24 setembro 2026

Duas Últimas * - em memória de Jorge Palma (1950 - 2026)

Na semana passada assisti no Tivoli a um concerto de Jorge Palma com casa cheia, o que nos tempos actuais sempre pode ser visto como uma bofetadinha na crise. Embora fosse uma enchente previsível, atendendo à exiguidade da velha sala, aos preços módicos e à qualidade e empatia de JP com o publico lisboeta. Muito mais difícil será por certo encher, ou perto disso, o Estádio do Restelo, o maior estádio do país por isso mesmo! Foi a segunda vez que o ouvi ao vivo – a primeira foi no Coliseu, se não me engano em 2007 – e gostei francamente mais desta última.  

Tratou-se de um espectáculo mais intimista, em que Jorge Palma esteve muito tempo e muitas músicas entregue apenas ao seu magnífico piano ou à viola. No resto simplesmente acompanhado, e bem, por um acordeão, um saxofone e uma segunda viola. Um espectáculo longo, com músicas do seu álbum mais recente e outras (muito) mais antigas, em que agarrou bem o publico. Que gosta dele, dos seus ritmos, arranjos e letras, da sua voz rouca e propensa a uma ou outra fífia, do piano, da sua presença próxima e calorosa em palco. 

Jorge Palma tem uma carreira comprida e singular, talvez de acordo com a sua personalidade algo estrambólica. O sucesso alcançou-o já sobre o tarde, mas pressinto que não devia estar muito preocupado com isso. Também eu o descobri tarde e aos poucos, mas ainda a boas horas, e hoje em dia posso dizer que sou apreciador deste lisboeta nascido no início dos anos cinquenta, ao ponto o ir ver em noite chuvosa que mais convidava ao remanso do lar. 

Dele escolhi três músicas que não serão das mais conhecidas ou óbvias, mas que estão entre as minhas preferidas. 

Espero que também gostem. 

fq





* publicado originalmente a 30 de Outubro de 2012

23 setembro 2026

Vai um gin do Peter’s ?

 DICA FÁCIL COM CRIANÇAS FAVORECE O SUCESSO 

Nas infinitas dicas de educação para ajudar os mais novos a crescer com autoestima, sentido de responsabilidade e as demais soft skills úteis para a idade adulta, há muitas já consagradas, como por exemplo: praticar um desporto, aprender música e outras expressões artísticas, treinar uma segunda língua, ler os clássicos. Menos comum é recomendar uma actividade prosaica, gratuita e acessível: ajudar nas lides caseiras. De tão banal, este conselho poderá ser desvalorizado na panóplia de conselhos para uma educação integral. 

Porém, diversos fundamentos psicológicos confirmam os benefícios de incitar os miúdos, logo na primeira infância e segundo as capacidades de cada um, a colaborar em casa, arrumando a loiça na máquina, dobrando a roupa lavada, pondo a mesa, etc. 

Em países desenvolvidos – sobretudo, de língua inglesa – chegou a circular uma estatística (supostamente, vinda de Harvard), que ditava uma probabilidade muito expressiva de 75% de sucesso em adulto, para as crianças que tinham participado nas lides caseiras. Embora tal quantificação não tenha sido certificada por Harvard, resultados de estudos de várias universidades (da Austrália aos EUA) concordam nas vantagens de as crianças participarem nas tarefas domésticas, para o desenvolvimento precoce de competências úteis, ainda que nem todas sejam sonantes. Destacam-se a: maior autonomia individual, persistência, paciência, maior destreza na sociabilização com ganhos de satisfação pessoal, aumento da empatia traduzida em melhor relacionamento intergeracional, maior compromisso social, melhor gestão emocional. Observou-se ainda que estimula o desenvolvimento do cérebro, ganhando-se maior proficiência a resolver situações correntes e enriquece-se o espectro das interações e das rotinas. Todavia, o trunfo mais valioso para forjar uma personalidade rica, autoconfiante e consistente advém do sentido de pertença, ao dar aos mais novos a noção clara de terem lugar no ‘grupo’, de serem valorizados pelos outros. No início de vida, a casa e a família serão o melhor contexto para esse reconhecimento gratificante e palpável de serem precisos, de serem capazes, de integrarem algo maior do que eles. Para os pais, será também gratificante constatar que, algumas vezes, os filhos pequeninos estão dispostos a largar os brinquedos e os jogos para ajudar a pôr o jantar na mesa! Mais tarde, esses pequeninos perceberão o privilégio de ter nascido num chão seguro.      

O gozo único dos brinquedos a sério…

Os jogos mais inesquecíveis incluem os pais.

Se os prós são evidentes, um contra poderá surgir para uns quantos, pelo motivo mais paradoxal: o facto de esta dica pedagógica ser excessivamente fácil, acumulando sintomas percepcionados como menos credíveis, para quem dê (e são muitos) maior credibilidade às soluções complexas, pouco acessíveis, preferencialmente de toque elitista. Para esses, a dificuldade, em vez de intimidar, costuma servir-lhes de selo de qualidade e de fiabilidade. Sob esse ângulo, esta dica transbordará de sinais suspeitos, começando pela extrema simplicidade. Segue-se, o custo zero. E, qual ‘cereja no topo do bolo’: é de acesso universal!

Quando um conselho simplicíssimo de educação, com provas dadas, for rejeitado pelo facto de ser simples, algo está mal nessa avaliação, dando a medida de uma hierarquia de valores fortemente invertida. Uma alegoria tradicional explica o perigo dessa inversão: conta-se que um duende estouvado aproveitou a calada da noite para ir às lojas de um centro comercial, com as luzes já apagadas, para se divertir a trocar os preços dos produtos, da forma mais aberrante. Nenhuma etiqueta ficou no sítio. A do frigorífico mais caro saltou para a caixa de pilhas, a do Rolex para o tubo de cola, a do vestido de marca para os ovos, e assim por diante. No dia seguinte, quando as lojas abriram, instalou-se o caos, com clientes a precipitarem-se para comprar a máquina de lavar marcada a 2€ e o frigorífico a 5€, enquanto outros reclamavam do pano do pó a 2.000€. Mal nos damos conta que, em vários aspectos, a alegoria do duende retrata situações insólitas da actualidade (outras épocas sobrevalorizaram outras modas também descabidas), pagando-se fortunas colossais por profissionais do entretenimento (de comediantes, a futebolistas, passando por actores), enquanto se ignoram as condições infra-humanas de muita gente, no planeta. Estranhas escolhas, que serão incompreensíveis para as gerações futuras…   

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

22 setembro 2026

Moleskine texano

San Antonio, Texas (Setembro de 2026)

Tal como referi a semana passada neste estabelecimento, estive a semana passada no Texas, mais precisamente em San Antonio, para a conferência anual da oncologia pediátrica. Alguns episódios soltos:

Copos. Sou convidado para o que se chama Presidential dinner, oferecido pelo presidente do SIOP (sociedade internacional de oncologia pediátrica, na quase totalidade profissionais de saúde). O jantar, de cerca de 70 - 80 pessoas é, normalmente (já fui a quase 10) em sítios com alguma categoria. No ano passado, por exemplo, foi no Rijksmuseum, em Amsterdão. Não é todos os dias que se trinca um naco de carne olhando de frente para a Ronda da Noite. Este ano foi na Coates Chapel, um recinto vocacionado para eventos. A nota desconfortável? O calor. A nota detestável? Vinho tinto servido em copos de plástico.

Rapidez de serviço. Refiro-me ao mesmo jantar. Meses de 10 pessoas onde há, forçosamente, ritmos diferentes. 8 pessoas acabaram o prato principal, duas ainda não. Os empregados não se importam - retiram os pratos de quem acabou e servem a sobremesa. A nota desconfortável e detestável? A sobremesa era arroz doce - mau - e o talher colocado era apenas um garfo. 

Quantidades. Tudo nos EUA é grande: o frio nos aviões e nos aeroportos, o copo de água nos jantares (atulhado de gelo) as refeições que nos deram generosamente - em caixas de plástico - as pessoas nas ruas. Apanhei um Uber para ir a um centro comercial fazer uma compra. Era um carro enorme - para o qual tive dificuldade em subir - com uma caixa aberta descomunal, onde caberia um boi.

Centro comercial. Terminada a compra, dirijo-me à saída do centro comercial para apanhar um Uber. Faço uma pergunta a duas pessoas que aparentavam ser funcionários; não eram, e percebo que têm uns auriculares como se vê nos filmes nas orelhas dos agentes dos serviços secretos. 5 minutos mais tarde assomam à porta de saída dois personagens: um, na casa dos 50, de fato cinzento; o outro, de botins e calças de ganga, ligeiramente mais novo. Num instante são rodeados por 7 ou 8 guarda-costas que os encaminham para dois carros enormes e pretos, de vidros fumados. Seria empresários, políticos ou barões da droga?

San Antonio, Texas (Setembro de 2026)

Civilização. Não tenho problemas 'morais' com a potencial injustiça da generalização, talvez tenha com o potencial erro intelectual que decorre desta generalização: nada nos EUA parece ter classe, ou vislumbre de requinte. As pessoas almoçam ou jantam de chapéu de pala na cabeça, falam alto, bebem vinho em copos de cartão ou de plástico, colocam o pão num jantar a meio do prato principal, servem os pratos pela direita ou pela esquerda de forma indiscriminada. 

Espanto. Diz-me uma amiga local que houve, num determinado momento, uma grande emigração de alemães para San Antonio. O próprio marido é descendente de 2ª ou 3ª geração de um desses emigrantes. Não fazia ideia: para mim, Texas só tinha influência mexicana. 

Música a desoras. Gala dinner do CCI: é convidado um grupo de mariachi, tipicamente mexicano. Sentamo-nos a jantar e o grupo começa a tocar. As pessoas querem conversar e o grupo continua a tocar. Ninguém ouve a música, ninguém ouve o seu parceiro do lado, ninguém bate palmas. Quem é que terá tido a peregrina ideia de convidar um grupo mexicano - cuja música é muito audível - a performar enquanto as pessoas estão a jantar e a conversar. Americanices: não lhes ocorre dedicar à música a importância que ela - e os músicos - merece.

Conferência. Voltarei ao tema - para lamentar uma ou outro aspecto e, sobretudo, para dizer bem.

JdB       


20 setembro 2026

XXV Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Mt 20,1-16a

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:
«O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário,
que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha.
Ajustou com eles um denário por dia
e mandou-os para a sua vinha.
Saiu a meio da manhã,
viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes:
'Ide vós também para a minha vinha
e dar-vos-ei o que for justo'.
E eles foram.
Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde,
e fez o mesmo.
Saindo ao cair da tarde,
encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes:
'Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?'
Eles responderam-lhe: 'Ninguém nos contratou'.
Ele disse-lhes: 'Ide vós também para a minha vinha'.
Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz:
«Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário,
a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros'.
Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um.
Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais,
mas receberam também um denário cada um.
Depois de o terem recebido,
começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo:
'Estes últimos trabalharam só uma hora
e deste-lhes a mesma paga que a nós,
que suportámos o peso do dia e o calor'.
Mas o proprietário respondeu a um deles:
'Amigo, em nada te prejudico.
Não foi um denário que ajustaste comigo?
Leva o que é teu e segue o teu caminho.
Eu quero dar a este último tanto como a ti.
Não me será permitido fazer o que eu quero do que é meu?
Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?'
Assim, os últimos serão os primeiros
e os primeiros serão os últimos».

19 setembro 2026

Pensamentos Impensados

Saúde. Sou uma pessoa que, graças a Deus, é raro estar doente. Posso dizer que tenho uma relação saudável com as doenças.

A Capppella. Cantar a cappella deveria chamar-se cantar à casa de banho, pois é no duche que mais se canta sem acompanhamento musical.

Sangue. Bom a aproveitar sangue é a sanguessuga; já o desperdício de sangue numa hemorragia chama-se sanguefuga.

Contradições. O doente queria ser visto quanto antes; pode dizer-se que este homem é, ao mesmo tempo, paciente e impaciente.

SdB (I) 

18 setembro 2026

Poemas dos dias que correm

Sonhei que vi St.º Agostinho
Tão vivo como tu e eu
Irrompendo por esses bairros
Na mais extrema miséria
Com uma manta debaixo do braço
E uma capa de ouro maciço
À procura das próprias almas
Que já foram vendidas

«Erguei-vos, erguei-vos,» gritou alto
Numa voz sem freio
«Saí, ó prendados reis e rainhas
E ouvi o meu triste lamento
Não está agora entre vós nenhum mártir
A quem possais chamar vosso
Segui então o vosso caminho e acordo com isso
Mas sabei que não estais sós»

Sonhei que vi St.º Agostinho
Vivo com fôlego ardente
E sonhei que estava entre aqueles
Que o abandonaram à morte
Oh, acordei enfurecido
Tão só e aterrorizado
Espalmei as mãos contra o vidro
E curvei a cabeça e chorei 

bob dylan
canções 1962-2001
volume 1 (1962-1973)
john wesley harding
trad. angelina barbosa e pedro serrano
relógio d´água
2008

16 setembro 2026

Dos congressos de oncologia pediátrica

 

Comecei nestes congressos em 2009, talvez, em S. Paulo, Brasil. De lá para cá falhei alguns, assisti a muitos, fossem globais fossem regionais. Ao longo destes 17 anos fiz amigos, conheci dezenas e dezenas de pessoas, chorei, ri-me, comovi-me com histórias. 

Talvez já tenha partilhado esta ideia aqui. Quando me perguntaram o que tirava eu de 17 anos de oncologia pediátrica a nível global, a minha resposta foi rápida: (i) a fantástica comunidade que se formou entre Pais e profissionais de saúde. Uma comunidade solidária, que reconhece a importância de ser médico e de ser Pai para a sobrevivência das crianças e jovens com cancro; (ii) uma metáfora: em Washington, num dos congressos, uma egípcia a dançar com um israelita. Era uma altura em que a política não tinha a relevância que tem agora, e a dança de dois 'países' tradicionalmente inimigos - ou com relações sempre tensas - é uma metáfora: nada é tão relevante como a doença dos nossos filhos; (iii) os Pais querem contar a história dos seus filhos e nem sempre encontraram uma escuta activa. Aqui sim, porque falamos todos a mesma linguagem, os nossos ouvidos e corações estão abertos para esta realidade.  

Este talvez seja o meu último congresso. Já não sendo presidente da Acreditar, faz sentido dar o lugar ao meu sucessor. Foi com muito gosto, por isso, que acompanhei o Álvaro Bessa, Pai e novo presidente da associação que se estreia nestas andanças. Por razões políticas, o número de participantes neste congresso - sejam de organizações de Pais, sejam de profissionais de saúde - é muito menor do que os costume: da Europa muita gente não vem por questões políticas; de África vem pouca gente, porque a maior parte dos países faz parte da lista negra para concessão de vistos. Mesmo assim será uma boa experiência para o Álvaro: conhece pessoas, fica a par da dinâmica do CCI e da conferência, derrama um olhar mais vasto e global sobre o mundo da oncologia pediátrica. Acompanhar o Álvaro Bessa é, também, olhar em frente, perceber a continuidade

Só quem me conhece e me vai ouvindo percebe o que deixo para trás: os conhecimentos técnicos, a dimensão social e humana, as apresentações e as histórias que me comoveram, as coincidências significativas, as amizades, a rede construída, as histórias fantásticas de gente que faz tanto com quase nada, a minha vida partilhada com pessoas que mal conhecia. E também uma grega, outsider desta comunidade, que me dedicou e autografou um livro de poemas bilingue, do qual retiro duas linhas sobre esperança:   

E quando desperta / representa uma ameaça iminente para a realidade.

JdB


15 setembro 2026

Textos dos dias que correm

 Uma formidável moça, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das ramagens do lenço cruzado, ainda suada e esbraseada do calor da lareira, entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incelências lhe perdoassem porque faltara tempo para o caldinho apurar… Jacinto ocupou a sede ancestral – e durante momentos (de esgazeada ansiedade para o caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o garfo negro e a fusca colher de estanho. Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e recendia. Provou – e levantou para mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, com espanto: – “Está bom!”

   Estava precioso: tinha fígado e tinha moela; o seu perfume enternecia; três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.

   – Também lá volto! – exclamava Jacinto com uma convicção imensa. – É que estou com uma fome… Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome.

   Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta, esperando a portadora dos pitéus, a rija moça de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado – e pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominava favas!… Tentou todavia uma garfada tímida – e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala.    Depois um brado:

   – Óptimo!… Ah, destas favas, sim! Ó que fava! Que delícia! 

in A Cidade e as Serras, Eça de Queirós

13 setembro 2026

XXIV Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Mt 18,21-35

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe:
«Se meu irmão me ofender,
quantas vezes deverei perdoar-lhe?
Até sete vezes?»
Jesus respondeu:
«Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.
Na verdade, o reino de Deus pode comparar-se a um rei
que quis ajustar contas com os seus servos.
Logo de começo,
apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos.
Não tendo com que pagar,
o senhor mandou que fosse vendido,
com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía,
para assim pagar a dívida.
Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo:
'Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei'.
Cheio de compaixão, o senhor daquele servo
deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida.
Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros
que lhe devia cem denários.
Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo:
'Paga o que me deves'.
Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo:
'Concede-me um prazo e pagar-te-ei'.
Ele, porém, não conseguiu e mandou-o prender,
até que pagasse tudo quanto devia.
Testemunhas desta cena,
os seus companheiros ficaram muito tristes
e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido.
Então, o senhor mandou-o chamar e disse:
'Servo mau, perdoei-te, porque me pediste.
Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro,
como eu tive compaixão de ti?'
E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos,
até que pagasse tudo o que lhe devia.
Assim procederá convosco meu Pai celeste,
se cada um de vós não perdoar a seu irmão
de todo o coração».

12 setembro 2026

Pensamentos Impensados

Chiquismos. Mesmo que Senhora Merkel queira vestir Dior, vestirá sempre pior.

Greves. As greves do Metro não me afectam; tenho réguas em polegadas.

Amputações. Não gosto nada de dar dois dedos de conversa; fico só com três.

Azares. Vejo na TV que foi apreendido um carro com material contrafeito. E o dono? Não terá também ficado contrafeito?

Pontos de vista. Há tempos fui passear até à outra banda; um amigo liga-me e pergunta-me onde estou; ia responder-lhe que estava na outra banda quando reparei que quem estava na outra banda era o meu amigo. Agora pergunto: se eu não estava na Outra é porque estava na mesma? Que loucura!

SdB (I) 

11 setembro 2026

Poemas dos dias que correm

 Velhos

1
 
Tem sempre um quadradinho de marmelada para o bisneto pequeno.
Tira-o não se sabe donde.
Guarda os baraços dos embrulhos,
desfaz-lhes os nós («Os japoneses põem os meninos nas escolas a desfazer nós!»)
e, baraço a baraço, fabrica um novelo multicor
que pode fornecer fio para atar um embrulho,
por exemplo, o da louça chinesa que, peça a peça,
vai pondo no prego.
Não se engana (e já trepou aos oitenta e muitos)
a declinar o rosa-rosae que aprendeu em coro quando pequena.
Gosta de cães, mas tem medo, desde que outro dia,
isto é, há vinte anos,
lhe morreu o Kiss atropelado,
das trelas sentimentais.
Numa gaveta defendida a naftalina,
dentro duma caixa de cânfora,
guarda palminhos de renda, uma gargantilha, véus, vidrilhos,
longos alfinetes ornamentais (aqueles de chapéu).
Arrasta consigo um passado a sépia de fotografias.
Diante de cada uma, recita parentescos, genealogias.
E a fechar o cortejo mostra sempre a do seu casamento.
Era formosa, cheiinha, um verdadeiro quanto-baste de mulher.
Enviuvou: sobreviveu a dois filhos; vive com uma amiga.
Às vezes está amuada, não sai do seu quarto e passa o dia inteiro a tisanas.
Quando visita o bisneto,
insiste em ensinar-lhe o rosa-rosae:
quer que ele seja um causídico.
Já não escolhe a comida; escolhe os dentes.
É um passarinho.
Mas nos seus olhos doces, azuis e moços,
uma gaiata traquina.  
 
alexandre o´neill
a saca de orelhas (1979)
poesias completas
assírio & alvim
2000

09 setembro 2026

Vai um gin do Peter’s ?

 SABEDORIA AOS 65 ANOS, ACOMPANHADA À GUITARRA 

Numa balada caribenha, ao jeito do recanto mais musical da Havana dos anos 50 do séc. XX – o Buena Vista Social Club – começou a correr na net, antes do Verão, um balanço de vida dançante e de tom positivo sobre um tabu bem empedernido da actualidade (menos livre do que se julga): o envelhecimento, invulgarmente assumido com galhardia. 

De autor anónimo, a voz, no espanhol meigo da América Latina, ensaia uma reflexão sábia sobre o avanço da idade, propondo valorizar tudo o que é construtivo e descartar o que inquina o olhar sobre a realidade! A guitarra e as batidas ritmadas da bateria, em fundo, asseguram o meneio saleroso dos sons latino-americanos.   

A música arranca «A los sesenta y cinco años, uno empieza a comprender que la vida no se mide por lo que no pueda tener, sino por lo que uno ha podido dar… Ayer soñaba con el futuro e hoy recuerdo lo que vivi».  

Quer se queira, quer não, os anos acumulados dão forma e peso ao passado, que, tornado incontornável, ganha em ser revisitado e (no geral) arquivado, em paz, desapegadamente, sem branquear nada, evitando que se imponha a um futuro ainda em aberto, a merecer ser vivido em pleno, até ao último respiro. Sim, há (algumas) vantagens nos cabelos grisalhos: ajudam a afinar as prioridades e evidenciam a urgência de purificar a memória para guardar ‘apenas’ o que nos ajuda a crescer e a espalhar vida fecunda urbi et orbi. Saibamos e queiramos nós… O foco tende a orientar-se para o que, finalmente, emerge como o maior tesouro: a família, os amigos, as experiências positivas e enriquecedoras, que foram tecendo a trama da vida, desde o primeiro minuto… Antes, permitíamo-nos deixar escorrer os dias, as semanas, sem nos darmos conta do valor incalculável de cada instante, no típico luxo (e imaturidade) da pouca idade… Mas, a los sesenta y cinco años…  


Balada certeira, de quem assume que também lhe calha envelhecer. Talvez com receio e os típicos medos, mas com lealdade e de coração aberto!  Duas raridades. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

08 setembro 2026

Do espanto e do maravilhamento

Palácio Anjos (exposição de pintura de Graça Morais, Agosto de 2026) 

De um post destes dias no LinkedIn sobre o Relatório de Espanto: 

(...) Esta prática convida estudantes e investigadores a documentarem o momento exacto em que uma descoberta, uma leitura ou um dado científico os deixou genuinamente maravilhados. É o registo do “clique”, daquele instante em que a complexidade do mundo nos esmaga e nos fascina ao mesmo tempo. (...)

É verdade que o texto refere especificamente estudantes e investigadores; e não quero cair no lugar-comum, relativamente ao primeiro grupo, de que somos todos estudantes até ao final da vida, caso tenhamos vontade, disponibilidade e capacidade para aprender. Pode o pensamento replicar-se para o dia-a-dia de pessoas a chegar aos 70 anos, ou já para lá deles?

Janto com amigos: ela, professora universitária na Faculdade de Ciências; ele, engenheiro, com um percurso de gestor de sucesso, actualmente com um mindset religioso forte. Há outra pessoa ainda, muito pragmática e racional, dada a leituras “técnicas” (a ficção é praticamente inexistente na sua estante de interesses). O que nos espanta? Simplifico posições e argumentos em benefício da dimensão do texto.

Para a professora universitária, o espanto está na leitura de umas placas que pôs a incubar a diferentes temperaturas. O resultado desejado, talvez não esperado, espanta-a; e espanta-se ainda com a regularidade diária do nascer e do pôr do sol. Para o gestor, o espanto está na contemplação da maravilha da criação de Deus. Para a pragmática, o espanto está no facto de, num renque de três casas com piscina, as andorinhas virem em bando fazer voos rasantes na sua. Porque não na dos outros? Para outro amigo — não presente na discussão —, o espanto advém (também ou principalmente) do que vai lendo na voragem de livros que consome.

Não sei se os tempos actuais são férteis para o espanto (positivo ou negativo, já lá vou): a escola ensina-nos a afirmar e a dar respostas certas, não a fazer perguntas interessantes; o discurso público está contaminado de desejos de afirmação de certeza; o comentariado é assertivo, feito por especialistas que não têm dúvidas ou raramente se enganam; o ponto de exclamação está mais na moda do que o ponto de interrogação.

Acontece que o espanto advém de uma certa ideia de desconhecido. Eu não me espanto com o grau de crueza de um ovo imerso cinco minutos em água a ferver. Também não me espanto com o conforto que suscita uma imperial gelada ao estalar de um dia de Verão. Conheço ambas as realidades. Já o espanto com o voo das andorinhas nasce do desconhecimento de todos os comportamentos das andorinhas. Ora, num mundo feito de grande assertividade, de horror à frase “não sei” dita em voz alta, de desejo de exibição de uma certa aura de “pessoa que sabe”, há ainda lugar para o espanto? Seja a olhar para uma placa onde nadam micróbios, seja a olhar para uma frase que, num livro folheado, nos enche de surpresa?

Numa outra dimensão, qual a diferença entre espanto e maravilha? A criação de Deus espanta-nos ou maravilha-nos? A suave rotina das marés, ou a constância do nascer e do pôr do sol, espanta-nos ou maravilha-nos? O espanto é filho do desconhecimento; a maravilha é filha, talvez, da disponibilidade interior para uma certa emoção. O espanto pode ser negativo — o comportamento odioso de certa pessoa espantou-nos, porque não a víamos capaz disso —, mas o maravilhamento é sempre positivo.

E haverá mesmo espanto negativo? Ou a isso chamaríamos desilusão? Talvez não. Talvez o espanto seja sempre uma espécie de suspensão: o momento em que aquilo que julgávamos saber deixa de ser suficiente. E talvez a diferença esteja no que fazemos depois desse instante: podemos afastar-nos, indignar-nos, procurar compreender ou simplesmente ficar a olhar. A maravilha talvez seja o espanto quando escolhemos ficar a olhar.      

JdB   

06 setembro 2026

XXIII Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Mt 18,15-20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Se o teu irmão te ofender,
vai ter com ele e repreende-o a sós.
Se te escutar, terás ganho o teu irmão.
Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas,
para que toda a questão fique resolvida
pela palavra de duas ou três testemunhas.
Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja;
e se também não der ouvidos à Igreja,
considera-o como um pagão ou um publicano.
Em verdade vos digo:
Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu;
e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu.
Digo-vos ainda:
Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa,
ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus.
Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome,
Eu estou no meio deles».

05 setembro 2026

Pensamentos impensados

Anacronismos. Quando vejo os filmes passados no século XVIII, com aqueles vestidos cheios de tufos, rendas, saias rodadas, etc., não posso deixar de pensar que por baixo disso tudo estarão umas cuecas fio dental.

Impostos. O Governo está preocupado com a evasão fiscal. Eu estou preocupado com a invasão fiscal.

Portugal na vanguarda. Há grande excitação com o aparecimento do IPad, IPod e outros que tais. Há muitos anos, no tempo da outra senhora, já Portugal tinha o Ai Pide

Perigos. Visto na TV: implantes mamários perigosos. A Sophia Loren tinha desplantes mamários perigosos

Classificações. Há anos havia uma classificação para filmes que dizia: contém cenas eventualmente chocantes. No tempo de D. João V havia cenas conventualmente chocantes.

SdB (I)



04 setembro 2026

Poemas dos dias que correm

Na praça

Há duas semanas que ele anda a observar a mesma rapariga,
Alguém que costuma ver na praça. Na casa dos vinte, talvez,
tomando café à tarde, uma pequena cabeça escura
inclinada sobre uma revista.
Fica a observá-la do outro lado da praça, fingindo
comprar alguma coisa, cigarros, um ramo de flores, talvez.
 
Por ela ignorar o seu próprio poder,
este é agora imenso, fundido nas necessidades da imaginação dele.
Ele é seu prisioneiro. Ela diz as palavras que ele lhe atribui
numa voz por si imaginada, num tom baixo e brando,
uma voz do Sul, tal como os cabelos negros serão certamente do Sul.
 
Em breve, ela irá reconhecê-lo, e depois começará a esperá-lo.
E talvez a partir daí traga todos os dias os cabelos acabados de lavar
e olhe abertamente em redor na praça antes de baixar outra vez o olhar.
E depois disso tornar-se-ão amantes.
 
Mas ele espera que isso não aconteça logo,
pois seja que poder for que ela agora exerça sobre o seu corpo,
     sobre as suas emoções,
é um poder que ela deixará de possuir assim que se comprometer –
 
recolher-se-á naquele mundo privado do sentimento
a que as mulheres acedem quando amam. E, aí vivendo, será como
uma pessoa que não projecta sombra, que não está presente no mundo;
nesse sentido, achando-a ele de pouca serventia,
pouco importa se ela vive ou morre.   
 
louise glück
uma vida de aldeia
tradução de Frederico Pedreira
relógio d´água
2021

02 setembro 2026

Moleskine

 

Paço Ducal de Vila Viçosa, Agosto de 2026

Na telefonia, uma jornalista informa os ouvintes de que o mercúrio vai subir nos termómetros. Refere-se, obviamente, ao aumento de temperatura previsto para os próximos dias. Acontece que a venda ao público de termómetros de mercúrio está proibida na União Europeia há mais de 10 anos, dada a sua perigosidade caso se partissem. Do ponto de vista factual, a informação está errada. Estou convencido, porém, que a associação mercúrio - termómetro demorará a desaparecer. Resta saber se a jornalista foi levada pela criatividade noticiosa ou vencida pela ignorância. Sei para onde me inclino. 

***

Dirijo-me à loja do chinês para comprar sabão azul. Pergunto à funcionária (chinesa, obviamente) onde está o artigo. Ela pensa dez segundos e responde: primeira linha, em baixo. Dirijo-me ao primeiro corredor e olho para baixo. Nada de sabão azul. Insisto, e nada. A funcionária acaba por me mostrar umas escadas que conduzem à cave. No primeiro corredor lá estava, sorridente, uma barra de sabão azul. Fui derrotado pela sequência das informações: primeira linha, em baixo só aparentemente é igual a em baixo, primeira linha. A ordem dos factores não é arbitrária, como na soma ou na multiplicação. O primeiro hemistíquio da frase determina a coordenada principal; o segundo hemistíquio determina a coordenada secundária. 

Podia ter discutido esta questão com a funcionária, mas o meu mandarim (ou seria cantonês?) está enferrujado. 

***

No Livro dos Reis (1Reis 3:5-13) Deus aparece a Salomão em sonhos e diz-lhe: Pede! Que posso eu dar-te? A versão que ouvi um dia destes na missa diz que Salomão pede um coração inteligente. A expressão suscita dúvidas em quem ouve a leitura, porque inteligente parece ser um conceito moderno. Uma breve investigação explica que a palavra ‘inteligência’ vem do latim intelligentia, derivada do verbo intelligere (composto por inter + legere, que significa 'escolher', 'discernir' ou 'ler entre'). O termo foi introduzido no vocabulário filosófico ocidental por Cícero, no século I a.C. Não é por aí, portanto. 

Para mim, porém, inteligência não é uma qualidade, mas uma característica. Nasce-se inteligente (qualquer que seja a forma de inteligência) mas a qualidade deriva da aplicação dessa inteligência. Um aldrabão pode ser superiormente inteligente, um ditador sanguinário também. Como é que Salomão pede um coração inteligente

A versão inglesa da Bíblia usa a expressão discerning heart. A minha versão da Bíblia refere um coração cheio de entendimento. Ambas as opções são claramente melhores do que coração inteligente. Aguardo que partilhem comigo a expressão usada por Frederico Lourenço na sua tradução da Bíblia. 

JdB 

01 setembro 2026

Textos dos dias que correm

 «O bom português deve cultivar em si o patriota, que abrange o indivíduo, o pai e o munícipe e os excede, criando um novo ser espiritual mais complexo, caracterizado por uma profunda lembrança étnica e histórica e um profundo desejo concordante, que é a repercussão sublimada no Futuro da voz secular daquela herança ou lembrança...

É já grande o homem que subordina à Pátria, sem os destruir, os seus interesses individuais, familiares e municipais.

Por isso, o viver como patriota não é fácil, principalmente num meio em que as almas, incolores, duvidosas da sua existência, materializadas, não atingem a vida da Pátria, rastejando cá em baixo, entretido em mesquinhas questões individuais e partidárias. Mas para Portugal continuar a ser, precisamos de elevar até ele a nossa pessoa e conhecê-lo na sua lembrança e na sua esperança, na sua alma, enfim.

Não podemos amar o que ignoramos.

Impõe-se, portanto, o conhecimento da alma pátria, nos seus caracteres essenciais. Por ela, devemos moldar a nossa própria, dando-lhe actividade moral e força representativa, o que será de grande alcance para a obra que empreenderemos, como patriotas, no campo social e político.

O político estranho à sua Raça não saberá orientar nem satisfazer as aspirações nacionais. É preciso que ele encarne o sonho popular e lhe dê concreta realidade. Do contrário, fará obra artificial, transitória e nociva, por contrariar e mesmo comprometer o destino superior de uma Pátria.

Sim: o bom português necessita de conhecer e comungar a alma pátria, a fim de se guiar por ela, no seu labor. Depois legislará, reformará ou criará literária e artisticamente uma obra duradoura e útil.» 

Teixeira de Pascoaes
in «Arte de Ser Português», Assírio & Alvim (2007).

30 agosto 2026

XXII Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Mt 16,21-27

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus começou a explicar aos seus discípulos
que tinha de ir a Jerusalém
e sofrer da parte dos anciãos,
dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas;
que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia.
Pedro, tomando-O à parte,
começou a contestá-l'O, dizendo:
«Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há-de acontecer!»
Jesus voltou-Se para Pedro e disse-he:
«Vai-te daqui, Satanás.
Tu és para mim uma ocasião de escândalo,
pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens».
Jesus disse então aos seus discípulos:
«Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo,
tome a sua cruz e siga-Me.
Porque, quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la;
mas quem perder a sua vida por minha causa,
há-de encontrá-la.
Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro,
se perder a sua vida?
O Filho do homem há-de vir na glória de seu Pai,
com os seus Anjos,
e então dará a cada um segundo as suas obras».

28 agosto 2026

Poemas dos dias que correm

 

Grande sorte é
não se saber exactamente
em que mundo se vive.
 
Seria necessária
uma existência longuíssima,
decididamente mais longa
que a do próprio mundo.
 
Ao menos para comparar,
conhecermos outros mundos.
 
Erguermo-nos para lá do corpo
que nada sabe fazer tão bem
como limitar
e criar obstáculos.
 
A bem das pesquisas,
da clareza da imagem
e das conclusões finais,
elevarmo-nos para lá do tempo,
no qual tudo em turbilhão se precipita.
 
Nesta perspectiva,
desistam para sempre
de detalhes e episódios.
 
Contar os dias da semana
deveria parecer
um acto sem sentido,
pôr uma carta no correio
capricho da louca mocidade,
 
a tabuleta «não pisar a relva»,
uma tabuleta estúpida.
 
wislawa szymborska
paisagem com grão de areia
trad. júlio sousa gomes
relógio d’água
1998

26 agosto 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 150 KMS PELO TRILHO DO TEJO 

Igualmente emocionante, embora menos conhecido do que os multimilenares Caminhos de Santiago, existe junto a Lisboa o Caminho do Tejo, que liga a capital a Fátima. Para quem goste de fazer footing ou de ‘papar’ kms em bicicleta, a nova app daquele trilho – Fátima Walking Routes® App – Caminhos de Fátima – dá assistência constante (quase em baby-sitting) aos peregrinos e caminheiros. Lançada, recentemente, pelo Centro Nacional de Cultura, propõe uma versão de 6 etapas correspondentes aos 6 dias de caminhada tranquila a pé (grau básico) para os 150km desde o ponto de partida sugerido – a antiquíssima Sé Catedral de Lisboa – e o famoso Santuário mariano. Além das dicas logísticas detalhadas, também há sugestões culturais para enriquecer a experiência, permitindo conhecer inúmeros monumentos e outras curiosidades interessantes daquela zona do país.

Sei, por experiência, a enorme diferença entre chegar a um local ‘mítico’ depois de vários dias de caminhada e a alternativa da viagem em acelerado, de carro ou noutro meio de transporte rápido, sem dar tempo para uma aproximação bem digerida até ao destino. O ritmo humano pede tempo para preparar uma chegada importante. O próprio esforço físico e os pequenos contratempos envolvidos numa distância percorrida com o corpo e com a mente explicam a tal diferença abissal, pois torna a vivência humana muito mais completa. Isto vale para lugares de culto religioso, mas também para outros destinos de especial significado histórico ou de esplendor da natureza, como é o caso de Machu Picchu ou do Sítio da Nazaré com as ondas gigantescas da Praia do Norte ou de uma montanha grandiosa dos Himalayas, daquelas que se distinguem por um nome próprio, etc.  

Um bom aperitivo para o Caminho do Tejo foi publicado num site norte-americano, pensando em caminhantes com diferentes motivações:

« THE TAGUS ROUTE

For anyone seeking an accessible, authentic way to know Portugal, the Tagus Route (both a path and an experience) stands out.

Between Lisbon’s waterfront and the Sanctuary of Fátima lies a 150-kilometer path that many travelers consider one of Portugal’s most meaningful journeys. The Tagus Route, part of the wider Fátima Walking Routes project, offers six days of movement, culture, and spiritual depth – open not only to Catholic pilgrims but to anyone seeking purpose and beauty.

Beginning this route in Lisbon is only fitting, and it sets the tone for the days ahead. The trail officially starts at the Cathedral, where centuries of devotion echo through stone arches. Soon after, the urban rhythm begins to soften. The first stage - 12.5 kilometers to Parque das Nações - introduces walkers to a gentle transformation: sidewalks give way to riverside paths and the Tagus river becomes a steady companion.

Panoramic view of Lisbon from the Tagus River, on the Tagus Route

From there, the route bends north, leaving the city’s edges to enter the territories of Loures and Vila Franca de Xira. Here, the scenery shifts: fields open, birdlife becomes more present, and small communities welcome travelers with the kind of hospitality that has long shaped the culture of pilgrimage. The Tagus Route reveals Portugal at walking pace - the colors of the landscape, the sound of local life, the sense of time expanding.

Wooden walkway from Loures to Vila Franca de Xira on the Tagus Route

As with historic routes across Europe, pilgrims and hikers along the Fátima trails can carry a Credential, the symbolic passport of the journey. Each stamp - collected at parishes, museums, hostels, tourist offices, and other welcoming stops - is a memory pressed onto paper. The official Credential (…) can be obtained at the CNC office or at recognized locations including Lisbon Cathedral and the Sacavém Ceramics Museum.

Modern travelers also have a digital companion: the Fátima Walking Routes® app. Designed for independent, safe, and immersive exploration, it provides interactive maps, accommodation details, health and safety contacts, and information on museums, churches, gardens, and Credential stamping points. Basically, everything the pilgrim might need while on route. Regular updates connect walkers with news related to the project (…).

Reaching Fátima brings a profound, transformative shift. In Cova da Iria - where the Virgin Mary appeared to three shepherd children in 1917 - the Sanctuary welcomes millions each year. From the Chapel of the Apparitions to the Basilica of Our Lady of the Rosary and the striking Church of the Holy Trinity, the complex blends artistic expression with a universal invitation to peace. Even visitors without a religious background often speak of an atmosphere marked by stillness and hope.

The Fátima Walking Routes as a whole (…) aims to offer safe, beautiful, and culturally rich itineraries. Their purpose is simple yet telling: to make space for people to encounter landscapes, heritage, spiritual meaning, and community while moving toward one of the world’s most significant pilgrimage destinations.

For anyone seeking an accessible, authentic way to know Portugal, the Tagus Route stands out. It is both a path and an experience - one that invites travelers to walk, learn, and discover what the journey can awaken within them.»

Daniel Esparza in https://aleteia.org/, a 12.Março.2025 

Para além da diversidade da paisagem naqueles kms a serpentear bosques, planícies, vinhas, vales e colinas ao longo do azul do Tejo, várias e povoações antigas valem um pequeno desvio. Apenas alguns exemplos: 

Mapa extraído do site www.vagamundos.pt/caminho-de-fatima-guia/

Vila Franca de Xira, de tradição campina bem ribatejana

À esq. – Valada;  à dta. – Azambuja com o pelourinho da Pç dos Imperadores

Trilho do Tejo até Fátima, à esq. junto a Azambuja e à dta. no pinhal frondoso e perfumado de Minde

Santarém, capital do gótico. 

Bom Verão a todos, com boas oportunidades para caminhadas desintoxicantes, tranquilas, idealmente a pé, de bicicleta, de barco… com tempo para saborear cada pequeno avanço. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

25 agosto 2026

Do passado *

 É diferente... O sol feito de luz ardente
Do mesmo sol poente 
Que arrasta consigo um dia passado
Já basta saber... Que há em nós a saudade a doer
Se afinal recordar é sofrer
Rasga o passado

Rasga o passado (letra de Álvaro Duarte Simões)

***

Um destes dias, pessoa jovem ainda e que me é recém-próxima, dizia-me mais ou menos isto: mas porque se há-de querer matar um passado? A frase podia ter sido dita por mim, que tenho o hábito estranho, e também criticado, de olhar muito para trás, apesar de tudo o que vejo tirar algo: uma saudade, uma lembrança, uma aprendizagem, um remorso ou um arrependimento, um factor de imobilidade. Mas não fui eu que disse a frase, repito. Foi uma pessoa décadas mais nova do que eu, para quem, estatisticamente falando, o futuro é ainda maior do que o passado. Foi na ressaca da frase, totalmente apropriada à conversa em curso, que me apercebi deste senso comum absolutamente la paliciano: todos, em certo momento, olhamos para trás; e é isso que transforma o passado numa espécie de faca que nos serve ou nos corta, tudo dependendo se lhe pegamos pela lâmina ou pelo cabo. 

Seja sempre, seja em momentos específicos (não sei bem...) dentro de nós trava-se uma estranha batalha: o passado, feito de factos palpáveis e mensuráveis, mas também de sentimentos existentes, memórias e saudades, trava uma luta com o futuro, essa coisa que não existe a não ser na nossa imaginação ou no nosso desejo. O resultado desta contenda é sempre um presente que muda a todo o instante, resultado dinâmico desse combate interno entre dois tempos, um existente e o outro por existir. 

Olhar para o passado não é olhar para o que foi, como se esta conjugação pretérita conferisse ao exercício uma conotação negativa, ou apenas desinteressante, porque para a frente é que é caminho. O passado é a única coisa que, de facto, existe dentro de nós e em nosso redor. Não é uma criação, um caminho que vamos definindo momento a momento, um desejo ou uma projecção. O passado é a nossa única realidade, é o único activo da nossa existência, o curriculum vitae com que nos candidatamos ao mundo, porque ninguém se apresenta com o que irá fazer, mas com o que fez. 

A frase que me foi dita é representativa da mais simples realidade: olhar para o passado não é uma actividade de velho de espírito ou de velho de corpo, de criatura imobilizada e cristalizada naquilo que existiu. Falar no passado pode ser um exercício de enorme lucidez porque, com a existência posta em perigo, não há nada que seja mais parecido com uma bóia de salvação, nem que seja para rejeitar o que houve, para construir um que , talvez ainda um que haverá. Na sua música Solsbury Hill, Peter Gabriel canta: my heart going boom, boom, boom / son, he said, grab your things, I've come to take you home. Onde é - ou o que é - a nossa casa? É o passado, porque é a única realidade. Por isso a jovem me perguntava, mais duvidosa do que inquieta, porque se havia de matar um passado, já que isso (digo eu...) equivaleria a deixá-la sem abrigo. 

O presente é sempre o resultado de uma luta entre o passado e o futuro. Quem nunca olhar para trás - achando ingenuamente que é um campeão do optimismo e do avanço - terá sempre uma vitória por falta de comparência, que é a pior vitória de todas. A vitória nunca é certa, que por vezes o futuro agiganta-se.

JdB 

* publicado originalmente a 20 de Junho de 2016




23 agosto 2026

XXI Domingo do Tempo Comum

Evangelho: Mt 16,13-20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus foi para os lados de Cesareia de Filipe
e perguntou aos seus discípulos:
«Quem dizem os homens que é o Filho do homem?»
Eles responderam: «Uns dizem que é João Baptista,
outros que é Elias,
outros que é Jeremias ou algum dos profetas».
Jesus perguntou: «E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Então, Simão Pedro tomou a palavra e disse:
«Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo».
Jesus respondeu-lhe:
«Feliz de ti, Simão, filho de Jonas,
porque não foram a carne e o sangue que to revelaram,
mas sim meu Pai que está nos Céus.
Também Eu te digo: Tu és Pedro;
sobre esta pedra edificarei a minha Igreja
e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.
Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus:
tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus,
e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus».
Então, Jesus ordenou aos discípulos
que não dissessem a ninguém
que Ele era o Messias.

21 agosto 2026

Textos dos dias que correm

Os discípulos colocaram a Jesus o problema do stress e do descanso.

Os discípulos regressavam da primeira missão, muito entusiasmados com a experiência e com os resultados obtidos. Não paravam de falar sobre os êxitos conseguidos. Com efeito, o movimento era tanto que nem tinham tempo para comer, com muitas pessoas à sua volta.

Talvez esperassem ouvir algum elogio por tanto zelo apostólico. Mas Jesus, em vez disso, convida-os a um lugar deserto, para estarem a sós e descansarem um pouco.

Creio que nos faz bem observar neste acontecimento a humanidade de Jesus. A sua acção não dizia só palavras de grandeza sublime, nem se afadigava ininterruptamente por atender todos os que vinham ao seu encontro. Consigo imaginar o seu rosto ao pronunciar estas palavras. Enquanto os apóstolos se esforçavam cheios de coragem e importância que até se esqueciam de comer, Jesus tira-os das nuvens. Venham descansar!

Sente-se um humor silencioso, uma ironia amigável, com que Jesus os traz para terra firme. Justamente nesta humanidade de Jesus torna-se visível a divindade, torna-se perceptível como Deus é.

A agitação de qualquer espécie, mesmo a agitação religiosa não condiz com a visão do homem do Novo Testamento. Sempre que pensamos que somos insubstituíveis; sempre que pensamos que o mundo e a Igreja dependem do nosso fazer, sobrestimamo-nos.

Ser capaz de parar é um acto de autêntica humildade e de honradez criativa; reconhecer os nossos limites; dar espaço para respirar e para descansar como é próprio da criatura humana.

Não desejo tecer louvores à preguiça, mas contribuir para a revisão do catálogo de virtudes, tal como se desenvolveu no mundo ocidental, onde trabalhar parece ser a única atitude digna. Olhar, contemplar, o recolhimento, o silêncio parecem inadmissíveis, ou pelo menos precisam de uma explicação. Assim se atrofiam algumas faculdades essenciais do ser humano.

O nosso frenesim à volta dos tempos livres, mostra que é assim. Muitas vezes isso significa apenas uma mudança de palco. Muitos não se sentiriam bem se não se envolvessem de novo num ambiente massificado e agitado, do qual, supostamente, desejavam fugir. Seria bom para nós, que continuamente vivemos num mundo artificial fabricado por nós, deixar tudo isso e procurarmos o contacto com a natureza em estado puro.

Desejaria mencionar um pequeno acontecimento que João Paulo II contou durante o retiro que pregou para Paulo VI, quando ainda era Cardeal. Falou duma conversa que teve com um cientista, um extraordinário investigador e um excelente homem, que lhe dizia: "Do ponto de vista da ciência, sou um ateu...". Mas o mesmo homem escrevia-lhe depois: "Cada vez que me encontro com a majestade da natureza, com as montanhas, sinto que Ele existe".

Voltamos a afirmar que no mundo artificial fabricado por nós, Deus não aparece. Por isso, temos necessidade de sair da nossa agitação e procurar o ar da criação, para O podermos contactar e nos encontrarmos a nós mesmos.

(Card. J. Ratzinger, "Esplendor da Glória de Deus" Editorial Franciscana, 2007, pág. 161.)

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