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21 agosto 2024

Poemas dos dias que correm

 PEQUENO-ALMOÇO

Ele pôs o café
Na chávena
Pôs o leite
Na chávena de café
Pôs o açúcar
No café com leite
Com a colher pequena
Mexeu
Bebeu o café com leite
E pousou a chávena
Sem me falar
Acendeu
Um cigarro
Fez argolas
Com o fumo
Pôs a cinza
No cinzeiro
Sem me falar
Sem me olhar
Levantou-se
Pôs
O chapéu na cabeça
Pôs
A gabardine
Porque estava a chover
E partiu
À chuva
Sem uma palavra
Sem me olhar
E eu pus
A cabeça entre as mãos
E chorei.
.
Jacques Prévert
(1900 - 1977)
In "Jorge Pinheiro os Pemas da Minha Vida"
(Tradução de Vasco Graça Moura)

30 julho 2024

Poemas dos dias que correm

 vida em família   

A mãe faz tricô
O filho faz a guerra
A mãe acha isso natural
E o pai? O que faz o pai?
Faz negócios
A mulher faz tricô
O filho a guerra
E ele negócios
O pai acha isso natural
E o filho e o filho
O que é que o filho acha?
Não acha nada absolutamente nada
Acha que a mãe faz tricô que o pai faz negócios e que ele faz a
      guerra
Depois de fazer a guerra
Fará negócios com o pai
A guerra continua a mãe continua a tricotar
O pai continua a fazer negócios
O filho foi morto já não continua
O pai e a mãe vão ao cemitério
O pai e a mãe acham isso natural
A vida continua com o tricô, com a guerra, com os negócios
Os negócios a guerra o tricô a guerra
Os negócios os negócios e os negócios
A vida com o cemitério. 

jacques prévert 
palavras
trad. manuela torres
sextante editora
2007

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