16 janeiro 2026

O músico *

Habituei-me a vê-lo, nos últimos dois ou três anos, numa das ruas mais movimentadas da zona onde vivo. Relativamente novo, pelos quarenta anos, aparentou sempre um ar distinto, para o qual contribui o ar lavado e as roupas em bom estado, não obstante algum desenquadramento com a moda. 

Entabulei conversa com ele um dia, quando o vagar do meu fim de tarde o permitiu. O cão ao seu lado sorriu-me num abanar de cauda afável e o Alberto - assim se chama o rapaz - agarrou na bengala para que não houvesse o risco de ela ficar fora do seu alcance. Rodou a cabeça para captar melhor o som da minha voz e, perdoe-se a contradição, olhou-me por detrás de uns óculos escuros de cego. Trocámos meia dúzia de palavras de circunstância e afastei-me rapidamente, porque o Alberto tinha de trabalhar para poder facturar, passe a expressão demasiado economicista para quem está incapaz de ver o mundo, limitado a uma imaginação cuja fertilidade tem dias.

Durante cerca de uma hora ouve-se fado tocado com o maior sentimento. De guitarra na mão, o Alberto percorre as melodias que revelam a alma portuguesa funestamente melancólica. A qualidade é francamente elevada, pelo que as pessoas param, encostam-se a uma parede, ouvem com deleite. No fim, aproximam-se do músico, elogiam-lhe a arte, afagam o cão, deixam uma recompensa generosa na caixa da guitarra.

Quando o sol se põe e o movimento diminui, o Alberto recolhe, acompanhado do cão e de uma bengala, auxiliares que lhe tacteiam os obstáculos e o guiam na selva urbana. Ao chegar a casa, um apartamento herdado num bairro de classe média, cumpre religiosamente as suas rotinas: um bom prato de comida que o cão chamado Esperto merece recompensa; uma música suave para acalmar a tensão do dia e, por vezes, um banho quente e longo que revigora e relaxa.

Quando o noticiário das nove da noite está quase a terminar, chega a Marília, a quem o Alberto beija com uma sensualidade e um ardor que ganhariam foros de erotismo no cinema. Percorre-lhe o corpo com uma mão ávida e carregada de desejo, como se o tacto assumisse foros de grandeza, alcandorado ao mais importante de todos os sentidos que a natureza nos oferece.

Correu-te bem o dia, Alberto?

Não me posso queixar…

Percorrem então, lentamente, os canais de uma televisão maçadora e repetida. Comentam as notícias, as pessoas, as roupas, os cabelos, as actrizes. Alberto fala dos espectadores que o ouvem tocar, dos visitantes assíduos, dos esporádicos, da dimensão das esmolas.

Ao fim da noite, o homem que domina a guitarra portuguesa, cujos dedos reproduzem melhor do que ninguém o Mouraria e o Menor, já não tem óculos escuros, e os seus olhos azuis apreciam a geografia física da namorada.

Estás melhor do que nunca, Marília.

Abraçam-se e riem muito os dois, numa voragem de emoções fortes. A Marília enamorada doentiamente por um homem vocacionado para o teatro e que sempre enganou toda a gente. O Alberto, com uma cegueira só de paixão, sem conseguir imaginar o que seria não ver o que as mãos sentem.

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

* publicado originalmente a 2 de Novembro de 2009

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