Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
A oportunidade não surgiu e, por força de circunstâncias prosaicas, não surgirá mais, presumo. Há uma semanas largas fui convidado por família e amigos a uma montaria (nunca sei se é montaria, se batida) aos javalis. Matar um javali não é matar a mãe do Bambi. Matar um javali é um dever, quase, face à invasão e ao nível de destruição de que estes animais são capazes. Achei graça ao programa e aceitei, claro. Numa entusiasmo quase juvenil partilhei o convite com amigos, que trataram de esquecer a dimensão sociológica da coisa para me darem conselhos e me fazerem perguntas sobre se ia ter aulas de tiro. Aulas de tiro?
No dia aprazado lá fui, com um amigo caçador, em cuja porta iria ficar e que talvez me proporcionasse pegar na arma e dar um tiro. Eu sei que tudo isto é trivial para um caçador, mas eu sou novato e desconhecia por completo como isto se processa: pequeno almoço conjunto, cumprimentos sociais, escuta de regras de segurança e de "ética caçadora", observação de caçadores franceses e ingleses trajados a rigor, ao lado de quem me senti um bimbo de Esmoriz (sem desprimor por Esmoriz). Embarque num atrelado em direcção à porta que nos tinha saído em sorteio. Eram 10.30h da manhã.
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| A verdadeira legenda desta fotografia é: "segura-me aí a espingarda para eu te tirar uma fotografia..." |
Ao longo das 4 horas seguintes não vimos um único javali. O meu amigo e eu sentámo-nos, conversámos, urinámos contra uma giesta, roemos duas maçãs cada, falámos de pessoas, de antiguidades, de genealogia, de caça, de espingardas. Espreitámos o fio do horizonte ao som dos cães que, supostamente, espantam os javalis de onde eles se resguardam, vimos umas gamelas a correr, sobre as quais não atirámos por respeito às regras. Quando demos por nós eram 14.30h: urinámos uma última vez, vestimos os casacos, dobrámos a cadeira e voltámos a subir para o atrelado, sem um tiro dado - nem sequer um tiro falhado. A caça foi fraca: havia 38 portas, o equivalente a 38 espingardas, e mataram-se 10 ou 12 animais.
Regressados à base é hora de almoço. Portugueses vestidos como estavam antes da caça, ingleses e franceses, mudaram de farpela - sempre em tons de caça, mas uma calça mais elegante e uma gravata mais condizente. Almoço muito bom, na companhia de amigos e, sobretudo, primos que não via há muito tempo.
E quando havia gente era igual à outra.
Voltaria outra vez? Sim, claro. Mesmo que não mate, nem sequer dispare, há uma dimensão sociológica e social nestes eventos que, mesmo - ou sobretudo - para um não caçador como eu, vale a pena. E a companhia é boa!
JdB


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