20 setembro 2021

Crónicas de um doutorando tardio

Voltei aos bancos da faculdade 18 meses depois de lá ter saído - em Março de 2000, quando a expressão pandemia entrou no nosso léxico quotidiano. Apesar da alteração de rotinas (o café, diz o letreiro, está em Românicas e a utilização de máscara é desconfortável) gostei do regresso, das novas leituras, do convívio com outros alunos, da activação de neurónios que se quedaram dormentes e gordos neste ano e meio. 

A perda da rotina académica teve um efeito nefasto em várias áreas da minha vida "mental": não tendo avançado com a tese de doutoramento, esta andou para trás: perdi criatividade, disciplina, memória, associações. Terei de recomeçar quase tudo do zero; por outro lado, a minha mente tornou-se mais mono-temática, pois suspendi uma certa expansão da mente que me advém de ouvir conversas que não têm a ver com as actividades mais diárias da minha vida - profissional ou de voluntariado.

Que seja um bom ano lectivo, é que o desejo a mim próprio, começando por tentar perceber o que deve ver-se ao perto e o que deve ver-se ao longe.

JdB  

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Tópicos de Teoria Literária (Miguel Tamen)

Perto ou longe

Existe um debate recorrente nos estudos literários entre quem acha que as obras literárias devem ser examinadas de perto e quem acha que lê-las de perto é uma perda de tempo.  Os primeiros defendem que os pormenores num poema ou num romance têm prioridade em relação a considerações gerais sobre a história, a sociedade ou a cultura; os segundos que os pormenores são sempre explicados por essas considerações gerais, e por isso são dispensáveis.  Seguiremos o debate através de discussões recentes das noções de “close reading” e de “distant reading.” Cada participante terá de escrever um ensaio por semana.

19 setembro 2021

XXV Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Mc 9,30-37

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus e os seus discípulos caminhavam através da Galileia,
mas Ele não queria que ninguém o soubesse;
porque ensinava os discípulos, dizendo-lhes:
«O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens
e eles vão matá-l'O;
mas Ele, três dias depois de morto, ressuscitará».
Os discípulos não compreendiam aquelas palavras
e tinham medo de O interrogar.
Quando chegaram a Cafarnaum e já estavam em casa,
Jesus perguntou-lhes:
«Que discutíeis no caminho?»
Eles ficaram calados,
porque tinham discutido uns com os outros
sobre qual deles era o maior.
Então, Jesus sentou-Se, chamou os Doze e disse-lhes:
«Quem quiser ser o primeiro será o último de todos
e o servo de todos».
E, tomando uma criança, colocou-a no meio deles,
abraçou-a e disse-lhes:
«Quem receber uma destas crianças em meu nome
é a Mim que recebe;
e quem Me receber
não Me recebe a Mim, mas Àquele que Me enviou».

17 setembro 2021

Poemas dos dias que correm *

CURRICULUM VITAE RESUMIDO


Mal se conhecem
mas já se fazem
algumas perguntas de ocasião:

que comida preferes
onde vives
que país gostarias de visitar.

Claro que pronunciarão
cem vezes a resposta
Repetem-na
por hábito e perseverança
embora a tenham alterado
no caminho até hoje.

Para compreender a alma dos outros
apenas uma pergunta seria suficiente:
o que te fez chorar.


Marisa Martinez Pérsico, Argentina (1978)
Tradução de Jorge Sousa Braga

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* tirado daqui 

15 setembro 2021

Vai um gin do Peter’s?

VATICANO PRECURSOR DAS PARAOLIMPÍADAS

No alvor do século XX, o mundo assistiu impotente ao despique agressivo entre as grandes potências europeias, no limite da irresponsabilidade para deflagrar em conflito bélico, como veio a acontecer no Verão de 1914. Guerreavam-se na expansão ultramarina. Nessa corrida aos territórios além-mar, esquartejavam África a régua e lápis nos gabinetes do Velho Continente, com o fito de ter acesso aos recursos naturais do continente africano. Assim se afanavam na construção dos seus impérios.

Em contraciclo, o Papa da altura – Pio X – procurava ajudar os mais necessitados e criar uma onda solidária (dito na linguagem do nosso tempo) a favor dos esquecidos do progresso industrial e tecnológico, que enfeitiçava as sociedades mais ricas e pujantes. Com originalidade, inventou uma réplica das competições olímpicas para atletas com deficiências, oferecendo-lhes um palco para poderem mostrar ao mundo as suas proezas. Para tal, abriu as portas do Vaticano e, entre 1905 e 1908, acolheu os jogos desportivos, que foram pioneiros dos Paraolímpicos.  Na edição de 1908, concorreram 2.000 atletas, quase metade dos que marcaram presença no Japão (4.400)! 

Primeira página do L'Osservatore Romano de 29 de setembro de 1908 

Para acolher aquele projecto de desporto inclusivo, o espaço vaticano “Cortile del Belvedere” foi transformado em pista de atletismo, no Pátio de S.Dâmaso decorreram a maioria das actuações desportivas e na Porta de Bronze foi montada a recepção e o ponto informativo. Por junto, tudo ficou ao serviço dos Jogos: a Guarda Suíça e o corpo de polícias da Santa Sé asseguravam o acolhimento aos atletas, quer no apoio organizativo, quer na animação do ambiente com as suas bandas. O “L'Osservatore Romano” garantia a cobertura mediática, qual gazeta de desporto, com entrevistas aos campeões, a mensagem do Papa aos jogadores, notas de informação aos participantes, fichas técnicas sobre os principais acontecimentos, até os reportados pela equipe médica Fatebenefratelli, que incluía o diagnóstico das lesões. 

Nos Jogos de setembro de 1908: competiram, na velocidade, atletas com membros amputados, como Baldoni (vitória irlandesa). No salto em altura, participaram atletas surdos e 9 jovens cegos do Instituto Sant'Alessio. 

À época, a iniciativa de Pio X deu brado e não pouca polémica, mesmo na Santa Sé, onde a imagem de atletas deficientes levou um interlocutor mais próximo do círculo papal a dar voz ao típico anúncio da desgraça iminente: «onde vamos parar?». Sem se intimidar, Pio X respondeu em veneziano: «Meu caro, ao paraíso!» E assim se antecipava a promoção de uma percepção diferente da deficiência. 

Primeira página do L'Osservatore Romano de 29 de setembro de 1908

L'Osservatore Romano de 29 de setembro de 1908

Quase quatro décadas depois, a estreia das Paraolimpíadas decorreram na Grã-Bretanha, em 1948, numa iniciativa de Sir Ludwig Guttmann (1899-1980, judeu nascido em território alemão, hoje pertencente à Polónia, que se mudou para Inglaterra, em 1939, em fuga aos Nazis) para honrar os veteranos da II Guerra, que tinham ficado feridos durante o conflito. Quatro anos depois, em 1952, a segunda edição dos Jogos ganhou um pouco de internacionalidade com a participação de atletas holandeses. Aos poucos, outros países se juntaram, até se atingir a universalidade merecida. 

Na senda de Pio X, em 2019, o Papa Francisco lançou a equipa de desporto da Santa Sé – a Athletica Vaticana – para participar em competições desportivas, onde prevaleça o cunho fraternal. As recomendações de Francisco à Athletica Vaticana foram claras: «viver sempre um estilo de comunidade, treinando juntos, correndo juntos, sem nunca perder de vista a dimensão amadora da atividade desportiva», bem nos antípodas do espírito de alta competição, por que se pauta a carreira dos atletas de nível olímpico. 

Há dias, na cerimónia de encerramento das Paraolimpíadas de Tóquio (5 de Set.), França protagonizou um dos momentos mais elevados, com a apresentação oficial da próxima edição dos Jogos, em Paris – no ano de 2024. Resumindo: após a passagem do testemunho com a bandeira paraolímpica a mudar de mão, o hino francês foi entoado à vista da Vitória de Samotrácia, na escadaria do Louvre, enquanto a letra da música era legendada coreograficamente em linguagem gestual (1:33:15 da versão integral da cerimónia com link infra*). Seguiu-se a coreografia composta por Sadeck Waff, interpretada por bailarinos em cadeiras de rodas, que usaram apenas os braços para comporem uma dança magnífica, ao som da música composta por Yoann Lemoine (versão compactada abaixo e ao 1:35:11 na cerimónia).  Por videochamada, de Tóquio saltou-se até ao Trocadero, onde estava reunida a equipa gaulesa paraolímpica, que iria dançar ao som do DJ tetraplégico, a comandar o som só com os olhos (1:37:29). Por fim, a bandeira das Paraolimpíadas de Paris’ 2024 foi desfraldada na Torre Eiffel, onde ficou a esvoaçar com garbo (1:40:46).

https://www.instagram.com/p/CTcgw6OCOwA

São espantosos os efeitos da criatividade, quando rola para o bem, multiplicando-se em rastilhos de bondade com ignições benignas por todo o planeta, ao longo das gerações que alinhem na boa onda.   


Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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14 setembro 2021

Das amizades

 Sobre mim disse o meu querido amigo fq, frequentador e, numa dada altura, contribuinte para este estabelecimento:

"... um homem nostálgico que vive por vezes do passado..." 

Também disse outras coisas, mas estas são as que interessam para agora. 

Num telefonema que lhe fiz ontem ao fim da tarde confirmou-me a efeméride, materializada na data de aniversário de quem já cá não está. Hoje, mas há 45 anos, começávamos uma amizade ininterrupta até aos dias de hoje: 45 anos de algumas viagens, de muita partilha de citações queirozianas ou de músicas, de valores que nos tornam iguais, apesar das diferenças, de almoços no clube de que escolhemos ser sócios em simultâneo, de muita partilha de sucessos e desafios, de muito jogo de cartas onde o vi ser o que é hoje: um misto invejável de risco e segurança.

Este sábado estive no casamento da filha do meu querido amigo ATM, igualmente frequentador e contribuinte deste estabelecimento. À conversa com alguém que conheci ao jantar, informei: tenho pelo ATM uma amizade recente, com 20 anos. A pessoa que me ouviu espantou-se com a junção de 20 anos e de recente. Olho para o ATM e, salvaguardadas todas as diferenças, é uma amizade igualmente partilhada: muita conversa, muito debate, muita confidência. Num certo sentido, 20 anos são 45 anos. As amizades são um produto da antiguidade e da intensidade. Por isso, dizer uma amizade recente, com 20 anos, é apenas uma constatação cronológica, não um juízo de valor. Talvez pudesse dizer dele o que uma amiga escritora dizia de algumas pessoas: é a minha mais recente amizade de infância.   

Num perfil que me fizeram para uma revista de fim de semana afirmei que nunca recorrera a psicólogos ou psiquiatras. Não porque tivesse algo contra esta classe médica, mas porque fui fazendo a minha terapia com amigos. Tanto o fq como o ATM se incluem nesse rol. Bons ouvintes, bons interlocutores, inteligentes diferentes mas igualmente notáveis.

Sou, de facto, um homem nostálgico que vive por vezes do passado. As minhas amizades não se medem pelo que ainda vem, mas pelo que já passou. O passado é certo, o futuro não. E só o passado nos permite rir com citações que a mais ninguém dizem nada, porque feitas num momento que só fica na memória dos que fixam tudo, até os pequenos-nadas.

Era Eurico, o gardingo!

JdB

13 setembro 2021

Do luto parental

Num das suas cartas a Lucíio, diz Séneca:

"Venho enviar-te uma cópia da carta que escrevi a Marulo aquando da morte de um filho de tenra idade - morte que, dizia-se, ele suportou com quase nula coragem. "

Diz a referida carta:

"Estavas à espera de consolo? Pois vais apanhar uma descompostura! Tanta cobardia tu mostras pela morte do teu filho? Que farias se tivesses perdido um amigo? Faleceu-te um filho, de futuro incerto, de pouca idade; perdeu-se apenas um breve espaço de tempo."

Aquando do preparação da petição que a Acreditar lançou sobre o luto parental, contactei várias pessoas convidando-as a serem primeiras signatárias. Era gente de vários quadrantes políticos, de várias áreas de actividade: jornalistas, escritores, gente ligada ao desporto ou às artes, músicos, políticos. Uma destas pessoas - político respeitado, ex-ministro, comentador de televisão, escreveu-me amavelmente dizendo que assinaria a petição se ela contemplasse a morte de filhos até aos 18 anos.

Eu próprio, quando começámos a discutir internamente a petição, interroguei quem me ouvia: para efeitos de dias de licença parental, a morte de um filho com 7 anos deve ser igual à de um filho de 30? A resposta foi.-nos óbvia: um filho é um filho. De uma certa forma, o ex-ministro e Séneca estão nos antípodas. A comparação tem um intuito de curiosidade, não de juízo de valor. São muitos séculos a separar um e outro.

É difícil - se não mesmo impossível - quantificar desgostos pela perda de filhos. Pessoa que conheço, que perdeu um filho muito próximo com 30 anos, talvez, acharia que o desgosto dela seria maior do que alguém que tivesse perdido um filho aos 7. Nunca o verbalizou, mas intuí-lhe sempre este raciocínio, talvez porque este filho tivesse uma importância grande ao nível da disponibilidade para a família. Havia uma dimensão instrumental importante.

O pressuposto de que filho é um filho elimina discussões e interrogações sem fim previsível: e se for um acidente ou uma doença prolongada? E se tiver 19 anos ou for recém-nascido? E se tiver 25 anos mas viver no estrangeiro, ou tiver 28 mas viver em casa?

Como presidente da Acreditar regozijo-me com a adesão à petição que lançámos e com o facto da generalidade dos partidos se ter mostrado disponível para rever a lei; como presidente de uma associação que também acompanha pais que perdem filhos teria gostado (e espero ainda vê-lo) uma discussão sobre estes temas do luto parental, da morte, do que pode fazer-se para ajudar estas pessoas que passam por um enorme drama.

Duas notas finais:

- se ainda não assinou a petição pode fazê-lo aqui.

- é impressionante o número de pessoas letradas, urbanas, instruídas, geralmente informadas, que desconhece - e se indigna com esse facto - que o Estado dá 5 dias a quem perde um filho. O mesmo número de dias que dá por morte de um sogro.

JdB 

12 setembro 2021

XXIV Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Mc 8,27-35

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus partiu com os seus discípulos
para as povoações de Cesareia de Filipe.
No caminho, fez-lhes esta pergunta:
«Quem dizem os homens que Eu sou?»
Eles responderam:
«Uns dizem João Baptista; outros, Elias;
e outros, um dos profetas».
Jesus então perguntou-lhes:
«E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Pedro tomou a palavra e respondeu: «Tu és o Messias».
Ordenou-lhes então severamente
que não falassem d'Ele a ninguém.
Depois, começou a ensinar-lhes
que o Filho do homem tinha de sofrer muito,
de ser rejeitado pelos anciãos,
pelos sumos sacerdotes e pelos escribas;
de ser morto e ressuscitar três dias depois.
E Jesus dizia-lhes claramente estas coisas.
Então, Pedro tomou-O à parte e começou a contestá-l'O.
Mas Jesus, voltando-Se e olhando para os discípulos,
repreendeu Pedro, dizendo: «Vai-te, Satanás,
porque não compreendes as coisas de Deus,
mas só as dos homens».
E, chamando a multidão com os seus discípulos, disse-lhes:
«Se alguém quiser seguir-Me,
renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.
Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á;
mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho,
salvá-la-á».

09 setembro 2021

Poemas e fotografias dos dias que correm

 

Amarante, Setembro de 2021

Poema do fecho éclair


Filipe II tinha um colar de oiro
tinha um colar de oiro com pedras rubis.
Cingia a cintura com cinto de coiro,
com fivela de oiro,
olho de perdiz.

Comia num prato
de prata lavrada
girafa trufada,
rissóis de serpente.
O copo era um gomo
que em flor desabrocha,
de cristal de rocha
do mais transparente.

Andava nas salas
forradas de Arrás,
com panos por cima,
pela frente e por trás.
Tapetes flamengos,
combates de galos,
alões e podengos,
falcões e cavalos.

Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.
Na mesa do canto
vermelho damasco
a tíbia de um santo
guardada num frasco.

Foi dono da terra,
foi senhor do mundo,
nada lhe faltava,
Filipe Segundo.

Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safiras, topázios,
rubis, ametistas.

Tinha tudo, tudo
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.

Um homem tão grande
tem tudo o que quer.

O que ele não tinha
era um fecho éclair.


António Gedeão


08 setembro 2021

Das montras e do pudor

Penafiel, Setembro de 2021

 Sou de um tempo e de uma educação com pudor de linguagem: só entre homens é que se diziam palavrões, podia dizer-se merda mas a expressão gaja era proibida; havia palavras feias, como sovaco, virilha ou ânus ou seio que não se pronunciavam não porque fossem verdadeiramente feias (gosto de Estômbar, não gosto de craca) mas porque remetiam para zonas do corpo de que não se falavam ou que eram domínio de uma certa intimidade. Em bom rigor, e não porque fosse uma palavra feia, também não se dizia cancro, mas uma coisa má. A fealdade das palavras era definida, não pelo seu som, mas por aquilo que representavam. 

Há 50 anos ou mais, talvez, as senhoras não tinham ovários, pelo mesmos motivo que os homens não tinham testículos.  Se uma amiga da minha mãe tivesse de ser operada a essa zona do corpo, fazia-se menção de forma discreta a coisas de senhora ou lá em baixo. O pudor da linguagem atingia um nível que não sei qualificar quando a referência a esses orgãos femininos era feita através da expressão miudezas

Vale a pena conhecer Penafiel - e um dia destes posto aqui algumas fotografias. Nunca lá tinha estado e fiquei muito agradado com a parte velha da cidade: cuidada, limpa, característica. Passar por Penafiel é, também, passar pelo mundo das miudezas que, segundo a tabuleta que encima a entrada, vende lingerie e têxteis para o lar. Ver esta palavra assim exposta fez-me recuar 50 anos, quando miudezas não era bem lingerie, menos ainda têxteis para o lar...

JdB   

06 setembro 2021

Texto e fotografia dos dias que correm

 

Amarante, Setembro de 2021

A Mentira é a Base da Civilização Moderna

É na faculdade de mentir, que caracteriza a maior parte dos homens actuais, que se baseia a civilização moderna. Ela firma-se, como tão claramente demonstrou Nordau, na mentira religiosa, na mentira política, na mentira económica, na mentira matrimonial, etc... A mentira formou este ser, único em todo o Universo: o homem antipático.
Actualmente, a mentira chama-se utilitarismo, ordem social, senso prático; disfarçou-se nestes nomes, julgando assim passar incógnita. A máscara deu-lhe prestígio, tornando-a misteriosa, e portanto, respeitada. De forma que a mentira, como ordem social, pode praticar impunemente, todos os assassinatos; como utilitarismo, todos os roubos; como senso prático, todas as tolices e loucuras.
A mentira reina sobre o mundo! Quase todos os homens são súbditos desta omnipotente Majestade. Derrubá-la do trono; arrancar-lhe das mãos o ceptro ensaguentado, é a obra bendita que o Povo, virgem de corpo e alma, vai realizando dia a dia, sob a direcção dos grandes mestres de obras, que se chamam Jesus, Buda, Pascal, Spartacus, Voltaire, Rousseau, Hugo, Zola, Tolstoi, Reclus, Bakounine, etc. etc. ...
E os operários que têm trabalhado na obra da Justiça e do Bem, foram os párias da Índia, os escravos de Roma, os miseráveis do bairro de Santo António, os Gavroches, e os moujiks da Rússia nos tempos de hoje. Porque é que só a gente sincera, inculta e bárbara sabe realizar a obra que o génio anuncia? Que intimidade existirá entre Jesus e os rudes pescadores da Galileia? Entre S. Paulo e os escravos de Roma? Entre Danton e os famintos do bairro de Santo António? Entre os párias e Buda? Entre Tolstoi e os selvagens moujiks? A enxada será irmã da pena? A fome de pão paracer-se-à com a fome de luz?...

Teixeira de Pascoaes, in "A Saudade e o Saudosismo"

05 setembro 2021

XXIII Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Mc 7,31-37

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus deixou de novo a região de Tiro
e, passando por Sidónia, veio para o mar da Galileia,
atravessando o território da Decápole.
Trouxeram-Lhe então um surdo que mal podia falar
e suplicaram-Lhe que impusesse as mãos sobre ele.
Jesus, afastando-Se com ele da multidão,
meteu-lhe os dedos nos ouvidos
e com saliva tocou-lhe a língua.
Depois, erguendo os olhos ao Céu,
suspirou e disse-lhe:
«Effathá», que quer dizer «Abre-te».
Imediatamente se abriram os ouvidos do homem,
soltou-se-lhe a prisão da língua
e começou a falar correctamente.
Jesus recomendou que não contassem nada a ninguém.
Mas, quanto mais lho recomendava,
tanto mais intensamente eles o apregoavam.
Cheios de assombro, diziam:
«Tudo o que faz é admirável:
faz que os surdos oiçam e que os mudos falem».

02 setembro 2021

O luto de uma vida não cabe em 5 dias

Setembro é, um pouco por todo mundo, o mês de sensibilização para o cancro pediátrico. Em Portugal a Acreditar decidiu lançar uma petição que pretende aumentar o período de licença por luto parental de 5 para 20 dias. Sim, perceberam bem: há anos (sei lá quantos) que o Estado dá 5 dias de nojo a quem perde um filho - o mesmo que para Pais e Sogros. Poderia discorrer aqui sobre o assunto, mas talvez seja preferível deixar um texto escrito na página da Acreditar, um link para um texto da Lusa publicado no Observador (pode ler aqui) e um link para a página onde poderá assinar a petição e obter mais informações e testemunhos. 

Assinem e divulguem, já agora.

JdB

O luto de uma vida não cabe em 5 dias

Dedicamos este Setembro Dourado - mês internacional de sensibilização para o cancro pediátrico, aos cuidadores.

Na Acreditar acompanhamos milhares de pais que se confrontam com a doença oncológica dos seus filhos, um percurso de uma exigência tremenda para a família.

Porque a taxa de sobrevivência ainda é de 80%, é também nossa missão apoiar e defender os direitos dos pais que perdem os seus filhos.

Lançamos agora a petição que propõe o alargamento do período de luto pela perda de um filho para 20 dias, sendo que a legislação prevê actualmente apenas 5 dias consecutivos.

Mesmo quando o retorno à vida laboral é um contributo positivo para o processo de luto, este período não chega. O luto parental é uma das experiências mais traumáticas, um processo intenso, complexo e que pode durar uma vida.

5 dias é um tempo manifestamente insuficiente para se fazer o luto de uma vida.

Uma sociedade mais solidária e justa tem de dar tempo aos seus. 5 dias é pouco.

https://www.peticaolutoparental.com/



01 setembro 2021

Vai um gin do Peter’s ?

A HISTÓRIA REPETE-SE, NO AFEGANISTÃO

De tempos a tempos, as invasões ao Afeganistão por grandes potências externas, dá azo a que uma das crónicas de Eça de Queiroz – escrita em 1880 e publicada nas «Cartas de Inglaterra» – seja citada na íntegra, porque descreve com precisão o desastre em que redundam as fracassadas incursões naquele enclave da Ásia Central. As fraquezas daquele país atípico, de fronteiras porosas e quase sem instituições com alcance nacional, tornou-o presa regular das grandes potências, que pensam ser fácil conquistar um território de geografia acidentada e poder periclitante. Zona de passagem, por onde corria a Rota da Seda, foi invadida pelos hunos, os turcos, os mongóis a mando de Genghis Khan, os persas, acabando por adoptar uma matriz islâmica radical. Porém, manteve uma estrutura de poder pulverizada pelas diferentes etnias que ali se instalaram, apesar de sobressair a pachtun. Chegou ao século XIX cobiçada pelos Czares, pela Índia britânica e pela Pérsia.  Ciclicamente (1839, 1847, 1878-80), a Grã-Bretanha fez investidas para tomar as principais cidades, a pretexto de conter os Impérios russo e persa. Mas resultaram em conquistas curtas, terminadas com banhos de sangue, a vitimar sobretudo os ocupantes. Finalmente, no rescaldo da Primeira Guerra Mundial e de nova derrota britânica, o Afeganistão liberta-se da coroa inglesa e torna-se independente. Corria o ano de 1919. 

Começando como monarquia, o país procurou sair do estilo medieval com a abolição da escravatura /servidão, o ensino obrigatório e generalizado, a construção de hospitais e demais infraestruturas, a redução da autoridade dos chefes tribais e religiosos, e até a melhoria da condição feminina. Esta foi a reforma mais polémica, que forçou o rei Amanullah Khan ao exílio. Ainda que turbulenta, a sucessão de soberanos, até ao início dos anos 70, permitiu desenvolver o país, que atingiu um grau de liberalismo assinalável. Mulheres com cara descoberta e a guiar nas estradas era comum, em Cabul. Mas tudo foi revertido com a crescente islamização da sociedade e a subida ao poder do Partido Comunista, logo após a invasão soviética, em 1978.  

Curiosamente, os comunistas até reduziram o ascendente dos chefes religiosos das diferentes tribos, deram maior liberdade às mulheres, construíram mais escolas e hospitais. Mas a militância ateísta do novo governo tornou-o odioso para a população, também revoltada com a típica purga assassina dos regimes marxista-leninistas contra intelectuais e todos os que consideravam pertencer às elites. A carnificina terá atingido mais de 100 mil pessoas, segundo os dados da Human Rights Watch. A revolta generalizada restituiu poder aos chefes dos clãs – óptimos orquestradores da sabotagem contra o invasor. É sabido como os EUA tiraram partido dessa rebelião, para organizar a guerra de guerrilha, que humilhou o Exército Vermelho, obrigando-o a bater em retirada, numa década de desgaste e perdas colossais para o Kremlin.  

No início do século XXI, repete-se o “assalto” ao Afeganistão. Desta vez, são os Estados Unidos, que resolvem acabar com o regime dos talibãs, que responsabilizavam pelo apoio dado ao autor moral do 11 de Setembro – o saudita ex-aliado dos EUA contra os russos, 20 anos antes – Bin Laden. A grande produção de ópio, que já era pujante em solo afegão, disparou, a ponto de, em 2008, já ser o líder da produção mundial de opiáceos. Também o haxixe começou a proliferar, sendo outros dos maiores produtos de exportação. Mas nada de se conseguir domar os talibãs, que lideram com mestria os inúmeros clãs em que se subdivide a população afegã. 

A retirada apressadíssima dos EUA e da NATO de um país turbulento, teve o óbvio efeito de aumentar a turbulência, o que tem favorecido os talibãs! Os mais arrevesados, admitem que Washington quisesse deixar um presente muito envenenado à China e à Rússia, ambas interessadas em pontificar nos destinos daquele Estado indomável, que se prevê voltar a ser o campo de treino dos terroristas islâmicos mais ferozes. 

Infelizmente, pouco disto é novo, à parte da nacionalidade de uma ou duas novas grandes potências interessadas no Afeganistão. De resto, o diagnóstico de Eça, escrito em 1880, mantém-se actual, descortinando com precisão o custo disparatado da cruzada bélica promovida por Londres contra aquela potência da Ásia Central:   

«Os ingleses estão experimentando, no seu atribulado império da Índia, a verdade desse humorístico lugar comum do sec. XVIII: «A História é uma velhota que se repete sem cessar».

O Fado e a Providência, ou a Entidade qualquer que lá de cima dirigiu os episódios da campanha do Afeganistão em 1847, está fazendo simplesmente uma cópia servil, revelando assim uma imaginação exausta.

Em 1847 os ingleses, «por uma Razão de Estado, uma necessidade de fronteiras científicas, a segurança do império, uma barreira ao domínio russo da Ásia…» e outras coisas vagas que os políticos da Índia rosnam sombriamente, retorcendo os bigodes - invadem o Afeganistão, e aí vão aniquilando tribos seculares, desmantelando vilas, assolando searas e vinhas: apossam-se, por fim, da santa cidade de Cabul; sacodem do serralho um velho emir apavorado; colocam lá outro de raça mais submissa, que já trazem preparado nas bagagens, com escravas e tapetes; e, logo que os correspondentes dos jornais têm telegrafado a vitória, o exército, acampado à beira dos arroios e nos vergéis de Cabul, desaperta o correame, e fuma o cachimbo da paz… Assim é exactamente em 1880.

No nosso tempo, precisamente como em 1847, chefes enérgicos, Messias indígenas, vão percorrendo o território, e com os grandes nomes de «Pátria» e de «Religião», pregam a guerra santa: as tribos reúnem-se, as famílias feudais correm com os seus troços de cavalaria, príncipes rivais juntam-se no ódio hereditário contra o estrangeiro, o «homem vermelho», e em pouco tempo é tudo um rebrilhar de fogos de acampamento nos altos das serranias, dominando os desfiladeiros que são o caminho, a estrada da Índia… E quando por ali aparecer, enfim, o grosso do exército inglês, à volta de Cabul, atravancado de artilharia, escoando-se espessamente, por entre as gargantas das serras, no leito seco das torrentes, com as suas longas caravanas de camelos, aquela massa bárbara rola-lhe em cima e aniquila-o.

Foi assim em 1847, é assim em 1880. Então os restos debandados do exército refugiam-se nalguma das cidades da fronteira, que ora é Ghasnat ora Kandahar: os afegãos correm, põem o cerco, cerco lento, cerco de vagares orientais: o general sitiado, que nessas guerras asiáticas pode sempre comunicar, telegrafa para o vice-rei da Índia, reclamando com furor «reforços, chá e açúcar»! (Isto é textual; foi o general Roberts que soltou há dias este grito de gulodice britânica; o inglês, sem chá, bate-se frouxamente). Então o governo da Índia, gastando milhões de libras, como quem gasta água, manda a toda a pressa fardos disformes de chá reparador, brancas colinas de açúcar, e dez ou quinze mil homens. De Inglaterra partem esses negros e monstruosos transportes de guerra, arcas de Noé a vapor, levando acampamentos, rebanhos de cavalos, parques de artilharia, toda uma invasão temerosa… Foi assim em 1847, assim é em 1880.

Esta hoste desembarca no Industão, junta-se a outras colunas de tropa índia, e é dirigida dia e noite sobre a fronteira em expressos a quarenta milhas por hora; daí começa uma marcha assoladora, com cinquenta mil camelos de bagagens, telégrafos, máquinas hidráulicas, e uma cavalgada eloquente de correspondentes de jornais. Uma manhã avista-se Kandahar ou Ghasnat; e num momento, é aniquilado, disperso no pó da planície o pobre exército afegão com as suas cimitarras de melodrama e as suas veneráveis colubrinas do modelo das que outrora fizeram fogo em Diu. Ghasnat está livre! Kandahar está livre! Hurrah! Faz-se imediatamente disto uma canção patriótica; e a façanha é por toda a Inglaterra popularizada numa estampa, em que se vê o general libertador e o general sitiado apertando-se a mão com veemência, no primeiro plano, entre cavalos empinados e granadeiros belos como Apolos, que expiram em atitude nobre! Foi assim em 1847; há-de ser assim em 1880.

No entanto, em desfiladeiro e monte, milhares de homens que, ou defendiam a pátria ou morriam pela «fronteira científica», lá ficam, pasto de corvos - o que não é, no Afeganistão, uma respeitável imagem de retórica: aí, são os corvos que nas cidades fazem a limpeza das ruas, comendo as imundícies, e em campos de batalha purificam o ar, devorando os restos das derrotas.

E de tanto sangue, tanta agonia, tanto luto, que resta por fim? Uma canção patriótica, uma estampa idiota nas salas de jantar, mais tarde uma linha de prosa numa página de crónica…

Consoladora filosofia das guerras!

No entanto, a Inglaterra goza por algum tempo a «grande vitória do Afeganistão» - com a certeza de ter de recomeçar, daqui a dez anos ou quinze anos; porque nem pode conquistar e anexar um vasto reino, que é grande como a França, nem pode consentir, colados à sua ilharga, uns poucos de milhões de homens fanáticos, batalhadores e hostis. A «política» portanto é debilitá-los periodicamente, com uma invasão arruinadora. São as fortes necessidades dum grande império.

Antes possuir apenas um quintalejo, com uma vaca para o leite e dois pés de alface para as merendas de verão…»

                                                                 In «Cartas de Inglaterra»

É triste que o cenário traçado por Eça só pareça pecar por defeito!

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)


30 agosto 2021

Das semelhanças entre quem é diferente

Tudo se joga no coração dos Homens.

***

Tenho o privilégio sociológico de ter uma actividade voluntária muito internacional, isto é, interajo com pessoas de muitos países. No board da associação na qual sou presidente há um sul-africano, um zimbabweano, uma espanhola e uma chilena, uma canadiana e uma australiana, um neozelandês e um malaio. Fora isso, trabalho muito frequentemente com uma filipina, uma austríaca e um chinês de Hong-Kong. Nos últimos meses interagi muito com gente dos Estados Unidos da América e do Canadá.

Por motivos que não veem ao caso e que seria fastidioso explicar, estamos todos envolvidos numa discussão muito complicada, com tiques de agressividade e de exigências desproporcionadas de uma das partes. A outra parte, que é a minha, junta-se à volta de uma mesa virtual e toma decisões, discute motivações e comportamentos. Há um grupo mais pequeno que discute estrategicamente o que deverão ser os passos seguintes, que tenta ver um pouco além do desfocado e da espuma do imediatismo. Somos, ambos os fóruns, uma espécie de Nações Unidas, com representações de uma dúzia de países.  

Aprendemos que somos o que somos e a nossa circunstância ou que somos fruto da genética e do meio ambiente. Ora, um dias destes, na sequência de mais uma ronda de conversas por causa do problema referido acima, dei por mim a pensar: se eu tapasse os olhos, se todos falássemos uma língua comum sem sotaque, não conseguiria identificar a proveniência de cada um dos intervenientes, isto é, não saberia dizer quem é espanhol ou malaio, quem é filipino ou africano. Ou seja, na forma de reagir somos, acima de tudo seres humanos: a chilena é igual ao malaio, eu sou igual ao homem do Zimbabwe, não há diferença entre a austríaca e a filipina. O que nos distingue? De uma forma simplista, o feitio de cada um: há quem seja mais diplomático, mais racional, mais impulsivo, mais reservado ou com horror ao conflito.

Quando comecei nestas lides ouvia muito: atenção que ele é chinês, ou percebe-se logo que é americano ou ainda é natural, são africanos... Acima de tudo somos seres humanos, com desejos de sermos amados, com necessidades de poder ou de auto-estima, com uma obsessão para que tudo seja feito de acordo com as regras. Talvez as nacionalidades se identifiquem melhor na forma de reagir, dizem-me, isto é, um americano reagirá como reage a bélica América, que se sente dona do mundo. Nem nisso estou certo. E talvez tenha percebi isto: no fundo no fundo, somos todos muito mais parecidos do que possa imaginar-se.      

Ouvi a frase que encima este texto ontem, na homília da missa em que participei. Se tudo se joga na coração dos Homens, então tanto faz de onde vimos, porque o importante é o que temos dentro de nós. E isso, de alguma forma, é independente da nossa nacionalidade, porque gente boa há em todos os cantos do mundo.

JdB

29 agosto 2021

XXII Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Mc 7,1-8.14-15.21-23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
reuniu-se à volta de Jesus
um grupo de fariseus e alguns escribas
que tinham vindo de Jerusalém.
Viram que alguns dos discípulos de Jesus
comiam com as mãos impuras, isto é, sem as lavar.
– Na verdade, os fariseus e os judeus em geral
não comem sem terem lavado cuidadosamente as mãos,
conforme a tradição dos antigos.
Ao voltarem da praça pública,
não comem sem antes se terem lavado.
E seguem muitos outros costumes
a que se prenderam por tradição,
como lavar os copos, os jarros e as vasilhas de cobre –.
Os fariseus e os escribas perguntaram a Jesus:
«Porque não seguem os teus discípulos a tradição dos antigos,
e comem sem lavar as mãos?»
Jesus respondeu-lhes:
«Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas,
como está escrito:
'Este povo honra-Me com os lábios,
mas o seu coração está longe de Mim.
É vão o culto que Me prestam,
e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos'.
Vós deixais de lado o mandamento de Deus,
para vos prenderdes à tradição dos homens».
Depois, Jesus chamou de novo a Si a multidão
e começou a dizer-lhe:
«Ouvi-Me e procurai compreender.
Não há nada fora do homem
que ao entrar nele o possa tornar impuro.
O que sai do homem é que o torna impuro;
porque do interior dos homens é que saem os maus pensamentos:
imoralidades, roubos, assassínios,
adultérios, cobiças, injustiças,
fraudes, devassidão, inveja,
difamação, orgulho, insensatez.
Todos estes vícios saem lá de dentro
e tornam o homem impuro».

26 agosto 2021

De Harare para Chiredzi (publicado hoje, mas há 13 anos)

Explicar o caminho de Harare para o nosso destino, neste caso a 450km, não é, em termos de orientação, como informar as estadas a seguir quando se vai de Lisboa para Santarém. A nossa capital tem duas saídas principais – para Norte e para o Sul -, mas não passaria pela cabeça de ninguém instruir o viajante da seguinte forma: - sobes a Fontes Pereira de Melo, continuas pela Avenida da República, apanhas a Estados Unidos da América e, chegando ao fim, viras à esquerda para subir a Gago Coutinho. Fruto, seguramente, da organização da cidade em termos de saídas, o facto é que abandonar Harare passa por uma explicação semelhante. Posso afirmar a tendência, porque é a segunda vez que comprovo. Ir da capital do Zimbabué até a Chiredzi, a terra mais próxima do Nduna Safari Lodge, é conhecer várias Áfricas: - a África de que nos apercebemos em Harare, e que já descrevi por duas ou três vezes; - a África dos subúrbios: Chitungwiza, por exemplo, uma espécie de margem sul semi-industrializada, com dezenas e dezenas de pessoas nas ruas, nas estradas, pedindo boleias, apanhando camionetas, migrando para aqui e para ali naquilo que me parece, ignorantemente, uma diáspora desorganizada, caótica, sem destino definido.
- a África das pequenas cidades rurais, construídas em cima de duas ou três ruas, se tanto, um ou dois pequenos estabelecimentos comerciais com ar decadente e, na generalidade, fechados; nalgumas terras maiores, um posto de polícia pode conferir ao lugarejo uma maior importância. - por último, mas não menos relevante (com maior intensidade à medida que caminhamos para sul), a maior predominância da África profunda e tribal, onde as casas, tal como nós as concebemos, mesmo que pobres, são substituídas por aglomerados de cubatas, e as regras de convivência e de organização se modernizam à velocidade das coisas quase imóveis.

São cerca de 4,5 horas de um caminho que se faz num instante, no entretenimento de uma paisagem que é sempre fascinante, sempre diversa, nunca monótona: o capim, mais alto aqui e ali, bordejando uma estrada que serpenteia muito suavemente; os tons de verde e castanho, que predominam nos nossos olhos, salpicados por manchas de um acobreado escuro; um ar que cheira permanentemente a seco, porque a época das chuvas é de Novembro a Março ou Abril; numa determinada zona da jornada, macacos aos bandos, saltando, vendo os carros que passam, subindo às árvores, comendo mansamente no meio do capim. Por último, mas não menos importante, o espaço – essa coisa imensa, infinda, inalcançável. Sempre tive algumas dúvidas – que se baseiam na estética do olhar, mais no que na evidência da certeza - que a terra fosse verdadeiramente redonda, ainda que achatada nos pólos. Aqui, como no Alentejo (numa ínfima parte quando comparado com a realidade que vivo), o que deixa de se ver não pode estar relacionado com a esfericidade do globo terrestre, mas com a limitação da visão humana. Com efeito, que bom seria vermos a África toda de uma vez só, do Atlântico ao Índico, apercebendo-nos da savana, do mato, da organização das populações, da proximidade do animal selvagem.

Não há palavras, seguramente as minhas, para descrever o que é a beleza sufocante e exaltante de um espaço sem limites, nalguns casos de uma planura que parece tirada a regra e esquadro, noutros com uma elevação suave e pouca; árvores surpreendentes que se erguem do meio do nada, como se tudo não fosse mais do que a natureza a proteger-nos do hipnotismo do lugar. Sou um turista essencialmente urbano, atraído pelas casas, igrejas, palácios, ruas movimentadas, praças povoadas de gente que se senta e levanta, conversa, ri, cumprimenta quem está ao lado e sobre as quais posso inventar histórias. Encontro facilmente beleza no equilíbrio arquitectónico de Praga, na estética organizada de Paris, na esquadria do arranha-céus em Nova Iorque. Aqui tudo parece ser desorganizado, espontâneo e isento, quase sempre, da mão artificial do homem. E, no entanto, há um extraordinário equilíbrio do todo face ao possível desarranjo das partes. Talvez aqui, como noutras partes do mundo, o encanto não esteja no detalhe. Nesta África rural e profunda, parece-me, a maravilha está naquilo que os nossos olhos abarcam globalmente, e que tem de ser visto dessa forma. O campo nem sempre está arranjado, ordenado, emparcelado, fruto da desordem política ou da cultura local. Mas, o que se vislumbra aos nossos olhos, é a imensidão – e essa nem sempre carece de uma grandeza organizada. O relógio rondava a uma da tarde quando chegámos ao Nduna Safari Lodge. O resto da descrição fica para amanhã, para que o repouso dos sentidos e a contemplação do espaço infinito não sejam perturbados. Nada me daria maior satisfação do que provocar saudades nos que por cá passaram, e curiosidade nos que olham África com desconfiança.

Adeus, até ao meu regresso...

24 agosto 2021

De como se conhece cá olhando de lá

 


Há uns anos escrevi para um exercício académico:

O emigrante, o turista, o peregrino ou o exilado fazem tudo para se sentirem em casa: o festejo da passagem do ano pelo fuso português, a colocação de artesanato alegórico barcelense nas varandas dos países da emigração, os estabelecimentos da restauração com as bicas e os pastéis de nata; mas também o acto de ir pelos campos aprendendo com os pés, ou, olhando para a paisagem envolvente, vislumbrar a sua casa.

“O facto de ter passado em Porto Rico as minhas primeiras semanas de Estados Unidos fará com que, daí por diante, eu encontra a América em Espanha. Assim como o fato de ter visitado muitos anos mais tarde, a primeira universidade inglesa no ‘campus’ de edifícios góticos de Dacca, no Bengala oriental, leva-me agora a considerar Oxford como uma Índia que tivesse conseguido controlar a lama, o mofo e os excessos da vegetação.”. 

Neste trecho do livro de Lévi-Strauss [Tristes Trópicos] está uma primeira ideia que concorre, ainda que de forma difusa, para este conceito de viagem como procura do regresso. De facto, nem sempre é aqui que percebemos aqui, por vezes é ali que percebemos aqui. Ainda que inconscientemente, o antropólogo afastou-se de um local para perceber esse local, tal como Naipaul fizera em Wiltshire em relação a Trindade. No entanto, de forma mais consciente, foi no interior da selva amazónica que Lévi-Strauss recordou Chopin, e foi no interior da selva amazónica que o Opus 10 se tornou no lugar geométrico da casa (no sentido lato, de espaço de refúgio e de memória) de onde ele havia partido anos antes.

Este youtube de Marisa Silva Rocha deve ver-se sem som. Marisa é emigrante nos Estados Unidos da América e gosta de fado. A sua incursão pela canção nacional faz-se através de Alfama (o fado, não o bairro). Se ouvirmos a sua interpretação focamo-nos na sua interpretação, porque para algumas pessoas ela (a interpretação) pode ser dominante, como o cravinho num fiambre que se leva ao forno. O youtube de Marisa deve ver-se e, se possível, sem Marisa, dado que ela também é dominante. O que interessa, o que me leva ao devaneio é o sítio onde ela canta, o símbolo que tem nas costas do blusão, o brasão do púlpito de onde modula a voz, os locais por onde passa e as pessoas que cumprimenta.

Lévi-Struass encontrou a América em Espanha, Naipaul encontrou Trindade no Wiltshire. Marisa Silva Rocha encontrou Portugal no fado, na padaria, na Nossa Senhora costurada na ganga, nas armas de Portugal gravadas num pedaço de madeira de onde um padre emigrante perora sobre as parábolas. Eu próprio fiquei imbuído desse espírito - em locais de forte emigração portuguesa, como seja Toronto, no Canadá, privilegiei o Little Portugal, a bica e o pastel de nata, o bacalhau lá, mas à moda de cá.

Podemos sair de Portugal mas Portugal não sai de nós. Talvez não se veja tão bem Portugal como em Toronto - ou na terra de Marisa Silva Rocha.

JdB

21 agosto 2021

XXI Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Jo 6,60-69

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
muitos discípulos, ao ouvirem Jesus, disseram:
«Estas palavras são duras.
Quem pode escutá-las?»
Jesus, conhecendo interiormente
que os discípulos murmuravam por causa disso,
perguntou-lhes:
«Isto escandaliza-vos?
E se virdes o Filho do homem
subir para onde estava anteriormente?
O espírito é que dá vida,
a carne não serve de nada.
As palavras que Eu vos disse são espírito e vida.
Mas, entre vós, há alguns que não acreditam».
Na verdade, Jesus bem sabia, desde o início,
quais eram os que não acreditavam
e quem era aquele que O havia de entregar.
E acrescentou:
«Por isso é que vos disse:
Ninguém pode vir a Mim,
se não lhe for concedido por meu Pai».
A partir de então, muitos dos discípulos afastaram-se
e já não andavam com Ele.
Jesus disse aos Doze:
«Também vós quereis ir embora?»
Respondeu-Lhe Simão Pedro:
«Para quem iremos, Senhor?
Tu tens palavras de vida eterna.
Nós acreditamos
e sabemos que Tu és o Santo de Deus».

20 agosto 2021

Música e texto dos dias que correm

 


Primeira página de "Quando os lobos uivam" (Aquilino Ribeiro)
que retratam o regresso a casa de Manuel Louvadeus


19 agosto 2021

Poemas dos dias que correm

Os Homens Gloriosos

Sentei-me sem perguntas à beira da terra,
e ouvi narrarem-se casualmente os que passavam.
Tenho a garganta amarga e os olhos doloridos:
deixai-me esquecer o tempo,
inclinar nas mãos a testa desencantada,
e de mim mesma desaparecer,
— que o clamor dos homens gloriosos
cortou-me o coração de lado a lado.

Pois era um clamor de espadas bravias,
de espadas enlouquecidas e sem relâmpagos,
ah, sem relâmpagos...
pegajosas de lodo e sangue denso.

Como ficaram meus dias, e as flores claras que pensava!
Nuvens brandas, construindo mundos,
como se apagaram de repente!

Ah, o clamor dos homens gloriosos
atravessando ebriamente os mapas!

Antes o murmúrio da dor, esse murmúrio triste e simples
de lágrima interminável, com sua centelha ardente e eterna.

Senhor da Vida, leva-me para longe!
Quero retroceder aos aléns de mim mesma!
Converter-me em animal tranquilo,
em planta incomunicável,
em pedra sem respiração.

Quebra-me no giro dos ventos e das águas!
Reduze-me ao pó que fui!
Reduze a pó minha memória!

Reduze a pó
a memória dos homens, escutada e vivida...

Cecília Meireles, in 'Mar Absoluto'

18 agosto 2021

Vai um gin do Peter’s ?

O MELHOR  PT  DOS  J.O. NO JAPÃO E BÊNÇÃO MUSICAL

De 23 de Julho a 8 de Agosto, os ecrãs de televisão viraram-se para Tóquio, onde decorriam uns Jogos Olímpicos insólitos. Até a data exibida no logo oficial – 2020 – não condizia com a do calendário: 2021!  Os estádios gigantescos estiveram quase sem público e os atletas foram submetidos a mil protocolos de segurança, à conta do medo de contágio da covid19. Assim, a onda festiva típica dos Jogos Olímpicos ficou parcialmente submergida pela pressão asséptica destes tempos estranhos. 

Em contraponto ao colete de forças sanitário reinante, um velhinho japonês fez questão de transmitir uma mensagem positiva aos atletas, sobretudo aos que falhavam o ambicionadíssimo pódio. Num ápice, a sua mensagem foi postada nas redes sociais pelos próprios atletas, que transformaram o bondoso ancião na estrela mediática das bizarras Olimpíadas japonesas. Através da net, o seu gesto de esperança percorreu o mundo em velocidade recorde. 

Todas as manhãs, ao raiar do dia, aquele senhor plantava-se à entrada da aldeia olímpica com um cartaz fantástico, ali permanecendo por horas, para apanhar os vários turnos da movimentação matinal. A maior originalidade estava no foco da mensagem, que valorizava os proscritos do mundo da alta competição, normalmente votados ao fracasso e ao esquecimento.  Não seria fácil, os perdedores encontrarem melhor personal trainer para os apoiar no momento mais difícil da sua carreira: o ‘day after’ a falharem as medalhas. 

Enquanto isto, outra combinação improvável pôs um padre indiano de ascendência portuguesa e radicado na capital austríaca, a entoar «Blessing» numa interpretação tranquila e aconchegante da ária do grupo irlandês The Electrics’, lançada em 1997. A interpretação intensa daquele franciscano ganhou força de oração, reverberando pela abóboda imensa da Igreja de S. Francisco, em Viena:

Como explica o frade de apelido português – Sandesh Manuel, a intenção era mesmo abençoar todas as pessoas de boa vontade: «I think mankind needs something to hold on and spirituality offers that. Music makes it the easiest. We all as humans require blessing, blessing from our elders, well-wishers etc. Through this song I want to send blessings to one and all

É inesgotável a imaginação das pessoas bondosas, capazes de desencantar formas inventivas de chegar aos seus semelhantes, mesmo que em contraciclo. São verdadeiros pontos de luz no meio das trevas, para as amansar e tornar alegres. Gente assim convinha ser muito, muitíssimo contagiosa.  

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)


17 agosto 2021

Textos dos dias que correm

 

As Minhas Fraquezas

Há uma certa fraqueza, uma falha em mim que é suficientemente clara e distinta mas difícil de descrever: é uma mistura de timidez, reserva, verbosidade, tibieza; pretendo com isto caracterizar qualquer coisa de específico, um grupo de fraquezas que sob um certo aspecto constituem uma única fraqueza claramente definida (o que não tem nada a ver com esses vícios graves que são a mentira, a vaidade, etc.). Esta fraqueza impede-me de enlouquecer, eu cultivo-a; com medo da loucura, sacrifico toda a ascensão que eu poderia fazer e perderei de certeza o negócio, porque não é possível fazerem-se negócios nesta esfera. A menos que a sonolência não se misture e com o seu trabalho diurno e nocturno não quebre todos os obstáculos e não prepare o caminho. Mas nesse caso serei apanhado pela loucura — porque para se fazer uma ascensão é preciso querer-se e eu não queria.

Franz Kafka, in 'Diário (1912)'

15 agosto 2021

Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria

EVANGELHO - Lc 1,39-56
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naqueles dias,
Maria pôs-se a caminho
e dirigiu-se apressadamente para a montanha,
em direcção a uma cidade de Judá.
Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel.
Quando Isabel ouviu a saudação de Maria,
o menino exultou-lhe no seio.
Isabel ficou cheia do Espírito Santo
e exclamou em alta voz:
«Bendita és tu entre as mulheres
e bendito é o fruto do teu ventre.
Donde me é dado
que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?
Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos
a voz da tua saudação,
o menino exultou de alegria no meu seio.
Bem-aventurada aquela que acreditou
no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito
da parte do Senhor».
Maria disse então:
«A minha alma glorifica o Senhor
e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador,
porque pôs os olhos na humildade da sua serva:
de hoje em diante me chamarão bem-aventurada
todas as gerações.
O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas:
Santo é o seu nome.
A sua misericórdia se estende de geração em geração
sobre aqueles que O temem.
Manifestou o poder do seu braço
e dispersou os soberbos.
Derrubou os poderosos de seus tronos
e exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bens
e aos ricos despediu de mãos vazias.
Acolheu a Israel, seu servo,
lembrado da sua misericórdia,
como tinha prometido a nossos pais,
a Abraão e à sua descendência para sempre».
Maria ficou junto de Isabel cerca de três meses
e depois regressou a sua casa.

13 agosto 2021

Das manias

 

Fotografia de Martin Parr

Tomar banho no Clube de Turismo do Funchal, como aconteceu comigo na primeira quinzena de Julho, leva-nos ao reforço de manias (ou preconceitos?) já existentes, e à criação de outras. Gosto muito de praia, apesar de dois aspectos algo desagradáveis inerentes: a areia e as pessoas. Com a minha quinzena funchalense descobri outra coisa: devido ao facto de a minha entrada na água ser feita sempre (e com gosto) através do mergulho de um pontão, descobri outra mania: não gosto da maré vazia. Não na ilha, onde se nota menos, mas na praia, porque por vezes requer uma marcha penosa até que a água suba acima dos artelhos. Manias...

JdB

11 agosto 2021

Texto e imagem dos dias que correm

 

Duas crianças, 4 e 5 anos. Agosto de 2021. 

O Encanto da Vida

Todas as noites acordado até desoras, à espera da última cena de pancadaria num jogo de futebol, do último insulto num debate parlamentar, do último discurso demagógico num comício eleitoral, da última pirueta dum cabotino entrevistado, da última farsa no palco internacional. Crucificações masoquistas, que a prudência desaconselha e a imprudência impõe. Vou deste mundo farto de o conhecer e faminto de o descobrir.

Mas não há perspicácia, nem constância de atenção capazes de lhe prefigurar os imprevistos. O que acontece hoje excede sempre o que sucedeu ontem. A violência, o facciosismo, a ambição de poder, a crueldade e o exibicionismo não têm limites. Felizmente que a abnegação, a generosidade e o altruísmo também não. E o encanto da vida é precisamente esse: nenhum excesso nela ser previsível. Nem no mal nem no bem. E não me canso de o verificar, de surpresa em surpresa, à luz dos acontecimentos.

Quando julgo que estou devidamente informado sobre o amor, sobre o ódio, sobre a santidade, sobre a perfídia, sobre as virtudes e os defeitos humanos, acabo por concluir que soletro ainda o á-bê-cê da realidade. Cabeçudo como sou, teimo na aprendizagem. Hoje fizeram-me a revelação surpreendente de que um avarento meu conhecido, que durante muitos anos procedeu como tal e, como tal, o tratei sempre de pé atrás, generosa e secretamente subsidiava um asilo de infância desvalida.

Miguel Torga, in 'Diário (1993)'

08 agosto 2021

XIX Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Jo 6,41-51

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
os judeus murmuravam de Jesus, por Ele ter dito:
«Eu sou o pão que desceu do Céu».
E diziam: «Não é ele Jesus, o filho de José?
Não conhecemos o seu pai e a sua mãe?
Como é que Ele diz agora: 'Eu desci do Céu'?»
Jesus respondeu-lhes:
«Não murmureis entre vós.
Ninguém pode vir a Mim,
se o Pai, que Me enviou, não o trouxer;
e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia.
Está escrito no livro dos Profetas:
'Serão todos instruídos por Deus'.
Todo aquele que ouve o Pai e recebe o seu ensino
vem a Mim.
Não porque alguém tenha visto o Pai;
só Aquele que vem de junto de Deus viu o Pai.
Em verdade, em verdade vos digo:
Quem acredita tem a vida eterna.
Eu sou o pão da vida.
No deserto, os vossos pais comeram o maná e morreram.
Mas este pão é o que desce do Céu
para que não morra quem dele comer.
Eu sou o pão vivo que desceu do Céu.
Quem comer deste pão viverá eternamente.
E o pão que Eu hei-de dar é a minha carne,
que Eu darei pela vida do mundo».

05 agosto 2021

Textos dos dias que correm

Cinco chaves para dar asas à escrita

1. Leia sem moderação

Escrever é uma viagem, mesmo que em escassas linhas. E ler é a autoestrada para largar as amarras. É suficiente deixar-se seduzir pelas palavras de autores que admire ou que lhe agradem. Romances, testemunhos, poesia, teatro… leia por extenso ou somente excertos escolhidos. Saboreie as palavras, detenha-se numa expressão que o toque, não tenha medo de copiar: ser modelado pela língua dos outros abre para uma expressão pessoal. Guarde estes textos ao alcance da mão. No momento em que começar a escrever, não hesite em folhear os livros que a inspiram e neles buscar permissão para se lançar.

2. Ouse o primeiro parágrafo

A escrita tem muitas vezes necessidade de um aquecimento. Cada pessoa tem a sua maneira de se pôr ao caminho. No sentido figurado e literal. Pense em mobilizar o seu corpo como melhor lhe convier: um passeio ajuda a entrar em movimento; caligrafar algumas palavras solta a mão; tomar um banho permite a clarificação; arrumar a sua mesa de trabalho põe ordem quer na sala/quarto/escritório quer no seu espírito, etc.

Esqueça todas as ideias que recebeu sobre a escrita. Trace as suas primeiras palavras, as suas primeiras frases sem as julgar, e deleite-se ao vê-las alinharem-se. Dê-lhes tempo para as introduzir ao que se segue. É possível que depois não conserve este esboço, mas, como um primeiro crepe, servirá para aquecer o fogão.

3. Exercite-se copiosamente

O mito do génio literário forjado no século XIX afastou para segundo plano a realidade artesanal da escrita. Que precisa de trabalho. Tudo é bom para se exercitar: dar a volta a um objeto, narrar a sua rua, esboçar o retrato de um comerciante, imortalizar uma hora do dia, descrever uma imagem, uma fotografia… Em algumas palavras, uma expressão, três frases… Comece pequeno e descubra a satisfação de cinzelar as palavras. Nada a impede de entrar neste jogo mentalmente. Mas atenção: depressa se torna viciante, e por isso deve ser praticado em lugar seguro (sobretudo não o faça ao atravessar uma rua!). E não esqueça que o que vem ao espírito poderá nunca ser representado, daí o interesse em ter sempre à mão uma caneta e um pequeno caderno de notas.

4. Escute-se

O estado propício interior, chamemos-lhe inspiração, aparece sem avisar e passa depressa. Na medida do possível, esteja preparada. Para o domar, comece por escrever uma cena, uma pasagem cuja evocação é agradável, feliz, ligeira. Se sentir vontade, aborde uma questão delicada, confusa, eventualmente dolorosa. Seja como for, deixe subir o que vem sem antecipar a versão final. Considere-o como uma etapa, e sobretudo conserve-a, como todas as suas (primeiras) versões.

5. Seja simples

Menos é mais, diz-se. Por vezes temos tanto a expressar, que as palavras ficam bloqueadas à porta. Ou aquelas que traçamos parecem prosaicas, muito distantes do que sonhamos: a frustração ou o sentimento de impotência espreitam. Ou então, as frases fluem livremente, mas, ao reler, o que escreveu podia ter sido redigido por qualquer outra pessoa, e nada se destaca. A solução? Voltar aos fundamentos: sujeito, verbo, complemento. A partir desta base, aos poucos, o seu estilo encorajar-se-á ou canalizar-se-á. Trabalhar o seu estilo nesta “ascese” torna-se um prazer – e cuidado com a dependência!


Délia Balland
In Le Pèlerin
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 04.08.2021

04 agosto 2021

Vai um gin do Peter’s ?

A ESPERANÇA CANTADA NAS LÍNGUAS DOS DOIS HEMISFÉRIOS 

MÚSICAS DO MUNDO CANTAM À ESPERANÇA

Nos EUA, a pandemia inspirou uma das campeãs do maior portal de música cristã – o ‘Billboard’s Hot Christian Songs’ –  a compor uma ária, que aproveita as situações no limite do desespero, para revelar a luz que se adivinha para lá das nuvens espessas do presente. 

Traduzível por ‘Apoia-te em Mim’ ou ‘Segura-te a Mim’, a canção entrou logo para o primeiro lugar do Billboard’s, cativando pela voz quente de Lauren Daigle e pela nesga de esperança que oferece. Numa entrevista recente, a compositora norte-americana de 29 anos explicou o sentido da ária «HOLD ON TO ME», como resposta aos momentos difíceis por que muitos passaram durante os sucessivos confinamentos: «The thing I love most about this song is that it lends itself to someone who is feeling incredibly vulnerable, someone who is feeling insecure, or uncertain. There are times we may need a reminder of who we are and that we are worthy of having joy in our lives. In moments where the future may look uncertain and unknown, this is a song of hope that any person can cling to

As tonalidades musicais melancólicas e doces ganham cor com a combatividade de Daigle, num efeito interpelativo, que se propõe curar as feridas sulcadas pelas vulnerabilidades deixadas à deriva pelas inúmeras vezes em que o chão foi fugindo debaixo dos pés. Mas a esperança vai despontando subtilmente, incansavelmente, como os infinitos fios de água que o mar deixa no areal, à passagem das ondas. Por isso, já foi chamada de gospel do século XXI, ao partir do âmago da experiência humana para ousar antever um horizonte com sentido, para lá da dor visível. Diz a letra: «Hold on to me when it’s too dark to see You, When I am sure I have reached the end, Hold on to me when I forget I need You, When I let go, hold me again»: 

Outro compositor norte-americano, especialista em bandas sonoras para filmes e jogos de vídeo, resolveu musicar um Pai-Nosso no dialeto maioritário dos povos africanos da costa do Índico – o suaíli. A ideia é surpreendente, porque Christopher Chiyan Tin tem ascendência asiática, de raiz chinesa. 

REGISTO NO RECORDING ACADEMY GRAMMY AWARDS (DEZ.2014): «AND THE GRAMMY WENT TO ... CHRISTOPHER TIN».   PHOTO: ALBERTO E. RODRIGUEZ/WIREIMAGE.COM

A oração musicada intitula-se «Baba Yetu» e começou por ser concebida para o jogo «Civilization IV». Foi logo premiada com o Grammy do “Melhor Arranjo Musical acompanhado de Vozes». Abrilhantou, depois, a cerimónia inaugural da edição do «World Games» de 2009, realizado em Taiwan. Tornou-se ainda na primeira e na última ária (em reprise) do álbum «Calling All Dawns», que voltou a valer a Tin outro Grammy. O álbum incorpora árias entoadas em diferentes línguas, num multilinguismo, que reforça a universalidade da expressão musical. A selecção é especialíssima e acolhe alguns dos idiomas mais antigos, com lugar para o português, mas sem o inglês, nem o italiano nem outros de equivalente popularidade. No alinhamento de «Calling all Dawns»(1), a segunda música é cantada em japonês, a terceira em mandarim, a quarta em português, a quinta em francês, a sexta em latim, a sétima em gaélico, a oitava em polaco, a nona em hebraico, a décima no farsi do Irão, a décima-primeira em sânscrito, a décima-segunda no maori dos nativos da Nova Zelândia e a décima-terceira repete o suaíli. 

Uma interpretação histórica do Pai-Nosso africano decorreu a 5 de Julho de 2017 e foi executada pela orquestra ‘Welsh National Opera Orchestra’ e pelo coro ‘Celebration Chorus’, dirigidos pelo maestro-compositor Christopher Tin, na 70ª edição do festival internacional organizado pelo País de Gales – o ‘Llangollen International Musical Eisteddfod’:

 https://se-novaera.org.br/baba-yetu-o-pai-nosso-em-swahili/

Segue a tradução do Baba Yetu nos trechos que personalizam a oração ensinada por Jesus: «Pai Nosso, Jesus que estás no Céu / (…) Livrai-nos do mal, ó Pai que és para sempre e sempre! / (…)  Teu reino vem, será feito o Teu / Na Terra como no céu (amén) / (…) Perdoai-nos as nossas ofensas. / Nossos Erros, Hey! / Assim como nós perdoamos / Quem tem ofendido não nos / Deixeis cair em tentação, mas / Livrai-nos, da paragem, da loucura (…) / Pai Nosso, Jesus que estas no Céu / Santificado seja o teu nome.» Assim termina o álbum, que convoca o nascer-do-sol em todas as latitudes do planeta. Mais luminoso era difícil para desejar a todos um óptimo Verão. 

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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(1)  Álbum completo em: https://www.youtube.com/watch?v=m2jzfVF7noA .


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