to own it. (…) It take roots in small acts. (…) We were not born knowing how to love, we were born needing it. Learning to give it is a work of a lifetime. (…) Next time you wonder why love feels hard, remember, it’s not that it’s impossible, it’s that it’s sacred. And sacred things take time.».  


Como para a generalidade dos conselhos, também com Fromm se ganha em ficar apenas com o que vale a pena e nos ajuda. Dá que pensar, reverberar nas dicas de um sociólogo psicanalista ateu a frase luminosa de Leão XIV – Magnifica humanitas...

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas) 

30 junho 2026

Crónica de um doutorando tardio

Em 1984 formei-me em Engenharia Mecânica no Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL). Em 2012, desafiado por uma amiga, inscrevi-me numa pós-graduação intitulada Artes da Escrita (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa). Nesse mesmo ano, impulsionado por um professor, candidatei-me ao Programa em Teoria da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tendo concluído o mestrado em 2015. Em Setembro deste ano, em correndo tudo bem, completarei o doutoramento no mesmo programa, na mesma universidade.

O parágrafo acima tem pouco de vaidade, tem muito - quase tudo de gozo. Em bom rigor, há dois momentos de vaidade: a conclusão de um curso em engenharia que detestei desde o primeiro dia; e a (re)entrada aos 55 anos numa faculdade totalmente desconhecida, para ouvir e discorrer sobre temas que, nalguns casos, me foram particularmente difíceis de seguir. A vaidade está na saída - quase forçada num caso, e totalmente voluntária noutro - da minha zona de conforto. Tudo o resto - e esse resto é muito - é gozo, puro gozo.

Desde 2013 que me sento na mesma aula, quase sempre no mesmo lugar (as obsessões funcionam assim...) a ouvir falar de temas e de autores que, ou conhecia pouco, ou sobre os quais / de quem tinha lido quase nada, ou que desconhecia por completo. As estantes de minha casa encheram-se de livros que nunca leria, de autores que não constavam da minha lista de intenções. A vida é maldosamente irónica: há 40 anos eu tinha uma memória óptima e sabia muito pouco da vida, e talvez fosse incapaz de relacionar estes autores / temas uns com os outros, ou com o meu próprio caminho. Hoje tenho uma experiência de vida diferente e consigo relacionar (quase) tudo; já não tenho é a memória de antes...

Nestes últimos 15 anos fiz bons amigos na Faculdade, todos com idade para serem meus filhos. Conheci muitos outros estudantes com quem tive menos contactos ou proximidade. Todos eles são pessoas muito interessantes, a defenderem teses ou mestrados em temas difíceis, a discorrerem sobre temas que me interessaram. A maioria deles, talvez, terá um futuro interrogado na área que escolheram...

O doutoramento não conclui quase nada, a não ser um capítulo da minha vida que tem 25 anos e que, por isso, merece ser posto no papel. A minha relação com a oncologia pediátrica foi de tal forma humanamente rica que merecia que eu fizesse alguma coisa com isso. O resto não se altera. Em Setembro conto sentar-me na mesma aula, no mesmo lugar, a ouvir professores que já conheço que me apresentarão  teorias interessantes sobre livros que não li, de cujos autores li outras coisas ou nada. Vou encher-me de gozo com mais estas descobertas, vou encher-me de frustração com a memória e capacidade de retenção que vão desaparecendo. E vou ver caras conhecidas de pessoas que me tratam com amizade e deferência. Afinal, entre eles e eu há 40 anos de diferença...

JdB     

  

28 junho 2026

XIII Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Mt 10,37-42

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos:
"Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim,
não é digno de Mim;
e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim,
não é digno de Mim.
Quem não toma a sua cruz para Me seguir,
não é digno de Mim.
Quem encontrar a sua vida há-de perdê-la;
e quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la.
Quem vos recebe, a Mim recebe;
e quem Me recebe, recebe Aquele que Me enviou.
Quem recebe um profeta por ele ser profeta,
receberá a recompensa de profeta;
e quem recebe um justo por ele ser justo,
receberá a recompensa de justo.
E se alguém der de beber,
nem que seja um copo de água fresca,
a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo,
em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa".

27 junho 2026

Pensamentos Impensados

A espada de Dâmocles pode ser considerada uma pena suspensa

Quando há incêndios e os jornalistas querem saber quantos homens o combatem, perguntam quantos meios estão no terreno. Será que 40 homens equivalem a 80 "meios"?

O ouriço-do-mar, devido a um fenómeno chamado partenogénese, não precisa de parceiro para se reproduzir. Poderá chamar-se família monoparental?

Os hooligans gritam palavras de ordem ou palavras de desordem? 

SdB (I)


26 junho 2026

Poemas dos dias que correm



Manhãs brumosas   
 
Aquela, cujo amor me causa alguma pena,
Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, bucólica, morena,
Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.
 
Que línguas fala? A ouvir-lhe as inflexões inglesas,
- Na névoa, a caça, as pescas, os rebanhos! -
Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas;
E o meu desejo nada em época e banhos,
E, ave de arribação, ele enche de surpresas
Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos.
 
As irlandesas têm soberbos desmazelos!
Ela descobre assim, com lentidões ufanas,
Alta, escorrida, abstrata, os grossos tornozelos;
E como aquelas são marítimas, serranas,
Sugere-se o naufrágio, as músicas, os gelos
E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.
 
Parece um rural boy! Sem brincos nas orelhas,
Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos,
Botões a tiracolo e aplicações vermelhas;
E à roda, num país de prados e barrancos,
Se as minhas mágoas vão, mansíssimas ovelhas,
Correm os seus desdéns, como vitelos brancos.
 
E aquela, cujo amor me causa alguma pena,
Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, católica, morena,
Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.  
 
cesário verde
o livro de cesário verde e outros poemas
penguin clássicos
2024

24 junho 2026

Textos dos dias que correm

 "Isto de religião está cada vez pior dentro de mim. Depois de uns arrancos fundos e angustiosos, a coisa foi secando, secando, até chegar a esta mirra mística, que já não há Jordão teológico capaz de vivificar.

Mas quanto mais pobre estou desse conteúdo humano, mais cheio me sinto de desespero. O que eu dava para me levantar cedo esta manhã, ir à missa, e voltar da igreja com a cara que trazia o meu vizinho!
Não é que eu tenha verdadeiramente pecados, ou que, se os tivesse, algum Deus fosse capaz de me lavar deles. (Até o último aldeão sabe que quando muda um marco não há céu que lhe benza a maroteira).
Queria era sentir-me ligado a um destino extra-biológico, a uma vida que não acabasse com a última pancada do coração."

(Miguel Torga (“Diário I vol.)

***

"Ser incréu custa muito! É dia de Páscoa. O gosto que eu teria de beijar também o Senhor, se acreditasse! Assim, olho a fé dos outros em aleluia, e fico nesta tristeza agnóstica que faz da vida uma agónica aventura sem esperança de ressurreição."

(Miguel Torga, Diário XIII)

23 junho 2026

De como os outros nos vêem

Nos últimos anos tenho frequentado aquilo a que talvez se chame clubes de homens - e uso esta expressão para diferenciar estes clubes de outras agremiações - clubes de futebol, de bairro, de outras actividades lúdicas ou desportivas mais ou menos amadoras. A expressão clubes de homens também está actualmente parcialmente desactualizada; apesar de muitos terem começado com sócios masculinos apenas, outros sempre foram mistos ou, noutro caso, embora não aceitando senhoras como sócias, recebem-nas com gosto ao almoço, ficando numa sala diferente, juntamente com os homens que também não são sócios. 

Sentarmo-nos à mesa nestes clubes é uma actividade social: vamos com amigos, encontramos amigos, fazemos amigos ou limitamo-nos a conhecer pessoas. As conversas são variadas: pode falar-se de futebol ou de política (pouco, felizmente), de finanças ou de corridas de touros, podem contar-se histórias antigas da família ou do Portugal de outros tempos, ou lembrar sócios ausentes. À mesa podem estar 7 pessoas ou 20 e tudo isso também contribui para que as conversas variem muito; por vezes fazem-se grupos, por vezes todas as pessoas conversam sobre o mesmo tema. Por vezes a companhia é boa, por vezes nem por isso. Nada de muito espantoso, portanto - menos ainda de secreto. Quando se chega a casa é natural que nos perguntem: então a mesa no clube X? Era uma boa mesa? Reportamos quem estava, do que se conversou, o que era o almoço. Igualmente, nada de muito espantoso.

É natural que nestes clubes haja um ou mais empregados a servirem à mesa, ou a darem apoio à refeição - estão por ali, em movimento ou parados, prontos para o que for preciso. Ao contrário de um restaurante, estes empregados podem servir apenas uma mesa composta por um grupo homogéneo de pessoas. Um dia destes, ao olhar para um deles que seguia de forma muito interessada uma conversa sobre a actividade bancária do antigo regime - quem era quem, quem tinha feito o quê ou quem tinha sido administrador de que banco - dei por mim a pensar: o que lhe pergunta a mulher quando ele chega a casa, e o que lhe diz ele? Isto é, como olha ele para um conjunto de 15 ou 20 pessoas engravatadas, que falam disto e daquilo, desde o golfe à Feira de Sevilha, passando pelos novos sócios ou pela comparação com outros clubes? E o que diz ele à mulher como informação relevante: fala nos nomes (todos estes empregados conhecem os nomes dos sócios), no que cada um disse, no nível da gorjeta, nas conversas? 

O sócio olha para o empregado e vê-lhe simpatia, educação, bom serviço. Mas não lhe exige discrição, pelo que, chagado a casa, o empregado X se sente à vontade para comentar o almoço e os comensais. O que dirá ele, caso alguém se interesse pelo seu dia de trabalho? Como é que os empregados de um clube vêem os sócios? 

JdB   

21 junho 2026

Para um começo de semana sereno (LVI)

 

XII Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Mt 10,26-33

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos:
"Não tenhais medo dos homens,
pois nada há encoberto que não venha a descobrir-se,
nada há oculto que não venha a conhecer-se.
O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia;
e o que escutais ao ouvido proclamai-o sobre os telhados.
Não temais os que matam o corpo,
mas não podem matar a alma.
Temei antes Aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo.
Não se vendem dois passarinhos por uma moeda?
E nem um deles cairá por terra
sem consentimento do vosso Pai.
Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.
Portanto, não temais:
valeis muito mais do que os passarinhos.
A todo aquele que se tiver declarado por Mim
diante dos homens
também Eu Me declararei por ele
diante do meu Pai que está nos Céus.
Mas àquele que me negar diante dos homens,
também Eu o negarei
diante do meu Pai que está nos Céus".

20 junho 2026

Pensamentos Impensados

Coisas impensáveis 

O Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas fica a meio caminho entre Sintra e Ericeira. Foi construído em 1995 pela Câmara Municipal de Sintra e consta, principalmente, de "pedras" romanas, tais como lápides, sarcófagos etc. Há cerca de 50 anos visitei-o pela primeira vez, e não passava de um amontoado de pedras que estavam ao ar livre num terreno murado. 

(Se não era assim era parecido; já lá vão 50 anos). 

Quando quis entrar deparei-me com a porta fechada; indaguei quem tomava conta e informaram-me que era a "Sra. Maria", que estaria no campo a trabalhar; fui ter com a senhora e pedi-lhe para me franquear a entrada; acedeu contrariada, pois estava a trabalhar. Durante a visita vi vários sarcófagos, em pedra, que continham esqueletos do tempo dos romanos; também vi que por ali passeavam cães. Mostrei estranheza à guia / conservadora, que só me disse: É, às vezes abalam com os ossos.

SdB (I) 

19 junho 2026

Poemas dos dias que correm *

 the horizon just laughed

vinte anos para descobrir que afinal houve uma fresta,
a possibilidade de uma centelha e de toda uma vida diferente
entre esse ponto A e este ponto B onde, desalegres e bebidos,
matamos mágoas destes vinte anos tão bem e tão mal vividos.
de súbito, eras outra vez tu nos teus vinte e poucochinhos anos
ou, creio bem, seria eu, num etilizado e furioso "rewind",
em busca destes anos, destes tantos anos tontos.
a luz do cigarro iluminou-te tenuemente - como és bela, pensei -,
enquanto semi-dançavas sentada canções antigas.
sim, sempre o amor, agora como dantes como amanhã,
a única coisa viva em toda uma cidade que dorme.
os anos passaram, rapariga (obrigado, Manuel, pelas palavras)
e nós estamos apenas mais longe de termos acertado
e tão mais perto de termos falhado essa nossa outra vida.

o horizonte riu-se.
o táxi cruzou a jamais nossa cidade.
e eu disse-te adeus, até outra vida, menina.

gi

* publicado originalmente a 13 de Novembro de 2018

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