28 janeiro 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 DOIS EXTREMOS:  “LET IT BE” e “YESTERDAY” 

O desgosto pela perda da mãe, aproximou os dois adolescentes melómanos, que se tinham conhecido há pouco tempo – Lennon e McCartney. A matriarca Julia Lennon morrera repentinamente, num acidente, tinha John uns 18 anos, enquanto Mary McCartney fora vítima de cancro, tinha Paul 14 anos. Embora trabalhasse muito e parasse pouco em casa, a família respirava e apoiava-se na sua presença maternal. Depois de chegar tarde do trabalho, ainda cozinhava as refeições para o dia seguinte. Os filhos mal a viam, mas adivinhavam a sua ajuda incansável! Não conseguiam ter carro – comentava Paul – mas geriam bem o dia-a-dia, sustentado no trabalho árduo da mãe e do pai. Por isso, também do ponto de vista financeiro, a morte de Mary desestabilizou o modesto equilíbrio dos McCartney.

Lennon, filho de pais separados logo nos primeiros anos de vida, sofreu cedo a morte do tio que o acompanhou na infância, pois fora adoptado por ele e pela irmã da sua mãe – a tia Mimi. Ainda assim, mantinha contacto com a mãe Julia, que tinha imenso humor e veia musical. Foi considerada por biógrafos de J.Lennon como a sua principal musa. Recebera dela a primeira guitarra e com ela aprendera a apreciar o rock’n roll.  Aos 18 anos, sofreu uma dupla perda materna: a primeira, com a mudança para casa dos tios por impossibilidade de viver com a instável mãe, a segunda com o atropelamento fatal de Julia. A sequência de perdas afectivas, na infância e na juventude, poderão estar na origem do seu carácter agressivo e rebelde, que encontrou um escape na música, por onde ecoou o desgosto insarável da maior dor – a Partida materna. Os títulos de algumas composições são auto-explicativos: «Julia», «My Mummy’s death», «Mother». Esta ária inaugura o álbum homónimo, publicado em 1970, sob a marca John Lennon/Plastic Ono Band. Termina num estrilho dorido, entoado, quase gritado, a evocar a ferida antiga, nunca sarada: «Mama don't go /Daddy come home».  O álbum fecha com «My Mummy's Dead», onde o Beatle canta a incompreensão pelo aguilhão persistente e doloroso causado pelo trágico falecimento da mãe.   

John Lennon (8 /9 anos) e a mãe, aprox. em 1949, em Rock Ferry, Cheshire, Inglaterra.

O pai de John Lennon, com quem o filho tinha uma relação conflituosa.

O sofrimento deu uma cumplicidade adicional à parceria imbatível dos dois órfãos de mãe, John e Lennon, ambos q.b. perdidos na vida, mas transbordantes de talento musical e de vontade de viver as novidades entusiasmantes dos loucos anos 60. Entre guitarradas, composições musicais, drogas e namoradas, saboreavam o dia-a-dia com voragem, sem limites, maximamente inebriados. Enfrentavam, depois, a hora das teimosas ressacas e insónias, a relembrar-lhes o vazio das suas vidas desenraizadas, demasiado inconstantes, feridas por um desamor profundo, que exacerbava a fragilidade de tanto rodopio divertido, mas alucinante, fugaz. 

Numa noite de insónia mais feroz, em 1965, McCartney acabou por dormitar e ter um sonho profético com a mãe, que lhe transmitiu palavras consoladoras, reconciliando-o com o desgosto da sua Partida prematura e, sobretudo, incutindo-lhe esperança no futuro: «I woke up with a great feeling. It was really like she had visited me at this very difficult point in my life and gave me this message: ‘Be gentle, don’t fight things, just try and go with the flow and it will all work out. It’ll be all right. Don’t worry too much, it will turn out OK’». De facto, acordou cheio de paz e até revigorado, falando daquele reencontro com a mãe, em sonhos, como um clímax de felicidade numa vida de altos e baixos acentuados. Apressou-se, por isso, a escrever a mensagem do sonho, que vinha já envolta em música: «When I find myself in times of trouble, Mother Mary comes to me / Speaking words of wisdom: LET IT BE.». Assim nasceu uma das obras mais famosas dos Beatles. A gravação só arrancou em 1969, quando o grupo se aproximava da ruptura. Conheceu, em 1970, uma versão remasterizada, após a cisão do quarteto com Lennon, pelo que foi gravada a três. Mas teve o contributo da voz da namorada de McCartney – a fotógrafa norte-americana Linda Eastman – no acompanhamento coral. Começava a parceria musical de Paul e Linda. Conhecera-a num bar, em 1967, e rapidamente ela tornou-se no seu sustentáculo, inclusive a nível artístico.  Considerava-a um presente da atenta mother Mary: «Not very long after the dream, I got together with Linda, which was the saving of me. And it was as if my mum had sent her, you could say.» 


Como a conhecida ária se inspirara num encontro com alguém do Além, acabou igualmente associada à Mãe do Céu, o que McCartney aceitou de bom grado, valorizando esta mais-valia do olhar de fé, pois cumpre em pleno o trilho universalista e o cunho de Esperança, que lhe tinham sido transmitidos pela mãe. Nas suas palavras: «Mother Mary makes it a quasi-religious thing, so you can take it that way, I don’t mind. I’m quite happy if people want to use it to shore up their faith. I have no problem with that. I think it’s a great thing to have faith of any sort, particularly in the world we live in.» 

Se LET IT BE surgira numa manhã radiosa, após uma epifania nocturna, outra famosa composição dos Beatles chorava a Partida prematura das mães dos jovens músicos. Chamou-se «YESTERDAY», procurando refúgio num passado menos cruel do que o inóspito presente de orfandade. Escrita por McCartney, foi lançada em Agosto de 1965, integrada no álbum ‘Help’. Destacou-se logo pelo tom nostálgico, intimista e firme, algo reivindicativo, impregnado do ar do tempo. Nalguns versos assume-se e exorciza-se o remorso, como em «I said something wrong», arrependido pelos remoques desagradáveis disparados à mãe, numa fase bravia da adolescência. Num ápice, YESTERDAY entrou no top de vendas e, claro, no património cultural da Humanidade (tal como LET IT BE):  


Quase todas as composições dos Beatles estão entranhadas da sua biografia atribulada, muitas com um sentido generoso de homenagem aos mais queridos. Genericamente, clamam pelo amor infinito, que habita o ser humano. Foi providencial aqueles miúdos de Liverpool terem sido bafejados com tanto talento, para dar forma musical aos diferentes anseios humanos, quando embatem na realidade, sobretudo nas mais desafiantes. Assim nos legaram sons luminosos, a par de outros mais sombrios, mas ávidos de viver no seu modo livre e artístico de celebrar a paixão pela vida.  Viva la vita, com todos e para lá de todos os contrastes.  

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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