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19 outubro 2018

Das listas ou dos estudos

Cito a sexta carta de Friedrich Schiller [1759 - 1805] em Sobre a Educação Estética do Ser Humano Numa Série de Cartas e outros textos [Imprensa Nacional da Casa da Moeda, tradução de Teresa Rodrigues Cadete]:

Também entre nós a imagem da espécie se vê projectada e ampliada nos indivíduos - mas em fragmentos, não em diferentes combinações, de tal modo que se tem de questionar os indivíduos um por um para reconstituir a totalidade da espécie. 

Reproduzo abaixo o texto de uma ária (Acto I, Cena V) da ópera Don Giovanni, com música de Mozart [1756 -  1791] e libretto de Lorenzo da Ponte [1749 - 1838].




Madamina, il catalogo è questo 
delle belle che amò il padron mio; 
un catalogo egli è che ho fatt’io; 
osservate, leggete con me. 
In Italia seicento e quaranta; 
in Almagna duecento e trentuna; 
cento in Francia, in Turchia novantuna; 
ma in Ispagna son già mille e tre. 
V’han fra queste contadine, 
cameriere, cittadine, 
v’han contesse, baronesse, 
marchesine, principesse. 
e v’han donne d’ogni grado, 
d’ogni forma, d’ogni età. 
Nella bionda egli ha l’usanza 
di lodar la gentilezza, 
nella bruna la costanza, 
nella bianca la dolcezza. 
Vuol d’inverno la grassotta, 
vuol d’estate la magrotta; 
è la grande maestosa, 
la piccina è ognor vezzosa. 
Delle vecchie fa conquista 
pel piacer di porle in lista; 
ma passion predominante 
è la giovin principiante. 
Non si picca - se sia ricca, 
se sia brutta, se sia bella; 
purché porti la gonnella, 
voi sapete quel che fa. 

Uma certa leitura desta ária vê o apego de Don Giovanni ao "catálogo". A actividade amorosa dele não se destina à vivência de experiências mas ao preenchimento de listas: 231 mulheres na Alemanha, 640 na Itália e 91 na Turquia. Curiosamente, em Espanha são já 1003... Gordas, magras, altas, baixas, novas ou velhas, tudo serve para preencher mais uma linha de um rol de experiências amorosas / sexuais.

Ora, pode dar-se o caso de Lorenzo da Ponte ter lido Schiller e ter construído a história de um modo diferente: assim como para o filósofo alemão não se podia conhecer a humanidade numa só pessoa, para Don Giovanni não se podia conhecer a mulher numa só mulher. Nesse sentido, o personagem não seria devasso - apenas um investigador persistente. A alcova não era local de devassidão, mas de estudo, onde ele questionava as mulheres uma a uma para reconstituir a totalidade da espécie.

JdB

23 março 2017

Vânia e as listas de Antonino

Como acontece quase sempre na história das famílias, antes de Antonino perceber já os pais de Antonino haviam percebido: numa viagem a Salamanca, quando o rapaz tinha 15 anos e revelava de forma clara, ainda que não acintosa (que neste caso se traduziria por uma precocidade enervante) uma queda para a pintura enquanto observador, Antonino quis visitar todos os museus e palácios da cidade onde esta forma de arte fosse preponderante. Contudo, não seguiu um critério geográfico, que consistiria em fazer troços pequenos do palácio A para o museu B; não seguiu um critério cronológico, ou de estilo, que passava por ir do mais antigo ao mais moderno, ainda que a inversa também fosse possível. Antonino seguiu um critério meramente numérico e crescente no mapa da cidade - de 1 até n, sendo que podia deslocar-se a uma ponta da cidade para ver o séc. XV e, seguidamente, deslocar-se à outra ponta para contemplar o séc. XXI, desde que estes museus e / ou palácios específicos fossem numericamente seguidos. 

Quando entrava no museu ou palácio, Antonino pedia imediatamente um catálogo dos artistas expostos e, num ápice (havia uma espécie de queda natural para a coisa, o que a tornava rápida e pouco fastidiosa, ainda que preocupante) Antonino seleccionava os artistas começados por A - e era esses que via em primeiro lugar, seguindo depois para a letra B. A rotina repetia-se até Z, sendo que de permeio havia o W e o Y para engrossar as variáveis. Isso implicava - e esse facto não carece de explicação - subir escadas e descer escadas à procura do D ou do N, podendo viver com a desilusão de uma letra orfã e só, sem nenhum nome que lhe fizesse companhia.

Antes de Antonino perceber a obsessão, já os pais de Antonino haviam percebido a obsessão: eram os catálogos, os cânones, as listas (listas de tudo, mas também listas de listas, talvez mesmo listas de listas de listas). O inferno, não como temor, mas como lista iconográfica de torturas; a História de Portugal, não como um conjunto de grandezas e misérias, mas como uma lista de dimensão genealógica: A pai de B, que é pai de C, que é pai de D e de E, de quem nasceu o terceiro bastardo E3; o livro de linhagens de D. Pedro, conde de Barcelos, não como um documento medieval pioneiro, mas como uma lista prática de informações relevantes (por oposição à genealogia de Jesus, uma lista não prática, mas que também constava na sua lista de listas). 

Após o curso de História e uma pós-graduação em arquivismo na variante catálogo, Antonino seguira uma carreira de bibliotecário de autarquia, criando e recriando listas, imaginando ordenações, congeminando frequências e tendências, diversificando o rol de compras mensais tomando em consideração a ordenação alfanumérica de prazos de validade, número de fornecedores por distrito e lista de órgãos sociais com predominância da letra J. Vânia, deitada ao seu lado, tinha feito um curso de pintura, praticava ioga, meditação e voluntariado aos fins de semana num lar de idosos. 

Para eles era a primeira noite - uma noite chuvosa, ventosa, a levantar tudo pelo ar: folhas, papéis de jornal, cascas de maçã, passarinhos mortos e caídos dos ninhos, aromas de frango assado. Vânia tinha uma figura invejável, fruto de uma boa genética, que, quanto à alimentação, a rapariga ia a um cozido, a uma farófia, a uma léria ou a uma sopa da pedra, sem medo e sem remorso. Era alta, esbelta, vistosa sem ser exuberante, com uns olhos azuis de cortar a respiração e uma ligeiríssima e interessante assimetria dos dentes da frente. Antonino beijou-a com fervor carnal e paixão afectiva, porque não conseguia separar os sentimentos. Tocou-lhe com jeito e educação, elogiou-a com simplicidade e gosto. Pediu-lhe desculpa pela interrupção e, debruçando-se sobre a gaveta da mesa de cabeceira, olhou brevemente lá para dentro, retomando o afago, o beijo, o elogio.

Terminaram ofegantes, como o vento na rua que tudo transportava. Antonino fora fazer um chá de gengibre e limão e Vânia, debruçada sobre uma nudez que provocava inveja e perturbação, abriu rapidamente a mesa de cabeceira, vencida por uma curiosidade que só na mente dos mais perversos seria travestida de desconfiança. Na gaveta, lado a lado, encontrou uma lista de pintores com nomes começados por V e que faziam ioga e / ou meditação e / ou voluntariado e uma lista traduzida do indiano e intitulada catálogo de posições felizes para uma noite carnal. Encontrou, por fim,  a capa do livro Penitencial, de Martim Pérez, que abriu ao acaso. Se alguum se banhou en banho com as molheres e as vyo nuas e ainda a sua molher meesma, jajue dous dias em pan e augua

Antonino assomou ao quarto, precedido pelo aroma do chá, e perguntou-lhe: vamos tomar um banho? Vânia perguntou, sorrindo: gostas de pão e água?

JdB
        

21 fevereiro 2017

Duas Últimas

Um amigo pergunta-me pelos meus seminários de doutoramento. Falo-lhe num que tem por tema "Listas". Manifesta surpresa. Para o tentar elucidar (ainda que de forma fraca) e porque ele é melómano, falo-lhe na ópera Don Giovanni, onde há uma referência a listas. 

(Penso que não é preciso saber-se muito italiano para se perceber onde está a referência às listas, e que listas são essas).

Para Leporello, a importância está, não na beleza das senhoras ou na sua origem social, mas no enriquecimento das listas. É preciso engrossar as listas - o catálogo - e há uma dimensão geográfica neste livrinho. Não falamos, por isso, só de listas de supermercado. Há um mundo por trás das listas - e é disso que ouvirei atentamente, uma vez por semana, ao longo dos próximos meses.

JdB



Leporello

Eh! Consolatevi;
non siete voi, non foste, e non sarete
né la prima, né l’ultima. Guardate:
questo non picciol libro è tutto pieno
dei nomi di sue belle:
(Cava di tasca una lista)
ogni villa, ogni borgo, ogni paese
è testimon di sue donnesche imprese.

Madamina, il catalogo è questo
Delle belle che amò il padron mio;
un catalogo egli è che ho fatt’io;
Osservate, leggete con me.
In Italia seicento e quaranta;
In Almagna duecento e trentuna;
Cento in Francia, in Turchia novantuna;
Ma in Ispagna son già mille e tre.
V’han fra queste contadine,
Cameriere, cittadine,
V’han contesse, baronesse,
Marchesine, principesse.
E v’han donne d’ogni grado,
D’ogni forma, d’ogni età.
Nella bionda egli ha l’usanza
Di lodar la gentilezza,
Nella bruna la costanza,
Nella bianca la dolcezza.
Vuol d’inverno la grassotta,
Vuol d’estate la magrotta;
È la grande maestosa,
La piccina è ognor vezzosa.
Delle vecchie fa conquista
Pel piacer di porle in lista;
Sua passion predominante
È la giovin principiante.
Non si picca - se sia ricca,
Se sia brutta, se sia bella;
Purché porti la gonnella,
Voi sapete quel che fa.

(Parte.)

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