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08 janeiro 2013

Duas últimas

A 17 de Abril de 2012 - há quase nove meses portanto, pouco menos que uma gestação - escrevi uma das crónicas mais gostosas (perdoe-se o brasileirismo) deste blogue. Quem for revivalista, ou simplesmente curioso, pode lê-la aqui

Domingo juntámo-nos de novo: o mesmo local, o mesmo grupo, a mesma liberdade, o mesmo à vontade. Não havia bolo de maçã nem fernet, mas havia anis, chá verde, bolo rei, um charuto mau, dois cães e um gato, um garrafão azul enfiado num qualquer suporte para derramar uma tonalidade sossegada, uma cadeirinha de madeira pendurada num ferro, alguém envolvido numa capa afegã comprada nos EUA e fabricada na China.  

Falou-se de (quase) tudo, desde a energia das missas ao conceito de Espírito Santo, de música iraniana e de saúde, de sufismo, de viagens e de motos, do nosso eu dominante, do que queremos desta caminhada terrena. Nunca se falou de vitor gaspar, de finanças, de impostos, de euro, de política, de sucessos profissionais ou de praias da moda. 

Perguntar-me-ão, queridos leitores, se não carrego nas tintas da criatividade para dar à matiné um pitoresco que ela não tem. Não, não carrego. Gosto de lá ir porque vejo coisas que nunca vejo, oiço coisas que nunca oiço, falo de coisas de que é raro falar. Há sempre uma espécie de imaterialidade nas conversas, como se nada daquilo tivesse a menor importância para o quotidiano das nossas vidas, mas desempenhasse um papel importante quando nos queremos afastar (corrigi a expressão elevar...) do que que é trivial e mundano. No fundo, como se de nenhuma conversa tivesse de sair uma acção, um objectivo - ou uma conclusão.

À semelhança da última crónica, deixo-vos com música iraniana. Se só tiverem disponibilidade mental para um youtube, sugiro-vos o primeiro, porque a Sussan Deyhim já por cá passou. Há uma história por trás, que tem a ver com a perseguição ao rock iraniano, mas não sei explicar bem...

JdB     


17 abril 2012

Duas últimas

Não sei se nasci com tendências para a auto-formatação se a vida nas suas múltiplas facetas - educação recebida, profissional de fábrica e, posteriormente,  isolado em casa - me empurrou para isso. Sei que gosto de regras, de rotinas, de coisas certas, de ausência de surpresas; tenho uma relação crescentemente conflituosa com os imprevistos e com a insegurança. Como todos os feitios, vou presumir que o meu não é indiscutivelmente bom nem indiscutivelmente mau. É assim - ou tornou-se assim. Alego que sou muito engenheiro, muito conservador e muito capricorniano e talvez me perdoem esta fatalidade...

Domingo passado acompanhei duas pessoas próximas à quinta de um amigo comum. Filhos ambos de gente que já era amiga entre si, mantivemos uma proximidade de verão há talvez 40 anos. O tempo esboroou-a. Reencontrei-o há dois anos e reconhecemos-nos quase imediatamente. O conjunto intersecção dos nossos caminhos é pouco mais do que diminuto. De facto, em termos de opções, de modelo e de gestão de vida pouco temos em comum, mas sobram-nos referências sociais e memórias que sempre nos ligam. Até na arquitectura do espaço que ele construiu para viver há um mundo que nos diferencia. No entanto - e apesar de todas estas diferenças - gostei muito de lá ir. Talvez me digam que gostei, não apesar das diferenças, mas por causa das diferenças.  


Bebemos fernet branco e chá, comemos bolo de maçã e de cenoura, conversámos sobre a morte e a simbologia das caveiras, recuei décadas ao ver fotografias dos Pais do anfitrião, observámos com indiferença um gato preto que entrou por uma janela e se passeou pelo lava-loiças enquanto dois ou três cães deambulavam por ali; havia uma garrafa de oxigénio que alguém pousava para poder fumar um cigarro, pinhas num fogão de cozinha que deitava calor, patos de plástico numa imobilidade de lago, regadores velhos pendurados sem esquadria nem lógica, bocados de boneco calçados com botas numa simulação de cadáver à sombra de uma árvore. E tantos outros pormenores que dariam uma crónica de tamanho maior.

Há sempre o desafio de não ver a diferença, mas apreciar também a diferença, encontrar a beleza em cada jogo que nos é revelado. De uma certa forma (mesmo que só eu entenda o raciocínio) respirei ali o mesmo ar da minha escrita nostálgica - a ausência de preconceitos, a paz e o sossego invejáveis, ainda que não isentos de agruras, com que tudo fluía. Talvez houvesse energia positiva, simplicidade, bucolismo, silêncio de uma paisagem onde não se vislumbra correria, betão, ruído, tensões de pontualidade. Se alguém me perguntasse o que fizemos, responderia enigmaticamente: estávamos

Deixo-vos com uma música que nos acompanhou durante uma parte da tarde. Seguramente que não a conseguiríamos ouvir na formatação confortável das nossas casas ou das nossas vidas. Ali fazia todo o sentido, porque a diferença era a única coisa que se mantinha igual.

Jdb, escrevendo hoje talvez mais encriptadamente.

     

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