11 fevereiro 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

A VOZ MISTERIOSA QUE FASCINOU OS BEATLES 

Esse ano de 1965 prometia acabar em beleza, com novo concerto da mais aclamada banda pop da época – os Beatles. O estádio Hammersmith Odeon de Londres estava apinhado de fãs, na histeria típica que rodeava todas as actuações dos britânicos. Nessa noite, porém, uma surpresa aguardava os quatro magníficos, que iam para o seu 347º concerto, pensando apenas somar mais um previsível sucesso de beatlemania.

Enquanto o palco esteve às escuras, a gritaria da multidão inundava o estádio, até uns holofotes estratégicos iluminarem a chegada dos músicos ao palco. Uns segundos de silêncio em êxtase para logo redobrarem os aplausos, os gritos, as lágrimas e alguns desmaios ou simulacros de... Só voltou alguma calma, quando as guitarras arrancaram os primeiros acordes e Paul McCartney começou a cantar. No palco ouviu-se, então, uma quinta voz, claramente feminina, a improvisar uma ária que harmonizava na perfeição com a dos Beatles. George Harrison, o mais entendido em música, percebeu que aquele contributo misterioso tinha uma sofisticação que nunca ouvira nos ambientes rock seus conhecidos. Paul também dá pela voz e, entre troca de olhares, percebe que John também a distinguira. Avançam para a segunda música e a voz reaparece, segura, riquíssima, originalíssima. Terceira música e terceira intervenção da enigmática voz, a melhorar imenso a sonoridade final da banda, num improviso mais ao jeito do jazz. Tanto mistério, era demais! Nenhum dos 4 tinha já dúvidas sobre aquele acrescento surpreendente e único no seu historial de concertos. 

Também o público estava a aperceber-se de uma insólita presença musical extra, ficando menos interventivo e menos barulhento. Tudo q.b. insólito, como a decisão que tomaram os quatro, sem precisarem de trocar palavras entre si. Pararam o concerto, juntaram-se ao centro e Paul virou-se para a multidão e, ao microfone, pediu à voz espectacular para se dar a conhecer! Ninguém respondeu, fazendo-se um inusitado silêncio. Paul insistiu, em vão.     

Então, Lennon fez uma sugestão audaciosa para os 4 irem à procura da voz, por entre as 15 mil pessoas! À parte do pânico dos seguranças, o público manteve-se incrivelmente calmo, talvez adivinhando a cena única que estavam a viver. Seguiram-se quinze minutos surreais na história do rock & rol, com os Beatles no encalce de uma voz linda nas zonas do estádio onde a tinham captado. Interpelavam, então, cada fila, convidando os espectadores a entoar um início de alguma das suas composições. Coube a George a grande descoberta, no balcão superior onde se metera. Mais precisamente, no lugar 23, da fila 5 da secção 12, descobriu uma envergonhada miúda de 22 anos, a quem a prima, sentada ao lado, implorou para fazer o que George lhe pedira e entoar um par de notas. Mal cantou, Sarah Williams saiu do anonimato. Nunca imaginara que os Beatles iriam no encalce da autora dos seus originalíssimos arranjos vocais, pois nem se apercebera que estariam a ser ouvidos no palco e a fazer furor!

Uma vez descoberta, os quatro conseguiram a custo convencer a tímida Sarah a actuar com eles, no palco, continuando a improvisar, como era sua especialidade!  Quando Paul lhe deu um microfone, os primeiros sons da jovem professora de música clássica saíram titubeantes. Mas, aos poucos, conseguiu submergir na música, abstrair da multidão e retomar o seu habitual improviso, num alinhamento perfeito com a banda de Liverpool.  

Claro que a sua vida pacata, num povoado perdido do País de Gales, nunca mais foi a mesma, passando a ser procurada por outros grupos e pelos estúdios para enriquecer com novas texturas musicais as composições dos grupos rock mais prolíficos. 

Com sólida formação em música clássica, Sarah William dava aulas de piano e, desde tenra idade, divertia-se a compor contra árias e polifonias sofisticadas para complementar composições conhecidas. Não se limitava aos tons abaixo ou acima, antes introduzindo novas melodias para dialogar e aumentar o espectro sonoro da sequência principal, ao jeito das sobreposições de diferentes árias na ópera, em dueto e terceto. Nascida nos anos 40, viveu a juventude bombardeada pelas toadas do rock, do pop e do jazz, vindas do outro lado do Atlântico. Detestava a algazarra dos magotes de fãs das bandas da década de 60, que punham os Beatles nos píncaros. Só apreciava Bach e orquestrações clássicas eruditas. Mas calhava ter uma prima fã dos miúdos de Liverpool e das modas do seu tempo. Essa prima conseguira dois bilhetes para o concerto no Hammersmith Odeon, a 10 de Dezembro. Resolvera desafiar a professora da parvónia para a acompanhar aos Beatles, o que não fora tarefa fácil. O resto da história já é sabida e o resultado foi modernizar o seu repertório musical e colaborar com mais bandas no enriquecimento das composições rock. Por seu turno, os Beatles resolveram focar-se mais no trabalho em estúdio, em vez do frenesim dos concertos, para trabalharem melhor os arranjos e as boas improvisações. 

Quem diria que uns miúdos rockers saberiam tão bem reconhecer o talento de uma especialista em Bach! E quem diria que a craque na música clássica saberia reconhecer a qualidade musical daquele quarteto pop rock!  Bem costumava responder Stravinski, quando lhe perguntavam pelo estilo de música preferido e onde situava a sua obra (citado por aproximação): ‘na música o que importa não são as escolas nem os estilos, mas a qualidade, se é boa ou má’! O salto para a ribalta da anónima Sarah confirmou também a magnanimidade dos Beatles a repartir os holofotes com gente dotada e igualmente melómana, vinda de outras tradições. Na beleza da linguagem musical, todos encontraram um chão comum, tendo sabido tornar complementares os diferentes contributos de uns e de outros. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)  

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