03 novembro 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

No seu livro sobre seis grandes líderes do século XX – «Liderança: seis estudos sobre Estratégia Mundial», Henry Kissinger dedicou um capítulo ao general francês Charles de Gaulle, não apenas por se ter destacado durante a Segunda Guerra Mundial como voz de uma França contra a capitulação do Marechal Pétain, mas sobretudo por ter conseguido reerguer a França recém libertada do jugo nazi e colocá-la no patamar dos Vencedores. A sua fama quase dom quixotesca, adquirida ao longo da guerra, permitiu o insólito branqueamento de imagem a um país que se rendera aos nazis e produzira inúmeros colaboracionistas com o sinistro ocupante! De facto, Paris acolhera com glamour e pompa os deslumbrados oficiais da Wehrmacht. Bem menos dóceis à tirania nazi tinham sido holandeses e dinamarqueses, mas nenhum daqueles países gozou dos privilégios do núcleo duro dos vitoriosos. Naturalmente, que a dimensão de um e de outros pesou... No ‘day after’, interessava aos Aliados viabilizar a paz, desencantando alguém capaz de unir uma França dividida entre colaboracionistas e os heróis da Resistência. De Gaulle afirmou-se logo no minuto zero, desfilando pelos Campos Elísios, aclamado por multidões, mal os Aliados libertaram Paris, no Verão de 1944.  

Apesar do seu feitio difícil, com tiques autoritários e megalómanos, De Gaulle foi admirado por Churchill, tolerado por Roosevelt (as circunstâncias impuseram-no), que o detestava e fez tudo para o ignorar (em vão) e respeitado por Estaline. Entrou para a história do século XX com reflexões antológicas, expressivas de uma sagacidade geopolítica invulgar. Essa era uma das suas afinidades com Churchill. Ambos nascidos no final do século XIX, tinham vivido a Primeira Guerra e correspondiam a figuras arcaicas, semi desfasadas num século já muito tecnológico e de pragmatismo tecnocrata. Ambos encontravam no passado inspiração e legitimação para as batalhas da sua vida, no caso de De Gaulle:  restituir a França a grandeza de outrora. Manifestamente atípicos, assemelhavam-se a personagens de um bom romance de ‘capa e espada’, sensíveis a valores de cavalheirismo e de bravata militar incompreensíveis nas décadas de 30 e de 40 do século XX. Um e outro tinham personalidades paradoxais, marcadas por grandes tensões. Em De Gaulle é impressionante o contraste entre o seu autoritarismo militar, exercido à antiga cheio de maneirismos hierárquicos antiquados e a ternura em casa, derretendo-se com a filha mais nova, Anne, que tinha Trissomia 21. Protetor e meigo em família, duro e exigentíssimo no quartel, astuto e firme nas negociações, sábio a ler os sinais do tempo, reunia um conjunto de qualidades e de características invulgares. A ele se deve a percepção cristalina do pós guerra, dominado pelos EUA no Ocidente, apenas sob ameaça da URSS, com a Europa entalada entre as duas potências rivais. 

Tinha um especial  carinho por Anne, a filha nascido com Síndrome de Down. 

Nunca se iludiu quanto à fragilidade das alianças, por mais benignas e sólidas que parecessem. Por isso, não descansou enquanto não dotou França da arma potência nuclear, resistindo à pressão norte-americana para confiar no escudo norte-americano. Em 1961, Kennedy argumentou que a segurança da Europa ocidental e da América do Norte eram indivisíveis, pelo que França não devia desperdiçar recursos a obter a bomba atómica. Charles De Gaulle, que insistia na «imprevisibilidade da História», contrapôs: «Como é que podemos ter a certeza disso (dessa indissociabilidade)?», num futuro mais longínquo?  

O debate sobre o nuclear foi um tema quente da agenda da visita dos Kennedys a Paris, de 31 de Maio a 2 de Junho de 1961.

Nunca se iludiu acerca das reservas e da postura, por vezes, subversiva do Reino Unido face à Europa continental, apesar de ter sido Churchill a dar-lhe acesso à BBC, reconhecendo-o como líder da França resistente, durante a Segunda Guerra, para fúria do Governo de Vichy e de Roosevelt. É eloquente a tirada do General, quando lhe pediram o nome dos três maiores vultos europeus: «Dante, Goethe e Chateaubriand». Tendo-lhe perguntado se se esquecera Shakespeare, replicou sem hesitar: «Europeu?»  De Gaulle era um defensor intrépido da unidade europeia, por a considerar crucial para: «não sermos dominados pelos Estados Unidos, nem pela Rússia”. Mas tinha a noção dos limites dessa Europa cooperante, com menos sintonia do outro lado do Canal da Mancha…

Nunca se iludiu sobre a impossibilidade de França insistir num Império colonial no Magrebe, ainda que possa não ter gerido a retirada, da melhor forma. 

Nunca se iludiu sobre a mistura de sentimentos na batalha estudantil cunhada de «Maio de 68», evaporando-a em dois tempos, ao convocar eleições, para retirar palco aos  universitários, eliminando as condições para continuarem a falar (e a festejar) sozinhos com um megafone que se fazia ouvir longe. A decisão de passar a palavra para a sociedade, em jeito de plebiscito, foi um rotundo sucesso, conseguindo a proeza de uma vitória com maioria absoluta e a pacificação das ruas de Paris! O veredito da maioria a favor da estabilidade política e do respeito pelo Estado de Direito ditou o fim das manifs. 

Também não se iludiu acerca da sua indispensabilidade no poder, por isso, abdicou, após a conquista daquela histórica maioria absoluta, deixando França tranquilizada. Recolheu, finalmente, à sua austera casa no Nordeste francês, em Colombey-les-Deux-Églises, preferindo gozar os últimos anos de vida com a família, na máxima discrição, declinando quase todos os convites para os grandes eventos políticos gauleses e internacionais. França sabe o quanto deve ao General de coragem ilimitada, começando pelo estatuto tão honroso que o país obteve no final da Guerra, que lhe proporcionou um dos cinco lugares permanentes no Conselho de Segurança das Nações Unidas! Percebe-se por que é das figuras políticas mais homenageadas na toponímia gaulesa, tendo devolvido a França algum do antigo peso histórico da grande potência do Velho Continente, com (alguma) voz a ditar as regras da ordem internacional do pós guerra. 

Parte disto consta no primeiro filme dedicado ao líder francês, pelo realizador Antonin Baudry:  «De Gaulle - Resistência»(1), focado nos anos negros de 1940 a 1944. O subtítulo francês é mais eloquente e épico – “Résistance, L’âge de fer” –  evocando uma expressão de De Gaulle, ao explicar que a idade de ouro é precedida pela de ferro. Num argumento adaptado do livro do historiador britânico Julian Jackson – «A Certain Idea of France: The Life of Charles de Gaulle» –, o filme de Baudry concentra-se na fase mais ingrata de um oficial desconhecido, que resolve desafiar a rendição de Pétain a Hitler, autoproclamando-se regente da França Livre… basicamente, na cabeça dele e nos interesses de Churchill, que também apreciava a galhardia e a coragem desmesuradas do dito oficial francês. Mais sabia o britânico o poder dessas mentes tão fora da caixa, capazes de desencantar soluções audaciosas e improváveis, que devolvem futuro a horizontes sem saída. Ele próprio partilhava parcialmente aquela abordagem, não se coibindo de defender posições em contraciclo e de concretização improvável.  

Um jantar em tête-à-tête entre os dois titãs.

A obra de Baudry traz para o ecrã dois titãs cheios de tiques e de arcaísmos, de contradições e de loucuras, entre De Gaulle e Churchill. Em pano de fundo, repassam-se grandes momentos da Segunda Guerra e as poucas batalhas onde o mini exército da França Livre teve um mínimo de sucesso. O rocambolesco e o humor impregnam este filme de guerra, sem apoucar os factos narrados, mas antes expondo a bizarria de algumas das personalidades relevantes da época. Se Churchill transbordava de contrastes e exotismos, De Gaulle ainda lhe acrescentava a loucura do exercício de um poder assente em sonhos e na vontade intrépida do seu protagonista. O desempenho dos actores, em concreto do franco-arménio que personifica o General, ajuda a revelar a personalidade atípica do francês. Diz tudo a indiferença com que recebe a notícia da sua condenação à morte, por traição, ordenada por Pétain! É anedótico, mas real, a captura das Ilhas de Saint Pierre et Miquelon pelas tropas de De Gaulle, nas vésperas do Natal de 1941, enfurecendo Roosevelt, que acabara de ser forçado a entrar na Segunda Guerra, após o ataque japonês à base norte-americana do Pacífico, em Pearl Harbour.  Mais valor teve a resistência inesperada e muito competente das milícias da França Livre contra o regimento de Rommel, em Bir Hackeim, que permitiu aos britânicos uma folga crucial para se reorganizarem. Verdade que o filme é omisso, quer sobre a qualidade da Legião Estrangeira Francesa presente naquele pequeno contingente de elite liderado pelo General Jean-Marie Koenig, quer sobre a honradez de Rommel, algo brando na perseguição aos sitiados franceses, quando já só lhes restava fugir para se abrigarem no quartel britânico mais próximo. 

Em paralelo, flui a história de um liceal francês, profundamente revoltado contra o armistício assinado com o Reich. Mal ouve num aparelho de rádio clandestino, o estribilho passado na BBC «Ici Londres», com que De Gaulle iniciava as preleções aos seus compatriotas, entusiasma-se com aquele líder fantasma, que muitos pensavam ser um actor contratado por Churchill para contrapor ao governo de Pétain. A vida do pequeno Ferdinand Bonnier de la Chapelle, na Cidade das Luzes, transmite bem as tensões ambivalentes que coabitam em Paris, entre os colaboracionistas e os muitos patriotas revoltados contra a ocupação nazi, sobretudo entre os mais novos, que cediam contrafeitos ao tacticismo de governantes envelhecidos, caducos, acobardados. 

As duas horas e meia do filme sabem a pouco, como acontece nas histórias bem contadas, sendo invulgarmente comedido no uso da violência e até na gestão do suspense. Flui com ritmo e equilíbrio entre as diferentes cenas e as narrativas paralelas, sem se dispersar. Faltará o segundo filme da série, subintitulado: «Liberdade».

Os desafios actuais convocam a lucidez de Charles De Gaulle, sendo curioso o provérbio citado por Churchill, no filme, para referir a insólita reviravolta que trouxe o francês à tona (sem me explicar melhor, para não ser spoiler): Deus protege as crianças e os loucos… na hora certa e mais imprevista, quando a realidade ultrapassa a ficção. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas) 

___________________

(1) Série desdobrada em 2 partes, sobre «La Bataille de Gaulle», seguindo a ficha técnica do primeiro filme:

TÍTULO ORIGINAL: De Gaulle: Résistance – L’âge de Fer 

TÍTULO TRADUZIDO EM PORTUGUÊS: De Gaulle: Resistência

REALIZADOR: Antonin Baudry

ARGUMENTO: Antonin Baudry e Bérénice Vila

OBRA LITERÁRIA DE INSPIRAÇÃO: «A Certain Idea of France: The Life of Charles De Gaulle de Julian Jackson

ELENCO:
- Simon Abkarian – De Gaulle
- Simon Russel Beale - Churchill
- Florian Lesieur – Ferdinand
- Anamaria Vartolomei -  Livia
- Mathieu Kassovitz – Almirante Darlan
- Adèle Jayle- Yvonne de Gaulle 
- Campbell Scott - Roosevelt 
- Karim Leklou  - Blazej (secretário de De Gaulle)
- Alain Libolt  - Mar.Pétain 

PRODUÇÃO: Pierre Cottereau e Giora Bejach

PRODUÇÃO E DISTRIBUIÇÃO: Pathé

BANDA SONORA: Volker Bertelmann (1º filme)  e Théo Cascio (2º filme)

DATAS:
-  20.Maio.2026 – estreia em Cannes
-  3.Junho.2026 (Résistance)
-  26.Junho.2026 (Liberté)

DURAÇÃO:
-  158 minutes (Résistance) 
-  159 minutes (Liberté) 

FILMAGENS EM: França e Bélgica

LÍNGUAS FALADAS (PRINCIPAIS): Francês e inglês


01 novembro 2026

Solenidade de Todos os Santos

 EVANGELHO – Mt 5,1-12

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se.
Rodearam-n’O os discípulos
e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
«Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados os humildes,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que choram,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa,
vos insultarem, vos perseguirem
e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa».

31 outubro 2026

Pensamentos Impensados

Tive um primo que viveu em Londres no tempo dos célebres nevoeiros (smog) e dizia: não me faz diferença, alugo um cego.

Quer ver cenas picantes? Experimente pôr piripiri nos olhos.

Nem tudo o que vem à rede é peixe; às vezes é o tenista.

Devagar se vai ao longe; a divagar não se vai longe.

Vi, não me lembro onde, um restaurante que publicitava vinhos, petiscos e seus derivados. Derivado de petisco deve ser a indigestão; de vinho só se for a bebedeira e o vómito.

Há tipos que são "bons garfos". Jack, o Estripador, era uma "boa faca".

SdB (I)


30 outubro 2026

Poemas dos dias que correm

 XXIV. E AJOELHANDO-ME NA MARGEM DO MAR TRANSPARENTE FAREI PARA MIM UM NOVO CORAÇÃO DE SAL E LAMA


Uma esposa está debaixo das garras do ser.
Fácil dizer Porque não desistir disto?
Mas suponhamos que o teu marido e uma certa mulher obscura
gostam de se encontrar num bar ao princípio da tarde.
O amor não é condicional.
Viver é muito condicional.
A esposa posiciona-se numa varanda fechada do outro lado da rua.
Observa a mulher obscura
estica-se para lhe tocar a têmpera como que inserindo algo.
Observa-o
dobrar-se ligeiramente para a mulher e para trás. Os dois estão sérios.
A seriedade deles arruína-a.
Pessoas que conseguem ser sérias em conjunto, é profundo.
Têm uma garrafa de água mineral na mesa entre eles
e dois copos.
Não há necessidades inebriantes!
Quando é que ele desenvolveu
este novo gosto puritano?
Um navio frio
sai de um porto algures dentro da esposa
e desliza em direcção ao horizonte plano e cinzento,

nem um pássaro nem um sopro à vista.

Anne Carson (Prémio Nobel de Literatura de 2026)
(Canadá, 1950 - )
In "A Beleza do Marido"
(Tradução de Tatiana Faia)

28 outubro 2026

Textos dos dias que correm

 

Florença, Maio de 2011

O Solitário

O solitário leva uma sociedade inteira dentro de si: o solitário é multidão. E daqui deriva a sua sociedade. Ninguém tem uma personalidade tão acusada como aquele que junta em si mais generalidade, aquele que leva no seu interior mais dos outros. O génio, foi dito e convém repeti-lo frequentemente, é uma multidão. É a multidão individualizada, e é um povo feito pessoa. Aquele que tem mais de próprio é, no fundo, aquele que tem mais de todos, é aquele em quem melhor se une e concentra o que é dos outros.

(...) O que de melhor ocorre aos homens é o que lhes ocorre quando estão sozinhos, aquilo que não se atrevem a confessar, não já ao próximo mas nem sequer, muitas vezes, a si mesmos, aquilo de que fogem, aquilo que encerram em si quando estão em puro pensamento e antes de que possa florescer em palavras. E o solitário costuma atrever-se a expressá-lo, a deixar que isso floresça, e assim acaba por dizer o que todos pensam quando estão sozinhos, sem que ninguém se atreva a publicá-lo. O solitário pensa tudo em voz alta, e surpreende os outros dizendo-lhes o que eles pensam em voz baixa, enquanto querem enganar-se uns aos outros, pretendendo acreditar que pensam outra coisa, e sem conseguir que alguém acredite.

Miguel de Unamuno, in 'Solidão'

***

O Solitário

As observações e as vivências do solitário que só fala consigo próprio são simultaneamente mais indistintas e intensas do que as do homem social e os seus pensamentos são mais graves, mais fantasiosos e nunca sem uma coloração de melancolia. Imagens e impressões que outros poriam naturalmente de lado após um olhar, um sorriso, um comentário, ocupam-no mais do que é devido, tornam-se profundas no silêncio, ganham significado, transformam-se em acontecimento, aventura, emoção. A solidão cria o original, o belo ousado e estranho cria a poesia. Mas cria também o distorcido, o desproporcionado, o absurdo e o proibido.

Thomas Mann, in "Morte em Veneza"

27 outubro 2026

Crónicas de um doutorando tardio

 


Hoje de manhã, numa sala da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, defenderei a minha tese de doutoramento. 

Gosto de datas e gosto de rituais; gosto de 'casar' acontecimentos, canetas, pessoas, músicas. Gosto de associar momentos importantes na minha vida a objectos ou a memórias, a santos ou a passagens relevantes do Evangelho do dia. O dia em que defendo a tese não coincide com nada de particularmente relevante na minha vida ou nos meus interesses; mas o ano sim. Na verdade, completam-se este ano 25 anos sobre o início e fim de um processo doloroso que tinha 'oncologia pediátrica' como marca de água: iniciou-se no dia 19 de Março de 2001, terminou no dia 4 de Novembro desse mesmo ano.

Esta tese específica é fruto, também, de um sortilégio. Na minha mente estava um tema bem diferente, todo ele relacionado com despojamento, com a ideia de que less is more. Em três ano escrevera pouco mais de 30 páginas, das quais se aproveitaria pouco. Era o tempo da minha presidência da Childhood Cancer International que se tornaria num voluntariado em full time. Até que um dia alguém me desafiou à mudança radical de tema: do despojamento passava para a oncologia pediátrica e para as narrativas dos Pais que passam por este processo - era preciso 'capitalizar' a minha experiência de Pai e presidente de uma organização nacional e internacional de Pais de crianças com cancro. E fechar um ciclo que se iniciara há 25 anos.

Não cabe na dimensão de um post o gosto que deu a escrita das 200 páginas: entrevistei Pais, revisitei temas que me eram obsessivos há muito tempo, li sobre morte, luto, sofrimento, esperança, sentido da vida, alegria, histórias, fé e milagres. Desafiei-me a cruzar literatura com filosofia com narratologia com testemunhos, aprendi o que eram grupos focais, revi mentalmente centenas de pessoas com histórias difíceis, cheias de sentido ou de revolta. 

Tenho a nítida sensação de que me atirei para fora de pé. A memória falha-me, não tenho experiência nem vocabulário académico, domino apenas uma parte muito diminuta da tese, tenho medo de não perceber todas as perguntas, ou dar respostas demasiado básicas. Alguém me desejava boa sorte para o momento, acrescentando 'have fun!' O meu 'fun' virá quando o júri se der por satisfeito e me mandar sair da sala para deliberar. Até lá sou apenas um homem enervado, ansioso, com uma secreta esperança de receber um telefonema: 'olhe, foi tudo adiado...'.

Adeus, até ao meu regresso...

JdB      

25 outubro 2026

XXX Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO – Mateus 22,34-40

Naquele tempo,
os fariseus, ouvindo dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus,
reuniram-se em grupo,
e um doutor da Lei perguntou a Jesus, para O experimentar:
«Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?».
Jesus respondeu:
«‘Amarás o Senhor, teu Deus,
com todo o teu coração, com toda a tua alma
e com todo o teu espírito’.
Este é o maior e o primeiro mandamento.
O segundo, porém, é semelhante a este:
‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’.
Nestes dois mandamentos se resumem
toda a Lei e os Profetas».

24 outubro 2026

Pensamentos Impensados

Fruto estragado: As doenças do fígado podem ser fruto de hepatite. A obesidade é fruto do apetite.

Coceiras: fez tudo para ser homem estátua mas nunca conseguiu; tinha bicho-carpinteiro.

Modas: já na antiga Roma havia guerras entre os costureiros; daí as guerras túnicas.

Culinária: para se fazer arroz de cabidela será necessário saber o tipo de sangue da galinha?

Contorcionismo: devido a problemas de coluna já se me torna difícil chegar aos pés; Ou seja, não estão do pé para a mão.

Culinária: as cebolas eram tão boas que eram de cortar e chorar por mais.

SdB (I)

23 outubro 2026

Poemas dos dias que correm

 Teoria das cores

Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.
 
O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor – sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
 
Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.
 
Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.  
 
herberto helder
os passos em volta
assírio & alvim
2001

21 outubro 2026

Vai um gin do Peter’s ?

 MÚSICA EM MAFRA, QUANDO O REI FAZ ANOS  - 22.OUT.-16h00 

O Palácio-convento de Mafra – edificado a mando de D.João V, em 1717 – celebra, amanhã, em cerimónia pública, a conclusão do projeto dedicado ao património musical português, intitulado «A BÚSSOLA BARROCA». Inclui também uma surpresa, para os sortudos que conseguirem participar no evento…

A escolha do dia 22 de Outubro coincide com o aniversário do nascimento do rei de cognome Magnânimo, fazendo jus aos grandes monumentos construídos por sua iniciativa: Aqueduto das Águas Livres, a lindíssima Biblioteca Joanina de Coimbra, a Capela de S.João Baptista na Igreja de S.Roque, a renovação do Palácio das Necessidades, o restauro e enriquecimento de inúmeros conventos e palácios de Norte a Sul do país. Essa azáfama obreira trouxe para Portugal um escol de artistas, arquitectos, engenheiros e construtores, que tornaram depois possível a (relativamente) rápida reconstrução de Lisboa, após a razia da cidade no terramoto de 1755. Inclusive, coube-lhes a proeza arquiectónica anti-sísmica, com a invenção de uma estrutura de madeira para embutir nas paredes dos edifícios e lhes conferir flexibilidade, que ficou conhecida por ‘gaiola pombalina’.   

Voltando aos festejos em Mafra, no Museu Nacional da Música, instalado no Real Palácio, o programa começa às 16h00 e desdobra-se em duas grandes apresentações: 

i) do CD e LP com a gravação de A BÚSSOLA BARROCA, que reúne música  barroca e contemporânea. O projeto nasceu de uma parceria italo-portuguesa – Museu da Música, Fundação Gaudium Magnum e Fondazione Pietà de' Turchini – e culminou na gravação (2025) de um repertório multissecular, executado num cravo Antunes, de 1758 e interpretado pela cravista francesa Béatrice Martin. Tem a originalidade de explorar o património musical antigo e de colocar em diálogo a época barroca do período joanino (Carlos Seixas, Domenico Scarlatti) com o vanguardismo hodierno de António Pinho Vargas; 

ii) da tela do italiano Giorgio Domenico Duprà (1689–1770) com um retrato de D.João V, executado em 1727, durante os anos da estadia do pintor em Lisboa, entre 1719 e 1730. A tela foi adquirida pela Colecção Gaudium Magnum, de Maria e João Cortez de Lobão, em Maio de 2025. Logo no momento da aquisição – na edição de 2025 da LAAF- Lisbon Art & Antiques Fair – o meio artístico nacional, incluindo os antiquários e os coleccionidaores festejaram o facto de a peça ter integrado uma colecção portuguesa e aplaudiram a «oportunidade única de unir um grande rei e um grande artista» em solo português. A obra foi cedida, por empréstimo, ao museu sediado em Mafra:

Giorgio Domenico Duprà pintou mais retratos de D.João V, alguns dos quais também permanecem em Portugal: no MNAA, adquirido em 2017, através de crowfunding, a comemorar a exaltação da armada e da Batalha do Cabo Matapão (1717); na Biblioteca Joanina, em Coimbra; no tecto do Paço Ducal de Vila Viçosa, na Sala dos Tudescos. 

Seguem mais detalhes sobre a cerimónia em Mafra, na tarde de Quinta-feira, que será o ponto de partida para revelar uma nova (e muito especial) surpresa na exposição de longa duração no Museu de Música:

«Quando o Rei faz anos

A Bússola Barroca regressa a Mafra

No dia 22 de Outubro, a Fundação Gaudium Magnum – Maria e João Cortez de Lobão, o Museu Nacional da Música e a Fondazione Pietà de’ Turchini reúnem-se em Mafra para assinalar a conclusão de A Bússola Barroca, um projecto desenvolvido ao longo dos últimos dois anos em torno do património musical português.

A data coincide com o aniversário do nascimento de D. João V, cujo reinado marcou um importante período de desenvolvimento artístico e musical em Portugal. O Palácio Nacional de Mafra, onde se encontra actualmente instalado o Museu Nacional da Música, permanece uma das expressões mais visíveis deste legado cultural.

É neste enquadramento histórico que se cruzam dois momentos importantes: o lançamento da gravação de A Bússola Barroca em CD e LP e a apresentação de um retrato de D. João V, da autoria de Giorgio Domenico Duprà, pertencente à Colecção Gaudium Magnum e cedido ao Museu em regime de empréstimo de longa duração.

Editado pela Turchini Records, o álbum reúne sete sonatas de Carlos Seixas, interpretadas pela cravista francesa Béatrice Martin, e Il Ritorno, do compositor português contemporâneo António Pinho Vargas. A gravação foi realizada no histórico cravo construído em 1758 por Joaquim José Antunes, classificado como Tesouro Nacional e pertencente ao acervo do Museu.

A apresentação terá lugar às 16h00, no auditório do Museu Nacional da Música, e incluirá uma conversa informal entre Edward Ayres de Abreu, Director do Museu, e Maria Cortez de Lobão, co-Presidente da Fundação Gaudium Magnum, em torno do contexto histórico e musical do projecto e do empréstimo. A entrada é livre.

Em conjunto, a gravação e o empréstimo reflectem o compromisso da Fundação com a preservação e divulgação do património cultural português, promovendo simultaneamente a colaboração entre instituições em Portugal e no estrangeiro.»

Para mais informações:  A Bússola Barroca regressa a Mafra · Fundação Gaudium Magnum

É espantoso haver mecenas da música nacional, relativamente pouco conhecida, mesmo nos círculos melómanos. Mais invulgar ainda, é o mecenato estender-se à música contemporânea clássica. Quinta-feira será, por isso, dia de festa para a arte musical portuguesa! 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas) 

20 outubro 2026

Da privacidade e do povo Sakalava *

 Há uma linha quase imperceptível que une as redes sociais ao povo Sakalava, de Madagáscar: essa linha chama-se privacidade - e ambos (tribo e redes) estão do mesmo lado da barricada, o lado que diz não à privacidade, ainda que por motivos diferentes. 

Para os Sakalava, dizem-me, as cercas são desaprovadas, as portas são um tabu e as pessoas passam a maior parte do tempo fora de casa. Nesta tribo, secretismo e separação indicam, no mínimo, falta de generosidade. E se alguém pretende manter-se escondido e quieto num espaço não público é porque está a tramar alguma. A escuta, esse hábito que tem tanto de pernicioso como de interessante, faz parte do instinto de sobrevivência desta gente. 

As redes sociais mataram, penso já o ter dito de forma maçadora neste estabelecimento, uma certa de ideia de privacidade. Mas foram mais longe no seu furor destrutivo: a morte da privacidade foi acompanhada pela morte de um certo interesse pela vida do próximo. Hoje subsiste a curiosidade, que é um parente pobre, e quiçá bastardo, do interesse. E desapareceu, sobretudo, o conceito de interesse militante, aquele que nos leva a perguntar, a querer saber, a dar tempo para que uma resposta nos chegue aos ouvidos. Hoje tudo é disponibilizado, nada é indagado. E a ideia de que ser é ser percebido é substituída pela ideia de que mostrar é ser percebido. Hoje tudo chega por via de um telefone: quem veste o quê, quem foi pai de quem, que restaurantes estão na moda, que cursos estamos a frequentar, o que jantámos na semana passada ou onde estivemos ontem - ou onde estamos naquele preciso instante. Já não existe a pergunta onde foste? porque se presume que não estando nas redes sociais não tem interesse. Ou não tem existência, que é o mesmo.  

O problema, obviamente, não está nas redes sociais, mas na utilização que lhes damos. O telemóvel é um artigo pessoal, tal como um sapato. Mas se este não impede a conversação, aquele sim. No telemóvel está tudo - e o que não está lá não tem valência utilitária, não justifica uma atenção. O isolamento promovido pela utilização (quase) obsessiva do telemóvel para consultar o facebook, o instagram, o whatsapp, impede a conversa, e nesse afundamento de uma arte milenar condena-se também o ponto de interrogação, esse pequenino sinal gráfico que abre as portas ao comércio entre as pessoas. Não perguntamos, porque temos informação crucial (e virtual) que chegue e, com isso - ou por causa disso - matamos mais um pouco das competências sociais que nos vão restando. Sabemos tudo de toda a gente, mas não perguntamos nada a ninguém. Ao contrário do povo Sakalava, a nossa falta de privacidade destrói. E talvez torne obsolescente a utilização da voz como elemento de comunicação entre as pessoas.

Olhemos para a História: é verdade que algo se perdeu quando a vida dos Homens começou a fazer-se em casas com paredes e portas fechadas. Ouvirmo-nos uns aos outros, sabermos que nós próprios somos ouvidos pode ser uma fonte de conforto, mais do que de ansiedade; de confiança, mais do que de medo. Assim o reconheceu uma habitante de Londres que, no final do séc. XIX, reportava todos os sons que ouvia no seu prédio: a senhora do primeiro andar que a horas certas lava o fogão, o senhor do segundo andar que pede chá e uma torrada, a criança que chora mais acima ou as conversas das manhãs preguiçosas. O som ambiente pode ser reconfortante, pode dar-nos a sensação de não estarmos sozinhos. Porém, ao contrário desta londrina que identificava as rotinas do prédio pelos sons humanamente audíveis, a modernidade tecnológica eliminou o som que permitia o equilíbrio fino entre privacidade e ausência de. A privacidade desapareceu, mas cada um vive barricado no seu forte insonoro. Identificamos as rotinas sem ver nem ouvir.

Num certo sentido, entre o nosso mundo e o do povo Sakalava talvez não haja diferenças substanciais. Para a tribo malgaxe a ausência de privacidade significava a manutenção da vida; para o mundo ocidental talvez seja, pelo contrário, o fim de uma certa vida.  

JdB

* publicado originalmente a 26 de Fevereiro de 2019

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