14 abril 2026

Das engrenagens *


Fotografia tirada da net

Só numa definição tecnicamente seca é que uma engrenagem é um dispositivo constituído por um sistema de rodas dentadas para transmissão de movimentos em diversos maquinismos. Numa visão metafórica do tema, uma engrenagem é um mar de possibilidades. 

Quando falamos de rodas dentadas falamos de dentes e, nesse sentido, de flanco, de passo, de círculo ou diâmetro da coroa, de espessura e de largura do dente. Em duas rodas que engrenam uma na outra as dimensões dos dentes têm de ser correspondentes, porque o espaço entre dentes é sempre igual. As rodas podem ter dimensões diferentes, diferindo por isso a relação de transmissão. Mas os dentes, o que provoca a engrenagem e contribui decisivamente para o correcto funcionamento do dispositivo mecânico, não. Esta obrigatoriedade de igual dimensão é o garante da eficácia do sistema.

Numa conversa sobre um outro tema, apanho este conceito desenvolvido por um sociólogo, parece-me: quanto mais especialização menos autonomia. Isto é, à medida que fulano se especializa na área A, depende de beltrano que se especializou na área B, sendo que A e B estão intimamente ligadas. Isto é, o especialista em sistema eléctricos precisa do especialista em travões e do especialista em segurança infantil para construir um carro onde possam circular crianças. Dentro da metáfora das rodas dentadas, cada especialista é um dente. E cada dente é individual, imprescindível, sem o qual a engrenagem tropeça - e parte. 

A tendência de especialização teve o intuito da eficácia, porque ninguém conseguiria saber de tudo. E no entanto, não me parece que a motivação para a especialização deva ser essa, mas o da subsistência da espécie humana enquanto conjunto gregário de pessoas. No limite, a sabedoria generalizada de vários temas deveria ser proibida por lei, por princípios de conduta morais, religiosos ou éticos. Não devemos saber tudo, para podermos contar com os outros. Os outros não devem saber tudo, para poderem contar connosco. Devemos, por isso, ser profundamente especializados para podermos ser profundamente (inter)dependentes.

Pode ver-se a engrenagem como um conjunto igualitário de elementos mecânicos - tudo infinita e tristemente igual. Mas pode ver-se a engrenagem como um conjunto construído para um fim - a transmissão de movimento que conduz ao infinito. Facilita se imaginarmos uma comunidade: cada dente é uma especialidade: pintor, pedreiro, alfaiate, canalizador, especialista em médio oriente, psiquiatra, técnico de ansiedades, professor de literatura. E cada reentrância é uma necessidade: quem precisa de um fato de ver a deus, quem sofre de ansiedade, quem não sabe colocar um lavatório, quem gostava de aprender sobre Miguel Torga, etc. Para cada necessidade uma especialidade.

A interdependência, que não é mais do que uma engrenagem perfeitamente concebida - não é um vantagem ou um exercício de eficácia fabril. A interdependência é apenas aquilo que nos salva.

JdB

* publicado originalmente a 23 de Março de 2016

12 abril 2026

II Domingo da Páscoa

EVANGELHO – João 20,19-31

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou Se no meio deles e disse lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser lhes ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».
Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo,
não estava com eles quando veio Jesus.
Disseram lhe os outros discípulos:
«Vimos o Senhor».
Mas ele respondeu lhes:
«Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos,
se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado,
não acreditarei».
Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa
e Tomé com eles.
Veio Jesus, estando as portas fechadas,
apresentou Se no meio deles e disse:
«A paz esteja convosco».
Depois disse a Tomé:
«Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos;
aproxima a tua mão e mete a no meu lado;
e não sejas incrédulo, mas crente».
Tomé respondeu Lhe:
«Meu Senhor e meu Deus!»
Disse lhe Jesus:
«Porque Me viste acreditaste:
felizes os que acreditam sem terem visto».
Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos,
que não estão escritos neste livro.
Estes, porém, foram escritos
para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus,
e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.

11 abril 2026

Pensamentos Impensados

Auto-estima: diz-se de quem trata bem os automóveis.

Os filhos ilegítimos também descendem dos antepassados?

Quem estiver proibido pelos médicos de comer sal também estará proibido de receber salário?

Se à Beatriz Costa tivessem cortado a franja, teria ficado com um aspecto confrangedor?

Mouzinho de Albuquerque tinha furor ultramarino?

Os flambeados também podem fazer-se com aguardente; neste caso chama-se lume brandy.

SdB (I) 

09 abril 2026

Imagem e poema dos dias que correm


A fotografia acima retrata um fenómeno natural e recorrente: pouco depois do sol nascer (esta fotografia foi tirada na 2ªfeira às 07.27h) a luz embate num edifício específico e espelhado de Cascais, provocando aquele reflexo que mais parece um fogo.

***

Nós os vencidos do catolicismo 

Nós os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana 

Nós que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos 

Já nenhum garizim nos chega agora
depois de ouvir como a samaritana
que em espírito e verdade é que se adora
Deixem-me ouvir os carmina burana 

Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos e jogamos
"Meu deus meu deus porque me abandonaste?"

Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 147 | Editorial Presença Lda., 1984

08 abril 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 UM PINTOR DA ‘JOIE DE VIVRE’ 

Paris aproveitou a Primavera para lançar mais uma mega exposição, no imperdível Musée d’Orsay, dedicada a um dos expoentes do impressionismo – Pierre-Auguste Renoir. O título da mostra é eloquente – «Renoir et l’amour», assim como as garridas manchetes dos media, a evocar o denominador comum das suas telas: «MERCI LA VIE!»

À DTA. - auto-retrato, de 1910

Renoir acrescentou ao fascínio dos impressionistas pela luz, a audácia de pintar o sabor da vida, apanhando-a na pose mais festiva e alegre. Segundo os curadores: «Renoir regarde le monde comme on embrasse quelqu’un que l’on aime depuis toujours». Explicava o artista: «c’est avec mon pinceau que j’aime». Por isso, é frequente considerar-se que pintou o amor, a beleza (sobretudo, a do arquétipo feminino), a alegria, a paixão pela vida. 

Oriundo de um meio pobre, com uma infância marcada por grandes privações, a mera ousadia de apostar numa profissão de alto risco, como a pintura, roçava o aventureirismo irresponsável. Nascido em 1841, ainda apanhou os resquícios da mortandade da Revolução Francesa (1789) e a estrondosa derrota gaulesa nas Guerras napoleónicas. Em vida, assistiu à humilhante derrota de França na Guerra Franco-Prussiana e à guerra civil durante as dolorosas experiências da Comuna de Paris, para além dos tumultos sociais causados pela Revolução Industrial! Tudo isso Renoir enfrentou com garbo e um sentido positivo inesperado! De onde lhe viria tanta confiança no futuro, face ao mundo algo sombrio que o rodeava?  

Com os comparsas impressionistas, Renoir convocou a ‘joie de vivre à la française’ para contribuir para as mudanças de mentalidade de oitocentos, quando as sociedades se  democratizavam; o cidadão comum ganhava destaque; a indústria do entretenimento despontava, sobretudo nas grandes cidades; a maior facilidade de locomoção aumentava os horizontes das gentes rurais, antes confinadas ao lugar onde tinham nascido; novos países nasciam, redesenhando-se as fronteiras da Europa e dos impérios ultramarinos. Todo o mundo era composto de mudança e o apetite pelo presente aguçava-se, na ânsia de acompanhar a voragem do tempo, saborear os pequenos momentos, os prazeres visíveis, ainda que fugazes. Os artistas estavam ávidos de devorar as modas nascentes e plasmá-las numa expressão artística de vanguarda.  

Duas das mais célebres obras de Renoir, imortalizam momentos efémeros, captando os ambientes festivos, que o pintor tanto apreciava.  

Vinte anos depois, a exposição conseguiu reunir as três telas de pares dançantes. A mesma felicidade irradia em casais diferentes, numa união de corpos arrojada para a época, seja na versão burguesa, seja na campestre, seja nos trajes de gala.  

A música veio antes da pintura na vida de Renoir. Mas as dificuldades financeiras da família obrigaram-no a desistir das aulas de canto, que adorava, e a empregar-se numa fábrica de porcelana para ajudar ao sustento da casa dos pais.

Retratista muito procurado pelos seus contemporâneos, Renoir pintava com enorme rapidez, como foi o caso com o compositor alemão. 

As figuras femininas eram as musas do pintor: «La Balancoire», 1876. 

Até ao Barroco, pedir a um pintor para ser luminoso poderia parecer uma redundância, mesmo nos temas sobre guerras e outros episódios sangrentos da História. Porém, essa tendência mudou, quando o sofrimento personalizado entrou para a tela. O ambiente sombrio e as marcas de desgosto num rosto anónimo, mais próximo do espectador, adquiriu uma ressonância nova no público. Pouco a pouco, caiu em desuso o recurso ao efeito teatral das pinturas povoadas de heróis ancestrais ou mitológicos em cenários grandiloquentes, demasiado longe da realidade prosaica do cidadão comum. O século XX avançou mais uns passos e mostrou ad nauseam quanto a arte aguenta cargas indigestas de sofrimento humano concreto, reconhecível e de muitas gradações do mal, até ao desespero mais agudo. 

Voltando a Renoir, são espantosas as pessoas que irradiam alegria no meio da turbulência e das incertezas do dia-a-dia. Como se estivessem sentadas ao nosso lado, enquanto todos atravessamos a tempestade… São companhias fantásticas na vida, corajosamente pascais, abertas ao desfecho luminoso da ressurreição.

Páscoa Feliz com a ‘joie de vivre’ de Renoir, se possível, com um salto a Paris!

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas) 

07 abril 2026

Do elogio *

 Não fui educado no, e para o elogio. Como é normal na natureza humana, não eduquei no, e para o elogio. Para efeitos desta pequena dissertação interessa-me pouco as consequências desse modo de educar: sei o peso que isso teve em mim, sei o peso que teve naqueles que me competiu educar; o que está feito não tem conserto, apenas pode servir de lamentação saudável e honesta ou de aprendizagem para o futuro. Mas a história do elogio não é apenas de pais para filhos, mas de amigo para amigo, de cônjuge para cônjuge, de colega de trabalho para colega de trabalho.

Olho para trás. Talvez eu tenha crescido numa época em que se dava pouca importância às crianças, em que se achava que elas não deviam ser salientes nem ter o poder de perorar sobre tudo. Talvez eu tenha crescido num meio cheio de pudores de vocabulário: não se dizia vermelho nem se dizia lábios, como não se dizia ovários nem virilha. E também não se dizia amor - pelo que a expressão amo-te estava reservada para o cinema ou para a literatura - ou simplesmente para as pessoas com menor pudor expressivo. Talvez então possa pensar que havia um pudor qualquer de linguagem no elogio: dizer-se muito bem!, ou de facto tens muito jeito!, estava vedado aos que também não diziam amo-te. Eu sei que não é verdade, mas a argumentação dá-me jeito. 

Não elogiar uma criança não é a mesma coisa que não elogiar um adulto. Não elogiar um filho não é, por isso, a mesma coisa que não elogiar a pessoa com quem se vive. Não se elogia uma criança porque não se tem feitio para isso ou se acha que as crianças não devem ter elogios. Ora, elogiar um adulto não obedece a nenhuma teoria educativa: é um acto de delicadeza, de incentivo, de simpatia ou da mais elementar justiça. Mas elogiar um adulto - o adulto com quem se vive, por exemplo - é colocá-lo num patamar mais elevado do que o nosso. É reconhecer algo no outro que merece uma certa admiração. E talvez esteja aí um dos motivos para não se elogiar o próximo: não queremos colocar o outro a um nível superior ao nosso. Não queremos vê-lo elevar-se relativamente à nossa normalidade. 

Elogiar pode ser um acto de generosidade ou de reconhecimento. Não o fazer a um adulto pode significar uma estratégia, sobretudo - algo que acontece em muitos casos - quando se é particularmente generoso nos elogios aos que nos são menos próximos. A inveja não é só desejar o que os outros têm; pode ser simplesmente, como ouvi no outro dia, não nos regozijarmos com o sucesso do outro. Ainda estou para perceber o que nos leva, na verdade, à parcimónia no elogio. É de graça e tem vantagens, pelo que...

JdB 

* publicado originalmente a 4 de Abril de 2019

05 abril 2026

I Domingo de Páscoa

EVANGELHO – Jo 20,1-9

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

No primeiro dia da semana,
Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro
e viu a pedra retirada do sepulcro.
Correu então e foi ter com Simão Pedro
e com o discípulo predilecto de Jesus
e disse-lhes:
«Levaram o Senhor do sepulcro,
e não sabemos onde O puseram».
Pedro partiu com o outro discípulo
e foram ambos ao sepulcro.
Corriam os dois juntos,
mas o outro discípulo antecipou-se,
correndo mais depressa do que Pedro,
e chegou primeiro ao sepulcro.
Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou.
Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira.
Entrou no sepulcro
e viu as ligaduras no chão
e o sud&aacu
te;rio que tinha estado sobre a cabeça de Jesus,
não com as ligaduras, mas enrolado à parte.
Entrou também o outro discípulo
que chegara primeiro ao sepulcro:
viu e acreditou.
Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura,
segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

03 abril 2026

6ª feira Santa

 

Raising of the cross (Rembrandt, 1633)

Pietà 

Vejo-te ainda, Mãe, de olhar parado,
Da pedra e da tristeza, no teu canto,
Comigo ao colo, morto e nu, gelado,
Embrulhado nas dobras do teu manto. 

Sobre o golpe sem fundo do meu lado
Ia caindo o rio do teu pranto;
E o meu corpo pasmava, amortalhado,
De um rio amargo que adoçava tanto. 

Depois, a noite de uma outra vida
Veio descendo lenta, apetecida
Pela terra-polar de que me fiz; 

Mas o teu pranto, pela noite além,
Seiva do mundo, ia caindo, Mãe,
Na sepultura fria da raiz. 

Miguel Torga


02 abril 2026

5ªfeira Santa

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim. No decorrer da ceia, tendo já o Demónio metido no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, a ideia de O entregar, Jesus, sabendo que o Pai Lhe tinha dado toda a autoridade, sabendo que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-Se da mesa, tirou o manto e tomou uma toalha, que pôs à cintura. Depois, deitou água numa bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que pusera à cintura. Quando chegou a Simão Pedro, este disse-Lhe: «Senhor, Tu vais lavar-me os pés?». Jesus respondeu: «O que estou a fazer, não o podes entender agora, mas compreendê-lo-ás mais tarde». Pedro insistiu: «Nunca consentirei que me laves os pés». Jesus respondeu-lhe: «Se não tos lavar, não terás parte comigo». Simão Pedro replicou: «Senhor, então não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça». Jesus respondeu-lhe: «Aquele que já tomou banho está limpo e não precisa de lavar senão os pés. Vós estais limpos, mas não todos». Jesus bem sabia quem O havia de entregar. Foi por isso que acrescentou: «Nem todos estais limpos». Depois de lhes lavar os pés, Jesus tomou o manto e pôs-Se de novo à mesa. Então disse-lhes: «Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também».

Palavra da salvação.

01 abril 2026

Poemas dos dias que correm

camões dirige-se aos seus contemporâneos

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

jorge de sena
metamorfoses (1963)
trinta anos de poesia
editorial inova
1972

31 março 2026

Das válvulas de segurança sociais

Alguém criticou alguém dizendo a respeito desse alguém: não faz nada por emoção; é tudo por sentimento de dever.

Alguém elogiou os filhos de alguém dizendo: os teus filhos são sempre tão educados.

Há uma grande proximidade de raciocínio entre ambas as afirmações, pese uma ser uma crítica e outra ser um elogio. E há, também, as expressões nada e tudo, que introduzem no par um contraste interessante. O que une ambos os raciocínios é uma espécie de válvula de segurança social. As válvulas de segurança foram feitas para actuar em caso de excesso de ou em caso de falta de. Existem para garantir - daí o nome - a segurança das instalações, das máquinas, dos órgãos. 

O sentimento de dever e a educação são as válvulas de segurança das instalações sociais e actuam quando há falta de emoção ou falta de simpatia. Obviamente que todos desejaríamos que as coisas (e falamos de coisas boas) fossem feitas motivadas pela emoção, e não pela razão; e todos gostaríamos que fôssemos - ou fossem os nossos - tão simpáticos que não precisariam da educação.

Acontece que não podemos garantir que nos apetece sempre fazer as coisas que devem ser feitas - o sentimento do dever garante, então, que as coisas que devem ser feitas serão feitas. Acontece que nem sempre queremos ser simpáticos com alguém, qualquer que seja o motivo - a educação garante, então, que a socialização se mantém ao nível aceitável.

O pedido de desculpas - já o escrevi neste estabelecimento - é uma tradição mal vista. Muita gente diz que as desculpas evitam-se, não se pedem. Com certeza! Mas o pedido de desculpa - e o que lhe está associado - é uma espécie de sentimento de dever ou educação: existem para colmatar uma falha, não para justificar uma falha. Exigir a permanente emoção ou a permanente simpatia é exigir que uma máquina não aqueça, que não lhe falte nenhuma matéria prima, que não entre em sobre-pressão. Vai acontecer? Não. 

Uma válvula de segurança é um elemento fundamental numa máquina ou numa relação, embora deva ser usada como o cardamomo - com parcimónia. 

JdB 


  

29 março 2026

Domingo de Ramos

 Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses

Cristo Jesus, que era de condição divina,
não Se valeu da sua igualdade com Deus,
mas aniquilou-Se a Si próprio.
Assumindo a condição de servo,
tornou-Se semelhante aos homens.
Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais,
obedecendo até à morte e morte de cruz.
Por isso Deus O exaltou
e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes,
para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem
no céu, na terra e nos abismos,
e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor,
para glória de Deus Pai.

28 março 2026

Pensamentos Impensados

Isto dos testes de ADN pode ser perigoso; podem descobrir que não descendemos dos nossos antepassados.

A pescadinha de rabo na boca está em auto-digestão.

Tirei um curso de relojoaria só para me entreter; tenho certidão de hobby.

É possível haver alguém que se saiba quem é o pai e não se saiba quem é a mãe? É: Adão era filho de mãe incógnita.

As médicos não passam receitas; passam despesas.

O fadista Alfredo Marceneiro fazia lavagem de dinheiro. Pois é: Todas as notas que ganhava eram por ele lavadas, penduradas na corda da roupa e, quando estavam secas, punha-lhes água de colónia.

SdB (I) 

27 março 2026

Da misericórdia, ou das noites de cada um de nós *

Theodor Adorno afirmou: to write poetry after Auschwitz is barbaric. Cruzei-me com esta frase anteontem. Opto pela interpretação simples, ainda que potencialmente incorrecta: a noite de Auschwitz matou a possibilidade do belo. O pensamento veio também a propósito de outras lucubrações derivadas de dizer coisas, ouvir outras, ler frases, apanhar fragmentos de fragmentos, fazer dos fins de tarde quentes em esplanadas sossegadas momentos de inspiração e espanto. 

Cada um de nós tem o seu rol de noites de Auschwitz, ainda que elevadas à potência comezinha das vidas mais ou menos fagueiras. São os dramas, os desgostos, as perdas, as traições; são os olhos postos no chão com que enfrentamos os nossos mais próximos a quem, com vergonha inútil, imaginamos a palavra desilusão inscrita nas pálpebras. Transpor a frase de Adorno para a nossa ruela terrena seria afirmar que nenhuma felicidade (nos) é completa - talvez mesmo nem permitida, nalguns casos - depois do renque de sofrimentos acima. Como se a existência degenerasse então numa espécie de loiça de refugo, vedada que nos está a partilha de refeições em pratos de primeiríssima qualidade. 

A vida tem de ser a procura da paz, mais do que da felicidade. Já aqui o disse, citando Hans Kung. À noite de Auschwitz temos de contrapor os olhos postos no Céu, onde está a resposta de tudo para tudo, a luz perene que ilumina a alma de quem sofre e de quem cuida. Antes de olharmos para o lado temos de olhar para cima, dar à relação horizontal uma dimensão vertical. Só o Amor nos salva - o amor pelos que nos estão mais próximos, o amor que é verdade, transparência, partilha, pedido de ajuda, mãos abertas que significam impotência e ansiedade. Ao olhar que pede damos uma palavra que enxuga lágrimas, não um cilício que aperta ilhargas.

Erbarme dich, significa, em alemão, tem misericórdia. Ouvir a beleza mais triste pode ser um acto redentor, um módico de iluminação na noite de Auschwitz, a generosidade divina que nos converte, nos faz perceber que é mais importante deixar traços do que provas. Só o Amor nos salva - e a misericórdia, que é compaixão. 

JdB  


* publicado originalmente a 3 de Outubro de 2014

25 março 2026

Vai um gin do Peter’s ?

 ARTE DE HOJE IRROMPE NO VATICANO COM NOVA VIA SACRA 

O pintor suíço de apenas 36 anos, protestante, pai de 3 filhos, não imaginava ser escolhido, por unanimidade, pelo exigente júri vaticanista, para pintar uma versão actual das 14 Estações da Via Sacra e expô-las (temporariamente, parece) no interior da Basílica de S.Pedro, no templo mais importante da cristandade, que transborda de arte e de beleza, a começar na arquitectura!

O concurso foi lançado em Dezembro de 2023, no tempo do Papa Francisco, com o objectivo de atualizar o diálogo entre arte e culto, para oferecer aos visitantes um sinal renovado de beleza, que continua a ser a via privilegiada pelo Vaticano para a contemplação dos mistérios da fé, em especial, dos difíceis mistérios da Paixão e da Crucifixão. Puderam concorrer artistas de todas as nacionalidades, etnias, confissões religiosas, etc. Acorreram mais de mil concorrentes de 80 países, pelo que o júri – composto por historiadores de arte, liturgistas e representantes da Santa Sé – teve a árdua tarefa de reduzir o grupo a 14 nomes, a quem pediram dois sketches, um deles de tema pré-definido: a 12ª Estação, da morte de Jesus. Neste teste derradeiro, Manuel Andreas Dürr distinguiu-se pela expressividade da sua interpretação do mistério pascal e pelo equilíbrio da composição.    

À ESQ. – Manuel Andreas Dürr na inauguração da sua Via Sacra, na Basílica de S.Pedro, na primeira Sexta-feira da Quaresma de 2026 (20.Fev. - OSV News photo/Courtney Mares). À DTA. – o pintor no seu atelier rodeado dos painéis destinado ao Vaticano.

Dürr fora apanhado de surpresa, desde o princípio, pois só se inscrevera no concurso por insistência de um amigo. E vira poucas hipóteses de vencer, até porque pertencia à pequena comunidade cristã Jahu, saída da Reforma protestante, embora muito aberta e de cariz ecuménico. Curiosamente, do ponto de vista teológico, o pintor sente-se próximo do catolicismo. 

Logo que foi escolhido, em Dezembro de 2024, rumou ao Vaticano para estudar o local de destino da sua Via Sacra. A nova surpresa foi a descoberta da universalidade do famoso templo: «One thing that came as a bit of a shock, in a ense, was when I came to Rome, I suddenly realized that really this is a global Church. My own church at home feels very provincial when I come here and I see people from all ages, from all continents, and from all income classes, are gathering around shared expressions of faith.

Começou também a apercebeu-se melhor e a preocupar-se com o desafio que seria  representar a figura mais marcante da nossa cultura, ainda por cima, na fase terrível da morte a que se sujeitara: «To paint Jesus is very, very difficult because he is not someone I am introducing; he is someone that billions of people already have an idea of and have a personal relationship with». Sobre a crucifixão, que foi o painel onde começou a empreitada e onde a concluiu, explicou assim o desafio de conceber a cruz, que paradoxalmente se convertera em expoente de esperança e de amor: «This story has shaped Christian art and European culture … the world’s culture, like no other story has. And how this cross, which was intended as a symbol of terror, instilling fear into the subjects of the Roman Empire, suddenly becomes something that we wear around our necks as a symbol of hope.»

O terceiro receio seria fazer algo para um dos monumentos com maior concentração de arte acumulada ao longo de séculos e harmoniosamente disposta para transmitir uma beleza interpelativa, capaz de engrandecer a natureza humana. Dürr lembrava, com graça, que os artistas contemporâneos estão habituados a expor em paredes monocromáticas, quase sempre brancas, onde as peças se destacam facilmente, sem terem de dialogar nem entrosar-se com nenhuma outra. 

Como os receios se multiplicavam, o suíço resolveu mergulhar na cultura italiana e inspirar-se nos artistas que considerou mais aptos a ajudá-lo a oferecer ao público uma nova abordagem ao mistério da Páscoa. Escolheu para mestres de inspiração Michelangelo e Fra Angelico. Resultou, porque a beleza depurada e sumamente subtil dos painéis de Dürr estão a causar sensação entre os turistas e peregrinos que têm visitado a Basílica de S.Pedro, não destoando da sumptuosidade belíssima do templo multissecular. 

Percebe-se que a simplicidade das suas pinturas é o resultado de um enorme esforço de maturação, até chegar à expressão mais simples, que condensa e se cinge ao principal. Os painéis com a crucifixão e a Pietá são especialmente eloquentes e de uma beleza cristalina. Na composição da morte de Jesus, o entrelaçado dos madeiros dos três condenados condensa o drama da primeira Sexta-feira Santa da História, manchada de sangue, parte dele inocente. A figura destacada de Cristo sugere que assume a maior quota de dor, sustentando os outros. Adianta-se na hora mais humilhante para salvar todo o ser humano, que queira. Na Pietá, o chão assemelha-se a um céu salpicado de estrelas, como se se tratasse de uma imagem cósmica do planeta azul, visto de cima; a haste do madeiro onde Jesus morrera, ampara a Mãe, que agora ampara o Filho; a veste branca, que cobrira Jesus e agora se enovela aos seus pés, replica a morte daquele corpo inerte, cuja alma já partira para o Pai. Talvez o significado directo destes paíneis, como entrega total em favor da humanidade, os tornem mais comoventes e impactantes: 

A crucifixão. À DTA. - magnificamente enquadrada no interior da Basílica, num diálogo fluído e enriquecedor entre gerações distantes. 

A monumental Pietá de Dürr, linda, serena, sofrida, mas sempre Mãe, a amparar o Filho com enorme subtileza, sem se impor, apenas a oferecer a segurança de uma mão e de um colo meigos. 
As Estações com as quedas na subida para o Calvário expõem a máxima fragilidade de Jesus, mas sem desespero. Percebe-se que aquele Condenado nunca atirou a ‘toalha ao chão’. Tinha mesmo oferecido a sua vida à morte mais cruel e indigna, sem desistir da sua missão redentora. A aspereza do chão pedregoso dos painéis acentua o peso de uma cruz demasiado grande para um homem já sem forças: 

As quedas no caminho para o Calvário. Na imagem à direita constata-se a forma harmoniosa como a Via Sacra de Dürr se integrou na magnífica Basílica.

É espantosa a associação que o pintor faz entre o gesto de Veronica e a pintura, no afã de registar uma imagem mais profunda da realidade. Era, por isso, o seu painel preferido: «To my surprise, maybe, a little bit, Veronica was the most special station for me. She holds up a cloth which then has an imprint of the image of Christ. And I found basically that’s what I’m attempting to do. I’m painting on cloth in a small way. … And for me, this kind of dignified, I think, what the painter is attempting to do which is … to provide a trace of something deeper to be experienced. It gives dignity to what the painter is trying to do: offer a small trace of something deeper.» 

6ª Estação – Verónica tem a coragem de sair da multidão para confortar um marginal. É o painel preferido do suíço, que a considera uma metáfora óptima da própria pintura. Em Verónica, a imagem provém do dom puro; no artista, acrescenta-se ao dom o trabalho árduo. 
A uma semana de revivermos as 14 Estações do Calvário, na Sexta-Feira que consideramos Santa, a obra do suíço ajuda a iluminar os infinitos momentos e detalhes da misteriosa história de sofrimento (e salvação), mais lembrada e reactualizada dos últimos dois milénios.  

A condenação do Governador romano Pôncio Pilatos e o início da subida para o Calvário. À ESQ.- a des-sintonia entre Jesus e o Governador romano está bem patente nas posições de ambos, um na ilusão de ainda pontificar sobre o rumo dos acontecimentos, e o Outro sem ilusões sobre as fraquezas e os perigosos ‘equívocos’ humanos.  Sofria-os todos na pele!

À ESQ. – a 5ª Estação, talvez do recrutamento forçado do Cireneu, para ajudar um Condenado demasiado enfraquecido a chegar ao cimo do Calvário. Tudo o que os romanos não queriam, era que morressem antes de ser crucificados! À DTA. – a docilidade de Jesus, enquanto os soldados o despem, momentos antes de ser pregado no madeiro. Percebe-se por que impressionou tanto o Bom Ladrão (S.Dimas).

Boa Semana Santa e Feliz Páscoa 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)


24 março 2026

Textos dos dias que correm

 Perdoar e Esquecer 

Perdoar e esquecer equivale a jogar pela janela experiências adquiridas com muito custo. Se uma pessoa com quem temos ligação ou convívio nos faz algo de desagradável ou irritante, temos apenas de nos perguntar se ela nos é ou não valiosa o suficiente para aceitarmos que repita segunda vez e com frequência semelhante tratamento, e até de maneira mais grave. Em caso afirmativo, não há muito a dizer, porque falar ajuda pouco. Temos, portanto, de deixar passar essa ofensa, com ou sem reprimenda; todavia, devemos saber que agindo assim estaremos a expor-nos à sua repetição. Em caso negativo, temos de romper de modo imediato e definitivo com o valioso amigo ou, se for um servente, dispensá-lo. Pois, quando a situação se repetir, será inevitável que ele faça exactamente a mesma coisa, ou algo inteiramente análogo, apesar de, nesse momento, nos assegurar o contrário de modo profundo e sincero. Pode-se esquecer tudo, tudo, menos a si mesmo, menos o próprio ser, pois o carácter é absolutamente incorrigível e todas as acções humanas brotam de um princípio íntimo, em virtude do qual, o homem, em circunstâncias iguais, tem sempre de fazer o mesmo, e não o que é diferente. (...) Por conseguinte, reconciliarmo-nos com o amigo com quem rompemos relações é uma fraqueza pela qual se expiará quando, na primeira oportunidade, ele fizer exactamente a mesma coisa que produziu a ruptura, até com mais ousadia, munido da consciência secreta da sua imprescindibilidade. 

Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'

***

O Perdão e a Promessa

Se não fôssemos perdoados, eximidos das consequências daquilo que fizemos, a nossa capacidade de agir ficaria por assim dizer limitada a um único acto do qual jamais nos recuperaríamos; seríamos para sempre as vítimas das suas consequências, à semelhança do aprendiz de feiticeiro que não dispunha da fórmula mágica para desfazer o feitiço. Se não nos obrigássemos a cumprir as nossas promessas não seríamos capazes de conservar a nossa identidade; estaríamos condenados a errar desamparados e desnorteados nas trevas do coração de cada homem, enredados nas suas contradições e equívocos - trevas que só a luz derramada na esfera pública pela presença de outros que confirmam a identidade entre o que promete e o que cumpre poderia dissipar. Ambas as faculdades, portanto, dependem da pluralidade; na solidão e no isolamento, o perdão e a promessa não chegam a ter realidade: são no máximo um papel que a pessoa encena para si mesma. 

Hannah Arendt, in 'A Condição Humana'

22 março 2026

V Domingo da Quaresma

 EVANGELHO – João 11,1-45

Naquele tempo,
estava doente certo homem, Lázaro de Betânia,
aldeia de Marta e de Maria, sua irmã.
Maria era aquela que tinha ungido o Senhor com perfume
e Lhe tinha enxugado os pés com os cabelos.
Era seu irmão Lázaro que estava doente.
As irmãs mandaram então dizer a Jesus:
«Senhor, o teu amigo está doente».
Ouvindo isto, Jesus disse:
«Essa doença não é mortal, mas é para a glória de Deus,
para que por ela seja glorificado o Filho do homem».
Jesus era amigo de Marta, de sua irmã e de Lázaro.
Entretanto, depois de ouvir dizer que ele estava doente,
ficou ainda dois dias no local onde Se encontrava.
Depois disse aos discípulos:
«Vamos de novo para a Judeia».
Os discípulos disseram-Lhe:
«Mestre, ainda há pouco os judeus procuravam apedrejar-Te
e voltas para lá?»
Jesus respondeu:
«Não são doze as horas do dia?
Se alguém andar de dia, não tropeça,
porque vê a luz deste mundo.
Mas se andar de noite, tropeça,
porque não tem luz consigo».
Dito isto, acrescentou:
«O nosso amigo Lázaro dorme, mas Eu vou despertá-lo».
Disseram então os discípulos:
«Senhor, se dorme, está salvo».
Jesus referia-se à morte de Lázaro,
mas eles entenderam que falava do sono natural.
Disse-lhes então Jesus abertamente:
«Lázaro morreu;
por vossa causa, alegro-Me de não ter estado lá,
para que acrediteis.
Mas, vamos ter com ele».
Tomé, chamado Dídimo, disse aos companheiros:
«Vamos nós também, para morrermos com Ele».
Ao chegar, Jesus encontrou o amigo sepultado havia quatro dias.
Betânia distava de Jerusalém cerca de três quilómetros.
Muitos judeus tinham ido visitar Marta e Maria,
para lhes apresentar condolências pela morte do irmão.
Quando ouviu dizer que Jesus estava a chegar,
Marta saiu ao seu encontro,
enquanto Maria ficou sentada em casa.
Marta disse a Jesus:
«Senhor, se tivesses estado aqui,
meu irmão não teria morrido.
Mas sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus,
Deus To concederá».
Disse-lhe Jesus: «Teu irmão ressuscitará».
Marta respondeu:
«Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição, no último dia».
Disse-lhe Jesus:
«Eu sou a ressurreição e a vida.
Quem acredita em Mim,
ainda que tenha morrido, viverá;
E todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá.
Acreditas nisto?»
Disse-Lhe Marta:
«Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus,
que havia de vir ao mundo».
Dito isto, retirou-se e foi chamar Maria,
a quem disse em segredo:
«O Mestre está ali e manda-te chamar».
Logo que ouviu isto, Maria levantou-se e foi ter com Jesus.
Jesus ainda não tinha chegado à aldeia,
mas estava no lugar em que Marta viera ao seu encontro.
Então os judeus que estavam com Maria em casa
para lhe apresentar condolências,
ao verem-na levantar-se e sair rapidamente,
seguiram-na, pensando que se dirigia ao túmulo para chorar.
Quando chegou aonde estava Jesus,
Maria, logo que O viu, caiu-Lhe aos pés e disse-Lhe:
«Senhor, se tivesses estado aqui,
meu irmão não teria morrido».
Jesus, ao vê-la chorar,
e vendo chorar também os judeus que vinham com ela,
comoveu-Se profundamente e perturbou-Se.
Depois perguntou: «Onde o pusestes?»
Responderam-Lhe: «Vem ver, Senhor».
E Jesus chorou.
Diziam então os judeus:
«Vede como era seu amigo».
Mas alguns deles observaram:
«Então Ele, que abriu os olhos ao cego,
não podia também ter feito que este homem não morresse?»
Entretanto, Jesus, intimamente comovido, chegou ao túmulo.
Era uma gruta, com uma pedra posta à entrada.
Disse Jesus: «Tirai a pedra».
Respondeu Marta, irmã do morto:
«Já cheira mal, Senhor, pois morreu há quatro dias».
Disse Jesus:
«Eu não te disse que, se acreditasses,
verias a glória de Deus?»
Tiraram então a pedra.
Jesus, levantando os olhos ao Céu, disse:
«Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido.
Eu bem sei que sempre Me ouves,
mas falei assim por causa da multidão que nos cerca,
para acreditarem que Tu Me enviaste».
Dito isto, bradou com voz forte:
«Lázaro, sai para fora».
O morto saiu, de mãos e pés enfaixados com ligaduras
e o rosto envolvido num sudário.
Disse-lhes Jesus:
«Desligai-o e deixai-o ir».
Então muitos judeus, que tinham ido visitar Maria,
ao verem o que Jesus fizera, acreditaram n’Ele.

20 março 2026

Da caça - ou de ir até ao campo com grandes propósitos

 

Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra
.

(Álvaro de Campos, in Tabacaria)

*** 

Não sou, nem nunca fui, caçador. Provavelmente, durante 60 anos da minha vida, nunca quis ser, nem nunca quis deixar de ser. A necessidade da escolha nunca se me pôs. Um dia disse a um amigo, com um terreno de caça no norte de Moçambique, que gostaria de ir à caça com ele. Queria ter a experiência de matar um animal (um bicho de tamanho médio, vá...) e perceber o que sentiria, eu que nunca matei um animal de um tamanho superior a um pequenino rato doméstico. Será que gostaria, que detestaria, que seria invadido por uma emoção ancestral ou pelo horror à barbárie. Por outro lado queria também ter a experiência da atmosfera da caça em África: os sons, as cores, a necessidade da atenção, os meninos à volta da fogueira.

A oportunidade não surgiu e, por força de circunstâncias prosaicas, não surgirá mais, presumo. Há uma semanas largas fui convidado por família e amigos a uma montaria (nunca sei se é montaria, se batida) aos javalis. Matar um javali não é matar a mãe do Bambi. Matar um javali é um dever, quase, face à invasão e ao nível de destruição de que estes animais são capazes. Achei graça ao programa e aceitei, claro. Numa entusiasmo quase juvenil partilhei o convite com amigos, que trataram de esquecer a dimensão sociológica da coisa para me darem conselhos e me fazerem perguntas sobre se ia ter aulas de tiro. Aulas de tiro?

No dia aprazado lá fui, com um amigo caçador, em cuja porta iria ficar e que talvez me proporcionasse pegar na arma e dar um tiro. Eu sei que tudo isto é trivial para um caçador, mas eu sou novato e desconhecia por completo como isto se processa: pequeno almoço conjunto, cumprimentos sociais, escuta de regras de segurança e de "ética caçadora", observação de caçadores franceses e ingleses trajados a rigor, ao lado de quem me senti um bimbo de Esmoriz (sem desprimor por Esmoriz). Embarque num atrelado em direcção à porta que nos tinha saído em sorteio. Eram 10.30h da manhã.

A verdadeira legenda desta fotografia é: "segura-me aí a espingarda para eu te tirar uma fotografia..."

Ao longo das 4 horas seguintes não vimos um único javali. O meu amigo e eu sentámo-nos, conversámos, urinámos contra uma giesta, roemos duas maçãs cada, falámos de pessoas, de antiguidades, de genealogia, de caça, de espingardas. Espreitámos o fio do horizonte ao som dos cães que, supostamente, espantam os javalis de onde eles se resguardam, vimos umas gamelas a correr, sobre as quais não atirámos por respeito às regras. Quando demos por nós eram 14.30h: urinámos uma última vez, vestimos os casacos, dobrámos a cadeira e voltámos a subir para o atrelado, sem um tiro dado - nem sequer um tiro falhado. A caça foi fraca: havia 38 portas, o equivalente a 38 espingardas, e mataram-se 10 ou 12 animais.

Regressados à base é hora de almoço. Portugueses vestidos como estavam antes da caça, ingleses e franceses, mudaram de farpela - sempre em tons de caça, mas uma calça mais elegante e uma gravata mais condizente. Almoço muito bom, na companhia de amigos e, sobretudo, primos que não via há muito tempo.

Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.

Voltaria outra vez? Sim, claro. Mesmo que não mate, nem sequer dispare, há uma dimensão sociológica e social nestes eventos que, mesmo - ou sobretudo - para um não caçador como eu, vale a pena. E a companhia é boa!

JdB

19 março 2026

Lembranças (1975) dos dias que correm

Dennis is a menace with his "anyone for tennis?" And beseeching me to come and keep the score... And Maud says "Oh Lord! I'm so terribly bored!" And I really can't stand it anymore... I'm going out to dinner with a gorgeous singer To a little place I've found down by the Quay; Her name is Patricia, she calls herself Delicia, And the reason isn't very hard to see... She says God made her a sinner to keep the fat men thinner, As they tumble down in heaps before her feet, They hang around in groups like battle-weary troops, One van often see then queue right down the street... You see Patricia, or Delicia, not only is a singer She also removes all her clothing... For Patricia is the best stripper in town. And with a swing of her hips she starts to strip, To tremendous applause she took off her drawers, And with a lick of her lips she undid all the clips, Threw it all in the air, and everybody stared, Ans as the last piece of clothing fell to the floor, The police were banging on the door, On a Saturday night in nineteen twenty-four... Take it away boys! But poor Patricia was arrested and everyone detested The manner in which she was exposed, And later in court, well, everyone thought, That a summer run in Gaol would be proposed. But the Judge said, "Patricia, Or may I say, Delicia, The facts of this case lie before me... Case dismissed... this girl was in her working clothes!!" And with a swing of her hips she starts to strip, To tremendous applause she took off her drawers, And with a lick of her lips she undid all the clips, Threw it all in the air, and everybody stared, Ans as the last piece of clothing fell to the floor, The police were yelling for more!!! On a Saturday night in nineteen twenty-four... On a Saturday night in nineteen twenty-four...

18 março 2026

Poemas dos dias que correm

 Os velhos

Os velhos já não falam ou então por vezes apenas com um olhar tremido
Até ricos são pobres já não têm ilusões e só lhes resta um coração para dois
Em suas casas cheira a tomilho a limpo a lavanda a palavras antigas
Mesmo vivendo em Paris vive-se sempre na província quando se vive demais
Será de tanto terem rido que as suas vozes encarquilham quando falam de ontem
E de tanto terem chorado que lágrimas esquecidas lhes orvalham as pálpebras
E se tremem um pouco será por verem envelhecer o relógio de prata
Que ronrona na sala que ora diz sim ora diz não e diz por vós espero
 
Os velhos já não sonham os seus livros entorpecem os seus pianos não tocam
O gatinho morreu o moscatel dos domingos já os não faz cantar
Os velhos já não mexem os seus gestos são todos rugas o seu mundo é tão pequeno
Da cama para a janela depois da cama para a poltrona por fim da cama para a cama
E se ainda vêm à rua de braço dado envoltos num manto hirto 
É para acompanhar pelo sol o enterro de um mais velho o enterro de uma mais feia
E enquanto dura um soluço esquecer por uma hora o relógio de prata
Que ronrona na sala que ora diz sim ora diz não e por eles espera

Os velhos não morrem adormecem um dia e dormem demais
Dão a mão um ao outro receiam perder-se e todavia perdem-se
E o outro para ali fica o melhor ou o pior o meigo ou o severo
Pouco importa porque aquele que fica acorda num inferno
Vê-lo-emos por vezes à chuva e à mágoa
Atravessar o presente pedindo perdão por não estar já mais além
E uma última vez fugir de nós o relógio de prata
Que ronrona na sala que ora diz sim ora diz não e lhe diz por ti espero
Que ronrona na sal que ora diz sim ora diz não e que por fim nos espera
 
  
jacques brel
antologia poética
trad. eduardo maia
assírio & alvim
1997

***

Les vieux

Les vieux ne parlent plus
Ou alors seulement parfois du bout des yeux
Même riches ils sont pauvres, ils n'ont plus d'illusions et n'ont qu'un coeur pour deux
Chez eux ça sent le thym, le propre, la lavande et le verbe d'antan
Que l'on vive à Paris on vit tous en province quand on vit trop longtemps
Est-ce d'avoir trop ri que leur voix se lézarde quand ils parlent d'hier
Et d'avoir trop pleuré que des larmes encore leur perlent aux paupières
Et s'ils tremblent un peu est-ce de voir vieillir la pendule d'argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non, qui dit: je vous attends

Les vieux ne rêvent plus, leurs livres s'ensommeillent, leurs pianos sont fermés
Le petit chat est mort, le muscat du dimanche ne les fait plus chanter
Les vieux ne bougent plus leurs gestes ont trop de rides
Leur monde est trop petit
Du lit à la fenêtre, puis du lit au fauteuil et puis du lit au lit
Et s'ils sortent encore bras dessus bras dessous tout habillés de raide
C'est pour suivre au soleil
L'enterrement d'un plus vieux, l'enterrement d'une plus laide
Et le temps d'un sanglot, oublier toute une heure la pendule d'argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non, et puis qui les attend

Les vieux ne meurent pas, ils s'endorment un jour et dorment trop longtemps
Ils se tiennent la main, ils ont peur de se perdre et se perdent pourtant
Et l'autre reste là, le meilleur ou le pire, le doux ou le sévère
Cela n'importe pas, celui des deux qui reste se retrouve en enfer
Vous le verrez peut-être, vous la verrez parfois en pluie et en chagrin
Traverser le présent en s'excusant déjà de n'être pas plus loin
Et fuir devant vous une dernière fois la pendule d'argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non, qui leur dit: je t'attends
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non et puis qui nous attend

17 março 2026

Dos sonetos *

 SONNET 116


Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove:
O no; it is an ever-fixed mark,
That looks on tempests, and is never shaken;
It is the star to every wandering bark,
Whose worth's unknown, although his height be taken.
Love's not Time's fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle's compass come;
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to the edge of doom.
   If this be error and upon me proved,
   I never writ, nor no man ever loved.

William Shakespeare
***

De entre as minhas embirrações inexplicáveis (se fossem explicáveis seriam embirrações?) estão os sonetos. Há qualquer coisa num soneto que me desagrada, o que é estranho, porque tem métrica, tem rima e, embora a estrutura seja peculiar - duas quadras e dois tercetos - não é bizarra. E no entanto, o que me afasta de Florbela Espanca não é um furor moral onde entra o seu irmão, Apeles Demóstenes, numa relação incestuosa que parece não ter existido, mas o soneto. Num âmbito ainda mais estranho, e porventura mais intelectualmente insultuoso, o que me pacifica com a lírica camoniana é a Amália e o Alain Oulman.

Vasco Graça Moura - dizem-me que com superior mestria - traduziu uma quantidade imensa (todos?) de sonetos de Shakespeare. Dizem-me ainda que há, apesar dessa inegável mestria, uma estranheza: uma rima e uma métrica que nos levam a pensar, excessivamente, que estamos a ler Camões. Daí que seja preferível ler os sonetos na língua original - 14 versos com rima mas sem a "nossa" métrica, com um remate de dois versos (tem um nome, mas esqueci-me).

Este soneto, que partilho, foi-me apresentado como sendo um dos mais bonitos do escritor - ou pelo menos o mais apreciado por quem me falou dele. Li-o acompanhado, explicado, pensado, relido, interpretado. É um soneto bonito, muito bonito apenas, de onde se tiram lições importantes para a vida de hoje em dia (e que maior fascínio pode haver do que ler uma coisa muito antiga e encontrar-lhe uma actualidade?): a constância do amor, a maturidade do amor, a fidelidade do amor. E, pormenor a reter, este verso: That looks on tempests, and is never shaken. Para Shakespeare e, dizem-me, para os adeptos do mindfullness, hoje em dia tanto em voga, no amor, as tempestades vêem-se, não se vivem. Isto é, olhamos para elas como algo que passa à nossa frente, não estamos embrenhados nela.

JdB   

* publicado originalmente a 19 de Janeiro de 2018 

15 março 2026

IV Domingo da Quaresma

 EVANGELHO – João 9,1-41

Naquele tempo,
Jesus encontrou no seu caminho um cego de nascença.
Os discípulos perguntaram-Lhe:
«Mestre, quem é que pecou para ele nasceu cego?
Ele ou os seus pais?
Jesus respondeu-lhes:
«Isso não tem nada que ver com os pecados dele ou dos pais;
mas aconteceu assim
para se manifestarem nele as obras de Deus.
É preciso trabalhar, enquanto é dia,
nas obras d’Aquele que Me enviou.
Vai cegar a noite, em que ninguém pode trabalhar.
Enquanto Eu estou no mundo, sou a luz do mundo».
Dito isto, cuspiu em terra,
fez com a saliva um pouco de lodo e ungiu os olhos do cego.
Depois disse-lhe:
«Vai lavar-te à piscina de Siloé»; Siloé quer dizer «Enviado».
Ele foi, lavou-se e ficou a ver.
Entretanto, perguntavam os vizinhos
e os que antes o viam a mendigar:
«Não é este o que costumava estar sentado a pedir esmola?»
Uns diziam: «É ele».
Outros afirmavam: «Não é. É parecido com ele».
Mas ele próprio dizia: «Sou eu».
Perguntaram-lhe então:
«Como foi que se abriram os teus olhos?»
Ele respondeu:
«Esse homem, que se chama Jesus, fez um pouco de lodo,
ungiu-me os olhos e disse-me:
‘Vai lavar-te à piscina de Siloé’.
Eu fui, lavei-me e comecei a ver».
Perguntaram-lhe ainda: «Onde está Ele?»
O homem respondeu: «Não sei».
Levaram aos fariseus o que tinha sido cego.
Era sábado esse dia em que Jesus fizeram lodo
e lhe tinha aberto os olhos.
Por isso, os fariseus perguntaram ao homem
como tinha recuperado a vista.
Ele declarou-lhes: «Jesus pôs-me lodo nos olhos;
depois fui lavar-me e agora vejo».
Diziam alguns dos fariseus:
«Esse homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado».
Outros observavam:
«Como pode um pecador fazer tais milagres?»
E havia desacordo entre eles.
Perguntaram então novamente ao cego:
«Tu que dizias d’Aquele que te deu a vista?»
O homem respondeu: «É um profeta».
Os judeus não quiseram acreditar
que ele tinha sido cego e começara a ver.
Chamaram então os pais dele e perguntaram-lhes:
«É este o vosso filho? É verdade que nasceu cego?
Como é que agora vê?»
Os pais responderam:
«Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego;
mas não sabemos como é que ele agora vê,
nem sabemos quem lhe abriu os olhos.
Ele já tem idade para responder: perguntai-lho vós».
Foi por medo que eles deram esta resposta,
porque os judeus tinham decidido expulsar da sinagoga
quem reconhecesse que Jesus era o Messias.
Por isso é que disseram:
«Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós».
Os judeus chamaram outra vez o que tinha sido curado
e disseram-lhe: «Dá glória a Deus.
Nós sabemos que esse homem é pecador».
Ele respondeu: «Se é pecador, não sei.
O que sei é que eu era cego e agora vejo».
Perguntaram-lhe então:
«Que te fez Ele? Como te abriu os olhos?»
O homem replicou:
«Já vos disse e não destes ouvidos.
Porque desejais ouvi-lo novamente?
Também quereis fazer-vos seus discípulos?»
Então insultaram-no e disseram-lhe:
«Tu é que és seu discípulo; nós somos discípulos de Moisés;
mas este, nem sabemos de onde é».
O homem respondeu-lhes:
«Isto é realmente estranho: não sabeis de onde Ele é,
mas a verdade é que Ele me deu a vista.
Ora, nós sabemos que Deus não escuta os pecadores,
mas escuta aqueles que O adoram e fazem a sua vontade.
Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos
a um cego de nascença.
Se Ele não viesse de Deus, nada podia fazer».
Replicaram-lhe então eles:
«Tu nasceste inteiramente em pecado e pretendes ensinar-nos?»
E expulsaram-no.
Jesus soube que o tinham expulsado
e, encontrando-o, disse-lhe:
«Tu acreditas no Filho do homem?»
Ele respondeu-Lhe:
«Senhor, quem é Ele, para que eu acredite?»
Disse-lhe Jesus;
«Já O viste: é Quem está a falar contigo».
O homem prostrou-se diante de Jesus e exclamou:
«Eu creio, Senhor».
Então Jesus disse-lhe:
«Eu vim para exercer um juízo:
os que não veem ficarão a ver;
os que veem ficarão cegos».
Alguns fariseus que estavam com Ele, ouvindo isto,
perguntaram-Lhe:
«Nós também somos cegos?»
Respondeu-lhes Jesus:
«Se fôsseis cegos, não teríeis pecado.
Mas como agora dizeis: ‘Não vemos’,
o vosso pecado permanece».

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