04 novembro 2026

Carta a um anjo

 Foi hoje, mas há 25 anos.

***

[...]  foi a primavera da esperança, foi o inverno do desespero [...]

- Charles Dickens, História em Duas Cidades 

Defendi a minha tese de doutoramento há pouco mais de uma semana. Intitulada Sobreviver a este tempo – narrativas de pais na oncologia pediátrica, abre com duas epígrafes. A primeira, de Dickens, evoca o percurso dos pais, tantas vezes feito, num mesmo dia, de primavera da esperança e de inverno do desespero. A segunda, atribuída a Albert Schweitzer, fala da fraternidade daqueles que carregam a marca da dor. É dessa fraternidade que vêm as vozes que procurei trazer para a tese — e é também a essa fraternidade que pertenço. 

Tomei contacto pela primeira vez com a expressão 'oncologia pediátrica' no dia 19 de Março de 2001, quando foste diagnosticada. Vivi o inverno do desespero no dia 4 de Novembro desse mesmo ano, quando deixaste de estar fisicamente connosco. Entre uma data e a outra houve sempre a primavera da esperança. Ouvir 35 pais, como fiz ao longo de dois anos, é perceber que todos tiveram o seu momento de inverno, mas nem todos conheceram a graça de um tempo de primavera. 

Talvez a tese, por um capricho ou mistério, tenha começado ao contrário. Podia tê-la iniciado num qualquer momento e dá-la por terminada quando estivesse concluída. Há um certo encanto — que talvez só eu e poucos outros consigam ver — em pensar que começou a desenhar-se a tempo de ser defendida 25 anos depois do ano de todos os anos. Isto é, que começou a tomar forma a tempo de chegar ao fim agora, a poucos dias desta efeméride. 

Foram 25 anos intensos, carregados, com uma proporção nem sempre justa, de tempos mais tristes e de tempos mais fagueiros, de desalento e confiança, de desilusão e luminosidade. Acima de tudo, foram tempos ricos em desafios e na procura daquilo que é importante e permanece: o amor, o sentido das coisas, o olhar que se perde no fio do horizonte onde estão a paz e o sossego interior. 

Do terror de um campo de concentração, alguém dirá a Etty Hillesum: Se sobreviver a estes tempos, sairei deles como alguém mais maduro e profundo; e, se morrer, morrerei como alguém mais maduro e mais profundo. Não se comparam terrores. Mas esta frase encontra-se com o pensamento de Emmanuel Mounier: Se não fizermos mais nada do que sofrer — padecer, aguentar, suportar — não resistiremos e faltaremos ao que nos é pedido. 

A tese encerra um ciclo. Não sendo autobiográfica — as vozes são as de outros Pais —, está lá toda a minha história, a tua história, a história daqueles que olharam para ti num longínquo 6 de Julho e nunca mais perderam esse olhar. A tese existe por ti e para ti. Porque é em ti, que já só vemos com os olhos do coração, que encontramos a permanente fonte de inspiração para não faltarmos ao que nos é pedido pelo destino, pela consciência, pelos outros, por nós próprios, pela fé.

Ver-te, imaginar-te, pensar-te ou sonhar-te só é possível porque já não estás entre nós. A permanência só nos é garantida pela memória dos que já não permanecem. 

A vida muda; a vida muda-nos. Obrigado por aquilo que fizeste de nós.

J, em nome de todos os que te lembram.

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