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06 junho 2017

Dos objectos - o caixote

Volto aos objectos para fechar uma trilogia que começou com um roubo, passou por uma fábula, termina num encaixotamento.

Ando a fechar uma casa. Isto é, não fazendo sentido permanecer aberta por desaparecimento de quem lá vivia, a habitação tornou-se um artigo vendável. A venda e o encaixe financeiro são a parte interessante (e não vale a pena falar do desaparecimento de pessoas) deste processo. A jusante e a montante - acompanhando-nos, portanto, do princípio ao fim - há o esvaziamento da casa, bem menos interessante: a distribuição de algumas peças, a decisão quanto a tantas outras que não são objecto de desejo imediato.

Quando dei por mim, tinha dezenas de artigos - bibelots diversos, molduras, cinzeiros, copos, álbuns de fotografias antigas, jarros, serviços, peças de arte menor - cujo destino carecia de decisão. Na minha mão direita estava um objecto qualquer; olhei para ele e disse de mim para mim: caramba! lembro-me disto há 50 anos cá em casa. Que graça, traz-me tantas memórias... Depois, na minha mão esquerda, o mesmo objecto suscitou-me um pensamento diverso: pois é, lembro-me bem disto há 50 anos; mas o que faço com isto agora que não serve para nada e ocupa espaço?

Não me arrogando o pioneirismo em nada, à minha frente estava uma alternativa difícil quando se esvazia uma casa: opto pelo útil ou pela memória? Como resolvi este imbróglio? Empurrando com a barriga: alguns objectos foram deitados fora, outros serão encaixotados, atirados para o olvido da inutilidade até que um dia se decida um destino, que não é mais do que adiar o inevitável: deita-se para o lixo, porque ninguém quer.

Gostaria de dizer que estou numa idade em que quero menos coisas, mas não é totalmente verdade. Talvez adquira menos, a não ser livros, mas das que herdei / herdarei terei sentimentos mistos: são memórias sem utilidade prática. São memórias que me atiram para pessoas ou, na maior parte dos casos, para épocas.

(Ontem, num quase corredor de hospital público, conversava sobre isto: as memórias são sempre de pessoas? Quase sempre? Depende? E o que faz isso por nós, as memórias que os objectos suscitam?) 

Há objectos que me acompanham a mente há mais de 50 anos. Não têm a menor utilidade, não são lindíssimos ou valiosíssimos, remetem-me apenas para um tempo que nalguns casos até foi feliz. Fico com eles e mantenho a graça de contar o que era aquilo a uma geração vindoura que se desinteressará crescentemente, à medida que deixa de conhecer os personagens, ou transformo-me em homem prático com laivos de despojado, desapegando-me das coisas que me são inúteis do ponto de vista prático? 

Ser-se utilitário é péssimo. Ser-se desutilitário também. Entre les deux mon coeur balance...

JdB

01 junho 2017

Dos objectos - uma fábula *

Milly ou la terre natale (I)

Pourquoi le prononcer ce nom de la patrie ?
Dans son brillant exil mon coeur en a frémi ;
Il résonne de loin dans mon âme attendrie,
Comme les pas connus ou la voix d'un ami.

Montagnes que voilait le brouillard de l'automne,
Vallons que tapissait le givre du matin,
Saules dont l'émondeur effeuillait la couronne,
Vieilles tours que le soir dorait dans le lointain,

Murs noircis par les ans, coteaux, sentier rapide,
Fontaine où les pasteurs accroupis tour à tour
Attendaient goutte à goutte une eau rare et limpide,
Et, leur urne à la main, s'entretenaient du jour,

Chaumière où du foyer étincelait la flamme,
Toit que le pèlerin aimait à voir fumer,
Objets inanimés, avez-vous donc une âme
Qui s'attache à notre âme et la force d'aimer ?...

Alphonse de LAMARTINE   (1790-1869)

***

Quatro tristes quadras em francês?, perguntou o cachimbo. Mas o que está a passar-se aqui? Depois, como quem não quer a coisa, mas a quer ao mesmo tempo, olhou em volta e ficou perplexo. Pode parecer estranho alocar uma perplexidade a um objecto inanimado e, por isso mesmo desprovido de alma - esse órgão imaterial que, dentro de nós, é responsável pelas emoções estranhas, mas o facto é que o cachimbo se encheu dessa perplexidade acima mencionada. Ao lado dele, como se fossem mancebos recrutas numa caserna impessoal e simétrica, dezenas de cachimbos alinhados - espanhóis, italianos, em madeiras exóticas, em loiça, mais ou menos usados, com aromas doces, mais frutados, mais intensos, envelhecidos, como se um perfume não fosse mais do que o vinho das fragrâncias que melhora com a idade. Havia cachimbos para todos os gostos e feitios, e o cachimbo - o tal da perplexidade, sentiu-se acompanhado, apoiado, acarinhado, como se houvesse, nesse artigo que exala fumos relaxantes, uma espécie de todos diferentes todos iguais que conforta os sentidos. 

Ao lado dele, o livro suspirou de enfado. Irritava-lhe a parecença entre artefactos fumadores. No fundo no fundo, são todos iguais - um tubo, um recipiente, uma abertura. Varia pouco porque não pode variar muito: para um cego é igual, para alguém sem odor é pouco mais do que igual. Pelo contrário, os livros eram todos diferentes - havia lombadas à inglesa e à francesa, havia cor, havia gramagem de papel, havia tipo de letra e escolha da badanas, texto na contracapa. Para além disso, no interior era um mundo de diferenças - textos sobre dietas, vidas difíceis, comédia, história das nações ou das pessoas, ficção, ciências sociais, esoterismos, poesia, política, corrupção, amor e beijos. O livro era, para o livro, um mundo à parte. Por mais livros que houvessem, todos eles se diferenciavam. Os cachimbos viviam numa caserna; os livros num renque de moradias de autor, todas diferentes, nenhumas iguais. 

O relógio olhou para o lado e assustou-se, não porque estivesse sozinho, mas porque estava acompanhado. Não gostava da companhia, era pela exclusividade. Embora percebesse que havia características que o aproximavam do cachimbo (o livro era apenas um pedante, com um raciocínio fraquíssimo...) o relógio gostava de uma certa ideia de objecto único. Um relógio dá as horas, cem relógios dão as mesmas horas, pese embora o cansaço, a diferença micrométrica num balanço ou o desgaste dos materiais. A existência de vários relógios numa expositor dava-lhe uma dimensão de harém: o sultão entra na sala das concubinas e diz: hoje é a Marília. E por isso o sultão não se afeiçoava a nenhuma e por isso o relógio queria ser único, como se é mordomo numa mansão inglesa - há uma prerrogativa de raridade em número, que lhe confere uma poder único.

***

Nas suas quatro singelas quadras em francês, Lamartine perguntava se os objectos inanimados têm uma alma. Sim, têm; não, não têm. A diferença entre um ajuntador e um coleccionador não está na dimensão ou na variedade: está na identificação de uma alma, e é por isso que a pergunta do poeta só tem uma resposta: ça dépend... Um ajuntador é um funcionário público das finanças: há o utente, que normalmente é devedor. Não há individuação, carinho no trato, atenção no tom de voz, olhar compassivo ou mão estendida, a não ser ao pagamento da coimazinha. O coleccionador é o bom pastor das coisas inanimadas: conhece as suas ovelhas, trata-as pelo nome, identifica a diferença entre as madeiras e os perfumes exalados, entre as capas que envolvem conteúdos, entre mecanismos e ponteiros que só aparentemente rodam a velocidades iguais. 

Cá em casa sou coleccionador de canetas - porque só tenho uma à qual me apeguei; sou coleccionar de cartas desde sempre, que me recuso a destruir; nos livros sou uma espécie de misto, porque ele há dias e ele há livros. Já fui ajuntador de relógios, tornei-me coleccionador de objecto (quase) único. Quando eu os largar, o relógio chorará, a caneta de tinta permanente chorará, os livros sabe-se lá. No fundo, qual a ovelha que não chora quando, ao entrar no aprisco, percebe que o pastor as abandonou? 

JdB  
       
* uma singeleza cansada para o meu amigo ATM 

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