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06 abril 2020

Do perdão e da memória

Dos meus tempos de menino da catequese ficou o preceito que estabelecia a frequência da Comunhão: ao menos uma vez por ano, por ocasião da Páscoa da Ressurreição (3º Mandamento da Santa Madre Igreja). Dos meus tempos de sexagenário que googla ficou a informação sobre o que estabeleceu o IV Concílio de Latrão: [...] cada fiel, de um e de outro sexo, chegando à idade da razão, confesse lealmente, sozinho, todos os seus pecados ao seu próprio sacerdote, ao menos uma vez ao ano [...]. A semana maior, que agora começa, é um momento, portanto, de reconciliação. Um tempo de reconhecimento das faltas e de promessa de emenda. Porém, os tempos de pandemia transformam este tempo num tempo estranho, com a dificuldade quase inultrapassável de reconciliação (mais do que de confissão) e de comunhão.

Numa dimensão mais laica do tema, a ideia de reconhecimento das falhas e de perdão é um tema que se prende muito com a memória. Sei de pessoas para quem o perdão aos outros é uma decorrência do esquecimento da ofensa sentida; para outras, a memória não tem um botão de desligar: não é o próprio que decide o que fixar, mas a sua "cabeça" (o que quer que isso signifique) que, feliz ou infelizmente, nem sempre obedece a quem a detém, que tem vontade própria. 

Detentor que sou de uma memória toda voltada para a inutilidade, ainda assim é no segundo grupo que me integro. Fixo muitas coisas: pequenos pormenores que me enterneceram, sons e pessoas em momentos dramáticos da minha vida, frases que me agrediram, pequenos gestos ternurentos, talvez injustiças ou violências desmedidas, músicas e sensações boas. Fixo o que fixo, sem critério de momento no tempo, pois tenho memórias impactantes com mais de 50 anos. É a forma como enquadro a memória na minha prática com os outros que me ofenderam que dá a dimensão do perdão. Posso dizer que perdoo, mas se recupero uma frase com dez anos e a uso como argumento, lá se vai a virtude: não esqueci e não perdoei; entre as 4 aparentes combinações das expressões esquecer / não esquecer e perdoar / não perdoar, esta parece-me ser a mais inútil e negativa  

Não me parece que seja credível - nem sequer proveitoso - dizer que se esquece. Uma vez que não somos donos da nossa memória, significaria isso que há um processo, não controlado por nós, que apagaria o registo da memória. Algo químico que desfaria aquele episódio da nossa vida. Ora, se acontece isso com as ofensas de que somos vítimas, será que poderia acontecer com as ofensas de que somos autores? E, se sim, será que isso faria de nós, ofensores, uma espécie de pessoas inimputáveis? A sério que te disse isso tão desagradável? Olha que não tenho nem ideia de tê-lo feito.... A memória, como a vida,  é uma faca de dois gumes; tudo depende do lado pelo qual a agarramos. Se esquecemos sem critério, será que conseguimos aprender com critério?

Daniel Oliveira, jornalista da SIC, pergunta nas suas já famosas entrevistas: alguém te deve um pedido de desculpa? Estou certo que sim, e gostaria que pagassem essa dívida. Talvez para eu pagar as minhas também - ou apenas para poder seguir em frente. 

JdB 

07 janeiro 2016

Do perdão

Fotografia de Ryan Lobo


O texto abaixo não foi escrito agora; tem muitos meses e, por estar inacabado, quedou-se pelo estabelecimento numa gaveta que ostenta a etiqueta "rascunhos". Ontem, ligeiramente desinspirado, decidi recuperá-lo, isto é, publicá-lo, ainda que inacabado. Cada um dos leitores acrescentará uma palavra ou uma ideia àquilo que tão parcamente está aqui publicado. Há muito a dizer sobre o perdão - teorias, pensamentos, ideias. O busílis está na colocação em prática da disparidade de pontos de vista. Sobretudo se pensarmos - pelo menos os crentes - que Cristo nos incitou a amar os nossos inimigos. Como é que issi se faz?


***

O sol batia com força na calçada portuguesa e reflectia-se violentamente em nós. Nem a pedra escura das ondas, das caravelas, do cordame ou dos corvos atenuava a chapada de calor e de luz. Apresentei-lhe um prato tipicamente português que ele comeu com um gosto surpreendido, como se fosse uma criança na qual o espanto e o apetite convivem por igual. Foi então que me falou longamente da Securitate, a polícia política do regime comunista romeno: as torturas que sofreu, o desaparecimento de familiares, a violação de amigas. Comoveu-se quando falámos de perdão. Talvez tenha chorado, não sei... 

O texto não é meu. Fruto de pesquisas por outros caminhos, cruzei-me com este parágrafo num blogue. Quando se procura bairrismo, saudade, casas de fado, orientadores, teses de mestrado, religião, confissões, aparece-nos tudo. Desta vez foi isto - um romeno, vítima da brutalidade política, a comer carapaus com molho à espanhola...

Ontem ainda, nuns minutos de silêncio em que vou pensando nalgumas pessoas que me são próximas e sofrem doenças prematuramente graves, pensei no perdão, porque pensei no texto que escreveria. E questionei-me como seria abordado o tema a uma mesa ocupada por um ateu e um cristão. Como fazem ambos a gestão deste tema - o cristão que tem Cristo como modelo último e determinante, o ateu que terá outros modelos? 

Se perdoar é esquecer, não consigo. Se perdoar é aceitar e seguir em frente, está feito. Esta frase, mais uma vez, não é minha, mas muitos de nós a subscreveriam. O que é, verdadeiramente, esquecer? É eliminar da memória? Se sim, qual o mérito do perdão? Não esquecemos as ofensas, não porque não perdoemos, mas porque, de facto, não mandamos nos nosso mecanismo mentais que nos fazem lembrar de um abraço do pai / mãe na véspera de uma sova do mesmo pai /mãe. A memória é uma bendição, mas também pode ser uma maldição, sobretudo se usada para o não crescimento do próprio ou do próximo.

(...)

JdB

25 janeiro 2009

O perdão

Quis o meu querido amigo e colega de blogue ATM escrever um magnífico texto na última 4ª feira. Sentado no seu banco, no Largo da Boa-Hora, desenvolveu o tema do perdão. Não são raras as vezes em que ambos discordamos sobre um assunto. Na maioria dos casos saio ganhador, não porque vença com base em argumentos demolidores, mas porque levo do campo de batalha um espólio valiosíssimo e invejável que ele me oferece: argumentos fortes, olhares diferentes, ideias novas. Terminada a peleja, sobra a amizade e a noção do que é verdadeiramente importante. Conversar é já em si bastante.

Não consegui deixar de dissonar de alguns dos pensamentos que fui lendo ao longo do texto. Não pedi licença ao autor para isso, mas pedi-lhe autorização – em nome dos bons princípios de convivência – para retorquir no meu espaço habitual dos Domingos. É o que faço, certo de que não sou detentor de nenhuma verdade inquestionável.

O texto abre com uma frase - não recebi a graça da santidade – que dá corpo à primeira das minhas interrogações / diferenças. Mais do que saber se recebi, de facto, a graça, estou certo de que recebi o desafio. Se assim não fosse, estaria a admitir que, não a tendo recebido, o meu destino era o da certeza da não santidade, do fatalismo da imperfeição. Assumi-lo era entender que algo nos diferencia desde um qualquer momento da concepção: há os que nascem para ser santos, e a nossa curiosidade reside em saber se os conseguimos identificar (ou se eles se identificam a si próprios…). No limite, teríamos de perdoar aos que falham sistematicamente, porque, de facto, não nasceram com uma graça que lhes confere características especiais.

Ora, acredito que todos nascemos com a possibilidade de ser santos. Não a santidade de quem faz milagres, mas a santidade das vidas simples e corriqueiras, que buscam a perfeição numa caminhada vulgar e igual a tantas outras e que não é, de forma alguma, incompatível com tudo o resto: carreiras, conforto, satisfação, qualidade. O desafio está lá – assim como a possibilidade de o cumprirmos - mas o que somos e a nossa circunstância desvia-nos para estradas alternativas.

Mesmo não querendo levar este assunto exclusivamente para a esfera do religioso, socorro-me da Enciclopédia Católica Popular: perdão, em geral, é a resposta mag­nâ­nima de quem esquece ofensas ou agra­­vos, no desejo sincero duma re­con­ci­liação que não deixe ressentimentos. E ainda: perdoar a quem nos tenha ofendido, mesmo aos inimigos que não pedem perdão, é obrigação de caridade que Jesus Cristo, nos seus en­si­na­mentos e na oração do Pai-Nosso, pôs como condição do perdão de Deus para os nossos próprios pecados.

Se me ativesse nesta dimensão cristã do perdão, já arranjaria lenha para alimentar este fogo de discórdia saudável com o meu querido amigo ATM, quando refere, na sua deambulação pelo tema, que perdoar exige contrição e arrependimento do agressor. A sua frase é verdadeira, mas na esfera do Sacramento, não na órbita do mundano.

Entender, face à constatação de que perdoar é raramente possível, que nos resta, como manifestação de bondade, a não represália, a não aplicação da lei de Talião do olho por olho, dente por dente é ficar aquém, muito aquém, deste desafio de ser o primeiro a estender a mão num começo de reconciliação. É não acreditar, ainda, na boa vontade de quem está do lado de lá da contenda e é, talvez, a assunção, tantas vezes presumida, de que do nosso lado está a razão, a única razão que nos confere uma posição de quase sobranceria.

Perdoar tem, como se calhar tudo o que nos puxa para uma certa forma de grandeza, uma dimensão enorme e igual, talvez, de dificuldade e libertação. Não é matéria do divino e está-nos acessível, assim o queiramos. E se sentimos indisponibilidade para perdoar a quem nos tem ofendido – a tal possibilidade rara – como podemos pedir que Cristo perdoe as nossas ofensas?

A nossa imperfeição é uma realidade. Resta saber se ela será, também, uma canga que nos condiciona inevitavelmente, ou se não deveria ser um ponto de partida para uma dimensão mais elevada na forma de reger o nosso destino. Estou longe desta perfeição que aqui advogo como regra de vida, mas não é isso que me impede de querer ser mais alto. A imperfeição é uma realidade, repito, fruto da nossa condição humana. Mas não é uma fatalidade. E se somos inquietados por tantos sonhos que se ligam ao ter, porque não perseguir este que se aplica ao ser?

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

JdB

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