03 março 2026

Da observação *

 

Fotografia de Sebastião Salgado (tira da net)

Um destes dias, num jantar algo inusitado, alguém afirmava mais ou menos isto, em forma de boutade sentida: não estou interessado em cinema; para quê ver a vida dos outros durante duas horas? A frase pode ser entendida de duas formas - a que nos faz sorrir e a que nos faz pensar. Opto pela segunda, porque se assim não fosse nada escreveria sobre o tema. 

No dicionário, ver tem 14 definições; observar tem 13. Equiparam-se, portanto, embora haja um mundo a dividi-las. Ver é uma faculdade de quem não é cego - vemos os comboios passar, vemos o trapezista no circo, vemos um casal a beijar-se, vemos um jogo de futebol. Os exemplos repetem-se até à exaustão. Observar é diferente, é ver o trapezista e perceber-lhe o treino, a agilidade, o arrojo; é ver o casal e imaginar o resto da vida deles reflectido num beijo; é ver os comboios em circulação e encontrar-lhes uma metáfora para a fugacidade da vida. 

Observar, como dizia alguém, é criar um intervalo entre nós e o ser observado. E é criar, neste exercício, uma relação biunívoca que nos altera sem nos alterar. Somos os mesmos, já não sendo os mesmos. A observação é uma aprendizagem; ao observarmos os outros, estamos a observar-nos a nós próprios, não porque sejamos todos iguais, mas porque a observação é algo que se reflecte, que nos sobressalta: quem sou eu, já que aquele é o que é? O que faço eu, já que aquele faz o que faz? Observar é ver a vida connosco lá dentro; é ver, do lado de fora, o carrossel onde nós próprios estamos, mesmo que não cavalguemos o cavalo de pau.

O que nos impede de observar? O desinteresse, o medo, a auto-suficiência, o horror ao espelho. Não observar é fazer a barba pelo tacto, é traçar a risca do cabelo passando um polegar pela cabeça, é tapar o espelho que nos devolve o olhar que lhe lançamos. Ver é nada; observar é estudar o outro que somos nós. E isso é libertador - ou pode ser aterrador. 

JdB

* publicado originalmente a 10 de Abril de 2015

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