Leio o livro acima, por sugestão de um amigo. De uma forma potencialmente simplista, o livro assenta numa história fácil de contar: Javier Cercas, escritor espanhol que se considera (e cito) ateu, anticlerical, laicista militante, racionalista obstinado e ímpio inveterado, é desafiado pelo Vaticano para acompanhar o Papa Francisco na sua viagem à Mongólia e para escrever um livro, tendo-lhe sido dado acesso a figuras altas do Vaticano. O escritor impõe, no entanto, uma condição: poder estar a sós com o Papa durante 5 minutos para lhe perguntar se, depois de morrer, a sua (do escritor) mãe verá o pai (do escritor) que já morreu. No fundo, precisa de informar a mãe se há Céu, e quer interrogar o Papa sobre a ressurreição da carne e sobre a vida eterna. Na fase em que estou essa conversa já existiu, mas não se sabe o que o Papa respondeu. Ou ainda não se sabe, ou nunca se saberá.
A conversa sobre este livro surgiu num jantar de amigos, todos católicos. Discutiu-se o que nós achamos, o que o Papa acha, o que o Papa pode ou deve responder (e poder e dever são coisas diferentes). Talvez a resposta mais próxima da certeza teológica seja esta: o Céu é a contemplação de Deus. No entanto, eu gostaria que o Papa respondesse: não sei. Gostava que ele respondesse uma coisa humana, feita de um desconhecimento humano mas, também, de uma esperança humana.
O meu Pai, já aqui o escrevi, tinha também essa dúvida sobre o que era o Céu, quem e como iria encontrar quando morresse. A minha visão do Céu é algo infantil, talvez, ou apenas humanamente ingénua e compreensível: quero encontrar a minha filha. E não só quero, como estou mais do que certo de que irei encontrá-la; se assim não for, muitas coisas em que acredito não farão sentido.
Não domino os dogmas da igreja Católica, mas parece-me que a ideia de Céu não é dogmática, pelo que cada um de nós pode - dentro dos limites da razoabilidade - imaginar o Céu à sua maneira, encontrar uma definição pessoal do que é a ressurreição da carne ou a vida eterna. Se eu quero contemplar Deus, como lugar geométrico da felicidade eterna? Sim, quero, mas sou revolucionário: talvez a contemplação da felicidade eterna seja a contemplação de uma filha que morreu com 7 anos. E nisso não estou sozinho: todos os Pais enlutados com que conversei - e muitos não seriam crentes - tinham a mesma esperança: a de encontrar um dia o seu filho ou filha. Seguramente que a sua ideia de felicidade eterna (ou apenas de felicidade desejada) é a contemplação, feliz e desprovida de angústia, de um filho que lhes morreu (muito) cedo demais. É a alegria do reencontro porque é isso, também, que os sustenta.
Como ainda não cheguei ao fim do livro, não sei se se saberá a resposta do Papa à inquirição do escritor. Se a resposta constar do livro, só rezo para que não seja uma resposta excessivamente teológica, feita de um jargão que não nos conforta a alma nem nos alimenta a fé. Ou o Papa tem certezas - do que duvido - ou então que responda: não sei se existe, não sei como é, mas estou em crer que será bom. Depois disso olharei para a minha fotografia com o Papa durante a sua vinda a Lisboa e imaginarei que ele me confortou: sim, acredito que vais encontrar a tua filha. É imaginação eu sei, mas para já chega.
JdB
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