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11 maio 2020

Da pintura e dos alienados

Num texto intitulado Questões de Estética (Da Pintura, Gradiva, 2017) diz Eduardo Lourenço:

No asilo de alienados de Verona há mil e quinhentas pessoas em vias de cura. Entre essas 1500 encontram-se uma vintena com disposições reais para a pintura. Esta disposição é um dos maiores mistérios. Os pintores dos hospitais psiquiátricos antes de serem enterrados não eram artistas, mas artífices, simples cidadãos. 

E mais à frente:

A vista destas telas [a dos alienados] põe algumas questões inquietantes. Por exemplo: no tempo de Rafael, os doentes mentais, se tivessem tido a possibilidade de pintar, teriam pintado à maneira de Veronese ou à maneira de Rafael? Não estou muito seguro disso, mas penso que ela teria sido abstracta como a dos dementes de hoje. E isto porque a loucura se encontra fora do tempo e da História, e porque é sempre igual a si mesma. 

Esta percepção de Eduardo Lourenço suscita devaneios interessantes. Como seria vista a pintura abstracta no início do século XV? Provavelmente como a obra de um alienado. Como é vista a pintura abstracta no século XX? Como um estilo, aqui e ali como uma genialidade. Entre a abstracção daquele tempo e a deste existem cinco séculos. Se a percepção de Eduardo Lourenço estiver certa, foram precisos 500 anos para dar um carácter de sanidade a um estilo. Ou, numa visão mais arrojada e provocadora, os alienados do século XV são os lúcidos do século XX: ambos pintam o que conseguem, não forçosamente o que querem.

JdB 

12 junho 2018

Crónicas de um doutorando tardio

Ontem, numa das apresentações das Teses da Teoria, aprendi (ou tomei conhecimento desta ideia que foi veiculada) que Fernando Pessoa está para Teixeira de Pascoaes como Turner está para Constable. Um dia explicarei.

JdB


Venice, from the Porch of Madonna della Salute (Turner, 1775–1851) 

Study of Salisbury Cathedral (Constable, 1776 – 1837)

A Vida como Luta entre a Realidade e o Sonho

Somos um sonho divino que não se condensou, por completo, dentro dos nossos limites materiais. Existe, em nós, um limbo interior; um vago sentimental e original que nos dá a faculdade mitológica de idealizar todas as coisas. (...) Se fôssemos um ser definido, seríamos então um ser perfeito, mas limitado, materializado como as pedras. Seríamos uma estátua divina, mas não poderíamos atingir a Divindade. Seríamos uma obra de arte e não vivente criatura, pois a vida é um excesso, um ímpeto para além, uma força imaterial, indefinida, a alma, a imperfeição.
A vida é uma luta entre os seus aspectos revelados e o limbo em que eles se perdem e ampliam até à suprema distância imaginável; uma luta entre a realidade e o sonho, a Carne e o Verbo.
Entre nós, o Verbo não encarnou inteiramente. Somos corpo e alma, verbo encarnado e verbo não encarnado, a matéria e o limbo, o esqueleto de pedra e um fumo que o enconbre e ondula em volta dele, e dança aos ventos da loucura...
E aí tendes um pobre tolo sentimental, uma caricatura elegíaca.
Neste limbo interior, neste infinito espiritual, vive a lembrança de Deus que alimenta a nossa esperança, e transfigura esse bicho do Demónio, que anda por esses boulevards, vestido à moda ou coberto de farrapos.
Ardemos num incêndio de esperança, para que reste de nós uma lembrança, um fumo que sobe e não se apaga.
Tudo é memória: um fumo leve, em mil visagens animadas; ou denso, em formas inertes e sombrias; e, ao longe, a grande fogueira invisível que os demónios e os anjos alimentam.
Vivo, porque espero. Lembro-me, logo existo.

Teixeira de Pascoaes, in 'O Pobre Tolo'

***

A Felicidade vem da Monotonia

Em sua essência a vida é monótona. A felicidade consiste pois numa adaptação razoavelmente exacta à monotonia da vida. Tornarmo-nos monótonos é tornarmo-nos iguais à vida; é, em suma, viver plenamente. E viver plenamente é ser feliz.
Os ilógicos doentes riem - de mau grado, no fundo - da felicidade burguesa, da monotonia da vida do burguês que vive em regularidade quotidiana e, da mulher dele que se entretém no arranjo da casa e se distrai nas minúcias de cuidar dos filhos e fala dos vizinhos e dos conhecidos. Isto, porém, é que é a felicidade.
Parece, a princípio, que as cousas novas é que devem dar prazer ao espírito; mas as cousas novas são poucas e cada uma delas é nova só uma vez. Depois, a sensibilidade é limitada, e não vibra indefinidamente. Um excesso de cousas novas acabará por cansar, porque não há sensibilidade para acompanhar os estímulos dela.
Conformar-se com a monotonia é achar tudo novo sempre. A visão burguesa da vida é a visão científica; porque, com efeito, tudo é sempre novo, e antes de este hoje nunca houve este hoje.
É claro que ele não diria nada disto. Às minhas observações, limita-se a sorrir; e é o seu sorriso que me traz, pormenorizadas, as considerações que deixo escritas, por meditação dos pósteros.

Fernando Pessoa, in 'Reflexões Pessoais' 

04 agosto 2010

28 julho 2010

Vai um gin do Peter's?


É difícil imaginar que um contemporâneo das escolas de pintura mais vanguardistas, nado e criado em França, se tenha mantido constante no estilo mais próximo do objecto observado, tornando-se conhecido como o «pintor da verdade»


Constant Le Breton, oriundo da Bretanha, atravessou um século de vida, de 1895 a 1985, igualzíssimo a si próprio, imperturbável aos movimentos experimentais e progressistas da arte novecentista. Teve, assim, a ousadia de ser fiel à tradição, uma das características mais subestimadas do século em que o homem chegou à Lua:


A exposição, patente na Gulbenkian até 8 de Agosto (1), é uma boa mostra da produção clássica do pintor, permitindo-nos sobrevoar cem anos da história de França, na versão menos comum: os cenários familiares com acesso directo aos interiores das casas parisienses; as perspectivas captadas a partir do fantástico passeio pedonal que bordeja o Sena; as paisagens suaves, de luz sombria, na parte menos monumental do Loire, bem a norte dos Castelos; os retratos de crianças anónimas e de algumas (poucas) figuras públicas como Ingrid Bergman. Dos óleos às aguarelas, Breton foi também um exímio desenhador e gravador de litografias tendo-se, no entanto, celebrizado como retratista.


Em toda a sua obra perpassa um olhar doce e, simultaneamente, firme, que transporta para as telas uma paz e uma luminosidade extraordinárias. Raras no panorama das pinturas do seu tempo, onde as abordagens introspectivas, exploratórias das zonas mais remotas e indomáveis do subconsciente, se exprimem num tom angustiado e obscuro.




É frequente aplicar a Breton um tratamento de excepção e não dissociar a pintura da sua vida. É nessa senda, bastante incomum, que o grande realizador sueco, Ingmar Bergman, assume ter sido um fiasco como ser humano (2), com a lucidez que lhe admiramos nos filmes. Claro que estamos a falar de um homem superior, apesar de tudo. Não por acaso, seguia das bússolas mais fiáveis: a busca intrépida pela verdade tomando como meta o amor – «Tento dizer a verdade sobre a condição humana – a verdade como eu a vejo.» «A noção de amor (é) a única forma concebível de santidade (1968)


É também de Bergman a caracterização cirúrgica do artista contemporâneo, incrivelmente egocêntrico: «A mais insignificante ferida ou dor no ego é examinada à lupa como se fosse matéria de importância capital. O artista considera o seu isolamento, a sua subjectividade, o seu individualismo quase sagrado


Isto é tudo o que não se aplica a Breton. Por estranho que pareça, extravasa das suas telas a própria humildade, como uma tonalidade inédita na paleta cromática do século do showbiz. Na sua pintura, tudo se mostra mas nada se exibe. Impera a simplicidade. Os elementos coabitam harmoniosamente, sem hierarquias nem vedetismos. Das pessoas às paisagens, domina o mesmo rigor pictórico, sem a presença marcante do pintor-criador, fazendo-nos crer que recuámos mais de cem anos para épocas onde os holofotes incidiam sobre as obras e nem tanto sobre os artistas…




O seu extremo cuidado revela-se na abundância dos pormenores e da variedade de texturas. Breton costumava dizer que pintava por necessidade e por gosto, como quem respira. Mas embora a sua arte pareça fluir com naturalidade, adivinha-se-lhe um trabalho árduo, até ao mais ínfimo detalhe. A transparência da água de um insignificante riacho ou o entrançado de filigrana dos cabos na tela dos «3 Mastros» são exemplos de uma riqueza hiper discreta, de uma aparência invulgarmente despojada:


De facto, é notável que os críticos de arte associem a pintura de Breton à verdade. Notável e raríssimo, sobretudo numa época onde o relativismo já avançava a passos de gigante. No fundo, espantamo-nos com o impacto subtil de pinceladas de uma beleza muito depurada, gentil e humilde, que transbordam para lá dos limites da tela e da arte, parecendo plasmar a própria realidade. Experimentem ir até à Gulbenkian ver com os vossos próprios olhos.



Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)


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(1) Constant Le Breton (1895-1985). Pinturas e aguarelas

  • Expo - Fora de Portas De 21/05 a 8/Agosto /2010. Das 10h00 às 18h00, Terça a Domingo, Entrada livre
    Galeria de Exposições Temporárias da Sede, piso 01 (junto ao bengaleiro), na Fundação Calouste Gulbenkian
    . http://www.gulbenkian.pt.

(2) «I was very cruel to actors and to other people. I think I was a very, very unpleasant young man. If I met the young Ingmar today, I think I would say, "You are very talented and I will see if I can help you, but I don't think I want anything else to do with you."» publicado no New York Times Magazine, 26 de Junho de 1983. Num outro desabafo, no final de vida: «(Fui) um péssimo marido e ainda pior pai.»


05 maio 2010

Vai um gin do Peter’s ?

Uma das artistas portuguesas mais marcantes – a Joana Vasconcelos – tem perto de 40 obras expostas no CCB, integradas na Colecção Berardo e patentes ao público até 18 de Maio(1). O título da mostra identifica bem o estilo interpelador da Joana: «SEM REDE». Algumas das peças mais inspiradas (para mim) transbordam, literalmente, para o exterior, em especial a mega-escultura «Sr.Vinho»:

(2010) Garrafão de 5 m de altura, tecido no rendilhado de ferro forjado das
varandas pombalinas, que uma grua colocou no Jardim das Oliveiras.

Nas duas entradas do Museu, erguem-se dois castiçais gigantescos, «Néctar», numa estrutura metálica aerodinâmica, muito esguia, revestida de milhares de garrafas verdes. Daria um vidrão hiper decorativo! Junto à recepção, as ventoinhas coloridas «Wash and go» fazem as delícias das crianças e divertem os adultos, quando disparam em espiral. Este é dos méritos da artista, sempre incrivelmente comunicativa, através de instalações de tamanhos astronómicos, mas com uma ironia comedida, linhas sóbrias e harmoniosas, resultando em obras expressivas e coerentes, de fácil leitura e rápida sintonia. A boa disposição impregna a arte da JV, desafiando os cânones tradicionais ao transfigurar materiais paupérrimos da sociedade de consumo. No fundo, atrevendo-se a reciclar a banalidade e o kitsch, que o universo artístico costuma ignorar, olimpicamente!

Claro que nem todas as soluções ousadas da artista, nascida em Paris, no ano de 1971, terão alcançado o efeito de eloquência estética e irónica que marca a exposição, quando o populismo e o excesso de previsibilidade submergem o intervencionismo arrojado da JV. Digo isto, só para prevenir eventuais metros de arte menos felizes, nos corredores expositivos que vão de «O mundo a seus pés» (cliché) até ao carrocel ou mesmo à «Burka» (em cedência ao politicamente correcto), onde apenas ressalvaria o testemunho da Joana sobre a experiência criativa da instalação Fátima Shop (FS): «Tenho sempre de falar do FS. Até hoje me estou a perguntar: como é que aquele ciclomotor me levou a Fátima?… Foi uma viagem fantástica que fiz no dia 12 de Maio de 2003. Queria perceber o factor Fátima, perceber o que motivava as pessoas a fazer uma peregrinação...» (2 ver citação integral)

Vale a pena retomar os pontos fortes da artista, que superabundam no CCB, deixando para cada um explorar os alertas ecológicos e político-sociais presentes na mostra:

- Os 5 m de sapato «Cinderella», 2007, parecem saídos dos estúdios da Disney! A mensagem é revolucionária, porque a metamorfose de plebeias em princesas é um facto inegável e até consentido, com inúmeros exemplos entre as top models da actualidade. Agora, o trem de cozinha ganhar glamour e direito de entrada no salão de baile, convenhamos que é um feito inédito…

Recentemente leiloado pela Christie’s, em Londres, atingindo valores homéricos.

- Os lindíssimos «Corações Independentes» (2004-2006) – Dourado, Preto e Encarnado – tecidos numa trama translúcida de talheres plásticos, de quase 4 metros de altura, ondulando ao som do fado de Amália, conquistam-nos à primeira. Aliás, o dourado foi a obra de representação do país, no átrio do Conselho Europeu (2º Semestre de 2007), em Bruxelas. A ideia nasceu de uma encomenda para o restaurante Eleven, culminando na simbiose da portugalidade, onde a joalharia de filigrana e o fado se fundem em jóias extraordinárias, sob o signo da boa cozinha nacional:


Segundo a autora: «o Vermelho, do fado, do amor, dos sentimentos; Dourado, que representa
o ouro e a tradição portuguesa; e Preto, que simboliza a morte, a dor e o sofrimento
»

- Numa alusão divertida e q.b. acutilante à moda das drogas – começando nas mais benignas, validadas pelas farmácias – Joana brinca com os paradoxos de uma sociedade de superabundância e de plena liberdade, que vive atordoada e lida mal com… nada menos que a própria realidade, preferindo, por vezes, intoxicar-se nos recursos escapistas que a química proporciona:

Sofá Aspirina, 1997- Blisters com comprimidos Aspirinas de 500 mg madeira e vidro.
Ao lado, estende-se a Cama Valium (1998)

Para explicar melhor a abordagem tão positiva da Joana, vale a pena referir uma peça suspensa na antecâmara da entrada, que só pela beleza lhe seria atribuível. Vista de perto, a carga negativa da esfera cintilante, com 18.000 balas cravadas em volta, dificilmente teria a sua assinatura! O título é auto-explicativo: «Death Star» (1993). E a autoria é de Robert Longo, numa crítica feroz contra a quantidade obscena de projécteis disparados nos EUA, apenas num ano!

Uma singularidade notável que se infere da arte da JV é o olhar curioso, ávido de descobrir e sintonizar, mais lúcido que crítico, mais empático que julgador. Empenhada na busca incessante de símbolos pátrios, qual coleccionadora de antiguidades, recria-os depois num cenário de modernidade, que lhes desperta uma vitalidade comunicativa, que julgávamos extinta. Do atelier da Joana, as velharias chegam-nos rejuvenescidas, como Belas Adormecidas. É também uma feliz surpresa o toque de afectividade omnipresente nas suas peças, surpreendendo-nos pela originalidade arrebatadora, sem resvalar para o efeito de placagem, puro e duro, cultivado por muitos artistas contemporâneos. Daí que o gigantismo das suas peças nunca intimide, antes inspire uma atmosfera divertida e aconchegante, até porque impera a transparência e a luminosidade, como em Lisboa.

E recorro a um poeta para explicar «Sem Rede», porque a poesia tem o condão de penetrar os segredos da realidade, sem ser intrusiva, esquivando-se às análises esquadrinhadas, que julgam esgotar o mistério da vida! De facto, num excerto do livro As Aventuras de João sem medo, logo com um título aplicável à Joana, dá-se o mote certo para esta exposição: «É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir»(3).

Haveria dezenas de peças giras para postar, mas convém manter algum suspense para quem venha a deambular SEM REDE, dispondo-se a mergulhar no património cultural português – que se abre ao mundo, como o Atlântico, no dizer da Joana – e de onde se sai refrescado, agradavelmente espantado de vibrar com um presente enriquecido de história!

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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1 Sobre o horário e questões afins, consultar o site: http://museuberardo.pt/informacoes.html .

Nos Jardins do Museu da Cidade (ao Campo Grande), também estão expostas obras da Joana Vasconcelos.


2 Citação integral: «Tenho sempre de falar do Fátima Shop. Até hoje me estou a perguntar: como é que aquele ciclomotor me levou a Fátima? Nunca tive de pôr gasolina e percorri cento e tal quilómetros de Lisboa até lá. Foi uma viagem fantástica que fiz no dia 12 de Maio de 2003. Queria perceber o factor Fátima, perceber o que motivava as pessoas a fazer uma peregrinação. Foi uma viagem engraçada, com muitas peripécias. Ia sendo atropelada por um camião TIR e nunca me esqueci de que os primeiros peregrinos que encontrei eram croatas. É uma peça com uma estrutura menos clássica que as outras, já que é um vídeo que acompanha uma escultura, ou vice-versa, ou seja, uma instalação.»

3 Do poeta portuense, José Gomes Ferreira (1900-1985 ).

07 abril 2010

Vai um gin do Peter’s ?

Se há altura do ano boa para falar de Van Gogh é, com toda a certeza, na Páscoa! Não só por calhar na Primavera, quando a luz do sol é mais radiosa e alegre, como a pintou VG. Não só por a natureza ganhar os tons do amarelo vivo e do verde luzidio que povoam as suas telas. Não só por o céu ter o azul que encontramos na sua paleta cromática. Não só por ser a época das flores, um dos leit-motivs do pintor, que não conseguiu vender um único quadro em vida!!! E nem preciso de lembrar que hoje é dos mais cotados no mercado leiloeiro mundial !

É, sobretudo, por esta tela, talvez menos conhecida do seu badalado repertório e que é das minhas preferidas, por revelar tanto e tão bem a sua forma de olhar a vida, incrivelmente positiva, apesar do sofrimento avassalador e de um dia-a-dia crivado de dissabores:



Vincent Van Gogh (1853-1890), Ramos de amendoeiras em flor, Fevereiro de 1890, Rijksmuseum, Amsterdam.

Pasmo como um homem marcado pelo insucesso, a quase todos os níveis – afectivo e familiar, financeiro, profissional, ignorado artisticamente, torturado pela dor física, além de sofrer de perturbações psicossomáticas graves – tenha passado tanta luz, tanto horizonte para as suas telas! É das coisas que me toca.

E esta é das telas mais impactantes. Porque
nada na biografia que se lhe conhece, justifica celebrar tão gloriosamente a vida!

Quanto mais a olho e
tudo nela vibra como um verdadeiro hino à alegria – daquela profunda, que nasce na alma e permanece turquesa e luminosa apesar de todas as chuvas torrenciais – mais fico siderada. Há nela uma grandeza indizível. Os ramos de linhas curvas, que se entrelaçam harmoniosamente uns nos outros, ponteados a flores brancas e de rosa suave, transmitem uma vitalidade contagiante! São uma explosão de vida nova, revigorada, que me lembram o que se conta dos concertos finais, regidos, tentativamente, por Beethoven. Não apenas esta tela mas toda a obra do pintor holandês, que não conseguiu sair do atelier, se assemelham ao fiasco das últimas audições públicas de um compositor surdo, totalmente desencontrado da orquestra, à deriva. A própria estreia mundial, absoluta da Nona Sinfonia escapou, com muita peripécia e alguma balbúrdia, ao caos que tinham sido os ensaios da ópera “Fidelio”. Mesmo assim, a 7 de Maio de 1824, a Nona conheceu a luz do dia, com dois maestros em palco, um real (Michael Umlauf) e outro a reger virtualmente, entretido numa mímica entusiasmada, q.b. risível ! E se tudo correu, apesar de tudo, bastante bem, deveu-se ao mérito dos músicos, com ordens estritas para ignorar as indicações desfasadas de Beethoven. Terminado o concerto, reza a história que a soprano, Henriette Sontag, teve de lhe interromper a mímica e virá-lo para o público, que o aplaudia animadamente, enquanto o compositor continuava a dirigir músicos imaginários! É bem irónico que o autor da que ficou conhecida por Sinfonia da Alegria, pelo coro apoteótico do final triunfante, musicando a Ode à Alegria de Schiller, não a tenha podido ouvir, nem apreciar, nem sequer reger a orquestra, naquele Dia D, sob pena de tudo ter redundado num flop!

De facto, a vida tem destas surpresas, muito misteriosas, aparentemente paradoxais, que nos ultrapassam. Mas nem tudo o que começa mal, em termos públicos (porque a pauta composta por Beethoven é irrepreensível), está votado ao fracasso. Há uma consideração muito antiga, das orações judaicas, que reza assim: «
Quem semeia em lágrimas, recolhe com alegria

Parece-me curioso observar que nas encruzilhadas imprevistas da história, em que as gerações dos homens se entrelaçam como os ramos da amendoeira de Van Gogh, descobrimos flores novas e surpreendentes, que nos chegam de épocas muito recuadas. É fantástica esta amálgama enriquecedora de tempos. É extraordinária esta possibilidade de comunicação entre épocas distantes, esta fortuna imensa de herdar legados de gente de eras distantes, em que chegamos ao cúmulo de descobrir uma imensidão de fãs de VG (e de tantos outros! serão a maioria?) uns bons anos depois da sua morte! Do mesmo modo, também muitas das figuras de referência e de sucesso, em dado momento, são exclusivas da sua época, pertencem apenas à sua contemporaneidade, sem conseguirem entrar na memória das novas gerações. Falham o teste do tempo!

Não haverá aqui um eco daquela reflexão radical da história dos homens, em que a realização plena não se esgota no presente, devendo abrir-se ao futuro? Refiro-me ao célebre Sermão da Montanha, onde se nomeiam os que hoje choram e os que hoje são elogiados e assim já receberam, esgotaram, a sua consolação. Uma das chaves de leitura são os
diferentes tempos dos verbos, com variações muito significativas, em cada uma das proposições das Bem-Aventuranças: entre um presente de horizonte rasgado a projectar-se no futuro e uma actualidade que não descola do imediatismo, acabando amortalhada no passado (Lc. 6, 20-26). É que o tempo é sempre implacável com as aparências

Retomando Van Gogh, há uns anos, num voo da KLM, a revista de bordo tinha um artigo empolgante sobre uma doença ligada ao ouvido médio e que afecta a capacidade de socialização dos pacientes, além de outras consequências nefastas. E os investigadores eram unânimes em diagnosticá-la, postumamente, em VG, pelos inúmeros comportamentos que estão registados, a começar pelo corte da orelha, considerando-o inteiramente explicável, para aliviar a pressão insuportável provocada pelo tal síndrome! O local preciso do golpe, pouco comum, coincide com a zona atingida pela doença. Mais uma achega para a biografia tão dorida e incompreendida do artista.

Partilho ainda a impressão que me causou, diante de uma colecção assombrosa de óleos, que pude ver em Amsterdam, há uns anos, uma pintura lindíssima pintada no verso! A indigência do pintor não lhe permitia desperdiçar o avesso das telas, mesmo correndo o risco de manchar a parte da frente e de atrapalhar a visibilidade das telas geminadas! A exposição abarrotava de visitantes e bem vi mais lágrimas a correr, teimosamente. Mas silenciosamente – é impossível fazer barulho junto às suas paisagens radiosas. Compensamo-lo hoje pelo esquecimento dos seus contemporâneos. E isso tem graça!

Boa Páscoa,

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)


10 março 2010

Vai um Gin do Peter's?

Na Casa gira do jardim das Amoreiras, onde as paredes das salas estão revestidas com as telas do casal pintor – Mª Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes – inaugurou uma exposição temporária(*) de outra pintora, amiga dos anfitriões: Mily Possoz (1888-1967).

Mily (Emília) era filha de pais belgas, mas começou a sua vida em Lisboa, antes de deambular por Paris, Bruxelas, Düsseldorf, Holanda, para aprofundar os estudos de Belas-Artes. Diferentemente de Vieira da Silva, voltou para Portugal, vivendo entre a capital e Sintra, de forma fixa a partir de 1937. Nos últimos vinte anos de vida, esteve hospedada no Hotel Tivoli, onde pagava em telas, quando havia falta de liquidez… Actualmente, o Hotel guarda um dos maiores espólios da pintora.

O seu talento – integrando o Primeiro Modernismo Português – foi cedo reconhecido, catapultando-a para a ribalta. Almada Negreiros teceu-lhe elogios rasgados! Logo em 1924, publicou um desenho na revista Athena (nº 2) com uma dedicatória muito eloquente: «Para Mily Possoz, o melhor desenhador portuguez do meu tempo.» (sic, Almada). A partir da década de 30, os seus desenhos, gravuras, óleos enchem a paisagem lisboeta e até portuguesa. Quem tenha feito a primária, antes do 25 de Abril, reconhecerá nas gravuras do Livro da 2ª Classe o traço muito rico e feliz de Mily. Na grande Exposição do Mundo Português (1940), a pintora modernista encarregou-se de inúmeras decorações, que agora se podem apreciar nos estudos para o Biombo japonês.

Talvez a temática pueril – com meninas, flores, gatos e ambientes saídos de contos de fadas – por um lado, e o gosto pelos trajes regionais portugueses, por outro, a tenham tornado numa ilustradora apetecível para o SNI. O facto é que a artista se evidenciou no antigo regime e hoje parece votada a um certo esquecimento, ficando-se pelo acervo distribuído pelo Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, Hotel Tivoli e colecções particulares.

Percebe-se que, sobretudo a partir dos anos 40, para uma certa agitação de massas, urdida pelos grupos da clandestinidade política, a satisfação serena das figuras de Mily terá redundado num contratestemunho desagradável! Mas não há qualquer benefício em imiscuir as lutas político-ideológicas na livre expressão artística de cada um… Ao menos, em nome da liberdade !

Por mim, aderi logo ao traço muito sensível de M. Possoz, com extraordinário sentido decorativo, festivo e sóbrio, em simultâneo. Tudo parece simples, mas adivinha-se um trabalho intenso de desbaste, depuração e muita estilização, até atingir uma beleza hiper delicada e assim fixar os contornos das figuras. Respiram saúde e vitalidade, os meninos campinos que habitam as telas. Imanam doçura e jovialidade as meninas que posam à janela. Os olhos maravilhados com que Mily vê as minhotas, assegurar-lhes-ia um contrato imediato com a exigentíssima agência Elite! Imaginem a Giselle Bündchen de arrecadas, para terem uma ideia! Os milagres na composição da imagem, em que hoje são pródigos os fotógrafos mais cobiçados do jet-set, esbanjou a Mily, generosamente, ao retratar a gente anónima, que nada mais lhe deu senão uma torrente inspiradora para a desenhar linda e feliz.


No seu mundo pictórico reina uma alegria suave e colorida, uma bondade subtil, uma estética diáfana, atractiva, feita de harmonia. O olhar, muito aberto e expressivo das suas figuras, jorra confiança e gosto de viver. Parecem quase imobilizadas num estado de comunicação pura com o espectador, como se bastasse serem e estarem! Se há qualidade evidente nas personagens de Mily é terem “atitude” ! Transbordam de atitude! Até nesse sentido respiram modernidade.


Talvez a sobriedade pacata, aparentemente ingénua, da sua obra nos possam iludir acerca da grandeza que reconhece na vocação artística. Mas na carta que escreveu (1941) à sua amiga, Mª Helena Vieira da Silva, nessa altura a viver no Rio, deixa bem explícita a missão cimeira que atribui à arte: «Para nos compensar d’este flagello (ciclone que tinha assolado Lisboa e Sintra) tivemos agora a exposição do Almada e aproveito para lhe mandar o lindo catálogo. Foi a melhor exposição d’este anno – cheia de lições para todos – uma vida de Artista com toda a sua coragem e convicção de Arte e de verdade (…)» (**) Esta declaração rectilínea e depurada, bem ao jeito da pintora, vem ao encontro da definição de poeta, dada no estilo hiperbólico e passional de Florbela Espanca: «Ser poeta é ser mais alto, é ser maior / Do que os homens! (…) É ter cá dentro um astro que flameja, / É ter garras e asas de condor! / É ter fome, é ter sede de Infinito

Em Mily há zero de uma certa melancolia lusa ou de alguma insatisfação anímica, cantada nos fados, onde perpassa uma tensão trágica. Entendamo-nos que esta observação em nada diminui o fado! Apenas se visa sublinhar o estilo admiravelmente radioso dos seus desenhos, de uma leveza flutuante.

Aqui fica este aperitivo para a exposição formidável, patente na Fundação
Arpad Szenes-Vieira da Silva, com pena de não ter conseguido postar também as gravuras espectaculares dos bustos (Desenhos /Estudos académicos).

Interior de um atelier

Boas descobertas no atelier da Mily,

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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(*) Patente ao público até 20 de Junho, na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva – Praça das Amoreiras, nº 56.
Horário de Segunda a Domingo – 10h00 às 18h00. Encerra à Terça e feriados. Entrada gratuita ao Domingo de manhã: 10h-14h.
(**) Excerto do original da carta, na exposição.

01 agosto 2008

22 julho 2008

Dia de Santa Maria Madalena, penitente


A Igreja celebra hoje o dia de Santa Maria Madalena, penitente.

Deixo aqui uma palavra às duas Madalenas que, com lugares diferentes, intensidades diferentes, perenidades diferentes, preencheram e preenchem a minha vida.

(Josefa de Óbidos, 1650, óleo sobre cobre, Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra)






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