Se eu já estiver morto,
Adeus, até ao meu regresso
As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
02 abril 2025
Poemas dos dias que correm
Se eu já estiver morto,
01 abril 2025
Das aspas *
Aspas: sinal gráfico que destaca títulos ou nomes comerciais, sendo também usado para delimitar citações ou realçar uma palavra ou expressão.
31 março 2025
Duetos amorosos dos dias que correm *
30 março 2025
IV Domingo da Quaresma
EVANGELHO – Lucas 15,1-3.11-32
Naquele tempo,
os publicanos e os pecadores
aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem.
Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo:
«Este homem acolhe os pecadores e come com eles».
Jesus disse-lhes então a seguinte parábola:
«Um homem tinha dois filhos.
O mais novo disse ao pai:
‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’.
O pai repartiu os bens pelos filhos.
Alguns dias depois, o filho mais novo,
juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante
e por lá esbanjou quanto possuía,
numa vida dissoluta.
Tendo gasto tudo,
houve uma grande fome naquela região
e ele começou a passar privações.
Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra,
que o mandou para os seus campos guardar porcos.
Bem desejava ele matar a fome
com as alfarrobas que os porcos comiam,
mas ninguém lhas dava.
Então, caindo em si, disse:
‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância,
e eu aqui a morrer de fome!
Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe:
Pai, pequei contra o Céu e contra ti.
Já não mereço ser chamado teu filho,
mas trata-me como um dos teus trabalhadores’.
Pôs-se a caminho e foi ter com o pai.
Ainda ele estava longe, quando o pai o viu:
encheu-se de compaixão
e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos.
Disse-lhe o filho:
‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti.
Já não mereço ser chamado teu filho’.
Mas o pai disse aos servos:
‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha.
Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés.
Trazei o vitelo gordo e matai-o.
Comamos e festejemos,
porque este meu filho estava morto e voltou à vida,
estava perdido e foi reencontrado’.
E começou a festa.
Ora o filho mais velho estava no campo.
Quando regressou,
ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças.
Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo.
O servo respondeu-lhe:
‘O teu irmão voltou
e teu pai mandou matar o vitelo gordo,
porque ele chegou são e salvo’.
Ele ficou ressentido e não queria entrar.
Então o pai veio cá fora instar com ele.
Mas ele respondeu ao pai:
‘Há tantos anos que eu te sirvo,
sem nunca transgredir uma ordem tua,
e nunca me deste um cabrito
para fazer uma festa com os meus amigos.
E agora, quando chegou esse teu filho,
que consumiu os teus bens com mulheres de má vida,
mataste-lhe o vitelo gordo’.
Disse-lhe o pai:
‘Filho, tu estás sempre comigo
e tudo o que é meu é teu.
Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos,
porque este teu irmão estava morto e voltou à vida,
estava perdido e foi reencontrado’».
28 março 2025
Duas Últimas *
27 março 2025
Poemas dos dais que correm
Fronteira
De um lado terra, doutro lado terra;
De um lado gente, doutro lado gente;
Lados e filhos desta mesma serra,
O mesmo céu os olha e os consente.
Uivos iguais de cão ou de alcateia.
E a mesma lua lírica que vem
Corar meadas de uma velha teia.
Que não tem olhos, que não tem sentido,
Passa e reparte o coração
Do mais pequeno tojo adormecido.
libertação
1944
poesia completa vol. i
dom quixote
2007
***
Perplexidade
26 março 2025
Vai um gin do Peter’s ?
A BELA E O MONSTRO DE CARNE-E-OSSO
Uma história real, passada no século XVI, inspirou o conto de A BELA E O MONSTRO. Os primeiros registos correspondem a desenhos e descrições feitas por investigadores da época. Em 1740, o livro «La Belle et la Bête» de Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve inspira-se naquele casal improvável. No século XX, chega aos ecrãs de cinema pela mão da Disney e aos palcos da Broadway através do musical de Alan Menken (https://www.alanmenken.com/work/beauty-and-the-beast-stage).
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Retrato do casal Petrus e Catherine Gonsalvus, onde a mão pousada no ombro era considerado, à época, um sinal afectuoso. |
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Mais um retrato às filhas de Petrus. |
25 março 2025
24 março 2025
Da desracionalização *
Suspender a incredulidade é, repito, ignorar a implausibilidade da narrativa; é acreditar que aquilo é verdade, mesmo sabendo que não poderia ter acontecido (ou nós não concebemos possível com o nosso mindset); é deixar-se arrebatar pelo inverosímil, pelo encanto de uma história ou pela forma como ela é contada; é querer ser o herói, ansiar pelo castigo justo do vilão, rir como a criança que ri naquela história, sofrer com os que sofrem, sentir no corpo ou no espírito as dores que são de outrem. Mas suspender a incredulidade é também deixar-se invadir pela sensação de uma descoberta, pela visão do que era até então desconhecido.
O olhar excessivamente racional ou lógico tem tradução num gesto físico concreto, observável a olhos nus: é o olhar que, por demasiado próximo do objecto, detecta facilmente a imperfeição do contorno de uma letra impressa, uma mancha dissonante nos olhos de uma criança pintada a óleo, a implausibilidade de uma paixão que nasce numa franja negligente da violinista. É o olhar que, por demasiado próximo do objecto, vê a inutilidade do incenso que se queima numa cerimónia religiosa, a soturnidade de um coro de Bach a cantar a paixão de Cristo, a incoerência imperdoável e demolidora daqueles que pregam o que não fazem ou o fazem num léxico despropositado. Um olhar excessivamente próximo detecta a pequena falha que desfeia, o pequeno defeito que corrompe, o pequeno desvio que elimina. Não vê o conjunto, o global, a floresta onde tudo acontece. Fixa a árvore, talvez o arbusto, seguramente a erva daninha.
Suspender a incredulidade na leitura de um romance, ou suspender a incredulidade na nossa história com a Igreja Católica é pormo-nos à distância certa, acreditar na plausibilidade do implausível, aceitar o rito como agregador de uma multidão heterogénea, não descurar a importância dos pormenores, acreditar na busca de uma perfeição humanamente incerta. Suspender a incredulidade é deixarmo-nos arrebatar pela paixão ou pela exaltação, abrindo espaço para a entrada do Sublime.
23 março 2025
III Domingo da Quaresma
EVANGELHO – Lucas 13,1-9
Naquele tempo,
vieram contar a Jesus
que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus,
juntamente com o das vítimas que imolavam.
Jesus respondeu-lhes:
«Julgais que, por terem sofrido tal castigo,
esses galileus eram mais pecadores
do que todos os outros galileus?
Eu digo-vos que não.
E se não vos arrependerdes,
morrereis todos do mesmo modo.
E aqueles dezoito homens,
que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou?
Julgais que eram mais culpados
do que todos os outros habitantes de Jerusalém?
Eu digo-vos que não.
E se não vos arrependerdes,
morrereis todos de modo semelhante.
Jesus disse então a seguinte parábola:
«Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha.
Foi procurar os frutos que nela houvesse,
mas não os encontrou.
Disse então ao vinhateiro:
‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira
e não os encontro.
Deves cortá-la.
Porque há de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’
Mas o vinhateiro respondeu-lhe:
‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano,
que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo.
Talvez venha a dar frutos.
Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano».
21 março 2025
Música e poema para os dias de ontem e de anteontem
Vendaval
Era um cedro perfeito;
Mas o vento da vida levantou,
E aquele prumo do céu caiu direito.
Nos bons tempos felizes
Em que ele batia, erguido,
Desde a rama às raízes
Era seiva e sentido.
Agora jaz no chão.
Palpita ainda, e tem
Vida de coração...
Mas não ama ninguém.
Miguel Torga, in 'Diário (1942)'
20 março 2025
Ainda das corridas de touros
Mão amiga enviou-me um link para uma notícia que poderão ler aqui: as corridas de touros, tal como as conhecíamos, acabaram na Cidade do México. Estamos mais perto do que um primo, agricultor e ganadero, vaticinava há uns largos anos: as touradas acabarão no espaço de uma geração.
Tenho uma relação estranha com as corridas de touros - espectáculo que aprecio muito. Naturalmente avesso à violência sobre animais - até sobre aqueles de que não gosto, como os gatos - não me faz confusão ver um touro a morrer numa praça. Apesar de ser incapaz de dar um pontapé num gato - para me manter nestes felinos - vejo, sem um enorme incómodo, um touro que demora a morrer porque a estocada não foi eficaz. E vejo ainda, sem um sobressalto assinalável, o que se faz ao touro para terminar o processo (com a puntilla) ou para corrigir a ineficácia da estocada (com o descabello).
Dentro de mim há um bárbaro, estou certo. Não me orgulho disso, não me envergonho disso. É o que é, e tudo me sai naturalmente, isto é, não viro a cara ao sangue na arena, não me comprazo com o sangue na arena. Faz parte de um espectáculo que aprecio, que tem raízes antigas, que representa parte de um modo de vida do campo que está a desaparecer da vista e da prática, que opõe homem e animal num combate forçosamente desigual, onde se digladiam bravura e coragem, arte e tragédia.
As corridas de touros acabarão? Talvez sim, talvez não. No meu tempo haverá sinais pequenos e irreversíveis de que o sim está mais perto. Até lá é apreciar e não entrar em discussões sobre o tema.
JdB
19 março 2025
18 março 2025
Textos dos dias que correm
Viver sem Sofrimento
Os prazeres ardentes são momentâneos, e custam graves inconvenientes. O que devemos cobiçar é viver sem sofrer muito. Aquele que sofre foge-lhe uma parte da existência. O mal é nocivo à plenitude da vida por que é sempre causa do aniquilamento. Quando o sofrimento nos ameaça, e receamos que as forças defensivas nos faleçam, suspendem-se os outros movimentos do nosso coração, e então pouco há que esperar de nós, por que se torna incerto o nosso destino. O bem-estar de grande numero de individuos, que vivem retirados das agitações, depende mais da sua disposição habitual de pensamento que da influência de causas exteriores. A crise moral pode surpreendê-los e magoá-los momentaneamente; mas a força dos acontecimentos é meramente relativa. Os sofrimentos são mais ou menos intensos, conforme a época em que nos oprimem. O que ontem poderia aniquilar-me, levemente me incomoda hoje. Cinco minutos de reflexão me bastam. A maior parte dos objectos encerram e presentam, indirectamente pelo menos, as propriedades oportunas. Pô-las em acção é no que assenta a industria da felicidade. Há aí que farte instrumentos fecundos de prazeres úteis; ponto é saber meneá-los. Quem não sabe trabalhar com eles, fere-se. Discernir, isto é, reflectir é o que mais importa...
Camilo Castelo Branco (cujo duplo centenário de nascimento se lembrou no passado dia 16), in 'Cenas Inocentes da Comédia Humana (1863)'
17 março 2025
A Porta do Cerco *
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Porta do Cerco, Macau |
Nessa mesma noite Maria deitou-se a chorar. Na manhã seguinte levantou-se a chorar. Não era a primeira experiência sexual dela. Mas num carro? Com um desconhecido que lhe dizia que ia para Macau de férias, onde os pais trabalhavam? Não era possível! E no entanto tinha acontecido. Pior que tudo, divertira-se, gostara, apetecera-lhe repetir embora a probabilidade fosse baixa, já que o bar ficava fora do seu circuito. Voltou a chorar e agarrou um cesto de roupa suja para por na máquina de lavar. Foi então que se confrontou com um par de boxers de onde sobressaía uma fotografia: a Porta do Cerco e a frase de Camões: "a Pátria honrai, que a Pátria vos contempla...". Percebeu tudo ao identificar um cheiro que também era dela...
JdB
Acerca de mim
- JdB
- Estoril, Portugal