30 julho 2021

Em memória de Pedro Tamen (1934 - 2021)

 Um Fado: Palavras Minhas

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
— que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

Pedro Tamen, in “Tábua das Matérias”

***

Não Tenho para Ti Quotidiano

Não tenho para ti quotidiano
mais que a polpa seca ou vento grosso,
ter existido e existir ainda,
querer a mais a mola que tu sejas,
saber que te conheço e vai chegar
a mão rasa de lona para amar.

Não tenho braço livre mais que olhar
para ele, e o que faz que tu não queiras.
Tenho um tremido leito em vala aberta,
olhos maduros, cartas e certezas.

Neste comboio longo, surdo e quente,
vou lá ao fundo, marco o Ocupado.
Penso em ti, meu amor, em qualquer lado.
Batem-me à porta e digo que está gente.

Pedro Tamen, in "Daniel na Cova dos Leões"

28 julho 2021

Do foco no que é importante

Já aqui escrevi sobre este tema, pelo que decerto que me repito. 

Toda a minha vida profissional relevante foi passada numa multinacional. Para além de aspectos muito bons, confrontei-me com outros menos bons. Aprendi o rigor, o planeamento, a atenção aos prazos, o controlo, a noção de eficiência; mas aprendi também as pequenas sacanices, os chefes maus, os colegas que não hesitavam em apunhalar os outros pelas costas, a ambição da promoção sem olhar a quê nem a quem. Era um ambiente profissional, competitivo, onde as pessoas lutavam por poder numa empresa cujo objectivo era o lucro. Quando acabou o meu tempo e me ofereceram um cheque por extinção do posto de trabalho, despedi-me de um ambiente mau, onde, à falta de pão - leia-se menos lucros - todos ralhavam e ninguém tinha razão.

Muitos anos depois  - 10, talvez - entrei no mundo das organizações sem fins lucrativos com dimensão internacional. Falamos de crianças com cancro, de desafios importantes, de sobrevivência muito lutada, de continentes onde em cada dez crianças diagnosticas, oito morrem. É uma actividade nobre, solidária, onde uma mente que não seja tacanha percebe que tudo isto é maior do que cada um dos nossos egos, dos nossos desejos, das nossas pequenas ambições. No entanto, encontrei-me com gente ambiciosa, mal formada, quase doente, perturbada (tudo numa pessoa só, ou algumas coisas nalgumas pessoas). Pessoas com duas caras, que dizem coisas diferentes em ambientes diferentes, que chegam a casa e veem o filho que teve cancro mas que, mesmo assim, isso não chega para um módico de ética ou de humildade. 

(Também vejo, mas num registo menos relacionado com este texto, gente profundamente provinciana, com uma visão paroquial da vida, para quem o mundo pouco mais é do que o fundo da sua rua, que olham para uma ONG com um olhar exclusivamente assistencialista, que desconhecem a ideia de marca, de identidade, de posicionamento, que acham que o amor e a dedicação chegam para levar a associação aos píncaros...)

Este mundo que conheço há dez anos está repleto (e a grande mancha é essa) de gente boa, dedicada, que investe horas do seu dia a fazer o melhor possível em condições muito desafiantes. Porém, volta e meia o mundo ensina-me qualquer coisa: trabalhar-se nesta área não faz das pessoas melhores pessoas e, por mais estranho que pareça, volta e meia temos de reunir um grupo de gestão de crise para fazer face a ataques baixos, com uma baixeza doentia, incompatível com a comunidade de crianças e jovens com cancro que servimos. 

Podemos desejar ter ideias luminosas, rasgadas, que rompam com tradições em nome de um melhor serviço. Antes disso, o que eu peço é que Deus não me deixe desfocar da verdadeira motivação para este serviço; que eu nunca me perturbe e que eu saiba sempre o meu papel no grande esquema das coisas.

JdB 

27 julho 2021

Textos doas dias que correm

Não faço nada, logo existo

Há nas férias uma dimensão que infelizmente é negada e contradita, apesar das intenções declaradas de quem parte, distancia-se no quotidiano e empreende a viagem para férias, sobretudo quando se pensa que estas contêm em si a ideia de “não fazer nada”.

Que significa “não fazer nada”? Significa dar-se tempo para não fazer aquilo que os outros fazem: tomar banho, dar um passeio... “Não fazer nada” significa sentir que se existe, sentir que se está vivo, e por isso fruir do estar no mundo, saborear o instante.

Durante todo o ano age-se, faz-se, mas pode também “não fazer nada”, coisa mais fácil de dizer do que viver. Há homens e mulheres que nunca conseguem “não fazer nada”, porque a ação alimenta-os; nunca têm tempo para “não fazer nada”, porque temos sempre o que fazer, e assim, aos poucos, tornamo-nos incapazes de parar de fazer.

Sim, há pessoas que, chegadas às férias, pensam imediatamente em esvaziar as malas, pôr tudo em ordem, fazer programas, estabelecer o que fazer de manhã, à tarde, à noite... E, só querendo, encontram muitas coisas para fazer, exceto parar e “não fazer nada”.

“Não fazer nada” angustia-nos, fazer muitas coisas tranquiliza-nos. Faço, logo vivo, e quando me apresento aos outros digo aquilo que faço; se nada faço, não sei que dizer de mim, e depois sou tomado pelo aborrecimento, pela irritação.

Todavia, parar e “não fazer nada”, de maneira consciente, significa sentir-se como uma árvore, uma pedra, uma cigarra estendida sobre um ramo, uma nuvem no céu. “Não fazer nada” torna-se um laço, uma comunhão com o que está à minha volta.

E sinto que vivo, tranquilamente, sinto-me contente por nada e por tudo o que existe. E compreendo que passo dias e dias sem me sentir viver, sem estar consciente que existo e que é belo viver: não sou uma máquina que produz. Arte para o “não fazer nada”, mas também para viver e tornar-se sábio.

As férias podem ser uma graça: um tempo “outro”, mas também uma pausa fecunda para viver, sentir, fazer de outra maneira. Sobretudo se alguém sabe lutar e resistir à pressa, à necessidade de sentir-se sempre ocupado, pode encontrar momentos para se colocar as grandes perguntas, essas que nascem do silêncio e da solidão.

Não são perguntas estranhas a nós próprios, mas perguntas que nos habitam em profundidade, e todavia impedidas de brotar no nosso quotidiano tão comprometido e repleto de relações: “Que significa a minha vida? E a minha morte que está diante de mim, o que é para mim? E os outros que amo e que me amam, como posso continuar a torná-los presença viva e relação fecunda ao longo do passar dos dias?».

Para alguns será também possível colocar-se as perguntas sobre a fronteira entre o visível e invisível, o terrestre e o espiritual, o hoje e o pós-morte. A vida interior de cada um de nós, antes de ser uma busca de respostas à consciência moral que nos adverte, é feita destas perguntas. A elas podemos responder ou não responder, permanecendo no espanto ou no enigma.

Certamente seria extraordinário ter alguém ao lado, um amigo, uma amiga, um confidente com quem falar, nas férias, livremente, num confronto, num intercâmbio que seria muito mais do que uma informação e uma consolação.

Confesso que para mim as férias, quando posso fazê-las, são sempre preparadas com espaços de solidão para pensar e tempos de partilha com os amigos para escutar e praticar a grande arte da conversa hospitaleira. Se assim não fosse não seriam verdadeiras férias.


Enzo Bianchi
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 26.07.2021

25 julho 2021

XVII Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Jo 6,1-15

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
Jesus partiu para o outro lado do mar da Galileia,
ou de Tiberíades.
Seguia-O numerosa multidão,
por ver os milagres que Ele realizava nos doentes.
Jesus subiu a um monte
e sentou-Se aí com os seus discípulos.
Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus.
Erguendo os olhos
e vendo que uma grande multidão vinha ao seu encontro,
Jesus disse a Filipe:
«Onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?»
Dizia isto para o experimentar,
pois Ele bem sabia o que ia fazer.
Respondeu-Lhe Filipe:
«Duzentos denários de pão não chegam
para dar um bocadinho a cada um».
Disse-Lhe um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro:
«Está aqui um rapazito
que tem cinco pães de cevada e dois peixes.
Mas que é isso para tanta gente?»
Jesus respondeu: «Mandai sentar essa gente».
Havia muita erva naquele lugar
e os homens sentaram-se em número de uns cinco mil.
Então, Jesus tomou os pães, deu graças
e distribuiu-os aos que estavam sentados,
fazendo o mesmo com os peixes;
E comeram quanto quiseram.
Quando ficaram saciados,
Jesus disse aos discípulos:
«Recolhei os bocados que sobraram,
para que nada se perca».
Recolheram-nos e encheram doze cestos
com os bocados dos cinco pães de cevada
que sobraram aos que tinham comido.
Quando viram o milagre que Jesus fizera,
aqueles homens começaram a dizer:
«Este é, na verdade, o Profeta que estava para vir ao mundo».
Mas Jesus, sabendo que viriam buscá-l'O para O fazerem rei,
retirou-Se novamente, sozinho, para o monte.

21 julho 2021

Vai um gin do Peter’s ?

 OBRIGADA, TERESA

Meses antes de concluir os estudos liceais, a Teresa foi convidada a falar da sua experiência de vida, isto é, da superação diária de uma síndrome diagnosticada aos 3 anos de idade, que lhe retira quase toda a visão. As crises cíclicas e imperceptíveis vão piorando o diagnóstico, sempre irreversível. O testemunho foi dado na chamada “assembleia do liceu” – uma sessão que o colégio, onde a Teresa estuda, organiza periodicamente para proporcionar aos alunos de cada ano um espaço de tertúlia-conferência semi-informal, informativo e pensado para os enriquecer humanamente. Resulta num extra às matérias do currículo escolar, sensibilizando os estudantes para as realidades que não vêm nos canhenhos de estudo. 

Apesar da parca visão, aquela teenager gira e despachada não se priva de levar um dia-a-dia animado, próprio dos seus 18 anos. Monta a cavalo desde os 11 anos, estreou-se no ski e saiu-se bastante bem com a ajuda de um professor, que fez de guia para lhe abrir os sulcos certos nas pistas escorregadias, diverte-se com os amigos e tem por disciplina preferida a educação física. Diz a mãe, com humor e lealdade, que tal proeza desportiva se deve ao desvelo dos professores, que sempre lhe garantiram as condições de segurança para fazer ginástica sem riscos... e sem ver. Só a sentir. É também a sentir, cheia de precauções e truques, que consegue cumprir tarefas banais como descer escadas, bem mais aventuroso do que subi-las. Isto dará a medida da aventura em que redundam para ela, rotinas que fazemos em piloto automático, sem a noção da dificuldade que representam para alguns. 

Falar em arriscar-se até à zona de desconforto, só peca por defeito para quem tem a zona de risco –  uns pontos acima da de desconforto – por programa de vida. E, no entanto, faz questão de viver com a normalidade máxima, o que significa um esforço maior. Isso permitiu-lhe completar o liceu com notas razoáveis, sem nunca ter chumbado e ignorando o conselho de vários docentes para distribuir por 2 anos as matérias de um, visto que o currículo daquele colégio é especialmente multidisciplinar e intenso.  

Na tal assembleia, decorrida em Abril, a Teresa deu a conhecer um pouco da sua condição particular, com uma simplicidade tocante, típica de uma bondade transparente:  

«Assembleia Liceu
21.04.2021

Quando o Professor José Feitor me deu a ideia de criar um site, estávamos numa altura cheia de entregas de trabalhos e o projecto era uma ideia mesmo gira, mas ia dar imenso trabalho e precisar de imenso tempo. Por isso, sugeri à Beatriz fazer sobre a minha doença, porque  já sabia tudo e era só escrever e estava pronto.

Mas, enganei-me… Pergunto-me como é possível ter durante 15 anos uma doença e não saber quase nada acerca dela, a não ser o facto de não ver bem.

Podem chamar falta de interesse da minha parte, mas em minha casa sempre fui habituada a ser tratada como uma pessoa normal e tenho sempre muita ajuda dos meus irmãos e da minha mãe. Por isso, nunca tive necessidade de ir pesquisar maneiras melhores de viver com a doença ou qualquer outra coisa, que de facto é importante saber acerca da “uveíte pars planitis anterior”.

Agradeço ao professor José Feitor a oportunidade de realizar este projecto incrível, porque realmente, se não fosse o professor, eu continuaria na ignorância.

Uma das curiosidades que descobri enquanto estudava a doença é que ela atinge maioritariamente homens e pessoas acima dos 60 anos. Como podem verificar, isso não acontece comigo.

A “uveíte pars planitis anterior” é uma das doenças autoimunes que está, normalmente, associada à arterite reumatóide. Está entre as 20 doenças raras do mundo.

Desde a descoberta da minha doença, que eu tomo medicamentos muito agressivos. O medicamento que tomei durante mais anos foi aquele que conhecemos por cortisona. Durante todo este tempo fui submetida a muitos tratamentos e experiências. Sublinho apenas os dois últimos. Duas injecções, uma semanal e outra quinzenal, em que a minha mãe teve de ir ao Hospital D. Estefânia aprender a dar. Eu não confiava em mais ninguém.

Esta doença foi-me diagnosticada aos 3 anos de idade. Passei por muitos hospitais. Primeiro Santa Maria, depois muitos anos em Coimbra e, finalmente, Estefânia, Capuchos e S. José.

Esta doença manifesta-se em “crises” e, de cada vez que há uma “crise,” há uma colagem da retina, de onde resulta a perda de visão irreversível. A retina não volta a descolar. Todas as crises que tive, foram (e são) invisíveis.  Por isso, só com visitas muito frequentes ao médico são detectadas. A minha acuidade visual tornou-se muito reduzida. Sou hoje portadora de uma deficiência grave. Mas que não é impedimento nem desculpa para não fazer ou fazer mal, o que tenho para fazer. E muito menos, é um impedimento para ser feliz.

Se Deus permite que eu exista com esta doença é porque faço falta. E também por isso me deu a família que tenho e todos os amigos com quem me tenho cruzado.

Estou certa, até porque experimento isso, que há um desígnio bom nesta doença.

A maior parte de vocês já reparou que eu entro todos os dias no colégio com um “trambolho”, como diz a professora Joana. Esse “trambolho” chama-se telelupa, que é só o Ferrari das lupas. Consegue focar a 1Km de distância. Só para perceberem, o novo apartamento do Ronaldo fica nas traseiras da minha casa. Tem um jardim exótico, na cobertura, que eu consegui ver na perfeição e é mesmo giro.

Todos estes instrumentos, que me facilitam a vida quotidiana, mostram a velocidade a que os cientistas trabalham para servir pessoas como eu.»

21 de Abril de 2021


Numa fotografia dos finalistas do colégio, com os seus olhos turquesa e doces
mais aptos a perscrutar o mundo interior.
Vale-lhe a combatividade para desbravar a pulso o mundo exterior. 

Não conheço muita gente que, a partir desta dificuldade imensa, seja capaz de extrair uma vivência tão benigna! Já é suficientemente espantoso levar um dia-a-dia comum. O que dizer de ser uma miúda ‘bem resolvida’, precoce em sabedoria e transbordante de gosto de viver? Se a aptidão ocular da Teresa é curtíssima, dá-se o oposto com os olhos da alma, que lhe têm permitido vislumbrar um horizonte invulgarmente amplo. Esses dispensam o Ferrari das telelupas, que a muitos de nós daria tanto jeito…
  
No salto de confiança abissal que a Teresa deu e continua a dar, diariamente, há ecos daquela atitude recorrente na Mãe de Cristo, que se dispunha a guardar as coisas mais misteriosas no seu coração. Misteriosas e incompreensíveis, umas por excesso de bizarria, outras (quiçá quase todas) por carregarem uma dor pesada.

Não é fácil abarcarmos a razoabilidade daquela escolha de Nossa Senhora perante tudo o que antevia como um abismo infindo a irromper-lhe no quotidiano e a perturbar-lhe o sossego, sem previsibilidade nem descodificação humana directa. Já nem falo em tentar imitá-la. Claro que entre a psicologia e a antropologia esbarramos numa panóplia de conceitos, que poderiam sugerir parte dos traços visíveis daquela receita à base de subtileza, bondade, uma aceitação especial em constante construção e diálogo. Claro que desencantamos expedientes psicológicos úteis, como: “empatia”, “interiorização”, “assimilação”, a devida “aculturação” balançada com discernimento e doses saudáveis de flexibilidade, umas pitadas de capacidade de “sublimação” e… falta o segredo da receita! Falta o ingrediente (ou combinação deles) que permite chegar ao tal resultado ímpar, pois esse só está ao alcance de poucos, seja por falha de entendimento da maioria, seja por falta de vontade, seja por recusa da memória. 

Quantos passam pela vida sem perceberem um décimo do que a Teresa descobriu, aceitou e se dispôs a partilhar com a frescura do seu temperamento suave?

Muito obrigada, Teresa, pela coragem, lucidez, grandeza interior para acolher com galhardia e arte um dom irrepetível da existência humana – saberes ser quem és. Começa aí a tua excepcionalidade maravilhosa...

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

20 julho 2021

Para um momento de uma certa nostalgia

Estive na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, entre Março e Agosto de 1980. Tenho memórias muito claras desse tempo: a impressão que me fez ver centenas de recrutas vestidos de forma igual, alinhados em corredores onde circulavam carros militares; a má qualidade da comida, a dureza física da recruta para alguém sem hábitos de desporto, o espírito de corpo, a ideia de regras e disciplina, a descoordenação motora de alguns mancebos, a ideia de caserna e o Sporting a ser campeão. 

Há outra memória: durante o curso de oficias milicianos - talvez 2 meses - acordei todos os dias, rigorosamente todos os dias úteis, ao som desta música. Em Mafra chovia muito, fazia frio, mas alguém nos cantavas: vamos acordar / e ficar a ouvir / a rádio no ar / a chuva cair...  Infelizmente não havia ninguém a querer abraçar-nos, a prender-nos o corpo, na cama ou no chão. A instrução esperava por nós. 

No fundo era isso. O inimigo, a pátria de que não se falava porque era um tema tenso, o vossa excelência meu aspirante dá licença, o camarada cujo artista da sua devoção era o frei Elmano Belmonte. 

As Doce, para um momento de uma certa nostalgia.

JdB 

19 julho 2021

O fado, canção de vencidos

Um dia quando isso for

Um dia, quando isso for
Deixar o teu corpo em flor
E se aproximar do fim
Queria partir, sem te ver
Sentir o mundo morrer
Lá longe, dentro de mim

Depois, em vez de esquecer-te
Tornar em sonhos, rever-te
Lá longe, na solidão
De ver-te sozinho assim
Ver-te só dentro de mim
Dentro do meu coração

É que não posso partir
Sem me partir dos teus olhos
Antes do adeus derradeiro
É que partir sem te ver
É duas vezes morrer
De alma e de corpo inteiro

Versos de António Calém

***

A rua que foi nossa

Na rua que foi nossa já não moro
Parti faz hoje um ano, não voltei
E a dor duma saudade ainda choro
Esquecido dos tormentos que passei

Apenas a lembrança em mim existe
Dos tempos que passámos lado a lado
De tudo o que foi alegre ou triste
De tudo o que foi o nosso fado

Nas noites de luar, a lua cheia
Seu manto de brancura desdobrava
Nossos passos traçavam sobre a areia
Quente ternura que o verde mar levava

Na rua que foi nossa há abandono
Voltar de novo ao amor, como eu quisera
Transformar o meu triste e frio outono
Numa nova e risonha primavera

Versos de Maria de Castro

18 julho 2021

XVI Domingo do Tempo Comum

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
os Apóstolos voltaram para junto de Jesus
e contaram-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado.
Então Jesus disse-lhes:
«Vinde comigo para um lugar isolado
e descansai um pouco».
De facto, havia sempre tanta gente a chegar e a partir
que eles nem tinham tempo de comer.
Partiram, então, de barco
para um lugar isolado, sem mais ninguém.
Vendo-os afastar-se, muitos perceberam para onde iam;
e, de todas as cidades, acorreram a pé para aquele lugar
e chegaram lá primeiro que eles.
Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão
e compadeceu-Se de toda aquela gente,
que eram como ovelhas sem pastor.
E começou a ensinar-lhes muitas coisas.

15 julho 2021

Crónicas das Madeira bela (II) *

 

Clube de Turismo da Madeira, Julho 2021

Telefonam-me de Lisboa por um assunto que não vem ao caso:

- Estás em Lisboa?

- Não, estou na Madeira, de férias.

- Já foste ao...

- Não quero ir a lado nenhum!

Vimos à Madeira e perguntam-nos se já fomos aqui ou ali. A pergunta não é estranha - a não ser para mentes perturbadas, como a minha. Eu explico: tenho amigos que passam férias no Magoito. Nunca me ocorreu perguntar-lhes:

- Já foram ao Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas?

Tenho amigos que passam férias em Alcácer do Sal. Nunca me ocorreu perguntar-lhes:

- Já foram à Cripta Arqueológica do Castelo?

Nessa linha de pensamento, porque quereria eu ir não sei aonde na Madeira, destino esse para onde iria forçosamente com um carro, que não tenho?

Talvez porque parte da minha vida activa desde Outubro tenha sido um pouco agitada, vim para o Funchal com um fito principal: apanhar sol e tomar banhos de mar. Pela primeira vez senti que essas duas actividades me restituíam uma certa energia que se foi perdendo nos últimos meses. Não era só o gosto de apanhar sol e tomar banhos de mar, mas uma certa necessidade vital que me impelia a isso. 

Tomar banho no Clube de Turismo permite não estar em contacto com os dois únicos factores menos agradáveis numa praia vulgar: a areia e o excesso de pessoas. Há pouca gente, não há areia - e o banho é extraordinário, não só porque a temperatura da água é equilibrada, mas porque é um mar fundo, grosso, com ondulação, para onde mergulho com destemor e gosto do alto de um pontão. Dias houve em que fiz 3 horas de "praia"; dias houve em que fiz 7: estendido ao sol numa espreguiçadeira, a dar mergulhos a cada 10 minutos, embalado por um calor que não é excessivo e por um sotaque que tem o seu quê de encanto.

Não quis ir a lado nenhum, a não ser aos sítios onde poderia ir a pé. Consegui-o, o que torna estas quinzena de férias particularmente bem sucedida. Arrisco-me a não conseguir aguentar a rentrée, apesar da energia que acumulei na Madeira bela. 

* título roubado a uma música cantada por Max: Noites da Madeira bela / De magia encanto sedutor / Com viçosas flores formosas

JdB   

14 julho 2021

Textos dos dias que correm

A porta estreita da felicidade

A palavra felicidade nos Evangelhos é menos que um hápax, pois a ela não corresponde qualquer ocorrência. Estranho, quando se pensa que a felicidade na modernidade se tornou quase um direito de natureza e um imperativo moral.

Se se observar o campo semântico que esta palavra gera nos Evangelhos, pode procurar-se sob a voz «bem-aventurança» ou sob a voz «alegria». Mas em ambos os casos a mensagem que estes dois termos veiculam está muito distante daquilo que possa ser a atual ideia de felicidade.

As bem-aventuranças de Jesus não têm nada a ver com o instinto para o prazer e para a exaltação do eu que a «felicidade» postula: bem-aventurados os pobres em espírito, bem-aventurados aqueles que estão no pranto, bem-aventurados os mansos.

O mesmo pode dizer-se da palavra alegria. Jesus diz que há mais alegria no dar do que no receber. O sentido que agrupa estas afirmações é o de cultivar a renúncia, reduzir as pretensões do eu, carregar as dificuldades e as cruzes próprias e dos outros.

Dostoievski está em perfeita sintonia com este ideal evangélico: «O homem não nasce para a felicidade. O homem ganha a sua felicidade e sempre com o sofrimento», anota no terceiro caderno dos materiais preparatórios para “Crime e castigo”. Ele liga a felicidade à fadiga, ao esforço, à imagem da «porta estreita»: «A felicidade adquire-se com o sofrimento», escreve no mesmo caderno.

É evidente que estas afirmações exprimem um paradoxo, formam um oximoro, a partir do momento em que colocam a par dois sentimentos que resultam um tanto contraditórios par a sensibilidade moderna.

Todavia, aquilo que para Dostoievski urge sublinhar é a fecundidade da relação entre felicidade e sofrimento. A propósito, numa carta de agosto de 1870 à neta Sof’ja, que ao tempo tinha 24 anos e à qual tinha dedicado o romance “O idiota”, escreve: «Sem o sofrimento também não entenderás a felicidade. O ideal passa através do sofrimento como o ouro atravessa o fogo. O reino dos céus obtém-se com o esforço».

Mais uma vez, é o modelo da «porta estreita» que o escritor faz brilhar entre as linhas da exortação à jovem. É verdade que se trata de uma mensagem “inatual”, mas que não cessa de fazer refletir também os modernos.

O cineasta Andrei Tarkovski, por exemplo, no seu testamento espiritual, perguntava: «Onde está escrito que a nossa vida na Terra deve ser feliz, que nos é dada por isso, e não por algo de mais importante para o homem?».


Lucio Coco
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 13.07.2021

12 julho 2021

Crónicas da Madeira bela

 

Viver no Funchal (que não é sinónimo de viver na Madeira) é viver com uma dose de imprevisibilidade meteorológica baixa: em condições normais a temperatura não desce muito abaixo dos 16ºC e em condições normais não sobe mito dos 25ºC. Nos últimos anos vim ao Funchal 3 ou 4 vezes e nunca consegui usar uma camisola, mesmo no dia 31 de Dezembro.  

Ir ao Reid's - mas também andar na rua - é ver o que foi o turismo madeirense durante muitas décadas: ingleses de meia idade ou reformados que, entre outras coisas, procuravam a certeza de um tempo ameno, que fugiam à inclemência inglesa do frio, da chuva e da humidade.

Quem, como eu, anda na casa dos 60 e tal anos, sabe o que é viver uma infância de baixa imprevisibilidade meteorológica: havia 4 estações num ano e sabia-se quando começavam e terminavam; não porque o calendário assim o dissesse, mas porque a natureza o dizia. Tudo mudou e hoje faz calor no Inverno e chove em Agosto. A Madeira é uma permanente e suave Primavera - sem a praga do pólen.

A vida no Funchal tem inegáveis qualidades, mas não gostaria de aqui viver, por vários motivos: não só a minha vida familiar e social é toda feita no continente, como me faz falta o contraste: preciso do frio, do Outono e dos dias que diminuem, do nevoeiro e da lareira, como também preciso das noites amenas e sem vento que também as há pelo Estoril. Não conseguiria viver só com bom tempo.

Estive aqui há um ano, mais dia menos dia, e a diferença é abissal: há gente nas ruas, os restaurantes têm gente, os hotéis voltam à vida, as esplanadas estão cheias; dizem-me que há uma invasão de nórdicos no Porto Santo. O que não muda, para além da amenidade do tempo? a simpatia do pessoal da restauração, que é onde me cruzo mais com os nativos: é gente competente, sempre com um sorriso que se adivinha por trás de uma máscara, com sentido de humor face a uma graça. Algumas zonas do Portugal continental deveriam obrigatoriamente fazer um tirocínio no Funchal, mesmo que seja num modesto restaurante. 

JdB   

11 julho 2021

XV Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Mc 6,7-13

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus chamou os doze Apóstolos
e começou a enviá-los dois a dois.
Deu-lhes poder sobre os espíritos impuros
e ordenou-lhes que nada levassem para o caminho,
a não ser o bastão:
nem pão, nem alforge, nem dinheiro;
que fossem calçados com sandálias,
e não levassem duas túnicas.
Disse-lhes também:
«Quando entrardes em alguma casa,
ficai nela até partirdes dali.
E se não fordes recebidos em alguma localidade,
se os habitantes não vos ouvirem,
ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés
como testemunho contra eles».
Os Apóstolos partiram e pregaram o arrependimento,
expulsaram muitos demónios,
ungiram com óleo muitos doentes e curaram-nos.

09 julho 2021

Textos dos dias que correm

A Coragem da Resignação

A palavra «resignação» não tem boa reputação. Lembra atitude devota, passividade, lágrima ao canto do olho. E todavia, não é isso. Em face dos limites de uma condição, da morte e do nada que vem nela, que outro nome dar à aceitação calma, à fria impassibili­dade? A revolta em tal caso pode falar ao nosso orgulho, à imagem de grandeza que queiramos se tenha de nós. Mas é uma imagem ridícula. Ela responde ainda, não ao reconhecimento do que nos espera, mas a uma notícia recente e não assimilada que disso nos dessem. A coragem não está na atitude espectacular, mas na serena e recolhida e modesta aceitação. Temos assim tendência a julgar herói o que enfrenta a morte com atitudes de grandiosidade, não o que a enfrenta no seu recanto, em silêncio e discrição. Mas o espec­táculo é ainda uma forma de compensar o desastre da morte — é ainda uma forma de uma parcela de nós se recusar a morrer. Quem morre resignado morre todo por inteiro, nada ele assim recusa do que a morte lhe exige.

Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente 2"

07 julho 2021

Vai um gin do Peter’s ?

ALEGRIA PARA LÁ DA DOR EM CANÇÃO 

Impressionou o júri de programa televisivo America’s Got Talent e já se tornou viral nas redes sociais, quer pela sua voz cristalina com o timbre de uma Sinead O’Connor, quer pela beleza da composição original, quer por aquilo que hoje chamamos de “atitude”! Percebe-se que é habitada por uma grandeza muito comovente.

Não sabemos quanto tempo é dado viver a esta artista anónima que, aos 30 anos, tem um cancro espalhado pelo corpo e 2% de hipóteses de viver. Mas, como ela clama com um sorriso profundo – «2% não é zero»! Transborda de uma alegria sincera e cheia de frescura, para lá do sofrimento e da pesada proximidade da morte.

Em palco, era uma figura magríssima e de indumentária descontraída, maximamente simples, como se guardasse a ousadia dos teenagers. A primeira troca de palavras com o júri foi arrebatadora e resultou num dos episódios marcantes do concurso de música mais famoso do mundo, depois do Festival da Eurovisão. No rol de FAQs do costume, teve de explicar que não tinha emprego, por ter um cancro, desde há anos. Já ia na terceira recidiva e o diagnóstico recebido no Ano Novo de 2019 dera-lhe 6 meses de vida. O júri ficou embaraçado e Howie tomou a palavra para a confortar, dizendo que ninguém adivinharia que ela estava doente. Nightbirde (nome artístico) agradeceu, mas subiu a parada e respondeu-lhe num comprimento de onda já escatológico, apontando para as razões mais profundas para se ser feliz. Para decidirmos ser felizes: «Thank you. It's important that everyone knows that I'm so much more than the bad things that happen to me. (…) You can't wait until life isn't hard anymore before you decide to be happy.»

Explicou também por que no mundo artístico não usa o seu nome Jane Marczewski mas Nightbirde, inspirada nos sonhos que teve com pássaros a cantar-lhe à janela, para a acompanhar durante a noite. À terceira vez, o sonho tornou-se realidade e umas aves notívagas (“nightbird”) e canoras vieram encher-lhe a noite de música, que é das suas maiores paixões. Achou tão especial aquele flash de festa a animar a escuridão do lado de fora da janela, que quis levar o mesmo rasto de luz aos outros, sobretudo a quem se sinta mais só e impotente. Explicou: «The birds were singing as if it was morning but there was really no sign of the light yet. And I wanted to embody that. Being somebody that could sing through a dark time because I was so full of hope and assurance that there would be a morning.»

Em entrevistas e, resumidamente, no tal concurso norte-americano, tem explicado o seu percurso, recuando aos anos da juventude em que suspendeu a música (durante 3 anos), para se dedicar a Deus. Precisava de recuperar da revolta interior em que se afundara, ao perder o amor próprio. Em 2017, soube que tinha um cancro feroz. A recidiva de 2019 anunciou-lhe 2% de hipóteses de sobrevivência. Nesse ano, o marido abandonou-a. Depois de acumular tanta dor, a presença dos pássaros cantores avivou-lhe o hobby preferido e voltou a compor árias. É nessa fase de provação que a sua fé cristalina e vigorosa mais brilha, voltando-se e confiando mais no Pai: «I believe that God can heal in one instant. I also believe that ‘no good thing does he withhold,’ so there was something God was growing in the field that is me, and if God had pulled up all of this hardship too soon, it would have also pulled up all these miracles he did in my spirit» (publicado no Liberty Journal).

O título da canção, que compôs e interpretou em America’s got Talent, condensa o seu último ano de vida, com um título auto-explicativo: «IT’S OKAY». A sua homenagem à vida em forma de música lava todas as lágrimas. Percebe-se por que aquele hino de esperança tem estado em primeiro lugar no concorridíssimo US iTunes: 


Pode faltar-nos a voz, a coragem, a vitalidade de Nightbirde. Mas que não nos faltem ouvidos e olhos para a reconhecer como sinal vivo de esperança, semelhante ao pequeno milagre que viveu na noite em que os pássaros encheram de alegria as trevas exteriores. Para milhões de espectadores e internautas, a sua estatura próxima do esqueleto revelou um gosto de viver puríssimo, sem obsessões nem sentimentalismos fáceis e redutores. “Apenas” uma simplicidade e um despojamento invulgares. Conhecê-la é um privilégio. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

06 julho 2021

Carta a um anjo

No espaço de um ano, mais coisa menos coisa - e contrariando uma estatística com alguma dimensão - chegam-me aos ouvidos casos de crianças com cancro: a filha de uma pessoa que me é próxima, o filho de uma amiga de uma sobrinha, a neta de alguém que é amiga de alguém, o filho de alguém que arranja as unhas de alguém. Falo com pais, com mães, com avós, como gente que conhece gente. As pessoas falam comigo primeiro, por causa da Acreditar, por causa de mim, por causa do que sou ou do que fiz, do que não sou ou não fiz.

Conversar com estas mães, pais, avós, madrastas é conhecer um mundo enriquecedor de gente que não desiste, mesmo quando os hospitais lhes dizem para desistir. Gente que luta, que atira filhas ao ar para espantar a doença, que faz carrinhos com alguidares, que reza terços, que se confia a Deus ou a uma medicina alternativa, que toca a vida dos outros. Ninguém faz um melhor trabalho do que o outro. Quem faz carrinhos de alguidares é tão forte como quem reza; quem procura medicina alternativa ou que se entrega aos desespero de uma garrafa de vinho pela calada da noite é tão forte como os que riem enquanto afastam a dor, ou que riem para afastar a dor. Todos fazem o melhor que lhes é permitido face à agrura de um diagnóstico. Todos dão o que têm e o que não têm: choro, dinheiro, esperança, uma mão que se estende a quem está pior, fé, desespero, raiva, tristeza, confiança ou dúvida.

Viver esta vida, estar em contacto com estes dramas não é acto de heroísmo nem de auto-flagelação, mas um momento de aprendizagem, de confirmação do que sabemos ou intuímos: é na diversidade que vivemos, e é na certeza de que o pai que se entrega ao vinho tem tanto amor como a mãe que se atira ao seu semelhante. Fazem o que podem e sabem, e fazem e sabem muito mais do que se deseja a alguém que tem uma criança pequena diagnosticada com cancro.

***

Nasceste hoje, mas há 27 anos. 

Na sua bondade sem fim
Quis Deus olhar para mim
Dar-me um pouco do que é seu
Deu-me uma filha pequena
A quem chamou Madalena
Que é uma das santas do céu

JdB, em nome de todos os que tem lembram


05 julho 2021

Do chá no Reid's

 

Tomar o chá da tarde no Reid's é ter a certeza de que há experiências que se mantêm imutáveis com o tempo. Tive essa experiência ontem, mas poderia estar a vivê-la há 50 anos, talvez. Há uma elegância no serviço, na vista, na frequência humana que nos dão a garantia de que este tipo de civismo é inglês. Independentemente da influência da D. Catarina de Bragança na tradição do chá das 5, tudo isto é inglês: o chá (Earl Grey para mim, sempre?), as sanduíches, os scones.


Não pode discutir-se a origem da açorda ou da pizza; não pode discutir-se a origem da doçaria conventual ou da pastelaria ou do vodka. Nessa linha de pensamento, não pode discutir-se a origem da civilidade, de um certo requinte de comportamento ou de tradições - a origem é Inglaterra.

À nossa volta há casais de ingleses de meia idade, já reformados. Poderiam ser o Churchill e a sua mulher, poderia ser a Agatha Christie a imaginar um crime. Não tocam telemóveis, não há crianças a correr, ninguém fala alto. 


 Ler os livros de Somerset Maugham (outros escritores haverá) é perceber um pouco do que afirmo; ver o África Minha é perceber outro pouco. Ingleses que vão para África ou para as Índias Ocidentais onde se quedam anos a fio a viver sozinhos, ou amancebados com gente local. No entanto, no sítio mais recôndito do Império Britânico, jantam de smoking. 


Tudo isto está para acabar, talvez, quando morrer uma geração que conheceu gente que conheceu o Somerset Maugham, o mundo do Império Britânico, ou o Quénia dos anos 40. Acaba quando a barbárie vencer, a cerveja eliminar o chá, os hooligans substituirem os casais de reformados que retocam o guarda-roupa para o chá do Reid's.


O chá do Reid's é um oásis, uma espécie de paraíso por onde o tempo não passou, o lugar geométrico da felicidade dos anglófilos, como eu. Ir ao Reid's (os lugares na esplanada já estão reservados para as próximas duas semanas) é viver uma experiência, não é lanchar, mesmo que haja sanduíches de pepino, de salmão, de pera abacate. Até isso contribui para uma cerimónia cara, muito cara, mas de uma elegância que não se repete em muitos sítios.

JdB  

04 julho 2021

XIV Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Mc 6,1-6

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus dirigiu-Se à sua terra
e os discípulos acompanharam-n'O.
Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga.
Os numerosos ouvintes estavam admirados e diziam:
«De onde Lhe vem tudo isto?
Que sabedoria é esta que Lhe foi dada
e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos?
Não é ele o carpinteiro, Filho de Maria,
e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão?
E não estão as suas irmãs aqui entre nós?»
E ficavam perplexos a seu respeito.
Jesus disse-lhes:
«Um profeta só é desprezado na sua terra,
entre os seus parentes e em sua casa».
E não podia ali fazer qualquer milagre;
apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos.
Estava admirado com a falta de fé daquela gente.
E percorria as aldeias dos arredores, ensinando.

02 julho 2021

De mais uma morte

Madeira, 1 de Julho de 2021

No espaço de meia dúzia de meses morreram três primos da minha família: o mais velho tinha 70 e muitos poucos anos, os outros andavam pelos 65 a 67, por aí. Dois morreram, se não vítimas do COVID, por complicações derivadas do vírus.

Sendo que todos tinham o mesmo apelido do que eu, poderia dizer que o número de pessoas que usa este nome decresceu assinalavelmente (um amigo diz-me que é uma família que morre muito). Ainda que pertinente, não é isso que me preocupa: tal como escrevi neste estabelecimento relativamente a outro primo, morre mais um bocado de memória. A este primo que morreu há 2 dias unia-me um laço de amizade recente. Mas éramos da mesma família, tínhamos histórias em comum, ele era detentor de conhecimentos que desaparecem com ele, conhecimentos de que eu queria ter usufruído, mas não fui a tempo. 

Durante muito tempo ouvi o meu pai dizer que tinha de falar com fulano/a porque essa pessoa tinha conhecimentos relevantes - ou apenas interessantes. Nunca o fez, e as pessoas morreram, levando para a cova um manancial de histórias e informações que mais ninguém tem. 

Com a morte deste meu primo morre mais uma fatia importante da memória da família. Já não me resta muita gente - nem sequer sei quem é que me sobra. Talvez me sobre eu, cheio de vontade mas falho de histórias.

JdB

Nota: no espaço de pouco mais de 1 ano morreram duas pessoas cujas iniciais seriam SdB. Em Outubro, recupera-se uma perda. O saldo continua negativo, mas há uma esperança na renovação.
 

01 julho 2021

Das armas e da burocracia

 Tendo trabalhado 20 anos numa fábrica gosto de olhar para os processos, em sentido geral: o que provoca uma fila num balcão, como é que numa linha de montagem as coisas poderia fazer-se de forma diferente, o que são os gargalos (bottleneck será pretensioso?) que entopem o fluxo normal de uma cadência.

Fruto de uma campanha que se vai repetindo, fui a uma esquadra da PSP entregar 3 pistolas. Liguei previamente para saber como se processava a entrega e ouvi um remoque, porque a campanha já decorria há 4 meses e eu telefonara a 3 dias do fim. Pensei que poderia discutir com o agente o conceito de prazo, mas talvez não fizesse sentido. Marcados dia e hora, dirigi-me ao local. Entre entrar e sair decorreram 70 minutos, isto é, uma hora e dez minutos. Eu conto:

1) o agente olha para a as armas e pergunta de quem eram. Sendo de pessoa falecida, inquire pela certidão de óbito e concordância de todos os herdeiros. Solicita documentos que poderiam ter sido solicitados aquando da marcação.

2) Não havendo todos os documentos (ou mesmo havendo, sei lá eu...) investiga com uma lupa a arma, debate o tamanho e equivalência das munições com o chefe, procura registos em várias plataformas da PSP. Não havendo registos tudo se torna mais simples: uma certidão de óbito apenas (as armas pertenciam a 2 proprietários, passaram a pertencer apenas a um) e uma procuração de plenos poderes onde não se fala de armas resolvem o buraco legal.

3) Armado de uma régua e da mesma lupa, faz medições várias - ao cano, às munições, talvez à coronha - introduzindo tudo num computador. 

4) Pede-me o cartão de cidadão - de que tira uma cópia - e introduz as informações relevantes. A seguir dá-me 3 impressos (um por cada arma) onde eu introduzo as mesmas informações relevantes. 

5) Por último dá-me a participação a ler e a assinar. Informa-me que as armas passarão por uma guilhotina e depois serão fundidas no Porto. Quis perguntar-lhe se tudo era para destruir por que razão mede o cano, mas talvez não fizesse sentido. 

São todos simpáticos. Falamos de armas (o agente escreveu mal o nome Smith & Wesson) e o chefe diz mal da Walther, porque nos comandos, onde ele andou, o armeiro pregava pregos com a coronha. Quis perguntar-lhe se a bestialidade não estaria no armeiro, mas talvez não fizesse sentido. É tudo gente simpática, de facto.

70 minutos de burocracia, de mails que demoram a entrar porque a esquadra está rodeada de prédios altos, de papéis que se preenchem em duplicado com informação talvez inútil. Entreguei 3 armas. Lá em cima, onde está o dono de apenas uma, me perguntarão: como assim, passei a ficar dono de pistolas que não eram minhas? Lá em cima, onde está a dona das outras duas, me perguntarão: o que fez às minhas pistolas? Uma guilhotina, uma fundição e tudo desaparece, como na gueena do fogo eterno.

JdB

   

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