terça-feira, 3 de março de 2020

Dos amores alfabéticos

Ruben namorava com a Rita - e já namorara com a Rosa; tentara namorar com a Rute mas foi preterido. Nunca soube o que o fascinara na Rute, se um cabelo encaracolado e selvagem, se uns olhos levemente assimétricos, se a letra R. Por seu lado, Rita tinha namorado com Paulo e depois com Quirino e só então surgira Ruben. Um dia, distraidamente (ou talvez não) olhara com intensidade para Sérgio. Não percebeu se o motivo de interesse era o porte atlético, as mãos grandes e fortes, o olhar espantado para tudo na vida ou, muito simplesmente, a letra 'S' com que começava o nome. Afinal, beijara um 'P', um 'Q', um 'R' - a sequência natural seria um 'S'.  Mas ficara com Ruben, que também decidira ficar com Rita. Talvez fosse um amor alfabético, suportado no mistério das letras que ninguém sabia explicar.

Ruben e Rita caminhavam lado a lado na vida - e no passeio - como se fosse uma demonstração de paralelismo que terminaria no infinito. Não havia à frente nem atrás. Caminhavam por vezes de mão dada, porque a explicação era um paralelismo de afecto: ambas as mãos se davam, ao contrário do braço dado, pois nesta vertente havia alguém que dava o braço a alguém. Conversavam em diálogo, no mais perfeito diálogo: falava um e depois o outro, e depois um e depois o outro. E faziam amor como quem dava as mãos: numa reciprocidade quase perfeita, sem posições dominantes nem nada por dizer ou com tudo por dizer, porque não havia discrepâncias nem desequilíbrios. Talvez a descrição mais perfeita do casal Ruben e Rita tivesse sido feita por um amigo de ambos. À pergunta logística sobre como iriam o Ruben e a Rita, para se decidir carros num passeio, alguém disse com um ar que levantou interrogações quanto ao sentido: vão lado a lado.


Um dia Ruben teve de viajar em serviço a Bilbao. Iria sozinho, que era uma viagem curta. De passeio num fim de tarde quente, passou numa praça junto ao Guggenheim. Havia gente, agitação, crianças a correr, pares a bebericarem refrescos, idosos a ler num banco ou a conversar. Ruben viu primeiro o cartaz, antes de ver quem o segurava: free hugs. Teve um momento de emoção juvenil, como se lhe tivessem acenado com um cigarro sem filtro num qualquer setembro perdido numa mata alentejana. Teve a vertigem do pecado, da satisfação da necessidade, da juventude cravada de desejos. Só depois viu quem segurava o cartaz: uma rapariga indiferente, jovem, com cabelos pelos ombros e uns jeans rotos; um conjunto que não seria classificado de entusiasmante. Mas Ruben já estava corrompido, possuído, invadido; já dera início ao caminho, já passara o ponto de não retorno. Dirigiu-se à rapariga e deu-lhe um abraço que foi correspondido. Sentiu uns braços gratuitos a exercerem força nas costas, nas omoplatas, no coração e no desejo. Perguntou à rapariga se podiam repetir; e repetiram outra vez e mais outra. Ela acedeu porque os olhos dele não revelavam lascívia, desejo carnal, vontade de mais: queria o abraço que lhe davam, mais do que o abraço que ele tinha gosto em dar. Não havia lado a lado,  mas ele não sabia o que havia. Tudo tremeu quando lhe perguntou o nome, ofegante e entusiasmado. Ela respondeu Jesuína, mas o 'J' em castelhano lê-se como um 'R' e Ruben teve um sobressalto.  

Ruben, o homem do apego aos 'R' chegou ao hotel e sentou-se ao computador: querida Rita, temo que vá contar-te uma coisa que não sei se me perdoarás...

JdB      

segunda-feira, 2 de março de 2020

Textos dos dias que correm

As Minhas Fraquezas

Há uma certa fraqueza, uma falha em mim que é suficientemente clara e distinta mas difícil de descrever: é uma mistura de timidez, reserva, verbosidade, tibieza; pretendo com isto caracterizar qualquer coisa de específico, um grupo de fraquezas que sob um certo aspecto constituem uma única fraqueza claramente definida (o que não tem nada a ver com esses vícios graves que são a mentira, a vaidade, etc.). Esta fraqueza impede-me de enlouquecer, eu cultivo-a; com medo da loucura, sacrifico toda a ascensão que eu poderia fazer e perderei de certeza o negócio, porque não é possível fazerem-se negócios nesta esfera. A menos que a sonolência não se misture e com o seu trabalho diurno e nocturno não quebre todos os obstáculos e não prepare o caminho. Mas nesse caso serei apanhado pela loucura — porque para se fazer uma ascensão é preciso querer-se e eu não queria.

Franz Kafka, in 'Diário (1912)'

***

A Fraqueza Fundamental do Homem

A fraqueza fundamental do homem não é nada que ele não possa vencer, desde que não possa aproveitar com a vitória. A juventude vence tudo, a impostura, a astúcia mais dissimulada, mas não há ninguém que possa deter no voo a vitória, torná-la viva, porque então a juventude deixou de existir. A velhice não ousa tocar na vitória e a nova juventude atormentada pelo novo ataque que se desencadeia imediatamente, deseja a sua própria vitória. É assim que o Diabo sem cessar vencido, nunca é aniquilado.

Franz Kafka, in "Meditações"

domingo, 1 de março de 2020

I Domingo da Quaresma

EVANGELHO - Mt 4,1-11

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto,
a fim de ser tentado pelo Demónio.
Jejuou quarenta dias e quarenta noites
e, por fim, teve fome.
O tentador aproximou se e disse lhe:
«Se és Filho de Deus,
diz a estas pedras que se transformem em pães».
Jesus respondeu lhe:
«Está escrito: 'Nem só de pão vive o homem,
mas de toda a palavra que sai da boca de Deus'».
Então o Demónio conduziu O à cidade santa,
levou O ao pináculo do templo e disse Lhe:
«Se és Filho de Deus, lança Te daqui abaixo, pois está escrito:
'Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos,
para que não tropeces em alguma pedra'».
Respondeu lhe Jesus:
«Também está escrito: 'Não tentarás o Senhor teu Deus'».
De novo o Demónio O levou consigo a um monte muito alto,
mostrou Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória,
e disse Lhe:
«Tudo isto Te darei,
se, prostrado, me adorares».
Respondeu lhe Jesus:
«Vai te, Satanás, porque esta escrito:
'Adoraras o Senhor teu Deus e só a Ele prestaras culto'».
Então o Demónio deixou O
e logo os Anjos se aproximaram e serviram Jesus.

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