No seu livro sobre seis grandes líderes do século XX – «Liderança: seis estudos sobre Estratégia Mundial», Henry Kissinger dedicou um capítulo ao general francês Charles de Gaulle, não apenas por se ter destacado durante a Segunda Guerra Mundial como voz de uma França contra a capitulação do Marechal Pétain, mas sobretudo por ter conseguido reerguer a França recém libertada do jugo nazi e colocá-la no patamar dos Vencedores. A sua fama quase dom quixotesca, adquirida ao longo da guerra, permitiu o insólito branqueamento de imagem a um país que se rendera aos nazis e produzira inúmeros colaboracionistas com o sinistro ocupante! De facto, Paris acolhera com glamour e pompa os deslumbrados oficiais da Wehrmacht. Bem menos dóceis à tirania nazi tinham sido holandeses e dinamarqueses, mas nenhum daqueles países gozou dos privilégios do núcleo duro dos vitoriosos. Naturalmente, que a dimensão de um e de outros pesou... No ‘day after’, interessava aos Aliados viabilizar a paz, desencantando alguém capaz de unir uma França dividida entre colaboracionistas e os heróis da Resistência. De Gaulle afirmou-se logo no minuto zero, desfilando pelos Campos Elísios, aclamado por multidões, mal os Aliados libertaram Paris, no Verão de 1944.
Apesar do seu feitio difícil, com tiques autoritários e megalómanos, De Gaulle foi admirado por Churchill, tolerado por Roosevelt (as circunstâncias impuseram-no), que o detestava e fez tudo para o ignorar (em vão) e respeitado por Estaline. Entrou para a história do século XX com reflexões antológicas, expressivas de uma sagacidade geopolítica invulgar. Essa era uma das suas afinidades com Churchill. Ambos nascidos no final do século XIX, tinham vivido a Primeira Guerra e correspondiam a figuras arcaicas, semi desfasadas num século já muito tecnológico e de pragmatismo tecnocrata. Ambos encontravam no passado inspiração e legitimação para as batalhas da sua vida, no caso de De Gaulle: restituir a França a grandeza de outrora. Manifestamente atípicos, assemelhavam-se a personagens de um bom romance de ‘capa e espada’, sensíveis a valores de cavalheirismo e de bravata militar incompreensíveis nas décadas de 30 e de 40 do século XX. Um e outro tinham personalidades paradoxais, marcadas por grandes tensões. Em De Gaulle é impressionante o contraste entre o seu autoritarismo militar, exercido à antiga cheio de maneirismos hierárquicos antiquados e a ternura em casa, derretendo-se com a filha mais nova, Anne, que tinha Trissomia 21. Protetor e meigo em família, duro e exigentíssimo no quartel, astuto e firme nas negociações, sábio a ler os sinais do tempo, reunia um conjunto de qualidades e de características invulgares. A ele se deve a percepção cristalina do pós guerra, dominado pelos EUA no Ocidente, apenas sob ameaça da URSS, com a Europa entalada entre as duas potências rivais.
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| Tinha um especial carinho por Anne, a filha nascido com Síndrome de Down. |
Nunca se iludiu quanto à fragilidade das alianças, por mais benignas e sólidas que parecessem. Por isso, não descansou enquanto não dotou França da arma potência nuclear, resistindo à pressão norte-americana para confiar no escudo norte-americano. Em 1961, Kennedy argumentou que a segurança da Europa ocidental e da América do Norte eram indivisíveis, pelo que França não devia desperdiçar recursos a obter a bomba atómica. Charles De Gaulle, que insistia na «imprevisibilidade da História», contrapôs: «Como é que podemos ter a certeza disso (dessa indissociabilidade)?», num futuro mais longínquo?
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| O debate sobre o nuclear foi um tema quente da agenda da visita dos Kennedys a Paris, de 31 de Maio a 2 de Junho de 1961. |
Nunca se iludiu acerca das reservas e da postura, por vezes, subversiva do Reino Unido face à Europa continental, apesar de ter sido Churchill a dar-lhe acesso à BBC, reconhecendo-o como líder da França resistente, durante a Segunda Guerra, para fúria do Governo de Vichy e de Roosevelt. É eloquente a tirada do General, quando lhe pediram o nome dos três maiores vultos europeus: «Dante, Goethe e Chateaubriand». Tendo-lhe perguntado se se esquecera Shakespeare, replicou sem hesitar: «Europeu?» De Gaulle era um defensor intrépido da unidade europeia, por a considerar crucial para: «não sermos dominados pelos Estados Unidos, nem pela Rússia”. Mas tinha a noção dos limites dessa Europa cooperante, com menos sintonia do outro lado do Canal da Mancha…
Nunca se iludiu sobre a impossibilidade de França insistir num Império colonial no Magrebe, ainda que possa não ter gerido a retirada, da melhor forma.
Nunca se iludiu sobre a mistura de sentimentos na batalha estudantil cunhada de «Maio de 68», evaporando-a em dois tempos, ao convocar eleições, para retirar palco aos universitários, eliminando as condições para continuarem a falar (e a festejar) sozinhos com um megafone que se fazia ouvir longe. A decisão de passar a palavra para a sociedade, em jeito de plebiscito, foi um rotundo sucesso, conseguindo a proeza de uma vitória com maioria absoluta e a pacificação das ruas de Paris! O veredito da maioria a favor da estabilidade política e do respeito pelo Estado de Direito ditou o fim das manifs.
Também não se iludiu acerca da sua indispensabilidade no poder, por isso, abdicou, após a conquista daquela histórica maioria absoluta, deixando França tranquilizada. Recolheu, finalmente, à sua austera casa no Nordeste francês, em Colombey-les-Deux-Églises, preferindo gozar os últimos anos de vida com a família, na máxima discrição, declinando quase todos os convites para os grandes eventos políticos gauleses e internacionais. França sabe o quanto deve ao General de coragem ilimitada, começando pelo estatuto tão honroso que o país obteve no final da Guerra, que lhe proporcionou um dos cinco lugares permanentes no Conselho de Segurança das Nações Unidas! Percebe-se por que é das figuras políticas mais homenageadas na toponímia gaulesa, tendo devolvido a França algum do antigo peso histórico da grande potência do Velho Continente, com (alguma) voz a ditar as regras da ordem internacional do pós guerra.
Parte disto consta no primeiro filme dedicado ao líder francês, pelo realizador Antonin Baudry: «De Gaulle - Resistência»(1), focado nos anos negros de 1940 a 1944. O subtítulo francês é mais eloquente e épico – “Résistance, L’âge de fer” – evocando uma expressão de De Gaulle, ao explicar que a idade de ouro é precedida pela de ferro. Num argumento adaptado do livro do historiador britânico Julian Jackson – «A Certain Idea of France: The Life of Charles de Gaulle» –, o filme de Baudry concentra-se na fase mais ingrata de um oficial desconhecido, que resolve desafiar a rendição de Pétain a Hitler, autoproclamando-se regente da França Livre… basicamente, na cabeça dele e nos interesses de Churchill, que também apreciava a galhardia e a coragem desmesuradas do dito oficial francês. Mais sabia o britânico o poder dessas mentes tão fora da caixa, capazes de desencantar soluções audaciosas e improváveis, que devolvem futuro a horizontes sem saída. Ele próprio partilhava parcialmente aquela abordagem, não se coibindo de defender posições em contraciclo e de concretização improvável.
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| Um jantar em tête-à-tête entre os dois titãs. |
A obra de Baudry traz para o ecrã dois titãs cheios de tiques e de arcaísmos, de contradições e de loucuras, entre De Gaulle e Churchill. Em pano de fundo, repassam-se grandes momentos da Segunda Guerra e as poucas batalhas onde o mini exército da França Livre teve um mínimo de sucesso. O rocambolesco e o humor impregnam este filme de guerra, sem apoucar os factos narrados, mas antes expondo a bizarria de algumas das personalidades relevantes da época. Se Churchill transbordava de contrastes e exotismos, De Gaulle ainda lhe acrescentava a loucura do exercício de um poder assente em sonhos e na vontade intrépida do seu protagonista. O desempenho dos actores, em concreto do franco-arménio que personifica o General, ajuda a revelar a personalidade atípica do francês. Diz tudo a indiferença com que recebe a notícia da sua condenação à morte, por traição, ordenada por Pétain! É anedótico, mas real, a captura das Ilhas de Saint Pierre et Miquelon pelas tropas de De Gaulle, nas vésperas do Natal de 1941, enfurecendo Roosevelt, que acabara de ser forçado a entrar na Segunda Guerra, após o ataque japonês à base norte-americana do Pacífico, em Pearl Harbour. Mais valor teve a resistência inesperada e muito competente das milícias da França Livre contra o regimento de Rommel, em Bir Hackeim, que permitiu aos britânicos uma folga crucial para se reorganizarem. Verdade que o filme é omisso, quer sobre a qualidade da Legião Estrangeira Francesa presente naquele pequeno contingente de elite liderado pelo General Jean-Marie Koenig, quer sobre a honradez de Rommel, algo brando na perseguição aos sitiados franceses, quando já só lhes restava fugir para se abrigarem no quartel britânico mais próximo.
Em paralelo, flui a história de um liceal francês, profundamente revoltado contra o armistício assinado com o Reich. Mal ouve num aparelho de rádio clandestino, o estribilho passado na BBC «Ici Londres», com que De Gaulle iniciava as preleções aos seus compatriotas, entusiasma-se com aquele líder fantasma, que muitos pensavam ser um actor contratado por Churchill para contrapor ao governo de Pétain. A vida do pequeno Ferdinand Bonnier de la Chapelle, na Cidade das Luzes, transmite bem as tensões ambivalentes que coabitam em Paris, entre os colaboracionistas e os muitos patriotas revoltados contra a ocupação nazi, sobretudo entre os mais novos, que cediam contrafeitos ao tacticismo de governantes envelhecidos, caducos, acobardados.
As duas horas e meia do filme sabem a pouco, como acontece nas histórias bem contadas, sendo invulgarmente comedido no uso da violência e até na gestão do suspense. Flui com ritmo e equilíbrio entre as diferentes cenas e as narrativas paralelas, sem se dispersar. Faltará o segundo filme da série, subintitulado: «Liberdade».
Os desafios actuais convocam a lucidez de Charles De Gaulle, sendo curioso o provérbio citado por Churchill, no filme, para referir a insólita reviravolta que trouxe o francês à tona (sem me explicar melhor, para não ser spoiler): Deus protege as crianças e os loucos… na hora certa e mais imprevista, quando a realidade ultrapassa a ficção.
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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(1) Série desdobrada em 2 partes, sobre «La Bataille de Gaulle», seguindo a ficha técnica do primeiro filme:
TÍTULO TRADUZIDO EM PORTUGUÊS: De Gaulle: Resistência
- Simon Russel Beale - Churchill
- Florian Lesieur – Ferdinand
- Anamaria Vartolomei - Livia
- Mathieu Kassovitz – Almirante Darlan
- Adèle Jayle- Yvonne de Gaulle
- Campbell Scott - Roosevelt
- Karim Leklou - Blazej (secretário de De Gaulle)
- Alain Libolt - Mar.Pétain
- 20.Maio.2026 – estreia em Cannes
- 3.Junho.2026 (Résistance)
- 26.Junho.2026 (Liberté)
- 158 minutes (Résistance)
- 159 minutes (Liberté)





