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28 julho 2026

Da solidariedade com os que sofrem com o calor

 

Algarve, ontem, cerca das 20.30h

Algarve, ontem, cerca das 20.30h

Tal como milhões de outras pessoas, em Portugal ou na Europa, tenho vindo a viver sob o signo do calor. Ao contrário de muitos outros, no entanto, passei o mês quente de Julho em condições favoráveis, numa casa confortável, suficientemente perto de uma praia algarvia para se dispensar o carro, rodeado de ar condicionado, piscina e cerveja gelada, em a querendo. Apesar disso, deste burguesismo que consola o corpo, sofro com o calor. Atento na minha temperatura de conforto e percebo que posso estar 15ºC acima do que considero digno para um homem com um termostato próprio.

Não se liga muito aos que sofrem com o calor; na verdade, acha-se um bizarria - pode perceber-se, mas não deixa de ser uma bizarria. A sociologia (ou outra ciência semelhante) ou talvez mesmo a história das nações concorre para esta ideia. De facto, o sofrimento com o calor é esquisitice; já o sofrimento com o frio pode ser pobreza. Salvo em condições especiais - e tem havido casos - morre-se menos com o calor do que com o frio. Pode não ser preciso nada para se manter uma casa moderadamente fresca no pinho do Verão mas, no pico do Inverno será preciso recorrer a equipamentos e incorrer em despesas mensais para manter a casa moderadamente quente. E muitas das pessoas que morrem por efeitos do calor terão sido vítimas de descuido - pouca hidratação, golpes de calor excessivos para idades avanças, demasiado sol. O raciocínio não é replicável para as pessoas que morrem de frio, ou que vivem em pobreza energética. Por último, a uma criança com calor dá-se um cornetto e a vida segue em frente; ninguém aceita que uma criança tenha frio.

Tudo isto concorre para a mesma ideia - o desleixo a que são votados aqueles que, vítimas da canícula, suam de todas as pregas do corpo, ingerem líquidos em quantidades astronómicas, sentem a impossibilidade da pele hidratada e que assa como um bebé de fraldas sujas.

Sim, tenho cerveja gelada, ar condicionado, piscina, praia a oito minutos de caminhada lenta. Sou um privilegiado. Porém, não obstante, sofro com o calor...

JdB    

09 abril 2026

Imagem e poema dos dias que correm


A fotografia acima retrata um fenómeno natural e recorrente: pouco depois do sol nascer (esta fotografia foi tirada na 2ªfeira às 07.27h) a luz embate num edifício específico e espelhado de Cascais, provocando aquele reflexo que mais parece um fogo.

***

Nós os vencidos do catolicismo 

Nós os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana 

Nós que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos 

Já nenhum garizim nos chega agora
depois de ouvir como a samaritana
que em espírito e verdade é que se adora
Deixem-me ouvir os carmina burana 

Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos e jogamos
"Meu deus meu deus porque me abandonaste?"

Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 147 | Editorial Presença Lda., 1984

19 fevereiro 2026

Textos dos dias que correm

Tudo (local, hora, máquina...) como de costume

Amor e Intimidade 

Toda a gente tem medo da intimidade — ter ou não ter consciência desse medo é outra história. A intimidade significa expor-se perante um estranho — e todos nós somos estranhos; ninguém conhece ninguém. Somos mesmo estranhos a nós próprios, porque não sabemos quem somos.

A intimidade aproxima-o de um estranho. Tem de deixar cair todas as suas defesas; só assim a intimidade é possível. E o seu medo é que se deixar cair todas as suas defesas, todas as suas máscaras, quem sabe o que o estranho lhe poderá fazer. Todos nós andamos a esconder mil e uma coisas, não só dos outros mas de nós próprios, porque fomos criados por uma humanidade doente com toda a espécie de repressões, inibições e tabus. E o medo é que, com alguém que seja um estranho — e não importa se se viveu com a pessoa durante trinta ou quarenta anos; a estranheza nunca desaparece —, parece mais seguro manter uma ligeira defesa, uma pequena distância, porque alguém se poderá aproveitar das suas fraquezas, da sua fragilidade, da sua vulnerabilidade.

Toda a gente tem medo da intimidade. O problema torna-se mais complicado porque toda a gente quer intimidade. Toda a gente quer intimidade porque, de outro modo, está sozinho neste Universo — sem um amigo, sem um amante, sem ninguém em quem confiar, sem ninguém a quem abrir todas as suas feridas. E as feridas não saram se não forem abertas. 

Osho, in 'Intimidade'

03 fevereiro 2026

Poemas dos dias que correm

Porto de Lisboa, Janeiro de 2026

Não há silêncio bastante

Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.
Nas prisões e nos conventos
Nas igrejas e na noite
Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio. 

Os amantes no quarto
Os ratos no muro.
A menina
Nos longos corredores do colégio.
Todos os cães perdidos
Pelos quais tenho sofrido
Quero que saibam:
O meu silêncio é maior
Que toda solidão
E que todo silêncio. 

Hilda Hilst, in Roteiro do Silêncio, 1959 

13 janeiro 2026

Poemas dos dias que correm

Paredão do Estoril, etc. e tal

Reconhecimento à loucura 

Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exatamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar. 

Almada Negreiros

16 dezembro 2025

Da astrologia

o costume...

Sábado passado foi ouvir a minha amiga Luiza Azancot a falar sobre Alinhamento para o novo ano, sabendo como enfrentar os novos desafios e abraçar oportunidades. A Luiza, por quem tenho uma grande amizade, já manteve neste estabelecimento um rubrica regular e muito interessante intitulada Diário de uma Astróloga. É uma mulher inteligente, boa comunicadora, culta e, estou certo, astróloga competente.

Tenho uma relação pacífica com a astrologia: não sei muito e não quero (nem conseguiria) saber mais; embora reconheça que poderá haver algum fundo de verdade, nunca usei a astrologia para nada - nem para me inquietar, nem para me dar grandes explicações, nem para me orientar em caminhos futuros nem para me precaver ou alegrar com o que aí vem.

Na palestra da Luiza - à qual fui com gosto, sem fazer sacrifícios nem fretes de amigo - estavam entre 20 e 30 pessoas, mais coisa menos. E começou com numerologia: o somatório dos algarismos que compõem 2025 (2+0+2+5) é 9. O somatório dos algarismos que compõem 2026 (2+0+2+6) é 10. Entre ambos há um mar de diferenças: 2025 é fim de ciclo, 2026 é princípio de ciclo. Não consigo obviamente reproduzir tudo o que foi dito, mas falou-se de novos projectos, de acabar com coisas que nos são tóxicas ou pesadas, de largar lastro prejudicial, de abraçar o futuro e tudo aquilo que ele nos oferece de possibilidades num ciclo que agora começa.

Ouvi tudo com atenção (a retenção já é outra coisa...) e, ao olhar para as pessoas, só via olhos de felicidade, de esperança, de certeza quanto à força que vamos ter para acabar com o que não merece continuar. Pessoas vi que sentiam que a Luiza estava a falar para elas, e que elas já tinham percebido dentro de si a alegria de um novo ciclo.  Havia ali uma espécie de irmandade composta por pessoas para quem 2026 já era um mar de alegrias.

Ora, eu, que tenho sempre esta mania de olhar para o lado menos solar das coisas, dei por mim a pensar. Será que ninguém tem medo de vir a ser a vítima da pessoa para quem 2026 será um ano de novos começos? Eu explico com um exemplo totalmente fictício: no mesmo sofá está o José, dono de uma empresa onde trabalha o Carlos. O José está certo que a Luiza fala para ele, porque ele percebe o ano da mudança, da alegria da mudança: José olha para Carlos, sorri de um encantamento todo feito de futuro e diz ao empregado: olha Carlos, é tempo de seguir os meus sonhos. Vou fechar a empresa e vou pintar girassóis para o Tahiti, que sempre foi o meu sono. Vais ter de procurar emprego. 2026 vai ser um grande ano para me realizar...

Conversava com alguém que me dizia, face ao exemplo que eu dei, que para o Carlos o fecho da empresa pode ser uma oportunidade. É claro que pode! Mas será que o Carlos quer? E será que o preço que ele vai pagar não é demasiado? Todos nós temos a possibilidade de transformar uma desgraça num triunfo pessoal. Porém, muitos dos que passaram pela desgraça preferiam não a ter vivido, e passariam bem sem o triunfo. 2026 pode ser ano de novos começos. Mas também pode ser o ano de muitos fins. Quem sorri tem de ter a certeza de que é protagonista dos seus começos, e não vítima dos fins dos outros...

JdB        

28 novembro 2025

Textos dos dias que correm

Princess Máxima Center, Utrecht (Países Baixos)
(centro de investigação e tratamento de crianças e jovens com cancro)

Não Deixes Que Metam o Nariz na Tua Vida 

Quando falas ou simulas falar de ti próprio e amalgamas passado, presente, futuro, há sempre os que perguntam se o que contaste é verdade ou não. Nunca indagam se vai ser verdade. O que lhes interessa é saber, com a curiosidade dos intriguistas, se o que se passou (ou parece ter-se passado) se passou mesmo contigo. É um erro de gente vulgar. Parasitários ou não, qualquer invenção ou patranha, qualquer «mentir verdadeiro» é acepipe biográfico, é pretexto para te enfileirarem na nulidade biográfica que é a deles próprios e tecerem incansavelmente histórias a teu respeito.

Não te deixes seduzir pelo gosto da conversa. Essa pequena gente não merece a mais pequena atenção, nem tu precisas de espectadores para o salutar exercício diário de falar por falar.

(...) Não deixes que metam o nariz na tua vida. Caso contrário, vais ficar cheio de gente, com a sua vida escassamente interessante. O tombo da vida vulgar já foi feito por escritores como Camilo. E tenho a impressão de que, no essencial, a vida vulgar continua a mesma.

Desunha-te a escrever (olha que já tens pouco tempo!), mas fá-lo com a discrição e a reserva de quem não se dá às primeiras. É outro exercício salutar. 

Alexandre O'Neill, in "Uma Coisa em Forma de Assim"

26 novembro 2025

Poemas dos dias que correm

Tudo como de costume

Poema vindo dos dias

A tua cruz senhor é pouco funcional
Não fica bem em nenhum jardim da cidade
dizem os vereadores e é verdade
E além disso os nossos olhos cívicos
ficam-se nos corpos de que nos cercaste
Saudamo-nos por fora como bons cidadãos
Submetemos os ombros ao teu peso
mas há tantos outros pesos pelo dia
E quando tu por um acaso passas
retocado pelas nossas tristes mãos
através dos pobres hábitos diários
só desfraldamos colchas e pegamos
em pétalas para te saudar
Queríamos ver-te romper na tarde
e morrem-nos as pálpebras de sono

Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 55 | Editorial Presença Lda., 1984

20 novembro 2025

Poemas dos dias que correm

Sítio do costume, mais ou menos hora do costume

Grito 

Ah, mãos que não moldais o desespero!
Versos que não dizeis quanto eu preciso!
Como um cego, indeciso
Entre a força da inércia
E o desejo instintivo
De movimento,
Assim é o meu instável sofrimento,
Ou todo motivado, ou sem motivo. 

Quero e não quero, dou-me a cada instante,
E recuso-me logo, amedrontado.
Inconstante,
Oscilo como um vime vertical, diante
Das brisas e rajadas do meu fado. 

Ardo nesta fogueira de tristeza
Que não sei quem acende a cada hora.
Sei que a minha alma chora
Como débil criança
Que tem medo da noite que a rodeia.
Noite cerrada e cheia
De pesadelos.
A sorte, a bruxa, a urdir a sua teia
Com a vida apertada nos novelos. 

Miguel Torga
(1907 - 1995)
In "Penas do Purgatório"

17 outubro 2025

O que é que nos domina?

Paredão do Estoril, um destes dias de manhã cedo

Com as minhas diversas leituras para o doutoramento perco-me quanto ao que li, onde li, porque li, de quem li. Para o caso pouco importa. Alguém, perante uma família que se desmoronava, terá escrito: talvez lhes falte alguma espiritualidade. 

3ª feira, à procura de informações para o post sobre o centenário do meu Pai cruzei-me com um texto (cujo autor conheço relativamente bem) de apresentação de um livro comemorativo dos 50 anos da Faculdade de Teologia da Universidade Católica. A certo ponto diz o autor deste texto: (...) a [intuição] de que uma pessoa que acha que a sua vida é a coisa mais importante do mundo provavelmente não se interessa por teologia, e também com grande probabilidade não será uma pessoa religiosa. A teologia, entre outras coisas, é uma ocupação intelectual que nos lembra constantemente que não somos o que mais importa, de que não somos o centro ou o fim deste mundo.

Vou apropriar-me de ambas as citações - com diferentes profundidades, obviamente - para elaborar um raciocínio que nada tem de científico, talvez apenas ignorantemente intuitivo. Relativamente à primeira, vou assumir que o termo espiritual se deve ler como religioso, embora, em bom rigor, se possa ser espiritual sem ser religioso, sendo que a inversa não será forçosamente assim.   

Penso que conseguimos olhar para uma pessoa que conhecemos relativamente bem e identificar os principais defeitos ou qualidades. Será que podemos olhar para uma pessoa e, identificando esses defeitos e qualidades, identificar também aqueles pelos quais essa pessoa pauta a sua vida? Conseguimos dizer de fulano que é motivado pelo amor, mas que beltrano é motivado pelo combate? O bom ou mau feitio que atribuímos a alguém é o resultado de um somatório de características ou é a evidência de uma característica dominante?  

O ser-se religioso não é garantia de que se é boa pessoa. Há, seguramente, pessoas boas e más nas fileiras do religiosos e dos ateus. No entanto, a pessoa religiosa é, de alguma forma, um estudante de teologia: tem uma vida de escuta que o lembra constantemente de que ele não é o que mais importa, nem de que é o centro ou o fim do mundo. Ser-se este estudante de teologia (e aproprio-me despudoradamente da expressão) é ser-se lembrado constantemente de que a característica pela qual devemos pautar a vida é o amor, na sua expressão mais abrangente.  

Vem tudo isto a propósito de, num passeio muito matinal no paredão do Estoril, me ter questionado sobre o que é o sentimento (ou emoção ou sensação, não interessa para o caso) que me move, ou que me domina. Um minuto depois sabia que era mau estudante, mas, adquirido esse facto, o que é que me move? É a vaidade, a fragilidade, o amor, a luta, o orgulho, a paciência, a justiça, a ira, o idealismo (como me dizia alguém ontem)? O que é, na verdade, dominante em cada um d enós?

JdB 

01 outubro 2025

Do serendipismo

Museu do Dinheiro (Lisboa), Setembro de 2025

Um dicionário online define o serendipismo da seguinte forma: 

1. dom de fazer boas descobertas por acaso; aptidão de atrair a si acontecimentos favoráveis de maneira fortuita

2. acaso feliz; acontecimento favorável que se produz de maneira fortuita; descoberta acidental

A expressão, no original em inglês serendipity, foi cunhada em 1754 pelo romancista inglês Horace Walpole para uma aptidão dos heróis de um conto de fadas chamado Os Três Príncipes de Serendip, usando um nome antigo para o Sri Lanka. A expressão faz parte do meu vocabulário afectivo há quase 25 anos. 

Há uns meses fui a casa de uma prima tratar de assuntos corriqueiros. Como é casada com um cavalheiro que sabe sânscrito, perguntei-lhe se confirmava a ideia de que há uma expressão nessa língua para designar pais que perdem filhos. Disse-me que sim: viloma ou vilomah, que significa algo contra a ordem natural das coisas, algo contra o veio da madeira. Meses mais tarde essa minha prima contou-me que a conversa tinha desbloqueado uma peça escultórica em que tinha estado a trabalhar e que se encontrava parada há mais de um ano por falta de qualquer coisa.

Esta semana conversei com alguém sobre serendipismo, também a propósito do sânscrito e da escultura, que me parecia um acaso feliz. No dia seguinte leio o seguinte post no Linkedin:

"Quando o actor Anthony Hopkins trabalhava para a sua actuação no filme "A Garota de Petrovka", quis ler o livro no qual o roteiro foi baseado. Hopkins foi a Londres e visitou várias livrarias, mas não conseguiu encontrá-lo. Ao voltar para casa, encontrou um livro esquecido por alguém num banco do metro. Era "A Garota de Petrovka"! Essa história já é surpreendente por si só, mas as coincidências incríveis não param por aqui.

Mais tarde, durante as filmagens do filme em Viena, George Feifer, o autor do livro, visitou Hopkins. Feifer reclamou que ele mesmo não tinha nenhum exemplar do seu próprio livro. Ele tinha um, mas infelizmente o escritor emprestou esse exemplar a um amigo distraído, que perdeu o livro em algum lugar de Londres. Hopkins mostrou a Feifer o livro que encontrou e perguntou:

"Esse por acaso não é o seu?" E era realmente o livro de Feifer, com todas as anotações do autor nas margens." 

Se tudo isto - a escultura, a conversa, o post - não são manifestações de serendipismo (ou coincidências significativas, como lhes chamava Jung), então não sei o que é o serendipismo...

JdB

26 agosto 2025

Poesias dos dias que correm

Casa de amigos em Alcácer, Domingo que passou

Almoço do trolha 

Pobríssimos
as cabeças cortadas
mas tão felizes
homem mulher e bebé
de um tijolo
do patrão
fizeram um assento
o Estado Novo impede-os
de tirar os sapatos
o Partido Comunista também
desce sobre eles
o Espírito Santo
do almoço
vão comer língua?
 
 
adilia lopes
clube da poetisa morta (1997)
caras  baratas
antologia
relógio d´água
2004

10 julho 2025

Dos abismos

Paredão do Estoril, um dia destes pelas 7.30h da manhã

A vida é uma casa com duas portas. Há uns que entram e que têm medo de abrir a segunda porta. Ficam girando, dançando com o tempo, demorando-se na casa. Outros se decidem abrir, por vontade de sua mão, a porta traseira. Foi o que eu fiz, naquele momento. A minha mão volteou o fecho do armário, a minha vida rodeou o abismo. 

Mia Couto

***

Li esta frase, que me foi enviada por uma mão quase desconhecida, há muitos anos. Regresso ao pensamento volta e meia, não apenas para lembrar tempos que já foram, mas para lembrar tempos que são, ou serão.  

O que é o abismo que a nossa vida deve rodear? Anteontem conversei com duas pessoas diferentes sobre gratidão, sobre a importância de agradecer, não só a cortesia do obrigado a quem nos serve um café ou segura uma porta, mas a a cortesia da amizade em tempos difíceis, a cortesia da presença firme e segura, mesmo que nem sempre manifestada da melhor forma, a cortesia de um conselho que faz repensar o caminho. Ontem ouvia um podcast de um jovem chileno de quem sou amigo e que resistiu a 3 ou 4 cancros diferentes quando tinha meia dúzia de anos. Consciente de que a sua sobrevivência deve muito à sorte, pois pôde ser tratado nos EUA, dizia em resposta à pergunta quais são as tuas prioridades? que era importante devolver la mano

Os abismos da nossa vida nem sempre são mortes, perdas afectivas, desempregos, doenças incuráveis. Esses são abismos, mas há mais: a ausência da gratidão, o excesso de palavras críticas, o orgulho constante, o negativismo permanente, a incapacidade do perdão, o horror à escuta. Tenho, como muitos dos que me leem, a minha dose de abismos mais ou menos dramáticos - perdas, rupturas, pedidos de desculpa que faltaram a quem já não pode ouvi-los. Os outros, porém, continuam por cá, e é preciso enfrentá-los e dizer-lhes que não todos os dias, em função desta certeza, também, de que a vida é precária. E por vezes enevoada. 

JdB

03 julho 2025

Poemas dos dias que correm

Genève, Maio de 2025

Humildade

Tanto que fazer!
livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tanto quanto se esquece. 

Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis...
até o fim do mundo assinando papéis. 

E os pássaros detrás de grades de chuva,
e os mortos em redoma de cânfora. 

(E uma canção tão bela!) 

Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca soubemos quem éramos
nem para quê

Cecília Meireles

20 junho 2025

Duas Últimas

 

Eglise Saint-Gervais-Saint-Protais (Paris)

Ontem postei esta fotografia num grupo de família com a seguinte pergunta: quem adivinha a musica para esta fotografia? As respostas foram diferentes:

The bells of notre dame
Knocking on heavens door
Stairway to Heaven
Highway to Hell

A resposta está abaixo, curiosamente uma música de um grupo de que nunca gostei muito: 


Fui à procura de uma explicação para a letra / música. Encontrei um site em que alguém perguntava isso mesmo e gostei de uma resposta: Estamos falando do Led Zep aqui. Ou é sobre sexo ou sobre O Senhor dos Anéis.

JdB

22 maio 2025

De uma breve estadia em Geneve (I)

Estou em Geneve (detesto a tradução Genebra, lembra-me a bebida) durante dois ou três dias para reuniões. Estive na Suiça há muitos anos, não sei se estive em Geneve, mas penso que não. Hoje andei muito a pé pela parte velha da cidade. O que posso dizer? que é uma cida simpática para se andar, com partes bonitas e outras menos interessantes. A minha primeira reacção é: já vi melhor...  


Não é por acaso que o país é de relojoeiros. Não sei se se consegue ler o renque de anúncios no topo dos edifícios acima, mas são só de marcas de relógios. Do outro lado do rio é quase a mesma coisa. 


Estas duas senhoras demoraram-se 10 minutos ao pé de mim, entretidas com selfies. Percebi que eram árabes, pelo que o turbante (uma coisa que as artistas de cinema de antigamente, e algumas senhoras mais chiques, usavam também) poderia substituir o hijab. Ao fim de algum tempo apareceu uma árabe, tapada dos pés à cabeça, mas com a cara destapada - que começou a gritar com elas. Não percebi o que dizia, mas percebi que não se conheciam. Não sei se bramava contra as selfies, se bramava contra um ar excessivamente ocidental das senhoras, que discretamente viraram as costas e seguiram à sua vida.


O meu tempo de viajar sozinho e com gosto acabou. Ando menos do que andava, pelo que os dias se tornam mais comprido. Falta-me a partilha, e a ideia de jantar num restaurante sozinho a olhar para um telemóvel não me agrada. O que vale é que amanhã e 6ªf já trabalho e depois regresso ao solo pátrio.  

JdB

31 dezembro 2024

Poemas e votos dos dias que correm

Paredão do Estoril, um destes dias de manhã cedo

Cântico XIII 

Renova-te
Renasce em ti mesmo
Multiplica os teus olhos para verem mais
Multiplica os teus braços para semeares tudo
Destrói os olhos que tiverem visto
Cria outros para as visões novas
Destrói os braços que tiverem semeado
Para se esquecerem de colher
Sê sempre o mesmo
Sempre outro
Mas sempre alto
Sempre longe
E dentro de tudo. 

Cecília Meireles

***

Para todos os que passam por este estabelecimento, seja par contribuir, seja para visitar, desejo um Bom Ano de 2025.


13 dezembro 2024

Da ideia própria das perguntas

O sítio dos costume, mais ou menos o mesmo local, mais ou menos a mesma hora

Cresci com uma pessoa que tinha uma ideia muito própria das perguntas; e cresci com uma pessoa que tinha uma irritação muito vincada relativamente a essa ideia muito própria das perguntas. Ou seja, para uma determinada pessoa, as perguntas vais ao centro? Se sim, por onde vais? tinham uma resposta pintada de acrimónia: é relevante por onde vou? Para a pessoa que tinha acrimónia nos bolsos, pronta a sair em resposta a determinadas perguntas, o relevante era vais ao centro?, sendo que o resto era desimportante, parecia-lhe. 

Para esta mesma pessoa também havia uma espécie de informação - que apelidava de informação não solicitada - que justificava um punhado de acrimónia deitado ao diálogo. Se à pergunta vais ao centro? lhe fosse respondido sim, e vou pela rua do lado direito, então sentia-se no direito à irritação; afinal, só perguntara se ia ao centro, não lhe interessando se a pessoa em questão ia pela rua do lado direito ou pela rua do lado esquerdo. A pergunta era vais ao centro? e a resposta seria bastante directa: sim, não, não sabe / não responde, nenhuma das anteriores.

Vergílio Ferreira, no seu livro Para Sempre (Livraria Bertrand, 1983), aborda este tema, não sabendo que aborda este tema, porque menciona aspectos que são de uma conjugalidade mais literária (embora até nisso, na conjugalidade, haja pontos de intersecção...). E diz, referindo-se a Sandra (que é mulher do protagonista do livro que, por acaso, é autobiográfico): 

Sandra rarissimamente me perguntou fosse o que fosse, ah, sei bem porquê. Perguntar, situarmo-nos num plano de dependência onde se recebe a dádiva, o favor de uma resposta. Havia o resto, e esse resto era muito maior que a pequena coisa que eu queria. 

Sandra, que nunca terá pronunciado a palavra amor porque dizia que isso era ridículo, o importante seria o que se vive, responde-lhe mais à frente:

Tudo tem o seu mundo para existir. Ao nível mais alto ou mais profundo as palavras são intrusas.  

Gostava de imaginar que Sandra, ao falar da intrusão das palavras no nível mais alto ou profundo do mundo, estava a dar uma justificação elevada a quem - a tal pessoa com quem cresci - tinha uma ideia muito própria das perguntas. Temo que não seja o caso. Encontrar motivos superiores para as nossas idiossincrasias pode ser um motivo meritório, se bem que porventura inútil. Às vezes só nos resta o eufemismo: tinha um feitio desafiante...

JdB

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