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07 outubro 2009

Ainda S. Paulo e a Acreditar

Ontem era a gala de abertura dos trabalhos do SIOP - Societé Internacionale de Oncologie Pediatrique -, organismo a que o ICCCPO se junta para as suas reuniões anuais. De um lado os médicos, do outro os pais. No fundo, no fundo, as partes interessadas (para usar uma expressão mais corrente do que afectiva) quando se trata de uma criança com cancro.
O programa social passava por um espectáculo na Sala São Paulo, um belíssimo recinto recuperado a partir de uma antiga estação de caminhos-de-ferro, onde se ouviria música de Tom Jobim, Villa-Lobos, Nepomuceno, Francisca Gonzaga, Ary Barroso. Antes do show, uma multidão afadigando-se de volta de petit riens que se comem, se bebem, se conversam, se riem. Encontrões, apertos, dificuldades em chegar às vitualhas, gente que defende a sua travessa como se não houvesse amanhã. 1200 pessoas, talvez mais, na sua esmagadora maioria médicos da área da oncologia pediátrica. Eu conversava com a sumidade portuguesa, de quase 80 anos, fundador do serviço de pediatria do IPO. E os encontrões, e as sumidades, e os apertos, e os cercos, e a boca seca. E um empregado que, no meio daquele mar de gente, se dirige a mim (sim, a mim e não a quem estava comigo, a quem trato respeitosamente por Senhor Professor) e me diz com um sorriso genuíno:
- Dôtô João! Ali ao lado tem uma sala com menos gente.
Olhei para ele e retribuí o sorriso que acompanhei com um agradecimento. Lembrei-me do Eça, no Conde de Abranhos:
- Bom rapaz, este António...

O post abaixo fala de cancro, de cancro, de cancro. O tema está subjacente em todas as palestras ou trabalhos de grupos, porque é por isso que esta gente se reúne. Quando falamos entre pais imginamos as histórias, as saudades, as expectativas, os desgostos, as pequenas melhoras, os exemplos, os casos de sucesso, a lágrima fácil e sentida. Ontem, ao ver aquelas mais de mil pessoas, entre pais e profissionais de saúde, na sala S. Paulo, imaginei, metaforicamente, o recinto totalmente vazio e a oncologia pediátrica remetida a uma história de memórias antigas, de sorrisos com que brindamos algumas efemérides e lembranças. Ontem vi a vitória à minha frente. E disse três vezes, tantas quantas as que usei para a palavra cancro: esperança, esperança, esperança.
Acreditar é, sobretudo, isto.

S. Paulo (Brasil) e a Acreditar

Cheguei 6ªfeira de madrugada a S. Paulo. Lembro, sem saudade e como primeiro impacto, uma espera de duas horas para sair do aeroporto: filas para a Polícia Federal, para passar a alfândega, para olhar com uma desmoralização ensonada a ausência da minha mala, levada por engano pela Vivian Leite (não, não conheço) que diminuiu a importância das identificações apostas na pega.

Durante o fim-de-semana andei por aí com uma amiga local que me foi apresentando parte das suas rotinas de diversão. Na solitude, também, do viajante que já conheceu mundo acompanhado apenas pelos seus pensamentos, vi arte, lojas, ruas movimentadas, trânsito caótico, esplanadas à beira da Avenida Paulista, gente simpática e afável, preocupações com a segurança, carros trancados e vidros fechados, livrarias que apetece arrematar. S. Paulo será melhor para se viver durante algum tempo do que para veranear por poucos dias.

A partir de ontem o caso mudou de figura. Até ao final da semana represento a Acreditar na reunião anual do ICCCPO, a organização mundial das associações de crianças com cancro.

Na mesma semana almoço regionalmente no cosmopolita e ruidoso Consulado Mineiro, entregando o meu palato (salvo seja) a um rabo de boi estufado com agriões e arroz; passeio pelo parque Ibirapuera onde visito uma exposição afro-americana e o museu de arte moderna; no Astor, lá para a Vila Madalena, provo uma caipirinha de caju e um bolinho de bacalhau; conheço gente local, que me presenteia com um sorriso e um sem-cerimónia.

Na mesma semana, repito, assisto a apresentações de survivors (continuo a não gostar da tradução sobreviventes), oiço falar de tumores cerebrais, de cuidados paliativos, de partilha, de fim de vida de crianças, de cancro, de cancro, e de cancro naqueles que deviam brincar, não ser tratados.

Uma semana de luz e de sombra, de escuridão e de claridade, de esperança e recordações dolorosas. No fundo, no fundo, uma semana que reflecte a vida de muitos de nós, balanceados entre os dois lados de uma mesma moeda. Usando a fórmula com que termino alguns escritos, Acreditar é também isto...

Porque a vida é também música, oiçamos Caetano Veloso explicar como vê S. Paulo.

Adeus, até ao meu regresso...



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