15 junho 2021

O Fado, canção de vencidos

Canção

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Meireles MEIRELES, C. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001.

13 junho 2021

XI Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Mc 4, 26-34

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
disse Jesus à multidão:
«O reino de Deus é como um homem
que lançou a semente à terra.
Dorme e levanta-se, noite e dia,
enquanto a semente germina e cresce, sem ele saber como.
A terra produz por si, primeiro a planta, depois a espiga,
por fim o trigo maduro na espiga.
E quando o trigo o permite, logo mete a foice,
porque já chegou o tempo da colheita».
Jesus dizia ainda:
«A que havemos de comparar o reino de Deus?
Em que parábola o havemos de apresentar?
É como um grão de mostarda, que, ao ser semeado na terra,
é a menor de todas as sementes que há sobre a terra;
mas, depois de semeado, começa a crescer,
e torna-se a maior de todas as plantas da horta,
estendendo de tal forma os seus ramos
que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra».
Jesus pregava-lhes a palavra de Deus
com muitas parábolas como estas,
conforme eram capazes de entender.
E não lhes falava senão em parábolas;
mas, em particular, tudo explicava aos seus discípulos.

11 junho 2021

Do pequeno almoço português

Embora seja um fiel seguidor de programas televisivos de cozinha / gastronomia, não me parece que alguma vez tenho postado neste estabelecimento algo relacionado com a cozinha.  Para quem tem 7' para perder - ou para investir, sei lá eu - vale a pena ver o vídeo e ler o artigo do Observador.  

Falamos de Gordon Ramsay, um dos mais famosos chefs do mundo. Aparentemente terá vindo a Portugal gravar um programa para uma série e aproveitou para cozinhar um pequeno almoço: porco preto (não sei se alcatra), vegetais salteados e ovos estrelados. O Observador (e alguns, poucos, comentários no Youtube) dão voz à indignação de portugueses que se insurgem contra esta ideia de pequeno almoço português. curiosamente, no Youtube o maior número de comentários é sobre o facto de ele dizer "a little touch of olive oil" e despejar meia garrafa. 

No artigo do jornal há alguém que questiona o mundo que o segue: "O Ramsay a seguir vai fazer o quê, comer pastel de nata com colher?" Gosto da pergunta indignada porque abre porta para um raciocínio nacionalista: comer um pastel de nata com colher é adulterar o petisco, este bolo português que deveria ter sido exportado abundantemente, para equilíbrio das contas públicas e engrandecimento da Nação. 

Quanto ao pequeno almoço português, não sei se existirá. É chá e torradas? Iogurte e granola? Um croquete e um café sem princípio ao balcão de uma pastelaria? Como em muitos aspectos da vida, não sabemos o que é, sabemos o que não é: porco preto, vegetais salteados ("in a little touch of olive oil"), ovos estrelados. O pior para mim, caso isto seja um pequeno almoço português: o excesso de energia do cavalheiro, a profusão de vez em que disse "fantastic", a correria de um lado para o outro. Podemos comer pastel de nata com uma colher - desde que estejamos sossegados. 

JdB

09 junho 2021

Vai um gin do Peter’s ?

OVO DE COLOMBO PARA AJUDAR OS POBRES 

Na capital da Colômbia, um atento e bondoso condutor de um camião do lixo de Bogotá reparou que nos bairros ricos da cidade, mais a Norte, havia livros nos caixotes do lixo. Muitos, demasiados. Num país de enormes contrastes sociais, aquele trabalhador nocturno, que se ficara pela Primária, tinha a noção da importância daquela ferramenta de cultura para as inúmeras crianças pobres do seu país, sem acesso a um bem que outros se davam ao luxo de desperdiçar irresponsavelmente. Apesar ou talvez por causa dos seus parcos estudos, José Alberto Gutiérrez sabia que a aprendizagem poderia ser o elevador social para os nascidos nas zonas desfavorecidas, reféns do círculo vicioso da pobreza. 

Resolveu começar a coleccionar os calhamaços encontrados nos caixotes de lixo. Contou com a colaboração da mulher para os recuperar e da filha para os ordenar nas estantes com que forrou as paredes da casa. Alguns ricos acabaram por se aperceber do seu projecto e fizeram doações generosas, pelo que, em pouco tempo, Gutiérrez constituiu uma biblioteca com mais de 25 mil volumes, que abriu aos mais pobres de Bogotá, genericamente residentes no bairro La Nueva Glória. 


Recordação da infância, que adorava ouvir a mãe ler-lhe histórias, ao deitar. 

Dos 90m2 do seu apartamento, 70m2 ficaram para uso do público, chegando-lhe a pequena área sobrante para viver com a família. 

Com sentido poético, José Alberto baptizou o novo espaço bibliográfico de «La Fuerza de las Palabras», inspirado no lema que o motivara e dera forças para persistir no seu sonho educativo, ajudado pela família. 

Entre os seus compatriotas tornou-se conhecido por «el señor de los libros» e a sua fama galgou fronteiras. Em Junho de 2017, a BBC noticiou-o com o título «Dustbin man builds free library of thrown away books». A Associated Press dedicou-lhe uma reportagem, que remata com o desejo maior de José Alberto – erradicar a ignorância do planeta, acreditando no poder imenso do conhecimento para o pleno desenvolvimento humano e a promoção da paz. Foi só algo naïve, ao associar a educação directamente à paz, baseado na velha crença de que o saber, só por si, torna os seres humanos mais bondosos, pacíficos, sociáveis. Infelizmente, isto é desmentido pelos factos, como a história mostra à saciedade. Basta lembrar a elite nazi, a quem não faltava (na maioria) estudos e até um especial gosto pela cultura. Vários deles eram frequentadores assíduos de tertúlias eruditas e melómanas. O próprio Gutiérrez é a prova viva de como a generosidade e os gestos de paz provêm mais do ‘coração’ do que das habilitações literárias e da profusão de talentos intelectuais. É apenas um pormenor que em nada retira mérito à grandeza e eficácia da iniciativa de Gutiérrez, que já franqueou o acesso à universidade a muitos visitantes da sua casa-biblioteca: 


No Vaticano, também na mesma linha de atenção aos necessitados, mas indo mais longe na origem das decisões bondosas, Francisco partilha conselhos práticos sobre a melhor forma de chegar a quem sofre, começando pelos doentes. No seu estilo directo, cheio de humor e descomplicado, explica como a receita é simples, quando as atitudes partem de um coração voltado para o próximo: primeiro ouvir, reparar em quem nos rodeia e só depois falar. Mesmo a calhar para o nosso tempo, que se acha campeão da comunicação…  


No colombiano e no Papa argentino a ‘Força das Palavras’ e, mais ainda, das suas vidas, são uma dádiva a favor do próximo. Inspirados e inspiradores, como bibliotecas em carne-e-osso. 

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

08 junho 2021

Textos dos dias que correm

Nascer Todas as Manhãs

Apesar da idade, não me acostumar à vida. Vivê-la até ao derradeiro suspiro de credo na boca. Sempre pela primeira vez, com a mesma apetência, o mesmo espanto, a mesma aflição. Não consentir que ela se banalize nos sentidos e no entendimento. Esquecer em cada poente o do dia anterior. Saborear os frutos do quotidiano sem ter o gosto deles na memória. Nascer todas as manhãs.

Miguel Torga, in "Diário (1982)"

07 junho 2021

Da música de que se fala em Clubes

Almoço na 6ª feira passada no clube onde me fiz sócio antes da pandemia. Nunca se sabe quem partilha mesa (ou bacalhau, o que acontece a esses dias) naquele momento. Une-nos o facto de sermos homens, de estarmos de gravata, de não usarmos os telemóveis e de provavelmente nos termos cruzado familiar ou socialmente. O interesse das conversas tem a ver com o interesse dos interlocutores, não com o facto de pertencermos ao mesmo Clube.

Almoço com o meu querido amigo fq, a quem este post é dedicado, e com um cavalheiro simpático e educado, meio francês, meio espanhol, nascido no México. Falamos de generalidades - e falamos de música. Como ser humano normal, tenho as minhas vaidades, sendo que uma delas é o espanto que alguns estrangeiros evidenciam face aos meus gostos musicais. Como se falou de San Sebastian, de Espanha e de Cuba, referi que havia um género musical que eu apreciava muito, que eram as Habaneras. E como se falou de América do Sul (do México, mais propriamente dito), referi que gostava muito de mariachis e de Maria Dolores Pradera. 

Para o meu querido e estimado amigo fq, companheiro antigo de cartas e de clube, aqui vai a Maria Dolores Pradera - a cantar também uma Habanera.

JdB     


06 junho 2021

X Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Mc 3,20-35

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus chegou a casa com os seus discípulos.
E de novo acorreu tanta gente,
de modo que nem sequer podiam comer.
Ao saberem disto, os parentes de Jesus
puseram-se a caminho para O deter,
pois diziam: «está fora de Si».
Os escribas que tinham descido de Jerusalém diziam:
«Está possesso de Belzebu,
e ainda:
«É pelo chefe dos demónios que Ele expulsa os demónios».
Mas Jesus chamou-os e começou a falar-lhes em parábolas:
«Como pode Satanás expulsar Satanás?»
Se um reino estiver dividido contra si mesmo,
tal reino não pode aguentar-se.
E se uma casa estiver dividida contra si mesma,
essa casa não pode aguentar-se.
Portanto, se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide,
não pode subsistir: está perdido.
Ninguém pode entrar em casa de um homem forte
e roubar-lhe os bens, sem primeiro o amarrar:
só então poderá saquear a casa.
Em verdade vos digo:
Tudo será perdoado aos filhos dos homens:
os pecados e blasfémias que tiverem proferido;
mas quem blasfemar contra o Espírito Santo
nunca terá perdão: será réu de pecado eterno».
Referia-Se aos que diziam:
«Está possesso dum espírito impuro».
Entretanto, chegaram sua Mãe e seus irmãos,
que, ficando fora, mandaram-n'O chamar.
A multidão estava sentada em volta d'Ele,
quando Lhe disseram:
«Tua Mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura».
Mas Jesus respondeu-lhes:
«Quem é minha Mãe e meus irmãos?»
E, olhando para aqueles que estavam à sua volta, disse:
«Eis minha Mãe e meus irmãos.
Quem fizer a vontade de Deus
esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe».

04 junho 2021

Da música triste

 


Esta ária, da ópera Les pêcheurs de perles, de Bizet, acompanha grande parte do filme O Pai, que tem como actor principal - e vencedor de um Oscar - Anthony Hopkins. Não é exactamente do filme que quero falar, embora valha muito a pena ver.

Um dia ouvi um jesuíta a dizer qualquer coisa parecida com isto: quem não é para viver sozinho não é para casar.  Um dia li num livro qualquer que a vida de um monge cartuxo não era a mais desejável para quem gosta de viver em silêncio. Não sei se as frases estão relacionadas ou se as relaciono eu, porque isso faz parte da minha leve compulsão em encontrar relações entre tudo e mais alguma coisa. 

O que nos dizem ambos os pensamentos? Talvez que estejamos de estar preparados para tudo e o seu contrário, e que o voto de silêncio e o casamento não são caminhos naturais para quem tem muito gosto pela vida em conjunto ou pela vida em silêncio. Isto é, ambas as opções são projectos de vida, não saídas profissionais para gente que tem jeito para isto ou para aquilo. 

Ouvir Je crois entendre é assumir o confronto como uma música triste, apesar de muito bonita. Talvez, seguindo o raciocínio aplicado ao casamento e à vida cartuxa, possamos afirmar que a música triste não é para gente triste. Significa isso que eu, muito adepto de música triste porque muito adepto de música bonita, não sou um homem triste. E que as pessoas que odeiam música triste não são pessoas alegres. 

O meu mundo ficou estranho.

JdB   

03 junho 2021

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

EVANGELHO - Mc 14, 12-16-22-26

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

No primeiro dia dos Ázimos,
em que se imolava o cordeiro pascal,
os discípulos perguntaram a Jesus:
«Onde queres que façamos os preparativos
para comer a Páscoa?»
Jesus enviou dois discípulos e disse-lhes:
«Ide à cidade.
Virá ao vosso encontro um homem com uma bilha de água.
Segui-o e, onde ele entrar, dizei ao dono da casa:
«O Mestre pergunta: Onde está a sala,
em que hei de comer a Páscoa com os meus discípulos?»
Ele vos mostrará uma grande sala no andar superior,
alcatifada e pronta.
Preparai-nos lá o que é preciso».
Os discípulos partiram e foram à cidade.
Encontraram tudo como Jesus lhes tinha dito
e prepararam a Páscoa.
Enquanto comiam, Jesus tomou o pão,
recitou a bênção e partiu-o,
deu-o aos discípulos e disse:
«Tomai: isto é o meu Corpo».
Depois tomou um cálice, deu graças e entregou-lho.
E todos beberam dele.
Disse Jesus:
«Este é o meu Sangue, o Sangue da nova aliança,
derramado pela multidão dos homens.
Em verdade vos digo:
Não voltarei a beber do fruto da videira,
até ao dia em que beberei do vinho novo no reino de Deus».
Cantaram os salmos e saíram para o Monte das Oliveiras.

01 junho 2021

Poemas dos dias que correm

O Apaixonado

Luas, marfins, instrumentos e rosas,
Traços de Dúrer, lampiões austeros,
Nove algarismos e o cambiante zero,
Devo fingir que existem essas coisas.
Fingir que no passado aconteceram
Persépolis e Roma e que uma areia
Subtil mediu a sorte dessa ameia
Que os séculos de ferro desfizeram.
Devo fingir as armas e a pira
Da epopeia e os pesados mares
Que corroem da terra os vãos pilares.
Devo fingir que há outros. É mentira.
Só tu existes. Minha desventura,
Minha ventura, inesgotável, pura.

Jorge Luis Borges, in "História da Noite"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

31 maio 2021

Duas Últimas *

 



* enviado pelo meu querido amigo fq, fã do Bob Dylan, octogenário há pouco tempo.

30 maio 2021

Solenidade da Santíssima Trindade

 EVANGELHO - Mt 28,16-20 

Naquele tempo, os onze discípulos partiram para a Galileia, em direcção ao monte que Jesus lhes indicara.
Quando O viram, adoraram-n'O;
mas alguns ainda duvidaram.
Jesus aproximou-Se e disse-lhes:
«Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra. Ide e fazei discípulos de todas as nações,
baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei.
Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos».

28 maio 2021

Das iniquidades

O filho gémeo de Frederico e Maria C. foi diagnosticado com retinoblastoma bilateral com 1 ano e 4 meses de idade. Foi encaminhado para o Hospital Groote Schuur, na Cidade do Cabo, África do Sul [a mais de 2.000 quilómetros de casa] para tratamento especializado e, no primeiro ano, o casal teve de vender os seus dois carros, Maria perdeu 2 empregos e tiveram de pedir um empréstimo ao banco para pagar o tratamento do seu filho. O alojamento mais barato que Frederico pôde encontrar na África do Sul, e que era acessível, foi em Kraaifontein - a cerca de 40 quilómetros do hospital. Tinha de pagar R1400 [83€] por uma viagem de taxi para o hospital. Numa das suas visitas já só tinha dinheiro para ir à África do Sul, e foi então que o Prof. Marc Hendricks o apresentou à CHOC [organização sul-africana de apoio a crianças com cancro]. A CHOC foi buscar Frederico e o filho no aeroporto, deu-lhe alojamento e transportou-o de e para o hospital; Frederico afirmou que a CHOC lhe salvara a vida, e que nunca poderia agradecer o suficiente o apoio que recebera. Infelizmente, a 7 de abril de 2021, após quatro anos de tratamento, o seu filho morria, tendo deixado o casal num luto profundo. Frederico explicou que, na sua sua cultura, o homem tem de ser forte e não pode chorar e, para sobreviver à dor, fundou a APACC [associação moçambicana de apoio às crianças com cancro]. Quer garantir que nenhum pai sofrerá tanto como ele, e o seu objectivo é aplicar em Moçambique tudo o que aprendeu com a CHOC. 

O texto acima faz parte de um relatório elaborado aquando de uma visita da CHOC a Moçambique, e que me foi enviado. O texto e a história que está por trás têm peso suficiente para que nada mais se justificasse acrescentar. Conheci brevemente e virtualmente o Frederico, numa altura inicial de formação da APACC, que a Acreditar se propôs ajudar. Ler o que foi a vida destes pais tocou-me muito, e fez-me reforçar a necessidade de existência da Childhood Cancer International: a redução das iniquidades no mundo, a importância de manter o tema da oncologia pediátrico na agenda global, a obrigação de olharmos para as tragédias por que passam, ainda, tantos fredericos no mundo.

JdB  

27 maio 2021

Poemas dos dias que correm

No Meio do Caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade

 



26 maio 2021

Vai um gin do Peter’s ?

 DUETOS IMPROVÁVEIS E PERFEITOS 

Quando Elvis morreu, prematuramente aos 42 anos, a filha – Lisa Marie Presley – ainda só tinha nove anos.  Apesar de ser tão nova, apanhou muito do jeito musical do pai, em timbre grave, e seguiu igualmente uma carreira artística atribulada, onde terá pesado a aura paterna e a riqueza colossal que herdara. A vida também lhe saiu em turbilhão. Dos 4 maridos, um foi o pouco equilibrado Mickael Jackson. Nenhum dos 4 filhos adoptou o mítico apelido Presley. E o ano passado, um deles suicidou-se, apenas com 27 anos. 

A ascensão meteórica de Elvis convertera-o em símbolo vivo do American Dream, terra de oportunidades, ideal para os talentosos florescerem. O rocker ainda acrescentava mais salero, insistindo numa ascendência índia (não confirmada nos estudos genealógicos), da tribo cherokee, a que pertenceria a tetravó, poeticamente chamada de Pomba Branca da Manhã. Nascido e criado num meio pobre, próximo do marginal (o pai estivera preso), ascendera a magnata num ápice. Como cantor, detinha recordes de audiências televisivas pelas quatro partidas do mundo. A par do estrelato, cedera aos vícios e aos excessos, além de se tornar um alvo incansável dos paparazzi e dos repórteres intrusivos. A sua morte repentina (nem essa poupada a fotografias indiscretas), mais tarde atribuída à extrema debilidade provocada pelas drogas, pôs a nação de luto e mereceu um elogio fúnebre do próprio Presidente Jimmy Carter. Claro que o título de rei do rock fixou-se-lhe para sempre.

O êxito não provinha apenas do seu magnetismo, da sua vitalidade, das coreografias ousadas e festivas. Possuía o dom maior e raro de uma voz poderosa, quente e cristalina, comprovado nas gravações mais antigas.  Daí que a era digital lhe tenha sido tão favorável, prolongando a sua arte até aos nossos dias. 

Precisamente, ‘surfando’ as novas oportunidades do digital, várias cantoras pop lançaram-se em duetos com os registos de voz e de imagem do rei, que lhe tinham escancarado o acesso aos mais prestigiados Halls de fama, nos Estados Unidos.

Em 2008, a craque da música country Martina McBride gravou um dueto muito bem sincronizado com Elvis, parecendo contemporâneos. Talvez não tivesse corrido melhor numa gravação em simultâneo. A impossibilidade do encontro ao vivo está na distância temporal entre ambos, que se traduziu num hiato de 40 anos entre uma performance e outra. O artista gravara em 1968, com 33 anos de idade, quando Martina contava dois anos apenas. Aliás, ele morreu quando ela chegou aos 11. Curiosamente, em termos de idade, é ele o mais novo do par, pois a cantora já passava bem dos 40. Mas nada destes desencontros de datas atrapalhou a interpretação da música de Natal preferida do rocker – «Blue Christmas», aqui numa versão especialmente doce e aconchegante: 


A pioneira destas montagens terá sido a filha, que se desdobrou em homenagens ao pai, através de sincronizações exímias, onde só a biografia de ambos desmente a possibilidade de terem actuado juntos, em idade adulta. Lisa nascera em Fevereiro de 1968 (1.FEV.) e aos nove anos testemunha a morte de Elvis (1977). O divórcio dos pais, em 1972, dera um rude golpe na unidade familiar e acelerara o processo de decadência em que o artista mergulha, a partir de 1973. Tudo isto, acaba por afastar pai e filha. Por isso, é tocante que Lisa recorra à memória preservada por meios tecnológicos para recuperar, simbolicamente, algum do tempo perdido e encher uns minutos com a boa companhia paterna. E logo através da voz linda e muito pessoal daquele pai. Um pai que a adorava e cuja presença lhe fora subtraída, tão cedo, tão nova: 

Lisa em bebé, com os pais, Priscilla e Elvis. A cobertura fotográfica aos seus primeiros anos de vida percorreu mundo. 



Uma filha já crescida, que o pai não chegou a conhecer.

Começando pelo dueto mais especial, Lisa Marie aproveita o mês da Partida de Elvis – Agosto – para uma homenagem 48 anos depois (2018). A harmonia entre os dois timbres torna-os mais familiares e também únicas as montagens que envolvem a filha e o pai. O título diz tudo – «Where no one stands alone»:  


Em 1997, Lisa tinha experimentado o sucesso da interpretação em polifonia e semi à desgarrada com o pai para darem corpo a um memorável «Don’t cry daddy»: 


Em 2010, lança «In the Ghetto» em duo:


E em 2012, é a Sony que promove o dueto, para  pai e filha entoarem «I love you because». Lisa só entra a partir do 1:32, deixando sempre o melhor do palco para Elvis:  


Há cerca de seis anos, Celine Dion foi, tecnicamente, mais longe e cantou para uma plateia numerosa, acompanhada pelo holograma de Elvis. Assim interpretaram «If I Can Dream». Mais prevenida do que o rei para a partilha do palco, Dion cultivou uma cumplicidade calorosa e empática com momentos áureos de um Elvis videogravado para a posteridade:


Num dos comentários ao concerto da canadiana, alguém escreveu que seria capaz de ir a um concerto do holograma de Elvis. Também me abalanço, desde que a qualidade do som esteja garantida.  


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

25 maio 2021

Da dança como conhecimento

Luciano de Samósata (Samósata, 125 - Alexandria, 181) terá dito da dança (e traduzo livremente): 

É o cume de todo o conhecimento, superior, mesmo, à filosofia.

Friedrich Nietzsche, por seu lado, afirmou que:

Só acreditarei num deus que saiba dançar.

A afirmação de que a dança não é apenas um caminho para o conhecimento, mas que constitui um tipo de conhecimento, superior, mesmo, ao conhecimento trazido pela filosofia, é uma afirmação séria - e interessante. Considerar que a dança, movimento organizado, é superior à ética, é desafiante. Significa duas coisas: ou que se dança pior do que se dançava há 2000 anos, ou que se sabe tanto (ou mesmo mais) do que se sabia há 2000 anos. Sabemos mais ou menos do que sabíamos há 2000 anos?

Porque dançam as pessoas? 

Para fazer a vontade a quem as desafia para tal;

como entretém - afectivo ou não;

como expurgação de demónios internos;

como repetição de movimentos ancestrais e tribais.

Conseguimos que estes quatro motivos se entrecruzem com o conhecimento?

JdB  

23 maio 2021

Solenidade do Pentecostes

 EVANGELHO - Jo 20,19-23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou Se no meio deles e disse lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou,
também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser lhes ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».

21 maio 2021

Poemas dos dias que correm

 Singra o navio

Singra o navio. Sob a água clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina...
— Impecável figura peregrina,
A distância sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente cor de rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a água plana.

E a vista sonda, reconstrui, compara.
Tantos naufrágios, perdições, destroços!
— Ó fulgida visão, linda mentira!

Róseas unhinhas que a maré partira...
Dentinhos que o vaivém desengastara...
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...


Camilo Pessanha
clepsidra
1920

20 maio 2021

Da pequena burguesia intelectual

 Foi numa aula desta semana que apanhei a ideia de "pequena burguesia intelectual". Não sei quem cunhou a expressão e se, de facto, foi cunhada por alguém. Do que falamos? Em muito bom rigor, de uma fuga deliberada ao mainstream, isto é, uma certa proibição de referir o óbvio, o conhecido, o consensual ou o aceite, numa determinada área da vida. 

Eu exemplifico: num jantar alargada há alguém que pergunta a alguém: quem é o teu cantor de ópera favorito? Grande parte das pessoas referirá Pavarotti, Placido Domingo - até mesmo José Carreras, num registo mais exigente. Num jantar da pequena burguesia intelectual estes nomes suscitam refluxos gástricos, ares de enfado, gestos de descontentamento, porque são nomes que fazem parte do mainstream, do que é óbvio ou consensual. O pequeno burguês intelectual refere Giovanni Bragantini, um tenor que nunca passou de Vicenza, mas que se destacou numa produção alternativa de Romeu e Julieta - em que fez de Julieta, por causa da ideologia de género. Giovanni Bragantini é o lince ibérico do pequeno burguês intelectual, o seu nicho particular, o nome que ele cita elevando os olhos a um céu em que não acredita, só para épater le bourgeois. Um nome que ele conhece porque se perdeu em Vicenza à procura de uma pizza com ananás e se confrontou com um espectáculo gratuito.

Há em mim uma espécie de pequeno burguês intelectual numa versão melhorada - até porque não gosto de pizza, menos ainda com ananás. Se perguntarem às pessoas da minha geração o que ouviam há 45 ou 50 anos, todos referirão os pavarottis daquele tempo: Genesis, Pink Floyd, Beatles, Bob Dylan. Ser-se da pequena burguesia intelectual é dizer que se ouvia (também) Júlia Barroso ou Maria de Fátima Bravo, que são (também) o meu Bragantini de Vicenza - mas em melhor.

JdB   


19 maio 2021

Textos dos dias que correm

Que Preceitos Ministrar com o Nosso Semelhante?

Passemos a outra questão: o modo de tratarmos com o nosso semelhante. Como devemos agir, que preceitos ministrar? Que não derramemos sangue humano? Ao nosso semelhante devemos fazer o bem: aconselhar a não lhe fazer mal, que ridículo! Até parece que encontrar algum homem que não seja uma fera para os outros já é coisa merecedora de encómios... Vamos aconselhar a que se estenda a mão ao náufrago, se indique o caminho a quem anda perdido, se divida o pão com o esfomeado? Mas para que hei-de eu enumerar todos os actos que devemos ou não devemos praticar quando posso numa só frase resumir todos os nossos deveres para com os outros? Tudo quanto vês, este espaço em que se contém o divino e o humano, é uno, e nós não somos senão os membros de um vasto corpo. A natureza gerou-nos como uma só família, pois nos criou da mesma matéria e nos dará o mesmo destino; a natureza faz-nos sentir amor uns pelos outros, e aponta-nos a vida em sociedade. A natureza determinou tudo quanto é lícito e justo; pela própria lei da natureza, é mais terrível fazer o mal do que sofrê-lo; em obediência à natureza, as nossas mãos devem estar prontas a auxiliar quem delas necessite. Devemos ter gravado na alma, e sempre na ponta da língua, o verso famoso: "sou homem, tudo quanto é humano me concerne!" (Terêncio). Possuamos tudo em comunidade, uma vez que como comunidade fomos gerados. A sociedade humana assemelha-se em tudo a um arco abobadado: as pedras que, sozinhas, cairiam, sustentam-se mutuamente, e assim conseguem manter-se firmes!


Séneca, in 'Cartas a Lucílio'

17 maio 2021

Poemas dos dias que correm *

Vale a pena investir 10 minutos a ler este poema (sim, é um poema). Não só porque no segundo verso o autor aconselha a que não se dêem conselhos (e dá-os constantemente) mas porque alguns conselhos variam entre o curioso (use uma variedade específica de Colgate) e o sábio (por exemplo, a necessidade de se perceber que o perfeccionismo pode ser um desejo de ser-se amado(a) ou não se morrer), passando pelo óbvio (não pratique canibalismo). Há muito mais do que apenas uma lista extensa de conselhos. Vale a pena ler, afianço-vos.
JdB

***


How to Be Perfect

                                                  Everything is perfect, dear friend.
                                                  —
KEROUAC

Get some sleep.

Don't give advice.

Take care of your teeth and gums.

Don't be afraid of anything beyond your control. Don't be afraid, for instance, that the building will collapse as you sleep, or that someone you love will suddenly drop dead.

Eat an orange every morning.

Be friendly. It will help make you happy.

Raise your pulse rate to 120 beats per minute for 20 straight minutes four or five times a week doing anything you enjoy.

Hope for everything. Expect nothing.

Take care of things close to home first. Straighten up your room before you save the world. Then save the world.

Know that the desire to be perfect is probably the veiled expression of another desire—to be loved, perhaps, or not to die.

Make eye contact with a tree.

Be skeptical about all opinions, but try to see some value in each of them.

Dress in a way that pleases both you and those around you.

Do not speak quickly.

Learn something every day. (Dzien dobre!)

Be nice to people before they have a chance to behave badly.

Don't stay angry about anything for more than a week, but don't forget what made you angry. Hold your anger out at arm's length and look at it, as if it were a glass ball. Then add it to your glass ball
collection.

Be loyal.

Wear comfortable shoes.

Design your activities so that they show a pleasing balance
and variety.

Be kind to old people, even when they are obnoxious. When you become old, be kind to young people. Do not throw your cane at them when they call you Grandpa. They are your grandchildren!

Live with an animal.

Do not spend too much time with large groups of people.

If you need help, ask for it.

Cultivate good posture until it becomes natural.

If someone murders your child, get a shotgun and blow his head off.

Plan your day so you never have to rush.

Show your appreciation to people who do things for you, even if you have paid them, even if they do favors you don't want.

Do not waste money you could be giving to those who need it.

Expect society to be defective. Then weep when you find that it is far more defective than you imagined.

When you borrow something, return it in an even better condition.

As much as possible, use wooden objects instead of plastic or metal ones.

Look at that bird over there.

After dinner, wash the dishes.

Calm down.

Visit foreign countries, except those whose inhabitants have expressed a desire to kill you.

Don't expect your children to love you, so they can, if they want to.

Meditate on the spiritual. Then go a little further, if you feel like it. What is out (in) there?

Sing, every once in a while.

Be on time, but if you are late do not give a detailed and lengthy excuse.

Don't be too self-critical or too self-congratulatory.

Don't think that progress exists. It doesn't.

Walk upstairs.

Do not practice cannibalism.

Imagine what you would like to see happen, and then don't do anything to make it impossible.

Take your phone off the hook at least twice a week.

Keep your windows clean.

Extirpate all traces of personal ambitiousness.

Don't use the word extirpate too often.

Forgive your country every once in a while. If that is not possible, go to another one.

If you feel tired, rest.

Grow something.

Do not wander through train stations muttering, "We're all going to die!"

Count among your true friends people of various stations of life.

Appreciate simple pleasures, such as the pleasure of chewing, the pleasure of warm water running down your back, the pleasure of a cool breeze, the pleasure of falling asleep.

Do not exclaim, "Isn't technology wonderful!"

Learn how to stretch your muscles. Stretch them every day.

Don't be depressed about growing older. It will make you feel even older. Which is depressing.

Do one thing at a time.

If you burn your finger, put it in cold water immediately. If you bang your finger with a hammer, hold your hand in the air for twenty minutes. You will be surprised by the curative powers of coldness and gravity.

Learn how to whistle at earsplitting volume.

Be calm in a crisis. The more critical the situation, the calmer you
should be.

Enjoy sex, but don't become obsessed with it. Except for brief periods in your adolescence, youth, middle age, and old age.

Contemplate everything's opposite.

If you're struck with the fear that you've swum out too far in the ocean, turn around and go back to the lifeboat.

Keep your childish self alive.

Answer letters promptly. Use attractive stamps, like the one with a tornado on it.

Cry every once in a while, but only when alone. Then appreciate how much better you feel. Don't be embarrassed about feeling better.

Do not inhale smoke.

Take a deep breath.

Do not smart off to a policeman.

Do not step off the curb until you can walk all the way across the street. From the curb you can study the pedestrians who are trapped in the middle of the crazed and roaring traffic.

Be good.

Walk down different streets. Backwards.

Remember beauty, which exists, and truth, which does not. Notice that the idea of truth is just as powerful as the idea of beauty.

Stay out of jail.

In later life, become a mystic.

Use Colgate toothpaste in the new Tartar Control formula.

Visit friends and acquaintances in the hospital. When you feel it is time to leave, do so.

Be honest with yourself, diplomatic with others.

Do not go crazy a lot. It's a waste of time.

Read and reread great books.

Dig a hole with a shovel.

In winter, before you go to bed, humidify your bedroom.

Know that the only perfect things are a 300 game in bowling and a 27-batter, 27-out game in baseball.

Drink plenty of water. When asked what you would like to drink, say, "Water, please."

Ask "Where is the loo?" but not "Where can I urinate?"

Be kind to physical objects.

Beginning at age forty, get a complete "physical" every few years from a doctor you trust and feel comfortable with.

Don't read the newspaper more than once a year.

Learn how to say "hello," "thank you," and "chopsticks" in Mandarin.

Belch and fart, but quietly.

Be especially cordial to foreigners.

See shadow puppet plays and imagine that you are one of the characters. Or all of them.

Take out the trash.

Love life.

Use exact change.

When there's shooting in the street, don't go near the window.

* Ron Padgett, "How to Be Perfect" in Collected Poems

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