Hoje é dia 19 de Março, e eu não esqueço a minha condição de pai.
Hoje também, mas há oito anos, recebia uma chamada feita por um telemóvel cujo número me era próximo. O susto começou quando me apercebi que quem estava do lado de lá - que eu também conhecia - não pertencia àquele telefone. O sufoco continuou com as duas ou três frases que se seguiram. A combinação não podia ser mais desastrosa - a voz, o número de telefone, o discurso.
De então para cá a minha vida mudou radicalmente. O que era dado como garantido tornou-se incerto, abri os olhos para outras realidades, fui confrontado com a dor e a esperança, a alegria e o sofrimento, a proximidade e a indiferença - tudo isto em doses que me pareceram, muitas vezes, demasiadas. De bom grado voltaria atrás, a uma vida mais pacata, mas talvez com menos sentido, a uma existência mais mansa, mas talvez menos desafiadora.
O meu post de hoje é dedicado aos pais, no sentido masculino do termo. Em primeiro lugar, àqueles que, vítimas do infortúnio, viram os seus filhos partir na curva da estrada. Alguns que eu conheci, outros tantos cujo nome não sei, muitos ainda com quem me cruzo na incógnita da vida. A lógica das coisas manda que nós vamos antes deles, e é por isso (também) que ainda não se encontrou um nome para um pai em luto.
Vai, também, uma palavra especial para aqueles que, olhando para os seus filhos, ainda vivem o sufoco da doença, a aflição do futuro, o desafio da esperança, a angústia da distância. Que não percam a confiança, a fé (independentemente da forma em que se manifesta), a capacidade de ir à luta, o sonho de dias melhores. Tenho muitos, também, de quem me lembrar.
Por último, a todos os pais felizes de filhos saudáveis e próximos, para que gozem a sua paternidade de uma forma responsável e plena, na lembrança de todos aqueles que o quiseram fazer e não conseguiram, porque as circunstâncias da vida os não deixaram.
E porque hoje me lembro da minha condição de pai, fica uma palavra especial para o meu próprio.
JdB