02 abril 2025

Poemas dos dias que correm

Quando vier a primavera

Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro / Fernando Pessoa
(1888 - 1935)
In "Poemas Inconjuntos"

01 abril 2025

Das aspas *

 Aspas: sinal gráfico que destaca títulos ou nomes comerciais, sendo também usado para delimitar citações ou realçar uma palavra ou expressão. 

***

Em 1979 tive uma curta experiência veraneante como jornalista. Durante meia dúzia de meses, se tanto, fui jornalista estagiário no jornal O Dia, um matutino importante pela sua não conotação com o governo vigente. Data dessa altura uma qualificação ternurenta que me apodaram - especialista em matéria vaga - já que, enquadrado na secção de informação geral, cobri o impacto do aumento do vinho na cooperativa de Palmela, um congresso de medicina dentária, o desaparecimento da pequena Sofia B da estrada da circunvalação onde vivia com os seus pais, e outras importâncias semelhantes. Também nesse âmbito generalista me deslocava amiúde à Polícia Judiciária para consultar o rol de actividades dos meliantes. E foi aí, à Gomes Freire, que acrescentei ao meu léxico a expressão varinha mágica - designação que desconhecia - artigo que havia sido furtado na véspera.

(De notar que foi só após 1981, já eu estudava integrais duplos, centipoises e resistência de materiais, que me confrontei com o termo trem de cozinha, novidade que fez de mim um homem diferente).

É também nessa altura jornalística que me atrevo, com 21 anos feitos de ignorância, despudor e ingenuidade, a escrever sobre corridas de touros. Um dia, proveniente de um bandarilheiro cujo nome não esqueci jamais, recebo o sobrescrito abaixo, irrepreensível na sua caligrafia de Futura preta. O conteúdo é irrelevante, apenas o cartaz de umas festas em Vila Franca de Xira.


O que podemos realçar no sobrescrito, para além de ser um documento com 36 anos guardado numa caixa com objectivo indefinido? A resposta está nas aspas em torno de crítico tauromáquico - um símbolo gráfico que muda tudo, que põe tudo em questão. 

Se eu escrever gato tem quatro patas, a frase está correcta. Se eu escrever gato tem quatro letras, a frase está incorrecta. Mas se eu escrever "gato" tem quatro letras, a frase torna-se de novo correcta. O que altera tudo? As aspas. As aspazinhas. O animal gato tem quatro patas mas não tem quatro letras. Só a palavra gato é que tem quatro letras. Vamos ao último raciocínio: a frase "'gato' tem quatro letras" tem quatro palavras. As aspas, de novo. 

Mudemos de âmbito. Se eu escrever Prof. Miguel Relvas a frase está incorrecta, porque o cavalheiro que ascendeu a ministro não é professor. Se eu substituir Prof. por Dr. a frase torna-se dúbia, porque não se sabe que habilitações literárias tem o senhor. Agora, se eu lhe dirigir um sobrescrito para indagar onde há seminários de folclore ou cursos de gestão de ranchos e o endereçar ao "Dr." Miguel Relvas a conclusão é simples: há gozo! A utilização das aspas não destaca títulos ou nomes comerciais, como o bandarilheiro usa em jornal "O Dia". No caso de Miguel Relvas reflecte uma ironia - ah! e tal, ele não é bem doutor...

O que significam as aspas na expressão abaixo do meu nome? Significam ironia, isto é, Miguel Relvas está para doutor como João Bragança está para crítico tauromáquico? Ou significam apenas a expressão crítico tauromáquico e, nesse sentido, poderia estar "apreciador de vinho" ou mesmo  "gente alta" ou ainda "oh laurentina, vem à janela...".

Houve gente que escreveu muito sobre isto, sobre uso e menção. Só me falta perceber porquê. 

JdB 

* publicado originalmente a 6 de Março de 2015 
    

31 março 2025

Duetos amorosos dos dias que correm *

* sendo que a expressão "amorosos" classifica a relação entre os cantores líricos, que parece ficaram noivos há pouco tempo. 

30 março 2025

IV Domingo da Quaresma

 EVANGELHO – Lucas 15,1-3.11-32

Naquele tempo,
os publicanos e os pecadores
aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem.
Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo:
«Este homem acolhe os pecadores e come com eles».
Jesus disse-lhes então a seguinte parábola:
«Um homem tinha dois filhos.
O mais novo disse ao pai:
‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’.
O pai repartiu os bens pelos filhos.
Alguns dias depois, o filho mais novo,
juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante
e por lá esbanjou quanto possuía,
numa vida dissoluta.
Tendo gasto tudo,
houve uma grande fome naquela região
e ele começou a passar privações.
Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra,
que o mandou para os seus campos guardar porcos.
Bem desejava ele matar a fome
com as alfarrobas que os porcos comiam,
mas ninguém lhas dava.
Então, caindo em si, disse:
‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância,
e eu aqui a morrer de fome!
Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe:
Pai, pequei contra o Céu e contra ti.
Já não mereço ser chamado teu filho,
mas trata-me como um dos teus trabalhadores’.
Pôs-se a caminho e foi ter com o pai.
Ainda ele estava longe, quando o pai o viu:
encheu-se de compaixão
e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos.
Disse-lhe o filho:
‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti.
Já não mereço ser chamado teu filho’.
Mas o pai disse aos servos:
‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha.
Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés.
Trazei o vitelo gordo e matai-o.
Comamos e festejemos,
porque este meu filho estava morto e voltou à vida,
estava perdido e foi reencontrado’.
E começou a festa.
Ora o filho mais velho estava no campo.
Quando regressou,
ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças.
Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo.
O servo respondeu-lhe:
‘O teu irmão voltou
e teu pai mandou matar o vitelo gordo,
porque ele chegou são e salvo’.
Ele ficou ressentido e não queria entrar.
Então o pai veio cá fora instar com ele.
Mas ele respondeu ao pai:
‘Há tantos anos que eu te sirvo,
sem nunca transgredir uma ordem tua,
e nunca me deste um cabrito
para fazer uma festa com os meus amigos.
E agora, quando chegou esse teu filho,
que consumiu os teus bens com mulheres de má vida,
mataste-lhe o vitelo gordo’.
Disse-lhe o pai:
‘Filho, tu estás sempre comigo
e tudo o que é meu é teu.
Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos,
porque este teu irmão estava morto e voltou à vida,
estava perdido e foi reencontrado’».

28 março 2025

Duas Últimas *

Domingo jantei com um amigo caçador. Diz-me, e eu acredito, que gosta muito de animais. Tem uma cadela à qual se afeiçoou e que, no fim previsível da sua vida (do bicho...), trata com um desvelo inexcedível. Não obstante, quase todos os anos vai a África à caça grossa. Mata búfalos e animais quejandos, vê-os a serem esventrados (não sei se a expressão é esta) quando o tiro não atinge os pontos vitais certos. 

Eu sou relativamente piegas com o sofrimento dos animais. Nunca cacei, nunca matei um animal com um tamanho superior ao de um rato pequeno. Não obstante, gosto de corridas de touros e, se o animal demora a morrer, cambaleia golfando sangue ou tem que ser descabellado, não viro a cara, tomando atenção a tudo sem o menor sentimento de angústia, pena ou incómodo. 

Sábado fui a um casamento. A seguir ao jantar - óptimo por sinal - dançou-se longamente, o que é hábito nestas festas hoje em dia. Terminado o irritante Danúbio Azul com que noivos e pais abrem o baile, uma mole de gente atira-se à pista a pular e a gritar, a agitar freneticamente os braços e, nalguns casos mais preocupantes, o corpo todo, invadindo espaços alheios que não estão definidos. São dezenas de pessoas a cantar uma música cuja letra nem sempre percebem integralmente - talvez mesmo palavras cujo significado não descortinam. Mas, apesar dessa aparente incompreensão, cantam, seguem coreografias, olham uns para os outros, afastam-se e aproximam-se, provocam ou atravessam corpos com olhares vidrados de alegria como se quisessem soltar o diabo do corpo, como se a catarse dos dias difíceis se fizesse ali, ao som das Doce ou dos Village People. 

Chegado a este ponto do post, haverá quem se questione o que têm em comum a caça, os toiros e a dança dos tempos modernos. Domingo, em conversa sobre o tema da caça e das corridas com o meu amigo caçador, falávamos de uma certa ancestralidade bárbara que existe dentro de nós - dos tempos, seguramente, em que o homem da caverna caçava para sobreviver -  que, não obstante as festas que fazemos aos animais que nos estão mais próximos, nos deixa relativamente indiferentes ao sofrimento de outras bestas. Conseguimos encontrar na dança um paralelismo, ainda que muito remoto? A forma como dançamos hoje em dia revela também uma certa ancestralidade de milhares de anos? Haverá qualquer coisa antiga, muito antiga, mesmo, no mais fundo de nós que nos faz papaguear palavras, frases, gritar com um ar de satisfação alucinada para, com isso, atingir um êxtase de felicidade?

Deixo-vos com música que arrebata multidões, mesmo que no remanso do lar as consideremos menores.

JdB 




* publicado originalmente a 29 de Julho de 2014

27 março 2025

Poemas dos dais que correm

Fronteira

De um lado terra, doutro lado terra;
De um lado gente, doutro lado gente;
Lados e filhos desta mesma serra,
O mesmo céu os olha e os consente.
 
O mesmo beijo aqui, o mesmo beijo além;
Uivos iguais de cão ou de alcateia.
E a mesma lua lírica que vem
Corar meadas de uma velha teia.
 
Mas uma força que não tem razão,
Que não tem olhos, que não tem sentido,
Passa e reparte o coração
Do mais pequeno tojo adormecido. 
 
miguel torga
libertação
1944
poesia completa vol. i
dom quixote
2007

***

Perplexidade

Hesito no caminho.
Ninguém segue este rumo…
É noutra direcção
Que o vento leva o fumo
Das paixões…
Chegar, sei que não chego,
De nenhuma maneira;
Mas queria ao menos ir no lírico sossego
De quem não se enganou na estrada verdadeira.

E não vou.
Cada vez mais sozinho
Na solidão,
Duvido da certeza dos meus passos.
Vejo a sede ancestral da multidão
Voltar costas às fontes que pressinto,
E fico na mortal indecisão
De afirmar ou negar o cego instinto
Que me serve de guia e de bordão. 

miguel torga
câmara ardente

1962


26 março 2025

Vai um gin do Peter’s ?

A BELA E O MONSTRO DE CARNE-E-OSSO 

Uma história real, passada no século XVI, inspirou o conto de A BELA E O MONSTRO. Os primeiros registos correspondem a desenhos e descrições feitas por investigadores da época. Em 1740, o livro «La Belle et la Bête» de Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve inspira-se naquele casal improvável. No século XX, chega aos ecrãs de cinema pela mão da Disney e aos palcos da Broadway através do musical de Alan Menken (https://www.alanmenken.com/work/beauty-and-the-beast-stage).  


Cada nova versão foi acrescentando nuances, dando novos cunhos às personagens e conotações diferentes à narrativa, segundo as modas da época. Em 1991, o musical e o filme ainda seguiram o velho padrão do castigo infligido ao príncipe egoísta, transformado em monstro para penar pelos erros cometidos, mas resgatáveis se e quando aprendesse a amar uma bela pura, inocente

Em 2017 (e posteriormente), o novo filme já vinha tingido de wokismo, aproveitando as bizarrias menos atractivas para afirmar o direito à diferença e a desestabilizar o status quo comum, na defesa da supremacia do subjetivo e do indivíduo sobre os demais. Nesse filme musical, a principal áriacoloca a tónica e a maior responsabilidade no olhar de quem percepciona algo ou alguém como espontaneamente repugnante, poupando quem ou o que é observado: «Bittersweet and strange /Finding you can change / Learning you were wrong»(1). A ária flui em dueto, aqui interpretada por Celine Dion e Peabo Bryson: 


Curiosamente, esta interpretação favorável aos mais estranhos (igualmente a advogar uma moral, embora diversa da clássica) encontra algum eco na história original, onde não pôde haver passos de mágica com as transfigurações estéticas que superabundam nas obras de ficção e em raríssimos milagres. O bom acolhimento de todos - todos - todos (diferente de tudo - tudo - tudo), começando pelos desfeados por condições adversas, é por si só um valor maior e insubstituível.  Essa é a história real do pobre bebé, nascido em 1537, com hipertricose – a horrenda anomalia mais conhecida por ‘síndrome do lobisomem’, que se manifesta numa camada espessa de pelugem a cobrir o corpo. Pedro Gonzalez, nado em Tenerife e descendente do soberano local, foi raptado e oferecido como presente para animar a corte do rei francês Henrique II, por ocasião do seu enlace com Catarina de Medici. 

Retratado na vida adulta, depois de uma reviravolta fantástica, que lhe permitiram estudar, ser ilustre,
bem enquadrado na sociedade,
como indicia o vestuário e o próprio privilégio de posar para um pintor.

Felizmente para o pobre Pedro, os estudiosos da corte gaulesa perceberam que aquele bobo peludo era uma criança dotada e sensível, como informaram o rei, que deliberou proporcionar-lhe uma boa educação. Em poucos anos, Pedro tornou-se fluente em 3 línguas, incluindo o latim, considerada a marca d’água das elites cultas. Foi rebaptizado de Don Petrus Gonsalvus, segundo o latim e com direito a título honorífico pela sua linhagem na tribo dos Guanches, sendo presença assídua na corte. 

Aos 36 anos, a rainha resolveu arranjar-lhe uma noiva, escolhendo a filha de uns serviçais, diz-se que entre as mais bonitas da sua geração, por curiosidade científica, segundo constou. A escolha recaiu sobre Catherine, que desmaiou quando foi apresentada a Petrus. Porém, conta-se que a bondade, a erudição, a delicadeza e a boa educação do noivo acabaram por conquistar Catherine, ficando para a história como um casal feliz. Dos seus 6 ou 7 filhos, apenas os dois primeiros foram poupados àquela anomalia.  

Retrato do casal Petrus e Catherine Gonsalvus, onde a mão pousada no ombro era considerado,
à época, um sinal afectuoso. 

Em 1582, com o doutoramento em Direito Canónico, Pedro passou a leccionar na prestigiada Sorbonne, até mudar-se para Itália, onde terá morrido aos 81 anos. Permanecem registos e desenhos sobre a família de Petrus Gonsalvus no Gabinete de Artes e Curiosidades do Castelo austríaco de Ambras, bem como em Arquivos em Roma, em Nápoles e no Vaticano.

A família Gonsalvus foi estudada por investigadores clínicos, constando desenhos na obra do naturalista e botânico Ulisse Aldrovandi, intitulada “De Monstris”. À época, o termo “monstro” não tinha a conotação pejorativa da actualidade. Vivia-se o auge da descoberta de novos mundos, dados a conhecer à Velha Europa pelos navegadores portugueses e espanhóis. Por isso, as notícias de seres exóticos e inéditos, pertencentes a universos desconhecidos, maravilhavam as sociedades europeias, ávidas de novidades e de serem surpreendidas com outras formas de vida.  
Sketch de uma das filhas de Petrus – Antoinetta – da autoria do médico botânico bolonhês Ulisses Aldrovandi, 
legendada como ser humano e envergando indumentárias caras, com uma coroa de flores no cabelo.
Crédito: Universidade de Yale.

Mais um retrato às filhas de Petrus. 

Os olhares atentos e humanos, que deram o alerta a Henrique II sobre a riqueza humana de Pedro Gonzalez, resgataram-no da difícil condição a que parecia condenado, vítima de uma ostracização injusta e ignorante, como aconteceu na sua terra natal. A história aventurosa daquele ser humano com aspecto de lobisomem, mas coração grande, confirma quanto as pessoas fazem a diferença, podendo tornar a realidade mais espantosa do que a melhor das ficções.

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
____________________
(1)  Letra de  BEAUTY AND THE BEAST: 

«Tale as old as time
  True as it can be 
  Barely even friends 
  Then somebody bends 
  Unexpectedly 
 
 Just a little change 
 Small, to say the least 
 Both a little scared 
 Neither one prepared 
 Beauty and the beast 

[BIS] Ever just the same 
         Ever a surprise 
         Ever as before 
         Ever just as sure 
         As the sun will rise 
 
Tale as old as time 
Tune as old as song 
Bittersweet and strange 
Finding you can change 
Learning you were wrong 

Certain as the sun 
Certain as the sun 
Rising in the east 

[BIS]  Tale as old as time 
          Song as old as rhyme 
          Beauty and the beast 
Beauty and the beast

24 março 2025

Da desracionalização *


Fotografia de Alfred Eisenstaedt

Pressupostos:

(i) A ideia de suspensão da incredulidade tem 200 anos: em havendo um interesse humano e uma semelhança com a verdade num conto fantástico, o leitor ignoraria a implausibilidade da narrativa. 

(ii) Numa conversa que aborda temas da igreja católica, e perante a crítica continuada de um dos participantes, o conferencista diz-lhe: sabe o que me parece que lhe falta? Paixão!

(iii) Afirma Pseudo-Longino (século I): o Sublime não conduz os seus ouvintes à persuasão, mas à exaltação, porque a eliminação imprevisível por ele provocada prevalece sempre sobre tudo o que convence ou agrada.

***

Destes três pressupostos se poderia dizer, numa abordagem repentista, que o seu conjunto intersecção é vazio. De facto parecem ser desconexos e, no entanto, não o são, pois abordam o mesmo tema: a necessidade de desracionalização (sim, sim, a palavra não deve existir) de parte da nossa vida. Schiller, o filósofo alemão que escreveu abundantemente sobre o Belo e o Agradável, achava que as pessoas demasiadamente racionais ou lógicas perdiam a capacidade de ver o Sublime. 

Visto por um certo ângulo, há uma total similitude entre pertencer à Igreja Católica e ler um romance. O que é esse ângulo, esse menor múltiplo comum que liga dois aspectos tão diferentes da história do mundo ou de cada um de nós? A resposta está na suspensão da incredulidade que, é por seu lado, o princípio da desracionalização. Assim sendo,  os pressupostos (i), (ii) e (iii), não só não são disjuntos como se intersectam fortemente.

Suspender a incredulidade é, repito, ignorar a implausibilidade da narrativa; é acreditar que aquilo é verdade, mesmo sabendo que não poderia ter acontecido (ou nós não concebemos possível com o nosso mindset); é deixar-se arrebatar pelo inverosímil, pelo encanto de uma história ou pela forma como ela é contada; é querer ser o herói, ansiar pelo castigo justo do vilão, rir como a criança que ri naquela história, sofrer com os que sofrem, sentir no corpo ou no espírito as dores que são de outrem. Mas suspender a incredulidade é também deixar-se invadir pela sensação de uma descoberta, pela visão do que era até então desconhecido.

O olhar excessivamente racional ou lógico tem tradução num gesto físico concreto, observável a olhos nus: é o olhar que, por demasiado próximo do objecto, detecta facilmente a imperfeição do contorno de uma letra impressa, uma mancha dissonante nos olhos de uma criança pintada a óleo, a implausibilidade de uma paixão que nasce numa franja negligente da violinista. É o olhar que, por demasiado próximo do objecto, vê a inutilidade do incenso que se queima numa cerimónia religiosa, a soturnidade de um coro de Bach a cantar a paixão de Cristo, a incoerência imperdoável e demolidora daqueles que pregam o que não fazem ou o fazem num léxico despropositado. Um olhar excessivamente próximo detecta a pequena falha que desfeia, o pequeno defeito que corrompe, o pequeno desvio que elimina. Não vê o conjunto, o global, a floresta onde tudo acontece. Fixa a árvore, talvez o arbusto, seguramente a erva daninha.

Suspender a incredulidade na leitura de um romance, ou suspender a incredulidade na nossa história com a Igreja Católica é pormo-nos à distância certa, acreditar na plausibilidade do implausível, aceitar o rito como agregador de uma multidão heterogénea, não descurar a importância dos pormenores, acreditar na busca de uma perfeição humanamente incerta. Suspender a incredulidade é deixarmo-nos arrebatar pela paixão ou pela exaltação, abrindo espaço para a entrada do Sublime.
   
JdB       

* publicado originalmente a 6 de Abril de 2016

23 março 2025

III Domingo da Quaresma

 EVANGELHO – Lucas 13,1-9

Naquele tempo,
vieram contar a Jesus
que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus,
juntamente com o das vítimas que imolavam.
Jesus respondeu-lhes:
«Julgais que, por terem sofrido tal castigo,
esses galileus eram mais pecadores
do que todos os outros galileus?
Eu digo-vos que não.
E se não vos arrependerdes,
morrereis todos do mesmo modo.
E aqueles dezoito homens,
que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou?
Julgais que eram mais culpados
do que todos os outros habitantes de Jerusalém?
Eu digo-vos que não.
E se não vos arrependerdes,
morrereis todos de modo semelhante.
Jesus disse então a seguinte parábola:
«Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha.
Foi procurar os frutos que nela houvesse,
mas não os encontrou.
Disse então ao vinhateiro:
‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira
e não os encontro.
Deves cortá-la.
Porque há de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’
Mas o vinhateiro respondeu-lhe:
‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano,
que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo.
Talvez venha a dar frutos.
Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano».

21 março 2025

Música e poema para os dias de ontem e de anteontem

 

Vendaval

Meu coração quebrou.
Era um cedro perfeito;
Mas o vento da vida levantou,
E aquele prumo do céu caiu direito.

Nos bons tempos felizes
Em que ele batia, erguido,
Desde a rama às raízes
Era seiva e sentido.

Agora jaz no chão.
Palpita ainda, e tem
Vida de coração...
Mas não ama ninguém.

Miguel Torga, in 'Diário (1942)'

20 março 2025

Ainda das corridas de touros

 

Mão amiga enviou-me um link para uma notícia que poderão ler aqui: as corridas de touros, tal como as conhecíamos, acabaram na Cidade do México. Estamos mais perto do que um primo, agricultor e ganadero, vaticinava há uns largos anos: as touradas acabarão no espaço de uma geração

Tenho uma relação estranha com as corridas de touros - espectáculo que aprecio muito. Naturalmente avesso à violência sobre animais - até sobre aqueles de que não gosto, como os gatos - não me faz confusão ver um touro a morrer numa praça. Apesar de ser incapaz de dar um pontapé num gato - para me manter nestes felinos - vejo, sem um enorme incómodo, um touro que demora a morrer porque a estocada não foi eficaz. E vejo ainda, sem um sobressalto assinalável, o que se faz ao touro para terminar o processo (com a puntilla) ou para corrigir a ineficácia da estocada (com o descabello).

Dentro de mim há um bárbaro, estou certo. Não me orgulho disso, não me envergonho disso. É o que é, e tudo me sai naturalmente, isto é, não viro a cara ao sangue na arena, não me comprazo com o sangue na arena. Faz parte de um espectáculo que aprecio, que tem raízes antigas, que representa parte de um modo de vida do campo que está a desaparecer da vista e da prática, que opõe homem e animal num combate forçosamente desigual, onde se digladiam bravura e coragem, arte e tragédia.   

As corridas de touros acabarão? Talvez sim, talvez não. No meu tempo haverá sinais pequenos e irreversíveis de que o sim está mais perto. Até lá é apreciar e não entrar em discussões sobre o tema.

JdB 

18 março 2025

Textos dos dias que correm

Viver sem Sofrimento

Os prazeres ardentes são momentâneos, e custam graves inconvenientes. O que devemos cobiçar é viver sem sofrer muito. Aquele que sofre foge-lhe uma parte da existência. O mal é nocivo à plenitude da vida por que é sempre causa do aniquilamento. Quando o sofrimento nos ameaça, e receamos que as forças defensivas nos faleçam, suspendem-se os outros movimentos do nosso coração, e então pouco há que esperar de nós, por que se torna incerto o nosso destino. O bem-estar de grande numero de individuos, que vivem retirados das agitações, depende mais da sua disposição habitual de pensamento que da influência de causas exteriores. A crise moral pode surpreendê-los e magoá-los momentaneamente; mas a força dos acontecimentos é meramente relativa. Os sofrimentos são mais ou menos intensos, conforme a época em que nos oprimem. O que ontem poderia aniquilar-me, levemente me incomoda hoje. Cinco minutos de reflexão me bastam. A maior parte dos objectos encerram e presentam, indirectamente pelo menos, as propriedades oportunas. Pô-las em acção é no que assenta a industria da felicidade. Há aí que farte instrumentos fecundos de prazeres úteis; ponto é saber meneá-los. Quem não sabe trabalhar com eles, fere-se. Discernir, isto é, reflectir é o que mais importa... 

Camilo Castelo Branco (cujo duplo centenário de nascimento se lembrou no passado dia 16), in 'Cenas Inocentes da Comédia Humana (1863)'

17 março 2025

A Porta do Cerco *

Porta do Cerco, Macau

O estabelecimento de ensino universitário era reconhecido a nível mundial: o rigor e competência da classe docente, a taxa de empregabilidade, o rácio oferta / procura, a ausência de escândalos, a sobriedade das instalações não obstante a sua dimensão, os princípios de ética subjacentes às matérias ministradas e às conversas regulares entre professores e alunos. 

A escola, malgrado ser teoricamente mista, tinha regras muito próprias, nunca violadas: apesar do internato, dentro das instalações (porque fora delas cada pessoa seguia códigos próprios) rapazes e raparigas nunca se cruzavam, nunca se viam, estavam impossibilitados de qualquer contacto físico ou verbal. E no entanto frequentavam a mesma escola. Se era um professor a ministrar uma certa cadeira, na sala de aula só havia rapazes, sendo que as raparigas acompanhavam a matéria dada por meio de um sistema que as impossibilitava de ver os colegas e o docente; a inversa também se aplicava.

A propina dos rapazes era elevada. A das raparigas era muito baixa, sendo compensada com actividades de carácter doméstico - confeccionar a comida, lavar e engomar a roupa, pôr e levantar a mesa, fazer as camas. Nunca, mas nunca, vendo os destinatários das camisas que tratavam, dos lençóis que esticavam, dos rissois que fritavam. Um sistema de câmaras comunicantes, de portas de sentido único, de vigilância permanente garantiam a segregação absoluta. Uma espécie de apartheid ultra-rigoroso englobando todos os sentidos. Se o regime de internato lhes fosse imposto desde o dia em que nascessem, poucos saberiam que existia algo chamado sexo oposto

Maria frequentava esta escola há dois anos. Raramente ia a casa, pois calcorrear 500 km, qualquer que fosse o meio de transporte, não era coisa fácil - menos ainda barata - pelo que ficava por Lisboa, frequentando alguns bares ou discotecas mais decentes com colegas da escola. Num dia de Inverno rigoroso, a poucos dias do início do Advento, cruzou-se com o Manuel num bar da moda. Ficou estarrecida com o impacto. Não percebeu se era do cabelo grisalho num rapaz jovem, da boca carnuda, das pernas esguias, do tronco bem delineado numa roupa corriqueira, dos olhos peregrinos. Ou talvez fosse, apenas, a visão de um homem no final de um período de estudos e exames onde só se cruzava com mulheres. Talvez fosse tudo isso, ou ainda de um cocktail que a haviam obrigado a provar.

Nessa mesma noite Maria deitou-se a chorar. Na manhã seguinte levantou-se a chorar. Não era a primeira experiência sexual dela. Mas num carro? Com um desconhecido que lhe dizia que ia para Macau de férias, onde os pais trabalhavam? Não era possível! E no entanto tinha acontecido. Pior que tudo, divertira-se, gostara, apetecera-lhe repetir embora a probabilidade fosse baixa, já que o bar ficava fora do seu circuito. Voltou a chorar e agarrou um cesto de roupa suja para por na máquina de lavar. Foi então que se confrontou com um par de boxers de onde sobressaía uma fotografia: a Porta do Cerco e a frase de Camões: "a Pátria honrai, que a Pátria vos contempla...". Percebeu tudo ao identificar um cheiro que também era dela...

JdB           

* publicado originalmente a 10 de Setembro de 2015

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