14 janeiro 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

2026 INSPIRADO PELO PEDIDO DE FLANNERY O’CONNOR 

Nascida há cem anos, de vida relativamente curta, até aos 39 anos (1964), Flannery O’Connor deixou uma produção literária muito premiada – a maioria, postumamente – , sobretudo composta por contos duros, narrados em estilo seco e algo cortante. Abundam nas suas narrativas os twists imprevistos, que fazem desabar ideias pré-concebidas sobre a realidade e sobre as pessoas. Tudo parece ser testado ao limite, explorando as motivações mais profundas para expor as mil fraquezas humanas, numa destrinça lúcida entre a aselhice e a má intenção. 

No seu estilo inconfundível, Flannery era genuína e corajosa a explorar os refolhos do comportamento humano, marcado por contradições, mesquinhez em excesso, mas também imprevista grandeza, quando tocado pelo dom. 

À esquerda, com a sua novela «Wise Blood».

Pertencente à América sulista de maioria protestante e herdeira da tradição esclavagista dos grandes latifúndios, a escritora teve a invulgaridade de ser uma católica intelectual, convicta até ao âmago e avessa a sentimentalismos. Não esteve imersa na afectividade de muitos ambientes cristãos da Europa do Sul, antes em contraciclo com a maioria dos seus conterrâneos. Também não se lhe conhecem afinidades com o salero caloroso da religiosidade latino-americana. No seu mundo, avançava o materialismo e subsistia ainda o moralismo dos pregadores protestantes, que funcionavam como opinion leaders das sociedades rurais do Sul dos Estados Unidos.   

Racional e rigorosa, empenhou-se com todo o seu talento literário em desconstruir o proselitismo manipulativo dos falsos profetas do seu tempo, que pregavam paraísos ocos, narcísicos, baseados em miragens e num consumismo meio desenfreado, onde a maioria vivia superficialmente, tornando-se presa fácil dos sedutores do momento e das modas da época. A sua novela «Wise Blood», sobre um pregador de uma ‘Igreja da Verdade, sem Deus’, oferece uma síntese desta decadência quase nihilista, que a autora denunciava e combatia. A obra foi transposta para o cinema por Huston (1979) com argumento adaptado pelos filhos (Michael e Benedict) dos seus amigos Fitzgerald. 

Curiosamente, marcou os colegas de faculdade pelo sentido de humor, além do enorme talento na escrita e no desenho. Nos tempos da Universidade, os seus cartoons faziam furor. O temperamento tímido não a impediu de se integrar nos círculos intelectuais de Nova Iorque e de cultivar boas amizades com gente muito diversa. 




Os seus contos – que uns consideram “góticos”, outros de escrita áspera e indigesta (revejo-me) ou até “grotesca” – estão impregnados de um humor sarcástico e ácido, que proporciona reviravoltas surpreendentes nas tramas sombrias, habitadas por personagens que arrastam fracasso, vícios e incontáveis limites. Será que o seu olhar só tropeçava nos falhados da vida ou serão eles a metáfora do ser humano comum, apenas com os contornos da América profunda? Segundo a escritora, os traços caricaturais dos seus anti-heróis serviam de alerta para as mentes embutidas e desatentas do grande público (basicamente, todos nós), já só capaz de captar imagens e mensagens extremadas, hiperbólicas sobre os perigos camuflados que pululam na vida. A possibilidade de happy end residia na graça. Explica a autora: «Resumindo, descobri, ao ler a minha própria escrita, que o meu tema na ficção é a acção da Graça em território dominado, em grande parte, pelo diabo, (ao ponto de) o diabo (poder) ser instrumento involuntário da Graça.» 

Quando lhe foi diagnosticada a doença autoimune lúpus (1951), de que o pai morrera, viu-se forçada a abandonar a vida cosmopolita de Manhattan e a mudar-se definitivamente para a quinta da família – “Andalusia”. Naqueles últimos 13 anos manteve-se fiel à disciplina diária da escrita, a par de cuidar das plantas e dos seus queridos pavões. Recebia também muitas visitas e viajava, quando as dores abrandavam, para dar conferências pelo país. Tinha de gerir forças para aguentar o peso de cada dia: «Tenho uma doença chamado lúpus e tomo um medicamento chamado ACTH, e consigo viver bem com ambos. O lúpus é uma daquelas coisas na categoria do Reumatismo; vem e vai; quando vem, retiro-me, quando vai, aventuro-me. O meu pai teve-o há cerca de 12 ou 15 anos, mas na altura não havia nada a que se pudesse recorrer senão ao coveiro; agora pode ser controlado com ACTH. Tenho energia suficiente para escrever, e como isso é tudo o que realmente tenho de fazer, posso, com um olho semicerrado, tomar tudo isto como uma bênção.» (in carta a Elizabeth e Robert Lowell, a 17.MAR.1953).  

Mesmo sem conseguir apreciar parte da sua obra bastante crua, reconheço-lhe linhas geniais e luminosas, como este pedido, sob a forma de oração, que ajudam a inaugurar o ano de 2026, em beleza: 

«Ó Rafael, guia-nos em direcção àqueles que esperamos, àqueles que nos esperam:

Rafael, Anjo do encontro feliz, guia-nos pela mão até àqueles que procuramos.

Que todos os nossos movimentos sejam conduzidos pela tua Luz e transfigurados pela tua alegria.

Anjo, guia de Tobias, apresenta o pedido que aqui te entregamos aos pés d’Aquele cujo Rosto desvelado tens o privilégio de contemplar. Solitários e cansados, esmagados pelos desencontros e mágoas da vida, sentimos a necessidade de te chamar e de implorar a protecção das tuas asas, para que não sejamos como estranhos na província da alegria, ignorantes das preocupações da nossa pátria.

Lembra-te dos fracos, tu que és forte, tu cuja morada está para além da região do trovão, numa terra sempre pacífica, sempre serena e luminosa com a resplandecente glória de Deus. Amen.» 

Flannery O’Connor em carta à amiga Betty Hester, 
datada de 10 de Março de 1956  

Também delicioso e bem apanhado é o introito de Flannery a este pedido a Rafael: «Detesto recitar a maioria das (novenas, orações) escritas por santos-em-estado-emocional. Sinto-me como se estivesse a usar as melhores roupas de outra pessoa, e nunca consigo descrever o meu coração como “ardente” diante do Senhor (que o conhece melhor do que ninguém) sem me rir.» 

Que as surpresas do Novo Ano consigam tocar-nos de forma benigna, para não sermos nunca estranhos na terra da alegria

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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