Dos meus tempos de menino da catequese ficou o preceito que estabelecia a frequência da Comunhão: ao menos uma vez por ano, por ocasião da Páscoa da Ressurreição (3º Mandamento da Santa Madre Igreja). Dos meus tempos de sexagenário que googla ficou a informação sobre o que estabeleceu o IV Concílio de Latrão: [...] cada fiel, de um e de outro sexo, chegando à idade da razão, confesse lealmente, sozinho, todos os seus pecados ao seu próprio sacerdote, ao menos uma vez ao ano [...]. A semana maior, que agora começa, é um momento, portanto, de reconciliação. Um tempo de reconhecimento das faltas e de promessa de emenda. Porém, os tempos de pandemia transformam este tempo num tempo estranho, com a dificuldade quase inultrapassável de reconciliação (mais do que de confissão) e de comunhão.
Numa dimensão mais laica do tema, a ideia de reconhecimento das falhas e de perdão é um tema que se prende muito com a memória. Sei de pessoas para quem o perdão aos outros é uma decorrência do esquecimento da ofensa sentida; para outras, a memória não tem um botão de desligar: não é o próprio que decide o que fixar, mas a sua "cabeça" (o que quer que isso signifique) que, feliz ou infelizmente, nem sempre obedece a quem a detém, que tem vontade própria.
Detentor que sou de uma memória toda voltada para a inutilidade, ainda assim é no segundo grupo que me integro. Fixo muitas coisas: pequenos pormenores que me enterneceram, sons e pessoas em momentos dramáticos da minha vida, frases que me agrediram, pequenos gestos ternurentos, talvez injustiças ou violências desmedidas, músicas e sensações boas. Fixo o que fixo, sem critério de momento no tempo, pois tenho memórias impactantes com mais de 50 anos. É a forma como enquadro a memória na minha prática com os outros que me ofenderam que dá a dimensão do perdão. Posso dizer que perdoo, mas se recupero uma frase com dez anos e a uso como argumento, lá se vai a virtude: não esqueci e não perdoei; entre as 4 aparentes combinações das expressões esquecer / não esquecer e perdoar / não perdoar, esta parece-me ser a mais inútil e negativa
Não me parece que seja credível - nem sequer proveitoso - dizer que se esquece. Uma vez que não somos donos da nossa memória, significaria isso que há um processo, não controlado por nós, que apagaria o registo da memória. Algo químico que desfaria aquele episódio da nossa vida. Ora, se acontece isso com as ofensas de que somos vítimas, será que poderia acontecer com as ofensas de que somos autores? E, se sim, será que isso faria de nós, ofensores, uma espécie de pessoas inimputáveis? A sério que te disse isso tão desagradável? Olha que não tenho nem ideia de tê-lo feito.... A memória, como a vida, é uma faca de dois gumes; tudo depende do lado pelo qual a agarramos. Se esquecemos sem critério, será que conseguimos aprender com critério?
Daniel Oliveira, jornalista da SIC, pergunta nas suas já famosas entrevistas: alguém te deve um pedido de desculpa? Estou certo que sim, e gostaria que pagassem essa dívida. Talvez para eu pagar as minhas também - ou apenas para poder seguir em frente.
Daniel Oliveira, jornalista da SIC, pergunta nas suas já famosas entrevistas: alguém te deve um pedido de desculpa? Estou certo que sim, e gostaria que pagassem essa dívida. Talvez para eu pagar as minhas também - ou apenas para poder seguir em frente.
JdB
