Por sugestão de um amigo que me ofertou um baralho de cartas e uma missiva, e retomando uma actividade que pratiquei de forma regular há mais de 30 anos, voltei a sentar-me - de novo de forma regular - à mesa de jogo. Com uma razoável constância, quatro cavalheiros sentam-se para jogar King. Temos vários pontos em comum: a amizade, a condição de reformados (ou quase), um gosto pela pontualidade e pela rotina: sabemos onde temos de estar, o que fazer, e a que horas (e cumprimo-lo), sabemos o que temos de levar para o petisco pré-jogo (e cumprimo-lo, até porque levamos sempre o mesmo). E o gosto pela cartas, claro.
Jogar às cartas é um teste à educação - e uma evidência da educação: perdemos, ganhamos, gozamos com as tradições de cada um (normalmente com as minhas), ou com as regras com que cada um aprendeu a jogar; temos noites de sorte ou noites em que gostamos de citar a frase do meu querido amigo fq: quando a sorte é maniversa, nada vale ao desinfeliz. O facto de todos jogarmos para ganhar (nem consigo imaginar outra coisa) não impede a cortesia: peço desculpa se acho que uma jogada vai prejudicar claramente alguém, gosto de pensar - uma vez que não jogamos a dinheiro - que uma regra importante pode ser a do sobretudo não fazer mal.
Um dos compagnons de route ofereceu-me este pequeno livro - diria mais um manual, dado que tem 18 páginas. A oferta - de que muito gostei - é uma piada à minha mania das regras de etiqueta à mesa de jogo. Diga-se, em abono da verdade, que as regras quase não são aplicáveis a este grupo específico, porque somos todos educados. Se há noites de comportamentos mais agrestes, no dia seguinte se pede desculpa e se agradece a casa que alguém disponibilizou ou o queijo que alguém levou.
George Washington foi um líder político, militar, agricultor, empresário do tabaco e estadista norte-americano. Um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos, foi o primeiro presidente daquele país de 1789 a 1797. As suas regras de civilidade e comportamento decente em sociedade e na conversa terão mais de 200 anos, e têm a actualidade das coisas intemporais, como a Bíblia, o Eça de Queiroz, os Bee Gees (pré-disco, obviamente) ou o Rembrandt, para citar apenas alguns. Percebe-se que algumas regras são mais datadas, mas não faz mal. Cada um de nós tem móveis datados em casa, porque pertencentes a uma determinada época, e não é por isso que os deita fora. Outras regras mantêm-se: tanto agora como no séc XVIII, comer de boca aberta infringe uma regra de civilidade ou de comportamento decente. Outras são curiosas: quando se sentar, mantenha os pés firmes e iguais, sem os colocar um por cima do outro ou sem os cruzar. Ou ainda: mantenha as unhas limpas e curtas, assim como as mãos e dentes, ainda que sem lhes devotar grande atenção. Adepto que sou de um conhecimento aprofundado da proxémia, a ciência que mais faz pelo convívio humano, agradeço a Washington o seguinte pensamento: ao falar com pessoas de qualidade, não se debruce nem os olhe fixamente, nem se aproxime muito deles, mantendo pelo menos um passo de distância.
Neste seu manual de regras de civilidade e comportamento decente, George Washington não abordou as atitudes à mesa das cartas. Não faz mal, que este bando dos quatro não precisa de muitas regras. E muito raramente tem de lembrar-se da 90ª recomendação: à mesa não se coce, nem cuspa, nem tussa, nem assoe o nariz, excepto se houver necessidade disso.
JdB
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