04 novembro 2013

Texto para o dia de hoje seguido de carta a um anjo

Um aprendiz só perde verdadeiramente o medo ao touro quando o enfrenta pela primeira vez, quando sente fixarem-se sobre si os olhos do animal e se apercebe da sua investida. É nesse momento decisivo, quando nada mais existe no mundo para além do homem e da besta, que o temor desaparece. Não são as palmas, porque ele não as ouve; não é o incentivo, porque ele não o sente; não é a oração piedosa que rezou minutos antes num assomo de religiosidade supersticiosa, porque já não se recorda dela; não é o amuleto, a medalha da virgem ou do desgraçado coração de jesus, porque a alma lhes está imune. O que leva o aprendiz de toureiro - sonhador de jornadas de glória, protagonista de tardes carregadas de cicatrizes - a vencer o medo do touro é o enfrentamento do touro.  Tudo o resto são detalhes, pequenos nadas que adornam o sufoco.
Por semelhança de raciocínio, talvez seja preciso ver-se a morte para se perder o medo à morte. Porque a morte é para uns o que o touro é para outros: a perspectiva, mais ou menos certa, de que o nosso tempo é finito, que tudo se pode jogar num fio de cabelo, num instante de menos saúde derivado de uma análise estranha, de um golpe de cornos que rasga a pele, dilacera a carne, entra por uma veia adentro num fúria acossada.
Citemos um testemunho anónimo, que é de anonimatos que se construíram palácios e catedrais, mas também cemitérios infindos onde jaz uma multidão de corpos sem nome.

Eu vi a morte, não num animal feroz, não num acidente iminente, nem sequer na forma de uma doença que nos habita e que a ciência não sabe curar. Vi-a numa mão pequena, numa vida pequena. Vi-a nuns dedos infantis que agarravam outra vida quando ainda não tinham largado esta. No meio estava a morte, naquela breve passagem de uma realidade que nem sempre dominamos para outra realidade em que nem sempre cremos. Vi-a na dimensão física de um rosto sereno, na impessoalidade de uma parafernália tecnológica que nos revela números que decrescem até ao zero absoluto. Vi-a no vazio árido cujo ar respirei, num deserto onde nada pode existir mas de onde tudo pode nascer.

Ver a morte, essa águia cujo grito ninguém descreve, é viver com ela na persistência da memória até ao fim do tempo, até ao momento em que alguém passa a ser o espectador da nossa própria morte. Só então a imagem se desvanece para dar lugar ao último abraço. É nessa altura que a morte se materializa no nosso próprio corpo, e não no corpo dos outros. O aprendiz, o perseguidor de quimeras, não mais esquecerá o dia em que enfrentou o animal que lhe coube em sorte, porque nunca se esquece o horror que vence a sensação de horror. Por isso, jamais se esquece a morte que vence o medo da morte. Por isso, dirá ainda o testemunho anónimo, jamais esqueci o momento em que vi a besta à minha frente.  
Olhar para a morte não é olhar só para a curva da estrada, lembrar o corpo desaparecido que dá lugar à saudade, conjugar de forma tão exclusivamente,  mas também tão dolorosamente adulta, a expressão nunca mais. Olhar para a morte, vê-la chegar, senti-la nuns dedos que perdem força, perceber que ela se instalou à espera de vencer e de ser vencida numa fracção de instante não constitui uma fatalidade, mas abre uma possibilidade. A morte para quem quase lhe toca pode ser só dor, mas pode ser muito mais. Pode ser uma solidão dolorosa, a ausência de ouvidos que escutem, a saudade que se crava como um espinho persistente; mas pode ser um farol num nevoeiro persistente, pode ser uma oportunidade de redenção, pode ser a chave certa para a criação da beleza.

***

Foi hoje, mas há doze anos.
Todos os dias podem ser o doloroso quatro de novembro, e todos os dias podem ser o esperançoso quatro de novembro. Como olhamos para a morte? Como o acabamento de tudo, ou como o princípio de algo? Como vemos o fim das coisas? Como uma morte que termina uma vida ou como uma vida que nasce com a morte? Que importância determinante damos às palavras “vida” e “morte”? Não será verdade que ambas existem quotidianamente no vocabulário que usamos com os mais próximos, com os sonhos, os devaneios, as desilusões?
Morreremos como vivemos – em paz, em tumulto, desencontrados com o destino que nos liga ao próximo. Viveremos, estou em crer, do mesmo modo que sobrevivemos à morte própria ou alheia, devastadora e sofrida. Somos o que a nossa alma manda fazer no dia seguinte, em todos os dias seguintes, em todos os quatro de novembro daqui até à eternidade. É por isso que uns olham para o céu e não vêem mais do que luto, dor e saudade. É por isso que outros olham para o mesmo céu e, num relance pleno de esperança e certeza, vislumbram o anjo que derrama o infinito pó do amor.
Foi hoje, mas há doze anos, e a nossa vida continua a ser a tua presença.

JdB (em nome de todos os que se lembram, na memória ou no coração) 

5 comentários:

Anónimo disse...

Abraço de muita amizade.
fq

arit netoj disse...

Querido João, obrigada por continuar a pensar alto (com todos os seus significados)e a ser testemunho de tamanha esperança!
Beijinhos especiais

Anónimo disse...

Querido João
Obrigada pelas suas palavras de esperança! Lindo, o texto!!
Um grande beijo
Paquita

Unknown disse...

Beijinhos atrasados primo.

Unknown disse...

Beijinhos atrasados primo.

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