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24 junho 2016

Músicas dos dias que correm



Lagrimas negras

Aunque tú me has echado en el abandono.
Aunque tú has muerto mis ilusiones.
En vez de maldecirte con justo encono
En mis sueños te colmo,
en mis sueños te colmo
de bendiciones

Sufro la inmensa pena de tu extravio
Siento, dolor profundo de tu partida.
Y lloro sin que tu sepas que el llanto mio
Tiene lagrimas negras,
Tiene lagrimas negras como mi vida.

Viendo el Guadalquivir
Las gitanas lavan
Los ninos en la orilla
Viendo los barcos pasar.
Agua de limonero
Agua de limonero
Si te acaricio la cara
Tienes que darme un beso

En el Guadalquivir
Mi Gitana lavaba
Panuelo de blanco y oro
Que yo te daba, que yo te daba

Tu me quieres dejar
Yo no quiero sufrir
Contigo me voy, gitana,
Aunque me cueste morir.
Contigo me voy, gitana,
Aunque me cueste morir.

***


El dia que me quieras

Acaricia mi ensueño
El suave murmullo
De tu suspirar.
Como ríe la vida
Si tus ojos negros
Me quieren mirar.
Y si es mío el amparo
De tu risa leve
Que es como un cantar,
Ella aquieta mi herida,
Todo, todo se olvida.

El día que me quieras
La rosa que engalana,
Se vestirá de fiesta
Con su mejor color.
Y al viento las campanas
Dirán que ya eres mía,
Y locas las fontanas
Se contarán su amor.

La noche que me quieras
Desde el azul del cielo,
Las estrellas celosas
Nos mirarán pasar.
Y un rayo misterioso
Hará nido en tu pelo,
Luciernagas curiosas que verán
Que eres mi consuelo.

El día que me quieras
No habrá más que armonía.
Será clara la aurora
Y alegre el manantial.
Traerá quieta la brisa
Rumor de melodía.
Y nos darán las fuentes
Su canto de cristal.

El día que me quieras
Endulzará sus cuerdas
El pájaro cantor.
Florecerá la vida
No existirá el dolor.

La noche que me quieras

11 junho 2013

Duas últimas

Fotografia do homem de Azeitão, José Manuel Arriaga e Cunha, de quem sou amigo, com quem estive na 6ªfeira e a quem pedi uma fotografia relacionada com procura, sabedoria, essas coisas... Mandou-me três, que publicarei a seu tempo


Aqui há algumas semanas escrevi sobre confiança, num post que incluía outras minudências, farrapos da minha vida quotidiana que por vezes só eu entendo, ou que nem eu entendo porque tudo fica a pairar na minha cabeça sem grande nexo, sem um molde que lhe dê forma. Fazia-me falta recordar uma frase que ouvi na penúltima aula da minha pós-graduação: a escrita tem uma função reparadora. Mas sinto, e não vou reclamar um sentimento que me seja específico e exclusivo, que tenho muito mais pensamentos na cabeça do que capacidade para os processar. Nada disto terá a ver com inteligência, cultura, intelectualidade. Talvez seja apenas uma curiosidade ingénua ou, como me dizia alguém próximo, uns olhos que não param quietos.

Caminho para a última aula da pós-graduação a que me desafiaram há um ano. Guardarei alguns pormenores mais prosaicos para outras núpcias. Agora penso no que aprendi, no que não sabia e já sei; penso naquilo que achava que sabia e que confirmei desconhecer por completo. Se me pedirem uma palavra para caracterizar este ano hesito e recuso o pedido, por incapacidade de sintetizar. Ocorre-me desafio, inquietação, desinstalação, amplitude, expansão. Os que não me conhecem imaginarão uma presunção na escolha das palavras, um novo-riquismo de vocabulário. Os que me conhecem bem perceberão que não é isso. Os que me pressagiam olhos permanentemente peregrinos intuirão que há aqui uma ligeiríssima angústia: o que faço com tudo isto de que me falaram nas aulas e que me abriu os olhos para tantas coisas? O que faço com tudo isto que que oiço e leio, que percebo que existe mas que eu não sei agarrar, moldar com as mãos, conferir-lhe um formato que se possa por numa estante da sala ou numa mesa de cabeceira, porque cada lugar tem a sua beleza e a sua importância metafóricas na vida de um homem?

Comecei este post pela ideia de confiança e perdi-me nos caminhos que trilhei. Mas perdi-me confiado, confesso, porque sei, a cada dia que passa, da importância de se ter confiança. Há o saber porque se acha que é assim que tem de ser; mas há o saber que advém das evidências, das sensações, dos acasos, dos sinais, da experiência. Há alguns anos, um homem com quem converso amiúde dizia-me que não é o tempo que cura o que quer que seja, mas a qualidade do tempo. Talvez eu tenha usado o meu tempo com qualidade. E só isso seja motivo de confiança.

Deixo-vos com Obsesion, dos senhores Bebo Valdes e Diego El Cigala. Porque também de obsessões se constrói a beleza da vida.

JdB

           

02 abril 2013

Duas últimas


Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes são-no cada uma à sua maneira (Tolstoi, in Ana Karenina).

A frase não me é recente no ouvido, talvez o seja no pensamento.  Nas últimas semanas, por motivos que se prendem com a amizade que tenho por pessoas, e com as conversas que vou tendo com quem me ouve, me fala e me alerta, a citação surgiu-me à boca da mente, numa espécie de peço licença para se evidenciar e ser o princípio de um escrito. Ou, melhor ainda, como quem se arroga o direito de ser a condensação de ideias certas – e seguramente esquecidas.

Ao longo da minha vida fui acompanhando pessoas que sofriam. Uso o verbo acompanhar na sua definição menos nobre: ir na direcção de... Num ou noutro caso a consciência permite-me a elevação de espírito e referir o estar ou ficar junto de (alguém). Talvez fosse mais correcto afirmar, se a simplicidade fosse o meu forte, que vi pessoas sofrerem, porque acompanhar seria um upgrade a que nem sempre me atrevo. Em boa verdade, o facto é que conheço gente que sofreu, que passou por maus bocados, que chorou intimamente ou numa roda de amigos, que se armou em valente para não maçar ninguém, que fingiu armar-se em valente ou que fingiu não querer maçar ninguém. Gente houve que sofreu por muito, por pouco, por assim assim, por aparentes ninharias ou por coisas que deitam abaixo o mais resistente. Gente houve que sofreu pela incapacidade de inverter o rumo dos acontecimentos, pelo infortúnio da vida que está fora das nossas mãos, pela má escolha dos caminhos trilhados.

A visão do padecimento alheio pode ser um exercício de aproximação assente, tantas e tantas vezes,  numa tentativa e erro. Se nos aproximarmos muito, temos a visão de um pormenor apenas, de um detalhe tão mais ínfimo quanto mais próximos estivermos; ao afastarmo-nos, vemos a pessoa na sua totalidade; se nos distanciarmos ainda mais, aquele que sofre é um vulto contra um horizonte vasto. (Que não se leia afastamento como um desinteresse, mas apenas como o exercício de uma distância que não tem conotação negativa). O que queremos nós ver? O pormenor, a pessoa, ou a grande fotografia? E o que é importante que vejamos para que se cumpra a função da simpatia, se não se cumprir a da compaixão? Em bom rigor não há distâncias erradas, apenas atitudes erradas.

Confesso que não sei a resposta. Coloquei-me, muitas vezes, a uma distância mental que não me tolhesse a noção da relatividade das coisas, porque isto é maior do que aquilo, e há aqueles com quem a comparação é uma pedagogia, pelo tanto que passaram. Estou convicto de que uma vezes acertei, outras falhei, uma estatística que abre caminho à melhoria contínua – algo entre o convencimento da certeza permanente e o desespero da falha sistemática. Momentos há em que os discursos de conforto podem ser desajeitados, egocêntricos, esmagadores, tornando-nos num receitador de poções mágicas para consumos universais. Momentos há em que não discernimos a posição relativa onde devemos colocar-nos, porque ao sucesso próprio pode corresponder uma trituração alheia. O erro que se repete, estou em crer, é duplo: um, acreditar que pessoas diferentes têm de usar fórmulas de cura iguais, como se houvesse uma receita salvífica que se adequasse à diversidade humana; dois, esquecer que todas as famílias felizes são iguais, mas que as infelizes o são cada uma à sua maneira.  

Deixo-vos com o senhor Ramón Emílio Valdés, mais conhecido como Bebo Valdés, recém desaparecido.

JdB




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