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30 março 2020

Por acaso até sou...

Na semana passada falei com a minha gestora de conta sobre dinheiros, um tema que, num certo intervalo, varia entre o maçador e o críptico. Note-se que não sou uma espécie de anárquico cheio de desprezo pelo vil metal, nem sou daquelas pessoas muito finas para quem o dinheiro ou se tem ou se não tem - mas do qual não se fala. Gosto de dinheiro, porque é disso que vivo e é isso que me permite satisfazer alguns devaneios. O problema está na terminologia - aplicações, diversificação, mercados, dívida pública, investidor conservador, praças, etc. que me chega aos ouvidos com um esoterismo enfadonho e indecifrável. Volto ao tema da minha gestora de contas...

Dizia-me ela que "por acaso" [é uma expressão muito usada nestes tempos, como  se fosse um acidente do destino, não uma (quase) decisão] é uma pessoa muito optimista que acredita na solidariedade da espécie humana. Conhecendo-a como conheço não tenho uma dúvida disso. Mas acho curioso que todos os comentadores ou entrevistados na televisão (agora, quando aparecem via skype, têm sempre uma estante com livros por trás) acham o mesmo: todos eles são optimistas e positivos. No fundo, o que qualquer cristão que queira cumprir os mínimos deve ser. Ao contrário de toda esta gente mais sabedora do que eu, tenho uma confiança moderada na espécie humana, porque parte dela apedreja ambulâncias pejadas com velhos; a outra parte sim, é atenta ao seu próximo; e há ainda o ministro das Finanças holandês.

Ora, estas qualidades, como os prognósticos, devem ser vistas retrospectivamente. Sente-se no ar uma espécie de irmandade face ao infortúnio, como se a humanidade sentisse o impulso de por as carruagens em círculo para protecção colectiva do inimigo. Mas a pandemia chegará ao fim e eu, descrente (ou não tão crente, vá...) nas virtudes da espécie humana, temo rever-me neste texto de Juan Manuel de Prada que me enviaram há tempos:

La plaga del coronavirus, cuyas consecuencias apenas hemos empezado a paladear, nos ofrece una ocasión inmejorable para cambiar nuestra desquiciada forma de vida. Pero, como nos enseña el Apocalipsis, los hombres se distinguen siempre, después de sufrir una calamidad, por volver a las andadas; y esta conducta irracional, tristemente repetida en todos los crepúsculos de la Historia, se repetirá también ahora.

Gostava de não ser assim. Gostava de falar para a televisão via Skype e, com um renque de livros por trás a demonstrarem o meu apreço pela cultura, dizer que sim, que por acaso acredito muito na espécie humana. Mas conseguiremos, individual e colectivamente, uma mudança tão radical nos nossos comportamentos? Ou rapidamente esqueceremos, não a pandemia (porque ninguém com idade bastante a esquecerá jamais) mas o que ela poderia ter feito por cada um de nós - famílias, empregadores, casais, pessoas singulares, que passaram por momentos tormentosos, desafiantes, dolorosos. A humanidade em que por acaso acreditamos, mudará?

***

Numa nota um pouco à margem, escrevo este texto algo pessimista (mas só por acaso é que sou pessimista) no dia em que li a crónica de Alberto Gonçalves no Observador. Dei por mim a pensar que, na essência, não há diferença entre ele e o Vasco Pulido Valente. Este dizia mal de tudo tendo aos ombros a capa da sapiência histórica; aquele diz mal de tudo tendo aos ombros a capa do humor sarcástico. O que há em comum? Dizerem mal de tudo.

JdB 

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