Gosto de datas e gosto de rituais; gosto de 'casar' acontecimentos, canetas, pessoas, músicas. Gosto de associar momentos importantes na minha vida a objectos ou a memórias, a santos ou a passagens relevantes do Evangelho do dia. O dia em que defendo a tese não coincide com nada de particularmente relevante na minha vida ou nos meus interesses; mas o ano sim. Na verdade, completam-se este ano 25 anos sobre o início e fim de um processo doloroso que tinha 'oncologia pediátrica' como marca de água: iniciou-se no dia 19 de Março de 2001, terminou no dia 4 de Novembro desse mesmo ano.
Esta tese específica é fruto, também, de um sortilégio. Na minha mente estava um tema bem diferente, todo ele relacionado com despojamento, com a ideia de que less is more. Em três ano escrevera pouco mais de 30 páginas, das quais se aproveitaria pouco. Era o tempo da minha presidência da Childhood Cancer International que se tornaria num voluntariado em full time. Até que um dia alguém me desafiou à mudança radical de tema: do despojamento passava para a oncologia pediátrica e para as narrativas dos Pais que passam por este processo - era preciso 'capitalizar' a minha experiência de Pai e presidente de uma organização nacional e internacional de Pais de crianças com cancro. E fechar um ciclo que se iniciara há 25 anos.
Não cabe na dimensão de um post o gosto que deu a escrita das 200 páginas: entrevistei Pais, revisitei temas que me eram obsessivos há muito tempo, li sobre morte, luto, sofrimento, esperança, sentido da vida, alegria, histórias, fé e milagres. Desafiei-me a cruzar literatura com filosofia com narratologia com testemunhos, aprendi o que eram grupos focais, revi mentalmente centenas de pessoas com histórias difíceis, cheias de sentido ou de revolta.
Tenho a nítida sensação de que me atirei para fora de pé. A memória falha-me, não tenho experiência nem vocabulário académico, domino apenas uma parte muito diminuta da tese, tenho medo de não perceber todas as perguntas, ou dar respostas demasiado básicas. Alguém me desejava boa sorte para o momento, acrescentando 'have fun!' O meu 'fun' virá quando o júri se der por satisfeito e me mandar sair da sala para deliberar. Até lá sou apenas um homem enervado, ansioso, com uma secreta esperança de receber um telefonema: 'olhe, foi tudo adiado...'.
Adeus, até ao meu regresso...
JdB

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