04 julho 2026

Pensamentos impensados

Atendendo a que Portugal é um dos melhores fabricantes de calçado, são de acarinhar os turistas de pé descalço, pois são potenciais compradores de sapatos.

Visitas guiadas. Há cerca de 50 anos visitei o Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães; nesse tempo não havia guias nem cicerones, e as visitas eram guiadas por contínuos ou porteiros. A pessoa que guiou o grupo lá foi debitando umas patacodas até que a certa altura, e para acabar, encolheu os ombros e disse: coisas dos tempos dos Condes e dos Marqueses.

Derrapagem. Quando há derrapagens nas obras públicas, alguém se lembra de mandar soprar no balão os ministros envolvidos?

SdB (I)

03 julho 2026

Textos dos dias que correm

 Aprendiendo 

Después de un tiempo, uno aprende la sutil diferencia entre sostener una mano y encadenar un alma, y uno aprende que el amor no significa acostarse y una compañía no significa seguridad, y uno empieza a aprender...

Que los besos no son contratos y los regalos no son promesas, y uno empieza a aceptar sus derrotas con la cabeza alta y los ojos abiertos, y uno aprende a construir todos sus caminos en el hoy, porque el terreno de mañana es demasiado inseguro para planes...y los futuros tienen una forma de caerse en la mitad. 

Y después de un tiempo uno aprende que si es demasiado, hasta el calor del sol quema. Así que uno planta su propio jardín y decora su propia alma, en lugar de esperar a que alguien le traiga flores. Y uno aprende que realmente puede aguantar, que uno realmente es fuerte, que uno realmente vale, y uno aprende y aprende... y con cada día uno aprende. Con el tiempo aprendes que estar con alguien porque te ofrece un buen futuro, significa que tarde o temprano querrás volver a tu pasado. 

Con el tiempo comprendes que sólo quien es capaz de amarte con tus defectos, sin pretender cambiarte, puede brindarte toda la felicidad que deseas. Con el tiempo te das cuenta de que si estás al lado de esa persona sólo por acompañar tu soledad, irremediablemente acabarás no deseando volver a verla. Con el tiempo entiendes que los verdaderos amigos son contados, y que el que no lucha por ellos tarde o temprano se verá rodeado sólo de amistades falsas.

Con el tiempo aprendes que las palabras dichas en un momento de ira pueden seguir lastimando a quien heriste, durante toda la vida. Con el tiempo aprendes que disculpar cualquiera lo hace, pero perdonar es sólo de almas grandes. Con el tiempo comprendes que si has herido a un amigo duramente, muy probablemente la amistad jamás volverá a ser igual. Con el tiempo te das cuenta que aunque seas feliz con tus amigos, algún día llorarás por aquellos! que dejaste ir. Con el tiempo te das cuenta de que cada experiencia vivida con cada persona es irrepetible.

Con el tiempo te das cuenta de que el que humilla o desprecia a un ser humano, tarde o temprano sufrirá las mismas humillaciones o desprecios multiplicados al cuadrado. Con el tiempo aprendes a construir todos tus caminos en el hoy, porque el terreno del mañana es demasiado incierto para hacer planes. Con el tiempo comprendes que apresurar las cosas o forzarlas a que pasen ocasionará que al final no sean como esperabas. Con el tiempo te das cuenta de que en realidad lo mejor no era el futuro, sino el momento que estabas viviendo justo en ese instante.

Con el tiempo verás que aunque seas feliz con los que están a tu lado,añorarás terriblemente a los que ayer estaban contigo y ahora se han marchado. Con el tiempo aprenderás que intentar perdonar o pedir perdón, decir que amas, decir que extrañas, decir que necesitas, decir que quieres ser amigo, ante una tumba, ya no tiene ningún sentido. Pero desafortunadamente, solo con el tiempo...”

Jorge Luis Borges

01 julho 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 AMOR COMO ARTE  

Se há palavra gasta no vocabulário comum é ‘amar’ em todas as derivações, até ao expoente, quando merece ser substantivado. A centralidade do tema para os humanos explica o seu uso intensivo (por vezes, abusivo), com os inevitáveis desvios semânticos que as visões pessoais vão imprimindo ao conceito. Para o caso, serão residuais as manipulações de uns poucos, que se apropriam do termo para o instrumentalizar, apostando na relevância daquele som mágico para a maioria.      

Apesar das adulterações (especialmente intensas, a partir do séc. XIX, misturando-se equívocos conceptuais com jogadas de marketing), não é fácil recuperar o conceito original com uma abordagem simples, sem simplismos, e concisa, apanhando-lhe o epicentro semântico. Esse será o grande mérito de uma breve reflexão baseada no pensamento do sociólogo, psicanalista e filósofo germano-americano judeu – Erich Fromm (1900-1980).  Nalguns aspectos, poderá soar algo extremada, como se percebe num académico que sabe estar em contra-corrente com a cultura dominante do pós Guerra, no Ocidente. Porém, Fromm consegue apontar à essência de um tema tão vasto e escorregadio, focando-se nas suas principais coordenadas, associadas à consciência, à liberdade exercida com lucidez e sentido positivo, e menos à emoção, aos sentimentos, à paixão per se. 


Talvez as convicções de Fromm não sejam as esperadas, pois reconhece sacralidade no amor, enquanto se autodefine como ateu místico. Nascido numa família alemã judia muito religiosa, com uma dinastia de rabinos, acabou por perder a fé e abandonar a Alemanha, logo em 1934, depois de Hitler subir ao poder. Doutorou-se em sociologia e enveredou pela psicanálise freudiana, depois seguindo derivas próprias. Politicamente, era socialista marxista, mas viveu anos nos EUA, onde se assumia como pacifista. Acabou por se incompatibilizar com as universidades norte-americanas e mudou-se para o México. Acabou os seus dias na Suíça. 

A reflexão aqui postada retira ideias do seu livro de 1956: «A Arte de Amar». O arranque interpelativo tira-nos da zona de conforto – «Love is not a feeling, it’s a practice» – assim forçando um reposicionamento do tema, que vai directo ao âmago da questão: «Love is an act of faith. (…) Love is an art. Like music or painting, it demands knowledge, effort, discipline (…). There’s a dangerous idea that love is passive, that it happens to us. To love is to give, without losing yourself (…), to be responsible for another’s heart, without trying to own it. (…) It take roots in small acts. (…) We were not born knowing how to love, we were born needing it. Learning to give it is a work of a lifetime. (…) Next time you wonder why love feels hard, remember, it’s not that it’s impossible, it’s that it’s sacred. And sacred things take time.».  


Como para a generalidade dos conselhos, também com Fromm se ganha em ficar apenas com o que vale a pena e nos ajuda. Dá que pensar, reverberar nas dicas de um sociólogo psicanalista ateu a frase luminosa de Leão XIV – Magnifica humanitas...

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas) 

30 junho 2026

Crónica de um doutorando tardio

Em 1984 formei-me em Engenharia Mecânica no Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL). Em 2012, desafiado por uma amiga, inscrevi-me numa pós-graduação intitulada Artes da Escrita (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa). Nesse mesmo ano, impulsionado por um professor, candidatei-me ao Programa em Teoria da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tendo concluído o mestrado em 2015. Em Setembro deste ano, em correndo tudo bem, completarei o doutoramento no mesmo programa, na mesma universidade.

O parágrafo acima tem pouco de vaidade, tem muito - quase tudo de gozo. Em bom rigor, há dois momentos de vaidade: a conclusão de um curso em engenharia que detestei desde o primeiro dia; e a (re)entrada aos 55 anos numa faculdade totalmente desconhecida, para ouvir e discorrer sobre temas que, nalguns casos, me foram particularmente difíceis de seguir. A vaidade está na saída - quase forçada num caso, e totalmente voluntária noutro - da minha zona de conforto. Tudo o resto - e esse resto é muito - é gozo, puro gozo.

Desde 2013 que me sento na mesma aula, quase sempre no mesmo lugar (as obsessões funcionam assim...) a ouvir falar de temas e de autores que, ou conhecia pouco, ou sobre os quais / de quem tinha lido quase nada, ou que desconhecia por completo. As estantes de minha casa encheram-se de livros que nunca leria, de autores que não constavam da minha lista de intenções. A vida é maldosamente irónica: há 40 anos eu tinha uma memória óptima e sabia muito pouco da vida, e talvez fosse incapaz de relacionar estes autores / temas uns com os outros, ou com o meu próprio caminho. Hoje tenho uma experiência de vida diferente e consigo relacionar (quase) tudo; já não tenho é a memória de antes...

Nestes últimos 15 anos fiz bons amigos na Faculdade, todos com idade para serem meus filhos. Conheci muitos outros estudantes com quem tive menos contactos ou proximidade. Todos eles são pessoas muito interessantes, a defenderem teses ou mestrados em temas difíceis, a discorrerem sobre temas que me interessaram. A maioria deles, talvez, terá um futuro interrogado na área que escolheram...

O doutoramento não conclui quase nada, a não ser um capítulo da minha vida que tem 25 anos e que, por isso, merece ser posto no papel. A minha relação com a oncologia pediátrica foi de tal forma humanamente rica que merecia que eu fizesse alguma coisa com isso. O resto não se altera. Em Setembro conto sentar-me na mesma aula, no mesmo lugar, a ouvir professores que já conheço que me apresentarão  teorias interessantes sobre livros que não li, de cujos autores li outras coisas ou nada. Vou encher-me de gozo com mais estas descobertas, vou encher-me de frustração com a memória e capacidade de retenção que vão desaparecendo. E vou ver caras conhecidas de pessoas que me tratam com amizade e deferência. Afinal, entre eles e eu há 40 anos de diferença...

JdB     

  

28 junho 2026

XIII Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Mt 10,37-42

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos:
"Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim,
não é digno de Mim;
e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim,
não é digno de Mim.
Quem não toma a sua cruz para Me seguir,
não é digno de Mim.
Quem encontrar a sua vida há-de perdê-la;
e quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la.
Quem vos recebe, a Mim recebe;
e quem Me recebe, recebe Aquele que Me enviou.
Quem recebe um profeta por ele ser profeta,
receberá a recompensa de profeta;
e quem recebe um justo por ele ser justo,
receberá a recompensa de justo.
E se alguém der de beber,
nem que seja um copo de água fresca,
a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo,
em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa".

27 junho 2026

Pensamentos Impensados

A espada de Dâmocles pode ser considerada uma pena suspensa

Quando há incêndios e os jornalistas querem saber quantos homens o combatem, perguntam quantos meios estão no terreno. Será que 40 homens equivalem a 80 "meios"?

O ouriço-do-mar, devido a um fenómeno chamado partenogénese, não precisa de parceiro para se reproduzir. Poderá chamar-se família monoparental?

Os hooligans gritam palavras de ordem ou palavras de desordem? 

SdB (I)


26 junho 2026

Poemas dos dias que correm



Manhãs brumosas   
 
Aquela, cujo amor me causa alguma pena,
Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, bucólica, morena,
Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.
 
Que línguas fala? A ouvir-lhe as inflexões inglesas,
- Na névoa, a caça, as pescas, os rebanhos! -
Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas;
E o meu desejo nada em época e banhos,
E, ave de arribação, ele enche de surpresas
Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos.
 
As irlandesas têm soberbos desmazelos!
Ela descobre assim, com lentidões ufanas,
Alta, escorrida, abstrata, os grossos tornozelos;
E como aquelas são marítimas, serranas,
Sugere-se o naufrágio, as músicas, os gelos
E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.
 
Parece um rural boy! Sem brincos nas orelhas,
Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos,
Botões a tiracolo e aplicações vermelhas;
E à roda, num país de prados e barrancos,
Se as minhas mágoas vão, mansíssimas ovelhas,
Correm os seus desdéns, como vitelos brancos.
 
E aquela, cujo amor me causa alguma pena,
Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, católica, morena,
Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.  
 
cesário verde
o livro de cesário verde e outros poemas
penguin clássicos
2024

24 junho 2026

Textos dos dias que correm

 "Isto de religião está cada vez pior dentro de mim. Depois de uns arrancos fundos e angustiosos, a coisa foi secando, secando, até chegar a esta mirra mística, que já não há Jordão teológico capaz de vivificar.

Mas quanto mais pobre estou desse conteúdo humano, mais cheio me sinto de desespero. O que eu dava para me levantar cedo esta manhã, ir à missa, e voltar da igreja com a cara que trazia o meu vizinho!
Não é que eu tenha verdadeiramente pecados, ou que, se os tivesse, algum Deus fosse capaz de me lavar deles. (Até o último aldeão sabe que quando muda um marco não há céu que lhe benza a maroteira).
Queria era sentir-me ligado a um destino extra-biológico, a uma vida que não acabasse com a última pancada do coração."

(Miguel Torga (“Diário I vol.)

***

"Ser incréu custa muito! É dia de Páscoa. O gosto que eu teria de beijar também o Senhor, se acreditasse! Assim, olho a fé dos outros em aleluia, e fico nesta tristeza agnóstica que faz da vida uma agónica aventura sem esperança de ressurreição."

(Miguel Torga, Diário XIII)

23 junho 2026

De como os outros nos vêem

Nos últimos anos tenho frequentado aquilo a que talvez se chame clubes de homens - e uso esta expressão para diferenciar estes clubes de outras agremiações - clubes de futebol, de bairro, de outras actividades lúdicas ou desportivas mais ou menos amadoras. A expressão clubes de homens também está actualmente parcialmente desactualizada; apesar de muitos terem começado com sócios masculinos apenas, outros sempre foram mistos ou, noutro caso, embora não aceitando senhoras como sócias, recebem-nas com gosto ao almoço, ficando numa sala diferente, juntamente com os homens que também não são sócios. 

Sentarmo-nos à mesa nestes clubes é uma actividade social: vamos com amigos, encontramos amigos, fazemos amigos ou limitamo-nos a conhecer pessoas. As conversas são variadas: pode falar-se de futebol ou de política (pouco, felizmente), de finanças ou de corridas de touros, podem contar-se histórias antigas da família ou do Portugal de outros tempos, ou lembrar sócios ausentes. À mesa podem estar 7 pessoas ou 20 e tudo isso também contribui para que as conversas variem muito; por vezes fazem-se grupos, por vezes todas as pessoas conversam sobre o mesmo tema. Por vezes a companhia é boa, por vezes nem por isso. Nada de muito espantoso, portanto - menos ainda de secreto. Quando se chega a casa é natural que nos perguntem: então a mesa no clube X? Era uma boa mesa? Reportamos quem estava, do que se conversou, o que era o almoço. Igualmente, nada de muito espantoso.

É natural que nestes clubes haja um ou mais empregados a servirem à mesa, ou a darem apoio à refeição - estão por ali, em movimento ou parados, prontos para o que for preciso. Ao contrário de um restaurante, estes empregados podem servir apenas uma mesa composta por um grupo homogéneo de pessoas. Um dia destes, ao olhar para um deles que seguia de forma muito interessada uma conversa sobre a actividade bancária do antigo regime - quem era quem, quem tinha feito o quê ou quem tinha sido administrador de que banco - dei por mim a pensar: o que lhe pergunta a mulher quando ele chega a casa, e o que lhe diz ele? Isto é, como olha ele para um conjunto de 15 ou 20 pessoas engravatadas, que falam disto e daquilo, desde o golfe à Feira de Sevilha, passando pelos novos sócios ou pela comparação com outros clubes? E o que diz ele à mulher como informação relevante: fala nos nomes (todos estes empregados conhecem os nomes dos sócios), no que cada um disse, no nível da gorjeta, nas conversas? 

O sócio olha para o empregado e vê-lhe simpatia, educação, bom serviço. Mas não lhe exige discrição, pelo que, chagado a casa, o empregado X se sente à vontade para comentar o almoço e os comensais. O que dirá ele, caso alguém se interesse pelo seu dia de trabalho? Como é que os empregados de um clube vêem os sócios? 

JdB   

21 junho 2026

Para um começo de semana sereno (LVI)

 

XII Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Mt 10,26-33

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos:
"Não tenhais medo dos homens,
pois nada há encoberto que não venha a descobrir-se,
nada há oculto que não venha a conhecer-se.
O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia;
e o que escutais ao ouvido proclamai-o sobre os telhados.
Não temais os que matam o corpo,
mas não podem matar a alma.
Temei antes Aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo.
Não se vendem dois passarinhos por uma moeda?
E nem um deles cairá por terra
sem consentimento do vosso Pai.
Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.
Portanto, não temais:
valeis muito mais do que os passarinhos.
A todo aquele que se tiver declarado por Mim
diante dos homens
também Eu Me declararei por ele
diante do meu Pai que está nos Céus.
Mas àquele que me negar diante dos homens,
também Eu o negarei
diante do meu Pai que está nos Céus".

20 junho 2026

Pensamentos Impensados

Coisas impensáveis 

O Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas fica a meio caminho entre Sintra e Ericeira. Foi construído em 1995 pela Câmara Municipal de Sintra e consta, principalmente, de "pedras" romanas, tais como lápides, sarcófagos etc. Há cerca de 50 anos visitei-o pela primeira vez, e não passava de um amontoado de pedras que estavam ao ar livre num terreno murado. 

(Se não era assim era parecido; já lá vão 50 anos). 

Quando quis entrar deparei-me com a porta fechada; indaguei quem tomava conta e informaram-me que era a "Sra. Maria", que estaria no campo a trabalhar; fui ter com a senhora e pedi-lhe para me franquear a entrada; acedeu contrariada, pois estava a trabalhar. Durante a visita vi vários sarcófagos, em pedra, que continham esqueletos do tempo dos romanos; também vi que por ali passeavam cães. Mostrei estranheza à guia / conservadora, que só me disse: É, às vezes abalam com os ossos.

SdB (I) 

19 junho 2026

Poemas dos dias que correm *

 the horizon just laughed

vinte anos para descobrir que afinal houve uma fresta,
a possibilidade de uma centelha e de toda uma vida diferente
entre esse ponto A e este ponto B onde, desalegres e bebidos,
matamos mágoas destes vinte anos tão bem e tão mal vividos.
de súbito, eras outra vez tu nos teus vinte e poucochinhos anos
ou, creio bem, seria eu, num etilizado e furioso "rewind",
em busca destes anos, destes tantos anos tontos.
a luz do cigarro iluminou-te tenuemente - como és bela, pensei -,
enquanto semi-dançavas sentada canções antigas.
sim, sempre o amor, agora como dantes como amanhã,
a única coisa viva em toda uma cidade que dorme.
os anos passaram, rapariga (obrigado, Manuel, pelas palavras)
e nós estamos apenas mais longe de termos acertado
e tão mais perto de termos falhado essa nossa outra vida.

o horizonte riu-se.
o táxi cruzou a jamais nossa cidade.
e eu disse-te adeus, até outra vida, menina.

gi

* publicado originalmente a 13 de Novembro de 2018

17 junho 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

AUSCHWITZ NO TEMPO DE NERO  

Lembro-me bem da visita ao aterrador Campo de Concentração em Auschwitz, a 70 km da lindíssima cidade polaca de Cracóvia. Enregelei com o frio cortante de janeiro, apesar de estar bem agasalhada e de haver algum sol, ainda que pálido. Os -15º C pioram com a mais leve brisa, doendo até aos ossos. Nem imagino o que seja aguentar aquelas temperaturas negativas nas longas noites da Europa Central, apenas vestida com as célebres fardas de sarja às riscas azuis e brancas. 

No horror que aquele espaço evoca, chocou-me o aspecto organizado e harmonioso do casario imenso de Birkenau, ordenado como um magnífico acampamento romano a espraiar-se por uma planície imensa, coberta do branco lustroso da neve fofa. Do lado de fora do muro, erguiam-se cedros de folhagem  verdejante, dando solenidade e força àquela paisagem límpida. Que paradoxo aquela beleza tranquila ter sido o cenário de um genocídio monstruoso, felizmente erradicado há 81 anos!  

A crueldade da paisagem de Auschwitz, insensível à barbárie sanguinária ali perpetrada, reverbera de forma ampliada nas festas sumptuosas do imperador romano, que instituiu uma perseguição pérfida e incompreensível a um grupo religioso, que nada lhe fizera. Depois de Nero ter ateado fogo à cidade de Roma (segundo reza a história), resolveu passar as culpas do tremendo flagelo para os cristãos, impondo-lhes o pior anátema: a morte da forma mais escabrosa e indigna, sacrificando as vítimas como joguetes de diversão nos espectáculos insanos do Coliseu romano. Ou, pior ainda, usando-os como tochas vivas para iluminar as alamedas dos jardins imperiais! Não há palavras para tamanho horror, mas felizmente ficou a memória histórica desses crimes indecorosos e do escândalo daqueles festins hediondos, manchados de sangue inocente. 

A arte tem sido pródiga na denúncia do mal e na revelação da subtileza complexa daquela iniquidade. Além de fazer jus aos factos, relembrando séculos de mortandade gratuita, tem sido incansável a expor o emaranhado paradoxal de um tipo de perfídia estranhamente compatível com uma certa beleza exterior. Coube, precisamente, a um pintor polaco compor a tela intitulada «As Tochas de Nero», também conhecida por «As Velas da Cristandade», referindo-se aos lampiões de carne-e-osso que iluminaram as repugnantes festas de um dos imperadores mais depravados e ferozes da Roma antiga. Nem de propósito, a obra de Henryk Hektor Siemiradzki (1843-1902) está exposta no Museu de Cracóvia, a uns escassos 70 km de Auschwitz… 

«As Tochas de Nero» - pintado por Henryk Hektor Siemiradzki, em 1876/78. © Museu Nacional de Cracóvia

Para dificultar esta difícil equação onde o belo e a infâmia desumana se autoalimentam, calhou aqueles lampiões inofensivos terem dado a vida por Quem lhes pedia para amarem os inimigos! Volta-se à tela de Siemiradzki e não parece fácil sequer tolerar, quanto mais amar, um anfitrião e uns convidados impiedosos, que aceitam participar em festejos onde inocentes são queimados vivos, à sua frente!  O pintor capta com especial acuidade a opulência inebriante dos jardins romanos e o fausto luxuoso da festa de um dos governantes mais poderosos do seu tempo. Em contraponto, o especialista em arte, depois ordenado sacerdote e encarregue da Catedral londrina de Westminter – Pe. Patrick van der Vorst – faz a ponte entre essa mundanidade bela, mas desumana, e a bondade desmesurada (desproporcionada para os padrões humanos) do Mestre dos archotes vivos. No fundo, coloca o dedo na ferida ao convocar a base do amor cristão, que emerge sempre de um acto luminoso de liberdade autêntica, inalcançável para a IA: «when Jesus calls his disciples to love their enemies, he is not speaking primarily about emotions or feelings. He is speaking about an act of the will. Christian love is not sentimental. It means choosing not to hate, refusing to seek revenge, resisting bitterness, and continuing to recognise the dignity of the other person, even when relationships are wounded. To love an enemy does not mean approving of what they have done; it means refusing to allow darkness to have the final word in our own hearts.»

Repassando a história, assaltam-nos perguntas várias: como seria estar na festa do Imperador ou nos shows do Coliseu, em qualquer das posições? Seria louca a maioria da população do magno Império da Pax Romana, como insistem animadamente Asterix e Obelix?... 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas) 

16 junho 2026

Do regresso ao Regimento de Infantaria de Abrantes, 45 anos depois

Há pouco mais de um ano recebi um telefonema proveniente de um número que me era desconhecido: o senhor foi aspirante em Abrantes em 1981?. Confirmei que sim, que estava a cumprir o serviço militar nessa altura e naquele local. O meu nome é x, e o senhor foi meu instrutor há 44 anos... Com mais curiosidade do que indignação, perguntei como tinham conseguido o meu telemóvel. De lá veio uma resposta que me pareceu carregada de malícia, não de arrependimento: "o camarada y é funcionário das Finanças..."

Infelizmente não consegui ir ao almoço que se estava a organizar para juntar os recrutas e instrutores daquela longínqua primeira incorporação de 1981. Este ano, para celebrar os 45 anos desse tempo, juntámo-nos também para uma visita ao quartel de Abrantes, que já foi Regimento de Infantaria 2, Regimento de Infantaria de Abrantes, e agora é Regimento de Apoio Militar de Emergência. 

O que retive deste encontro (e não vale a pena falar do almoço que se seguiu, que foi convívio apenas): 

1. Desde que passei à disponibilidade - Agosto de 1981 - nunca mais tinha entrado no quartel. Curiosamente, achei tudo muito maior; da porta de armas à parada, passando pelas diversas companhias, a minha memória dava a tudo uma dimensão mais pequena. 

2. Parte substantiva do quartel está quase ao abandono ou, pelo menos, sem ocupação nem actividade.

3. No grupo estavam 3 ou 4 recrutas do pelotão a que me coube em sorte dar a recruta. Contaram histórias a meu respeito (nenhuma de que me envergonhe, talvez de que me arrependa) e só me apeteceu perguntar: de quem é que estão a falar?

4. A memória dos soldados que fizeram parte desta incorporação era muitíssimo superior à minha. Penso até que muito superior à memória que tenho da minha própria recruta. e eu sou uma pessoa com boa memória...

5. Nunca tive dúvidas do que liga pessoas que cumpriram o serviço militar em conjunto. Nalguns casos - e que não é o meu - essas pessoas fizeram tropa em tempo de guerra: mataram, viram morrer, confrontaram-se com os estropiados e com o medo, correram perigo de vida, sentiram um grande alívio no regresso à metrópole ou numa cerveja numa esplanada. Eu - e estes recrutas - fomos confrontados com o desconforto de uma farda ou de um rancho pouco melhorado, com um aspirante que podia ser mais duro ou com uma cidade onde não havia vida nocturna. Mas, mesmo assim, há algo que os liga uns aos outros que quase enternece: foram todos contemporâneos de uma fase marcante da vida - ou que parece ser marcante. 

6. Fizemos 1 minuto de silêncio em homenagem a um camarada que morrera há uns anos, vítima de doença, talvez, ou de um desastre de automóvel. De todos os locais do quartel onde poderíamos fazê-lo, escolheu-se o monumento dedicado aos soldados que morreram no ultramar. O meu nome foi referido enquanto pessoa mais graduada do grupo, e o sargento-mor presente (há muito na disponibilidade) proferiu umas palavras a propósito. Atrás de nós, gravado na pedra, o nome dos que morreram ao serviço da Pátria.  

7. A tropa - ou o serviço militar - tem uma carga afectiva muito maior do que aquilo que eu imaginava. Não é sou um tempo de camaradagem, de solidariedade no desenraizamento de casa, de afastamento das rotinas que confortam e do confronto com uma vida feita de regras e disciplina; é um tempo que marca enquanto escola de vida e de valores, que deixa saudades e cria lembranças impactantes, mesmo em tempo de paz. Há todo um vocabulário afectivo e linguístico que acabou. Para as gerações de hoje, ouvir um recruta da primeira incorporação de 1981 em Abrantes é ouvir um ET.

JdB      

 

14 junho 2026

XI Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Mt 9,36-10,8

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus, ao ver as multidões, encheu-Se de compaixão,
porque andavam fatigadas e abatidas,
como ovelhas sem pastor.
Jesus disse então aos seus discípulos:
«A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos.
Pedi ao Senhor da seara
que mande trabalhadores para a sua seara».
Depois chamou a Si os seus doze discípulos
e deu-lhes poder de expulsar os espíritos impuros
e de curar todas as doenças e enfermidades.
São estes os nomes dos doze apóstolos:
primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão;
Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão;
Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano;
Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu;
Simão, o Cananeu, e Judas Iscariotes, que foi quem O entregou.
Jesus enviou estes Doze, dando-lhes as seguintes instruções:
«Não sigais o caminho dos gentios,
nem entreis em cidade de samaritanos.
Ide primeiramente às ovelhas perdidas da casa de Israel.
Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus.
Curai os enfermos, ressuscitai os mortos,
sarai os leprosos, expulsai os demónios.
Recebestes de graça, dai de graça».

13 junho 2026

Pensamentos Impensados

A árvore estava tão velha que até a própria sombra era uma sombra do que já tinha sido.

O Estado está preocupado com a evasão fiscal. O contribuinte está preocupado com a invasão fiscal.

Será que o Perfeito da Congregação para as Causas dos Santos é tão pobrezinho que tem de andar às beatas?

Incongruente: aquele que não queria pagar a côngrua.

A propósito de dívidas, dinheiros, ajudas, etc., usa-se a palavra tranche; prefiro a tranche de salmão.

SdB (I) 

12 junho 2026

Poemas dos dias que correm

 Sonhei que vi St.º Agostinho

Sonhei que vi St.º Agostinho
Tão vivo como tu e eu
Irrompendo por esses bairros
Na mais extrema miséria
Com uma manta debaixo do braço
E uma capa de ouro maciço
À procura das próprias almas
Que já foram vendidas

«Erguei-vos, erguei-vos,» gritou alto
Numa voz sem freio
«Saí, ó prendados reis e rainhas
E ouvi o meu triste lamento
Não está agora entre vós nenhum mártir
A quem possais chamar vosso
Segui então o vosso caminho e acordo com isso
Mas sabei que não estais sós»

Sonhei que vi St.º Agostinho
Vivo com fôlego ardente
E sonhei que estava entre aqueles
Que o abandonaram à morte
Oh, acordei enfurecido
Tão só e aterrorizado
Espalmei as mãos contra o vidro
E curvei a cabeça e chorei

bob dylan
canções 1962-2001
volume 1 (1962-1973)
john wesley harding
trad. angelina barbosa e pedro serrano
relógio d´água
2008

10 junho 2026

10 de Junho

 O INFANTE 

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

s.d.
Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).  - 57.

***


Poema e imagem tirados daqui 

09 junho 2026

Do controlo da imperfeição *

Fiat lux. Depois disto, e ao longo de seis dias, tudo se criou: a separação da terra e das águas, a verdura, a erva com semente, as árvores de frutos; a tarde e a manhã, ao terceiro dia; os monstros marinhos e todos os seres vivos que se movem na água, e todas as aves aladas; depois os animais domésticos, os répteis e os animais ferozes. Por fim, o ser humano, a quem foi dado tudo o que havia sido criado nos dias antes. O Homem agarrou então naquilo que existia em seu redor e na inteligência com que tinha sido bafejado e criou as coisas científicas: a roda, as válvulas, a máquina a vapor, o pressóstato, a electricidade, o bico de bunsen, os computadores, a placa de petri, a gasolina, o óleo lubrificante, o viscosímetro e o jacto de tinta. 

Assim como Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, o homem criou a técnica à sua imagem e semelhança. No entanto, enquanto Um desejou a permanente perfeição, o outro contentou-se com a eterna imperfeição. A consciência da imperfeição é um princípio de sabedoria, talvez o ponto mental mais chegado ao absoluto primor de que o ser humano é capaz. E por isso tudo é inventado, não pelo esmero das coisas, mas por uma espécie de quase oposto. Não se inventa a perfeição, mas o controlo da imperfeição. Porque se inventou o pressóstato? Para manter constantes as pressões dos fluidos. O que motivou Petri a inventar a placa? A dominação do crescimento microbiano. Para que serve o óleo lubrificante? Para reduzir o atrito.

A imperfeição é o apelido pelo qual todos os homens se tornam iguais, membros de uma mesma congregação - que mais não é do que uma família que se entende pelo jargão. É por isto que o homem não consegue dominar uma certa vida própria dos fluidos, a assepsia nos ambientes, a fricção entre materiais que gemem e aquecem de dor. Dar como supérfluo a existência de alguns equipamentos, imaginar-lhes obsolescência face à perfeição que se deseja é ambicionar em cada rosto frágil o olhar de Deus sobre o mundo, é usurpar o trono onde Ele se senta com um amor que não o é senão. Só o inacabado é nosso, cabe nas nossas mãos, circula livremente pela nossa mente. Por isso a placa, o lubrificante, tudo o resto. A perfeição não nos pertence - apenas somos donos do caminho que a tem como destino nunca alcançado.

Só a guerra é nossa, que a paz é coisa do Céu. Talvez por isso o homem tenha inventado os acordos, que mais não são do que o pressóstato das pessoas que respiram.

JdB     

* publicado originalmente em 20 de Fevereiro de 2015 

07 junho 2026

X Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 9,9-13

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus ia a passar,
quando viu um homem chamado Mateus,
sentado no posto de cobrança dos impostos,
e disse-lhe: «Segue-Me».
Ele levantou-se e seguiu Jesus.
Um dia em que Jesus estava à mesa em casa de Mateus,
muitos publicanos e pecadores
vieram sentar-se com Ele e os seus discípulos.
Vendo isto, os fariseus diziam aos discípulos:
«Por que motivo é que o vosso Mestre
come com os publicanos e os pecadores?».
Jesus ouviu-os e respondeu:
«Não são os que têm saúde que precisam de médico,
mas sim os doentes.
Ide aprender o que significa:
‘Prefiro a misericórdia ao sacrifício’.
Porque Eu não vim chamar os justos,
mas os pecadores».

06 junho 2026

Pensamentos impensados

Leadership é uma peça de metal que se põe por baixo da pele dos cães guia.

Ofídios: as cobras, se falassem, seriam bilingues.

Bifidus activos é um produto que se extrai por destilação das línguas das cobras vivas.

Lojas de conveniência, sabe-se o que são. E lojas de inconveniência? Serão as sex shops?

O desdentado não pode ser sorridente.

Se eu comprar vinho tinto a granel, será que o posso vender como produto branco?

SdB (I)


04 junho 2026

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

 EVANGELHO - Jo 6, 51-58

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
disse Jesus à multidão:
«Eu sou o pão vivo descido do Céu.
Quem comer deste pão viverá eternamente.
E o pão que Eu hei de dar é a minha Carne
pela vida do mundo».
os judeus discutiam entre si:
«Como pode Ele dar-nos a sua Carne a comer?»
Jesus disse-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
Se não comerdes a Carne do Filho do homem
e não beberdes o seu Sangue,
não tereis a vida em vós.
Quem come a mina Carne e bebe o meu Sangue
tem a vida eterna;
e Eu o ressuscitarei no último dia.
A minha Carne é verdadeira comida
e o meu Sangue é verdadeira bebida.
Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue
permanece em Mim, e Eu nele.
Assim como o Pai, que vive, Me enviou, e Eu vivo pelo Pai,
também aquele que me come viverá por Mim.
Este é o pão que desceu do Céu;
não é como aquele que os vossos pais comeram, e morreram;
quem comer deste pão viverá eternamente».

03 junho 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 O PAPA E «2001 ODISSEIA NO ESPAÇO»  

O Papa vindo do Novo Mundo ecoa na recém publicada Encíclica sobre IA o alerta de Stanley Kubrick em «2001 - Odisseia no Espaço». No famosíssimo filme de 1968, o computador HAL preparava-se para controlar os humanos e liderar a missão espacial, entre outras peripécias, de uma humanidade fascinada com a exploração do espaço. Numa explicação deliciosa, Kubrick contou como se inspirara no título de Homero – Odisseia – para a sua obra magna do cinema: «Ocorreu-nos que, para os gregos, as vastas extensões do mar devem ter tido o mesmo tipo de mistério e de afastamento que o espaço tem para a nossa geração.»

O predomínio da máquina, que soava a ficção longínqua, há 50 anos, aproximou-se demasiado depressa da nossa realidade, hoje! Daí o alerta papal, diferenciando muito bem entre a imensidão de benefícios da IA e da tecnologia (ou não fosse um craque a matemática, além de nado & criado no país campeão dos maiores avanços tecnológicos do séc. XX) e o risco de redução do ser humano. ’Apenas’ essa possível e profunda subalternização preocupa Leão XIV. Recorro-me de óptimas súmulas já circuladas sobre o conteúdo da pequena (mas densa) encíclica e sobre a originalíssima cerimónia de lançamento, fora de todos os cânones:   

cafe.com.tradicao: A primeira encíclica de um papa define o tom do pontificado. Leão XIII escreveu sobre o trabalho na Revolução Industrial em 1891. Exatamente 135 anos depois, Leão XIV escreveu sobre a inteligência artificial. O nome não foi escolhido por acaso

No portal do Vaticano, está disponível uma sinopse com as inúmeras ramificações temáticas associadas à IA:  


«UM PAPA, DOIS CARDEAIS, DUAS TEÓLOGAS E UM ENGENHEIRO

Uma encíclica não decreta o que se há-de crer. Tem obrigação mais grave: interpretar o tempo à luz da Revelação e orientar o homem para o que o salva.

Esta manhã, às 11h30 em Roma, 10h30 em Lisboa, Leão XIV entra no Salão Sinodal do Vaticano e apresenta apresenta pessoalmente a sua primeira encíclica. Quem investigar o protocolo vaticano vai ver que isto nunca aconteceu. Nenhum Papa, antes de Leão XIV, se sentou à mesa de apresentação da sua própria encíclica. Não delega no cardeal Fernández, não a entrega ao secretário de Estado Parolin. Senta-se a uma mesa com o cardeal Czerny, com a teóloga Anna Rowlands de Durham, com a professora Léocadie Lushombo da Jesuit School of Theology de Santa Clara, e com Christopher Olah, co-fundador da Anthropic, a empresa que construiu o Claude. Um Papa, dois cardeais, duas teólogas, um engenheiro de inteligência artificial. A composição da mesa é a primeira frase do documento: um Papa que não veio observar a máquina, mas ajudar o seu construtor a indagar o que ela faz ao homem.

O documento chama-se Magnifica humanitas: Sobre a Protecção da Dignidade Humana na Era da Inteligência Artificial. Foi assinado a 15 de Maio, exactamente 135 anos depois de Leão XIII ter assinado a Rerum Novarum. A coincidência não é coincidência: o que a revolução industrial foi para o século XIX, a inteligência artificial é para o nosso tempo. Em 1891, a doutrina social da Igreja Igreja escandalizou socialistas e liberais, porque não pertencia nem a uns nem a outros. Promete fazê-lo outra vez.

Magnifica humanitas não é um dogma de fé, nem pretende fechar a discussão com a autoridade do anátema. É outra coisa, e talvez mais difícil. É o exercício do magistério a pensar em voz alta sobre o seu tempo, a oferecer à Igreja e ao mundo uma leitura do presente à luz de uma verdade que não muda. Uma encíclica não decreta o que se há-de crer. Tem obrigação mais grave: interpretar o tempo à luz da Revelação e à luz da Revelação e orientar o homem para o que o salva. O dever do católico não está na obediência cega, que ninguém pede, mas no esforço de a ler e de a deixar interrogar-nos. Porque só assim se cumpre o que Cristo prometeu: Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará (Jo 8,32).

Para perceber o que Leão XIV está a fazer é preciso voltar à Rerum Novarum, porque é dela que esta encíclica reclama herança. Em 1891, Leão XIII entrou na questão operária num momento em que a Europa se polarizava entre o socialismo revolucionário e o liberalismo manchesteriano, e fê-lo recusando os dois. Defendeu a propriedade privada contra os colectivistas e o direito à associação operária contra os patrões. Afirmou o salário justo contra a redução do trabalho a mercadoria e o dever do Estado de proteger os mais fracos contra os que viam no laissez-faire uma lei natural. Não foi um documento de equilíbrio prudente. Foi uma intervenção que reorganizou o terreno do debate europeu sobre o trabalho, e fê-lo com a autoridade de quem se recusou a escolher entre duas ortodoxias que partilhavam, ambas, uma antropologia mutilada. A Rerum Novarum foi possível porque Leão XIII percebeu que a questão social não era primariamente económica: era antropológica. A pergunta não era como repartir o produto do trabalho. Já no Génesis Deus nos recorda que colocou o homem no jardim do Éden para o cultivar e o guardar, antes da Queda e antes do suor do rosto (Gn 2,15). O trabalho não é a pena que se paga por viver. É a forma como Deus convida o homem a participar na obra que o precede. Quem esquece que o homem foi criado à imagem de Deus não comete um erro disciplinar. Comete um erro sobre tudo o resto. Leão XIV vem corrigir esse erro.

A tradição que Leão XIV herda é longa e tem o hábito de estar certa antes de o mundo estar pronto para ouvir. A Quadragesimo Anno de Pio XI formulou em 1931 a subsidiariedade que a União Europeia viria a inscrever em Maastricht sem confessar a dívida. A Humanae Vitae de Paulo VI foi recebida com escândalo em 1968 e relida, décadas depois, com uma atenção diferente por quem se deu ao trabalho. A Centesimus Annus de João Paulo II, escrita em 1991 enquanto o mundo ainda processava o colapso soviético, continua a ser o texto mais rigoroso sobre o que o capitalismo pode e o que não pode. A Caritas in Veritate de Bento XVI abordou a globalização com uma profundidade filosófica que a maioria dos leitores não quis ter. O padrão é o mesmo. A Igreja, quando intervém a sério, intervém sobre a antropologia do seu tempo, e costuma ter razão antes de ser conveniente reconhecê-lo.

Leão XIV inscreveu-se nessa tradição antes de escrever uma palavra. O nome de um Papa é o seu primeiro acto de governo, escolhido antes da primeira palavra pública, e lê-se como programa. Leão XIV explicou que, nos nossos dias, a Igreja oferece a todos o tesouro da sua doutrina social em resposta a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos no campo da inteligência artificial, que colocam novos desafios à defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho. A Time incluiu-o entre as personalidades mais influentes em inteligência artificial, não como observador piedoso de um fenómeno alheio, mas como interlocutor de quem o constrói. A presença de Christopher Olah na apresentação desta manhã confirma-o. As outras mesas optimizam meios para fins já fixados: eficiência, produtividade, segurança dos sistemas. O Vaticano parte de um fim que não negocia. Por isso tem uma pergunta que as outras mesas não fazem. A Anthropic, que hoje lidera o sector com o Claude, nasceu de uma ruptura: os seus fundadores saíram da OpenAI por acreditarem que uma máquina que não serve o homem não é uma ferramenta imperfeita. É uma ameaça.

A ruptura que fundou a Anthropic aponta para algo que vai além da segurança dos sistemas. Toda a tecnologia que altera o modo como o homem trabalha acaba por alterar o exercício das suas faculdades. Quando delegamos à máquina o pensamento, a escrita e o raciocínio não deixamos de ser quem somos. Mas deixamos de exercer o potencial que temos. E esse potencial não é neutro. O homem foi criado para conhecer, para contemplar, para participar na obra da criação e para se aproximar de Deus através do exercício pleno das suas capacidades. Uma humanidade que progressivamente abdica das suas capacidades mais próprias não evolui. Empobrece. A pergunta que Leão XIV retoma da Rerum Novarum e devolve actualizada é esta: que tipo de pessoa a inteligência artificial pressupõe, e que tipo de pessoa ela produz. Sem essa pergunta, todas as respostas são técnicas. E por isso provisórias.

A resposta cristã a esta pergunta não é a única possível, mas é a mais antiga e a mais testada, e tem um instrumento que nenhuma outra tradição possui: dois mil anos de magistério que é simultaneamente tesouro acumulado e chave viva para ler o presente. A razão serve-se desse tesouro, não para substituir a fé, mas para perceber o que a fé ilumina. O dualismo cartesiano,  ao separar o pensamento do corpo, criou uma antropologia onde o homem se reduz à sua capacidade de raciocinar. A fé cristã sempre recusou essa redução. Não por decreto filosófico. Porque o próprio Deus escolheu encarnar-se: e o Verbo se fez carne, e habitou entre nós (João 1,14). A diferença não é menor: é a diferença entre uma antropologia que torna o homem indistinguível da máquina que o imita e uma antropologia que sabe que cada homem é irrepetível, porque foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27). Nenhuma máquina replica o irrepetível. É este o desafio a que Magnifica humanitas se propõe responder, e é o desafio que toda a humanidade, crente ou não, está a ser convocada a enfrentar.

Dir-se-á que esperar de qualquer país ou instituição que pare para ler um documento pontifício é nostalgia mal disfarçada. A Igreja já não comanda o debate público em lado nenhum, e seria ingenuidade pretender o contrário. Talvez. Mas a nostalgia, neste caso, é a única forma honesta de medir o que se perdeu. Não se trata de exigir consenso teológico onde já não há partilha religiosa. Trata-se de reconhecer que o instrumento mais antigo do Ocidente para pensar a pessoa humana acaba de entregar uma análise séria sobre a transformação mais profunda em curso, e que o modo como esta análise será recebida dirá mais sobre o estado da sociedade e do debate público do que sobre o estado da Igreja.

O critério que Magnifica humanitas oferece não é sobre a técnica. É sobre o homem. A técnica está em constante mutação. A tentação de sermos como deuses, desde o Génesis, é a mesma que nos chega agora pelos sistemas que construímos para nos imitarem. O instrumento é novo. A natureza humana é eterna. Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito (Rm 12,2).»

João A.B. da Silva – 25.MAIO.2026 

O título escolhido por Leão XIV «MAGNIFICA HUMANITAS» resulta no melhor arranque para abordar os desafios gigantescos colocados à humanidade pela IA e pela robotização da vida quotidiana. Reevoca o aviso de Kubrick contra um computador HAL à solta, capaz de acantonar (no filme, matar) os humanos num limbo onde ficam ‘sem chão’, desorientados, com maior dificuldade em descortinar o seu papel no mundo. Um panorama desestruturante! Alguém duvida da superioridade produtiva da máquina, em concreto a processar dados? Alguém ignora a eficiência dos algoritmos criados por humanos talentosíssimos, mas rapidamente a dar mil a zero aos seus criadores, quais Frankensteins com poderes, até certo ponto, sobrehumanos?  A catadupa de perigos no horizonte é tão real e ameaçadora, que é impossível subestimá-la. Por isso impressiona mais que Leão XIV se detenha nas boas razões para acreditarmos na humanidade, incutindo-nos esperança no futuro, se hoje tomarmos as decisões certas… Desta vez, a nossa identidade está em causa… reactualizando e estendendo com ferocidade ao nosso tempo o clamor de Hamlet: to be or not to be!   

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

02 junho 2026

Poemas dos dias que correm

 Poema da Auto-estrada 

Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta.
Vai na brasa, de lambreta.

Leva calções de pirata,
Vermelho de alizarina,
modelando a coxa fina
de impaciente nervura.
Como guache lustroso,
amarelo de indantreno,
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.

Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.

Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pela cintura.
Vai ditosa, e bem segura.

Como um rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que se enterra.
Tudo foge à sua volta,
o céu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta
lembra um demónio com asas.

Na confusão dos sentidos
já nem percebe, Leonor,
se o que lhe chega aos ouvidos
são ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor.

Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.

António Gedeão, in 'Máquina de Fogo'

***

Impressão Digital

Os meus olhos são uns olhos,
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem lutos e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

António Gedeão, in 'Movimento Perpétuo'

01 junho 2026

31 maio 2026

Solenidade da Santíssima Trindade

 EVANGELHO - Jo 3,16-18

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
disse Jesus a Nicodemos:
«Deus amou tanto o mundo
que entregou o seu Filho Unigénito,
para que todo o homem que acredita n'Ele
não pereça, mas tenha a vida eterna.
Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo
para condenar o mundo,
mas para que o mundo seja salvo por Ele.
Quem acredita n'Ele não é condenado,
mas quem não acredita n'Ele já está condenado,
porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus».

30 maio 2026

Pensamentos impensados

Os sem-abrigo dormem em cima de cartões; não sei se não seria preferível estarem em maus lençóis.

Na Assembleia da República, quando o porta-voz do partido fala, os deputados estão sempre a abanar a cabeça; penso que não é sinal de assentimento, mas sim para se manterem acordados.

Há mulheres que têm chapado na cara aquilo que são: mulheres de vida "facies".

Os médicos de família devem ter conhecimentos de genealogia?

Os porcos alimentados a bolota ficam com as patas negras.

SdB (I) 

29 maio 2026

De mais um desaparecimento

Penso que já aqui contei esta história. Por alturas da pandemia, e no espaço de alguns poucos anos, morreram várias pessoas da minha família paterna, a quase totalidade antes do seu tempo estatístico. Comentando este facto com um amigo, e lamentando a falta que as pessoas me faziam, por motivos diferentes, disse-me ele com um grande sentido de humor: a sua família é gado que morre muito.

Chegamos a esta idade e os nossos amigos - ou as pessoas que nos fazem falta, como aqui escrevi na semana passada - é gado que morre muito. Esta semana foi a G., irmã do JdC. Conhecemos-nos em 1971, já lá vão 55 anos, portanto. Sabia que estava doente e telefonei-lhe; a G. teve a amizade de me atender o telefone quando, parece-me, já não o fazia a toda a gente. Falámos durante 1 minuto, talvez, mas foi o bastante. Embora não convivêssemos muito, éramos grande amigos e fazíamos muita festa um ao outro, sempre que nos víamos. 

O desaparecimento da G., antes do seu tempo estatístico, suscita-me saudades muito diversas: dela, da família dela, dos Verões em Borba, dos candeeiros a petróleo, da compota de amora e dos cigarros fumados às escondidas, da Travessa de S. Vicente, do JdC. Quem me conhece também conhece este discurso, esta minha nostalgia. Revisitei todos estes lugares (geográficos e afectivos) sempre que escrevi sobre o desaparecimento de pessoas deste agregado familiar que foi, durante muitos anos, a minha família de afecto, se bem que de um sangue também, mas mais longínquo. Lembrar-me da G., do JdC ou dos Pais de ambos é uma espécie de regresso a casa - um tema que me é caro, quase obsessivo.

Com o desaparecimento da G. não desaparece o passado que foi, de certa forma, de ambos. Mas é menos uma pessoa com quem posso falar de um tempo que não volta; é menos uma pessoa com quem posso rir-me, lembrar histórias, cheiros, ambientes, pessoas, privilégios que tinham os mais velhos de uma família muito numerosa mas que, mesmo assim, teve sempre as portas abertas para quem quisesse aparecer. Chegar a esta idade é perceber que o nosso mundo afectivo é composto por gado que morre muito. Um dia serei eu, certo de que encontrarei a Borba dos meus Setembros (e outras memórias afectivas determinantes de outras geografias) no Céu, se Deus me quiser levar para lá. Até lá é só lembrar as histórias que já foram, porque o passado é certo, o futuro não se sabe se existe, até prova em contrário. 

Fica a última homenagem à G., que ficará no meu coração e no meu ouvido: afinal, foi ela que me apresentou a Maria Dolores Pradera, nesta exacta música, há 50 anos, talvez. Ouvi-a cantá-la, com um timbre que não esquecerei. Se ela me ler está a rir-se da minha memória para estas pequenas coisas.    

JdB

27 maio 2026

Textos dos dias que correm

 

Florença, Maio de 2011
O Solitário

O solitário leva uma sociedade inteira dentro de si: o solitário é multidão. E daqui deriva a sua sociedade. Ninguém tem uma personalidade tão acusada como aquele que junta em si mais generalidade, aquele que leva no seu interior mais dos outros. O génio, foi dito e convém repeti-lo frequentemente, é uma multidão. É a multidão individualizada, e é um povo feito pessoa. Aquele que tem mais de próprio é, no fundo, aquele que tem mais de todos, é aquele em quem melhor se une e concentra o que é dos outros.

(...) O que de melhor ocorre aos homens é o que lhes ocorre quando estão sozinhos, aquilo que não se atrevem a confessar, não já ao próximo mas nem sequer, muitas vezes, a si mesmos, aquilo de que fogem, aquilo que encerram em si quando estão em puro pensamento e antes de que possa florescer em palavras. E o solitário costuma atrever-se a expressá-lo, a deixar que isso floresça, e assim acaba por dizer o que todos pensam quando estão sozinhos, sem que ninguém se atreva a publicá-lo. O solitário pensa tudo em voz alta, e surpreende os outros dizendo-lhes o que eles pensam em voz baixa, enquanto querem enganar-se uns aos outros, pretendendo acreditar que pensam outra coisa, e sem conseguir que alguém acredite.

Miguel de Unamuno, in 'Solidão'

***

O Solitário

As observações e as vivências do solitário que só fala consigo próprio são simultaneamente mais indistintas e intensas do que as do homem social e os seus pensamentos são mais graves, mais fantasiosos e nunca sem uma coloração de melancolia. Imagens e impressões que outros poriam naturalmente de lado após um olhar, um sorriso, um comentário, ocupam-no mais do que é devido, tornam-se profundas no silêncio, ganham significado, transformam-se em acontecimento, aventura, emoção. A solidão cria o original, o belo ousado e estranho cria a poesia. Mas cria também o distorcido, o desproporcionado, o absurdo e o proibido.

Thomas Mann, in "Morte em Veneza"

26 maio 2026

Das expectativas goradas

 Ao longo das últimas duas semanas escrevi vários emails para pessoas / grupos de pessoas diferentes, sobre temas diferentes. Não eram emails operacionais; talvez fossem mais pessoais - emocionais num certo sentido - pois revelavam uma dimensão mais intangível da vida. Em nenhum havia tristeza, revolta, ansiedade ou outros sentimentos mais exacerbados. Talvez se pudesse dizer que eram sobretudo, partilhas. De todos, devo confessar, esperava uma resposta - talvez mesmo uma resposta num certo sentido, ou com um certo tom de voz. A minha expectativa assentava (também) num pressuposto: se eu recebesse um mail daqueles, teria respondido de uma certa forma - da forma como contava receber... Nada aconteceu como previsto: ou o tom de voz não era o esperado, ou nem sequer houve tom de voz. 

Não sei o que é viver sem expectativas, mesmo que a minha gestão das ditas seja errada. Viver sem esperar nada do próximo é votar o próximo à indiferença, mais do que exercer uma santidade de quem não se incomoda com o que recebe - mesmo que seja pouco ou nada. Uma expectativa é um desejo - e eu não concebo uma existência sem desejos, mesmo sabendo que daí advirão desilusões. Gerir expectativas é também um exercício de auto-análise. Se não tivermos expectativas com ninguém, é de esperar que os outros não tenham expectativas connosco. Se assim for, quando o nosso próximo cair no chão só nos resta afastarmo-nos para que os sapatos de camurça não fiquem conspurcados do sangue alheio.

Um mail - sobretudo se não for operacional - envia uma mensagem. Não receber resposta - ou receber uma resposta claramente insatisfatória confronta-nos com o seguinte: há pessoas que percebem o que dizemos, há pessoas que não conseguem perceber o que dizemos, e há pessoas que não fazem a mais leve ideia do que estamos a dizer, mesmo que falemos a mesma linguagem e tenhamos códigos linguísticos semelhantes. Por vezes é como fazer um pedido a alguém: o nosso interlocutor pode não querer satisfazer o nosso pedido, pode não saber satisfazer o nosso pedido ou pode não fazer a ideia do que estamos a pedir.

A não resposta - ou resposta insatisfatória - aos meus mails têm uma dupla valência: põem-me num lugar certo de humildade pedagógica; e ensina-me muito sobre a alma humana. Decifrar o motivo por trás destas expectativas goradas é um exercício interessante: o que leva as pessoas a não reagir ou a reagir de forma que me parece insatisfatória? E se a ausência de resposta adequada for da maioria?

Já estive em reuniões onde, no final de uma apresentação, não houve praticamente ninguém a agradecer, a dar os parabéns, a fazer uma pergunta que revele interesse. O que se passa na cabeça das pessoas?

JdB 


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