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26 setembro 2019

Da persistência da memória

A Persistência da Memória (Salvador Dali)

Pessoa que me é próxima, e que também é monárquica, não apreciou o casamento do Duque de Bragança, D. Duarte, com a Sra. D. Isabel Herédia, pelo facto do seu trisavô (parece-me) ser fortemente suspeito de estar envolvido no regicídio. Quando lhe perguntei até quando é que ela seria penalizada pelos erros de um antepassado, respondeu-me sem dúvidas: enquanto tivermos conhecido pessoas que foram contemporâneas do crime. E, de facto, esta pessoa conheceu bem a geração acima da sua, que nasceu nos finais do século XIX e que, portanto, "assistiu" ao regicídio.

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Há alguns dias, metendo-me com um bom amigo - pessoa muito correcta e educada - lancei-lhe uma piada pelo facto de parte da riqueza da família dele ter sido construída em cima da expulsão das ordens religiosas, algo que aconteceu há mais de 180 anos. A pessoa em questão empertigou-se e disse que não era bem assim, mas que não valia a pena discutir o assunto... 

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O que liga o incómodo com o casamento de D. Duarte e o incómodo deste meu amigo? O quadro de Dali, chamado A Persistência da Memória. Eu explico: o regicídio aconteceu em 1908, sendo que D. Duarte casou em 1985, passados 87 anos; a expulsão das ordens religiosas foi decretada em 1834 (pode ter sido antes, mas fixemo-nos nesta data). Não obstante, há pessoas que se incomodam com um casamento real entre o pretendente à coroa portuguesa e a trineta de um envolvido na barbárie; e há pessoas que se incomodam com o facto da riqueza da sua família, construída ou aumentada, ter tido contornos menos correctos há quase 200 anos. 

Até quando nos incomodamos ou envergonhamos com os erros dos nossos antepassados; até quando é que as pessoas devem ser penalizadas pelos erros dos seus antepassados. Talvez a resposta esteja na frase: enquanto conhecermos (ou tivermos conhecido) pessoas que... 

Nada me moveu contra o casamento de D. Duarte com a Sra. D. Isabel, antes pelo contrário, pois acho que o casamento trouxe vantagens inegáveis, sendo que uma delas foi a geração de descendência que apazigua (enfim, a ver vamos...) os monárquicos. A ideia de D. Isabel ser trineta do Visconde da Ribeira Brava diz-me pouco; e se ela fosse trineta do Buiça, um dos assassinos de D. Carlos e de D. Luís Filipe? 

Quanto às fortunas, a pergunta ficará sem resposta: quantas gerações terão de passar até que não nos envergonhemos dos erros ou dos actos menos correctos dos nossos antepassados? Devo disfarçar os meus antepassados bastardos, mesmo que fossem filhos de pessoas importantes? Ou devo branquear um trisavô (por hipótese) desonesto ou que maltratou a família? E se for bisavô? 

JdB

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