DICA FÁCIL COM CRIANÇAS FAVORECE O SUCESSO
Nas infinitas dicas de educação para ajudar os mais novos a crescer com autoestima, sentido de responsabilidade e as demais soft skills úteis para a idade adulta, há muitas já consagradas, como por exemplo: praticar um desporto, aprender música e outras expressões artísticas, treinar uma segunda língua, ler os clássicos. Menos comum é recomendar uma actividade prosaica, gratuita e acessível: ajudar nas lides caseiras. De tão banal, este conselho poderá ser desvalorizado na panóplia de conselhos para uma educação integral.
Porém, diversos fundamentos psicológicos confirmam os benefícios de incitar os miúdos, logo na primeira infância e segundo as capacidades de cada um, a colaborar em casa, arrumando a loiça na máquina, dobrando a roupa lavada, pondo a mesa, etc.
Em países desenvolvidos – sobretudo, de língua inglesa – chegou a circular uma estatística (supostamente, vinda de Harvard), que ditava uma probabilidade muito expressiva de 75% de sucesso em adulto, para as crianças que tinham participado nas lides caseiras. Embora tal quantificação não tenha sido certificada por Harvard, resultados de estudos de várias universidades (da Austrália aos EUA) concordam nas vantagens de as crianças participarem nas tarefas domésticas, para o desenvolvimento precoce de competências úteis, ainda que nem todas sejam sonantes. Destacam-se a: maior autonomia individual, persistência, paciência, maior destreza na sociabilização com ganhos de satisfação pessoal, aumento da empatia traduzida em melhor relacionamento intergeracional, maior compromisso social, melhor gestão emocional. Observou-se ainda que estimula o desenvolvimento do cérebro, ganhando-se maior proficiência a resolver situações correntes e enriquece-se o espectro das interações e das rotinas. Todavia, o trunfo mais valioso para forjar uma personalidade rica, autoconfiante e consistente advém do sentido de pertença, ao dar aos mais novos a noção clara de terem lugar no ‘grupo’, de serem valorizados pelos outros. No início de vida, a casa e a família serão o melhor contexto para esse reconhecimento gratificante e palpável de serem precisos, de serem capazes, de integrarem algo maior do que eles. Para os pais, será também gratificante constatar que, algumas vezes, os filhos pequeninos estão dispostos a largar os brinquedos e os jogos para ajudar a pôr o jantar na mesa! Mais tarde, esses pequeninos perceberão o privilégio de ter nascido num chão seguro.
| O gozo único dos brinquedos a sério… |
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| Os jogos mais inesquecíveis incluem os pais. |
Se os prós são evidentes, um contra poderá surgir para uns quantos, pelo motivo mais paradoxal: o facto de esta dica pedagógica ser excessivamente fácil, acumulando sintomas percepcionados como menos credíveis, para quem dê (e são muitos) maior credibilidade às soluções complexas, pouco acessíveis, preferencialmente de toque elitista. Para esses, a dificuldade, em vez de intimidar, costuma servir-lhes de selo de qualidade e de fiabilidade. Sob esse ângulo, esta dica transbordará de sinais suspeitos, começando pela extrema simplicidade. Segue-se, o custo zero. E, qual ‘cereja no topo do bolo’: é de acesso universal!
Quando um conselho simplicíssimo de educação, com provas dadas, for rejeitado pelo facto de ser simples, algo está mal nessa avaliação, dando a medida de uma hierarquia de valores fortemente invertida. Uma alegoria tradicional explica o perigo dessa inversão: conta-se que um duende estouvado aproveitou a calada da noite para ir às lojas de um centro comercial, com as luzes já apagadas, para se divertir a trocar os preços dos produtos, da forma mais aberrante. Nenhuma etiqueta ficou no sítio. A do frigorífico mais caro saltou para a caixa de pilhas, a do Rolex para o tubo de cola, a do vestido de marca para os ovos, e assim por diante. No dia seguinte, quando as lojas abriram, instalou-se o caos, com clientes a precipitarem-se para comprar a máquina de lavar marcada a 2€ e o frigorífico a 5€, enquanto outros reclamavam do pano do pó a 2.000€. Mal nos damos conta que, em vários aspectos, a alegoria do duende retrata situações insólitas da actualidade (outras épocas sobrevalorizaram outras modas também descabidas), pagando-se fortunas colossais por profissionais do entretenimento (de comediantes, a futebolistas, passando por actores), enquanto se ignoram as condições infra-humanas de muita gente, no planeta. Estranhas escolhas, que serão incompreensíveis para as gerações futuras…





