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09 setembro 2026

Vai um gin do Peter’s ?

 SABEDORIA AOS 65 ANOS, ACOMPANHADA À GUITARRA 

Numa balada caribenha, ao jeito do recanto mais musical da Havana dos anos 50 do séc. XX – o Buena Vista Social Club – começou a correr na net, antes do Verão, um balanço de vida dançante e de tom positivo sobre um tabu bem empedernido da actualidade (menos livre do que se julga): o envelhecimento, invulgarmente assumido com galhardia. 

De autor anónimo, a voz, no espanhol meigo da América Latina, ensaia uma reflexão sábia sobre o avanço da idade, propondo valorizar tudo o que é construtivo e descartar o que inquina o olhar sobre a realidade! A guitarra e as batidas ritmadas da bateria, em fundo, asseguram o meneio saleroso dos sons latino-americanos.   

A música arranca «A los sesenta y cinco años, uno empieza a comprender que la vida no se mide por lo que no pueda tener, sino por lo que uno ha podido dar… Ayer soñaba con el futuro e hoy recuerdo lo que vivi».  

Quer se queira, quer não, os anos acumulados dão forma e peso ao passado, que, tornado incontornável, ganha em ser revisitado e (no geral) arquivado, em paz, desapegadamente, sem branquear nada, evitando que se imponha a um futuro ainda em aberto, a merecer ser vivido em pleno, até ao último respiro. Sim, há (algumas) vantagens nos cabelos grisalhos: ajudam a afinar as prioridades e evidenciam a urgência de purificar a memória para guardar ‘apenas’ o que nos ajuda a crescer e a espalhar vida fecunda urbi et orbi. Saibamos e queiramos nós… O foco tende a orientar-se para o que, finalmente, emerge como o maior tesouro: a família, os amigos, as experiências positivas e enriquecedoras, que foram tecendo a trama da vida, desde o primeiro minuto… Antes, permitíamo-nos deixar escorrer os dias, as semanas, sem nos darmos conta do valor incalculável de cada instante, no típico luxo (e imaturidade) da pouca idade… Mas, a los sesenta y cinco años…  


Balada certeira, de quem assume que também lhe calha envelhecer. Talvez com receio e os típicos medos, mas com lealdade e de coração aberto!  Duas raridades. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

26 agosto 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 150 KMS PELO TRILHO DO TEJO 

Igualmente emocionante, embora menos conhecido do que os multimilenares Caminhos de Santiago, existe junto a Lisboa o Caminho do Tejo, que liga a capital a Fátima. Para quem goste de fazer footing ou de ‘papar’ kms em bicicleta, a nova app daquele trilho – Fátima Walking Routes® App – Caminhos de Fátima – dá assistência constante (quase em baby-sitting) aos peregrinos e caminheiros. Lançada, recentemente, pelo Centro Nacional de Cultura, propõe uma versão de 6 etapas correspondentes aos 6 dias de caminhada tranquila a pé (grau básico) para os 150km desde o ponto de partida sugerido – a antiquíssima Sé Catedral de Lisboa – e o famoso Santuário mariano. Além das dicas logísticas detalhadas, também há sugestões culturais para enriquecer a experiência, permitindo conhecer inúmeros monumentos e outras curiosidades interessantes daquela zona do país.

Sei, por experiência, a enorme diferença entre chegar a um local ‘mítico’ depois de vários dias de caminhada e a alternativa da viagem em acelerado, de carro ou noutro meio de transporte rápido, sem dar tempo para uma aproximação bem digerida até ao destino. O ritmo humano pede tempo para preparar uma chegada importante. O próprio esforço físico e os pequenos contratempos envolvidos numa distância percorrida com o corpo e com a mente explicam a tal diferença abissal, pois torna a vivência humana muito mais completa. Isto vale para lugares de culto religioso, mas também para outros destinos de especial significado histórico ou de esplendor da natureza, como é o caso de Machu Picchu ou do Sítio da Nazaré com as ondas gigantescas da Praia do Norte ou de uma montanha grandiosa dos Himalayas, daquelas que se distinguem por um nome próprio, etc.  

Um bom aperitivo para o Caminho do Tejo foi publicado num site norte-americano, pensando em caminhantes com diferentes motivações:

« THE TAGUS ROUTE

For anyone seeking an accessible, authentic way to know Portugal, the Tagus Route (both a path and an experience) stands out.

Between Lisbon’s waterfront and the Sanctuary of Fátima lies a 150-kilometer path that many travelers consider one of Portugal’s most meaningful journeys. The Tagus Route, part of the wider Fátima Walking Routes project, offers six days of movement, culture, and spiritual depth – open not only to Catholic pilgrims but to anyone seeking purpose and beauty.

Beginning this route in Lisbon is only fitting, and it sets the tone for the days ahead. The trail officially starts at the Cathedral, where centuries of devotion echo through stone arches. Soon after, the urban rhythm begins to soften. The first stage - 12.5 kilometers to Parque das Nações - introduces walkers to a gentle transformation: sidewalks give way to riverside paths and the Tagus river becomes a steady companion.

Panoramic view of Lisbon from the Tagus River, on the Tagus Route

From there, the route bends north, leaving the city’s edges to enter the territories of Loures and Vila Franca de Xira. Here, the scenery shifts: fields open, birdlife becomes more present, and small communities welcome travelers with the kind of hospitality that has long shaped the culture of pilgrimage. The Tagus Route reveals Portugal at walking pace - the colors of the landscape, the sound of local life, the sense of time expanding.

Wooden walkway from Loures to Vila Franca de Xira on the Tagus Route

As with historic routes across Europe, pilgrims and hikers along the Fátima trails can carry a Credential, the symbolic passport of the journey. Each stamp - collected at parishes, museums, hostels, tourist offices, and other welcoming stops - is a memory pressed onto paper. The official Credential (…) can be obtained at the CNC office or at recognized locations including Lisbon Cathedral and the Sacavém Ceramics Museum.

Modern travelers also have a digital companion: the Fátima Walking Routes® app. Designed for independent, safe, and immersive exploration, it provides interactive maps, accommodation details, health and safety contacts, and information on museums, churches, gardens, and Credential stamping points. Basically, everything the pilgrim might need while on route. Regular updates connect walkers with news related to the project (…).

Reaching Fátima brings a profound, transformative shift. In Cova da Iria - where the Virgin Mary appeared to three shepherd children in 1917 - the Sanctuary welcomes millions each year. From the Chapel of the Apparitions to the Basilica of Our Lady of the Rosary and the striking Church of the Holy Trinity, the complex blends artistic expression with a universal invitation to peace. Even visitors without a religious background often speak of an atmosphere marked by stillness and hope.

The Fátima Walking Routes as a whole (…) aims to offer safe, beautiful, and culturally rich itineraries. Their purpose is simple yet telling: to make space for people to encounter landscapes, heritage, spiritual meaning, and community while moving toward one of the world’s most significant pilgrimage destinations.

For anyone seeking an accessible, authentic way to know Portugal, the Tagus Route stands out. It is both a path and an experience - one that invites travelers to walk, learn, and discover what the journey can awaken within them.»

Daniel Esparza in https://aleteia.org/, a 12.Março.2025 

Para além da diversidade da paisagem naqueles kms a serpentear bosques, planícies, vinhas, vales e colinas ao longo do azul do Tejo, várias e povoações antigas valem um pequeno desvio. Apenas alguns exemplos: 

Mapa extraído do site www.vagamundos.pt/caminho-de-fatima-guia/

Vila Franca de Xira, de tradição campina bem ribatejana

À esq. – Valada;  à dta. – Azambuja com o pelourinho da Pç dos Imperadores

Trilho do Tejo até Fátima, à esq. junto a Azambuja e à dta. no pinhal frondoso e perfumado de Minde

Santarém, capital do gótico. 

Bom Verão a todos, com boas oportunidades para caminhadas desintoxicantes, tranquilas, idealmente a pé, de bicicleta, de barco… com tempo para saborear cada pequeno avanço. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

12 agosto 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 INFLUENCER DO SÉC. XIX 

Sempre houve figuras, sobretudo femininas, a marcar a moda da sua época! O que mudou foi a implantação dos canais de divulgação em larga escala, como as redes sociais de acesso quase universal. As novidades deixaram de demorar anos, décadas, a propagar-se pela sociedade e por outros países. O imediatismo actual incentiva mais gente a tentar a sorte como influencer, democratizando (massificando) o estatuto, a função e os efeitos. O que antes estava circunscrito a uma elite social e política ínfima, ficou escancarado a um universo interplanetário, logo que os media e outros meios tecnológicos proporcionaram essa disseminação alargada, a partir de meados do século XIX.  

No alvor do lançamento dos jornais e da fotografia, França pontificava na vanguarda dos grandes movimentos sociais que agitaram o século XIX e reverberaram ao longo do século XX, alguns com especial ferocidade. Nos vários experimentalismos políticos dos gauleses, surgiu a tentativa de revitalização da monarquia, sob a forma de Segundo Império, com um sobrinho de Napoleão. Em boa verdade, aquele herdeiro de Bonaparte tinha sido eleito em voto directo, tornando-se no primeiro Presidente de França. Mas como a Constituição o impedia de renovar o mandato, por via de um golpe (1851), Carlos Luís Napoleão instaurou o Segundo Império, pretendendo perpetuar-se no poder como imperador. Mas após 18 anos de reinado, foi preso pelos alemães (1870) após a derrota humilhante na Guerra Franco-Prussiana e morreu três anos depois, no exílio em Londres. Sob a sua batuta, registaram-se avanços importantes, como a construção do Canal do Suez e a modernização da agricultura, elevando-a a sector exportador, entre outros feitos.  

Ao instaurar o Segundo Império, Napoleão III preferiu tomar para mulher uma aristocrata bonita e com charme, em vez de uma princesa das casas reais europeias, para conferir mediatismo e modernidade ao regime. Porém, essa opção dificultou o reconhecimento do novo regime por parte da maioria das potências europeias. A honrosa excepção fora a rainha Vitória, hábil política, que apreciava muito a imperatriz Eugénia de Montijo (1826-1920), de quem, aliás, ficou amiga. Quando o trono francês caiu sob as conquistas do Kaiser, Vitória acolheu a imperatriz, em Inglaterra, continuou a tratá-la por Sua Alteza Imperial e a manter uma relação muito próxima. 

A amizade entre Vitória e Eugénia remonta à memorável viagem dos imperadores gauleses a Inglaterra, em 1855. A elegância e a simpatia da imperatriz conquistaram a corte e a imprensa britânicas. Nos diários da rainha Vitória constam elogios rasgados à soberana de França. Curiosamente, a visita começou com um percalço maçador, pois a bagagem de Eugénia chegou demasiado tarde, a ponto de o imperador a aconselhar a falhar o jantar de recepção, no palácio de Windsor. Mas Eugénia ultrapassou a dificuldade e causou sensação, improvisando um traje de festa com a veste emprestada de uma dama de companhia. Para disfarçar a falta de joias, salpicou o tecido e o cabelo com flores de crisântemo, que encontrou numa jarra. Foi tal o furor, que a moda pegou e a rainha Vitória passou a usar flores verdadeiras em vestidos de festa.      

Se em sofisticação França pontificava, através de Eugénia de Montijo (sendo irónico provir da filha de um conde espanhol), o palmarés da popularidade pertencia à rainha Vitória, que geria o poder primorosamente, conseguindo ter ascendente além-fronteiras. Embora partisse de um contexto favorável, por chefiar um país alheio aos ventos subversivos que agitavam a Europa continental, esforçava-se por ter um governo competente e, em simultâneo, adaptável aos novos tempos, sem precisar de revoluções para empreender as reformas necessárias. Ela própria recorreu à moda para unir o Reino:  

Rainha Vitória vestida de tartans para pacificar os ânimos separatistas na Escócia. À DTA. – no Castelo de Balmoral, em 1887, acompanhada por membros da família: o marido – príncipe Alberto Victor com o traje de gala escocês e as princesas Alix de Hesse, Beatrice de Battenberg e Irene de Hesse. Fotografia colorida por Marija Stefanovic (myretrophoto)

Por isso, as Ilhas Britânicas detinham a primazia da expansão ultramarina e da estabilidade política. Todavia, nas artes e nas novas ideias, voltava a pontificar a Cidade das Luzes, onde fervilhavam os experimentalismos mais vanguardistas, nomeadamente na pintura. Como mecenas e apoiante de artistas talentosos, Eugénia deu o seu contributo, apadrinhando sobretudo pintores e estilistas. Um dos seus costureiros preferidos foi o britânico Charles Frederick Worth, fundador da marca House of Worth e considerado o precursor da alta costura, que lhe desenhou vários dos trajes imortalizados em telas e em fotografias:

Retrato de Eugenia de Montijo, imperatriz dos Franceses, no ano do seu casamento (1853), pintado pelo artista que a adoptou como musa – Franz Xaver Winterhalter.

Embora Eugénia tenha entrado para a História pelo glamour e pelo prestígio internacional (além da rainha Vitória, era também muito próxima de Sissi da Áustria), sofreu enormes desgostos. A somar às constantes traições públicas do marido, que aguentava estoicamente, perdeu o seu único filho, morto em combate na África do Sul, ao serviço da coroa britânica. Viveu também a derrocada do Segundo Império, quando as tropas alemãs entraram em Paris e aprisionaram o seu marido. Só teve tempo de fugir para Londres, onde ficou exilada. No início do conto de fadas com Napoleão III, conta-se que se conheceram nos salões de Paris, quando Eugénia e a mãe ali se radicaram (1848). Fascinado pela beleza da espanhola nascida no Sul (Granada), o sobrinho de Bonaparte perguntou-lhe: «Senhora, qual é o caminho para chegar aos vossos aposentos?». Resposta pronta da jovem: «Pela capela, senhor, pela capela»… Assim se casaram, a 15 de janeiro de 1853. Mais tarde, na fase das constantes infidelidades do marido, a troca de palavras tomou outro rumo, começando com um remoque trocista do imperador à mulher: «Sabeis a diferença entre a vossa pessoa e um espelho?». «Não», respondeu Eugénia. «É que o espelho reflecte, mas vós não …». Réplica certeira de Eugénia ao dichote: «E vós, sabeis qual a diferença entre a vossa pessoa e um espelho? É que o espelho é polido, e vós não!»

Em Lisboa, um leque lindo, que pertencera à imperatriz Eugénia (espanhola de nascimento), está exposto na Fundação Medeiros e Almeida (M&A), dando testemunho do esplendor da corte do último Império francês. Fora encomendado a Edmond Hédouin (1820-1889), para celebrar o primeiro ano do casamento dos novos Imperadores. A pintura da face principal desdobra-se numa festa palaciana com momentos musicais e de convívio, que decorre num jardim de buxos. Ironia dos tempos, o Segundo Império (tal como Napoleão Bonaparte) fez tábua rasa do ideário de igualitarismo propagado pela Revolução Francesa, empenhando-se antes em recriar a sumptuosidade da monarquia que fora guilhotinada décadas antes (1793) no coração de Paris. O próprio uso do leque tinha sido estabelecido pelo Rei Sol e por Luís XV. Ironicamente, também Maria Antonieta – depreciativamente cognominada ‘a austríaca’ – fora uma influencer, à época, revolucionando o vestuário e a decoração com o branco e os tons claros, que tornaram mais leve e luminoso o ambiente pesado e solene da corte de setecentos. 

O leque da Imperatriz Eugénia foi comprado à antiquária Elena Sarto de Hortega (1900-1994) pelo empresário e coleccionador de arte português, António Medeiros e Almeida (1895-1986), após a Segunda Guerra Mundial, sendo o leque estrela do acervo da M&A.  A sua estrutura é constituída por uma armação em madrepérola, decorada com esmaltes, pedraria, dourados e prateados. O reverso, igualmente magnífico, exibe os brasões de Napoleão III e de Eugénia, rematados no topo pela coroa imperial e pelos monogramas de ambos: ‘N’ e ‘E’.

Frente e verso.

Zoom sobre a armação em madrepérola e sobre o reservo com as armas das duas famílias e a coroa imperial centrada em cima.

Zoom sobre a festa palaciana pintada na face principal.

Quando revisitamos a história, descobrimos que, afinal, a nossa época é bem menos fértil em novas ideias do que supomos. Demasiado colados ao presente, tendemos a sobrevalorizá-lo, como se quase tudo tivesse surgido de ‘geração espontânea’. Lembramos pouco, que somos herdeiros de um legado imenso, riquíssimo, transmitido generosa e esforçadamente, de geração em geração. Como dizia uma velhinha muito lúcida: os miúdos que, hoje, não concebem o mundo sem telemóvel, não o inventaram; são meros beneficiários do invento extraordinário de um avô, que se dão ao luxo de ignorar. São, no fundo, anões sem consciência de viverem às cavalitas de gigantes...   

O descanso no Verão convida a boas leituras, daquelas que ajudam a lembrar (informar sobre) o longo caminho percorrido até à actualidade. Boas férias!   

Maria Zarco 
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

29 julho 2026

Vai um gin do Peter’s ?

PAIS DUAS VEZES

Felizmente que nos 365 dias do ano consagrou-se um dia para festejar os avós – o 26 de Julho –, associando à festa dos avós de um neto famosíssimo!... 

Nas divertidas colectâneas de conselhos dados por crianças, uma canadiana pequenina aconselhava os amigos a arranjar uma avó, se tivessem o azar de não haver disponíveis na família. De facto, muitas das melhores memórias da nossa infância estão associadas aos avós, aqueles pilares de ternura e de humor, que ajudaram a forjar a nossa identidade. Talvez sejam a memória que escolhemos para criarmos raízes e crescermos saudavelmente, cientes de serem aquele porto seguro, onde podemos abrigar-nos e recuperar forças, sentido até! Um testemunho reconhecível para muitos reza assim: ‘Quando jovem, não tinha tempo para os meus pais, mas amava muito os meus avós. Quando velho meus filhos não têm tempo para mim, mas sou amado pelos meus netos.’ É misterioso por que já só os apanhamos num ciclo mais avançado de vida, mais breve. 

As estatísticas confirmam o papel dos avós como educadores, chegando a assumir o papel principal em milhões de famílias, por anos a fio, sobretudo quando os pais precisam de emigrar para outro país ou outra região. Isto sem falar das rotinas mais comuns, de lhes caber ir buscar os netos à escola, de serem os confidentes ideias, além da sua arte para manterem a família unida.  

Relato gráfico do episódio de Timurid, o Conquistador, a procurar o conselho da avó.


Um texto antológico (mais um) do Cardeal Tolentino explica os seres maravilhosos que são os avós. Poderiam ser as figuras inspiradoras e os PT das ‘fadas madrinhas’, incumbidas de ajudar as criancinhas a amadurecer com ânimo, a desenvolver talentos, no fundo, a dar rumo à vida abrindo-lhe um horizonte luminoso.

A ARTE DOS AVÓS 

«Os avós são mestres de uma arte esplêndida e rara: a arte de ser. 

Os avós sabem tornar um mero encontro quotidiano numa apetitosa celebração. Sabem olhar e olhar-nos sem pressas, vendo-nos esperançosamente mais adiante. Sabem dar valor às coisas de nada. 

Nunca consideram que quando se entretêm connosco estão a perder tempo, muito pelo contrário. Sabem que o amor dá-se bem com essa gratuita co-divisão. 

Os avós são docemente silenciosos, mesmo se muito tagarelas. 

Os avós parecem distraídos, e isso é bom. 

Os avós caminham a nosso lado sem pressa. Têm tanto de distante como de próximo no arco do tempo. Têm uma sabedoria que se expressa por histórias calorosas e não por conceitos. Têm uma memória que nos parece inesgotável, cheia de aventuras, de bagatelas e de detalhes para divertir. Têm armários carregados de objetos (alguns incompreensíveis) que nos põem a sonhar. Apresentam-nos a gostos e a sabores que passamos a identificar com eles. Os avós já foram muitas vezes aos lugares onde nos levam pela primeira vez.

Chamam a atenção para coisas incalculáveis, como a forma de uma nuvem ou a cor diferente que ganham as folhas. Ensinam-nos com serenidade, colocando-se a nosso lado. Nunca acham despropositada a fantasia, nem os medos, nem o mimo. Têm o sentido das pequenas coisas e colos onde cabem as grandes. 

Eles não separam, como o resto das pessoas, aquilo que é útil do que é inútil. Fazem-nos sentir que é assim, que já passaram por isso e que existe uma solução que nos vão revelar, só a nós, como um grande segredo. 

Amparam os nossos desequilíbrios com o corrimão invisível e seguro do seu afeto, disponíveis degrau a degrau. Adivinham o que não dizemos sem se confundirem com a nossa confusão. 

Quando não estão connosco, pensam em nós, repetem aos amigos as frases que dissemos, disputam-nos, orgulham-se de coisas parvas, como o modo como sorrimos ou respiramos. 

Penso que se sentimos tão intensamente que os devemos salvar é porque percebemos, desde muito cedo, que somos salvos por eles.»

José Tolentino Mendonça
In  «The Dancing Words»

Por ocasião do Dia dos Avós, Leão XIV deu cinco recados aos mais velhos: há sempre alguém que nunca os esquece e os ama incondicionalmente, começando por Deus; são muito mais do que a sua provecta idade e as eventuais fragilidades, pois cada indivíduo continua a ser único e insubstituível, exactamente como quando estava na força da vida; nunca é tarde para recomeçarem e tentarem fazer melhor; a vulnerabilidade não devia assustá-los, pois o crescimento interior não é um exclusivo dos novos; por fim, as suas orações são valiosíssimas, assim como marcantes os seus gestos de amor com a família e com outros.  A própria Organização Mundial de Saúde emitiu, recentemente, uma recomendação, que valoriza o papel dos idosos, quando desaceleram, recuperando um ritmo tranquilo, capaz de saborear melhor a vida: ‘reduz o risco de demência gastar mais tempo à mesa, com a família e os amigos’ e praticar o diálogo inter-geracional.  

J.R. Tolkien recomendava: «Não despreze a tradição que vem de anos longínquos; talvez as velhas avós guardem na memória relatos sobre coisas que alguma vez foram úteis para o conhecimento dos sábios.» E Churchill, aconselhando a recuar às gerações que nos precederam, deixou este conselho lapidar à jovem rainha Isabel II: «The farther backward you can look, the farther forward you can see». Vivam os avós e a sabedoria imensa do seu legado vitamínico! 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

15 julho 2026

Vai um gin do Peter’s ?

 O QUARTO DE MILÉNIO DOS EUA

A comemoração da grande efeméride dos 250 anos da assinatura da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, para se emanciparem da vassalagem britânica, tem feito correr muita tinta. Com justiça, tem sobressaído o legado revolucionário sulcado pela ex-colónia britânica, desde o histórico 4 de Julho de 1776, até aos dias de hoje. Na vanguarda dos maiores avanços tecnológicos e económicos do planeta, o país resiste como a primeira superpotência mundial, apesar de a China lhe seguir no encalce…

São imperdíveis: o artigo de António Barreto (Público de 4.JUN.) sobre o maior contributo para a liberdade humana, dado pelos EUA; o texto de Pedro Norton no Público (7.JUN.), a sublinhar a requalificação da democracia, ao fundirem o ideal de representatividade com o liberalismo, sob uma governação balizada e escrutinada por ‘checks and balances’; trechos vários de Jaime Nogueira Pinto (Observador, a 9.JUL.), em contraciclo com o olhar sombrio de muitos ocidentais sobre o badalado ‘ocaso’ da superpotência; ou artigos de economistas estrangeiros, que elogiam o facto de o sucesso norte-americano não provir de «um compromisso dogmático com os mercados nem com o Estado. (É) uma vontade pragmática de utilizar ambos. (…) Desde o início que têm sido um Estado disposto a usar estrategicamente o seu poder face ao que considera ser o fracasso do "laissez faire", mantendo simultaneamente um setor privado competitivo». Já nem se fala do contributo dado pelo famoso conde francês, Alexis de Tocqueville, no segundo quartel de oitocentos, ao observar e registar as especialíssimas idiossincrasias da nova nação, que revolucionou o paradigma político, económico e social herdado da Europa, de onde descendia e em quem se inspirava a maioria da nova elite norte-americana, nascida sob o signo da meritocracia. 

Destino de imigração europeia por excelência, desde o séc. XVII, reza a tradição ter sido algo renhida a decisão de consagrar o inglês como língua oficial da nova nação. O alemão era uma alternativa renhida nalguns Estados (constavam apenas 13 na Declaração de Independência), denunciando quanto a matriz norte-americana era uma convergência de influências complementar, entre o pragmatismo britânico e a eficiente ordem germânica, entre outras. Tal ‘melting pot’ pôde florescer num contexto bem estruturado, que assegurou uma previsibilidade assente em regras universais e igualitárias, a que todos se submetiam e submetem (em geral), desde o líder máximo ao cidadão anónimo. 

A breve história dos EUA, segundo os padrões orientais e europeus, é marcada pela pujança económica e técnica, alimentada pela panóplia de oportunidades, que permitiu aos imigrantes recém-chegados ao outro lado do Atlântico singrarem e desenvolverem o país. Algo diferenciador aconteceu na América do Norte – entre Canadá e EUA – para justificar uma prosperidade recorde, nos antípodas das demais potências do Novo Mundo, igualmente dotadas de matérias-primas e de potencial de desenvolvimento. Porém, grassa na generalidade dessoutros países do continente – os latino-americanos – pobreza e subdesenvolvimento, com gritantes desigualdades sociais, onde coabita a miséria da maioria com pequenas bolsas de magnatas, que detêm a quase totalidade dos recursos nacionais.

Qual o segredo do estrondoso sucesso norte-americano e canadiano? Sem repetir os articulistas já citados (sobre os EUA), apenas acrescentaria uma nota à margem sobre a argúcia e a lucidez política herdadas (maioritariamente) do Reino Unido, ilustrada nos alertas da poderosa Rainha Vitória à sua família para a urgência em adaptarem-se aos novos tempos. Percebera bem os clamores populares a que a Revolução Francesa dera voz, de modo descontrolado e sangrento. Apesar de gozar de popularidade no Império Britânico, foi a soberana mais vocal a recomendar a necessidade de liberalizar e tornar mais representativa a gestão política do país, defendendo o constitucionalismo e a redução dos privilégios régios. Considerava impensável as casas reais continuarem a assentar nos privilégios tradicionais. Sem se deixar obnubilar pelo êxito pessoal, aconselhava os monarcas europeus a aproximarem-se das populações, a prescindir de benesses crescentemente intoleráveis para o cidadão comum, a pugnarem por governos eficientes e capazes de responder aos anseios do povo. São antológicos as suas cartas à meia irmã, a Princesa Feodora of Hohenlohe-Langenburg, e ao tio Leopoldo, rei dos Belgas, discernindo primorosamente os sinais dos tempos e pugnando por soluções actualizadas. Aos Czares da Rússia (seus netos) bombardeou com conselhos para evitarem os erros dos soberanos franceses (guilhotinados), pedindo-lhes maior proximidade com a população russa, até para ouvirem e captarem as reivindicações na ordem do dia. Especificamente, à Czarina Alexandra sua neta implorou menos ingerência no governo da nação e mais atenção ao povo, considerando fundamental a jovem soberana, nascida na Alemanha, conquistar a simpatia e o respeito dos russos. Também encorajou Nicolas II a cultivar uma relação próxima com os seus ministros e a acompanhar o rumo dos acontecimentos. A resposta auto satisfeita, no fundo, semi autista dos jovens czares explica parte da rápida degradação política e económica do país e o enfraquecimento da governação, incapaz de acudir às necessidades mais prementes das pessoas. Aproveitando as brechas do poder, os revolucionários bolcheviques tomaram o Kremlin de assalto, dispostos a reduzir tudo a escombros e a impor a sua liderança por meio de um colossal banho de sangue, que vitimou milhões de russos, incluindo os Romanov. 

Numa versão mais Monty Phyton, segue um diagnóstico delicioso sobre os ideais (menos citados) que o novo Estado da América do Norte quis abraçar com entusiasmo, confiando num futuro promissor… Num momento crucial da batalha pela independência, o mítico general George Washington partilha com os seus soldados o sonho maior que o animava naquela luta fundacional:   


São refrescantes os conselhos de sobriedade e de sentido solidário de quem está numa posição de força, assim como é adorável e desarmante o humor sobre os pontos fracos e as descaradas incongruências dos casos e das gentes de sucesso. Parece paradoxal, mas são meros (embora raros) gestos de lucidez e de bom senso, impregnados de uma certa bonomia generosa, maravilhosa!  

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

01 julho 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 AMOR COMO ARTE  

Se há palavra gasta no vocabulário comum é ‘amar’ em todas as derivações, até ao expoente, quando merece ser substantivado. A centralidade do tema para os humanos explica o seu uso intensivo (por vezes, abusivo), com os inevitáveis desvios semânticos que as visões pessoais vão imprimindo ao conceito. Para o caso, serão residuais as manipulações de uns poucos, que se apropriam do termo para o instrumentalizar, apostando na relevância daquele som mágico para a maioria.      

Apesar das adulterações (especialmente intensas, a partir do séc. XIX, misturando-se equívocos conceptuais com jogadas de marketing), não é fácil recuperar o conceito original com uma abordagem simples, sem simplismos, e concisa, apanhando-lhe o epicentro semântico. Esse será o grande mérito de uma breve reflexão baseada no pensamento do sociólogo, psicanalista e filósofo germano-americano judeu – Erich Fromm (1900-1980).  Nalguns aspectos, poderá soar algo extremada, como se percebe num académico que sabe estar em contra-corrente com a cultura dominante do pós Guerra, no Ocidente. Porém, Fromm consegue apontar à essência de um tema tão vasto e escorregadio, focando-se nas suas principais coordenadas, associadas à consciência, à liberdade exercida com lucidez e sentido positivo, e menos à emoção, aos sentimentos, à paixão per se. 


Talvez as convicções de Fromm não sejam as esperadas, pois reconhece sacralidade no amor, enquanto se autodefine como ateu místico. Nascido numa família alemã judia muito religiosa, com uma dinastia de rabinos, acabou por perder a fé e abandonar a Alemanha, logo em 1934, depois de Hitler subir ao poder. Doutorou-se em sociologia e enveredou pela psicanálise freudiana, depois seguindo derivas próprias. Politicamente, era socialista marxista, mas viveu anos nos EUA, onde se assumia como pacifista. Acabou por se incompatibilizar com as universidades norte-americanas e mudou-se para o México. Acabou os seus dias na Suíça. 

A reflexão aqui postada retira ideias do seu livro de 1956: «A Arte de Amar». O arranque interpelativo tira-nos da zona de conforto – «Love is not a feeling, it’s a practice» – assim forçando um reposicionamento do tema, que vai directo ao âmago da questão: «Love is an act of faith. (…) Love is an art. Like music or painting, it demands knowledge, effort, discipline (…). There’s a dangerous idea that love is passive, that it happens to us. To love is to give, without losing yourself (…), to be responsible for another’s heart, without trying to own it. (…) It take roots in small acts. (…) We were not born knowing how to love, we were born needing it. Learning to give it is a work of a lifetime. (…) Next time you wonder why love feels hard, remember, it’s not that it’s impossible, it’s that it’s sacred. And sacred things take time.».  


Como para a generalidade dos conselhos, também com Fromm se ganha em ficar apenas com o que vale a pena e nos ajuda. Dá que pensar, reverberar nas dicas de um sociólogo psicanalista ateu a frase luminosa de Leão XIV – Magnifica humanitas...

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas) 

17 junho 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

AUSCHWITZ NO TEMPO DE NERO  

Lembro-me bem da visita ao aterrador Campo de Concentração em Auschwitz, a 70 km da lindíssima cidade polaca de Cracóvia. Enregelei com o frio cortante de janeiro, apesar de estar bem agasalhada e de haver algum sol, ainda que pálido. Os -15º C pioram com a mais leve brisa, doendo até aos ossos. Nem imagino o que seja aguentar aquelas temperaturas negativas nas longas noites da Europa Central, apenas vestida com as célebres fardas de sarja às riscas azuis e brancas. 

No horror que aquele espaço evoca, chocou-me o aspecto organizado e harmonioso do casario imenso de Birkenau, ordenado como um magnífico acampamento romano a espraiar-se por uma planície imensa, coberta do branco lustroso da neve fofa. Do lado de fora do muro, erguiam-se cedros de folhagem  verdejante, dando solenidade e força àquela paisagem límpida. Que paradoxo aquela beleza tranquila ter sido o cenário de um genocídio monstruoso, felizmente erradicado há 81 anos!  

A crueldade da paisagem de Auschwitz, insensível à barbárie sanguinária ali perpetrada, reverbera de forma ampliada nas festas sumptuosas do imperador romano, que instituiu uma perseguição pérfida e incompreensível a um grupo religioso, que nada lhe fizera. Depois de Nero ter ateado fogo à cidade de Roma (segundo reza a história), resolveu passar as culpas do tremendo flagelo para os cristãos, impondo-lhes o pior anátema: a morte da forma mais escabrosa e indigna, sacrificando as vítimas como joguetes de diversão nos espectáculos insanos do Coliseu romano. Ou, pior ainda, usando-os como tochas vivas para iluminar as alamedas dos jardins imperiais! Não há palavras para tamanho horror, mas felizmente ficou a memória histórica desses crimes indecorosos e do escândalo daqueles festins hediondos, manchados de sangue inocente. 

A arte tem sido pródiga na denúncia do mal e na revelação da subtileza complexa daquela iniquidade. Além de fazer jus aos factos, relembrando séculos de mortandade gratuita, tem sido incansável a expor o emaranhado paradoxal de um tipo de perfídia estranhamente compatível com uma certa beleza exterior. Coube, precisamente, a um pintor polaco compor a tela intitulada «As Tochas de Nero», também conhecida por «As Velas da Cristandade», referindo-se aos lampiões de carne-e-osso que iluminaram as repugnantes festas de um dos imperadores mais depravados e ferozes da Roma antiga. Nem de propósito, a obra de Henryk Hektor Siemiradzki (1843-1902) está exposta no Museu de Cracóvia, a uns escassos 70 km de Auschwitz… 

«As Tochas de Nero» - pintado por Henryk Hektor Siemiradzki, em 1876/78. © Museu Nacional de Cracóvia

Para dificultar esta difícil equação onde o belo e a infâmia desumana se autoalimentam, calhou aqueles lampiões inofensivos terem dado a vida por Quem lhes pedia para amarem os inimigos! Volta-se à tela de Siemiradzki e não parece fácil sequer tolerar, quanto mais amar, um anfitrião e uns convidados impiedosos, que aceitam participar em festejos onde inocentes são queimados vivos, à sua frente!  O pintor capta com especial acuidade a opulência inebriante dos jardins romanos e o fausto luxuoso da festa de um dos governantes mais poderosos do seu tempo. Em contraponto, o especialista em arte, depois ordenado sacerdote e encarregue da Catedral londrina de Westminter – Pe. Patrick van der Vorst – faz a ponte entre essa mundanidade bela, mas desumana, e a bondade desmesurada (desproporcionada para os padrões humanos) do Mestre dos archotes vivos. No fundo, coloca o dedo na ferida ao convocar a base do amor cristão, que emerge sempre de um acto luminoso de liberdade autêntica, inalcançável para a IA: «when Jesus calls his disciples to love their enemies, he is not speaking primarily about emotions or feelings. He is speaking about an act of the will. Christian love is not sentimental. It means choosing not to hate, refusing to seek revenge, resisting bitterness, and continuing to recognise the dignity of the other person, even when relationships are wounded. To love an enemy does not mean approving of what they have done; it means refusing to allow darkness to have the final word in our own hearts.»

Repassando a história, assaltam-nos perguntas várias: como seria estar na festa do Imperador ou nos shows do Coliseu, em qualquer das posições? Seria louca a maioria da população do magno Império da Pax Romana, como insistem animadamente Asterix e Obelix?... 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas) 

03 junho 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 O PAPA E «2001 ODISSEIA NO ESPAÇO»  

O Papa vindo do Novo Mundo ecoa na recém publicada Encíclica sobre IA o alerta de Stanley Kubrick em «2001 - Odisseia no Espaço». No famosíssimo filme de 1968, o computador HAL preparava-se para controlar os humanos e liderar a missão espacial, entre outras peripécias, de uma humanidade fascinada com a exploração do espaço. Numa explicação deliciosa, Kubrick contou como se inspirara no título de Homero – Odisseia – para a sua obra magna do cinema: «Ocorreu-nos que, para os gregos, as vastas extensões do mar devem ter tido o mesmo tipo de mistério e de afastamento que o espaço tem para a nossa geração.»

O predomínio da máquina, que soava a ficção longínqua, há 50 anos, aproximou-se demasiado depressa da nossa realidade, hoje! Daí o alerta papal, diferenciando muito bem entre a imensidão de benefícios da IA e da tecnologia (ou não fosse um craque a matemática, além de nado & criado no país campeão dos maiores avanços tecnológicos do séc. XX) e o risco de redução do ser humano. ’Apenas’ essa possível e profunda subalternização preocupa Leão XIV. Recorro-me de óptimas súmulas já circuladas sobre o conteúdo da pequena (mas densa) encíclica e sobre a originalíssima cerimónia de lançamento, fora de todos os cânones:   

cafe.com.tradicao: A primeira encíclica de um papa define o tom do pontificado. Leão XIII escreveu sobre o trabalho na Revolução Industrial em 1891. Exatamente 135 anos depois, Leão XIV escreveu sobre a inteligência artificial. O nome não foi escolhido por acaso

No portal do Vaticano, está disponível uma sinopse com as inúmeras ramificações temáticas associadas à IA:  


«UM PAPA, DOIS CARDEAIS, DUAS TEÓLOGAS E UM ENGENHEIRO

Uma encíclica não decreta o que se há-de crer. Tem obrigação mais grave: interpretar o tempo à luz da Revelação e orientar o homem para o que o salva.

Esta manhã, às 11h30 em Roma, 10h30 em Lisboa, Leão XIV entra no Salão Sinodal do Vaticano e apresenta apresenta pessoalmente a sua primeira encíclica. Quem investigar o protocolo vaticano vai ver que isto nunca aconteceu. Nenhum Papa, antes de Leão XIV, se sentou à mesa de apresentação da sua própria encíclica. Não delega no cardeal Fernández, não a entrega ao secretário de Estado Parolin. Senta-se a uma mesa com o cardeal Czerny, com a teóloga Anna Rowlands de Durham, com a professora Léocadie Lushombo da Jesuit School of Theology de Santa Clara, e com Christopher Olah, co-fundador da Anthropic, a empresa que construiu o Claude. Um Papa, dois cardeais, duas teólogas, um engenheiro de inteligência artificial. A composição da mesa é a primeira frase do documento: um Papa que não veio observar a máquina, mas ajudar o seu construtor a indagar o que ela faz ao homem.

O documento chama-se Magnifica humanitas: Sobre a Protecção da Dignidade Humana na Era da Inteligência Artificial. Foi assinado a 15 de Maio, exactamente 135 anos depois de Leão XIII ter assinado a Rerum Novarum. A coincidência não é coincidência: o que a revolução industrial foi para o século XIX, a inteligência artificial é para o nosso tempo. Em 1891, a doutrina social da Igreja Igreja escandalizou socialistas e liberais, porque não pertencia nem a uns nem a outros. Promete fazê-lo outra vez.

Magnifica humanitas não é um dogma de fé, nem pretende fechar a discussão com a autoridade do anátema. É outra coisa, e talvez mais difícil. É o exercício do magistério a pensar em voz alta sobre o seu tempo, a oferecer à Igreja e ao mundo uma leitura do presente à luz de uma verdade que não muda. Uma encíclica não decreta o que se há-de crer. Tem obrigação mais grave: interpretar o tempo à luz da Revelação e à luz da Revelação e orientar o homem para o que o salva. O dever do católico não está na obediência cega, que ninguém pede, mas no esforço de a ler e de a deixar interrogar-nos. Porque só assim se cumpre o que Cristo prometeu: Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará (Jo 8,32).

Para perceber o que Leão XIV está a fazer é preciso voltar à Rerum Novarum, porque é dela que esta encíclica reclama herança. Em 1891, Leão XIII entrou na questão operária num momento em que a Europa se polarizava entre o socialismo revolucionário e o liberalismo manchesteriano, e fê-lo recusando os dois. Defendeu a propriedade privada contra os colectivistas e o direito à associação operária contra os patrões. Afirmou o salário justo contra a redução do trabalho a mercadoria e o dever do Estado de proteger os mais fracos contra os que viam no laissez-faire uma lei natural. Não foi um documento de equilíbrio prudente. Foi uma intervenção que reorganizou o terreno do debate europeu sobre o trabalho, e fê-lo com a autoridade de quem se recusou a escolher entre duas ortodoxias que partilhavam, ambas, uma antropologia mutilada. A Rerum Novarum foi possível porque Leão XIII percebeu que a questão social não era primariamente económica: era antropológica. A pergunta não era como repartir o produto do trabalho. Já no Génesis Deus nos recorda que colocou o homem no jardim do Éden para o cultivar e o guardar, antes da Queda e antes do suor do rosto (Gn 2,15). O trabalho não é a pena que se paga por viver. É a forma como Deus convida o homem a participar na obra que o precede. Quem esquece que o homem foi criado à imagem de Deus não comete um erro disciplinar. Comete um erro sobre tudo o resto. Leão XIV vem corrigir esse erro.

A tradição que Leão XIV herda é longa e tem o hábito de estar certa antes de o mundo estar pronto para ouvir. A Quadragesimo Anno de Pio XI formulou em 1931 a subsidiariedade que a União Europeia viria a inscrever em Maastricht sem confessar a dívida. A Humanae Vitae de Paulo VI foi recebida com escândalo em 1968 e relida, décadas depois, com uma atenção diferente por quem se deu ao trabalho. A Centesimus Annus de João Paulo II, escrita em 1991 enquanto o mundo ainda processava o colapso soviético, continua a ser o texto mais rigoroso sobre o que o capitalismo pode e o que não pode. A Caritas in Veritate de Bento XVI abordou a globalização com uma profundidade filosófica que a maioria dos leitores não quis ter. O padrão é o mesmo. A Igreja, quando intervém a sério, intervém sobre a antropologia do seu tempo, e costuma ter razão antes de ser conveniente reconhecê-lo.

Leão XIV inscreveu-se nessa tradição antes de escrever uma palavra. O nome de um Papa é o seu primeiro acto de governo, escolhido antes da primeira palavra pública, e lê-se como programa. Leão XIV explicou que, nos nossos dias, a Igreja oferece a todos o tesouro da sua doutrina social em resposta a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos no campo da inteligência artificial, que colocam novos desafios à defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho. A Time incluiu-o entre as personalidades mais influentes em inteligência artificial, não como observador piedoso de um fenómeno alheio, mas como interlocutor de quem o constrói. A presença de Christopher Olah na apresentação desta manhã confirma-o. As outras mesas optimizam meios para fins já fixados: eficiência, produtividade, segurança dos sistemas. O Vaticano parte de um fim que não negocia. Por isso tem uma pergunta que as outras mesas não fazem. A Anthropic, que hoje lidera o sector com o Claude, nasceu de uma ruptura: os seus fundadores saíram da OpenAI por acreditarem que uma máquina que não serve o homem não é uma ferramenta imperfeita. É uma ameaça.

A ruptura que fundou a Anthropic aponta para algo que vai além da segurança dos sistemas. Toda a tecnologia que altera o modo como o homem trabalha acaba por alterar o exercício das suas faculdades. Quando delegamos à máquina o pensamento, a escrita e o raciocínio não deixamos de ser quem somos. Mas deixamos de exercer o potencial que temos. E esse potencial não é neutro. O homem foi criado para conhecer, para contemplar, para participar na obra da criação e para se aproximar de Deus através do exercício pleno das suas capacidades. Uma humanidade que progressivamente abdica das suas capacidades mais próprias não evolui. Empobrece. A pergunta que Leão XIV retoma da Rerum Novarum e devolve actualizada é esta: que tipo de pessoa a inteligência artificial pressupõe, e que tipo de pessoa ela produz. Sem essa pergunta, todas as respostas são técnicas. E por isso provisórias.

A resposta cristã a esta pergunta não é a única possível, mas é a mais antiga e a mais testada, e tem um instrumento que nenhuma outra tradição possui: dois mil anos de magistério que é simultaneamente tesouro acumulado e chave viva para ler o presente. A razão serve-se desse tesouro, não para substituir a fé, mas para perceber o que a fé ilumina. O dualismo cartesiano,  ao separar o pensamento do corpo, criou uma antropologia onde o homem se reduz à sua capacidade de raciocinar. A fé cristã sempre recusou essa redução. Não por decreto filosófico. Porque o próprio Deus escolheu encarnar-se: e o Verbo se fez carne, e habitou entre nós (João 1,14). A diferença não é menor: é a diferença entre uma antropologia que torna o homem indistinguível da máquina que o imita e uma antropologia que sabe que cada homem é irrepetível, porque foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27). Nenhuma máquina replica o irrepetível. É este o desafio a que Magnifica humanitas se propõe responder, e é o desafio que toda a humanidade, crente ou não, está a ser convocada a enfrentar.

Dir-se-á que esperar de qualquer país ou instituição que pare para ler um documento pontifício é nostalgia mal disfarçada. A Igreja já não comanda o debate público em lado nenhum, e seria ingenuidade pretender o contrário. Talvez. Mas a nostalgia, neste caso, é a única forma honesta de medir o que se perdeu. Não se trata de exigir consenso teológico onde já não há partilha religiosa. Trata-se de reconhecer que o instrumento mais antigo do Ocidente para pensar a pessoa humana acaba de entregar uma análise séria sobre a transformação mais profunda em curso, e que o modo como esta análise será recebida dirá mais sobre o estado da sociedade e do debate público do que sobre o estado da Igreja.

O critério que Magnifica humanitas oferece não é sobre a técnica. É sobre o homem. A técnica está em constante mutação. A tentação de sermos como deuses, desde o Génesis, é a mesma que nos chega agora pelos sistemas que construímos para nos imitarem. O instrumento é novo. A natureza humana é eterna. Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito (Rm 12,2).»

João A.B. da Silva – 25.MAIO.2026 

O título escolhido por Leão XIV «MAGNIFICA HUMANITAS» resulta no melhor arranque para abordar os desafios gigantescos colocados à humanidade pela IA e pela robotização da vida quotidiana. Reevoca o aviso de Kubrick contra um computador HAL à solta, capaz de acantonar (no filme, matar) os humanos num limbo onde ficam ‘sem chão’, desorientados, com maior dificuldade em descortinar o seu papel no mundo. Um panorama desestruturante! Alguém duvida da superioridade produtiva da máquina, em concreto a processar dados? Alguém ignora a eficiência dos algoritmos criados por humanos talentosíssimos, mas rapidamente a dar mil a zero aos seus criadores, quais Frankensteins com poderes, até certo ponto, sobrehumanos?  A catadupa de perigos no horizonte é tão real e ameaçadora, que é impossível subestimá-la. Por isso impressiona mais que Leão XIV se detenha nas boas razões para acreditarmos na humanidade, incutindo-nos esperança no futuro, se hoje tomarmos as decisões certas… Desta vez, a nossa identidade está em causa… reactualizando e estendendo com ferocidade ao nosso tempo o clamor de Hamlet: to be or not to be!   

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

20 maio 2026

Vai um gin do Peter’s ?

 FUNDADOR DO MAIOR BANCO DO MUNDO ACREDITAVA NAS PESSOAS 

Estranho ser pouco conhecido o banqueiro que mais revolucionou o sistema bancário, fundou e geriu o maior banco do mundo, colocando-o ao serviço das pessoas, e não das fortunas! Claramente privilegiava os pobres, apostando sempre em gente desfavorecida, mas empenhada em trabalhar honestamente, e não em magnatas interessados (legitimamente, entenda-se) em ganhar dinheiro através de investimentos financeiros, como faziam os bancos no início do séc. XX. Ainda por cima, teve uma vida algo aventurosa, pontuada por decisões vanguardistas, empolgantes para um argumento cinéfilo. Aliás, teve alguns – «It’s a Wonderful Life» do seu amigo Frank Capra (1946), «The First Dollar» (em rodagem) e os documentários: «A.P. Giannini – Bank of the Future» (2023) e «A Little Fellow: The Legacy of A.P. Giannini» (2025) – mas a personalidade inspiradora de Amadeo Peter Giannini (1870-1949) caiu no esquecimento demasiado depressa.

Descendente de italianos, nasceu em San José, na Califórnia, inserido numa comunidade de imigrantes da Ligúria, no Noroeste de Itália, que se aplicavam arduamente ao trabalho agrícola para singrarem no Novo Mundo. Aos seis anos, viu o pai ser morto por um trabalhador, que tinha vindo recolher a jorna de 1 USD, embora tivesse faltado ao trabalho. Como o pai Giannini se recusara a pagar-lhe um dia não trabalhado… acabou por pagar com a vida. Apesar do horror daquele desfecho macabro, o pequeno órfão de seis anos não se tornou vingativo, nem ressabiado contra aquele e outros empregados (e empregadores) violentos, antes enquadrando o acto brutal no desespero da pobreza generalizada, patrões incluídos. Explicava que na sua família não se falavam de tragédias, apesar de terem vivido várias, mas apenas das grandes oportunidades encontradas no novo país. Em relação ao assassinato do pai, Amadeo limitava-se a repetir, com realismo e noção da importância da vida de cada pessoa: «Não se pode morrer por um dólar». Percebera bem o nível de aflição de quem mata por tão pouco, sentindo-se chamado a ajudar os mais carenciados. Aprendera com os pais uma forma de solidariedade lúcida e construtiva, proporcionada à comunidade local pelo ‘Swiss Hotel’, gerido pelo casal Giannini.  

Valeu à sua mãe, que enviuvou com pouco mais de vinte anos e 3 filhos pequenos (Amadeo era o mais velho), o apoio da comunidade italiana. Passado uns anos, voltou a casar e Amadeo descobriu o gosto pelo negócio e pela relação com os clientes na microempresa do padrasto (comércio alimentar). Entusiasmado pelo sucesso no trabalho, faltava-lhe tempo para estudar. Pressionado pela mãe e pelo padrasto, continuou os estudos, onde também teve êxito, chegando a conseguir abreviar alguns anos de escolaridade. No liceu, apaixonou-se pela matemática, de grande utilidade para a vida. Na faculdade, os professores deram-lhe o diploma ao fim de pouco tempo, reconhecendo que Amadeo sabia mais do que eles, fruto do estudo em casa e da prática na empresa do padrasto, que delegava nele tarefas e decisões estratégicas. Ficou-lhe do curso a máxima «no comércio, quem mais sabe, mais ganha». 

A jovem mais cobiçada entre os italo-americanos de S.Francisco – Clorinda Cuneo – veio a ser a mulher de Amadeo. Este repetia com humor e sinceridade, que fora o «melhor investimento da sua vida». Tratava-se da rica e bonita herdeira do empresário Giuseppe Cuneo. Quando este morreu, a viúva e os outros 9 filhos não hesitaram em pedir a Amadeo para ser o seu representante na gestão da fortuna familiar. Mas Giannini recusou, só se rendendo às insistências da mulher, que lhe implorou esse sacrifício! Percebe-se quanto os talentos de Amadeo eram evidentes e inspiradores de confiança, a ponto de sogra e cunhados apostarem todas as fichas nele.  Coube-lhe, assim, suceder ao sogro no Conselho de Administração do banco local – o Columbus Savings & Loans. Foi nessa função, que se apercebeu da atitude algo agiota dos bancos, apenas disponíveis para os ricos. Ficou escandalizado com os juros homéricos de 4% a 7% cobrados aos pobres imigrantes italianos, nas magras transferências para as suas famílias de origem, em Itália. Conseguiu reduzir esses juros, mas o crescendo de divergências com os seus pares no Conselho, levaram-no a bater com a porta e a prometer criar um banco para o povo – a People’s Bank – muito mais rentável do que o Columbus Savings & Loans. Claro que o acharam um lunático louco…

O casal Clorinda e Amadeo Peter Giannini, conhecido por ‘A.P. Giannini’

Em família, da esq. para a dta: o filho L.M. Giannini, a mulher Clorinda, A.P. Giannini, a filha Clara e o terceiro filho – Virgil.

Embora soubesse pouco de banca, Amadeo foi pedir ajuda ao seu amigo irlandês James Fagan, especialista no mister. Também estudou afincadamente a matéria e resolveu guiar-se pelas primeiras instituições financeiras de cariz público não lucrativas, surgidas no Renascimento para proteger os pobres da usura comum. Essas confrarias, chamadas ‘Monti di Pietà’ (Montepios), concediam microcréditos sem juros, para viabilizar os negócios dos pobres – a maioria da população. Em 1904, nascia o Bank of Italy, rebaptizado de Bank of America, em 1930, dando créditos isentos de garantias financeiras, desde que Amadeo confiasse no empreendedorismo do pequeno empresário. Baseado na confiança pessoal, Giannini acreditava que lucro e ajuda ao próximo eram compatíveis, considerando convergentes o crescimento do banco e o sucesso do cliente! Por isso, caberia ao banco cuidar e assessorar o cliente. Seguia regras exóticas para o mundo financeiro: «um banqueiro digno desse nome não deve negar crédito a ninguém, desde que seja honesto».  Não arriscava na riqueza acumulada, mas na pessoa calejada e afeiçoada à família. Seguia três critérios para investir nos negócios alheios, privilegiando os trabalhadores desfavorecidos e sem acesso ao crédito, como acontecia às comunidades imigrantes de italianos, irlandeses e chinesas, que bem conhecera: 1º empenho e capacidade de trabalho; 2º  estabilidade e enraizamento, como ter uma família para sustentar; 3º o projeto empresarial/pessoal ter viabilidade, depois de avaliado meticulosamente por Giannini, que apreciava vanguardismos.    

Em 1906, houve mais um revés para a maioria, mas não para Amadeo: na madrugada de 18 de Abril, um sismo de magnitude 7,9, seguido de incêndio (como em Lisboa, a 1 de Novembro de 1755), arrasou S.Francisco. De um total de 4000 edifícios, só uns 300 sobreviveram. Foi o caso da modesta sede do Bank of Italy. Por precaução, Amadeo mudou as reservas de ouro ali guardadas para uma zona mais segura, transportando-as em três carroças camufladas por legumes. 

Os efeitos do terramoto de 1906, na Union Square de S.Francisco.

Dois dias depois do sismo, enquanto os demais bancos continuavam fechados, Amadeo montou uma mesa na zona do porto da cidade com a tabuleta: «Empréstimos como dantes, até mais do que antes». Em contra ciclo, ofereceu crédito a quantos lhe apareciam com as mãos calejadas (à época, marca de hábitos de trabalho árduo) e uma aliança no dedo – sinal de estabilidade e de necessidade de sustentar a família.  O resultado foi a reconstrução do bairro dos migrantes, em tempo recorde (menos de um ano), além do crescimento do Bank of Italy! Em 1930, 96% dos microcréditos concedidos sem garantia tinham sido reembolsados! Além do apoio financeiro, o seu Banco também prestava assistência social gratuita aos migrantes italianos, para melhor se integrarem na sociedade norte-americana. Oferecia-lhes, por exemplo, aulas de língua inglesa, importantes para o exame de naturalização.  

A sua aposta nos pequenos empresários e o aguçado entendimento da psicologia humana levou-o a investir em gente que iniciava negócios nas garagens da família, como Hewlett e Packard, que também se notabilizaram como pioneiros de Sillicon Valley. Giannini incentivava os inventos tecnológicos, percebendo o seu impacto na melhoria das condições de vida das pessoas. A proeza de engenharia da ponte suspensa na Golden Gate foi mais um dos seus investimentos, recusado pelos outros bancos. Amadeo tinha a noção da relevância social daquela ponte para o distrito de Golden Gate. Por isso, perguntou ao engenheiro do projecto – Joseph Strauss: «quanto tempo durará?». Strauss respondeu-lhe  «para sempre!» e Giannini, confiante, disse-lhe para avançar: «A Califórnia precisa dela». 

Terminada a Segunda Guerra Mundial, Giannini adiantou verbas do seu património pessoal para financiar parte do Plano Marshall, destinado à reconstrução da Europa. Adiantou também dinheiro, sem juros, ao Governo americano, para o envio de bens essenciais para os países europeus empobrecidos pelo conflito. O esforço de reconstrução do pós-guerra coincidiu e favoreceu a internacionalização do Bank of America, que abriu filiais em cidades asiáticas especialmente carenciadas como: Tóquio e Osaka, Manila, Xangai, Bangkok. 

À medida que o Bank of America prosperava e se destacava da concorrência pelo sucesso e pelo modus operandi atípico na banca da época, Amadeo enriquecia, mas preocupava-se em não acumular em demasia, para não ficar escravo do dinheiro. Estabeleceu o limiar máximo de 500.000 USD e o sobrante (cerca de metade do seu património) encaminhou para uma Fundação recém-constituída, que oferecia bolsas de estudo aos filhos dos funcionários do banco e financiava investigações na área médica, entre outros projectos beneméritos.  

Não só o enriquecimento não o obnubilou, como não lhe estreitou os hobbies, interessando-se pelas artes e pela cultura, em geral, que considerava vitais para o pleno desenvolvimento humano. Foi o primeiro banqueiro a investir fortemente na indústria cinematográfica de Hollywood, privilegiando os filmes com conteúdo, que fossem além do entretenimento imediatista. Tornou-se amigo de Walt Disney e foi o único banco a conceder crédito à «Branca de Neve e os Sete Anões», cujo orçamento gigantesco desincentivara os outros bancos. Na mesma senda, foi mecenas de Charlie Chaplin, quando o realizador e actor britânico era desconhecido e o excesso de originalidade afugentava a banca tradicional. Ajudou Frank Capra, de quem era amigo, e animou tertúlias culturais com artistas e intelectuais do seu tempo, para aprofundarem temas de intervenção social.

Amadeo com Joe Rosenberg e Vivien Leigh durante a filmagem de «E tudo o vento levou».

A invulgar perspetiva de vida de Giannini está bem condensada nos princípios orientadores que deixou ao Bank of America, a soar a um guia para escuteiros, completamente alien na banca: «Nunca nos devemos tornar tão grandes, a ponto de nos esquecermos das pessoas comuns». Especificamente para a fundação, financiada com o seu património pessoal, traçou as seguintes orientações: «Administrem esta instituição com generosidade e nobreza, tendo sempre em mente o sofrimento humano. Não permitam que subtilezas legais (…) anulem os propósitos desta instituição. Como S. Francisco de Assis, façam o bem, não teorizem apenas sobre a bondade.»  



Quando morreu, em 1949, o seu era o maior banco do mundo, pautando-se pelas regras mais generosas e justas que o mundo das finanças conhecera, fiel ao seu propósito magnânimo: «Tenho dinheiro suficiente para a minha família. Só posso comer três refeições por dia. Só posso usar um fato de cada vez. Precisamos apenas de uma casa para viver. Porquê ser ganancioso? Se acumulasse muito mais riqueza, só iria acumular preocupações para mim mesmo... (Q)uero gerir um Banco sério e transparente, tratar bem os nossos clientes e conceder empréstimos que tragam o máximo benefício às comunidades em que operamos. Se fizermos isso, os homens e as mulheres que trabalham para o nosso Banco poderão ter a certeza de uma vida digna para todos.» 

Giannini com a filha Claire (fotogr. de 1928), que lhe sucedeu no Conselho de Administração do Bank of America, numa época em que os cargos de direcção na banca eram um exclusivo masculino.

Tão certo, revolucionário e raro, que quase parece ficção…

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

06 maio 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 CINEMA E MÚSICA   

Quem queira mergulhar em bons decores italianos, aproveite o último filme de Torrentino – «LA GRAZIA» – com alguns bons diálogos, óptimos desempenhos, mas q.b. descosido na trama, numa amálgama de apontamentos engraçados recolhidos ao longo do tempo, difíceis de conjugar coerentemente no mesmo argumento. Ainda por cima, está marcado por uma agenda semi woke cansativa e algo manipulativa, repetindo as críticas típicas de quem nasceu e cresceu em sociedades marcadas por valores cristãos, mas tornados incompreensíveis (sobretudo, intraduzíveis) para quem não tem fé. É especialmente confrangedora e irritante a cena com a visita de um Presidente português ao Quirinal, de andar cambaleante, olhar vago, típicos de uma idade excessivamente avançada, imprópria para cargos públicos, menos ainda de responsabilidade! O ar acabado do estrangeiro dá azo a um tombo inusitado numa visita de Estado. Só um soldado da formatura o socorre, face à inépcia do assessor com o guarda-chuva, que não consegue chegar a tempo de nada! Inaceitável, mas para ser lido como mais uma das metáforas bizarras e desgarradas de Sorrentino, integrada numa sequência de imagens poéticas e primorosamente fotografadas. Chuva, rajadas de vento, gente a desequilibrar-se, tudo sai da câmara do realizador italiano com poesia e um toque de humor embaraçoso.      

Os ambientes resultam nos grandes protagonistas de «LA GRAZIA», cujo título evoca os indultos concedidos pelos mais altos dignitários de um país, em fim de mandato ou em ocasiões especiais. 

Rodado na salas à meia luz do Palácio do Quirinal, onde vivem e trabalham os Presidentes de Itália, o filme abre-nos o escritório-biblioteca, os terraços soberbos de onde se avista Roma em 360º, os corredores de mármores deslumbrantes (como só os italianos), os pátios de colunatas de pedra, os portões antigos e os bastidores da vida de um presidente em fim de carreira. Nas antepenúltimas imagens, percorremos a Via Condotti, ficando à vista da Piazza d’España e Trinita dei Monti, no regresso a casa, após sair do Quirinal. É interessante o passeio a pé até casa, aproximando-se da condição do cidadão comum.   

Em Portugal, algumas curta-metragens têm merecidos prémios, como o filme de Marta Reis Andrade «CÃO SOZINHO», considerada a Melhor Curta nos Prémios Quirino de Animação Ibero-Americana, entre outras distinções internacionais. Conquistou também o Grande Prémio CINANIMA 2025. A solidão dá tema a esta coprodução luso-francesa, baseando-se na experiência da realizadora e da sua avó, apesar de estarem rodeadas de pessoas:  

Outro filme galardoado na Monstrinha do Monstra 2026, com o Prémio do Público, é o «O BORDEIRA – ZÉ». Corresponde à criação do animador 2D e ilustrador Francisco Valle, que criou sozinho, ao longo de um ano, o videoclip da Bordeira Associados (Bordeira/Basset Hounds) para ilustrar a música «ZÉ», de homenagem ao sobrinho do músico António Vieira. Concebida como uma fotografia sonora, a obra pretende condensar as melhores memórias da infância feliz do compositor e do seu irmão: “O nascimento do meu sobrinho “Zé” soou como uma badalada do tempo que passou, mas também do enorme futuro que ele tem pela frente. Sendo filho do meu irmão, também chamado “Zé”, senti a necessidade de homenagear os dois, fazendo uma recolha das nossas memórias e do imaginário de Aljezur, partilhado durante a infância (…), para que possam guardar e lembrar que há um lugar onde podem ser sempre felizes.”  
Inspirando-se na terra da infância do músico, a curta-metragem mergulha na cidade algarvia junto ao atlântico – Aljezur. Mar, praia (da Bordeira), barcos, tradições locais e até imagens de arquivo (sobretudo, a partir do min. 2:57) fluem neste filme, que nos traz o cheiro fresco da maresia: 

 
Para boa música são incontornáveis as composições de sons profundos de António Olaio, onde desagua uma miscelânea de influências, que ressoam a Leonardo Cohen!  Não é fácil de adivinhar que provêm de um músico português (na primeira composição, em parceria com o britânico Richard Strange): 

Concluir com sons de hoje, compostos em Portugal e a lembrarem Cohen, é uma feliz acumulação de sucessos!

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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