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06 outubro 2016

Da planície e das serras

Miradouro da Pedra Bela, Gerês (Outubro de 2016)


PÁTRIA

Serra!
E qualquer coisa dentro de mim se acalma...
Qualquer coisa profunda e dolorida,
Traída,
Feita de terra
E alma.

Uma paz de falcão na sua altura
A medir as fronteiras:
- sob a garra dos pés a fraga dura,
e o bico a picar estrelas verdadeiras...

(Miguel Torga, in Diário II)

***

Cruzei-me com este poema de Miguel Torga no miradouro da Pedra Bela, no Gerês, a mais de 800 metros de altitude. Os dois primeiros versos chamaram-me imediatamente à atenção: Serra! / E qualquer coisa dentro de mim se acalma. No mesmo instante - e continuando uma conversa havida instantes antes - lembrei-me do que a planície alentejana ou a extensão africana fizeram por mim, nesse aspecto da acalmia interior. Farão mais, ou apenas diferente?

Não temos de ser pessoas exclusivamente disto ou daquilo, como se uma arte ou um tipo de paisagem muito apreciados eliminassem tudo aquilo que não é igual ou do mesmo género. Mas, se num impulso súbito e forçado tivesse de escolher, talvez dissesse, sem grandes hesitações, que sou um homem de planície. A planície sossega-me, a serra agita-me. Talvez uma agitação não perturbadora, que põe todos os sentidos despertos.

Para contrariar esta aparente convicção pela planície, se a vida me desse um mês - e um mês apenas - para produzir um trabalho criativo e, para isso, tivesse de devotar-lhe os meus dias por inteiro, era para a serra (no sentido da não planície) que iria: uma lareira, uma despensa cheia, um inverno rigoroso e um recolhimento total. Podia ser o Gerês com toda a inquietação, terra agreste, ravinas acentuadas, ou a terra desolada e pedregosa onde nada parece crescer. Significa isso que o sossego e a paz não são factores determinantes para o meu processo criativo (passe a presunção). Há algo necessário que a planície não dá. Talvez seja a agitação da serra fustigada pelo uivo do vento.

Por isso, fez muito sentido outro texto do Torga com que me cruzei, este sobre uma Pitões das Júnias que ele terá conhecido menos vencida pela modernidade que arrasta consigo o plástico, o alumínio ou a sujidade abandonada que se acumula nos cantos. Uma terra que talvez vivesse ainda o movimento de abandono das casas para a emigração, a fuga de uma agricultura comunitária e de sobrevivência que poucos encantos já tinha para quem queria a cidade, o dinheiro, o ruído e a agitação. 

Pitões das Júnias (Outubro de 2016)

Só vistas, a aspereza deste ermo e a pobreza do mosteiro desmantelado. Mas canta dia e noite, a correr encostado às fundações do velho cenóbio beneditino, um ribeiro lustral. E os ascetas e o poeta que se digladiam em mim, de há muito peregrinos desta solidão, mais uma vez se conciliam no mesmo impulso purificador, a invejar os monges felizes que aqui humildemente penitenciaram o corpo rebelde e pacificaram a alma atormentada. O corpo a magoar-se contrito no cilício quotidiano da realidade e a alma a ouvir de antemão, enlevada, a música da eternidade.

(Miguel Torga, in Diário XIV

Não serei da serra ou da planície, do mar ou da cidade, de uma esplanada onde se imaginam histórias do quotidiano ou de uma fraga onde se vislumbra o mundo por diante. Se o corpo pedir e a alma por isso ansiar, serei de qualquer sítio, desde que possa ouvir, no enlevo que me é possível, a música da eternidade - a única que sossega o que se digladia dentro de nós.

JdB  

02 outubro 2016

Viagens dos dias que correm

Estive três dias no Gerês, onde visitei várias localidades que tinha previsto visitar e outras que surgiram no improviso do meio dia seguinte. Um dos destinos era Pitões das Júnias,  uma freguesia do concelho de Montalegre e onde, segundo dados de 2011, moravam 161 almas. A bem dizer, o principal destino da viagem era, de facto Pitões das Júnias, por motivos que não sei bem explicar: talvez fosse o facto de um irmão meu ter lá estado há mais de 30 anos, talvez fosse uma ideia que me bailava inconscientemente no cérebro, fruto de uma conversa, de uma revista, de um artigo... Nas revistas talvez visse a imagem abaixo (tirada da internet) - uma aldeia perdida no tempo, onde 160 pessoas (velhos, sobretudo) viveriam de uma agricultura de subsistência em casas inalteradas de há gerações para cá:


A desilusão foi grande. A viagem de S. Bento da Porta Porta (hotel e santuário com o mesmo nome) até Pitões das Júnias faz-se por uma estrada bonita. As montanhas são agrestes, nuas, de pedra; a vegetação é escassa, rasteira, feita de tojo e de pouco mais, que a terra não é convidativa nem fértil. Chega-se ao destino e deparamo-nos com isto:



O que se vê? Alumínios, plástico, sujidade, pouco cuidado na manutenção de uma traça original que não elimine confortos mínimos (como encontrei em Sortelha). Dizem que é da falta de dinheiro, dos emigrantes, disto ou daquilo. Talvez seja do presidente da Junta que tem outras prioridades... 

Não deixem de ir ao Gerês, mas questiono-me se recomendaria Pitões das Júnias dado que vimos outras localidades bem mais bonitas, de que falarei um dia destes.

JdB

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