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29 setembro 2026

Textos dos dias que correm *

O meu nome é Andreia, e tenho 35 anos.

Para que precisamos dos olhos, se o essencial se vê com o coração?

Porque não assumimos o tacto como a extensão privilegiada da mente para identificar as coisas materiais e os contornos humanos?

Porque não escutamos com atenção, decifrando os ruídos que identificam os pássaros, as emoções audíveis, os movimentos da terra e das pessoas?

Porque não usamos o olfacto como o usam os animais que tudo identificam pelo cheiro, como se mais nada fizesse falta para deambularem pelo mundo na sua felicidade sem fingimento nem dissimulação?

O mundo é feito de excessos: dinheiro, comida, prazeres carnais, obras de arte, amigos, livros, publicidade, telenovelas, enganos da realidade, carros em circulação, níveis de radioactividade, fotografias digitais. Dentro de nós são os sentidos e os seus descomedimentos. Nada parece chegar para esta voragem colectora de bens e sentimentos.

Como conseguimos abarcar tudo isto num cérebro que definha sem retorno, numa memória que se esgota como bem precioso, numa alma cuja existência suscita dúvidas? Como arrumamos os cheiros, as texturas e as formas, os sons da natureza e dos gatos, dos motores potentes e das conversas? Como guardamos o contorno de umas costas ou de uma mão calejada se não for de olhos fechados? O que fazemos com esta panóplia de sensações que nos invade e ocupa os espaços livres de uma máquina envelhecida? Porque não conseguimos fechar uma assoalhada do cérebro, viver num espaço diminuto, alcançar tudo com uma mão aberta?

Cresci sem medo. Talvez um destemor, uma indiferença aos perigos que espreitam em cada esquina, em cada pessoa, em cada circunstância. Talvez uma ousadia no desafio à vida. ‘Uma imprudência’, dizem-me. Talvez.  

Toco, cheiro, oiço. Desenho imagens, adivinho sinuosidades do outro, encosto os barulhos a quem os produz, ligo os risos a uma boca bem desenhada, a uns dentes brancos com uma assimetria elegante. Passo os dedos por um corpo esculpido de humores e cheiros. Sinto-lhe o peito, as coxas musculadas, adivinho-lhe tudo.

Não tenho medo de nada. Não receio voar, nadar na imensidão do oceano, correr na direcção do precipício, parar um instante antes da queda.  

O meu nome é Andreia, e tenho 35 anos. Cega de nascença, a técnica devolve-me hoje, quando o sol se puser no fio do horizonte, a visão que nunca tive. Nada receio, nem sequer o meu destemor. Só tenho medo da desilusão. Ou do excesso.

JdB 

* publicado originalmente a 11 de Dezembro de 2013

22 setembro 2026

Moleskine texano

San Antonio, Texas (Setembro de 2026)

Tal como referi a semana passada neste estabelecimento, estive a semana passada no Texas, mais precisamente em San Antonio, para a conferência anual da oncologia pediátrica. Alguns episódios soltos:

Copos. Sou convidado para o que se chama Presidential dinner, oferecido pelo presidente do SIOP (sociedade internacional de oncologia pediátrica, na quase totalidade profissionais de saúde). O jantar, de cerca de 70 - 80 pessoas é, normalmente (já fui a quase 10) em sítios com alguma categoria. No ano passado, por exemplo, foi no Rijksmuseum, em Amsterdão. Não é todos os dias que se trinca um naco de carne olhando de frente para a Ronda da Noite. Este ano foi na Coates Chapel, um recinto vocacionado para eventos. A nota desconfortável? O calor. A nota detestável? Vinho tinto servido em copos de plástico.

Rapidez de serviço. Refiro-me ao mesmo jantar. Meses de 10 pessoas onde há, forçosamente, ritmos diferentes. 8 pessoas acabaram o prato principal, duas ainda não. Os empregados não se importam - retiram os pratos de quem acabou e servem a sobremesa. A nota desconfortável e detestável? A sobremesa era arroz doce - mau - e o talher colocado era apenas um garfo. 

Quantidades. Tudo nos EUA é grande: o frio nos aviões e nos aeroportos, o copo de água nos jantares (atulhado de gelo) as refeições que nos deram generosamente - em caixas de plástico - as pessoas nas ruas. Apanhei um Uber para ir a um centro comercial fazer uma compra. Era um carro enorme - para o qual tive dificuldade em subir - com uma caixa aberta descomunal, onde caberia um boi.

Centro comercial. Terminada a compra, dirijo-me à saída do centro comercial para apanhar um Uber. Faço uma pergunta a duas pessoas que aparentavam ser funcionários; não eram, e percebo que têm uns auriculares como se vê nos filmes nas orelhas dos agentes dos serviços secretos. 5 minutos mais tarde assomam à porta de saída dois personagens: um, na casa dos 50, de fato cinzento; o outro, de botins e calças de ganga, ligeiramente mais novo. Num instante são rodeados por 7 ou 8 guarda-costas que os encaminham para dois carros enormes e pretos, de vidros fumados. Seria empresários, políticos ou barões da droga?

San Antonio, Texas (Setembro de 2026)

Civilização. Não tenho problemas 'morais' com a potencial injustiça da generalização, talvez tenha com o potencial erro intelectual que decorre desta generalização: nada nos EUA parece ter classe, ou vislumbre de requinte. As pessoas almoçam ou jantam de chapéu de pala na cabeça, falam alto, bebem vinho em copos de cartão ou de plástico, colocam o pão num jantar a meio do prato principal, servem os pratos pela direita ou pela esquerda de forma indiscriminada. 

Espanto. Diz-me uma amiga local que houve, num determinado momento, uma grande emigração de alemães para San Antonio. O próprio marido é descendente de 2ª ou 3ª geração de um desses emigrantes. Não fazia ideia: para mim, Texas só tinha influência mexicana. 

Música a desoras. Gala dinner do CCI: é convidado um grupo de mariachi, tipicamente mexicano. Sentamo-nos a jantar e o grupo começa a tocar. As pessoas querem conversar e o grupo continua a tocar. Ninguém ouve a música, ninguém ouve o seu parceiro do lado, ninguém bate palmas. Quem é que terá tido a peregrina ideia de convidar um grupo mexicano - cuja música é muito audível - a performar enquanto as pessoas estão a jantar e a conversar. Americanices: não lhes ocorre dedicar à música a importância que ela - e os músicos - merece.

Conferência. Voltarei ao tema - para lamentar uma ou outro aspecto e, sobretudo, para dizer bem.

JdB       


16 setembro 2026

Dos congressos de oncologia pediátrica

 

Comecei nestes congressos em 2009, talvez, em S. Paulo, Brasil. De lá para cá falhei alguns, assisti a muitos, fossem globais fossem regionais. Ao longo destes 17 anos fiz amigos, conheci dezenas e dezenas de pessoas, chorei, ri-me, comovi-me com histórias. 

Talvez já tenha partilhado esta ideia aqui. Quando me perguntaram o que tirava eu de 17 anos de oncologia pediátrica a nível global, a minha resposta foi rápida: (i) a fantástica comunidade que se formou entre Pais e profissionais de saúde. Uma comunidade solidária, que reconhece a importância de ser médico e de ser Pai para a sobrevivência das crianças e jovens com cancro; (ii) uma metáfora: em Washington, num dos congressos, uma egípcia a dançar com um israelita. Era uma altura em que a política não tinha a relevância que tem agora, e a dança de dois 'países' tradicionalmente inimigos - ou com relações sempre tensas - é uma metáfora: nada é tão relevante como a doença dos nossos filhos; (iii) os Pais querem contar a história dos seus filhos e nem sempre encontraram uma escuta activa. Aqui sim, porque falamos todos a mesma linguagem, os nossos ouvidos e corações estão abertos para esta realidade.  

Este talvez seja o meu último congresso. Já não sendo presidente da Acreditar, faz sentido dar o lugar ao meu sucessor. Foi com muito gosto, por isso, que acompanhei o Álvaro Bessa, Pai e novo presidente da associação que se estreia nestas andanças. Por razões políticas, o número de participantes neste congresso - sejam de organizações de Pais, sejam de profissionais de saúde - é muito menor do que os costume: da Europa muita gente não vem por questões políticas; de África vem pouca gente, porque a maior parte dos países faz parte da lista negra para concessão de vistos. Mesmo assim será uma boa experiência para o Álvaro: conhece pessoas, fica a par da dinâmica do CCI e da conferência, derrama um olhar mais vasto e global sobre o mundo da oncologia pediátrica. Acompanhar o Álvaro Bessa é, também, olhar em frente, perceber a continuidade

Só quem me conhece e me vai ouvindo percebe o que deixo para trás: os conhecimentos técnicos, a dimensão social e humana, as apresentações e as histórias que me comoveram, as coincidências significativas, as amizades, a rede construída, as histórias fantásticas de gente que faz tanto com quase nada, a minha vida partilhada com pessoas que mal conhecia. E também uma grega, outsider desta comunidade, que me dedicou e autografou um livro de poemas bilingue, do qual retiro duas linhas sobre esperança:   

E quando desperta / representa uma ameaça iminente para a realidade.

JdB


08 setembro 2026

Do espanto e do maravilhamento

Palácio Anjos (exposição de pintura de Graça Morais, Agosto de 2026) 

De um post destes dias no LinkedIn sobre o Relatório de Espanto: 

(...) Esta prática convida estudantes e investigadores a documentarem o momento exacto em que uma descoberta, uma leitura ou um dado científico os deixou genuinamente maravilhados. É o registo do “clique”, daquele instante em que a complexidade do mundo nos esmaga e nos fascina ao mesmo tempo. (...)

É verdade que o texto refere especificamente estudantes e investigadores; e não quero cair no lugar-comum, relativamente ao primeiro grupo, de que somos todos estudantes até ao final da vida, caso tenhamos vontade, disponibilidade e capacidade para aprender. Pode o pensamento replicar-se para o dia-a-dia de pessoas a chegar aos 70 anos, ou já para lá deles?

Janto com amigos: ela, professora universitária na Faculdade de Ciências; ele, engenheiro, com um percurso de gestor de sucesso, actualmente com um mindset religioso forte. Há outra pessoa ainda, muito pragmática e racional, dada a leituras “técnicas” (a ficção é praticamente inexistente na sua estante de interesses). O que nos espanta? Simplifico posições e argumentos em benefício da dimensão do texto.

Para a professora universitária, o espanto está na leitura de umas placas que pôs a incubar a diferentes temperaturas. O resultado desejado, talvez não esperado, espanta-a; e espanta-se ainda com a regularidade diária do nascer e do pôr do sol. Para o gestor, o espanto está na contemplação da maravilha da criação de Deus. Para a pragmática, o espanto está no facto de, num renque de três casas com piscina, as andorinhas virem em bando fazer voos rasantes na sua. Porque não na dos outros? Para outro amigo — não presente na discussão —, o espanto advém (também ou principalmente) do que vai lendo na voragem de livros que consome.

Não sei se os tempos actuais são férteis para o espanto (positivo ou negativo, já lá vou): a escola ensina-nos a afirmar e a dar respostas certas, não a fazer perguntas interessantes; o discurso público está contaminado de desejos de afirmação de certeza; o comentariado é assertivo, feito por especialistas que não têm dúvidas ou raramente se enganam; o ponto de exclamação está mais na moda do que o ponto de interrogação.

Acontece que o espanto advém de uma certa ideia de desconhecido. Eu não me espanto com o grau de crueza de um ovo imerso cinco minutos em água a ferver. Também não me espanto com o conforto que suscita uma imperial gelada ao estalar de um dia de Verão. Conheço ambas as realidades. Já o espanto com o voo das andorinhas nasce do desconhecimento de todos os comportamentos das andorinhas. Ora, num mundo feito de grande assertividade, de horror à frase “não sei” dita em voz alta, de desejo de exibição de uma certa aura de “pessoa que sabe”, há ainda lugar para o espanto? Seja a olhar para uma placa onde nadam micróbios, seja a olhar para uma frase que, num livro folheado, nos enche de surpresa?

Numa outra dimensão, qual a diferença entre espanto e maravilha? A criação de Deus espanta-nos ou maravilha-nos? A suave rotina das marés, ou a constância do nascer e do pôr do sol, espanta-nos ou maravilha-nos? O espanto é filho do desconhecimento; a maravilha é filha, talvez, da disponibilidade interior para uma certa emoção. O espanto pode ser negativo — o comportamento odioso de certa pessoa espantou-nos, porque não a víamos capaz disso —, mas o maravilhamento é sempre positivo.

E haverá mesmo espanto negativo? Ou a isso chamaríamos desilusão? Talvez não. Talvez o espanto seja sempre uma espécie de suspensão: o momento em que aquilo que julgávamos saber deixa de ser suficiente. E talvez a diferença esteja no que fazemos depois desse instante: podemos afastar-nos, indignar-nos, procurar compreender ou simplesmente ficar a olhar. A maravilha talvez seja o espanto quando escolhemos ficar a olhar.      

JdB   

02 setembro 2026

Moleskine

 

Paço Ducal de Vila Viçosa, Agosto de 2026

Na telefonia, uma jornalista informa os ouvintes de que o mercúrio vai subir nos termómetros. Refere-se, obviamente, ao aumento de temperatura previsto para os próximos dias. Acontece que a venda ao público de termómetros de mercúrio está proibida na União Europeia há mais de 10 anos, dada a sua perigosidade caso se partissem. Do ponto de vista factual, a informação está errada. Estou convencido, porém, que a associação mercúrio - termómetro demorará a desaparecer. Resta saber se a jornalista foi levada pela criatividade noticiosa ou vencida pela ignorância. Sei para onde me inclino. 

***

Dirijo-me à loja do chinês para comprar sabão azul. Pergunto à funcionária (chinesa, obviamente) onde está o artigo. Ela pensa dez segundos e responde: primeira linha, em baixo. Dirijo-me ao primeiro corredor e olho para baixo. Nada de sabão azul. Insisto, e nada. A funcionária acaba por me mostrar umas escadas que conduzem à cave. No primeiro corredor lá estava, sorridente, uma barra de sabão azul. Fui derrotado pela sequência das informações: primeira linha, em baixo só aparentemente é igual a em baixo, primeira linha. A ordem dos factores não é arbitrária, como na soma ou na multiplicação. O primeiro hemistíquio da frase determina a coordenada principal; o segundo hemistíquio determina a coordenada secundária. 

Podia ter discutido esta questão com a funcionária, mas o meu mandarim (ou seria cantonês?) está enferrujado. 

***

No Livro dos Reis (1Reis 3:5-13) Deus aparece a Salomão em sonhos e diz-lhe: Pede! Que posso eu dar-te? A versão que ouvi um dia destes na missa diz que Salomão pede um coração inteligente. A expressão suscita dúvidas em quem ouve a leitura, porque inteligente parece ser um conceito moderno. Uma breve investigação explica que a palavra ‘inteligência’ vem do latim intelligentia, derivada do verbo intelligere (composto por inter + legere, que significa 'escolher', 'discernir' ou 'ler entre'). O termo foi introduzido no vocabulário filosófico ocidental por Cícero, no século I a.C. Não é por aí, portanto. 

Para mim, porém, inteligência não é uma qualidade, mas uma característica. Nasce-se inteligente (qualquer que seja a forma de inteligência) mas a qualidade deriva da aplicação dessa inteligência. Um aldrabão pode ser superiormente inteligente, um ditador sanguinário também. Como é que Salomão pede um coração inteligente? 

A versão inglesa da Bíblia usa a expressão discerning heart. A minha versão da Bíblia refere um coração cheio de entendimento. Ambas as opções são claramente melhores do que coração inteligente. Aguardo que partilhem comigo a expressão usada por Frederico Lourenço na sua tradução da Bíblia. 

JdB 

17 agosto 2026

Para quem faz hoje 70 anos

Conheci o fq em casa de amigos comuns, não me lembro exactamente em que ano - talvez ainda antes da revolução. Reencontrei-o, faz em setembro 50 anos, em casa também de amigos comuns. A partir daí mantivemos uma amizade praticamente non-stop. Viajámos juntos a Nova Iorque - também com o JdC - ou a Santiago de Compostela, fomos a festas e casamentos, tornámo-nos sócios do Clube Tauromáquico ao mesmo tempo, almoçámos amiúde um com o outro, fomos acompanhando os projectos e vidas profissionais, o crescimento de filhos e netos, trocámos confidências diversas, partilhámos momentos bons e maus.

Durante alguns anos - 2? - jogámos às cartas todas as 6ªs feiras: maratonas de King que começavam pelas 7 da tarde e se estendiam até às 4 ou 5 da manhã, altura em que parávamos para eu apanhar o comboio das 5.30h para Cascais ou, no caso dele, o barco para a outra banda. Éramos 4 amigos, com algum parentesco. O dinheiro que se ganhava ou perdia ia para um caixa, não para o bolso de cada um. Ao fim daqueles meses de jogo fomos os quatro, com vinte e muitos poucos anos, jantar ao Tavares, um dos melhores e mais requintados restaurantes de Lisboa do final dos anos 70 / início dos 80. Custou-nos, a cada um, 750 escudos, pagos pelo produto do jogo. 

Já aqui escrevi, penso eu, que a forma como jogávamos às cartas era um reflexo do que viria a ser a nossa vida pessoal ou profissional do futuro. Eu fui aquele que perdi menos, porque sempre fui o que arriscava menos, sempre à procura de chão seguro, não porque jogava melhor. O fq era, para mim, o jogador mais completo: o risco e a certeza em proporções equilibradas, uma marca de água do que foi a sua carreira com grande sucesso. Conversámos muito sobre os outros jogadores e a relação entre a forma como jogavam e como desenvolveram a sua vida pessoal ou profissional, e tínhamos muitos pontos de concordância. 

O fq completa hoje 70 anos, e só me ocorre a frase que já é um cliché: parabéns, muitos dias destes e que eu cá esteja para ver. 

Agradeço-lhe uma amizade continuada, firme e solidária. Agradeço-lhe ter-me ensinado a frase quando a sorte é maniversa, nada vale ao desinfeliz, que citei tantas vezes. Agradeço-lhe a frase de um livro de que ambos gostamos muito, citada nessa longínqua Nova Iorque de 1981: os cavalos resfolegando na fúria da carreira. Agradeço-lhe os diálogos divertidos a citar Eça de Queiroz, descendentes que somos, ambos, de queirosianos militantes. Agradeço-lhe tudo: aquilo que nos reconforta e aquilo que nos diverte. 

Tudo isto é da mais elementar justiça.

JdB 

13 agosto 2026

Dos mundos de cada um de nós


Belém, um destes dias ao fim da tarde

Para quê tanta pressa de singrar a todo o custo e em empreendimentos tão desesperados? Talvez quem não acompanha os companheiros marche ao som de outro tambor. Deixemo-lo seguir ao ritmo da música que ouve, por muito lenta ou distante que seja.

(Henry David Thoreau, Walden)

***

Cruzei-me com esta frase muito antes de ter lido o livro. Num certo sentido, li-a sempre de uma forma ascendente, isto é, olhando para aquele que marcha a um ritmo diferente como tendo uma extravagância elevada, na iminência de um pensamento rasgado de originalidade ou, como Thoreau, voluntariamente afastado da vida mundana, cansado da sua frivolidade. Tarde percebi que o meu pensamento estava errado - a frase deve ler-se de qualquer forma, não com admiração, não com desprezo.

Olha-se para uma pessoa que devota todo o seu tempo ao trabalho; olha-se para uma pessoa que dedica todo o seu labor a actividades diversas e caseiras, voltada sobre si própria; olha-se para uma pessoa cujo tema de conversa principal ou quase exclusivo é a sua prole. Para alguém cuja vida não se resume a isto, a estas pessoas o mundo parece passar-lhes ao lado: não leram um livro, não foram a um teatro ou a um concerto, pouco mais conheceram do que o seu quintal, viram apenas os filmes da moda, nunca lhes ocorreu sugerir ou perseguir um programa que alargue horizontes ou expanda a consciência. Para algumas pessoas - e roubo o sub-título de um livro de Juan José Millás -  o mundo é a rua da sua infância. 

Um dia percebi que o mundo não lhes passa ao lado, porque em bom rigor não existe 'o mundo'. Para estas pessoas o seu universo é o trabalho, a agitação, o sangue do seu sangue; o mundo de algumas destas pessoas conjuga-se no verbo fazer, porque é aí que a sua mente ganha distracção ou as suas mãos adquirem conhecimento; o mundo de algumas destas pessoas é a realização - o empreendimento! - pelo que toda a energia do seu pensamento se esgota aí. O mundo destas pessoas não é a literatura, a pintura, a música ou as viagens - são outras coisas, aparentemente mais simples, ou, segundo alguns, menos interessantes ou valiosas. Na verdade, só quem se interessa por literatura, pintura, música ou viagens é que dá importância a estas áreas, ou que classifica o mundo dos outros como pequenino. E só quem se interessa quase exclusivamente por trabalho, labor manual, filhos e netos é que pode valorizar este modo de vida, não mexendo um músculo para outras formas de ocupação do tempo.

Há muitos mundos; cabe-nos escolher o que mais nos interessa, ou aquele a que atribuímos mais importância. Ou conseguir juntar tudo.

JdB   

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