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21 março 2025

Música e poema para os dias de ontem e de anteontem

 

Vendaval

Meu coração quebrou.
Era um cedro perfeito;
Mas o vento da vida levantou,
E aquele prumo do céu caiu direito.

Nos bons tempos felizes
Em que ele batia, erguido,
Desde a rama às raízes
Era seiva e sentido.

Agora jaz no chão.
Palpita ainda, e tem
Vida de coração...
Mas não ama ninguém.

Miguel Torga, in 'Diário (1942)'

15 novembro 2019

Duas Últimas

Seguem, abaixo, duas letras de canções que, no seu tempo, fizeram sucesso: Cavalo de Corrida (cantado pelos UHF) e Fiz Leilão de mim, cantado por Tony de Matos. Vale a pena atentar nas letras, esta conta uma história, aquela diz coisas que não sei se fazem sentido.

É isto, no fundo.

JdB




Cavalo de Corrida

Agora é que a corrida estoirou, e os animais se lançam num esforço
Agora é que todos eles aplaudem, a violência em jogo
Agora é que eles picam os cavalos, violando todas as leis
Agora é que else passam ao assalto e fazem-no por qualquer preço

Agora, agora, agora, agora, tu és um cavalo de corrida, eh

Agora é que a vida passa num flash e o paraíso é além
Agora é que o filme deste massacre é a rotina Zé Ninguém
Agora é que perdeste o juízo, a jogar esta cartada
Agora é que galopas já ferido, procurando abrir passagem

Agora, agora, agora, agora tu és um cavalo de corrida, eh

Agora, agora, agora, agora tu és um cavalo de corrida
Agora, agora, agora, agora tu és um cavalo de corrida, eh

***



Fiz Leilão de Mim

Talvez de razão perdida
Quis fazer leilão da vida
Disse ao leiloeiro
Venda ao desbarato
Venda o lote inteiro
Que ando de mim farto
Meus versos que não são versos
Atirei ao chão dispersos
A ver se algum dia
O mundo pateta
Por analogia
Diz que sou poeta

Refrão:
Fiz leilão de mim
E fui por fim apregoado
Mas de mau que sou
Ninguém gritou arrematado
Fiz leilão de mim
Tinhas razão minha almofada
Com lances a esmo
Provei a mim mesmo
Que não valho mais que nada

Também quis vender meu fado
Meu modo de ser errado
Leiloei ternura
Chamaram-me louco
Mostrei amargura
E o mundo fez pouco
Depois leiloei carinho
E em praça fiquei sozinho
Diz-me a pouca sorte
Que para castigo
Até vir a morte
Vou ficar comigo.

12 dezembro 2017

Duas Últimas

Há em mim, com um agrado que pode ser pernicioso, uma dimensão de engenheiro de fábrica, preocupado com eficiências, produtividades, agilização de processos, ausência de paragens desnecessárias. Vou a uma repartição, a um self-service, a um serviço e tento perceber qual é o bottleneck, o que encrava o processo ou dificulta a agilização. O pensamento não serve para nada, a não ser para passar o tempo, porque ninguém quer saber da minha opinião.

Ontem fui aos Correios de Alcabideche levantar uma encomenda - no caso vertente um livro. Tirei a senha nº 66. O indicador marcava o 41, o que significava que tinha 25 pessoas à minha frente...

Os Correios, estou em crer, são o serviço mais ineficiente de Portugal. O ritmo é lento, a burocracia grande, a desmotivação deve campear, os processos não são estudados. Queremos uma carta registada com aviso de recepção e preenchemos dois papéis, penso que com muitas informações em comum - um processo que pode demorar quase dez minutos, entre pesagem, carimbo, verificação das informações, etc. 

Chegada a minha hora entreguei a senha, o aviso dos Correios e o cartão de cidadão. A funcionária levantou-se e dirigiu-se a um tabuleiro onde procurou na divisória que tinha cartas. Como estava atento, disse-lhe que era um livro. Ah, obrigada... Se eu não estivesse atento teria voltado atrás para conformar comigo o nome, o posto de correios, o remetente, etc. 

Recebi o livro: Elementos de Retórica Literária. O título é auspicioso, talvez o conteúdo seja tão ligeiro como 40 minutos de espera no posto de Correios de Alcabideche...

Deixo-vos com o tópico cartas de amor. Escrevam-nas, mas não mandem em correio registado com aviso de recepção, a menos que tenham tempo disponível...

JdB

  

05 janeiro 2011

Moleskine

Pensamentos peregrinos. Quando comecei a discernir sobre as coisas, os velórios eram cerimónias pesadas, que se arrastavam durante a noite num silêncio só vencido pela ladainha dos terços. Agora, passados tantos anos sobre esse discernimento, percebo que os velórios são curtos ao limite da legislação, as pessoas riem de volta do finado e as avé-Marias (rezadas pelas tias que sobram) são abafadas, num desrespeito quase herege, pelas conversas circundantes. No outro dia, num jantar de amigos, questionava-me: daqui por 30 ou 40 anos ainda haverá velório ou, neste horror que temos à morte, os cadáveres seguirão directamente do hospital para o crematório, passando apenas pelo facebook para condolências?

Livro. Leio Ó, de Nuno Ramos (Livros Cotovia, 2010), oferecido por mão amiga e entendida na matéria. Cito: Admiro quem responda à pergunta fatídica O que é que você tem feito? com um Não sei ou um Nada, e mais ainda quem nem sequer responda, entretido com a longa fila de formigas ou as espirais de fumaça de algum veículo.

Música. Lembro o jantar que mencionei no início. Fala-se de crooners, do seu significado, deste e daquele cantor. Menciono Tony de Matos com um dos nossos maiores, e a minha devoção patriótica é recebida com uma gargalhada alvar de desprezo vendido ao anglo-saxonismo da canção moderna. Não me rendo e defendo a minha dama (passe a expressão). O gargalhar não diminui mas eu venço, porque sou o editor e o dono do estabelecimento.


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