As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
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09 fevereiro 2026
14 março 2017
Duas Últimas
Voltei a posar para um amigo que vai pintando sequencialmente uma série de amigos. As primeiras vezes (sim, sou repetente nesta matéria) as duas horas que lá passava eram mais difíceis. Ele concentrado no seu mister, eu, em silêncio, combatendo o sono do pós-almoço e tentando descortinar uma história na paisagem em frente, repleta de casa e vegetação, deserta de gente. Agora é tudo mais fácil: levo o meu iPod, uma coluna boa que me deram que pouco maior é do que uma caixa de óculos e faço a selecção musical: ouvimos milongas, Dick Farney, Diego el Cigala, Borodin ou Saint-Saens. Ele já não requer a minha imobilidade, eu entretenho-me a apresentar-lhe algumas coisas que ele desconhece. Volta e meia encontramos uma boa frase numa letra, como a de alguém que falava num silêncio conventual.
Deixo-vos com Ana Vidovic, uma cara simpática e interessante a tocar coisas venezuelanas, um género musical que muito me apraz e que também nos fez companhia, pelas prodigiosas mãos de John Williams. Una limosna por el amor de Dios remete-nos para um tempo muito passado. Uma esmolinha, pediam os pobres. Tenha paciência, respondiam os mais afortunados, como se a pobreza - e a pobreza genuína, de quem vive da caridade mais básica - se suportasse com uma paciência evangélica; como se a pobreza uma fatalidade na vida de alguns. No fundo, havia que ter paciência para a pobreza, como há que ter paciência para tanta coisa - o trânsito, a carestia de vida, os hotéis cheios do Algarve, a chuva a desoras.
JdB
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