03 novembro 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

No seu livro sobre seis grandes líderes do século XX – «Liderança: seis estudos sobre Estratégia Mundial», Henry Kissinger dedicou um capítulo ao general francês Charles de Gaulle, não apenas por se ter destacado durante a Segunda Guerra Mundial como voz de uma França contra a capitulação do Marechal Pétain, mas sobretudo por ter conseguido reerguer a França recém libertada do jugo nazi e colocá-la no patamar dos Vencedores. A sua fama quase dom quixotesca, adquirida ao longo da guerra, permitiu o insólito branqueamento de imagem a um país que se rendera aos nazis e produzira inúmeros colaboracionistas com o sinistro ocupante! De facto, Paris acolhera com glamour e pompa os deslumbrados oficiais da Wehrmacht. Bem menos dóceis à tirania nazi tinham sido holandeses e dinamarqueses, mas nenhum daqueles países gozou dos privilégios do núcleo duro dos vitoriosos. Naturalmente, que a dimensão de um e de outros pesou... No ‘day after’, interessava aos Aliados viabilizar a paz, desencantando alguém capaz de unir uma França dividida entre colaboracionistas e os heróis da Resistência. De Gaulle afirmou-se logo no minuto zero, desfilando pelos Campos Elísios, aclamado por multidões, mal os Aliados libertaram Paris, no Verão de 1944.  

Apesar do seu feitio difícil, com tiques autoritários e megalómanos, De Gaulle foi admirado por Churchill, tolerado por Roosevelt (as circunstâncias impuseram-no), que o detestava e fez tudo para o ignorar (em vão) e respeitado por Estaline. Entrou para a história do século XX com reflexões antológicas, expressivas de uma sagacidade geopolítica invulgar. Essa era uma das suas afinidades com Churchill. Ambos nascidos no final do século XIX, tinham vivido a Primeira Guerra e correspondiam a figuras arcaicas, semi desfasadas num século já muito tecnológico e de pragmatismo tecnocrata. Ambos encontravam no passado inspiração e legitimação para as batalhas da sua vida, no caso de De Gaulle:  restituir a França a grandeza de outrora. Manifestamente atípicos, assemelhavam-se a personagens de um bom romance de ‘capa e espada’, sensíveis a valores de cavalheirismo e de bravata militar incompreensíveis nas décadas de 30 e de 40 do século XX. Um e outro tinham personalidades paradoxais, marcadas por grandes tensões. Em De Gaulle é impressionante o contraste entre o seu autoritarismo militar, exercido à antiga cheio de maneirismos hierárquicos antiquados e a ternura em casa, derretendo-se com a filha mais nova, Anne, que tinha Trissomia 21. Protetor e meigo em família, duro e exigentíssimo no quartel, astuto e firme nas negociações, sábio a ler os sinais do tempo, reunia um conjunto de qualidades e de características invulgares. A ele se deve a percepção cristalina do pós guerra, dominado pelos EUA no Ocidente, apenas sob ameaça da URSS, com a Europa entalada entre as duas potências rivais. 

Tinha um especial  carinho por Anne, a filha nascido com Síndrome de Down. 

Nunca se iludiu quanto à fragilidade das alianças, por mais benignas e sólidas que parecessem. Por isso, não descansou enquanto não dotou França da arma potência nuclear, resistindo à pressão norte-americana para confiar no escudo norte-americano. Em 1961, Kennedy argumentou que a segurança da Europa ocidental e da América do Norte eram indivisíveis, pelo que França não devia desperdiçar recursos a obter a bomba atómica. Charles De Gaulle, que insistia na «imprevisibilidade da História», contrapôs: «Como é que podemos ter a certeza disso (dessa indissociabilidade)?», num futuro mais longínquo?  

O debate sobre o nuclear foi um tema quente da agenda da visita dos Kennedys a Paris, de 31 de Maio a 2 de Junho de 1961.

Nunca se iludiu acerca das reservas e da postura, por vezes, subversiva do Reino Unido face à Europa continental, apesar de ter sido Churchill a dar-lhe acesso à BBC, reconhecendo-o como líder da França resistente, durante a Segunda Guerra, para fúria do Governo de Vichy e de Roosevelt. É eloquente a tirada do General, quando lhe pediram o nome dos três maiores vultos europeus: «Dante, Goethe e Chateaubriand». Tendo-lhe perguntado se se esquecera Shakespeare, replicou sem hesitar: «Europeu?»  De Gaulle era um defensor intrépido da unidade europeia, por a considerar crucial para: «não sermos dominados pelos Estados Unidos, nem pela Rússia”. Mas tinha a noção dos limites dessa Europa cooperante, com menos sintonia do outro lado do Canal da Mancha…

Nunca se iludiu sobre a impossibilidade de França insistir num Império colonial no Magrebe, ainda que possa não ter gerido a retirada, da melhor forma. 

Nunca se iludiu sobre a mistura de sentimentos na batalha estudantil cunhada de «Maio de 68», evaporando-a em dois tempos, ao convocar eleições, para retirar palco aos  universitários, eliminando as condições para continuarem a falar (e a festejar) sozinhos com um megafone que se fazia ouvir longe. A decisão de passar a palavra para a sociedade, em jeito de plebiscito, foi um rotundo sucesso, conseguindo a proeza de uma vitória com maioria absoluta e a pacificação das ruas de Paris! O veredito da maioria a favor da estabilidade política e do respeito pelo Estado de Direito ditou o fim das manifs. 

Também não se iludiu acerca da sua indispensabilidade no poder, por isso, abdicou, após a conquista daquela histórica maioria absoluta, deixando França tranquilizada. Recolheu, finalmente, à sua austera casa no Nordeste francês, em Colombey-les-Deux-Églises, preferindo gozar os últimos anos de vida com a família, na máxima discrição, declinando quase todos os convites para os grandes eventos políticos gauleses e internacionais. França sabe o quanto deve ao General de coragem ilimitada, começando pelo estatuto tão honroso que o país obteve no final da Guerra, que lhe proporcionou um dos cinco lugares permanentes no Conselho de Segurança das Nações Unidas! Percebe-se por que é das figuras políticas mais homenageadas na toponímia gaulesa, tendo devolvido a França algum do antigo peso histórico da grande potência do Velho Continente, com (alguma) voz a ditar as regras da ordem internacional do pós guerra. 

Parte disto consta no primeiro filme dedicado ao líder francês, pelo realizador Antonin Baudry:  «De Gaulle - Resistência»(1), focado nos anos negros de 1940 a 1944. O subtítulo francês é mais eloquente e épico – “Résistance, L’âge de fer” –  evocando uma expressão de De Gaulle, ao explicar que a idade de ouro é precedida pela de ferro. Num argumento adaptado do livro do historiador britânico Julian Jackson – «A Certain Idea of France: The Life of Charles de Gaulle» –, o filme de Baudry concentra-se na fase mais ingrata de um oficial desconhecido, que resolve desafiar a rendição de Pétain a Hitler, autoproclamando-se regente da França Livre… basicamente, na cabeça dele e nos interesses de Churchill, que também apreciava a galhardia e a coragem desmesuradas do dito oficial francês. Mais sabia o britânico o poder dessas mentes tão fora da caixa, capazes de desencantar soluções audaciosas e improváveis, que devolvem futuro a horizontes sem saída. Ele próprio partilhava parcialmente aquela abordagem, não se coibindo de defender posições em contraciclo e de concretização improvável.  

Um jantar em tête-à-tête entre os dois titãs.

A obra de Baudry traz para o ecrã dois titãs cheios de tiques e de arcaísmos, de contradições e de loucuras, entre De Gaulle e Churchill. Em pano de fundo, repassam-se grandes momentos da Segunda Guerra e as poucas batalhas onde o mini exército da França Livre teve um mínimo de sucesso. O rocambolesco e o humor impregnam este filme de guerra, sem apoucar os factos narrados, mas antes expondo a bizarria de algumas das personalidades relevantes da época. Se Churchill transbordava de contrastes e exotismos, De Gaulle ainda lhe acrescentava a loucura do exercício de um poder assente em sonhos e na vontade intrépida do seu protagonista. O desempenho dos actores, em concreto do franco-arménio que personifica o General, ajuda a revelar a personalidade atípica do francês. Diz tudo a indiferença com que recebe a notícia da sua condenação à morte, por traição, ordenada por Pétain! É anedótico, mas real, a captura das Ilhas de Saint Pierre et Miquelon pelas tropas de De Gaulle, nas vésperas do Natal de 1941, enfurecendo Roosevelt, que acabara de ser forçado a entrar na Segunda Guerra, após o ataque japonês à base norte-americana do Pacífico, em Pearl Harbour.  Mais valor teve a resistência inesperada e muito competente das milícias da França Livre contra o regimento de Rommel, em Bir Hackeim, que permitiu aos britânicos uma folga crucial para se reorganizarem. Verdade que o filme é omisso, quer sobre a qualidade da Legião Estrangeira Francesa presente naquele pequeno contingente de elite liderado pelo General Jean-Marie Koenig, quer sobre a honradez de Rommel, algo brando na perseguição aos sitiados franceses, quando já só lhes restava fugir para se abrigarem no quartel britânico mais próximo. 

Em paralelo, flui a história de um liceal francês, profundamente revoltado contra o armistício assinado com o Reich. Mal ouve num aparelho de rádio clandestino, o estribilho passado na BBC «Ici Londres», com que De Gaulle iniciava as preleções aos seus compatriotas, entusiasma-se com aquele líder fantasma, que muitos pensavam ser um actor contratado por Churchill para contrapor ao governo de Pétain. A vida do pequeno Ferdinand Bonnier de la Chapelle, na Cidade das Luzes, transmite bem as tensões ambivalentes que coabitam em Paris, entre os colaboracionistas e os muitos patriotas revoltados contra a ocupação nazi, sobretudo entre os mais novos, que cediam contrafeitos ao tacticismo de governantes envelhecidos, caducos, acobardados. 

As duas horas e meia do filme sabem a pouco, como acontece nas histórias bem contadas, sendo invulgarmente comedido no uso da violência e até na gestão do suspense. Flui com ritmo e equilíbrio entre as diferentes cenas e as narrativas paralelas, sem se dispersar. Faltará o segundo filme da série, subintitulado: «Liberdade».

Os desafios actuais convocam a lucidez de Charles De Gaulle, sendo curioso o provérbio citado por Churchill, no filme, para referir a insólita reviravolta que trouxe o francês à tona (sem me explicar melhor, para não ser spoiler): Deus protege as crianças e os loucos… na hora certa e mais imprevista, quando a realidade ultrapassa a ficção. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas) 

___________________

(1) Série desdobrada em 2 partes, sobre «La Bataille de Gaulle», seguindo a ficha técnica do primeiro filme:

TÍTULO ORIGINAL: De Gaulle: Résistance – L’âge de Fer 

TÍTULO TRADUZIDO EM PORTUGUÊS: De Gaulle: Resistência

REALIZADOR: Antonin Baudry

ARGUMENTO: Antonin Baudry e Bérénice Vila

OBRA LITERÁRIA DE INSPIRAÇÃO: «A Certain Idea of France: The Life of Charles De Gaulle de Julian Jackson

ELENCO:
- Simon Abkarian – De Gaulle
- Simon Russel Beale - Churchill
- Florian Lesieur – Ferdinand
- Anamaria Vartolomei -  Livia
- Mathieu Kassovitz – Almirante Darlan
- Adèle Jayle- Yvonne de Gaulle 
- Campbell Scott - Roosevelt 
- Karim Leklou  - Blazej (secretário de De Gaulle)
- Alain Libolt  - Mar.Pétain 

PRODUÇÃO: Pierre Cottereau e Giora Bejach

PRODUÇÃO E DISTRIBUIÇÃO: Pathé

BANDA SONORA: Volker Bertelmann (1º filme)  e Théo Cascio (2º filme)

DATAS:
-  20.Maio.2026 – estreia em Cannes
-  3.Junho.2026 (Résistance)
-  26.Junho.2026 (Liberté)

DURAÇÃO:
-  158 minutes (Résistance) 
-  159 minutes (Liberté) 

FILMAGENS EM: França e Bélgica

LÍNGUAS FALADAS (PRINCIPAIS): Francês e inglês


01 novembro 2026

Solenidade de Todos os Santos

 EVANGELHO – Mt 5,1-12

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se.
Rodearam-n’O os discípulos
e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
«Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados os humildes,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que choram,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa,
vos insultarem, vos perseguirem
e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa».

31 outubro 2026

Pensamentos Impensados

Tive um primo que viveu em Londres no tempo dos célebres nevoeiros (smog) e dizia: não me faz diferença, alugo um cego.

Quer ver cenas picantes? Experimente pôr piripiri nos olhos.

Nem tudo o que vem à rede é peixe; às vezes é o tenista.

Devagar se vai ao longe; a divagar não se vai longe.

Vi, não me lembro onde, um restaurante que publicitava vinhos, petiscos e seus derivados. Derivado de petisco deve ser a indigestão; de vinho só se for a bebedeira e o vómito.

Há tipos que são "bons garfos". Jack, o Estripador, era uma "boa faca".

SdB (I)


30 outubro 2026

Poemas dos dias que correm

 XXIV. E AJOELHANDO-ME NA MARGEM DO MAR TRANSPARENTE FAREI PARA MIM UM NOVO CORAÇÃO DE SAL E LAMA


Uma esposa está debaixo das garras do ser.
Fácil dizer Porque não desistir disto?
Mas suponhamos que o teu marido e uma certa mulher obscura
gostam de se encontrar num bar ao princípio da tarde.
O amor não é condicional.
Viver é muito condicional.
A esposa posiciona-se numa varanda fechada do outro lado da rua.
Observa a mulher obscura
estica-se para lhe tocar a têmpera como que inserindo algo.
Observa-o
dobrar-se ligeiramente para a mulher e para trás. Os dois estão sérios.
A seriedade deles arruína-a.
Pessoas que conseguem ser sérias em conjunto, é profundo.
Têm uma garrafa de água mineral na mesa entre eles
e dois copos.
Não há necessidades inebriantes!
Quando é que ele desenvolveu
este novo gosto puritano?
Um navio frio
sai de um porto algures dentro da esposa
e desliza em direcção ao horizonte plano e cinzento,

nem um pássaro nem um sopro à vista.

Anne Carson (Prémio Nobel de Literatura de 2026)
(Canadá, 1950 - )
In "A Beleza do Marido"
(Tradução de Tatiana Faia)

28 outubro 2026

Textos dos dias que correm

 

Florença, Maio de 2011

O Solitário

O solitário leva uma sociedade inteira dentro de si: o solitário é multidão. E daqui deriva a sua sociedade. Ninguém tem uma personalidade tão acusada como aquele que junta em si mais generalidade, aquele que leva no seu interior mais dos outros. O génio, foi dito e convém repeti-lo frequentemente, é uma multidão. É a multidão individualizada, e é um povo feito pessoa. Aquele que tem mais de próprio é, no fundo, aquele que tem mais de todos, é aquele em quem melhor se une e concentra o que é dos outros.

(...) O que de melhor ocorre aos homens é o que lhes ocorre quando estão sozinhos, aquilo que não se atrevem a confessar, não já ao próximo mas nem sequer, muitas vezes, a si mesmos, aquilo de que fogem, aquilo que encerram em si quando estão em puro pensamento e antes de que possa florescer em palavras. E o solitário costuma atrever-se a expressá-lo, a deixar que isso floresça, e assim acaba por dizer o que todos pensam quando estão sozinhos, sem que ninguém se atreva a publicá-lo. O solitário pensa tudo em voz alta, e surpreende os outros dizendo-lhes o que eles pensam em voz baixa, enquanto querem enganar-se uns aos outros, pretendendo acreditar que pensam outra coisa, e sem conseguir que alguém acredite.

Miguel de Unamuno, in 'Solidão'

***

O Solitário

As observações e as vivências do solitário que só fala consigo próprio são simultaneamente mais indistintas e intensas do que as do homem social e os seus pensamentos são mais graves, mais fantasiosos e nunca sem uma coloração de melancolia. Imagens e impressões que outros poriam naturalmente de lado após um olhar, um sorriso, um comentário, ocupam-no mais do que é devido, tornam-se profundas no silêncio, ganham significado, transformam-se em acontecimento, aventura, emoção. A solidão cria o original, o belo ousado e estranho cria a poesia. Mas cria também o distorcido, o desproporcionado, o absurdo e o proibido.

Thomas Mann, in "Morte em Veneza"

27 outubro 2026

Crónicas de um doutorando tardio

 


Hoje de manhã, numa sala da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, defenderei a minha tese de doutoramento. 

Gosto de datas e gosto de rituais; gosto de 'casar' acontecimentos, canetas, pessoas, músicas. Gosto de associar momentos importantes na minha vida a objectos ou a memórias, a santos ou a passagens relevantes do Evangelho do dia. O dia em que defendo a tese não coincide com nada de particularmente relevante na minha vida ou nos meus interesses; mas o ano sim. Na verdade, completam-se este ano 25 anos sobre o início e fim de um processo doloroso que tinha 'oncologia pediátrica' como marca de água: iniciou-se no dia 19 de Março de 2001, terminou no dia 4 de Novembro desse mesmo ano.

Esta tese específica é fruto, também, de um sortilégio. Na minha mente estava um tema bem diferente, todo ele relacionado com despojamento, com a ideia de que less is more. Em três ano escrevera pouco mais de 30 páginas, das quais se aproveitaria pouco. Era o tempo da minha presidência da Childhood Cancer International que se tornaria num voluntariado em full time. Até que um dia alguém me desafiou à mudança radical de tema: do despojamento passava para a oncologia pediátrica e para as narrativas dos Pais que passam por este processo - era preciso 'capitalizar' a minha experiência de Pai e presidente de uma organização nacional e internacional de Pais de crianças com cancro. E fechar um ciclo que se iniciara há 25 anos.

Não cabe na dimensão de um post o gosto que deu a escrita das 200 páginas: entrevistei Pais, revisitei temas que me eram obsessivos há muito tempo, li sobre morte, luto, sofrimento, esperança, sentido da vida, alegria, histórias, fé e milagres. Desafiei-me a cruzar literatura com filosofia com narratologia com testemunhos, aprendi o que eram grupos focais, revi mentalmente centenas de pessoas com histórias difíceis, cheias de sentido ou de revolta. 

Tenho a nítida sensação de que me atirei para fora de pé. A memória falha-me, não tenho experiência nem vocabulário académico, domino apenas uma parte muito diminuta da tese, tenho medo de não perceber todas as perguntas, ou dar respostas demasiado básicas. Alguém me desejava boa sorte para o momento, acrescentando 'have fun!' O meu 'fun' virá quando o júri se der por satisfeito e me mandar sair da sala para deliberar. Até lá sou apenas um homem enervado, ansioso, com uma secreta esperança de receber um telefonema: 'olhe, foi tudo adiado...'.

Adeus, até ao meu regresso...

JdB      

25 outubro 2026

XXX Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO – Mateus 22,34-40

Naquele tempo,
os fariseus, ouvindo dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus,
reuniram-se em grupo,
e um doutor da Lei perguntou a Jesus, para O experimentar:
«Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?».
Jesus respondeu:
«‘Amarás o Senhor, teu Deus,
com todo o teu coração, com toda a tua alma
e com todo o teu espírito’.
Este é o maior e o primeiro mandamento.
O segundo, porém, é semelhante a este:
‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’.
Nestes dois mandamentos se resumem
toda a Lei e os Profetas».

24 outubro 2026

Pensamentos Impensados

Fruto estragado: As doenças do fígado podem ser fruto de hepatite. A obesidade é fruto do apetite.

Coceiras: fez tudo para ser homem estátua mas nunca conseguiu; tinha bicho-carpinteiro.

Modas: já na antiga Roma havia guerras entre os costureiros; daí as guerras túnicas.

Culinária: para se fazer arroz de cabidela será necessário saber o tipo de sangue da galinha?

Contorcionismo: devido a problemas de coluna já se me torna difícil chegar aos pés; Ou seja, não estão do pé para a mão.

Culinária: as cebolas eram tão boas que eram de cortar e chorar por mais.

SdB (I)

23 outubro 2026

Poemas dos dias que correm

 Teoria das cores

Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.
 
O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor – sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
 
Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.
 
Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.  
 
herberto helder
os passos em volta
assírio & alvim
2001

21 outubro 2026

Vai um gin do Peter’s ?

 MÚSICA EM MAFRA, QUANDO O REI FAZ ANOS  - 22.OUT.-16h00 

O Palácio-convento de Mafra – edificado a mando de D.João V, em 1717 – celebra, amanhã, em cerimónia pública, a conclusão do projeto dedicado ao património musical português, intitulado «A BÚSSOLA BARROCA». Inclui também uma surpresa, para os sortudos que conseguirem participar no evento…

A escolha do dia 22 de Outubro coincide com o aniversário do nascimento do rei de cognome Magnânimo, fazendo jus aos grandes monumentos construídos por sua iniciativa: Aqueduto das Águas Livres, a lindíssima Biblioteca Joanina de Coimbra, a Capela de S.João Baptista na Igreja de S.Roque, a renovação do Palácio das Necessidades, o restauro e enriquecimento de inúmeros conventos e palácios de Norte a Sul do país. Essa azáfama obreira trouxe para Portugal um escol de artistas, arquitectos, engenheiros e construtores, que tornaram depois possível a (relativamente) rápida reconstrução de Lisboa, após a razia da cidade no terramoto de 1755. Inclusive, coube-lhes a proeza arquiectónica anti-sísmica, com a invenção de uma estrutura de madeira para embutir nas paredes dos edifícios e lhes conferir flexibilidade, que ficou conhecida por ‘gaiola pombalina’.   

Voltando aos festejos em Mafra, no Museu Nacional da Música, instalado no Real Palácio, o programa começa às 16h00 e desdobra-se em duas grandes apresentações: 

i) do CD e LP com a gravação de A BÚSSOLA BARROCA, que reúne música  barroca e contemporânea. O projeto nasceu de uma parceria italo-portuguesa – Museu da Música, Fundação Gaudium Magnum e Fondazione Pietà de' Turchini – e culminou na gravação (2025) de um repertório multissecular, executado num cravo Antunes, de 1758 e interpretado pela cravista francesa Béatrice Martin. Tem a originalidade de explorar o património musical antigo e de colocar em diálogo a época barroca do período joanino (Carlos Seixas, Domenico Scarlatti) com o vanguardismo hodierno de António Pinho Vargas; 

ii) da tela do italiano Giorgio Domenico Duprà (1689–1770) com um retrato de D.João V, executado em 1727, durante os anos da estadia do pintor em Lisboa, entre 1719 e 1730. A tela foi adquirida pela Colecção Gaudium Magnum, de Maria e João Cortez de Lobão, em Maio de 2025. Logo no momento da aquisição – na edição de 2025 da LAAF- Lisbon Art & Antiques Fair – o meio artístico nacional, incluindo os antiquários e os coleccionidaores festejaram o facto de a peça ter integrado uma colecção portuguesa e aplaudiram a «oportunidade única de unir um grande rei e um grande artista» em solo português. A obra foi cedida, por empréstimo, ao museu sediado em Mafra:

Giorgio Domenico Duprà pintou mais retratos de D.João V, alguns dos quais também permanecem em Portugal: no MNAA, adquirido em 2017, através de crowfunding, a comemorar a exaltação da armada e da Batalha do Cabo Matapão (1717); na Biblioteca Joanina, em Coimbra; no tecto do Paço Ducal de Vila Viçosa, na Sala dos Tudescos. 

Seguem mais detalhes sobre a cerimónia em Mafra, na tarde de Quinta-feira, que será o ponto de partida para revelar uma nova (e muito especial) surpresa na exposição de longa duração no Museu de Música:

«Quando o Rei faz anos

A Bússola Barroca regressa a Mafra

No dia 22 de Outubro, a Fundação Gaudium Magnum – Maria e João Cortez de Lobão, o Museu Nacional da Música e a Fondazione Pietà de’ Turchini reúnem-se em Mafra para assinalar a conclusão de A Bússola Barroca, um projecto desenvolvido ao longo dos últimos dois anos em torno do património musical português.

A data coincide com o aniversário do nascimento de D. João V, cujo reinado marcou um importante período de desenvolvimento artístico e musical em Portugal. O Palácio Nacional de Mafra, onde se encontra actualmente instalado o Museu Nacional da Música, permanece uma das expressões mais visíveis deste legado cultural.

É neste enquadramento histórico que se cruzam dois momentos importantes: o lançamento da gravação de A Bússola Barroca em CD e LP e a apresentação de um retrato de D. João V, da autoria de Giorgio Domenico Duprà, pertencente à Colecção Gaudium Magnum e cedido ao Museu em regime de empréstimo de longa duração.

Editado pela Turchini Records, o álbum reúne sete sonatas de Carlos Seixas, interpretadas pela cravista francesa Béatrice Martin, e Il Ritorno, do compositor português contemporâneo António Pinho Vargas. A gravação foi realizada no histórico cravo construído em 1758 por Joaquim José Antunes, classificado como Tesouro Nacional e pertencente ao acervo do Museu.

A apresentação terá lugar às 16h00, no auditório do Museu Nacional da Música, e incluirá uma conversa informal entre Edward Ayres de Abreu, Director do Museu, e Maria Cortez de Lobão, co-Presidente da Fundação Gaudium Magnum, em torno do contexto histórico e musical do projecto e do empréstimo. A entrada é livre.

Em conjunto, a gravação e o empréstimo reflectem o compromisso da Fundação com a preservação e divulgação do património cultural português, promovendo simultaneamente a colaboração entre instituições em Portugal e no estrangeiro.»

Para mais informações:  A Bússola Barroca regressa a Mafra · Fundação Gaudium Magnum

É espantoso haver mecenas da música nacional, relativamente pouco conhecida, mesmo nos círculos melómanos. Mais invulgar ainda, é o mecenato estender-se à música contemporânea clássica. Quinta-feira será, por isso, dia de festa para a arte musical portuguesa! 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas) 

20 outubro 2026

Da privacidade e do povo Sakalava *

 Há uma linha quase imperceptível que une as redes sociais ao povo Sakalava, de Madagáscar: essa linha chama-se privacidade - e ambos (tribo e redes) estão do mesmo lado da barricada, o lado que diz não à privacidade, ainda que por motivos diferentes. 

Para os Sakalava, dizem-me, as cercas são desaprovadas, as portas são um tabu e as pessoas passam a maior parte do tempo fora de casa. Nesta tribo, secretismo e separação indicam, no mínimo, falta de generosidade. E se alguém pretende manter-se escondido e quieto num espaço não público é porque está a tramar alguma. A escuta, esse hábito que tem tanto de pernicioso como de interessante, faz parte do instinto de sobrevivência desta gente. 

As redes sociais mataram, penso já o ter dito de forma maçadora neste estabelecimento, uma certa de ideia de privacidade. Mas foram mais longe no seu furor destrutivo: a morte da privacidade foi acompanhada pela morte de um certo interesse pela vida do próximo. Hoje subsiste a curiosidade, que é um parente pobre, e quiçá bastardo, do interesse. E desapareceu, sobretudo, o conceito de interesse militante, aquele que nos leva a perguntar, a querer saber, a dar tempo para que uma resposta nos chegue aos ouvidos. Hoje tudo é disponibilizado, nada é indagado. E a ideia de que ser é ser percebido é substituída pela ideia de que mostrar é ser percebido. Hoje tudo chega por via de um telefone: quem veste o quê, quem foi pai de quem, que restaurantes estão na moda, que cursos estamos a frequentar, o que jantámos na semana passada ou onde estivemos ontem - ou onde estamos naquele preciso instante. Já não existe a pergunta onde foste? porque se presume que não estando nas redes sociais não tem interesse. Ou não tem existência, que é o mesmo.  

O problema, obviamente, não está nas redes sociais, mas na utilização que lhes damos. O telemóvel é um artigo pessoal, tal como um sapato. Mas se este não impede a conversação, aquele sim. No telemóvel está tudo - e o que não está lá não tem valência utilitária, não justifica uma atenção. O isolamento promovido pela utilização (quase) obsessiva do telemóvel para consultar o facebook, o instagram, o whatsapp, impede a conversa, e nesse afundamento de uma arte milenar condena-se também o ponto de interrogação, esse pequenino sinal gráfico que abre as portas ao comércio entre as pessoas. Não perguntamos, porque temos informação crucial (e virtual) que chegue e, com isso - ou por causa disso - matamos mais um pouco das competências sociais que nos vão restando. Sabemos tudo de toda a gente, mas não perguntamos nada a ninguém. Ao contrário do povo Sakalava, a nossa falta de privacidade destrói. E talvez torne obsolescente a utilização da voz como elemento de comunicação entre as pessoas.

Olhemos para a História: é verdade que algo se perdeu quando a vida dos Homens começou a fazer-se em casas com paredes e portas fechadas. Ouvirmo-nos uns aos outros, sabermos que nós próprios somos ouvidos pode ser uma fonte de conforto, mais do que de ansiedade; de confiança, mais do que de medo. Assim o reconheceu uma habitante de Londres que, no final do séc. XIX, reportava todos os sons que ouvia no seu prédio: a senhora do primeiro andar que a horas certas lava o fogão, o senhor do segundo andar que pede chá e uma torrada, a criança que chora mais acima ou as conversas das manhãs preguiçosas. O som ambiente pode ser reconfortante, pode dar-nos a sensação de não estarmos sozinhos. Porém, ao contrário desta londrina que identificava as rotinas do prédio pelos sons humanamente audíveis, a modernidade tecnológica eliminou o som que permitia o equilíbrio fino entre privacidade e ausência de. A privacidade desapareceu, mas cada um vive barricado no seu forte insonoro. Identificamos as rotinas sem ver nem ouvir.

Num certo sentido, entre o nosso mundo e o do povo Sakalava talvez não haja diferenças substanciais. Para a tribo malgaxe a ausência de privacidade significava a manutenção da vida; para o mundo ocidental talvez seja, pelo contrário, o fim de uma certa vida.  

JdB

* publicado originalmente a 26 de Fevereiro de 2019

18 outubro 2026

XXIX Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO – Mateus 22,15-21

Naquele tempo,
os fariseus reuniram-se para deliberar
sobre a maneira de surpreender Jesus no que dissesse.
Enviaram-Lhe alguns dos seus discípulos,
juntamente com os herodianos, e disseram-Lhe:
«Mestre, sabemos que és sincero
e que ensinas, segundo a verdade, o caminho de Deus,
sem Te deixares influenciar por ninguém,
pois não fazes aceção de pessoas.
Diz-nos o teu parecer:
É lícito ou não pagar tributo a César?».
Jesus, conhecendo a sua malícia, respondeu:
«Porque Me tentais, hipócritas?
Mostrai-me a moeda do tributo».
Eles apresentaram-Lhe um denário,
e Jesus perguntou:
«De quem é esta imagem e esta inscrição?».
Eles responderam: «De César».
Disse-lhes Jesus:
«Então, daí a César o que é de César
e a Deus o que é de Deus».


17 outubro 2026

Pensamentos Impensados

Frases 
Fui à farmácia comprar um medicamento e, à saída, o farmacêutico disse: estimo as melhoras. Achei hipocrisia.

Relações em público 
São cada vez mais os casais que em público se abraçam, se beijam, etc. Será isto relações públicas?

Literatura 
Júlio Dinis, como médico, não era mais natural ter escrito As Pílulas do Senhor Doutor?

Ralhete 
Ralharam-forte e feio; ficou perturbado. Foi a emoção da censura.

Droga 
Estar à coca é o mesmo que estar à espera do "dealer"?

SdB (I)

16 outubro 2026

Poemas dos dias que correm

 Povo

Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não! 
 
Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia...
Mas a tua vida, não!

Fui ter à mesa redonda, 
Bebendo em malga que esconda
O beijo, de mão em mão...
Água pura, fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida, não!
 
Procissões de praia e monte,
Areais, píncaros, passos
Atrás dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros da fonte?
Guardo o jeito desses braços...
Mas a tua vida, não!
 
Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama...
Tive a mesma condição.
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las...
Mas a tua vida, não!
 
Subi às frias montanhas,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão.
Rasguei certo corpo ao meio...
Vi certa curva em teu seio...
Mas a tua vida, não!
 
Só tu! Só tu és verdade!
Quando o remorso me invade
E me leva à confissão...
Povo! Povo! eu te pertenço.
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida, não!
 
Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado,
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não! 
 
Pedro Homem de Mello
miserere (1948)
poesias escolhidas
imprensa nacional-casa da moeda
1983

14 outubro 2026

Um dia um homem também chora *

 A tua guerra, essa luta que travas contra mim, contra todos a quem chamas oponentes, é só tua. Começou, eras menino. Houve uns olhos que te olharam e a denunciaram, um coração em desespero que a partilhou contigo, uma boca que não conseguiu calar a voz amargurada da angústia. Há muitos homens em combate como tu. Que arremessam pedras, disparam tiros e põem bombas durante uma vida inteira. Cegos de raiva. Em toda a esquina topam o inimigo, em cada alma auguram o traidor. Carregam desde meninos a dor de alguém que amaram e que os amou, devolvem-na ao mundo, espalham-na à sua volta, sem nunca duvidarem do que sentem. Erguem o indicador sobre quem estiver à mão, em pequena ou grande falha, ignorando que nesse gesto outros quatro dedos apontam, na sua própria direcção. Não reparam, ocupados que estão na sua douta opinião. “Estarei equivocado?”, é questão que não reclama naquelas mentes. As guerras vêem de longe, sim. Destroem o teu mais intenso amor, a tua paz, a fraternidade que tantas vezes apregoas. Há muito, muito tempo, eras tu tão pequenino, e foi profundamente injusto, insano, inconsequente. 

Homens, procurem a origem do vosso inferno. Persigam a razão da vossa guerra. Revejam, tim-tim por tim-tim, o que assistísteis quando meninos. De que misérias fostes vós testemunhas caladas entre os jogos de bola, o caminho da escola, os fins de tarde, as manhãs de sábado, os passeios de domingo, a ida à missa? No vosso quarto, à mesa de jantar, no silêncio aterrador da madrugada? Do que sentistéis, talvez não tereis lembrança. Ou surgirão vagas recordações de uma criança simplesmente amedrontada. Mas ficai certos: dentro de vós, como num papiro milenar, se guardam tais vivências descritas ao milímetro. Têm a forma de terríveis consequências e poder sobre a vossa condição. Desabrocham como ervas daninhas entre as vossas opiniões, acções, reflexões. Toldam o timbre das vozes e manipulam os gestos mais naturais. Homens, não se detenham. Procurai a origem do vosso inferno, a razão de toda a guerra, e voai, sem medo. 

DaLheGas

* publicado originalmente a 18 de Julho de 2009

13 outubro 2026

Textos dos dias que correm

O Princípio da Simpatia e Antipatia

O princípio da simpatia e antipatia tende ao máximo a pecar por severidade excessiva. Tende ele a aplicar castigo em muitos casos em que é injusto fazê-lo, e, em casos em que se justifica uma punição, a aplicar severidade maior do que a merecida. Não existe acto algum imaginável, por mais trivial e por menos censurável que seja, que o princípio da simpatia e antipatia não encontre algum motivo para punir. Quer se trate de diferenças de gosto, quer se trate de diferenças de opinião, sempre se encontra motivo para punir. Não existe nenhum desacordo, por mais trivial que seja, que a perseverança não consiga transformar num incidente sério. Cada qual se torna, aos olhos do seu semelhante, um inimigo e, se a lei o permitir, um criminoso. Este é um dos aspectos sob os quais a espécie humana se distingue - para seu desabono - dos animais.

Por princípio de simpatia e antipatia entendo o princípio que aprova ou desaprova certas acções, não na medida em que estas tendem a aumentar ou a diminuir a felicidade da parte interessada, mas simplesmente pelo facto de que alguém se sente disposto a aprová-las ou reprová-las.Os partidários deste princípio mantêm que a aprovação ou a reprovação constituem uma razão suficiente em si mesma, negando a necessidade de procurar qualquer fundamento extrínseco. Isto, no sector genético da moral; na área específica da política, tais autores avaliam o grau da punição de acordo com o grau de desaprovação.


Jeremy Bentham, in 'Uma Introdução aos Princípios da Moral e da Legislação'

11 outubro 2026

XXVIII Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO – Mateus 22,1-14

Naquele tempo,
Jesus dirigiu-Se de novo
aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo
e, falando em parábolas, disse-lhes:
«O reino dos Céus pode comparar-se a um rei
que preparou um banquete nupcial para o seu filho.
Mandou os servos chamar os convidados para as bodas,
mas eles não quiseram vir.
Mandou ainda outros servos, ordenando-lhes:
‘Dizei aos convidados:
Preparei o meu banquete, os bois e os cevados foram abatidos,
tudo está pronto. Vinde às bodas’.
Mas eles, sem fazerem caso,
foram um para o seu campo e outro para o seu negócio;
os outros apoderaram-se dos servos,
trataram-nos mal e mataram-nos.
O rei ficou muito indignado e enviou os seus exércitos,
que acabaram com aqueles assassinos e incendiaram a cidade.
Disse então aos servos:
‘O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos.
Ide às encruzilhadas dos caminhos
e convidai para as bodas todos os que encontrardes’.
Então os servos, saindo pelos caminhos,
reuniram todos os que encontraram, maus e bons.
E a sala do banquete encheu-se de convidados.
O rei, quando entrou para ver os convidados,
viu um homem que não estava vestido com o traje nupcial.
E disse-lhe:
‘Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?’.
Mas ele ficou calado.
O rei disse então aos servos:
‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o às trevas exteriores;
aí haverá choro e ranger de dentes’.
Na verdade, muitos são os chamados,
mas poucos os escolhidos».

10 outubro 2026

Pensamentos Impensados

Caçadas. Quem rouba fruta chama-se caçador frutífero.

Veterinária. Hipo-tenusa é uma doença dos cavalos.

Publicidade. Vi um anúncio a sapatos em segunda mão; não faz sentido. A única coisa em segunda mão são as luvas.

Culinária. Fabergé, o grande fabricante de ovos, saberia fazer ovos estrelados?

Dinheiro. Tenho uma máquina de fazer notas falsas, mas está obsoleta: só faz escudos. Pelo sim, pelo não, vou guardá-la.

SdB (I) 

09 outubro 2026

Poemas dos dias que correm

 Canção do verdadeiro abandono

Podem todos rir de mim,
Podem correr-me à pedrada
Podem espreitar-me à janela
E ter a porta fechada.
 
Com palavras de ilusão
Não me convence ninguém.
Tudo o que guardo na mão
Não tem vislumbres de além.
 
Não sou irmã das estrelas,
Nem das pombas, nem dos astros.
Tenho uma dor consciente
De bicho que sofre as pedras
E se desloca de rastros.  
 
Natércia Freire
rio infindável (1947)
antologia poética
assírio & alvim
2001

07 outubro 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 AS NOVAS 7 MARAVILHAS DE PORTUGAL 

Em 2007, foram votadas pelo público a escolha das 7 maravilhas do património e da identidade nacionais, aproveitando o facto de estar a decorrer a atualização das novas 7 Maravilhas do Mundo, que foram anunciadas, em Lisboa, no dia 7 do mês 7 (Julho). 

Inspirada nas maravilhas globais, nasceu o projeto «7 Maravilhas de Portugal» (https://7maravilhas.pt/), que continua a submeter à votação popular e das autarquias a escolha de novas maravilhas arquitectónicas, gastronómicas, paisagísticas, etc. Uma das categorias mais interessante (creio) incide sobre as maravilhas portuguesas além-fronteiras. Impressiona a quantidade e a qualidade de muitas, fruto dos cinco séculos da presença portuguesa pelas quatro partidas do mundo. 

Este ano, as novas maravilhas nacionais foram anunciadas em Sintra, no dia 12 de Setembro, recaindo sobre um grupo variado de espaços, que evita repetir os monumentos mais óbvios, já votados em sondagens anteriores. As novas coqueluches têm em comum a riqueza histórica característica de um país antigo:  

Castelo de Leiria, mandado construir por D.Afonso Henriques, em 1135.
Bem preservado, vale a visita. 

O Aqueduto (maneirista) da Usseira, em Óbidos, que foi iniciado em 1573, no reinado de D.João III.

Ruínas da vila romana de São Cucufate Ruins, em Vila de Frades.
À dta. - versão reconstruída da casa principal. 

Sé Catedral de Lisboa, edificada logo após a conquista da cidade aos mouros, no alvor da nacionalidade – 1147, mas só concluída no século seguinte, por volta de 1220.

Junto à Ria Formosa, subsistem os Mercados de Olhão (do 1º quartel do séc.XX), um para o peixe e outro para os legumes. Em estrutura de ferro, revestida a tijolo e vidro, adoptou a moda das grandes construções da Revolução Industrial. 

Ousadia arquitectónica, do início do séc.XXI (2004), abriga a Casa Vinícola “Tiago Cabaço”,
localizada na Quinta da Berlica, em Estremoz.

Jardim barroco do Paço Episcopal de Castelo Branco deslumbra pela azulejaria, as estátuas, os inúmeros lagos com jogos de água, as escadarias em pedra para o acesso aos diferentes patamares e os canteiros dos jardins à francesa. Datado do séc.XVIII, foi dedicado a S.João Baptista e encontra na água o elemento central, símbolo da purificação. Durante a República, passou para a posse do Estado.

Abrigado junto ao Atlântico, este país milenar teve a arte de resistir às ofensivas de Castela, de cruzar raças e civilizações e de se esgueirar mar adentro para crescer e se desenvolver em paragens mais longínquas. Assim recebeu (e deixou) influências da Ásia, de África, das Américas, consolidando uma matriz sábia, subtil, feita de muitos silêncios e poesia. Alguma conseguiu chegar ao fado, como cantou Amália na composição de José Régio sobre o mais famoso canto português. Outra continuou só nas letras, como Florbela Espanca nas linhas onde repassou o país:  

« O TEU OLHAR  (…)

Mares onde não cabem teus desejos; 
Passam no teu olhar mundos inteiros,
Todo um povo de heróis e marinheiros,
Lanças nuas em rútilos lampejos;

Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,
Em centelhas de crença e de certeza! 

E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!»


Hoje, cumprindo-se outra tradição mariana e muito portuguesa, a AIS (Ajuda à Igreja que Sofre) volta a juntar um Milhão de Crianças para rezar o Terço pela paz no mundo.  Caberá aos mais novos animar a oraçao, transmitida a partir da Capelinha das Aparições (Fátima), às 18h30.  Esperemos que o clamor dos mais novos ajude a aliviar as tensões dramáticas destes tempos tão agitados, que resistem mal a tanta provocação perigosa... 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

06 outubro 2026

Moleskine *

Desceu a rua, atravessou a estrada e voltou à esquerda. Esperou que o comboio das vinte e oito passasse antes de se aventurar no túnel. Não havendo memória de acidentes naquele túnel, ele sabia que o receio lhe assentava mal, como uma pústula incomodativa na face imberbe de uma criança. Repetiu rotinas: olhou para o mar, depois para a direita e para a esquerda, fixou as horas no telemóvel. Só depois se atirou a uma espécie de marcha lenta, algo semelhante a um passeio rápido. 

Ao quilómetro 1,250 cruzou-se com a russa, corpo de lançadora de peso, que palmilhava falando demoradamente ao telefone; alguns metros depois encontrou a jovem adolescente que corria ligeira e que sempre o impressionara pela magreza dos pés, pernas, coxas e ancas, transformando a futura maternidade num exercício quase impossível: onde caberia um feto com três quilos ali dentro? Continuou o passeio e cruzou-se com a temente a Deus, pouco antes do quilómetro 2,500, uma caminhante de braços muito abertos, com um terço numa mão e uma garrafa de água na outra, acenando a toda a gente, como se o mundo dela girasse entre avé-Marias e catiões; já ao quilómetro 2,850 encontrou a rapariga bonita e com boa figura, rondando os 30 anos, que se cruzava com ele baixando os olhos, vítima inconsciente, quiçá, de uma cultura injusta de submissão feminina; mais à frente era o bancário absorto na sua música, depois o idoso com os pés metidos para dentro num andar vagaroso, a senhora elegante que ao longe poderia ser uma das próprias filhas, o que a tornaria numa tia dos netos que já tinha, e ainda os atletas que corriam suados e esforçados, ou as colegiais que àquela hora matutina já fumavam junto às gaivotas e beijavam os namorados numa boca que ainda sabia a noite.

No dia seguinte tudo se repetia: o túnel, a russa, o bancário talvez não, o idoso dos pés metidos para dentro, a adolescente com a espessura de um pergaminho, as colegiais de beijos dengosos e cabelos matutinos já a cheirar a fumo, a rapariga dos 30 anos que baixava os olhos e cujo oscilar dos braços era ligeiramente assimétrico, a temente a Deus, os atletas e mais o homem que punha as cadeiras da esplanada num alinhamento de zona exclusiva, os pescadores, os jovens surfistas a olhar para o mar e a cavalgar a onda, o homem com o labrador, a estrangeira a dar instruções alemãs ao rafeiro, as duas amigas entretidas na sua conversa, o antigo ministro, e tantos outros. De todos estes personagens fixaria a rapariga dos 30 anos pela graça física e pelo mistério, inventando-lhe histórias, imaginando-lhe livros preferidos, motivos de riso e de choro, irmãos, namorados, intensidade dos beijos, fetiches, desejos, bolos preferidos, formas do corpo, sensualidades escondidas. 

Tudo se intensificaria quando uma dia, numa distracção qualquer, quase chocara com ela e lhe pedira desculpa, tocando-lhe ao de leve num braço. Sorriram, porque afinal já se conheciam dali, de todos os dias, do quilómetro 2,850, talvez, ou um pouco antes, se ele passasse o túnel antes do comboio das vinte e oito. Ao cruzarem-se na volta inversa voltaram a sorrir um para o outro e ela corou, olhando para o chão, engolindo a resposta a um até amanhã que ansiava por um sinal claro.   

Mudemos de tempo verbal. 6ªfeira desce a rua, atravessa a estrada, e volta à esquerda. Espera que passe o comboio e atravessa o túnel. O mar está alteroso, nuvens negras formam-se no céu a uma velocidade vertiginosa. Olha para a esquerda e para a direita, fixa as horas no telemóvel. Começa a andar mas não encontra ninguém, porque o tempo não está propício nem mesmo para os atletas, e as colegiais beijarão os namorados de calças caídas noutro lugar menos bonito, mas igualmente eficiente para o fim em questão. Dois minutos depois caem bolas de golfe do céu, como se o granizo fosse vómito mecânico de um dispositivo desregulado e violento. Regressa rapidamente ao túnel que se transforma agora no seu nautilus, no seu mundo seguro onde tudo está ao alcance de uma mão, ainda que o universo desabe em água e gelo. Dois minutos depois, ao som de uma trovoada gigante, entra a rapariga dos 30 anos, e os olhares de ambos cruzam-se numa fugacidade quase incómoda. Estão ali os dois, em silêncio e numa prisão, porque abandonar o túnel é largar a nave rumo à ausência da gravidade, à inexistência das coisas. 

Há o medo do granizo, do ruído, do mar alteroso, da escuridão que tudo envolve, da água onde já se chapinha nas extremas do túnel. Há o desejo latente, a protecção, a certeza de que nada mais mexe a não ser o coração de cada um, o sangue que corre desenfreado nas veias, uns braços que se agitam numa ligeira assimetria, uns olhos que fixam o chão num pudor de faces coradas, a curvatura de umas costas que desaguam em duas dunas, umas mãos que querem soltar-se. Há uma respiração mais ofegante e que projecta fumos intensos, uma aproximação gradual dos corpos e das vontades, o granizo, o vento, duas bocas entreabertas, dois rostos que se vêm embora vislumbrem ambos o mar que cresce ao limite do temor físico. Não há nomes, apenas encontros regulares ao quilómetro 2,850 ou antes, depende do comboio das vinte e oito, das greves, da operacionalidade do material circulante, da resistência da catenária.

O telefone toca insistentemente, metalicamente, inoportuno e desajeitado. Do lado de lá uma voz irritada:

- Estou! Zé Maria? É o Martim. Eh pá, estou cá em baixo há meia-hora! Adormeceste, pá?  

Zé Maria, assim se chama ele, olha em volta do quarto, agitado e confuso. Vê os livros de gestão hoteleira, o retrato do avô quando fez 80 anos, a saga do senhor dos anéis, o diploma de melhor jogador juvenil no seu primeiro torneio de golfe, as fotografias com a Carlota em Aspen e Angra dos Reis, a prancha de surf, uma gravata com o nó ainda feito, umas calças de fazenda atiradas para uma cadeira, a fotografia da mãe com o padrasto em Veneza, do pai com um capacete na Arábia Saudita, da irmã não sabe onde. Olha em volta e não encontra a rapariga dos 30 anos, não vê granizo, não ouve o mar, não sente o vento nem a curvatura de umas costas que desaguam em duas dunas. 

- Ouve lá, Martim. Se eu adormecer agora ainda consigo recuperar um sonho? 

JdB

* publicado originalmente a 26 de Fevereiro de 2013

04 outubro 2026

XXVII Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Mt 21,33-43

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo:
«Ouvi outra parábola:
Havia um proprietário que plantou uma vinha,
cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar
e levantou uma torre;
depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe.
Quando chegou a época das colheitas,
mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos.
Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos,
espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram-no.
Tornou ele a mandar outros servos,
em maior número que
os primeiros.
E eles trataram-nos do mesmo modo.
Por fim, mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo:
'Respeitarão o meu filho'.
Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si:
'Este é o herdeiro;
matemo-lo e ficaremos com a sua herança'.
E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no.
Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?».
Eles responderam:
«Mandará matar sem piedade esses malvados
e arrendará a vinha a outros vinhateiros,
que lhe entreguem os frutos a seu tempo».
Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura:
'A pedra que os construtores rejeitaram
tornou-se a pedra angular;
tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos'?
Por isso vos digo:
Ser-vos-á tirado o reino de Deus
e dado a um povo que produza os seus frutos».

03 outubro 2026

Pensamentos Impensados

Sim e não. Manuel Alegre escreveu há sempre alguém que diz não. Por que razão Elizabeth Taylor, Henrique VIII e Charlie Chaplin casaram tantas vezes? Porque há sempre alguém que diz sim.

Judiarias. Sabia tão pouco da religião judaica que pensava que Tora era aquele bocado de chouriço que se põe no caldo verde.

Sufrágios. Dizem que os judeus são um povo eleito; eu pensava que povo eleito eram os deputados.

Doença. O aparecimento de gordura à volta da cintura, a partir de uma certa idade, é uma doença, e chama-se pneu-monia.

A mesma doença. Pessoas que só pensam em livrar-se do pneu sofrem de pneu-mania.

SdB (I)

 

02 outubro 2026

Poemas dos dias que correm *

 O olho que vê

Os cães pequenos olham para os cães grandes;
Observam as intratáveis dimensões
E as curiosas imperfeições do odor.
Eis um grupo de machos compenetrados:
Os homens jovens olham de cima os mais velhos
Consideram-lhes a mente de meia-idade
Observam-lhes as correlações inexplicáveis.

Tsin-Tsu disse:
Somente nos cães pequenos e nos jovens
Encontramos a observação minuciosa.

ezra pound
antologia poética
personae
tradução m. faustino
editora ulisseia
1960

* tirado daqui

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