25 março 2026

Vai um gin do Peter’s ?

 ARTE DE HOJE IRROMPE NO VATICANO COM NOVA VIA SACRA 

O pintor suíço de apenas 36 anos, protestante, pai de 3 filhos, não imaginava ser escolhido, por unanimidade, pelo exigente júri vaticanista, para pintar uma versão actual das 14 Estações da Via Sacra e expô-las (temporariamente, parece) no interior da Basílica de S.Pedro, no templo mais importante da cristandade, que transborda de arte e de beleza, a começar na arquitectura!

O concurso foi lançado em Dezembro de 2023, no tempo do Papa Francisco, com o objectivo de atualizar o diálogo entre arte e culto, para oferecer aos visitantes um sinal renovado de beleza, que continua a ser a via privilegiada pelo Vaticano para a contemplação dos mistérios da fé, em especial, dos difíceis mistérios da Paixão e da Crucifixão. Puderam concorrer artistas de todas as nacionalidades, etnias, confissões religiosas, etc. Acorreram mais de mil concorrentes de 80 países, pelo que o júri – composto por historiadores de arte, liturgistas e representantes da Santa Sé – teve a árdua tarefa de reduzir o grupo a 14 nomes, a quem pediram dois sketches, um deles de tema pré-definido: a 12ª Estação, da morte de Jesus. Neste teste derradeiro, Manuel Andreas Dürr distinguiu-se pela expressividade da sua interpretação do mistério pascal e pelo equilíbrio da composição.    

À ESQ. – Manuel Andreas Dürr na inauguração da sua Via Sacra, na Basílica de S.Pedro, na primeira Sexta-feira da Quaresma de 2026 (20.Fev. - OSV News photo/Courtney Mares). À DTA. – o pintor no seu atelier rodeado dos painéis destinado ao Vaticano.

Dürr fora apanhado de surpresa, desde o princípio, pois só se inscrevera no concurso por insistência de um amigo. E vira poucas hipóteses de vencer, até porque pertencia à pequena comunidade cristã Jahu, saída da Reforma protestante, embora muito aberta e de cariz ecuménico. Curiosamente, do ponto de vista teológico, o pintor sente-se próximo do catolicismo. 

Logo que foi escolhido, em Dezembro de 2024, rumou ao Vaticano para estudar o local de destino da sua Via Sacra. A nova surpresa foi a descoberta da universalidade do famoso templo: «One thing that came as a bit of a shock, in a ense, was when I came to Rome, I suddenly realized that really this is a global Church. My own church at home feels very provincial when I come here and I see people from all ages, from all continents, and from all income classes, are gathering around shared expressions of faith.

Começou também a apercebeu-se melhor e a preocupar-se com o desafio que seria  representar a figura mais marcante da nossa cultura, ainda por cima, na fase terrível da morte a que se sujeitara: «To paint Jesus is very, very difficult because he is not someone I am introducing; he is someone that billions of people already have an idea of and have a personal relationship with». Sobre a crucifixão, que foi o painel onde começou a empreitada e onde a concluiu, explicou assim o desafio de conceber a cruz, que paradoxalmente se convertera em expoente de esperança e de amor: «This story has shaped Christian art and European culture … the world’s culture, like no other story has. And how this cross, which was intended as a symbol of terror, instilling fear into the subjects of the Roman Empire, suddenly becomes something that we wear around our necks as a symbol of hope.»

O terceiro receio seria fazer algo para um dos monumentos com maior concentração de arte acumulada ao longo de séculos e harmoniosamente disposta para transmitir uma beleza interpelativa, capaz de engrandecer a natureza humana. Dürr lembrava, com graça, que os artistas contemporâneos estão habituados a expor em paredes monocromáticas, quase sempre brancas, onde as peças se destacam facilmente, sem terem de dialogar nem entrosar-se com nenhuma outra. 

Como os receios se multiplicavam, o suíço resolveu mergulhar na cultura italiana e inspirar-se nos artistas que considerou mais aptos a ajudá-lo a oferecer ao público uma nova abordagem ao mistério da Páscoa. Escolheu para mestres de inspiração Michelangelo e Fra Angelico. Resultou, porque a beleza depurada e sumamente subtil dos painéis de Dürr estão a causar sensação entre os turistas e peregrinos que têm visitado a Basílica de S.Pedro, não destoando da sumptuosidade belíssima do templo multissecular. 

Percebe-se que a simplicidade das suas pinturas é o resultado de um enorme esforço de maturação, até chegar à expressão mais simples, que condensa e se cinge ao principal. Os painéis com a crucifixão e a Pietá são especialmente eloquentes e de uma beleza cristalina. Na composição da morte de Jesus, o entrelaçado dos madeiros dos três condenados condensa o drama da primeira Sexta-feira Santa da História, manchada de sangue, parte dele inocente. A figura destacada de Cristo sugere que assume a maior quota de dor, sustentando os outros. Adianta-se na hora mais humilhante para salvar todo o ser humano, que queira. Na Pietá, o chão assemelha-se a um céu salpicado de estrelas, como se se tratasse de uma imagem cósmica do planeta azul, visto de cima; a haste do madeiro onde Jesus morrera, ampara a Mãe, que agora ampara o Filho; a veste branca, que cobrira Jesus e agora se enovela aos seus pés, replica a morte daquele corpo inerte, cuja alma já partira para o Pai. Talvez o significado directo destes paíneis, como entrega total em favor da humanidade, os tornem mais comoventes e impactantes: 

A crucifixão. À DTA. - magnificamente enquadrada no interior da Basílica, num diálogo fluído e enriquecedor entre gerações distantes. 

A monumental Pietá de Dürr, linda, serena, sofrida, mas sempre Mãe, a amparar o Filho com enorme subtileza, sem se impor, apenas a oferecer a segurança de uma mão e de um colo meigos. 
As Estações com as quedas na subida para o Calvário expõem a máxima fragilidade de Jesus, mas sem desespero. Percebe-se que aquele Condenado nunca atirou a ‘toalha ao chão’. Tinha mesmo oferecido a sua vida à morte mais cruel e indigna, sem desistir da sua missão redentora. A aspereza do chão pedregoso dos painéis acentua o peso de uma cruz demasiado grande para um homem já sem forças: 

As quedas no caminho para o Calvário. Na imagem à direita constata-se a forma harmoniosa como a Via Sacra de Dürr se integrou na magnífica Basílica.

É espantosa a associação que o pintor faz entre o gesto de Veronica e a pintura, no afã de registar uma imagem mais profunda da realidade. Era, por isso, o seu painel preferido: «To my surprise, maybe, a little bit, Veronica was the most special station for me. She holds up a cloth which then has an imprint of the image of Christ. And I found basically that’s what I’m attempting to do. I’m painting on cloth in a small way. … And for me, this kind of dignified, I think, what the painter is attempting to do which is … to provide a trace of something deeper to be experienced. It gives dignity to what the painter is trying to do: offer a small trace of something deeper.» 

6ª Estação – Verónica tem a coragem de sair da multidão para confortar um marginal. É o painel preferido do suíço, que a considera uma metáfora óptima da própria pintura. Em Verónica, a imagem provém do dom puro; no artista, acrescenta-se ao dom o trabalho árduo. 
A uma semana de revivermos as 14 Estações do Calvário, na Sexta-Feira que consideramos Santa, a obra do suíço ajuda a iluminar os infinitos momentos e detalhes da misteriosa história de sofrimento (e salvação), mais lembrada e reactualizada dos últimos dois milénios.  

A condenação do Governador romano Pôncio Pilatos e o início da subida para o Calvário. À ESQ.- a des-sintonia entre Jesus e o Governador romano está bem patente nas posições de ambos, um na ilusão de ainda pontificar sobre o rumo dos acontecimentos, e o Outro sem ilusões sobre as fraquezas e os perigosos ‘equívocos’ humanos.  Sofria-os todos na pele!

À ESQ. – a 5ª Estação, talvez do recrutamento forçado do Cireneu, para ajudar um Condenado demasiado enfraquecido a chegar ao cimo do Calvário. Tudo o que os romanos não queriam, era que morressem antes de ser crucificados! À DTA. – a docilidade de Jesus, enquanto os soldados o despem, momentos antes de ser pregado no madeiro. Percebe-se por que impressionou tanto o Bom Ladrão (S.Dimas).

Boa Semana Santa e Feliz Páscoa 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)


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