As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
11 maio 2020
Da pintura e dos alienados
12 junho 2018
Crónicas de um doutorando tardio
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| Venice, from the Porch of Madonna della Salute (Turner, 1775–1851) |
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| Study of Salisbury Cathedral (Constable, 1776 – 1837) |
A Vida como Luta entre a Realidade e o Sonho
Somos um sonho divino que não se condensou, por completo, dentro dos nossos limites materiais. Existe, em nós, um limbo interior; um vago sentimental e original que nos dá a faculdade mitológica de idealizar todas as coisas. (...) Se fôssemos um ser definido, seríamos então um ser perfeito, mas limitado, materializado como as pedras. Seríamos uma estátua divina, mas não poderíamos atingir a Divindade. Seríamos uma obra de arte e não vivente criatura, pois a vida é um excesso, um ímpeto para além, uma força imaterial, indefinida, a alma, a imperfeição.
A vida é uma luta entre os seus aspectos revelados e o limbo em que eles se perdem e ampliam até à suprema distância imaginável; uma luta entre a realidade e o sonho, a Carne e o Verbo.
Entre nós, o Verbo não encarnou inteiramente. Somos corpo e alma, verbo encarnado e verbo não encarnado, a matéria e o limbo, o esqueleto de pedra e um fumo que o enconbre e ondula em volta dele, e dança aos ventos da loucura...
E aí tendes um pobre tolo sentimental, uma caricatura elegíaca.
Neste limbo interior, neste infinito espiritual, vive a lembrança de Deus que alimenta a nossa esperança, e transfigura esse bicho do Demónio, que anda por esses boulevards, vestido à moda ou coberto de farrapos.
Ardemos num incêndio de esperança, para que reste de nós uma lembrança, um fumo que sobe e não se apaga.
Tudo é memória: um fumo leve, em mil visagens animadas; ou denso, em formas inertes e sombrias; e, ao longe, a grande fogueira invisível que os demónios e os anjos alimentam.
Vivo, porque espero. Lembro-me, logo existo.
Teixeira de Pascoaes, in 'O Pobre Tolo'
A Felicidade vem da Monotonia
Em sua essência a vida é monótona. A felicidade consiste pois numa adaptação razoavelmente exacta à monotonia da vida. Tornarmo-nos monótonos é tornarmo-nos iguais à vida; é, em suma, viver plenamente. E viver plenamente é ser feliz.
Os ilógicos doentes riem - de mau grado, no fundo - da felicidade burguesa, da monotonia da vida do burguês que vive em regularidade quotidiana e, da mulher dele que se entretém no arranjo da casa e se distrai nas minúcias de cuidar dos filhos e fala dos vizinhos e dos conhecidos. Isto, porém, é que é a felicidade.
Parece, a princípio, que as cousas novas é que devem dar prazer ao espírito; mas as cousas novas são poucas e cada uma delas é nova só uma vez. Depois, a sensibilidade é limitada, e não vibra indefinidamente. Um excesso de cousas novas acabará por cansar, porque não há sensibilidade para acompanhar os estímulos dela.
Conformar-se com a monotonia é achar tudo novo sempre. A visão burguesa da vida é a visão científica; porque, com efeito, tudo é sempre novo, e antes de este hoje nunca houve este hoje.
É claro que ele não diria nada disto. Às minhas observações, limita-se a sorrir; e é o seu sorriso que me traz, pormenorizadas, as considerações que deixo escritas, por meditação dos pósteros.
Fernando Pessoa, in 'Reflexões Pessoais'
04 agosto 2010
28 julho 2010
Vai um gin do Peter's?
É difícil imaginar que um contemporâneo das escolas de pintura mais vanguardistas, nado e criado em França, se tenha mantido constante no estilo mais próximo do objecto observado, tornando-se conhecido como o «pintor da verdade»
Constant Le Breton, oriundo da Bretanha, atravessou um século de vida, de 1895 a 1985, igualzíssimo a si próprio, imperturbável aos movimentos experimentais e progressistas da arte novecentista. Teve, assim, a ousadia de ser fiel à tradição, uma das características mais subestimadas do século em que o homem chegou à Lua:


Em toda a sua obra perpassa um olhar doce e, simultaneamente, firme, que transporta para as telas uma paz e uma luminosidade extraordinárias. Raras no panorama das pinturas do seu tempo, onde as abordagens introspectivas, exploratórias das zonas mais remotas e indomáveis do subconsciente, se exprimem num tom angustiado e obscuro.

É frequente aplicar a Breton um tratamento de excepção e não dissociar a pintura da sua vida. É nessa senda, bastante incomum, que o grande realizador sueco, Ingmar Bergman, assume ter sido um fiasco como ser humano (2), com a lucidez que lhe admiramos nos filmes. Claro que estamos a falar de um homem superior, apesar de tudo. Não por acaso, seguia das bússolas mais fiáveis: a busca intrépida pela verdade tomando como meta o amor – «Tento dizer a verdade sobre a condição humana – a verdade como eu a vejo.» «A noção de amor (é) a única forma concebível de santidade.» (1968)
É também de Bergman a caracterização cirúrgica do artista contemporâneo, incrivelmente egocêntrico: «A mais insignificante ferida ou dor no ego é examinada à lupa como se fosse matéria de importância capital. O artista considera o seu isolamento, a sua subjectividade, o seu individualismo quase sagrado.»
Isto é tudo o que não se aplica a Breton. Por estranho que pareça, extravasa das suas telas a própria humildade, como uma tonalidade inédita na paleta cromática do século do showbiz. Na sua pintura, tudo se mostra mas nada se exibe. Impera a simplicidade. Os elementos coabitam harmoniosamente, sem hierarquias nem vedetismos. Das pessoas às paisagens, domina o mesmo rigor pictórico, sem a presença marcante do pintor-criador, fazendo-nos crer que recuámos mais de cem anos para épocas onde os holofotes incidiam sobre as obras e nem tanto sobre os artistas…

O seu extremo cuidado revela-se na abundância dos pormenores e da variedade de texturas. Breton costumava dizer que pintava por necessidade e por gosto, como quem respira. Mas embora a sua arte pareça fluir com naturalidade, adivinha-se-lhe um trabalho árduo, até ao mais ínfimo detalhe. A transparência da água de um insignificante riacho ou o entrançado de filigrana dos cabos na tela dos «3 Mastros» são exemplos de uma riqueza hiper discreta, de uma aparência invulgarmente despojada:

De facto, é notável que os críticos de arte associem a pintura de Breton à verdade. Notável e raríssimo, sobretudo numa época onde o relativismo já avançava a passos de gigante. No fundo, espantamo-nos com o impacto subtil de pinceladas de uma beleza muito depurada, gentil e humilde, que transbordam para lá dos limites da tela e da arte, parecendo plasmar a própria realidade. Experimentem ir até à Gulbenkian ver com os vossos próprios olhos.
Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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(1) Constant Le Breton (1895-1985). Pinturas e aguarelas
- Expo - Fora de Portas De 21/05 a 8/Agosto /2010. Das 10h00 às 18h00, Terça a Domingo, Entrada livre
Galeria de Exposições Temporárias da Sede, piso 01 (junto ao bengaleiro), na Fundação Calouste Gulbenkian. http://www.gulbenkian.pt.
(2) «I was very cruel to actors and to other people. I think I was a very, very unpleasant young man. If I met the young Ingmar today, I think I would say, "You are very talented and I will see if I can help you, but I don't think I want anything else to do with you."» publicado no New York Times Magazine, 26 de Junho de 1983. Num outro desabafo, no final de vida: «(Fui) um péssimo marido e ainda pior pai.»
05 maio 2010
Vai um gin do Peter’s ?
(2010) Garrafão de 5 m de altura, tecido no rendilhado de ferro forjado das
varandas pombalinas, que uma grua colocou no Jardim das Oliveiras.

Segundo a autora: «o Vermelho, do fado, do amor, dos sentimentos; Dourado, que representa
o ouro e a tradição portuguesa; e Preto, que simboliza a morte, a dor e o sofrimento»
Sofá Aspirina, 1997- Blisters com comprimidos Aspirinas de 500 mg madeira e vidro.
Ao lado, estende-se a Cama Valium (1998)
Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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1 Sobre o horário e questões afins, consultar o site: http://museuberardo.pt/informacoes.html
2 Citação integral: «Tenho sempre de falar do Fátima Shop. Até hoje me estou a perguntar: como é que aquele ciclomotor me levou a Fátima? Nunca tive de pôr gasolina e percorri cento e tal quilómetros de Lisboa até lá. Foi uma viagem fantástica que fiz no dia 12 de Maio de 2003. Queria perceber o factor Fátima, perceber o que motivava as pessoas a fazer uma peregrinação. Foi uma viagem engraçada, com muitas peripécias. Ia sendo atropelada por um camião TIR e nunca me esqueci de que os primeiros peregrinos que encontrei eram croatas. É uma peça com uma estrutura menos clássica que as outras, já que é um vídeo que acompanha uma escultura, ou vice-versa, ou seja, uma instalação.»
3 Do poeta portuense, José Gomes Ferreira (1900-1985 ).
07 abril 2010
Vai um gin do Peter’s ?
E esta é das telas mais impactantes. Porque nada na biografia que se lhe conhece, justifica celebrar tão gloriosamente a vida!
Quanto mais a olho e tudo nela vibra como um verdadeiro hino à alegria – daquela profunda, que nasce na alma e permanece turquesa e luminosa apesar de todas as chuvas torrenciais – mais fico siderada. Há nela uma grandeza indizível. Os ramos de linhas curvas, que se entrelaçam harmoniosamente uns nos outros, ponteados a flores brancas e de rosa suave, transmitem uma vitalidade contagiante! São uma explosão de vida nova, revigorada, que me lembram o que se conta dos concertos finais, regidos, tentativamente, por Beethoven. Não apenas esta tela mas toda a obra do pintor holandês, que não conseguiu sair do atelier, se assemelham ao fiasco das últimas audições públicas de um compositor surdo, totalmente desencontrado da orquestra, à deriva. A própria estreia mundial, absoluta da Nona Sinfonia escapou, com muita peripécia e alguma balbúrdia, ao caos que tinham sido os ensaios da ópera “Fidelio”. Mesmo assim, a 7 de Maio de 1824, a Nona conheceu a luz do dia, com dois maestros em palco, um real (Michael Umlauf) e outro a reger virtualmente, entretido numa mímica entusiasmada, q.b. risível ! E se tudo correu, apesar de tudo, bastante bem, deveu-se ao mérito dos músicos, com ordens estritas para ignorar as indicações desfasadas de Beethoven. Terminado o concerto, reza a história que a soprano, Henriette Sontag, teve de lhe interromper a mímica e virá-lo para o público, que o aplaudia animadamente, enquanto o compositor continuava a dirigir músicos imaginários! É bem irónico que o autor da que ficou conhecida por Sinfonia da Alegria, pelo coro apoteótico do final triunfante, musicando a Ode à Alegria de Schiller, não a tenha podido ouvir, nem apreciar, nem sequer reger a orquestra, naquele Dia D, sob pena de tudo ter redundado num flop!
De facto, a vida tem destas surpresas, muito misteriosas, aparentemente paradoxais, que nos ultrapassam. Mas nem tudo o que começa mal, em termos públicos (porque a pauta composta por Beethoven é irrepreensível), está votado ao fracasso. Há uma consideração muito antiga, das orações judaicas, que reza assim: «Quem semeia em lágrimas, recolhe com alegria.»
Parece-me curioso observar que nas encruzilhadas imprevistas da história, em que as gerações dos homens se entrelaçam como os ramos da amendoeira de Van Gogh, descobrimos flores novas e surpreendentes, que nos chegam de épocas muito recuadas. É fantástica esta amálgama enriquecedora de tempos. É extraordinária esta possibilidade de comunicação entre épocas distantes, esta fortuna imensa de herdar legados de gente de eras distantes, em que chegamos ao cúmulo de descobrir uma imensidão de fãs de VG (e de tantos outros! serão a maioria?) uns bons anos depois da sua morte! Do mesmo modo, também muitas das figuras de referência e de sucesso, em dado momento, são exclusivas da sua época, pertencem apenas à sua contemporaneidade, sem conseguirem entrar na memória das novas gerações. Falham o teste do tempo!
Não haverá aqui um eco daquela reflexão radical da história dos homens, em que a realização plena não se esgota no presente, devendo abrir-se ao futuro? Refiro-me ao célebre Sermão da Montanha, onde se nomeiam os que hoje choram e os que hoje são elogiados e assim já receberam, esgotaram, a sua consolação. Uma das chaves de leitura são os diferentes tempos dos verbos, com variações muito significativas, em cada uma das proposições das Bem-Aventuranças: entre um presente de horizonte rasgado a projectar-se no futuro e uma actualidade que não descola do imediatismo, acabando amortalhada no passado (Lc. 6, 20-26). É que o tempo é sempre implacável com as aparências…
Retomando Van Gogh, há uns anos, num voo da KLM, a revista de bordo tinha um artigo empolgante sobre uma doença ligada ao ouvido médio e que afecta a capacidade de socialização dos pacientes, além de outras consequências nefastas. E os investigadores eram unânimes em diagnosticá-la, postumamente, em VG, pelos inúmeros comportamentos que estão registados, a começar pelo corte da orelha, considerando-o inteiramente explicável, para aliviar a pressão insuportável provocada pelo tal síndrome! O local preciso do golpe, pouco comum, coincide com a zona atingida pela doença. Mais uma achega para a biografia tão dorida e incompreendida do artista.
Partilho ainda a impressão que me causou, diante de uma colecção assombrosa de óleos, que pude ver em Amsterdam, há uns anos, uma pintura lindíssima pintada no verso! A indigência do pintor não lhe permitia desperdiçar o avesso das telas, mesmo correndo o risco de manchar a parte da frente e de atrapalhar a visibilidade das telas geminadas! A exposição abarrotava de visitantes e bem vi mais lágrimas a correr, teimosamente. Mas silenciosamente – é impossível fazer barulho junto às suas paisagens radiosas. Compensamo-lo hoje pelo esquecimento dos seus contemporâneos. E isso tem graça!
Boa Páscoa,
Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
10 março 2010
Vai um Gin do Peter's?

Em Mily há zero de uma certa melancolia lusa ou de alguma insatisfação anímica, cantada nos fados, onde perpassa uma tensão trágica. Entendamo-nos que esta observação em nada diminui o fado! Apenas se visa sublinhar o estilo admiravelmente radioso dos seus desenhos, de uma leveza flutuante.
Aqui fica este aperitivo para a exposição formidável, patente na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, com pena de não ter conseguido postar também as gravuras espectaculares dos bustos (Desenhos /Estudos académicos).

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
Horário de Segunda a Domingo – 10h00 às 18h00. Encerra à Terça e feriados. Entrada gratuita ao Domingo de manhã: 10h-14h.
(**) Excerto do original da carta, na exposição.
26 dezembro 2008
01 agosto 2008
28 julho 2008
22 julho 2008
Dia de Santa Maria Madalena, penitente
(Josefa de Óbidos, 1650, óleo sobre cobre, Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra)
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