21 maio 2026

Das gavetas onde pomos os que partem

A informação já era esperada – o NL tinha morrido na madrugada de sábado, vítima de uma crise súbita de saúde uma ou duas semanas antes, e da qual não recuperou. 

Conhecia o NL há 15 anos talvez. Devido a um rearranjo familiar da minha parte, e que não vem ao caso, encontrávamo-nos uma dúzia de vezes por ano. Sentámo-nos muitas vezes ao lado um do outro para almoçar ou jantar. Mantínhamos uma conversa ligeira e agradável, fruto de um interesse que era mais do que simples cortesia: perguntava-me por um ou outro dos meus projectos, eu indagava das suas actividades golfistas; falávamos disto e daquilo, interagíamos com a família alargada à qual nos ligava um afecto grande, mas naturalmente diferente – ele tinha com aquele grupo uma relação de sangue.

O NL era uma pessoa que eu conhecera tardiamente na vida, com quem convivia pouco, para além de ser 13 anos mais velho do que eu. Seria exagerado dizer que éramos amigos, mas isso não diminui a pena que me provoca o seu desaparecimento. Não só a pena solidária de quem imagina o desgosto da mulher, dos filhos, dos netos e demais família, (pessoas por quem tenho uma grande simpatia, e mesmo amizade, e que me receberam sempre bem nos seus espaços) mas uma pena genuína, de quem se vê privado de uma confraternização – ainda que esparsa – com uma pessoa que deixa saudades.

Em bom rigor não é fácil colocar em gavetas bem identificadas as pessoas com quem nos vamos cruzando ao longo da vida: temos grandes amigos, temos bons amigos, temos amigos

(o JdC diferenciava-os de forma curiosa: fulano é meu amigo; beltrano é um amigo meu.)   

de algumas pessoas dizemos que as conhecemos e de outras que sabemos quem são. 

O NL cabia numa gaveta particular – e restrita: a daquelas pessoas de quem não somos parentes chegados nem amigos próximos, mas cujas características pessoais ou sociais as colocam num patamar muito próprio, muito exclusivo. Não perdi um amigo, um confidente, alguém com quem partilhava um passado comum. Perdi uma pessoa com quem gostava de estar e de conversar e por isso, num certo sentido menos óbvio, o seu desaparecimento deixa o meu património afectivo ou social mais pobre. 

Do NL só posso dizer isto: era uma pessoa com quem eu simpatizava muito e cuja morte me entristeceu bastante. Não sei se é pouco, mas reflecte genuinamente a minha grande pena. 

JdB


2 comentários:

Anónimo disse...

Que texto bonito e genuíno João, as coisas são como são e não menos vividas por serem descritas exactamente como são. (Filipa, nora de NL)

JdB disse...

Obrigado pelo seu comentário, Filipa.
Partilhei hoje o link com uma pessoa da família que, juntamente com uma palavra simpática, me enviou o texto que foi lido na 3ªfeira. Quando dei por mim tinha decifrado o mistério, tinha percebido por que motivo o NL estava naquela gaveta das pessoas que, não nos sendo próximas, nos são especiais. O texto que foi lido - em particular um parágrafo sobre o charme dele - explicava tudo.
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