Adeus, até ao meu regresso
As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
05 junho 2026
04 junho 2026
Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
EVANGELHO - Jo 6, 51-58
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Naquele tempo,
disse Jesus à multidão:
«Eu sou o pão vivo descido do Céu.
Quem comer deste pão viverá eternamente.
E o pão que Eu hei de dar é a minha Carne
pela vida do mundo».
os judeus discutiam entre si:
«Como pode Ele dar-nos a sua Carne a comer?»
Jesus disse-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
Se não comerdes a Carne do Filho do homem
e não beberdes o seu Sangue,
não tereis a vida em vós.
Quem come a mina Carne e bebe o meu Sangue
tem a vida eterna;
e Eu o ressuscitarei no último dia.
A minha Carne é verdadeira comida
e o meu Sangue é verdadeira bebida.
Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue
permanece em Mim, e Eu nele.
Assim como o Pai, que vive, Me enviou, e Eu vivo pelo Pai,
também aquele que me come viverá por Mim.
Este é o pão que desceu do Céu;
não é como aquele que os vossos pais comeram, e morreram;
quem comer deste pão viverá eternamente».
03 junho 2026
Vai um gin do Peter’s ?
O PAPA E «2001 ODISSEIA NO ESPAÇO»
O Papa vindo do Novo Mundo ecoa na recém publicada Encíclica sobre IA o alerta de Stanley Kubrick em «2001 - Odisseia no Espaço». No famosíssimo filme de 1968, o computador HAL preparava-se para controlar os humanos e liderar a missão espacial, entre outras peripécias, de uma humanidade fascinada com a exploração do espaço. Numa explicação deliciosa, Kubrick contou como se inspirara no título de Homero – Odisseia – para a sua obra magna do cinema: «Ocorreu-nos que, para os gregos, as vastas extensões do mar devem ter tido o mesmo tipo de mistério e de afastamento que o espaço tem para a nossa geração.»
O predomínio da máquina, que soava a ficção longínqua, há 50 anos, aproximou-se demasiado depressa da nossa realidade, hoje! Daí o alerta papal, diferenciando muito bem entre a imensidão de benefícios da IA e da tecnologia (ou não fosse um craque a matemática, além de nado & criado no país campeão dos maiores avanços tecnológicos do séc. XX) e o risco de redução do ser humano. ’Apenas’ essa possível e profunda subalternização preocupa Leão XIV. Recorro-me de óptimas súmulas já circuladas sobre o conteúdo da pequena (mas densa) encíclica e sobre a originalíssima cerimónia de lançamento, fora de todos os cânones:
| cafe.com.tradicao: A primeira encíclica de um papa define o tom do pontificado. Leão XIII escreveu sobre o trabalho na Revolução Industrial em 1891. Exatamente 135 anos depois, Leão XIV escreveu sobre a inteligência artificial. O nome não foi escolhido por acaso |
No portal do Vaticano, está disponível uma sinopse com as inúmeras ramificações temáticas associadas à IA:
02 junho 2026
Poemas dos dias que correm
Poema da Auto-estrada
Voando vai para a praiaLeonor na estrada preta.
Vai na brasa, de lambreta.
Leva calções de pirata,
Vermelho de alizarina,
modelando a coxa fina
de impaciente nervura.
Como guache lustroso,
amarelo de indantreno,
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.
Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.
Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pela cintura.
Vai ditosa, e bem segura.
Como um rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que se enterra.
Tudo foge à sua volta,
o céu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta
lembra um demónio com asas.
Na confusão dos sentidos
já nem percebe, Leonor,
se o que lhe chega aos ouvidos
são ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor.
Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.
António Gedeão, in 'Máquina de Fogo'
Impressão Digital
Os meus olhos são uns olhos,
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem lutos e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.
António Gedeão, in 'Movimento Perpétuo'
01 junho 2026
Para um começo de semana sereno (LIII) *
* não deixa de ser bonito, mas é seguramente feito através de ferramentas de IA.
31 maio 2026
Solenidade da Santíssima Trindade
EVANGELHO - Jo 3,16-18
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Naquele tempo,
disse Jesus a Nicodemos:
«Deus amou tanto o mundo
que entregou o seu Filho Unigénito,
para que todo o homem que acredita n'Ele
não pereça, mas tenha a vida eterna.
Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo
para condenar o mundo,
mas para que o mundo seja salvo por Ele.
Quem acredita n'Ele não é condenado,
mas quem não acredita n'Ele já está condenado,
porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus».
30 maio 2026
Pensamentos impensados
Os sem-abrigo dormem em cima de cartões; não sei se não seria preferível estarem em maus lençóis.
Na Assembleia da República, quando o porta-voz do partido fala, os deputados estão sempre a abanar a cabeça; penso que não é sinal de assentimento, mas sim para se manterem acordados.
Há mulheres que têm chapado na cara aquilo que são: mulheres de vida "facies".
Os médicos de família devem ter conhecimentos de genealogia?
Os porcos alimentados a bolota ficam com as patas negras.
SdB (I)
29 maio 2026
De mais um desaparecimento
Penso que já aqui contei esta história. Por alturas da pandemia, e no espaço de alguns poucos anos, morreram várias pessoas da minha família paterna, a quase totalidade antes do seu tempo estatístico. Comentando este facto com um amigo, e lamentando a falta que as pessoas me faziam, por motivos diferentes, disse-me ele com um grande sentido de humor: a sua família é gado que morre muito.
Chegamos a esta idade e os nossos amigos - ou as pessoas que nos fazem falta, como aqui escrevi na semana passada - é gado que morre muito. Esta semana foi a G., irmã do JdC. Conhecemos-nos em 1971, já lá vão 55 anos, portanto. Sabia que estava doente e telefonei-lhe; a G. teve a amizade de me atender o telefone quando, parece-me, já não o fazia a toda a gente. Falámos durante 1 minuto, talvez, mas foi o bastante. Embora não convivêssemos muito, éramos grande amigos e fazíamos muita festa um ao outro, sempre que nos víamos.
O desaparecimento da G., antes do seu tempo estatístico, suscita-me saudades muito diversas: dela, da família dela, dos Verões em Borba, dos candeeiros a petróleo, da compota de amora e dos cigarros fumados às escondidas, da Travessa de S. Vicente, do JdC. Quem me conhece também conhece este discurso, esta minha nostalgia. Revisitei todos estes lugares (geográficos e afectivos) sempre que escrevi sobre o desaparecimento de pessoas deste agregado familiar que foi, durante muitos anos, a minha família de afecto, se bem que de um sangue também, mas mais longínquo. Lembrar-me da G., do JdC ou dos Pais de ambos é uma espécie de regresso a casa - um tema que me é caro, quase obsessivo.
Com o desaparecimento da G. não desaparece o passado que foi, de certa forma, de ambos. Mas é menos uma pessoa com quem posso falar de um tempo que não volta; é menos uma pessoa com quem posso rir-me, lembrar histórias, cheiros, ambientes, pessoas, privilégios que tinham os mais velhos de uma família muito numerosa mas que, mesmo assim, teve sempre as portas abertas para quem quisesse aparecer. Chegar a esta idade é perceber que o nosso mundo afectivo é composto por gado que morre muito. Um dia serei eu, certo de que encontrarei a Borba dos meus Setembros (e outras memórias afectivas determinantes de outras geografias) no Céu, se Deus me quiser levar para lá. Até lá é só lembrar as histórias que já foram, porque o passado é certo, o futuro não se sabe se existe, até prova em contrário.
Fica a última homenagem à G., que ficará no meu coração e no meu ouvido: afinal, foi ela que me apresentou a Maria Dolores Pradera, nesta exacta música, há 50 anos, talvez. Ouvi-a cantá-la, com um timbre que não esquecerei. Se ela me ler está a rir-se da minha memória para estas pequenas coisas.
JdB
28 maio 2026
27 maio 2026
Textos dos dias que correm
| Florença, Maio de 2011 |
Miguel de Unamuno, in 'Solidão'
O Solitário
Thomas Mann, in "Morte em Veneza"
26 maio 2026
Das expectativas goradas
Ao longo das últimas duas semanas escrevi vários emails para pessoas / grupos de pessoas diferentes, sobre temas diferentes. Não eram emails operacionais; talvez fossem mais pessoais - emocionais num certo sentido - pois revelavam uma dimensão mais intangível da vida. Em nenhum havia tristeza, revolta, ansiedade ou outros sentimentos mais exacerbados. Talvez se pudesse dizer que eram sobretudo, partilhas. De todos, devo confessar, esperava uma resposta - talvez mesmo uma resposta num certo sentido, ou com um certo tom de voz. A minha expectativa assentava (também) num pressuposto: se eu recebesse um mail daqueles, teria respondido de uma certa forma - da forma como contava receber... Nada aconteceu como previsto: ou o tom de voz não era o esperado, ou nem sequer houve tom de voz.
Não sei o que é viver sem expectativas, mesmo que a minha gestão das ditas seja errada. Viver sem esperar nada do próximo é votar o próximo à indiferença, mais do que exercer uma santidade de quem não se incomoda com o que recebe - mesmo que seja pouco ou nada. Uma expectativa é um desejo - e eu não concebo uma existência sem desejos, mesmo sabendo que daí advirão desilusões. Gerir expectativas é também um exercício de auto-análise. Se não tivermos expectativas com ninguém, é de esperar que os outros não tenham expectativas connosco. Se assim for, quando o nosso próximo cair no chão só nos resta afastarmo-nos para que os sapatos de camurça não fiquem conspurcados do sangue alheio.
Um mail - sobretudo se não for operacional - envia uma mensagem. Não receber resposta - ou receber uma resposta claramente insatisfatória confronta-nos com o seguinte: há pessoas que percebem o que dizemos, há pessoas que não conseguem perceber o que dizemos, e há pessoas que não fazem a mais leve ideia do que estamos a dizer, mesmo que falemos a mesma linguagem e tenhamos códigos linguísticos semelhantes. Por vezes é como fazer um pedido a alguém: o nosso interlocutor pode não querer satisfazer o nosso pedido, pode não saber satisfazer o nosso pedido ou pode não fazer a ideia do que estamos a pedir.
A não resposta - ou resposta insatisfatória - aos meus mails têm uma dupla valência: põem-me num lugar certo de humildade pedagógica; e ensina-me muito sobre a alma humana. Decifrar o motivo por trás destas expectativas goradas é um exercício interessante: o que leva as pessoas a não reagir ou a reagir de forma que me parece insatisfatória? E se a ausência de resposta adequada for da maioria?
Já estive em reuniões onde, no final de uma apresentação, não houve praticamente ninguém a agradecer, a dar os parabéns, a fazer uma pergunta que revele interesse. O que se passa na cabeça das pessoas?
JdB
25 maio 2026
24 maio 2026
Solenidade do Pentecostes
EVANGELHO - Jo 20,19-23
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou Se no meio deles e disse lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou,
também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser lhes ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».
23 maio 2026
Pensamentos Impensados
O tecido urbano pode ser feito em tear manual? E em fibra sintética?
Walt Disney fazia desenhos animados e o Manoel de Oliveira filmes desanimados. Na Páscoa, os judeus têm o anho desanimado.
Há em Tomar o Museu do Fósforo que, penso, deve ter 2 administradores: um nomeado pelas cabeças e outro nomeado pelas lixas.
O ouriço do mar não precisa de "parceiro" para se reproduzir; é auto-suficiente e a esse fenómeno chama-se partenogénese. Também se poderia chamar unissexo.
Fazia "striptease" e tinha um "show" erótico que se chamava sonho de uma noite no varão.
SdB (I)
21 maio 2026
Das gavetas onde pomos os que partem
A informação já era esperada – o NL tinha morrido na madrugada de sábado, vítima de uma crise súbita de saúde uma ou duas semanas antes, e da qual não recuperou.
Conhecia o NL há 15 anos talvez. Devido a um rearranjo familiar da minha parte, e que não vem ao caso, encontrávamo-nos uma dúzia de vezes por ano. Sentámo-nos muitas vezes ao lado um do outro para almoçar ou jantar. Mantínhamos uma conversa ligeira e agradável, fruto de um interesse que era mais do que simples cortesia: perguntava-me por um ou outro dos meus projectos, eu indagava das suas actividades golfistas; falávamos disto e daquilo, interagíamos com a família alargada à qual nos ligava um afecto grande, mas naturalmente diferente – ele tinha com aquele grupo uma relação de sangue.
O NL era uma pessoa que eu conhecera tardiamente na vida, com quem convivia pouco, para além de ser 13 anos mais velho do que eu. Seria exagerado dizer que éramos amigos, mas isso não diminui a pena que me provoca o seu desaparecimento. Não só a pena solidária de quem imagina o desgosto da mulher, dos filhos, dos netos e demais família, (pessoas por quem tenho uma grande simpatia, e mesmo amizade, e que me receberam sempre bem nos seus espaços) mas uma pena genuína, de quem se vê privado de uma confraternização – ainda que esparsa – com uma pessoa que deixa saudades.
Em bom rigor não é fácil colocar em gavetas bem identificadas as pessoas com quem nos vamos cruzando ao longo da vida: temos grandes amigos, temos bons amigos, temos amigos
(o JdC diferenciava-os de forma curiosa: fulano é meu amigo; beltrano é um amigo meu.)
de algumas pessoas dizemos que as conhecemos e de outras que sabemos quem são.
O NL cabia numa gaveta particular – e restrita: a daquelas pessoas de quem não somos parentes chegados nem amigos próximos, mas cujas características pessoais ou sociais as colocam num patamar muito próprio, muito exclusivo. Não perdi um amigo, um confidente, alguém com quem partilhava um passado comum. Perdi uma pessoa com quem gostava de estar e de conversar e por isso, num certo sentido menos óbvio, o seu desaparecimento deixa o meu património afectivo ou social mais pobre.
Do NL só posso dizer isto: era uma pessoa com quem eu simpatizava muito e cuja morte me entristeceu bastante. Não sei se é pouco, mas reflecte genuinamente a minha grande pena.
JdB
Acerca de mim
- JdB
- Estoril, Portugal