11 maio 2022

Vai um gin do Peter’s?

 SALVOS PELA AMIZADE – CURTA-METRAGEM ALEMÃ

É obra ser um alemão a realizar um filme que recua ao auge da perseguição nazi aos judeus, em 1942. É também expressivo esse alemão ter nascido na metade comunista da Alemanha, em 1967, tendo vivido até aos 23 anos sob o domínio comunista controlado pela mais feroz polícia política da Cortina de Ferro – a Stasi, com quem Putin colaborou. Por tudo isto e pela clareza a mostrar o horror provocado por uma guerra apostada em dizimar outra(s) civilização(s), a curta-metragem «Toyland»(1) ganhou especial atualidade após a invasão russa da Ucrânia, devastando famílias e comprometendo o futuro dos mais novos, quer do lado das vítimas, quer do agressor. 

Assinada por Jochen Alexander Freydank (J.A.F.), TOYLAND recebeu o Óscar, em 2009 e continuou a somar um rol imenso de importantes galardões do cinema. 

Partindo das situações mais afectivas e genuínas – simbolizadas pela aflição da mãe com o filho, e desse filho com o amigo – o argumento de TOYLAND coloca no epicentro as relações de amor mais generosas e abnegadas:  a maternal e a fraternal corporizado na amizade pura entre dos miúdos: um alemão e um judeu, depois declinada nas múltiplas vertentes da fidelidade, do sentido de solidariedade e de responsabilidade, da coragem para ajudar o outro mesmo com risco de vida, etc. 

O factor-ignição da mudança na trama residiu no percalço gerado pelo desaparecimento do pequeno alemão, que veio proporcionar uma saída airosa para o desfecho mais sinistro e comum. Intencionalmente, é na hora mais improvável e de menor controle dos acontecimentos por parte dos envolvidos (incluindo as eficientíssimas SS), que se dá o twist benigno da narrativa, rasgando uma brecha de esperança naquele infernal rumo da história. Como escreveu Shakespeare, em «Hamlet»: «There are more things in heaven and Earth, Horatio, / Than are dreamt of in your philosophy». Assim o confirmamos em tantos erros de cálculo por parte de inúmeros (a maioria, creio) especialistas e veteranos de guerra ao tecer considerações sobre a guerra na Ucrânia.



Em TOYLAND, a amizade entres as duas crianças fica selada nas árias bem executadas ao piano, numa sintonia perfeita alcançada a quatro mãos. Aquela cumplicidade tão construtiva para ambos também vale pela capacidade de crescer no tempo, assim desafiando e suplantando a fugacidade da nossa condição terrena. Todo o filme respira musicalidade, fazendo fluir aquela relação ao ritmo da linguagem mais universal, onde o potencial de sintonia entre humanos converte as pequenas diferenças individuais em ganhos de parte-a-parte.

Nas horas de trevas, em que o mal parece prevalecer, J.A.F. mostra que há sempre espaço para o bem, por mais ínfimo e fortuito que se apresente. Mais: confirma o alcance prodigioso do pequeno gesto de um(a) justo/a, que pode fazer toda a diferença na História. 

Nas horas de trevas, em que as intenções mais obscuras de uns e de outros acabam por ficar expostas, a contragosto dos agressores, a criatividade inesgotável do Bem emerge com um vigor e uma possibilidade de futuro, que o mal desconhece, mais repetitivo e, sobretudo, em crescente desconforto com a realidade, até à rota de colisão frontal, depois camuflada com mentiras. Não é por acaso que quem pratica o mal acaba (a maioria até começa) por ter de recorrer à mentira e submergir-se em maquinações falsas, por não aguentar o confronto com os factos, logo que estes começam a ser-lhe adversos. Essa cisão de fundo com a verdade, gerível em guerras-relâmpagos e com sucessos exuberantes (caso do Terceiro Reich, de 1939 a 1941), agiganta-se perigosamente ao mais pequeno escolho. A partir daí, torna-se insustentável, caindo na típica imposição de fantasias paralelas, pouco aceitáveis para o comum dos mortais. Pior ainda quando se têm de aguentar crises, pois só a verdade apresenta algum consolo e oferece motivos maiores para combates extremos por entre «sangue, suor e lágrimas». 

Nas horas de trevas, quando não se vislumbra o fim de conflitos trágicos (como no caso da Ucrânia), vem a propósito lembrar a observação do grande catedrático de história, Jorge Borges de Macedo, sobre o facto de a longevidade de uma guerra requerer (nesse sentido, depender de) financiamentos chorudos dos dois lados da trincheira, pois é um sorvedor de recursos caríssimo. A prazo, sempre mais lato do que gostaríamos, é provável que os garrotes económicos produzam algum efeito. 

Nas horas mais tenebrosas, quando tudo parece perdido, só uma réstia de Bem pode convocar mais Bem, gerando uma cascata inimaginável de novidades benignas, capazes de inverter o desfecho mais macabro. Toyland mostra-o com charme, partindo da grandeza que é uma amizade verdadeira. Redunda num hino à beleza de uma fraternidade à prova de bala, daquelas em que o tempo e os contratempos jogam sempre a favor! 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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(1) FICHA TÉCNICA

Título original: SPIELZEUGLAND
Título traduzido em inglês: TOYLAND
Realização: Jochen Alexander Freydank
Argumento: Jochen Alexander Freydank e 
Johann A. Bunners
Produzido por: Jochen Alexander Freydank, David C. Bunners e Christoph Nicolaisen
Banda Sonora: Ingo Ludwig Frenzel
Duração: 14 min.
Ano:        2007
País: Alemanha
Prémios: - Oscar da Melhor Curta-metragem na categoria Best live Action, em 2009 
- Bermuda Shorts Award - Bermuda International Film Festival 
- Audience Award - the Los Angeles Jewish Film Festival, USA 
- Audience Award - SHORT SHORTS FILM FESTIVAL, TOKIO 
- APEC Award 
- Giffoni Film Festival, Italy 
- Audience Award – Goldenes EInhorn at the Alpinale, Austria 
- International Discovery Award (second Place) at Rhode Island International FIlm Festival (USA) 
- Best Children/Youth FIlm - Odense INt. FIlm Festival (DAN) 
- Audience Award - Palm Springs International Filmfestival (USA) 
- Best Film – Sedicicorto Film Festival Forli, ItalY
- Best SHORT FILM – Asheville Film Festival, USA 
- Best SHORT FILM – Victoria Independent Film Festival (AUSTRALIA) - Audience Award & Jury Award – Alemeria en Corto (ESP) 
- Audience Award – San Diego Jewish Film Festival, USA 
- Audience Award & Jury Award (second place) Bamberger Kurzfilmtage 
- Audience Award – Cleveland International Film Festival, USA.

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