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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Vai um gin do Peter’s ?

DOIS GÉNIOS E RIVAIS LADO-A-LADO, 500 ANOS DEPOIS

Durante sete dias únicos, de 17 a 23 de Fevereiro, as 12 tapeçarias monumentais concebidas por Rafael para a Capela Sistina estiveram suspensas no local para onde tinham sido concebidas, à vista da criação e do julgamento final pintados por outro génio da mesma época – Michelangelo. 

A encomenda a Rafael, pelo Papa Leão X, correspondia ao costume antigo de adornar a maior Capela Pontifícia para as cerimónias litúrgicas solenes. Os panejamentos gigantescos revestiam a parte inferior das paredes, ao nível dos olhos, funcionando como painéis movíveis. 


O pintor, que morreu aos 37 anos, já não viu as tapeçarias manufacturadas a partir dos desenhos lindíssimos, que fizera num escasso biénio (1515-16), enquanto pintava os murais de várias salas dos Museus Vaticanos, hoje conhecidas pelo seu nome. Demorou 4 anos, o trabalho de tecelagem executado no famoso atelier de Pieter van Aelst, em Bruxelas, com fios de seda, lã e prata dourada. Depois de prontas, as 12 obras-primas conheceram um destino turbulento, só retornando ao Vaticano no século XIX.

Retrato de Rafael, pintado por Agnolo Doni entre 1505 e 1506 

Apenas 7 dos desenhos originais de Rafael, que serviram de modelo à manufactura de Bruxelas, sobreviveram, sendo hoje propriedade do Museu Victoria & Albert de Londres. 

O primeiro grupo de sete tapeçarias foi colocado na Capela Sistina, a seguir ao Natal, a 26 de Dezembro de 1519, como um presente soberbo daquele ano. A totalidade das doze ainda pôde ser apreciada por Leão X, mesmo antes de morrer, em 1521. Mas foram logo vendidas, para pagar o funeral do Papa. 

Um ano depois eram recuperadas, para abrilhantarem a cerimónia de entronização do Papa Adriano VI. Em 1527, foram saqueadas. Porém, em 1544, voltaram à coleção da Santa Sé.

Em 1798, durante a ocupação francesa de Roma foram roubadas e depois vendidas ao desbarato a um comerciante. Finalmente, em 1808, regressaram aos Museus Vaticanos, onde permanecem.


Cristo transmite a Pedro a missão de guiar a Igreja

Em 1983, na celebração dos 500 anos do nascimento de Rafael, algumas das tapeçarias estiveram suspensas no lugar que lhes fora destinado – a Capela Sistina – em diálogo com os frescos de Michelangelo, dedicados ao alfa e ómega da humanidade. Por seu turno, as peças de Rafael, dedicadas às vidas do Apóstolo das Gentes e do Primeiro Papa, entrelaçam a história humana com a história da Igreja – chamada a ser presença de Deus no tempo dos homens.

Conversão de S.Paulo

Para a Directora dos Museus Vaticanos, esta exposição-relâmpago de luxo pretendia: «fazer uma representação histórica, retornando[-as] ao local para o qual foram encomendadas em 1515 e onde foram penduradas em 1519 as maravilhosas tapeçarias dos desenhos de Rafael, que são realmente um acabamento teológico e visual daquela magnífica catequese visual que é a Capela Sistina», com possibilidade de visita virtual:



Segundo a investigadora e teóloga norte-americana Jill Alexy, a narração das biografias de S. Pedro e S. Paulo, pontuadas por milagres eloquentes da Voz que os inspirava, mostra a harmoniosa «união dos seus esforços humanos, como ministros da Palavra e do Altar, com a atividade transcendente do Espírito Santo. (…) É uma maneira incrivelmente bela de ilustrar a teologia bíblica e a pneumatologia [tratado sobre o Espírito Santo], que encontramos nos Actos dos Apóstolos». 

A feliz junção das obras de Rafael e de Michelangelo num mesmo espaço, visava oferecer pela Beleza uma pedagogia especialmente adaptada aos anos atribulados da Reforma. Como explicava Jill A.: «deve ter sido uma ferramenta útil [no contexto da reforma protestante] ver as tapeçarias, ver os frescos, andar no chão cosmatesco e ouvir o canto da oração que acompanhou toda a experiência». «[No] impressionante cenário [da capela Sistina], o efeito visual é o de olhar para cima através do ministério e dos milagres dos apóstolos, [começando] no registo mais baixo». «É claro que esta dramática viagem pictórica através da história da salvação [proporcionada pelos frescos de Michelangelo] não pode ser considerada completa sem as tapeçarias, que são parte integrante de toda a experiência sensorial». 

A pesca milagrosa.

Talvez ninguém tenha expressado melhor o efeito esplendoroso das 12 peças de Rafael do que Paris de Brassis, Mestre de Cerimónias do Papa que as encomendou e sensível à missão da Beleza: «no juízo universal, não existe nada de mais belo no mundo do que a Capela Sistina, ornamentada também com tapeçarias, além de todo o resto».

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Vai um gin do Peter’s ?

SABEDORIA OUSADA DE REALIZADOR DE 20 ANOS, IRANIANO

Beleza e ousadia transbordam da curtíssima-metragem de um jovem realizador iraniano – Syed Mohammad Reza Kheradmand – de apenas 20 anos! «Thursday appointment» já começa a arrecadar prémios, tendo começado pelo galardão do festival de cinema no Egipto – o Luxor African Film Festival, organizado por uma ONG para incentivar a Sétima Arte de produção africana. Porém, é na net que o sucesso mais se faz sentir, tendo-se já tornado ‘viral’. Nem a locução em persa (farsi) impede a compreensão da mensagem mais profunda, ainda que alguma grandeza poética possa ter-se esbatido na tradução inglesa. 

É difícil imaginar que, aos 20 anos, alguém repesque um poema de amor do século XIV para o arranque de um filme. Os versos recitados foram compostos pelo grande poeta persa Hafez. Como é difícil imaginar que o ângulo do amor focado se situe na idade dos bisavós, reconhecendo-lhes a autoridade da experiência acumulada, comprovada pelo sucesso no teste do tempo. E escolheu-a como fonte de amor para inspirar os mais novos, ainda com dificuldade em acertar o passo a dois. Também por isso, são os velhinhos, já (só) perigosos ao volante, os mais capazes de comemorar a sua história a dois. Fazem-no com poesia, entretendo-se num jogo de sala persa, em que cada um tem de recitar um verso começado pela última letra do verso declamado pelo outro. 

A curta-metragem mergulha mais fundo, porque o miúdo-realizador evoca a própria morte, mas sem se deter nela, antes avançando para a memória do inesquecível, que não conhece o ocaso. Assim, a proposta de amor que sustenta o argumento de Kheradmand reclama a própria Eternidade! Reclama esse presente tornado eterno, depois de se emancipar da precariedade de um tempo que se esvai. Porque o amor de um instante nunca está à altura do que pede o coração humano, portanto, do que pedem os amantes verdadeiros. Daí que aquele jovem artista persa tenha preferido um casal com rugas e cabelos brancos para melhor homenagear um patamar de amor mais profundo, mais amadurecido, triado pelo tempo e selado no tempo que foi possível conquistarem em conjunto. 

No filme, a alusão à morte é dupla. Segue no título, pois na cultura persa a Quinta-feira é o dia auspicioso para as visitas ao cemitério. E está também numa imagem final, com o velhinho a levar um ramo de flores brancas (a cor usada no Irão para homenagear os mortos) para a campa da sua querida. Como se a boa memória do seu amor pudesse lançar uma ponte entre o Céu e a Terra… até se reunirem do lado de lá de uma outra vida. A contrastar com esse ramo branco, são cor de sangue vivo as flores viçosas levadas pela velhinha, em vida, no passeio aventuroso com o marido ao volante… a falhar semáforos.


Percebe-se por que a expressão mais repetida pelos muitos fãs que se têm manifestado na net seja a comoção face à beleza do filme iraniano, cuja eloquência suplanta a barreira linguística. Mais bonito era difícil!  

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)


quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Vai um gin do Peter’s ?

EM ARTE MODERNA, A NATUREZA ESTARÁ MUITO À FRENTE

Um grupo de aventureiros, liderado pelo fotógrafo russo Mikhail Mishainik, resolveu explorar os túneis subterrâneos de uma mina de sal desactivada e situada no subsolo do terceiro maior polo industrial da Rússia – Ecaterimburgo (ou Yekaterimburgo).

Nessa cidade importante da Eurásia, o grupo expedicionário ficou siderado com a beleza dos veios minerais multicolores que se entrelaçam ao longo dos canais perfurados nas profundezas do planeta, decorando-os sumptuosamente desde o chão até ao tecto. Ao festival de cor juntam-se padrões simétricos de baixos-relevos, num movimento bem sincronizado com o cromatismo rico daqueles subsolos artísticos. Felizmente, a aventura foi bem documentada, desvelando o virtuosismo da natureza em arte plástica. De outro modo, a profusão de obras-primas continuaria desconhecida:


Como se a azáfama pictórica fosse insuficiente, a natureza esmerou-se também em proezas escultóricas. 


A paisagem em redor das minas já tem uma marca surreal. 


A abundância de carnalite de diferentes tons produziu tramas de efeito visual artístico e vanguardista, percebendo-se o atributo psicadélico com que foi cunhada a gruta decorada por artimanhas naturais. Como se a natureza tivesse tido aulas com Rothko, Kandinsky, George Braque, Delaunay, Arpad Szènes… e seminários com Amadeo de Souza-Cardoso, Picasso, Mondrian, Almada, Escher, Gerhard Richter. Porém, a lista de mestres teria de se multiplicar, face à transfiguração de velhos trilhos mineiros num museu de arte contemporânea, que se estende por um intrincado labirinto de quilómetros. Pena ser inacessível… 





O fotógrafo explorador não omite os perigos que a expedição envolveu, desde logo, de envenenamento pela presença de gases tóxicos. Mas encara-os como factor extra de adrenalina. Aquela viagem ao centro da terra, à Júlio Verne, prolongou-se por 20 horas e exigiu um labor minucioso, quer nos preparativos, quer na montagem in loco de inúmeras pontes e passagens para o grupo avançar pelos túneis com alguma segurança. As imagens obtidas coroaram de êxito o imenso esforço, trazendo à luz do dia uma arte moderna onde nenhuma mão humana interveio, se não para a fotografar.   

O fotógrafo líder da expedição à direita. 
Tanta beleza subterrânea confirma a actualidade daquele dizer muito antigo e verdadeiro para lembrar o esplendor dos lírios do campo, sumamente frágeis, a nascer ao sabor de ventos e abelhas e de longevidade curtíssima, mas nem por isso menos perfeitos. Misterioso mundo habitado por uma beleza festiva, que não se importa de ser fugaz, nem de permanecer oculta em lugares intocados, mas nunca desiste de ser pródiga em feitos lindos, muitos (talvez a maioria) dos quais poucos chegam a conhecer. Shakespeare, pela boca de Hamlet, profere (mais) uma sábia reflexão sobre essa beleza maior, inalcançável e até incompreensível para os critérios humanos, mas que não deixa de estar presente, aqui e agora, como o atestam, num certo sentido, as cavernas quase intransitáveis de Ecaterimburgo: «Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia.» [Acto I, Cena V]. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Vai um gin do Peter’s ?

RAFAEL E FIGURA FEMININA NO EPICENTRO DA MENSAGEM DO PAPA AO C.D.

No discurso de início de ano proferido ao Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé, o Papa apoiou-se num dos maiores génios da arte Ocidental para sustentar a mensagem de inauguração do Novo Ano. Convocou nada menos do que um dos Magníficos do triângulo de ouro do Renascimento italiano, a par de Leonardo e de Michelangelo.


No ano dos 500 anos da morte de Rafael (a 6 de Abril de 1520), o Papa invocou o exemplo do autor dos frescos que engrandecem várias salas dos Museus Vaticanos, lembrando o facto de a musa preferida do pintor ter sido uma mulher, a Mãe da Natividade. A presença de Maria prevalece nas telas de Raffaello Sanzio, quase todas célebres. Nos seus óleos ressalta a maternidade única e sagrada, sempre gentil e subtilmente debruçada sobre o Pequenino, que cuida com uma ternura tocante, sem excessos protecionistas nem aprisionantes, como se fosse fácil aquele velar atento e suave, em simultâneo, quase imperceptível... 

Madonna no prado – Museu de História de Arte, em Viena

Madonna Cowper (pequena), na National Gallery of Art em Washington

Madonna com o Livro (Conestabile Madonna),  Hermitage - S.Petersburgo.

Madonna do Grão-Duque, no Palácio Pitti - Florença.

Sagrada Família com palmeira, Museu de Edimburgo

Francisco quis deter-se na tela dedicada à Assunção de Nossa Senhora, cujo dogma foi proclamado há 70 anos, para dirigir aos 180 diplomatas «um pensamento particular [sobre] todas as mulheres», 25 anos após a 4.ª conferência mundial da ONU sobre a mulher, realizada em Pequim, em 1995, «fazendo votos para que em todo o mundo seja cada vez mais reconhecido o papel precioso das mulheres na sociedade, e cesse toda a forma de injustiça, desigualdade e violência em relação a elas». Depois, advertiu contra a violência de que são alvo, em todas as latitudes, infelizmente, ferindo a humanidade no seu âmago: «Toda a violência infligida à mulher é uma profanação de Deus. Exercer violência contra uma mulher, ou explorá-la, não é um simples ato, é um crime que destrói a harmonia, a poesia e a beleza que Deus quis dar ao mundo».

Virgem da Assunção.

Partindo da dupla virtuosa do exímio pintor renascentista e da sua musa de eleição, o Papa expôs aos 180 diplomatas a missão da Diplomacia e o alcance que pode ter: «A Assunção de Maria convida-nos também a olhar mais longe, para o cumprimento do nosso caminho terreno, para o dia em que a justiça e a paz serão plenamente restabelecidas. Sentimo-nos assim encorajados, através da diplomacia, que é a nossa tentativa humana, imperfeita, mas sempre preciosa, a trabalhar com zelo para antecipar os frutos deste desejo de paz, sabendo que a meta é possível». Explicou melhor as afinidades do esforço diplomático com o aperfeiçoamento que a Arte promove: «como o génio do artista sabe compor harmoniosamente materiais em bruto, cores e sons diferentes, tornando-os parte de uma única obra de arte, assim a diplomacia é chamada a harmonizar as particularidades dos vários povos e estados para edificar um mundo de justiça e de paz, é que é o belo quadro que desejamos poder admirar».

Apontando para a coragem de Rafael, que soube sublimar por via artística as dificuldades de tempos atribulados e com muito menos recursos para a maioria, o Papa assinalou: «foi um filho importante de uma época, a do Renascimento, que enriqueceu toda a humanidade. Uma época não privada de dificuldades, mas animada de confiança e esperança».

No final, associou Rafael aos desejos formulados para o Novo Ano: «Através deste insigne artista, desejo fazer chegar os meus mais sentidos votos ao povo italiano, a quem desejo que redescubra esse espírito de abertura ao futuro que marcou o Renascimento, e que tornou esta península tão bela e rica de arte, história e cultura».

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Vai um gin do Peter’s?

PRESÉPIO DO SÉC. XXI ESTÁ EM PARIS E CONTÉM SEGREDO NA ESTRELA  

Desde há anos que uma das mais sofisticadas paróquias de Paris – La Madeleine – convida artistas contemporâneos a expor uma versão renovada do presépio, revisto pelo olhar do nosso tempo. Este ano, o casal de artistas plásticos Pascale e Damien Peyret foi convidado a partilhar a sua experiência de Natal com o paroquianos e inúmeros visitantes do conhecido templo parisiense.  

Com enorme originalidade, os Peyret expuseram a Natividade numa linha narrativa, salpicando-a de imagens. A onda, em papel esbranquiçado, jorra de uma das poderosas colunas da Madeleine, remetendo para a coluna da «Anunciação» de Fra Angelico, que prefigura o próprio Cristo. É desse alfa da instalação (e da Criação) que irrompe um rolo turbulento, que se contorce até pousar sobre as magníficas lajes do chão de mármore. Aquele contorcionismo exuberante representa a nossa época conturbada, repleta de incertezas e ameaças. 


Partindo da coluna, a primeira imagem projectada é a estrela de um vitral gótico alemão do séc.XV [do acervo do Metropolitan Museum of Art, de Nova Iorque], que dá o nome ao presépio: «UNE ÉTOILE DANSANTE». Mais do que coreográfico, o título da Estrela Que Dança cita directamente o grande e polémico e louco filósofo alemão Friedrich Nietzsche, nesta frase espantosa: «É necessário levar o caos dentro de si para ser capaz de gerar uma estrela dançante» [in «Assim falava Zarathoustra»]. A estrela luminosa emerge assim do âmago do coração humano, para daí salpicar de luz e vida o cosmos escuro e infinito, ligando a humanidade à imensidão da abóbada celeste.  Toda a metáfora expõe, na perfeição, a sede de infinito e de eternidade que habita o ser humano.  

No presépio contemporâneo: no lajeado, a imagem do Bebé recortada sobre ouro ressalta como um medalhão icónico e provém do políptico pintado no atelier de Rogier van der Weyden (1399-1464). Acima de Jesus, descortina-se a figura de um dos Magos – Melchior, extraída de uma tela anónima, quatrocentista – a apontar para a estrela dançante, que ressoa no ceú e no íntimo do ser humano, segundo a sugestiva concepção de Nietzsche.  


Mais pormenores adensam a eloquente obra dos Peyreut, explicada no seu portal [https://fragmentsdesens.com/une-etoile-dansante/], onde consta também o elenco das telas clássicas evocadas na sua narrativa. Das lindíssimas citações seleccionadas pelo casal de artistas francês, talvez seja o filósofo alemão de oitocentos a tocar mais fundo no sentido ulterior do Natal. Em 1864, gravou esta súplica no seu estilo intenso e reivindicativo: «Elevo, só, minhas mãos… ‘Ao Deus desconhecido’...  Eu quero Te conhecer, desconhecido. Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida. Tu, o incompreensível, mas meu semelhante» (1864). Tal como na estrela, também no Deus desconhecido reconhecia semelhança, pois sentia-O ecoar no lugar mais íntimo do seu ser... e de todo o ser humano.

Outro artista-escritor francês, herói da Resistência durante a Segunda Guerra e premiado pela Academia Francesa pelo seu romance «Le Drame des Romanov» -- o marquês Michel de Saint-Pierre (1916-1987) – deixou uma reflexão que também remete para o mistério da Gruta de Belém: «Deus ama-nos tal como somos, mas continua a olhar-nos como nos desejou.» Que estranho Alguém sonhar para nós muito acima dos nossos melhores sonhos! Dados a confundir o que somos com o que desejaríamos ser por dificuldade em amar o que existe, é insólito descobrir Alguém disposto a amar o que calha sermos e sabe onde poderíamos chegar, mas vamos adiando. 

Que estranho Alguém aceitar o instante do presente onde é raro estarmos, esgueirando-nos para tempos moldáveis aos subjectivismos – passado e futuro – enquanto o nosso horizonte de vida, hoje, fica à mercê de um contínuo de boas e más escolhas, sem especial lógica nem total noção de que o tempo é dom, mas fugaz. 

E se esse Alguém, que decidiu nascer num lugar inóspito, quiser ficar connosco para sempre? Será a realidade boa e mansa – ao jeito dessa Presença –, que melhor nos pode acompanhar no Novo Ano. Continuação de B O A S--F E S T A S a todos e FELIZ 2020,

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Vai um gin do Peter’s ?

DE VITÓRIA EM VITÓRIA ATÉ À DERROTA FINAL - «A HERDADE»,

O novo filme(1) de Tiago Guedes revisita com mestria uma parcela ampla da história de um país sujeito a enormes transformações, sentidas também num Alentejo aparentemente pacato e menos vulnerável a mudanças vindas do exterior. 

A personalidade cativante de João Fernandes, dono de um dos maiores domínios da metrópole – dito ‘latifúndio’, na nomenclatura pós 25 de Abril – está talhada para gerir a terra com garbo e carisma, numa extensão perfeita de si próprio. A magnífica empresa rural, que herdara após o doloroso suicídio do irmão mais velho, fluía solidamente sob o seu pulso firme e empreendedor. Pontificava sobre extensos olivais com mantos de água e pequenas praias fluviais, o casario dos trabalhadores bem orientados sob a sua batuta e o monte onde a casa grande se estendia em U, fiel à tradição arquitectónica do Sul da Península partilhada com as fincas andaluzas. 

O argumento, montado em espiral, começa e acaba junto à copa da árvore centenária, que se impõe num horizonte plano e raso. Mergulhamos na infância de João, algures na década de 50 do século XX, quando aquela ramagem frondosa serviu de cenário ao enforcamento do irmão morgado. O pai obrigara-o a encarar o cadáver e deixara-o no vazio: o que termina – avisou-o – termina! Tendo apenas 6 ou 7 anos, o pai condescendeu que fugisse, de seguida, para se abrigar na pequena ilha à vista da árvore antiga onde a morte baloiçava ao vento. Ali terá recuperado o ânimo, pelo mesmo apego à terra que revitalizara Scarlett O’Hara quando o mundo escapou ao seu controle dominante, sonegando-lhe as expectativas. Na forte réplica portuguesa de ‘E tudo o Vento Levou’ reencontramos, em seguida, o jovem adulto confrontado com os desafios do tempo, à medida de uma maioridade pujante. Experimenta, então, a pressão descarada (e em caricatura) dos sequazes da política centralista da Primavera marcelista, boçais e implacáveis no afã de orquestrar as vontades individuais, sobretudo das elites mais independentes. Conseguiriam domar o indomável e bem relacionado João?      


Tinha a força pessoal e as alianças certas para marcar posição, mesmo em contraciclo com um regime controlador.

Hábil, corajoso e sustentado por um bom jogo de alianças, o dono da terra não se deixa vergar. Antes sulca vias para reacertar o rumo segundo o que entende ser mais justo, sem beliscar o seu património. Com a mesma habilidade e coragem, esquivou-se às libertinagens perigosas que a Revolução dos Cravos agitou no Alentejo. Nessas afrontas, revelou uma tranquilidade igualmente invulgar, saindo ileso de um estatuto que o atirava para o olho do furacão. O seu networking eficaz voltou a permitir-lhe escudar-se no séquito de trabalhadores incrivelmente fiel e bem sintonizado com a sua liderança vigorosa e inspiradora. Os tempos acabavam por lhe correr de feição, parecendo eternamente moldáveis à sua vontade férrea. 

A mulher, sempre ansiosa e desconfortábel, entretinha-se a custo num mundo rural pouco a ver consigo.  O marido mal dava por ela e pelo incompreendido filho de ambos, que Leonor tentava proteger da dureza paterna.

João, o eterno sedutor, com a noiva e cunhada, quando podia cultivar a ilusão de ter o mundo a seus pés, como o staff da PIDE & afins.

Porém, nem o poderoso e talentoso João estava imune à realidade, que um dia poderia arrasar-lhe os planos, por válidos que fossem. Com o passar dos anos, também a fidelidade dos mais próximos acusou sinais de desgaste a um poder de lógica pessoalista, eivado de uma solidão egocêntrica mas auto-suficiente e feliz enquanto pôde decidir o curso dos acontecimentos. Adivinhava-se que a solidão medrava desde tenra idade, numa tentativa compreensível de sobrevivência. Ali se entrincheirara e a partir dela reinventara-se. 

Na casa grande e bem governada, as primeiras dissidências irromperam com fúria e descontrole, como é costume nos ambientes onde reina a disciplina. Até a morte voltou a perturbar João, levando-lhe o melhor aliado – o feitor, que aceitou ser cúmplice das liberalidades mais insidiosas do patrão. O paradigma empresarial dos anos 90 derrubou o modelo de gestão amador, tolerado numa economia protegida e quase de subsistência. O mundo, que lhe obedecera enquanto se bastara a si próprio, traía-o quando a idade começava a pesar, dificultando os sonhos que destinara à boa terra a que devotara a vida. 

À medida que o seu universo vai ruindo, em tortura lenta, outras vontades ganham fôlego, todas elas desafiadoras e contrárias à sua mundivisão. Na sua ordem repleta de previsibilidade, as brechas emergem do modo mais hostil, com suspeitas graves e ataques ad hominem, como se juízo final lhe fosse imposto por antecipação. Naquele cerco infernal, a última esperança esboroa-se com a partida abrupta do delfim semi-secreto. Resultou especialmente amarga, porque a decisão de partir confirmava o sentido de honra apurado e a bravura viril que o delfim herdara dele, incapaz de entrar nas jogadas oportunistas e algo mesquinhas dos que se movem pelo poder e pelo dinheiro. Nunca António, como nunca João, teria trilhado o caminho facilitista do conforto e da abundância ao preço de desguarnecer a honra de senhoras. E logo das duas senhoras que lhe eram mais queridas: a mãe e Teresa, a filha da casa grande. Acompanhamos a vitalidade do adolescente, num crescendo de maturidade e graça, até ao clímax de abraçar a opção mais difícil para o seu futuro, mas a mais digna e solidária. Sai de cena com a galhardia que João tinha protagonizado nas etapas mais difíceis dos anos áureos da sua vida. Uma vida que foi envelhecendo refém de um egocentrismo devorador, camuflado pelo glamour da juventude. Como sempre, mal o tempo da juventude se esvaiu, o monstro acordou da hibernação sem contemplações… 

António, numa despedida sem explicações para não expor outros, e com Teresa, nos derradeiros minutos de boa vida.

Na fase de ocaso, João enfrenta o pior embate com a personalidade mais antagónica: o filho legítimo, que ele desistiu de tentar entender. Só concebia a vida agarrada com garra para ser domada. Desesperava-o o feitio titubeante do rapaz, que parecia curtir a fragilidade e a inadaptação, ao estilo da mãe. Para cúmulo, o miúdo desforrava-se no típico desvio dos ‘fracos’ – conforme entendia João – num dia-a-dia sem norte e preso a vícios. Era a completa negação da fibra mínima para assumir o domínio patriarcal, nos moldes que o pai professava. Esta convicção genuína rapidamente resvalou da estranheza para a repulsa, materializando-se numa paternidade baseada na meritocracia afectiva, onde só cabem os primus inter pares, afinal os melhores, merecedores de respeito e ternura. 

Quando Teresa quis perceber o enigma da partida inesperada de António, o filho distante do arquétipo sonhado pelo pai, encontra a hora para o ajuste de contas com o progenitor. 

Na discussão mais violenta com o seu antónimo e descendente, carne-da-sua-carne por caprichoso acaso da natureza, João não hesitou em advertir o filho com a crueldade que tinha experimentado no seu pai: ‘tens a noção de que, se fosses um animal, já há muito terias sido abatido?’ Ambos conheciam a força daquelas palavras, pois a coqueluche do pai era o puro sangue mais perfeito da cavalaria. Em modalidade emotiva, ao jeito da Europa do Sul, repassam ecos inequívocos do tremendo princípio do apuramento de raça aplicado à humanidade. Nem a sombra da morte faltou à chamada, porque o resultado desagua sempre aí. 

A montagem brilhante é assinada pelo maior trunfo da equipa técnica de «A HERDADE» – Roberto Perpignani, que fizera carreira com Orson Welles, Bertolucci e ainda se destacara na montagem do documentário do alemão Thomas Harlan sobre a ocupação da propriedade dos Lafões: «Torre Bela», durante o PREC. Paulo Branco, produtor igualmente batido e integrado na equipa de Tiago Guedes, convenceu o italiano ao desafiá-lo a colaborar na desforra de «Torre Bela». Perpignani entusiasmou-se e ajudou ao bom resultado da obra do português. Também a fotografia é ímpar, assim como a escolha das personagens, consistentes e credíveis com a pequena excepção da ‘sogra’ (diria), mas com passagem residual na trama.  

De vitória em vitória até à solidão mais dolorosa, o bem-sucedido senhor da terra via-se impotente para travar a espiral de decadência. Depois de saborear em pleno o lema do Império Romano ‘a sorte favorece os audazes’, acabara vítima da profusão de qualidades com que a natureza o bafejara e ele se deixara enfeitiçar. O tempo já não corria a seu favor. O mundo já não reconhecia a sua voz sonora de comando. Restava-lhe a pequena ilha, subterfúgio de criança. Ali regressa só e sem o horizonte da infância. A vista para a firmeza altiva daquela árvore tão insensível às suas angústias não pressagiava nada de bom.

A sombra glaciar da árvore que testemunhou as mortes dos donos daqueles domínios.

O mistério do tempo – seguramente indomável à nossa vontade ulterior, ainda que pontualmente moldável, como provou o talentoso João Fernandes – já conheceu outras abordagens, mais realistas e não menos corajosas. Na memória do tempo, fez História uma sabedoria subtil, enraizada numa humildade lúcida. Suave como uma aragem pôde alcançar píncaros inacessíveis aos ventos colossais e violentos que estremecem, ciclicamente, a humanidade. A próxima Quarta-feira, traz-nos o dia do nascimento do Bebé, que quis ser pária no faustoso Império Romano. Dessa periferia remota, eclodiu a sua mensagem de Amor total, vivida e testada até ao último respiro, que continua a ecoar pelos séculos com a mesma vitalidade. O tempo, de início insensível a uma voz tão diferente de tudo o que conhecia, foi-se abrindo e iluminando com o sim de cada coração, pessoa-a-pessoa, aqui e agora, até ao fim dos tempos. Do caminho mais desconhecido dos homens veio a via mais humana, embora sempre misteriosa, sempre antiga e sempre nova.

BOAS-FESTAS a todos,

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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(1) FICHA TÉCNICA

Título original: A HERDADE
Título traduzido para inglês: THE DOMAIN
Realização: Tiago Guedes
Argumento: Rui Cardoso e Tiago Guedes 
Produzido por: Paulo Branco
Editor de Imagem/Montagem: Roberto Perpignani, que trabalhara com Orson Welles, Bertolucci e tinha feito a montagem do documentário «Torre Bela».
Fotografia: João Lança Morais
Duração: 2h44
Ano: 2019
País: Portugal

Elenco:
Albano Jerónimo (João Fernandes)
Sandra Faleiro (a mulher, Leonor)
Miguel Borges (o fiel feitor Joaquim Correia)
João Vicente, Leonel Sousa
João Pedro Mamede (o filho ‘falhado’, Miguel)
Ana Vilela da Costa (empregada e amante, Rosa)
Rodrigo Tomás (o delfim, António)
Beatriz Brás (a filha querida, Teresa)
Diogo Dória (o sogro)
Victória Guerra (a cunhada), etc. 
Curiosidade sobre o protagonista: Embora a personagem seja autónoma e bem desenhada, há quem a associe ao toureiro e grande proprietário rural, João Branco Núncio, conhecido por ‘o Califa de Alcácer’.
Local das filmagens: Herdade da Barroca d'Alva (Alcochete), do cavaleiro tauromáquico José Samuel Lúpi.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Vai um gin do Peter’s ?

A CASA INVISÍVEL – DO ATELIER AIRES MATEUS

Portugal dá cartas e continua a somar prémios internacionais na arquitectura de autor. Desta vez, a casa quase invisível – de tal modo ficou embebida na paisagem – foi concebida pelo atelier Aires Mateus, que dedicou dois anos à fase de projecto e oito à construção, terminada em 2018.  Situada nas imediações de Monsaraz, ainda goza de uma vista soberba para o Alqueva. 

Uma casa dentro da paisagem torna-se quase invisível.
© joão guimarães

Inúmeras claraboias asseguram a entrada da luz natural, no interior.
© joão guimarães

As imagens fazem jus à fórmula especialmente harmoniosa da edificação de 174m2, que se incrustou habilmente no terreno, rentabilizando a área verde de uma propriedade com 2,1 hectares. O segredo começa no telhado: 

Em vista aérea. Há uma entrada pelas escadas que ligam o telhado-terreno à parte térrea da casa.
© joão guimarães

© joão guimarães

O duplo arco que demarca a linha do horizonte, foi concebido pelos arquitectos como a abóboda invertida de um templo.
© joão guimarães

© joão guimarães

© joão guimarães

Como costuma afirmar António Barreto, felizmente, Portugal vai tendo bolsas de excelência, que reinventaram produtos tradicionais e chegaram a áreas de ponta. Felizmente que a excelência tem persistido e até aumentado, aos poucos, despontando onde menos se espera, por mérito de gente muito capaz e empreendedora, que tem sabido avançar com garra, inúmeras vezes, contra ventos e marés… Verdadeiros heróis !

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Vai um gin do Peter’s ?

O PRIMEIRO MUSEU ARRANCOU COM ARTE E POLÉMICA A RODOS - VATICANO

A história tende a repetir-se, no melhor e no pior. É raro a audácia ser compreendida e devidamente aclamada, quando surge. Precisa de bastante tempo para ser digerida e reconhecida, quase sempre a título póstumo para os visionários, pois a maioria não costuma acompanhar, em tempo real, um rasgo diferente do padrão estabelecido. Aos audaciosos com talento cabe-lhes aguentar o desconforto de estar à frente do seu tempo. E assim chegamos ao primeiro museu público do Ocidente, por iniciativa do Vaticano, que se antecipou em vários séculos aos congéneres das grandes metrópoles europeias, com excepção de Florença, cuja décalage se ficou por sete décadas. 

O termo museu inspirou-se na expressão já conhecida em Roma para referir as grandes colecções de arte privadas – os «templos das musas». Na capital do Império, as casas e os sumptuosos jardins dos patrícios romanos rivalizavam em estátuas, fontes, pinturas e peças que deslumbravam os convidados. A alusão às 9 musas das artes e ciências provinha da mitologia grega, pois tinham sido geradas por Zeus para celebrar com sabedoria e sofisticação uma vitória marcante na vida atribulada dos deuses helénicos. 

O grande salto do coleccionismo de peças de elevado valor estético praticado na Antiguidade, para o serviço público, só foi dado no alvor do século XVI, por mérito de uma sequência feliz de Pontífices italianos, especialmente sensíveis ao potencial educativo da arte. A ousadia chegou à própria concepção do local, que não devia destoar do esplendor das peças exibidas. Assim, foi erigido um palácio para abrigar a magnífica colecção, que os Papas do Renascimento queriam partilhar com o grande público. Depois das catedrais góticas, o Belo voltava a impregnar o sentido missionário de uma cristandade cheia de contradições – marca d’água da presença humana – mas exigentíssima no que respeitava a saborear a beleza da criação – marca d’água do Criador. 

Pioneiros na arte aberta ao público, os Museus Vaticanos (Musei Vaticani) foram inaugurados em 1506. A outra grande iniciativa coube às Gallerie degli Uffizi, que abriu portas em 1581. Já o primeiro museu moderno, assim considerado porque se autoproclamou destinado à ‘educação universal’, despontou na Universidade de Oxford, em 1683, com o nome de Ashmolean Museum. O British Museum data de 1753, o Hermitage de 1764, o Louvre de 1793 e o Prado de 1819. Isto dá a medida do jet lag que os separa do Vaticano. 

Recuando a 1506, dir-se-ia que uma ideia tão feliz só podia colher aplausos e apoios… Mas não, há sempre expectativas diferentes, incluindo as legítimas divergências de gosto e objectivos. Curiosamente, no caso do Vaticano, o escândalo veio da audácia das poses nuas e da profusão de obras sobre temas pagãos concebidas por gentios. Este puritanismo descabido aos olhos da nossa geração deu brado à época. Felizmente que embateu nos critérios mais apurados dos Pontífices, que souberam privilegiar a qualidade artística das peças, numa ousadia pouco tolerada por grande parte da população. População que formava parte da cristandade. Já é famoso o episódio anedótico e real (!) dos pintores menores que Michelangelo colocou no lado do inferno pintado no tecto na Capela Sistina, plenamente reconhecíveis para humilhação deles, porque se tinham atrevido a acrescentar umas roupas às figuras despidas saídas do pincel do génio renascentista. Entenda-se que aqueles artistas tinham trabalhado a mando de cardeais, que achavam imprópria tanta nudez inundar o espaço da sala de eleição do sucessor de Pedro. Naturalmente que descartavam o sentido mais profundo de Michelangelo, a confrontar o espectador com os momentos cruciais da criação e do juízo final, onde apenas persiste e vale a essência do ser humano em corpo e alma.   

Dois textos gentilmente cedidos pelo autor – um com anos, outro com dias – relembram a polémica da novidade daquele primeiríssimo museu, bem como o brilhantismo que inspirou aqueles Papas italianos de gema:

Os primeiros museus do mundo

5-Nov-2015

Desde que o papado começou a ter influência na administração civil da cidade de Roma, as grandes preocupações foram os pobres, a instrução e a cultura. Os Papas queriam que o povo convivesse com a arte, em praças belas, decoradas com esculturas e fontes, em edifícios públicos com pinturas e tapeçarias de qualidade. No século XV, esta preocupação adquiriu um matiz novo, quando foi necessário proteger as obras de arte que não podiam ficar à intempérie, ou eram substituídas por outras mais modernas. Para que a população tivesse livre acesso a esses objectos, tal como contemplava as obras de arte espalhadas pela cidade, surgiram os primeiros museus do mundo.

Como é óbvio, foi preciso inventar o nome, porque a palavra «museu» não existia com este significado. Com sentido de humor, importou-se a palavra grega «muséon» (palácio das musas). Sem pruridos de linguagem sexista, o conjunto, incluindo os esplêndidos exemplares de Júpiters e de Apolos, ficou conhecido como «as musas», figuras femininas mitológicas inspiradoras das artes.

A arquitectura dos edifícios foi uma inovação, porque nunca se tinham construído edifícios para expor objectos de arte. Quando, mais tarde, apareceram outros museus na Europa, o modelo mais corrente foi aproveitar os palácios dos regimes depostos, por exemplo o Hermitage em S. Petersburgo, ou os palácios de coleccionadores ricos, por exemplo a National Gallery em Londres, para mostrar os respectivos tesouros. O museu do Louvre também se instalou num palácio antigo, como muitos grandes museus. O museu Vaticano e os outros museus construídos pelos Papas foram diferentes, porque nunca foram palácios, nunca morou lá ninguém, mas foram projectados de raiz para serem visitados pelo povo. Só séculos mais tarde, no século XIX e sobretudo no século XX, se construíram outros museus de raiz: por exemplo, o museu Calouste Gulbenkian em Lisboa, ou os Guggenheim de Nova Iorque ou de Bilbau.

Outra característica invulgar do museu Vaticano é que não tem peças roubadas. Pode dar vontade de rir constatar que esse sistema expedito (digamos assim) foi adoptado pelos principais museus. O museu do Louvre começou com uma colecção de pintura e escultura roubada às igrejas francesas; o museu nacional de Arte Antiga, em Lisboa, tem uma origem semelhante; outros grandes museus nasceram do saque dos tesouros do Egipto ou da Grécia. O próprio museu do Vaticano foi saqueado no princípio do século XIX por Napoleão Bonaparte. Fala-se em um milhão de caixas levadas para Paris, com peças de arte e arquivos. Com a queda do Imperador, aquilo que foi possível recuperar voltou para Roma.

O museu Vaticano e os outros museus que os Papas promoveram geraram polémica desde o início. Que desperdício oferecer arte ao povo! Os ateus de há uns séculos acusavam o Vaticano de hipocrisia, com o argumento de que expor divindades pagãs era fomentar a idolatria. Hoje em dia, diz-se que a arte é luxo e desafia-se o Vaticano a vender a arte aos ricos para dar o dinheiro aos pobres (os ateus da internet usam termos mais veementes, que me dispenso de reproduzir).

Está à vista que os católicos são tanto ou mais pecadores que as outras pessoas, contudo, também é verdade que a Igreja foi – e continua a ser – uma instituição muito especial.

Uma das alas das várias galerias de escultura antiga.

O Vaticano e as divindades pagãs

17-NOV-2019

A ideia de construir um museu nasceu há mais de cinco séculos na cabeça de alguns Papas. […] A ocasião surgiu por causa da abundância de obras de arte da época do império romano que os donos deitavam fora e corriam o risco de se perderem. Como se tratava sobretudo de uma colecção de divindades pagãs, o povo chamou à colecção «Casa das musas», ou «Museu». As musas eram as nove deusas gregas inspiradoras da arte e da ciência.

A intenção dos Papas não foi organizar um depósito fechado, onde só os eruditos fossem admitidos, o objectivo foi reunir uma colecção que pudesse ser visitada por qualquer cidadão e fomentar as visitas. Organizar todo aquele acervo deu imenso trabalho e exigiu a construção de um edifício invulgarmente grande, uma espécie de enorme palácio aberto a todos os visitantes. […]

Apolo Belvedere - estátua trazida para Roma pelo Papa Júlio II em 1508. 

A proposta de reunir uma colecção tão vasta e construir pavilhões tão gigantescos não foi bem recebida por todos. Alguns criticavam o que consideravam ser a promoção do luxo, do supérfluo, em contraste com a austeridade da vida de Cristo. Vários bispos eram desta opinião e inclusivamente um Papa interrompeu as visitas e mandou cobrir com tapumes algumas estátuas que decoravam as fachadas exteriores. Outra objecção tinha a ver com o conteúdo maioritariamente pagão das obras de arte, porque o Museu do Vaticano tinha algumas peças cristãs, sobretudo pinturas, mas a maioria das obras eram representações de divindades pagãs. Estas pessoas temiam que o museu se tornasse uma espécie de templo de uma religião sincrética.

Claro que os Papas que idearam o Museu do Vaticano não queriam favorecer o luxo mas o apreço pela beleza. […] Foi Deus quem impregnou o universo de beleza. A cor, a luz, o fogo, a música, até a eloquência do discurso e a emoção do amor. As obras de arte realmente belas participam na sinfonia cósmica da beleza. Segundo os Papas, toda a beleza tem origem em Deus e conduz as almas a Deus.

Também é evidente que o Museu do Vaticano não se destinava a ser um novo templo pagão e, de facto, a preocupação dos que temiam que isso acontecesse não correspondia a um perigo real. Tanto quanto se sabe, nenhum visitante do museu se tornou pagão no final da visita.

Nesta semana, um grupo de individualidades de todo o mundo interpretou a presença de um fetiche amazónico no Vaticano como atitude idolátrica do Papa Francisco e dos bispos que estavam com ele. 

Outubro de 2019 durante o Sínodo da Amazónia

O teor violentíssimo com que condenaram o Papa mostra o profundo sofrimento que aquela cena lhes suscitou. O tom exaltado do manifesto reflecte certamente um genuíno amor a Deus mas talvez aquela agressividade seja interpretada por alguns como falta de respeito e de amor ao Romano Pontífice. De certa maneira, a história repete-se. Não nos compete julgar ninguém. Rezamos por todos.

José Maria C. S. André


Se custa assistir à repetição de erros e de controvérsias talvez escusadas, a reincidência também ajuda a relativizar-lhes o peso. Outras gerações terem sobrevivido aos deslizes, faz-nos acreditar que também conseguiremos suplantá-los e melhor imunizar as gerações futuras contra as próximas recaídas. Se os antigos teriam muito a aprender connosco, também nós temos imenso a aprender com eles, sendo que a bola já só está do nosso lado… 

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Vai um gin do Peter’s ?

TANTA GENTE MAIS PERTO QUE LONGE 

Veio da Dinamarca uma curta-metragem, que traz à luz ligações surpreendentes e ignoradas entre pessoas hoje desconhecidas e afastadas em todos os sentidos. Trata-se da quantidade imensa dos que parecem alheios à nossa vida, incluindo vizinhos de porta. O pequeno filme caloroso veio dessa Europa do Norte, onde o Inverno é longo e chuvoso, as noites compridas, os dias enevoados e reina um silêncio asséptico nos sítios mais improváveis, como uma estação de comboios cruzada por multidões que, a Sul, nunca se coíbem de ser comunicativas. 

A câmara começa por focar uma sala de espera anódina, desconfortável, cheia de gente variada na idade, na condição social, cultural, financeira e até na origem étnica. No ginásio imenso e mal iluminado para onde, depois, é encaminhado, aquele aglomerado humano mantém-se junto, provavelmente por razões fortuitas e pobres, habituado a movimentar-se em grupo, disciplinadamente, por razões defensivas e também por obediência a quem arquitectou a experiência. Já será sinal de alguma abertura alinharem numa experiência que ignoram. Ou serão naïves?

Os monitores nomeiam dois nomes, pedindo-lhes para avançarem e se arrumarem em frente um do outro. Acabam num face-a-face entre ilustres desconhecidos.

Perguntam-lhes se alguma coisa os poderia ligar, antevendo a resposta negativa, que se repetiu com os pares seguintes. Depois, escavando no passado deles, desencantam um tempo onde os dois chegaram a ser bastante próximos. É emocionante o reencontro com o compincha da praia, que já só era lembrado imberbe, completamente irreconhecível naquele adulto. 

Aos poucos, cada um é chamado a recuperar elos muito diversos, mas intensos, com outros, como o do salvador em hora crítica, a quem mal se viu a cara e de quem nunca se reteve o nome, apesar de se ser devedor da vida. 

Todos acabam por descobrir interligações fortes com quem era estranho, transfigurando caras anónimas e distantes em pessoas com nome. Misterioso tanta gente válida ter contribuído para a existência de alguém sem deixar quase rasto! Talvez por isso, o reencontro saiba ainda melhor. A amostragem confirma o mar de gente que valeria a pena rever e a quem haveria muito a agradecer. O apelo lançado é contagiante, porque todos partilhamos alguma daquelas histórias e percebemos quanto aquela teia simboliza apenas uma pequena gota do oceano de vida de cada ser humano: 


Experiências com o mesmo alcance têm sido pretexto de mais metragens, confirmando o potencial de afinidades profundas entre as pessoas, incluindo os aparentemente longínquos e inconciliáveis, como a vítima e o autor do bullying. Há uma experiência emblemática, realizada nos Estados Unidos, com título autoexplicativo: «Don’t put people in boxes». Tem o mérito de expor o lado multifacetado do indivíduo que, ao integrar grupos temáticos muito diversos – das preferências clubísticas, aos hobbies, dificuldades & traumas, talentos, etc. – acaba por se deparar com alguma área de afinidade com os mais inimagináveis. Fecha com uma pedagogia explícita, à americana: afinal, o que nos une suplanta o que nos separa ou não partilhássemos o mesmo Pai.   

Na Austrália, o filme sobre o estado da interligação humana revelou resultados preocupantes. Uma criança entre os 4 e os 5 anos foi deixada sozinha, desamparada, no meio de um centro comercial movimentado. Durante 8 horas, só 21 pessoas pararam para indagar o motivo da sua solidão óbvia e prontificar-se a ajudar, pois era visível a falta de uma presença adulta para o proteger. O vídeo termina com o alerta: há 43 mil crianças abandonadas, que reclamam a nossa atenção para as podermos resgatar de destinos desastrosos e perversos! Começar por as ver, é elementar.

Os apelos em todas as versões continuam a merecer documentários e filmes interpelativos. Na Dinamarca, o vídeo aqui postado foi um sucesso, convidando a um olhar mais empático e aberto aos outros, num movimento interior que – por dom, diria – não é estranho aos poetas: «Sou um pouco de todos os que conheci, um pouco dos lugares que fui, um pouco das saudades que deixei e sou muito das coisas que gostei» (Antoine de Saint-Exupéry). No fundo, sabermos aproximar-nos dos que nos rodeiam é uma arte. Poderia ser a oitava.


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Vai um gin do Peter’s ?

SURDO-MUDO DESCOBRIU ANTES DOS OUTROS A VISITA DE NEPTUNO AOS AÇORES

A história do deus romano dos mares está documentada no museu do mítico «Peter Café Sport», que alberga a maior coleção particular de «Scrimshaw» (1) – a arte de gravação, entalhe ou pintura em ossos da mandíbula da baleia ou do cachalote – além de outras preciosidades náuticas e notícias que somam memórias iatistas, desde que foi inaugurado, em 1986. Ali consta a fotografia do deus romano Neptuno, como me indicou um/a leitor/a deste blog, a quem agradeço muito a dica noticiosa e o desafio lançado da forma mais simpática.

Também a origem do nome Peter’s, como é mais conhecido o café dos velejadores situado no meio do Atlântico, tem uma história: deve-se a um oficial da Royal Navy que, nos idos do século passado, conheceu o dono do simpático estabelecimento, José Henrique Azevedo (JHA, pai do actual dono), quando o navio «HMS Lusitania II» atracou no porto da ilha do Faial. Achando-o muito parecido com o seu filho Peter, resolveu chamá-lo pelo mesmo nome. A ideia pegou. 



Há 33 anos, entre as 12h e as 16h do Sábado 15 de Fevereiro de 1986, o arquipélago açoriano foi açoitado pela pior tempestade do século XX, provocada pelo furacão Alex. Na estreita e, por vezes, feroz massa de água que separa o Faial da ilha do Pico, a célebre expressão de Vitorino Nemésio «Mau tempo no Canal» só pecou por defeito. A pequena cidade portuária da Horta foi varrida por ventos de 225 km/hora e fustigada por ondas de 20m e 30m de altura, que duplicavam ao rebentar contra a costa, segundo as notícias da época. 

Fã de ondas homéricas, o filho homónimo de JHA, com 27 anos, fez questão de captar em slides aquelas horas de fúria dos ventos e do Atlântico. Mal terminou o serviço no Peter’s, partiu para a sua reportagem com dois amigos corajosos, que ajudaram a dar lastro ao carro e a segurar a máquina fotográfica. 

Como de costume, no Verão seguinte, houve uma sessão em frente ao café para mostrar os diapositivos do ano. Os slides correram ao som de boa música, sem que ninguém reparasse numa imagem curiosa. A foto-galeria fez sensação, porque mais ninguém tinha saído de casa e testemunhado tantas perspectivas da violência da natureza à passagem do Alex.  

Dois anos depois, quando imprimiu um par de imagens da tormenta de 1986 e as mostrou a um grupo de navegadores estrangeiros, o empregado surdo-mudo do Peter’s alertou-o para o perfil bem delineado numa delas: Neptuno pousara a sua cabeleira farta no rochedo enorme da costa Oeste do Monte da Guia. 

Fotografia tirada do Observatório meteorológico Príncipe Alberto do Mónaco, situado a sul da cidade

Mais tarde, na mesmíssima encosta visitada por Neptuno, outro fotógrafo captou a efígie da mulher do deus náutico, formada pela rebentação de outra onda gigante. Calhou no dia que os açorianos dedicam aos namorados, conhecido pela ‘Quinta-feira de Amigas’:

© António Pedro Oliveira, em Fevereiro de 2014.

Uma descrição especialmente deliciosa (creio) sobre o Peter’s veio de Maria José Nogueira Pinto, escrita com a elegância que era seu apanágio. Alude, ao de leve, à memorável visita de Neptuno: «O Café Sport Peter é uma das coisas mais lindas que me foi dada conhecer. Ou seja, é como nos romances, como nos filmes, como nos sonhos. Pelo menos para quem, como eu, é atlântica de alma e coração e tem dos portos, dos barcos e das viagens uma ideia irremediavelmente romântica. À minha volta, os personagens não desiludem. Vêm das sete partidas e formam um conjunto inesperado, cosmopolita e universal porque o Peter denomina-se com orgulho “o lugar de refúgio e auxílio dos iatistas que cruzam o Atlântico”. De surpresa em surpresa subo ao andar de cima para ver o Scrimshaw, museu onde aprecio dezenas de dentes de baleia que os marinheiros poliram, gravaram e pintaram “durante as longas viagens e esperas” com “as ilhas, as gentes e a saudade...” E também a fotografia de Neptuno, que visitou aquele mar na grande tempestade de 1986.» [publicada em 1993, no jornal PÚBLICO]

JHA/Peter recorda sempre a misteriosa descoberta da fotografia da sua vida, tardiamente, quando menos esperava, depois de já ter sido vista por tanta gente que não dera por nada! E logo envolveu a sua paisagem marítima preferida registada numa data histórica e perigosa, em que só ele e os amigos se tinham atrevido a sair de casa. Valeu-lhe aquele segundo olhar, que vislumbrou mais e antes dos outros um rosto inscrito no recorte da água salgada.


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta-feira)
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(1) https://www.visitportugal.com/pt-pt/content/museu-de-scrimshaw

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Vai um gin do Peter’s ?

VELEJAR NO MAIOR LAGO ARTIFICIAL DA EUROPA, SEM SAIR DE PORTUGAL

Passar uns dias a navegar num barco-casa no Alqueva, almoçar feijoada de avestruz na maior exploração de avestruzes do país, acompanhada de bom tinto alentejano são alternativas acessíveis para explorar os 1100 kms de margens do gigantesco lago do interior alentejano, a 192 km de Lisboa pela A6 e A2.

Fotogr. aérea – © António Martins 


A vontade de combater a desertificação do interior, na linha do Guadiana, ganhou ímpeto durante o marcelismo. Fazia parte de um conjunto de iniciativas apostadas em dinamizar a economia do Alentejo. Outro caso emblemático era o ‘projeto de Sines’ para competir com Roterdão como porto de águas profundas (entre outras valências). De facto, a urgência em irrigar o Sudeste português e amenizar as temperaturas extremas já estavam na moda no final da década de 60. Mas fruto dos ventos da história – com duas crises petrolíferas (1973 e 1979), a somar à revolução, descolonização e duas bancarrotas no país – a edificação da barragem em Alqueva, para formar uma mega-albufeira, acabou por só arrancar em 1998 (tinha tido um arranque inconsequente de 1976 a 78) e terminar em Janeiro de 2002. No mês seguinte, fechavam-se as comportas e começava o enchimento dos 250 km2 da albufeira, concretizando um sonho já com meio século.     

A Central hidroeléctrica da barragem em arco foi inaugurada em 2004
Como era esperado, a imensa massa de água, que chegou a submergir uma pequena aldeia sabiamente transplantada para lugar próximo, melhorou o clima de uma região que se estende por 5 Concelhos do lado português – Portel, Moura, Reguengos de Monsaraz, Mourão e Alandroal – e vários povoados do lado espanhol: Olivença, Chepales, Alconchel e Villanueva del Fresno.

Mapa do Grande Lago do Alqueva, situado na raia e equidistante de Évora e Beja
À requalificação da agricultura local juntou-se o turismo, aplicando-se a máxima que costuma tomar o céu por horizonte – no Grande Lago do Alqueva ‘só a água e a boa terra são o limite’! 

Rapidamente, os programas despontaram como cogumelos: windsurf, ski aquático, vela em veleiros regulares ou numa embarcação holandesa de 1913, casas flutuantes, mergulho, bicicletas de água e gaivotas, remo, kayaks, pesca, além de provas de vinhos nas grandes herdades das imediações (ex: Esporão). 

Praia fluvial de Monsaraz

Baias com praias fluviais, ancoradouros e marinas abundam entre as ilhas de todos os tamanhos.

A ‘casa portuguesa flutuante’ – marina da Amieira

Campeonato internacional ‘Monsaraz Windsurf Festival’.

Percorrer as infinitas reentrâncias da albufeira ocupará mais de uma semana, sem contar com as muitas aldeias e cidades históricas perto das suas margens, a merecerem visita. 

Das 426 ilhas do Grande Lago, 40 estão classificadas do ponto de vista ambiental como ‘intocáveis’. Uma ilha é conhecida por «Pepitas Douradas» ou «Ilha da Páscoa» por causa do contorcionismo exuberante das suas formações rochosas. E a temperatura da água na sua baía a 30º C tornam o banho uma tentação irresistível, sem risco de choque térmico. 

À semelhança de Nova Iorque, também o Alqueva nunca dorme com aventuras à luz das estrelas. Só é pena Sinatra não o ter conhecido e acrescentado à sua música. O ‘Dark Sky’ foi idealizado por um belga, para proporcionar observação astronómica durante um passeio de barco nocturno. Avistam-se constelações, a galáxia Andrómeda e, com sorte, estrelas cadentes. Em noites de lua cheia, vêem-se menos estrelas mas, para compensar, a paisagem fica envolta numa luminosidade esbranquiçada, etérea e fascinante. 

Os fãs do anoitecer no Alqueva estão em crescendo

Percebe-se que no Alqueva cada fase do dia tem um programa específico e uma magia própria, sendo mais uma alternativa para mini-férias neste Outono solarengo e acabado de começar. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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