Mostrar mensagens com a etiqueta Porta do Vento. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Porta do Vento. Mostrar todas as mensagens

07 dezembro 2009

A gestora do hipermercado

Chamava-se Maria Helena e era responsável pela secção de peixe do hipermercado. Sabia tudo sobre sargos, besugos, guelras, escamas, época da desova, pesca do safio, extinção das espécies, funcionamento das lotas, necessidade de remunerar o accionista, receitas minuciosas de ir ao céu.

Se comparássemos a vida da gestora a um carro, dir-se-ia que seria algo de discreto, com um historial desinteressante em termos de picos de velocidade, iminências de desastre, curvas apertadas, ultrapassagens no limiar da segurança. Maria Helena tinha conhecido amores, solidões chorosas em madrugadas frias a compor a sardinha ao lado do salmão, noites sensuais cuja torridez do sexo envolvido se encerrava dentro de intervalos apertados. A rapariga era, de facto, uma montra de peixe que não se destacava pelo contraste ou pelo arrojo.

Um dia, uma colega – Aldina, natural do Cartaxo, baixa e entroncada como uma levantadora de pesos -, desafiou-a a consultar alguém que lia cartas e fazia mapas astrais.

O que tens a perder? Olha que já lá fui e saí toda arrepiada com o que ouvi. Posso garantir-te que não é um charlatão de turbante por trás de uma bola de cristal. Vai e depois conta-me. Já viste que fresquinhas que estão as douradas?

E a Maria Helena foi, num fim de tarde chuvoso e triste, com uma humidade que lhe estragava o cabelo e um vento que lhe partia o chapéu-de-chuva.

Posso dizer-lhe, Dr. Garcez,

diria ela ao astrólogo, um homem alto e magro como um ramo de salgueiro, e uma melena branca penteada para trás com um esmero de artista,

que a minha mãe garantiu que eu nasci às 12.45h.

No dia seguinte, no trabalho, foi confrontada com a franqueza campesina da colega.

Olha, digo-te, se fosses uma chaputa não ias para o linear. Estás cá com uns olhos…

E a Maria Helena contou o que ouvira, a quantidade de pistas que o Dr. Garcez lançara sobre o seu passado, o seu presente e o seu futuro. É claro que não soubera nada de concreto, mas a gestora encaixara pedaços de informação com histórias que só ela sabia.

Digo-te, Aldina, cheguei cá fora e sentei-me com as pernas a tremer… E o que será o meu futuro, com tudo aquilo que eu ouvi? Quem serão estas pessoas, estes sítios, estes acontecimentos?

Ao fim da noite, já em casa, agarrou-se a um chá calmante. Recusou um convite do Amadeu, chefe de secção de bebidas espirituosas, porque não lhe percebeu o enquadramento no que o astrólogo dissera. O futuro que o Dr. Garcez lhe apontara era nebuloso e desfocado, mas quanto ao passado…

Foi despertada pelo telemóvel que reproduzia a Beyonce, na batida forte do Single Ladies.

Está lá, Lenita?

Diz, mamã.

Olha, estou tão arreliada.

O que foi, mamã?

Então não é que te disse uma coisa errada? 12.45 foi a hora a que o teu pai e eu casámos. Tu nasceste eram quase dez da noite. Esta cabeça…

Conheço-a bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

23 novembro 2009

O diálogo

(...)
- Sabe que mais?
- Diga…
- Há muito tempo que vivo do sexo. E, como deve calcular, não é com o meu marido…
- Quer especificar?
- Sim.
- Diga, então.
- Desde há um ano que trabalho na Lanterna Vermelha…
- Lanterna Vermelha? O que é isso?
- Como posso explicar-lhe… é aquilo que se chamaria uma casa de senhoras.
- Sim, já percebo. Continue.
- Fui contratado para lá trabalhar, como lhe disse.
- E gosta?
- Podemos falar de várias dimensões.
- Quais?
- A financeira, a sociológica.
- Fale-me da segunda.
- Pois muito bem. Sabe, durante muitos meses fui mais do que a pessoa que está aqui a falar consigo, e isso já é, só por si, um aspecto interessante.
- Como assim?
- Olhe, durante vários meses fui a Honória, uma moçambicana que recebera o pai crivado de balas e sem uso para o afecto de que precisava; fui a Joana, cuja simetria física perfeita excitava alguns clientes e a Georgette, que tinha das cartas de amor uma visão própria e carregada de mentira. Fui ainda Esperanza Morales que, vinda de Pipinas, na Argentina, dançava nua ao som de tangos dolentes, e Carmelinda, natural de Bencatel, cujo sotaque cerrado provocava desvairos e olhos revirados num conde falido. Fui ainda a Gervásia, uma beirã que tirava o palhaço do sério, assim como fui a Solange e a Rosário, encantando jogadores de futebol falhados ou homens sombrios de uma qualquer repartição de Finanças. Fui ainda, entre outras, a Yuni Siyu, uma chinesa que fazia do trapézio uma volúpia circense.
- Estou impressionado.
- E pode ficar que não é para menos.
- Quer continuar?
- Claro, porque não quero ficar na explicação de quem fui ao longo destes meses; quero falar-lhe, também, da visão sociológica dos clientes.
- Diga então.
- Podia falar-lhe do tal conde falido que só queria ouvir alentejano cerrado enquanto revirava saudosamente um bocado de cortiça no bolso do casaco; podia falar-lhe no Sr. Marcolino, um anão com desejos de alpinismo e que escalou uma escultura em forma de mulher; talvez valesse a pena referir o Martim Moniz, Miranda da parte da mãe, que se iniciou nas artes do prazer trazido pela mão de um avô; gostava que lhe falasse no Dr. Guimarães e Costa que se encantou, não pelas curvas sensuais de uma rapariga, mas pela sua arte no jogo do crapaud? Ai, havia tanto para lhe contar…
- E diga-me: na verdade, o que a traz por cá?
- A bem dizer não sei. Uma vontade imensa de falar deste assunto, sei lá eu. Foi uma vida muito intensa, sabe? Muitos personagens, muitos clientes, muito erotismo, muito afecto, muito asco, talvez... Muitas vidas dentro da mesma vida. Como será que aguentamos tanto personagem a conviver no mais íntimo de nós?
- Eu percebo.
- Dá-me a absolvição, senhor Padre?
- Está arrependida?

(...)

Conheço-os bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

16 novembro 2009

O consultor (Cont.)

O calendário religioso avançava a um ritmo certo e previsível, como o alinhamento dos astros, os eclipses e as marés, ou a inevitabilidade dos impostos e da morte, estes dois últimos acontecimentos constituindo, ao que dizem, a única certeza da vida. Tal como numa célebre viagem de comboio entre a velha Sevilha e Guadalquivir, o Bem e o Mal, Deus e Satanás disputavam as almas com argumentos fortes: o céu, o prazer, o momento presente, o futuro, a construção, a facilidade, o imediato. E a contabilidade era uma guerra feita dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, sendo que o resultado final só se saberia no fim dos tempos, no apocalipse da vida, no estertor da existência.

O Rúben continuava a aparecer, a disponibilizar-se, a colaborar, a ouvir, a opinar, a olhar, a sorrir, a comover-se, a discordar. Entrava-se na Igreja, fosse em que dia ou hora fosse, e olhava-se à volta para descortinar onde andaria o Rúben, o que estaria a fazer, o que pensaria disto ou daquilo. E o homem da gaforina loira atirada para trás surgia do nada, de uma penumbra, de uma discreção. E cumprimentava, sorria, ajudava, olhava à volta de forma perscrutadora.

Um dia o Rúben desapareceu.

---------------

Ok. A história fica por aqui. Porquê?, perguntarão os meus leitores mais fiéis, aqueles que aqui vêm semanalmente para deixar uma palavra simpática ou um olhar curioso. Por uma razão muito simples: não faço a mais leve ideia de como a acabar. Já quando a comecei, tarde e a más horas, não tinha um fim suficientemente interessante para lhe apor nos últimos parágrafos. Criei o subterfúgio do continua na próxima semana na ilusão de mais um tempinho, uma folga, um adiar da execução; na expectativa vã, talvez, de um golpe de asa com o qual me cruzasse nas minhas rotinas diárias. O facto é que nada surgiu. Nada de nada de nada. Ideias vagas, fins previsíveis, desenlaces sem brilho. Optei por esta confissão…

Alimentar uma coluna semanal com uma história ficcionada minimamente interessante tem sido obra. Herdei, do MTS, a 2ªfeira neste Adeus, até ao meu regresso… Também ele terá fechado o Lanterna Vermelha (depois de algumas dezenas de episódios) pelos mesmos motivos: falta de imaginação, o terror do dia fixo, a angústia do prazo a cumprir, o enjoo pontual de um teclado que é, oito horas por dia, uma ferramenta de trabalho.

Lamento desiludir os meus queridos e fiéis leitores. Eu, cronista, me confesso, poderia ser o tema deste post. Mas ele há dias, sabem? Talvez me surja uma ideia num repente; talvez a minha imaginação continue um deserto a perder de vista, talvez algum visitante tire um coelho da cartola e mo presenteie num repente generoso. Para já é isto... Ainda hesitei na continuação da novela O Consultor, escrevendo frases interessantes e que me entretinham, envolviam o freguês do blogue numa trama com final misterioso. O facto é que o Rúben estava condenado, porque tudo o que me ocorria tinha o triste odor do lugar-comum ou do déjá vu...

Olho para o MTS, para o JdB, para outros que sei terem sentido, aqui e ali, o mesmo cansaço criativo e só me ocorre uma frase:

Conheço-os bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

09 novembro 2009

O consultor

O nome dele surgiu por puro acaso num jantar social. Há instantes que são marcantes, porque determinam o fluxo de uma conversa que parece inexistir na mente dos interlocutores. Num minuto, o Rúben era alguém que não fazia parte das probabilidades de conversa; num repente, alguém menciona o seu nome a propósito de uma ninharia e já toda a gente o conhecia, afadigando-se em comentários que gravitam entre a curiosidade e o elogio.

Ninguém sabe exactamente de onde veio este homem dos seus quarenta anos, engenheiro de formação, com uma cabeleira longa e loira toda penteada para trás. Olhando para ele, poderia sugerir-se um encontro fortuito num espectáculo de música alternativa, numa peça de teatro levada à cena por um grupo rebelde, numa exposição de pintura que olha para o abstracto com um ar de ligeiro enfado, porque a entende demasiado conservadora.

Mas o Rúben, por mais estranho que possa parecer, surgiu na Igreja. Ao princípio sentava-se na penumbra de um lugar discreto, tendo avançado posteriormente para o centro do palco, se assim se pode dizer sem que o desrespeito atinja foros de exagero. Ao fim de algumas semanas, este homem das ciências, a trabalhar numa empresa de consultoria, oferecia-se para a segunda leitura dominical, cujas características próprias casam melhor com uma voz masculina.

Um fiel novo na casa de Deus é sempre motivos de alegria. Ninguém conhecia o passado do Rúben, e ninguém falava nisso, como se fosse um tema de conversa que devesse ficar na meia-luz de uma qualquer reserva. Há vidas que não queremos esmiuçar, e essa decisão é uma entremeada composta pelo respeito da privacidade alheia e pelo temor da caixa de Pandora.

O Rúben tornou-se conhecido pela disponibilidade para ajudar, pela farta gaforina e, também, pela presença repetida nos vários serviços dominicais. Era visto na missa das nove e das dez, ou do meio-dia e meia e das seis da tarde, ou das onze e das treze. O Rúben era visto, e esta expressão não é apenas o arrumar livre de palavras singelas. Ele era, de facto, visto, porque não passava despercebido. Para completar este ramalhete de características, o Rúben era simpático, conversador, discreto mas presente, exaustivamente democrático nos seus contactos, pois falava com toda a gente por igual, fossem ricos e pobres, condes e operários, padres e leigos, cultos e ignorantes. Como se tivesse o gene da abertura humana no seu esplendor, ou como se lhe faltasse a enzima que, em todos nós, faz marcar a diferença com que olhamos os outros e materializamos a abordagem.

Toda a gente gostava do Rúben, e não hesitavam em lhe manifestar esse apreço. Apreciavam-lhe a educação e a disponibilidade, a afabilidade e a prontidão, a generosidade e o sorriso. E o Rúben sorria numa humildade contida, como se todos os elogios fossem um exercício de um exagero de generosidade imerecida e embaraçante.

Nota: Continua na semana que vem

JdB

02 novembro 2009

O músico

Habituei-me a vê-lo, nos últimos dois ou três anos, numa das ruas mais movimentadas da zona onde vivo. Relativamente novo, pelos quarenta anos, aparentou sempre um ar distinto, para o qual contribui o ar lavado e as roupas em bom estado, não obstante algum desenquadramento com a moda.

Entabulei conversa com ele um dia, quando o vagar do meu fim de tarde o permitiu. O cão ao seu lado sorriu-me num abanar de cauda afável e o Alberto - assim se chama o rapaz - agarrou na bengala para que não houvesse o risco de ela ficar fora do seu alcance. Rodou a cabeça para captar melhor o som da minha voz e, perdoe-se a contradição, olhou-me por detrás de uns óculos escuros de cego. Trocámos meia dúzia de palavras de circunstância e afastei-me rapidamente, porque o Alberto tinha de trabalhar para poder facturar, passe a expressão demasiado economicista para quem está incapaz de ver o mundo, limitado a uma imaginação cuja fertilidade tem dias.

Durante cerca de uma hora ouve-se fado tocado com o maior sentimento. De guitarra na mão, o Alberto percorre as melodias que revelam a alma portuguesa funestamente melancólica. A qualidade é francamente elevada, pelo que as pessoas param, encostam-se a uma parede, ouvem com deleite. No fim, aproximam-se do músico, elogiam-lhe a arte, afagam o cão, deixam uma recompensa generosa na caixa da guitarra.

Quando o sol se põe e o movimento diminui, o Alberto recolhe, acompanhado do cão e de uma bengala, auxiliares que lhe tacteiam os obstáculos e o guiam na selva urbana. Ao chegar a casa, um apartamento herdado num bairro de classe média, cumpre religiosamente as suas rotinas: um bom prato de comida que o cão chamado Esperto merece recompensa; uma música suave para acalmar a tensão do dia e, por vezes, um banho quente e longo que revigora e relaxa.

Quando o noticiário das nove da noite está quase a terminar, chega a Marília, a quem o Alberto beija com uma sensualidade e um ardor que ganhariam foros de erotismo no cinema. Percorre-lhe o corpo com uma mão ávida e carregada de desejo, como se o tacto assumisse foros de grandeza, alcandorado ao mais importante de todos os sentidos que a natureza nos oferece.

Correu-te bem o dia, Alberto?

Não me posso queixar…

Percorrem então, lentamente, os canais de uma televisão maçadora e repetida. Comentam as notícias, as pessoas, as roupas, os cabelos, as actrizes. Alberto fala dos espectadores que o ouvem tocar, dos visitantes assíduos, dos esporádicos, da dimensão das esmolas.

Ao fim da noite, o homem que domina a guitarra portuguesa, cujos dedos reproduzem melhor do que ninguém o Mouraria e o Menor, já não tem óculos escuros, e os seus olhos azuis apreciam a geografia física da namorada.

Estás melhor do que nunca, Marília.

Abraçam-se e riem muito os dois, numa voragem de emoções fortes. A Marília enamorada doentiamente por um homem vocacionado para o teatro e que sempre enganou toda a gente. O Alberto, com uma cegueira só de paixão, sem conseguir imaginar o que seria não ver o que as mãos sentem.

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

26 outubro 2009

A dactilógrafa

Há quem chore de tristeza, há quem chore de alegria. Por vezes é a visão de algo superiormente bonito que nos provoca lágrimas corridas; outras vezes é uma ternura, um encantamento muito próprio, sei lá eu, que nos embacia os olhos. Foi este enternecimento, inexplicável à luz de uma lógica impessoal, que fez Gonçalo chorar, com a boca muito aberta para que lhe entrasse o ar que faltava. Porque Filomena, no quarto ao lado, se despia para ele com um vagar perturbador.

É normal o desejo carnal perante uma nudez que se revela gradualmente – e pela primeira vez - numa proximidade inquietante. Mas o homem, professor de filosofia num liceu dos arredores, não o sentiu em exclusivo. O amor que devotava a Filomena, administrativa no mesmo estabelecimento de ensino, era de uma intensidade tão própria, que chorou. Muitos não perceberiam esta sensação de exaltação que esmaga um coração que teima em bater a descompasso.

Filomena sentia-se observada através de espelhos de portas, algo que não a incomodava. Devagar, como se o mundo dependesse disso, desapertou os botões da camisa. A lentidão era devoradora, mas ela acreditava no cerimonial, no tempo próprio, na habituação dos sentidos à transcendência de uma mulher, jovem e bonita, despojada dos artefactos que cobrem o seu corpo nu.

Gonçalo espiava, sufocado, a mulher por quem se apaixonara. E via mais uma peça de roupa que tombava no chão. E Filomena desnudava-se, rodando o corpo num misto de pudor e provocação para atrasar a revelação total. O professor passara a fase da lágrima de ternura, explodindo por dentro num vulcão de desejos ardentes. Fechou os olhos, no desespero da criança que tem de esperar pela guloseima longínqua. Quando os abriu, Filomena tinha um cabelo longo e ruivo que lhe tapava o peito, e sentara-se de lado numa cadeira, revelando umas costas tentadoras.

Passados alguns minutos, a rapariga levantou-se de forma calculada e ergueu os braços para apanhar o cabelo. Olhou para o namorado, que lhe revelara Platão e Espinosa, e numa voz…

Podemos ficar por aqui, D. Odete? Estou cansado.

Vítor Guilherme olhou para as mãos, deformadas por artroses que o impediam, há anos, de exercer autonomamente o seu trabalho de escritor, e recostou-se. Ao seu lado, Odete Ramires, que casara como costureira para enviuvar como dactilógrafa, cobriu a máquina de escrever eléctrica com um oleado acinzentado. Arrumou a cadeira com cuidado e silêncio e despediu-se numa voz que revelava educação e ódio:

Até amanhã, Sr. Guilherme. Estimo as suas melhoras.

Já na rua, enfrentando um fim de tarde tristemente frio, Odete Ramires, reformada de emoções, sentou-se numa pastelaria para um bolo seco e um galão escuro. A artrose do autor debilitado era-lhe indiferente; os dedos carcomidos pela dor, também; invejou-lhe, com raiva, a imaginação e o facto de o escritor ter outra vida dentro da própria vida. Quando pensou no Gonçalo e na Filomena, em corpos desnudos amando-se no remanso de uma meia-luz, levou a mão ao pescoço, escondendo um camafeu e sufocando um desejo.

Conheço-a bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

19 outubro 2009

O inteligente

Sim, sim. Inteligência, claro. Olha…

Era de madrugada, e Gaspar ouvira este princípio de frase que se imobilizara no cérebro como uma folha teimosa num remoinho de Outono.

Gaspar, o nosso protagonista, tinha-se formado com seriedade no Instituto Superior Técnico. Como sempre acontecera ao longo daqueles cinco anos, corria para enxergar, em duas pautas, em dois pavilhões, as notas dos dois cursos que tirara em simultâneo. Como costumava dizer

temos dois olhos, dois hemisférios cerebrais, dois ouvidos, duas mãos, duas pernas…

e isso era, para si, argumento bastante para a empreitada. Dupla, diga-se de passagem.

Considerado um homem superiormente inteligente, discorria com propriedade sobre qualquer assunto, vivendo nesse limbo que separa, por vezes, a cultura da informação. Ria pouco e o sorriso, quando se abria, era mais um esgar de espanto por ver amigos e colegas gargalhando com uma série cómica, um filme ligeiro, uma anedota. Mas Gaspar, na sua seriedade, tinha a mente noutro lado. Enquanto os camaradas de curso se afadigavam a ver de onde partia a bola (eufemismo para ilustrar a vida em geral, com as suas tendências científicas, propensões literárias, pendores médicos) Gaspar contraía os olhos que todos temos na mente e sabia para onde seguia o esférico cuja partida os outros descortinavam.

O mundo girava e Gaspar, com um bilhete comprado no carrossel da vida profissional, sentia que tudo era uma espiral ascendente. De estagiário passara a contratado a prazo; num feliz Natal fora presenteado com o ingresso nos quadros; quando o conheci em casa de amigos comuns (moramos todos num raio de mil e quinhentos metros) Gaspar era director-geral da empresa. Continuava a não sorrir, mas talvez achasse isso dispensável face a um carro fabricado ontem, a um cartão do ouro mais fino, a férias em lugares impossíveis, a contactos internacionais ao nível da excelência.

Solicitei-o várias vezes para me resolver pequenos problemas domésticos: uma torneira irrequieta, um gás natural sem chama, uma disfunção num reóstato. Sempre prestável e solícito, percebia-se que observava a dificuldade com um duplo olhar (dois cursos, duas mãos): o olhar do cientista que pré-examina o problema à luz do conhecimento teórico e o do homem que não ri, porque aqueles que riem não sabem o que é um reóstato.

Sim, sim. Inteligência, claro. Olha…

Gaspar atentou na nudez de Marília quando ela se levantou da cama. Uma nudez alva num corpo vagamente franzino mas proporcionado, que o acompanhava em noites lentas de há alguns meses para cá. A rapariga fascinara-se por uma inteligência superior e séria que não se perdia em miudezas quotidianas, porque havia o futuro da humanidade, o aquecimento global, a escassez da água, as radiações nocivas, o trânsito caótico.

Sim, sim. Inteligência, claro. Olha… Mas és capaz de me fazer rir?

Gaspar foi desgraçadamente clarividente. Os outros veriam de onde saía a Marília. Gaspar – com os seus dois hemisférios – já percebia para onde ia a ex-fascinada. Quando lhe viu as costas desnudas por onde gostava de passar uns lábios sérios percebeu que, pela primeira vez, tinha chumbado no exame.

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto que devia ter sido publicado sábado no Porta do Vento mas que não foi devido a obras de restauro no dito.

12 outubro 2009

A garagista

Começara com o Meccano dos irmãos mais velhos depois de ter sentido a magia do Lego, não para a construção de casas, mas para a concepção de espaços industriais – “fábricas para fazer coisas”, como dizia - numa idade em que a normalidade estatística recomendaria o desejo do sexo oposto.

Passara, então, para os electrodomésticos. Numa primeira fase, com a perspectiva da autópsia e, numa segunda, com uma dimensão de curandeiro. Acabaria, se é que a expressão se pode utilizar em quem está no início da vida, a esmiuçar carros, numa dissecação cientista dos vários órgãos.

O curso de engenharia mecânica veio como corolário lógico de uma mente e de umas mãos voltadas para as máquinas e equipamentos, electrónica e circuitos afins. Quando se instalou no bairro provocou aquela estranheza que por vezes antecede o respeito ou o sorriso. De facto, não era costume ver uma mulher – ainda para mais relativamente nova – à frente de uma oficina de automóveis.

Mas Andreia, com uma cara bonita num corpo equilibrado, impôs-se num mundo quase exclusivamente masculino. Se fosse preciso gritava, descompunha um empregado, falava-lhe de igual para igual – em termos de conhecimento, é claro, porque a hierarquia nunca foi questionada. Este convívio indiferente só com homens, totalmente imune a olhares concupiscentes de clientes e mecânicos (porque a relação profissional não inviabiliza o desejo) acabou por sujeitá-la a algumas suspeitas de orientação de vida íntima menos ortodoxas… Tornara-se, acima de tudo, numa mulher dura e intransigente.

Duas vezes por mês, no recato de sua casa, Andreia recebe Madame Odille, uma francesa que tem o privilégio de umas mãos de fada e de uma sensibilidade de artista. Durante uma hora e meia a garagista aprende tudo o que é possível sobre pintura: os estilos, a história, a aguarela, o pastel, o lápis. Tem uma única exigência: os últimos trinta minutos são dedicados em exclusivo ao retrato, mesmo sem a presença de um modelo. Nos olhos de Madame Odille há um cintilar de desconfiança sempre que olha para um esboço ou uma obra acabada. É como se houvesse uma qualquer nota dissonante, ainda que essa dissonância esteja numa constância a que alguns chamarão monotonia. A mestra pressente, mais do que evidencia. Talvez seja dos seus 70 anos, de uma visão menos boa, de uma mão mais incerta, de uma memória que já tem dias.

Na sala onde há muito só entra a professora, Andreia, já sozinha, abre a gaveta da cómoda e espalha os retratos que tem vindo a pintar ao longo do último ano. A evolução é visível: as sombras, a perspectiva, a firmeza e a agilidade, o amor ao preto e branco. Estão lá, se calhar, 20 esboços, uns mais acabados do que outros. São todos do mesmo homem, e quase todos na mesma atitude: uma boca bem desenhada ainda que não especialmente bonita, um cabelo grisalho e ondulado, uns olhos infelizes que se fixam no vago, uma mão que se adivinha abandonada. Andreia vê-os com nostalgia. Põe uma música triste e chora sozinha, abandonada numa ilusão de dureza que ficou à porta da oficina.

Conheço-a bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado sábado no
Porta do Vento

05 outubro 2009

O administrativo do rent-a-car

Talvez a farda do dia-a-dia – uma camisa branca, umas calças azuis escuras e uma gravata com o logótipo da empresa - fosse, de facto, o seu salvo-conduto para a pergunta demolidora:

Queres falar sobre essa camisola? E tens a certeza de que gostas dessas meias?

Mas ele não se importava, ou importava-se e sentia a impotência – ou, quiçá, falta de vontade -, para enveredar por um caminho diferente no tocante ao seu guarda-roupa pessoal. E continuava a cruzar riscas com bolas, castanho com verde-claro, azul celeste com cores indefinidas, padrões modernos com tecidos improváveis. Tudo em nome de uma indiferença – ou de uma ignorância.

Os amigos riam-se – sendo que o riso era a sensação que se seguia ao espanto - e sugeriam que ele adoptasse a farda como vestimenta permanente.

Mantém o pijama, se quiseres, por desconhecimento nosso e pouco entusiasmo pela atracção do abismo.

Carlos, o administrativo do rent-a-car de maior sucesso nas redondezas, volta a sorrir com bonomia salpicada com uma indiferença que caracteriza a inteligência de algumas pessoas. Durante a semana usa a sua farda clássica; de noite, ou aos fins-de-semana, dá asas à sua criatividade mais louca - ou mais errada, porque loucura e erro nem sempre caminham juntos.

Para efeitos desta crónica não interessa o resto do calendário. Importa reter todas as últimas quintas-feiras do mês, momento em que o rapaz da visão desgovernada das cores e padrões convida a Cristina para jantar em sua casa. Nesse exacto dia, que se repete com a certeza da lua cheia e das marés, Carlos veste a sua melhor farpela: um fato completo cinzento-escuro, uma camisa azul e uma gravata com um motivo que não passa de moda. Era clássica no tempo do seu pai, será clássica no tempo hipotético do seu filho – imaginando que possa vir a ter descendência. Uns botões de punho discretos dão um toque de classe ao conjunto.

Socorramo-nos, agora, do lugar-comum: há frases que se repetem e que não perdem o seu encanto. Citemos o amo-te, mas, também, o que seria da minha vida sem ti e, nalguns casos, o que seria da tua vida sem mim. Cristina não fugirá à regra. Entra e beija-o numa sala que, embora modesta, está repleta de flores propositadas para aquela noite. Ardem velas aqui e ali, baixou-se a luz aos candeeiros existentes para que a penumbra inebrie os sentidos e convide ao erotismo. Cristina aloja dentro de si sensores que disparam na última quinta-feira do mês em casa do Carlos, empregado no ramo do aluguer de automóveis.

Depois do beijo longo e apaixonado, do aspirar do aroma das flores e das velas de cheiro que ardem romanticamente, a rapariga ajeita-lhe o nó da gravata e sacode-lhe a impressão de uma poeira nos ombros. E repete a frase, porque descobre encanto na rotina de algumas expressões.

Estás muito bem vestido.

Carlos sabe que Cristina é cega de nascença. Mas, mesmo que a inconsciência do mal não configure um pecado, não gosta de imaginar que ela está mentir.

Muito bem vestido, mesmo.

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado sábado no Porta do Vento

28 setembro 2009

O homem do talho

- Dá-me 1 kg de bifes, Sr. Josué? Mas importa-se de os cortar fininhos? E de me tirar a gordura antes de pesar?

- E quer que eu lhes faça uma massagem também? Ou uma lipoaspiração? Se quer fininho fale com o Rui Veloso, que essa música era dele.

Ou então:

- A carne é boa, Sr. Josué? Queria uma peça macia mas barata, que o tempo não está para mais.

- Ah sim? E mais alguma coisa? Um bilhete premiado, talvez? Mas que eu lhe oferecesse, é claro, que o tempo não está para mais…

Os diálogos como o dono do talho não variam muito. Pedidos simples respondidos com frases agrestes, simpatias matinais retorquidas com azedumes permanentes. Ao Sr. Josué vale-lhe a qualidade da carne, além de não haver alternativa num raio de quilómetros. A freguesia no talho não diminui, só diminui a esperança de que o feitio do talhante melhore. Os dias passam e nada acontece, para além da carestia da vida, das pensões de miséria, do preço dos medicamentos, do desrespeito das gerações mais novas. No Sr. Josué, tal como na Nação, já muitos descrêem uma mudança.

Duas vezes por mês, às 4ªs feiras, o talhante despede-se da mulher com dois beijos rotineiros e um até logo indiferente. D. Lucília, sentada num sofá a descascar favas e a ver a novela do fim de tarde, repete-lhe a pergunta quinzenal com o interesse das coisas vagas:

- Vais jogar sueca?

- Sim, vou.

Por volta das onze da noite o Sr. Josué, comerciante agreste que tem do serviço ao cliente uma visão muito própria, entra em casa e saúda a mulher com outros dois beijos curtos, com uma intensidade e afecto só muito ligeiramente diferentes. As favas estão descascadas mas a saga da novela continua – outros personagens, outros cenários, outro enredo.

- Ganhaste?

O talhante não devolve o olhar porque D. Lucília não olha para ele, que o seu interesse está em saber se a outra do conde ascenderá a esposa legítima. O olhar do talhante atravessa paredes e pessoas e pára num ponto no infinito que só ele vê. Há uma hora, um local, um personagem e uma actividade que definem as coisas da vida de cada um, mesmo se resguardadas de olhares terceiros: entre as seis da tarde e as dez da noite, às 4ªs feiras e duas vezes por mês, o industrial das carnes cortadas a jeito, um lar de idosos perdido nos arrabaldes da sua freguesia. Ali, na miséria da terceira idade abandonada à sua sorte, há velhos a precisarem de banho, de uma muda de fraldas, de casas de banho lavadas, de camas mudadas, de sopas ralas dadas em bocas sem dentes.

- Ganhaste?, repete a esposa do Senhor Josué, esperançada na ascensão da amante a condessa com palácio e gelo permanente no balde.

Dos olhos do homem que retira a gordura antes de pesar os bifes rolam duas lágrimas grossas, pesadas, cheias de sentimentos contraditórios.

- Talvez mais do que mereça…

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado Sábado no Porta do Vento

21 setembro 2009

O Presidente da Junta

Roubara mobiliário para decorar sedes revolucionárias com cheiro a cigarros ilícitos; ajudara a sanear professores universitários cujo nome bastava para atemorizar o pessoal discente; lançara à rua obras de arte, num exercício de defenestração do burguesismo diplomático estrangeiro. A idade, os cabelos brancos, algum cansaço, talvez, levaram-no a caminhar para a direita, que é para onde corriam os bons nos filmes de cowboys. Resvalando de partido em partido, numa espécie de queda quase livre na direcção do extremo, aterrou na última agremiação do espectro partidário e que lhe serviu de batente. No esplendor da carreira política chegara a presidente da junta de freguesia.

Fruto de um discurso crescentemente inflamado – e de uma quase imperceptível perturbação do espírito - entrou numa rotazinha de colisão com a lucidez da mente. Fala-se em imigração e o cavalheiro abespinha-se, alegando que a calçada portuguesa já fala ucraniano, o ferro de engomar foi tomado de assalto por umas havaianas e calções, os pedintes na rua perturbam o sossego das mentes cristãs com gemidos em moldavo; menciona-se o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o presidente brama contra o nojo - o asco, mesmo - o pão e o circo, a porcaria de homens que por aí há; refere-se a adopção de crianças por homossexuais e o senhor leva as mãos à cabeça, sugerindo bengaladas queirosianas em público.

Senta-se todas as tardes junto à praia, num café onde só trabalham portugueses de terceira geração – no mínimo – envolvendo os correligionários com um olhar onde se sente determinação:

- Sabem? Existe a fogueira que purifica para sempre, o barco que parte sem regresso, a cadeia que amansa os vícios. Escolham o que quiserem, mas agora tragam-me uma sandes de queijo limiano num pão de Mafra. Nada de pãozinho aparado, que isso é para maricas.

O senhor presidente encerra a Junta e dirige-se a casa onde vive sozinho desde que a mulher o trocou por um rapaz de Ulan Bator, portador de cartas registadas. Fecha as janelas para manter uma privacidade impenetrável e veste uma tanga negra com um lustro que confunde. Liga o karaoke e, quando a música começa a tocar, todo ele se agita num frenesim de sensualidade

Quand il me prends dans ses bras
Il me parle tout bas
Je vois la vie en rose

Duas vezes por semana, quando os telejornais vão a meio, recebe a Roberta - uma negra de Porto Galinhas e que as más-línguas alegam já ter sido Roberto – para uma série de duetos exclusivos de George Michael e Ney Matogrosso. Faz amor com ela ficando sempre por cima, não porque aprecie os missionários, mas porque gosta de demonstrar que há posições de chefia a respeitar. Depois fuma um cigarro e retoma o discurso da cadeia, da fogueira, do barco sem regresso, da corja negra e de leste. A brasileira, dengosa e suada, vai à casa de banho e toma um comprimido, porque o médico disse que tinha de ser assim até ao fim da vida.

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado sábado no Porta do Vento.

14 setembro 2009

O polícia

Chama-se Curdo, um nome assaz bizarro para quem é natural do Alandroal, mas há quem o apelide de Surdo. De facto, como agente da autoridade, é totalmente desprovido de audição quando toca a multas. Implacável e rigoroso ao limite, não tem contemplações nem ouvidos para as desculpas habituais. Foi só um instantinho, já me ia embora, deixe lá, senhor guarda, só desta vez.

Mora num rés-do-chão direito de um prédio velho e escuro, engavetado numa rua onde o sol se esquece de ir. Nos dias de serviço entra e sai de casa impecavelmente fardado, como se o aguardasse uma parada presidencial, ou a rotina da autuação fosse incompatível com o desleixo.

O agente Curdo gosta de manter rotinas. Durante o dia zela pelo fluxo saudável do trânsito e pelo desimpedimento escrupuloso dos passeios. Mantém um registo particular de multas por dia, porque gosta de indicadores desafiadores e potencialmente contraditórios: a atenção à infracção versus o grau de cumprimento do cidadão.

Ao fim do dia chega a casa, despe-se e arruma a farda com zelo. Pendura as calças pelos vincos e ajeita o casaco num cabide para evitar deformações que tirem o decoro que se requer à autoridade. Veste umas calças de fato de treino e uma T-shirt de alças, escorropichando uma mini para a qual dispensa copo.

O agente Curdo senta-se então ao computador e digita uma série infindável de endereços e palavras-chave, troca informações com um interlocutor cibernético, consulta auxiliares de memória. Durante as duas horas seguintes entreter-se-á com jogos informáticos nos quais as forças de lei travam uma luta sem quartel contra a delinquência: raptos, assaltos, tráfico de droga, assassinatos, terrorismo urbano.

Durante duas horas, repete-se, o agente Curdo gritará, agitará as mãos, vociferará, soltará palavrões, premirá a tecla enter com uma genica inusitada.

- Estúpido, não é por aí! Ah! Grande camelo que vais ser apanhado! Força, força, pela direita, rápido! Atenção que ele está ali, ao virar da esquina. Tem cuidado. Ah! sacana que estás feito, não percebes nada disto. Nada! Se fosse eu havias de ver…

São 120 minutos de combate árduo - ainda que virtual – contra o crime. E, durante todo esse tempo, acompanhado da sua mini e da sua ausência de mangas, o agente Curdo estará indiscutivelmente do lado dos fora-da-lei, pondo todo o seu saber ao serviço dos que atemorizam os cidadãos e zombam das regras.

Pela hora de jantar chega a Susana, empregada recente de uma empresa de vigilância. O agente beija-a com ardor, admira-lhe a farda e pede-lhe:

- Importas-te de não apertar tanto as algemas? Ontem aleijaste-me…

No dia seguinte voltará à multazita, à pequena reprimenda, à surdez ao apelo do infractor:

- O senhor automobilista reparou que o rodado dianteiro esquerdo passou por cima do traço contínuo? Vou ter de o autuar…

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado sábado no Porta do Vento

07 setembro 2009

A menina dos Correios

São as meninas dos Correios, como numa dada altura eram as meninas dos Telefones. Sei do que falo, porque me dirijo amiúde ao posto mais próximo que tem um quadro de pessoal exclusivamente feminino. Compro selos, peço estampilhas de correio azul, levanto cartas registadas, atento nas últimas publicações. A menina lá está, fardada, com uns óculos tristes, um cabelo aloirado e desinteressante, um olhar irrequieto e envergonhado. Recebe simpatias com uma cara que ruboresce, enfrenta uma observação com desculpas que tendem para infinito.

Esta menina dos Correios é uma rapariga nova, pintada de forma displicente, que poderia usar um letreiro em forma de súplica: não olhem para mim, finjam que eu não existo. Chama-se Clotilde e é filha de uma professora primária e viúva precoce de um motorista da Câmara Municipal. Convicta da irreversibilidade do estado civil, a senhora devotou-se por inteiro aos meninos, a quem transmitiu valores que formam as mentes e salvam as almas. Clotilde cresceu entre um aviso de recepção e um luto permanente, com uma Mãe que assumiu um pensamento constante: para onde caminhas tu, com esse feitio tímido e invisível?

Um destes dias levaram-me a um recinto no lado oriental da cidade, recuperado para uma malta mais alternativa, desta que não se revê em lado nenhum da noite – ou que quer tudo em simultâneo. Celebrava-se o dia de África, pelo que o estabelecimento era o continente negro copiado e colado na União Europeia.

Numa das salas dançava-se o kizomba: pernas que cruzam, ancas que roçam lateralmente para depois encaixarem de frente; a sensualidade, os cheiros, o ambiente, os sotaques, as saudades das noites africanas, do pôr-do-sol e do espaço sem fim. À minha frente, uma mancha negra movimentava-se ao som de uma toada ritmada e lasciva. No meio da pista, com um menear irrepreensível do corpo, uns cabelos loiros a revelarem cuidado, e uma saia curta que mal tapava umas pernas esguias, vi a Clotilde, esquecida dos carimbos e das encomendas, da franquia e do registo, a descobrir uma África que só conhece da TV Cabo. Com ela, um jovem negro com mais de 1,90 que lhe percorre o corpo como um alfaiate afaga uma peça de caxemira: com um vagar sensorial, de mão aberta e a toda a extensão do pano.

Quando saí, ainda a vi beijando o Valter, empregado de uma oficina na margem sul - um beijo longo, húmido, carregado de desejo e erotismo, de fluidos trocados e cor de pele contrastante. O rapaz sente no corpo da Clotilde a geografia africana e mata as saudades com o tacto, porque a lonjura é uma cegueira, e mão que não toca é alma que não sente. Para ela, que tem o horizonte visual de um balcão ao nível dos olhos, o mecânico é um canal de viagens com interacção erótica.

No dia seguinte a jovem voltará a ser a mesma menina do Correio, tímida, envergonhada, com uma farda estilizada e um cabelo démodé. Almoçará jardineira de vitela com uma Mãe que fala de Deus às crianças – sendo que a inversa também é verdadeira. Engolirá, nostálgica, um pedaço de carne, porque é, também, de nostalgia que se faz a pergunta guardada num coração dividido: sabes fazer moamba, mamã?

Conheço-a bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado no sábado no Porta do Vento

Acerca de mim

Arquivo do blogue