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12 outubro 2018

Das praxes

Há duas maldições que me perseguem no caminho para as aulas na faculdade: o trânsito, de ida ou de regresso, e as praxes. Se o trânsito é uma espécie de inevitabilidade decorrente de várias condicionantes - maus transportes públicos, gosto pela independência, necessidade de circulação - as praxes poderiam ter um fim, se não por via do convencimento inteligente, por via de uma decisão administrativa. 

Podia proibir-se a praxe como se proíbem os atentados aos bons costumes: não podemos andar nus, não podemos urinar contra uma parede ou atravessar fora das passadeiras. Há outra hipótese, que é considerar a praxe como uma ameaça à saúde pública, como a peste negra ou a varicela: obriga-se à vacina, impede-se a praxe. Por mim até poderia vir tudo no mesmo decreto-lei, que é para as gerações vindouras perceberem que entre a tuberculose, o sarampo e um cavalheiro fardado de estudante aos gritos a diferença é um fio de cabelo.

Dizem-me que a praxe é integradora, uma espécie de rito de passagem. Dizem-me que, por mais que as faculdade queiram criar praxes "solidárias", há uma espécie de maltosa que prefere o formato vigente: gritos, enxovalhos, caras pintadas, simulação de actos sexuais, o diabo a quatro (e algumas vêm relatadas neste artigo do Observador). Um dia destes, saía eu de uma aula intelectualmente reconfortante, talvez a pensar no belo, no sublime, na poesia ou na elevação das almas, quando vejo um grupo passar por mim: meia dúzia de jovens fardados de preto a comandarem duas dúzias, talvez, de jovens também fardados - mas mais porcos. Num ápice recuei a 1980 / 1981, já lá vão quase 40 anos. O que se passou nessa altura? O meu serviço militar obrigatório. Eu explico.

Em Mafra, onde fiz a recruta, não havia praxe, não havia rituais - a integração vinha, também, por via de uma farda que nos igualava a todos. Como recruta fui maltratado: não era só a comida má e o duche frio, eram os gritos permanentes dos instrutores: por vezes vozes de comando, por vezes impropérios, porque as flexões estavam mal feitas, alguém se atrasava ou tinha um botão fora da casa. Gritava-se muito, insultava-se muito, castigava-se muito. De certa forma repeti o modelo quando, em Abrantes, passei a instrutor. Gritei seguramente mais do que devia, insultei mais do que devia - a vida castrense era assim.

Ora, o grupo que passava por mim assemelhava-se a uma espécie de pelotão comandado por um aspirante (duas condições que conheço bem): o que estaria mais próximo de desempenhar o papel de oficial gritava sempre: Caloiros! Mais rápido! Caloiros burros! Atrás deles, rapazes e raparigas aparentemente felizes por, de t-shirt amarrotada e suja, cara pintada e cabelo com farinha, talvez, responderem estupidamente a uma voz de comando estúpida. E lembrei-me que isto era a minha tropa, mas talvez eu não fosse tão estúpido ao ponto de gostar...

Do trânsito não me livro. Mas da praxe talvez. Basta que o ministro da defesa nacional, rapaz sagaz e em maré alta, leve esta gente toda para onde ela seria feliz: um quartel onde, apesar da comida má e banhos frios, há vozes de comando! Em cada praxado há um tarata, em cada praxador um potencial furriel.

JdB

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