Mostrar mensagens com a etiqueta JdB. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta JdB. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 3 de março de 2020

Dos amores alfabéticos

Ruben namorava com a Rita - e já namorara com a Rosa; tentara namorar com a Rute mas foi preterido. Nunca soube o que o fascinara na Rute, se um cabelo encaracolado e selvagem, se uns olhos levemente assimétricos, se a letra R. Por seu lado, Rita tinha namorado com Paulo e depois com Quirino e só então surgira Ruben. Um dia, distraidamente (ou talvez não) olhara com intensidade para Sérgio. Não percebeu se o motivo de interesse era o porte atlético, as mãos grandes e fortes, o olhar espantado para tudo na vida ou, muito simplesmente, a letra 'S' com que começava o nome. Afinal, beijara um 'P', um 'Q', um 'R' - a sequência natural seria um 'S'.  Mas ficara com Ruben, que também decidira ficar com Rita. Talvez fosse um amor alfabético, suportado no mistério das letras que ninguém sabia explicar.

Ruben e Rita caminhavam lado a lado na vida - e no passeio - como se fosse uma demonstração de paralelismo que terminaria no infinito. Não havia à frente nem atrás. Caminhavam por vezes de mão dada, porque a explicação era um paralelismo de afecto: ambas as mãos se davam, ao contrário do braço dado, pois nesta vertente havia alguém que dava o braço a alguém. Conversavam em diálogo, no mais perfeito diálogo: falava um e depois o outro, e depois um e depois o outro. E faziam amor como quem dava as mãos: numa reciprocidade quase perfeita, sem posições dominantes nem nada por dizer ou com tudo por dizer, porque não havia discrepâncias nem desequilíbrios. Talvez a descrição mais perfeita do casal Ruben e Rita tivesse sido feita por um amigo de ambos. À pergunta logística sobre como iriam o Ruben e a Rita, para se decidir carros num passeio, alguém disse com um ar que levantou interrogações quanto ao sentido: vão lado a lado.


Um dia Ruben teve de viajar em serviço a Bilbao. Iria sozinho, que era uma viagem curta. De passeio num fim de tarde quente, passou numa praça junto ao Guggenheim. Havia gente, agitação, crianças a correr, pares a bebericarem refrescos, idosos a ler num banco ou a conversar. Ruben viu primeiro o cartaz, antes de ver quem o segurava: free hugs. Teve um momento de emoção juvenil, como se lhe tivessem acenado com um cigarro sem filtro num qualquer setembro perdido numa mata alentejana. Teve a vertigem do pecado, da satisfação da necessidade, da juventude cravada de desejos. Só depois viu quem segurava o cartaz: uma rapariga indiferente, jovem, com cabelos pelos ombros e uns jeans rotos; um conjunto que não seria classificado de entusiasmante. Mas Ruben já estava corrompido, possuído, invadido; já dera início ao caminho, já passara o ponto de não retorno. Dirigiu-se à rapariga e deu-lhe um abraço que foi correspondido. Sentiu uns braços gratuitos a exercerem força nas costas, nas omoplatas, no coração e no desejo. Perguntou à rapariga se podiam repetir; e repetiram outra vez e mais outra. Ela acedeu porque os olhos dele não revelavam lascívia, desejo carnal, vontade de mais: queria o abraço que lhe davam, mais do que o abraço que ele tinha gosto em dar. Não havia lado a lado,  mas ele não sabia o que havia. Tudo tremeu quando lhe perguntou o nome, ofegante e entusiasmado. Ela respondeu Jesuína, mas o 'J' em castelhano lê-se como um 'R' e Ruben teve um sobressalto.  

Ruben, o homem do apego aos 'R' chegou ao hotel e sentou-se ao computador: querida Rita, temo que vá contar-te uma coisa que não sei se me perdoarás...

JdB      

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Duas Últimas

Não devo estar sozinho neste meu pensamento: há músicas que são tão fantásticas que não se imagina por que motivo o compositor, depois de dá-las por terminadas, ainda se aventura a compor mais. Um adia abalançar-me-ei a fazer uma lista destas músicas, mas agora quero focar-me no Tico Tico no Fubá. Não sei se Zequinha de Abreu compôs mais alguma coisa, se o Tico Tico foi a primeira ou a última das suas composições. Aquilo que eu digo é que não precisa de ter composto mais nada para ser elevada à categoria de grande compositor mundial. Mai' nada! Oiçam e gozem, mesmo que não seja a melhor versão. Mas enternece a conchinha do casal Siqueira Lima 

JdB


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Moleskine

O que é para mim o luxo? Imagino-me vencedor de uma qualquer lotaria 100 milhões de euros. Para efeitos deste pequeno texto interessa-me a utilizações egoísta do dinheiro, não o que eu daria solidariamente aos outros que me estão mais próximos  em sangue ou afecto. Como actividade regular, as viagens: viajar mais e em fantásticas condições de conforto: executiva, quartos com vista sobre a cidade, cruzeiros com pouca gente, exotismo que passa por um gin tónico numa savana africana ao por do sol, jantares em locais onde se requer o smoking (que não tenho mas que adquiriria com um rápido movimento do cartão de crédito). Como actividade diária, um luxo caseiro: um mordomo, lareiras acesas em bibliotecas, pequenos-almoços a olhar as chamas e a lombada dos livros, passeio pelos campos (meus, obviamente) com um cão ao meu lado. O carro? O mesmo, que isso pouco me interessa. Os meus luxos são britânicos, diria eu. 

***  

Há muito disto na família: gente divertida ou não, com características peculiares, idiossincrasias, hábitos ou opções de vida que nos fazem sorrir. Gente que emigra e nunca mais dá sinal de vida, gente que constrói e destrói mobílias porque embirra com a cor sugerida, gente que faz ou não faz outras coisas. Há pessoas sobre as quais se constroem vidas romanceadas porque eram secretas, escondidas, protegidas do escrutínio da família ou dos amigos, que se desencadeiam sem que ninguém saiba exactamente porquê. Um dia vem-se a saber da paranóia, da obsessão ou da perturbação da personalidade. Palavras que não existiam em determinados vocabulários, em determinadas famílias, há 60, 70 ou 80 anos.

***

Há dias falei aqui de dois amigos com preocupações pela saúde dos filhos, ainda que em gradações muito diferentes. Há umas semanas soube de um amigo com uma complicação séria na cabeça, a fazer quimioterapia e com um prognóstico obviamente cauteloso. Também há umas semanas soube que o filho de uma amiga de uma amiga estava no IPO, com 12 anos. Se pensar um pouco lembro-me de outras pessoas com vidas suspensas, interrogadas. Eu sei que este parágrafo é um repositório de lugares comuns, mas todos estes casos deveriam ser lanças na ilharga a alertarem-nos para não deixarmos a nossa vida tornar-se numa sequência de conflitos patetas e perdas de tempo. É importante que não deixemos a nossa vida tornar-se numa valente porcaria: a distância que vai de uma vida feliz a uma vida suspensa pode ser um fio de cabelo. Os casos que referi acima são prova disso: nenhum decorre de vidas dissolutas ou de maus hábitos. São apenas caprichos do destino. De facto, citando alguém, deveríamos viver os dias, não como se fossem os últimos nem os primeiros, mas como se fossem os únicos.

***

Eutanásia. A minha opinião é contra e, se tivesse de dizer porquê, citaria os argumentos de grande parte das pessoas que são contra, sobretudo as católicas, como eu. Não vale a pena repetir argumentos já bem conhecidos. Os vários partidos têm posições diferentes: haverá partidos onde todos os deputados votam contra, outros onde todos os deputados votarão a favor; há partidos onde é dada liberdade de voto. Sendo eu votante do CDS, deixaria de votar nesse partido se se pronunciassem a favor do sim - agora ou no seu programa eleitoral. É uma questão de valores fundamentais relativamente à qual não transijo. O que pensarão agora as pessoas que votaram Iniciativa Liberal, sabendo que este partido foi um dos dois (espero não me enganar) que pôs no seu programa a defesa da eutanásia? E o que farão em futuras eleições?    

JdB

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Para que serve a experiência que temos?

No espaço de algumas semanas, dois grandes amigos, ainda que com situações significativamente diferentes, têm tido preocupações com a saúde de filhos.

Converso com um deles, aquele cujo problema é mais antigo (ainda que com poucos meses). Falamos de palavras de conforto, do que os outros nos dizem ou deixam de dizer, daquilo que, sendo semelhante, se torna diferente consoante é dito por X ou por Y. Falamos - e usamos a expressão pobre consolo - das pessoas que, perante alguém que tem um filho numa situação delicada, não forçosamente ao nível do risco de vida, mas de um futuro condicionado, lhe dizem mas ao menos está viva... Falo com o outro amigo. Interesso-me, e ele sabe que me interesso. A conversa acaba com uma franqueza minha: nada tenho para te dizer que te console. E não tenho, de facto.  

Recuo 19 anos e lembro-me das pessoas que queriam confortar-me sem saber como, das pessoas que nunca me disseram nada, das pessoas que diziam o que eu gostava de ouvir (em termos de forma e de conteúdo). Lembro-me de dizer a um grupo voluntários para quem falava que não há nada mais difícil do que abordar uns Pais quando ou pouco depois de serem confrontados com o diagnóstico de cancro de um filho criança ou jovem. Quem são os pais que estão à nossa frente? Querem eles silêncio, uma palavra, um gesto - ou apenas nada?

Assisto a um seminário sobre oncologia pediátrica. Oiço uma psicóloga que lidou com estes temas e de quem sou amigo. Abordava pais na pediatria do IPO que lhe perguntavam: tem filhos? Ela respondia que não e os pais diziam: então não sabe o que estamos a passar. Os anos passaram e ela teve filhos; e mesmo assim, dizia ela, não sabia o que os pais estavam a passar. 

Podemos ter filhos que tiveram problemas de saúde, mas não é por isso que sabemos o que para os outros pais é ter filhos com problemas de saúde... Podemos ser pais em luto, mas não sabemos o que para outro pai é estar em luto. A experiência permite que imaginemos, mas não nos dá garantia de sabermos. Termos noção disso é importante.

JdB

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Da suspensão da incredulidade

Bebo café antes de uma aula sobre retórica e troco ideias com quem me faz companhia. Falamos de pessoas, uma que conheço, outra de quem só ouvi falar. Falamos de viagens, de desconhecido. Aqui há uns meses, esta mesma colega de café pediu-me uma definição de amor. Disse de rompante, com a lentidão apenas de escrever num telefone: confiança. E falámos disso, também.  

Foi Samuel Taylor Coleridge (Inglaterra, 1772 - 1834) quem cunhou a expressão willing suspension of disbelief que se traduziria em português por suspensão voluntária da descrença. É esta expressão que decido roubar para criar um ponto de união entre o romance (enquanto literatura), o amor (sobretudo o conjugal) e a fé. Por mais diferentes que estes aspectos da vida pareçam, requerem todos uma suspensão voluntária da descrença. Eu explico, para os incautos (pois só esses continuarão a ler):

Não se pode ler um romance com uma mente exclusivamente racional; afinal, todos os romances estão repletos de inverosimilhanças, de improbabilidades, de encontros que dificilmente aconteceriam numa vida normal. Contudo, não é por isso que deixamos de ler, de nos comovermos, de nos irritarmos ou, inclusivamente, de atribuirmos a personagens fictícios uma capacidade de emitir juízos morais sobre as coisas. Por outro lado, a fé convida-nos, concomitantemente, a acreditar no que não vemos e, por isso, a suspender voluntariamente a incredulidade. Deixamo-nos "incredulizar" para nos conseguirmos elevar e, com isso sermos melhores pessoas. 

O amor, por último. Acredito que amar é confiar; e como imaginamos amar alguém até ao fim da vida, comece essa vida aos 20 ou os 60? Suspendendo a incredulidade na espécie humana, acreditando que na queda há um amparo, que no erro há um perdão, que na falha há uma voz compassiva. Amar é confiar em alguém que escolhemos, mas de quem não conhecemos tudo para ter a certeza de que é confiável. Iris Murdoch (parece-me, não afianço) afirmou que "há no amor o dom de uma certeza." Essa certeza não assenta no conhecimento racional das virtudes do ser amado, mas no desejo que temos de acreditar nas virtudes dessa pessoa. E isso só acontece quando suspendemos a descrença. Só nessa altura podemos deixar-nos cair para trás, sabendo que há quem nos ampare.

JdB

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Duas Últimas

Para ouvir, mas também para ver.

JdB


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Crónica de uma viagem a Paris

Viajo de Lisboa para Paris com um casal algo idoso ao meu lado. Quando vem a refeição (enfim, uma expressão eufemística para um pastel de nata incomível) a senhora informa a assistente de bordo: fazemos hoje 60 anos de casados... Há um vislumbre de alegria que se abre no rosto da funcionária: já volto, diz ela com um ar misterioso, acrescentando para mim: mas não pode dizer nada a ninguém. Imaginei tudo: palhaços, um bolo com um pau a arder, uma garrafa de champanhe que se abre e que derrama espuma para gáudio dos passageiros. Equivoquei-me: o casal foi brindado com dois copos de vinho branco (um gentil oferta, pois já tinham bebido o sumo a que tinham direito) e dois pacotes de amendoins...

Converso com o aniversariante, que está ao meu lado. Foi militar, tenente-coronel da Força Aérea, saneado após o 25 de Abril. Endireito-me na cadeira, imaginando uma conversa monotemática de ataque ao MFA. Afinal foi saneado por ser demasiadamente esquerdista, parece. E passou com alegria - que terminou em desalento - pelo PRP, onde conheceu o Carlos Antunes e a Isabel do Carmo. A esposa ainda me perguntou, com um ar de quem tem intimidade mas não domina a realidade: a mulher do Major Tomé ainda é viva? 

Amendoins pareceu-me bem. Talvez excessivo, quiçá...

***

Estou numa reunião com colegas e parceiros de projecto. Às tantas, um dos anfitriões pergunta se as pessoas querem uma coca-cola. Voltando-se para mim, indaga: Joao, coke? É um rapaz afável, com quem tenho algum à-vontade. Não me inibo e pergunto alto: Thomas, do you mean a line of coke? e acompanho com o gesto de snifar uma linha. Há gente que ri, que se surpreende. Há quem se choque, porque o sentido de humor lhes é insultuoso ou se assemelha a física quântica. O Thomas manteve o nível e respondeu: after the meeting in my office.

***

Há inúmeras vantagens nestas reuniões internacionais: são gente dos EUA, da Rússia, da China, da Alemanha, de França, das Filipinas, da Nova Zelândia, de Espanha. Há gente que se beija (o Thomas beija-me nas duas faces...) que estende a mão ou, no caso de uma pessoa específica, que nem quer fazer nada, tal o incómodo. Ver latinos a beijarem anglo-saxónicas é curioso. Nalguns casos há um espanto, um incómodo ou mesmo um esgar de quase repulsa. Em alturas de corona vírus, há pessoas para quem serem beijadas se assemelha a uma violação pública num bar demasiado cheio.

***

O projecto que me leva a Paris é uma parceria, para alguns países específicos, entre uma fundação da L'Oreal e a Childhood Cancer International. O projecto tem três vertentes principais: uma página da internet em cada país, a definição de uma escala de emoções para crianças com cancro e a aplicação de um conjunto de massagens estudadas que têm por objectivo (re)construir a ligação entre Pais e criança doente. Contam-me duas histórias: a de uma criança que "proibiu" os pais de lhe darem banho, só os irmãos o podiam fazer. Muito provavelmente associava a presença dos pais a todos os procedimentos médicos que lhe provocavam dor, tendo desenvolvido uma reacção quase pavloviana: quando os meus pais me abraçam é sinal que vem dor...

A outra história é a de um pai (homem) que deixou de tocar no filho bebé quando este foi diagnosticado com cancro. Não havia repulsa, apenas um temor imenso de tocar e, com isso, poder provocar dor. Aprendeu o esquema de massagens que referi acima; a primeira vez que o pôs em prática chorou convulsivamente.

É isto, no fundo.

JdB

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Duas músicas (sugerido por mão amiga)

Com excepção da Sinfonia do Novo Mundo (sobre a qual já escrevi neste estabelecimento) conheço alguma coisa, não muita de Dvorak; não conhecia nenhuma parte da obra de que sugiro aqui o 2º andamento. Foi-me sugerido por mão amiga, acompanhada da frase está ali sempre quase quase a "tropeçar" para uma valsinha mas há uma nuance qualquer que não deixa e do texto abaixo. Oiçam, que vale a pena.

JdB



Just like delivering good news to someone has a positive rub-off effect on the messenger, performing Dvořák's Serenade is really a very therapeutic endeavor for performers. There is so much 'pure goodness' in it. Somehow even the moments which could cast a gloomy shadow – light melancholy of the Waltz, or the fragility of the opening of Larghetto – retain the wonderfully cloudless atmosphere... The remarkable thing about Dvořák's Serenade – this 'cloudless goodness' is fully sufficient for sustaining meaningful communication for nearly half an hour of music.

Misha Rachlevsky, 2000, in Wikipedia

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Duas Últimas (sugerido por mão amiga)





De Alfonsina y el mar diz a Wikipedia de língua castelhana:

La canción es un homenaje a la poeta de la misma nacionalidad Alfonsina Storni, que se suicidó en 1938 en Mar del Plata, saltando al agua desde una escollera, aunque, según la canción, se internó lentamente en el mar. Esta conexión ha originado un rumor muy extendido pero erróneo, según el cual la letra de la canción fue originalmente la carta de suicidio de la poetisa, musicalizada más tarde por los autores de la zamba.

Aunque Ariel Ramírez no conoció directamente a la poetisa, ésta fue alumna de su padre, Zenón Ramírez, quién trasmitió a su hijo el drama de Storni. Impresionado por estos recuerdos y por las poesías de Storni, que le trajo Luna, Ramírez compuso la música y Luna aportó después la letra.

***

Qual a relação com a segunda música? O título da música e o mito que rodeia o suicídio de Alfonsina Storni. 

Apreciem.

JdB

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Duas Últimas (enviado por mão amiga)


Eu seguro

Quando o tempo for remendo, Cada passo um poço fundo E esta cama em que dormimos For muralha em que acordamos, Eu seguro E o meu braço estende a mão que embala o muro.

Quando o espanto for de medo, O esperado for do mundo E não for domado o espinho Da carne que partilhamos, Eu seguro. O sustento é forte quando o intento é puro.

Quando o tempo eu for remindo, Cada poço eu for tapando E esta pedra em que dormimos Já for rocha em que assentamos, Eu seguro. Deixo às pedras esse coração tão duro.

Quando o medo for saindo E do mundo eu for sarando Dessa herança eu faço o manto Em que ambos cicatrizamos E seguro. Não receio o velho agravo que suturo.

Abraços rotos, lassos, Por onde escapam nossos votos. Abraso os ramos secos, Afago, a fogo, os embaraços E seguro, Alastro essa chama a cada canto escuro.

Quando o tempo for recobro, Cada passo abraço forte E o voto que concordámos É o amor em que acordamos, Eu seguro: Finco os dedos e este fruto está maduro.

Quando o espanto for em dobro, o esperado mais que a morte, Quando o espinho já sarámos No corpo que partilhamos, Eu seguro. O que então nascer não será prematuro.

Uníssonos no sono, O mesmo turno e o mesmo dono, Um leito e nenhum trono. Mesmo que brote o desabono Eu seguro, Que o presente é uma semente do futuro.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Da Igreja Católica

O filme Dois Papas, de que já se falou neste estabelecimento, provoca opiniões diferentes, embora haja aspectos importantes - vistos como negativos - que suscitam uma relativa unanimidade. Mais do que falar do filme - já o fiz, numa análise pouco profunda e que foi criticada - interessava-me divagar sobre o que falam as pessoas (ou algumas pessoas) quando criticam a obra cinematográfica; o que, para essas pessoas, está por trás (ou constitui o perigo) de uma ficção sobre papas vivos, ou que imagem da Igreja se quer passar (ou se passa) quando se confrontam dois papas daquela maneira. O assunto estava relativamente arrumado dentro da minha cabeça; no entanto, aconteceu este episódio do livro escrito pelo Cardeal Robert Sarah sobre o celibato dos padres e relativamente ao qual se anunciou uma certa parceria - deliberada ou manipulada - de Bento XVI. Daí este texto.

***

Há uns meses almoçava com um amigo que é muito católico, muito conservador, muito culto e muito inteligente. A propósito de um certa dúvida disse-lhe

hoje vou jantar com um jesuíta e pergunto-lhe.

Ele respondeu numa tirada com graça

não se esqueça de perguntar depois a um padre... 

Poderia contar a visão muito oposta que amigos meus - católicos - têm relativamente a Amoris Laetitia naquilo que se cruza com a comunhão dos recasados; ou a visão muito oposta que amigos meus - católicos - têm sobre algumas ideias do Papa Francisco, desde a possibilidade de ordenação de gente madura na Amazónia até à eliminação de alguns sinais de grandeza da Igreja ou do papa. Ou, no fundo, a ideia que amigos meus - católicos - têm sobre Francisco e Bento XVI. A Igreja Católica, ao seu nível mais básico - que é o comum dos fiéis - está pejada de opiniões diferentes, por vezes muito críticas. Estou certo que a mesma Igreja, ao seu nível mais elevado, é igual - e portanto mais grave, pela sua maior visibilidade e amplitude.

Talvez haja uma certa ideia de banalização da Igreja, da sua redução a uma frivolidade sem importância, própria de um mundo desejoso de relativismo, de ódio a valores absolutos e não negociáveis. Talvez haja uma certa ideia de que toda a gente pode zurzir - e zurze - na Igreja Católica, e que toda a gente pode desdenhar a Igreja Católica, ao contrário de outras igrejas (ou religiões) onde ninguém se atreve a tocar. Haverá ainda a ideia de um ataque orquestrado à Igreja Católica, visível, sobretudo, no que surge nos orgãos de comunicação social, onde só se publica o podre, o negativo, o errado, o ligeiro, mas também noutras áreas, como no caso do filme em apreço.

Sempre tive dúvidas de que houvesse uma agenda de ataque à Igreja: teria de perceber de quem vem, quem a define, quem a controla ou gere, em que moldes se articula. Estou certo que a Igreja suscita irritações em vários graus; porém, a publicação do podre, do negativo, do errado ou do ligeiro é uma característica dos tempos modernos (aplicável a desmandos financeiros em IPSS, a pequenas corrupções de árbitros de província ou a infidelidades do jet set) e não o resultado de um ataque concertado. Publica-se o que vende - e basta, para isso, olhar a capa dos jornais ou das revistas. Numa visão muito radical, talvez não haja muita diferença entre uma primeira página que noticia o padre que roubou peças de arte sacra ou uma primeira página onde se refere (a toda a largura) um menino de dez anos que vê a mãe morrer num acidente.   

Isto não me impede da certeza de que a Igreja Católica tem inimigos; estou convicto, contudo, que os maiores inimigos da Igreja Católica estão dentro da Igreja Católica: é o triste e evitável caso do livro a duas mãos ou a quatro mãos; é o triste caso dos dinheiros do Vaticano, da corrupção, da fuga de informações, ou o vergonhoso e escandaloso caso da pedofilia; é esta certeza que todos temos de que há uma luta interna grande ao nível do topo da Igreja, com estratégias organizadas. É, numa dimensão diferente, a falta de empenho dos católicos na vida da sua paróquia ou da sua diocese, o excesso de criticismo, a incongruência entre o que defendemos e praticamos. É para estes inimigos, sobretudo mas não exclusivamente, que temos de apontar baterias.

Para mim, proteger a igreja é lutar ou rezar pela sua pureza interna; é identificar o adversário certo - não os fernandos meirelles tendenciosos ou os jornalistas à procura do escândalo, mas os inimigos internos. Proteger a igreja é militar, é estar presente, é defendê-la publicamente ou criticá-la recatadamente, é publicitar o bem que faz, colectiva ou individualmente, defender publicamente todos os papas. Proteger a igreja é discernir a diferença saudável, mas levar ao limite a ideia de obediência (o livro do Cardeal Sarah é paradigmático desta ausência de obediência filial). Proteger a igreja é identificar o que mina a sua credibilidade, o que afasta os fiéis das cerimónias, como se combate o excesso de laicismo, como se dá peso aos sacramentos.  

Os tempos não são fáceis; são tempos de muita visibilidade, de permanente escrutínio, de imediatismo e leveza excessiva. É preciso que cada um de nós, católicos, perceba como quer / pode defender a Igreja onde se revê. Talvez ajude se a Igreja (onde estou e quero estar) não cometer tantos erros. Já não vivemos, para o melhor e para o pior, o tempo da sede gestatória, do camauro orlado de arminho ou de outros sinais que evidenciavam a magnificência do cargo. Vivemos, também para o melhor e para o pior, um tempo de grande proximidade temporal: o que se faz agora sabe-se agora - ou inventa-se agora. Convém que estejamos mais atentos.      

JdB

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Do filme Dois Papas: o meu olhar

Janto com amigos. Das dez pessoas à volta da sala, nove são aquilo a que se chamaria vulgarmente (e algo disparatadamente) católicos praticantes. São pessoas de missa semanal, com militância passada ou presente em movimentos da igreja, com desejos de pertença completa. São católicos discernidos, com um olhar genericamente discernido (embora por vezes pessoal) sobre a Igreja Católica e sobre o que gira à volta dela. 

Fala-se no filme Dois Papas, que passa no Netflix. De entre o grupo há quem tenha visto e há quem não tenha visto. Há quem tenha gostado e há quem não tenha gostado, ou não tenha gostado de um aspecto mais específico. De entre as críticas negativas talvez realçasse o seguinte:

- o excesso de ligeireza do filme;
- a clara preferência do realizador pelo Papa Francisco, muito à custa de Bento XVI; 
- o engano assente na frase "baseado em factos reais";
- a ilegitimidade de se fazer um filme sobre duas pessoas vivas, sem que lhes tenha sido pedida autorização;
- "a importância do Papa que não se compadece com exercícios de ficção cinematográfica".

Sou dos que viram e gostaram do filme, pese embora subscrever claramente as três primeiras críticas referidas acima: há ligeireza na abordagem à vida de Bento XVI, aos temas tratados; a sustentação de que são factos reais é um exercício impossível, apesar de qualquer um dos papas ter proferido alguns daqueles pensamentos numa dada altura. Porem, apesar disso gostei do filme: não achei insultuoso, não achei que denigra claramente a imagem de Bento XVI; vi-o como uma obra de ficção (muito bem filmada), não como um documentário; fixei uns pormenores, não dei importância a outros.

Numa leitura pelas críticas ao filme feitas por gente da Igreja, ou ligada à Igreja, encontra-se de tudo: gente que gostou e gente que não gostou, o que parece dar a entender que, mesmo nos meios católicos equilibrados, não há unanimidade, a não ser na representação desigual de ambos os Papas. Muitas críticas referem a inverosimilhança de algumas cenas, o que é verdade. Talvez o problema não esteja então só no filme, mas no facto de se ter vendido a ideia de que ele se baseava em factos reais. Se virmos o filme como uma espécie de documentário, ele está pejado de disparates. Mas se o virmos como uma obra de ficção talvez ali vejamos coisas interessantes, como a humanidade de ambos, visível na forma como se entusiasmam com o futebol, na imperfeição da obra tocada ao piano, ou no modo como se relacionam com Deus. Não sei, em bom rigor, se Bento XVI e Francisco se confessaram um ao outro nem isso me interessa muito, reconheço. Prefiro demorar-me nas dúvidas interiores que revelam, um em relação ao problema da pedofilia na igreja, outro na sua interacção com a ditadura de Videla. Interessou-me a dimensão da fragilidade humana, mais do que a evidência de uma atitude correcta. Não vi o filme como um panfleto, mas como uma janela que se abre sobre dois homens de carne e osso; vi o filme, talvez, como uma metáfora sobre a condição humana.

***

Num âmbito ainda relacionado com o filme, amigo que prezo afirmou e escreveu-me: "(...) nem consente esta tendência tão tolerada de a Igreja Católica ser tema de domínio público, sobre que todos opinam e botam sentença."

Tenho a dizer que, acima de tudo me espanta o desejo interminável de pessoas que, nada tendo a ver com a Igreja, estarem sempre de olhar atento e crítico sobre a Igreja; indigna-me que na primeira página dos jornais venha o mal que a igreja faz, mas não o bem que pratica; exaspera-me este escrutínio permanente, desequilibrado e persecutório. O que me separa, talvez, da frase deste meu amigo é que a Igreja não tolera tendência nenhuma, porque não está nas mãos da Igreja agir contra esta tendência. 

A Igreja vive num tempo moderno, de twitter e instagram, de whatsapp e notícias ao minuto. Este é, também, o tempo da Igreja - tempo esse a que não pode fugir. O que lhe resta, para além de tudo o que já faz de forma fantástica? Trabalhar o melhor possível, corrigir as más práticas internas, emendar a mão onde deve emendar. A nós, católicos - e, portanto, igreja - espera-se a militância e a defesa. Na minha opinião, fazer um filme - este filme - sobre o Papa (ou sobre dois papas) não fere a dignidade da Igreja nem dos personagens, porque não há insulto e porque o papel de ambos na História do Mundo está muito acima de um filme. A dignidade da Igreja, para além da sua dignidade inerente enquanto Estado, está na pureza com que segue e põe em prática os ensinamentos de Cristo: a atenção aos pobres e necessitados, a luta incansável pela justiça social, o castigo inequívoco de práticas indignas.

Vivemos um tempo de exposição mediática, quer queiramos quer não. Se fizermos o que devemos fazer, e o fizermos bem, não há filme que nos destrua nem diminua - mesmo que diga alguns disparates.

JdB      
    

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Duas Últimas *



Escada Sem Corrimão

É uma escada em caracol
E que não tem corrimão
Vai a caminho do Sol
Mas nunca passa do chão

Os degraus quanto mais altos
Mais estragados estão
Nem sustos nem sobressaltos
Servem sequer de lição

Quem tem medo não a sobe
Quem tem sonhos também não
Há quem chegue a deitar fora
O lastro do coração

Sobe-se numa corrida
Corre-se perigos em vão
Adivinhaste... é a vida
A escada sem corrimão

David Mourão Ferreira

---

* sugestão enviada por mão amiga


quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Do espectro das nossas preferências

Último Poema: Paisagem

Quando, ao longe, a vida que habitam os homens,
em direção ao tempo do resplendor das vinhas
se esvai,
despidos pelo verão se encontram os campos,
e em sombria imagem surge a floresta.
Que a natureza acrescente a imagem dos tempos,
e permaneça. E os tempos, velozes, deslizem;
da perfeição vem isso: que brilhem
para o homem as alturas do céu,
enquanto a árvore se vai coroando de flores.

Friedrich Holderlin

***

Auto-retrato

Poeta é certo mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
marciso de lombardas e repolhos.

Cozido à portuguesa mais as carnes
suculentas da auto-importância
com toicinho e talento ambas partes
do meu caldo entornado na infância.

Nos olhos uma folha de hortelã
que é verde como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.

Poeta de combate disparate
palavrão de machão no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.

Ary dos Santos, in 'Fotosgrafias'

***

O que dizem as nossas opções estéticas relativamente à poesia? Ou relativamente à música? Ou à gastronomia? Se me perguntarem: de que tipo de música gostas?, posso responder, sem correr o risco de perda de credibilidade, que gosto de Schubert e de Quim Barreiros? Ou de Wagner e Ana Malhoa? E se falarmos de poesia posso alternar entre Friedrich Holderlin e Ary dos Santos? Ou entre Guerra Junqueiro e o poeta chofer?

Amália Rodrigues, diz-se, não prescindia de um tupperware com carapaus de escabeche (ou jaquinzinhos, não sei) quando gravava; mas talvez apreciasse uns escargots quando ia a França, ou uma colher de caviar quando ia à Rússia. Ary dos Santos é o caviar ou é o escabeche? E o Quim Barreiros, é um carrascão ou um Veuve Cliquot?

O olhar que temos sobre a gastronomia é igual ao olhar que temos sobre a poesia? Isto é, há quem se gabe de ter boa boca - é gente que gosta de tudo. Quando nos confrontamos com alguém assim, olhamo-lo com respeito, porque essa característica nos parece uma virtude. É bom gostarmos de tudo. E o que diremos de quem goste de Holderlin e de Ary dos Santos? Como olhamos para as pessoas que têm boa boca ao nível da poesia?

E que interesse tem isto?

JdB    

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Duas Últimas

Ouvi muito Patxi Andion numa fase da minha vida, talvez porque houvesse um disco qualquer lá por casa. Aqui fica uma lembrança pela morte dele, ontem.

JdB



terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Da nossa família que desconhecemos

No início do século passado, um irmão da minha avó paterna partiu como chargé d'affaires, o que tem uma conotação diferente de encarregado de negócios, para a Holanda. Aí terá casado com uma holandesa e, aos 50 anos, teve uma filha. Morreu quando a filha (única) tinha 10 anos. À semelhança de muita gente daquele ramo da minha família (talvez meia dúzia, o que, com estes hábitos, configura bem a dimensão muita gente) nunca voltou a Portugal - ou se voltou não deixou marcas perenes da sua permanência. Talvez nem mesmo vestígios.

Através de uma aplicação que envolve identificação do ADN e comparação com ADN's semelhantes, um primo meu descobriu o que parecem ser familiares nossos, descendentes desse tio José do Carmo. Através do obituário soube-se que a filha única desse nosso tio-avô morrera em 2007 numa terra chamada Urbanna, onde era co-proprietária da Taylor Hardware & Furniture Co. O obituário tem um início invulgar para as páginas dos jornais portugueses que participavam, noutros tempos, falecimentos e missas de 7º dia. Diz o obituário (e traduzo livremente) que Therese D. Taylor, de 78 anos e viúva de Robert P. Taylor, partiu para casa para se encontrar com o seu Senhor e Salvador Jesus Cristo a 8 de Dezembro de 2007. Terá morrido na sua própria casa, após breve doença.

Há duas cidades Urbanna, nos EUA. Cruzando com o nome da empresa funerária (de Saluda, também nos EUA) que tratou das exéquias depreendo (sem grande margem para certezas) que esta Urbanna é na Virgínia; é uma cidade onde, segundo o censo de 2000, moravam menos de 600 pessoas, e que, entre outros factos assinaláveis, tem um festival de ostras que começou em 1958. 

Assumamos que falamos da mesma família: eu e os filhos da falecida somos filhos de primos direitos, o que é um parentesco próximo. Do lado específico da família que nos é comum conheço quase toda a gente; do lado específico da família que nos é comum eles não conhecerão ninguém. Num instante - num mail, num telefonema, numa imagem partilhada, no acesso a um programa específico - estes meus primos de Urbanna, VA, passarão a conhecer uma genealogia que vai até onde se poderá ir: nobres e plebeus, reis e aventureiros, santos e conspiradores, profissionais competentes ou amantes da boa-vida, gente notável e gente vulgar. O que dirão eles, habitantes de uma terra que tem menos de 600 habitantes e um festival de ostras com 60 anos? O que diria eu, se fosso ao contrário? Que mundo se abre dentro de nós? Abre-se algum, ou é apenas como ver uma rã com três olhos?

JdB   

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Ainda das relíquias

Leio, de forma entrecortada, Imagens Imaginadas, de Pedro Mexia (Tinta da China, 2019). Num dos primeiros textos, intitulado, O negativo, o autor fala do Santo Sudário, do que o rodeia do ponto de vista religioso e "científico". E diz a dada altura: "[a] datação através do carbono 14 torna improvável que o sudário tenha dois mil anos. Ainda bem que é assim, porque o catolicismo viveu demasiado tempo ligado a relíquias, fetichismos." E, já quase no fim do texto: "[é] provável que o Sudário de Turim não seja a mortalha de Jesus. É mesmo desejável que o não seja."

Nada me move à polémica com Pedro Mexia (meu actual colega num seminário de doutoramento e pessoa por quem tenho estima e consideração e com quem converso uns minutos, dada a nossa pontualidade...) até porque uma eventual polémica com ele me deixaria em lugar periclitante. Além do mais, o texto não se reduz às citações que aqui faço. Não obstante a prudência que deve ter o sapateiro em não tocar rabecão, não consigo deixar de discordar de Pedro Mexia. Sim, gostava que o Santo Sudário tivesse sido a mortalha de Jesus Cristo. Porquê? O argumento está num texto que publiquei aqui, neste estabelecimento, em Abril do ano passado. E de que reproduzo parte, com a vossa licença e compaixão.

JdB

---

(...) 

"Vem este arrazoado cansado e invernoso a propósito do Santo Sudário. Falou-se nesse tema há umas semanas, num almoço de amigos, a propósito de uma conferência. Voltei a ler sobre isso este sábado, no Observador. Vivia com a impressão que já se tinha provado que aquele pano não era do tempo de Cristo; fiquei depois com a impressão que sim, que é. Confesso que não sei bem o que pensar - e não sei se quero pensar muito. Uma parte do sudário é uma relíquia -  um osso, um prego que cravou Jesus Cristo, a coroa de espinhos que o Raposão traria à Titi, uma madeirinha (ou tabuinha?) aplainada por S. José. Uma parte do sudário é, repito, um objecto de devoção que não percebo bem, embora seja evidente a diferença relativamente ao eventual polegar de Santa Escolástica. A importância está em Jesus Cristo, não no que ele usou, mesmo que fosse naquilo que nos redime - a Cruz, a sepultura, a ressurreição.

Ora, há uma diferença no Santo Sudário. Um dedo é um dedo, um osso é um osso, um cabelo é um cabelo e, nesse sentido (e nesse sentido apenas) um cravo seria um cravo, uma madeirinha uma madeirinha. Porém no Santo Sudário há uma diferença substantiva: a manifestação de uma ciência que só poderia ser divina. Jesus Cristo, presumo eu, não foi pintado antes de ser sepultado. Ora, nesse sentido, não há razão, à luz da ciência, para que o corpo de Cristo ficasse marcado (talvez pintado seja demasiado profano...) naquele tecido que o envolveu. Houve uma explosão qualquer - uma libertação de energia, um milagre, algo não explicável à luz do conhecimento actual. É fácil cortar-se  uma falangeta, arrancar uma mecha de cabelo, rapar um bocadinho do madeiro onde Cristo agonizou. Mas ninguém sabia fazer aquilo com o Santo Sudário. É por isso, e só por isso, que eu gostaria que o Santo Sudário fosse verdadeiro. Era o sinal do celeste, do espantoso - de tudo o que está acima da nossa compreensão e que nos remete a uma pequenez saudável." 

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Do que desaparece com quem desaparece

Chegado aos quase 62 anos é normal que no meu curriculum conste uma certa dose de lutos. Para este exercício em voz alta retirarei aquele luto, brutalmente antes do tempo, que revisito de forma mais visível aqui, neste estabelecimento, no dia 6 de Julho e no dia 4 de Novembro. Poderia, sobre todos eles (sogros, cunhada, irmão, pessoa que ajudou a tratar de mim quando eu tinha 1 ano e morreu lá em casa passados 30 anos, mãe e pai, outros) tecer considerandos de ordem afectiva: as saudades que deixam, o amor que me devotaram ou que lhes devotei, a ideia do nunca mais os vejo, etc. Mas não é disso que quer falar.

O que morre em nós quando os outros nos morrem? O amor que perdemos é, de certa forma, um menor múltiplo comum que torna todos os nossos mortos iguais. Amamos um pai ou um irmão, temos afecto por uma cunhada ou por um sogro, liga-nos uma amizade especial a quem nos viu crescer e nos mimou uma vida inteira. Mas o que desaparece com aqueles que desaparecem e que não é traduzível por amor de mãe, que pode não ser mais do que uma expressão bonita?

Há uns anos morreu-me uma tia, não só por ser mulher de um primo com idade para ser meu pai, mas por ser grande amiga da minha mãe desde sempre. Na morte dela não morreu o afecto que ela me tinha. Na morte dela morreram 40 anos da minha existência - e sobre isso perorei neste estabelecimento. Morreu uma parte substantiva da minha adolescência e, com isso, memórias de cheiros, de conversas, de sons, de ambientes que me eram próximos e muito aprazíveis. Não morreu uma parente - morreu uma época. 

A minha mãe morreu há pouco mais de três anos, aos 80 e muitos anos; o que morreu com ela? Talvez a certeza da incondicionalidade - a última certeza que eu tinha da incondicionalidade. O meu pai morreu há pouco mais de 15 dias, aos 94 anos. O que morreu com ele? Talvez (entre outros) a memória. No desaparecimento deles não me ocorre a angústia do nunca mais os vejo, embora isso seja verdade. Mas, tal como o meu pai dizia com graça, nenhum dos dois tinha já idade para morrer de repente, pelo que foi uma partida de certa forma anunciada. Com o meu pai desaparece um repertório de informações (talvez "notícias", e já lá vou ao conceito) que não recolherei de mais ninguém. Há ainda gente antiga na família, com 90 anos. Mas, se acreditar que uma notícia é uma informação trabalhada, essa gente dá-me informações, o meu pai dava-me notícias. Porquê? Porque tudo era filtrado pela inteligência dele, pelos defeitos e qualidades dele, pela visão que ele tinha sobre o mundo - certa ou errada - pelo sentido de humor. Era uma memória não mecânica que reproduzia um dado passado há 60 anos, e que reproduzia uma sensação passada há 60 anos. 

Foi-se a ideia de incondicionalidade, foi-se a ideia de memória não mecânica. A vida é o que é.

JdB         


Acerca de mim

Arquivo do blogue