31 março 2026

Das válvulas de segurança sociais

Alguém criticou alguém dizendo a respeito desse alguém: não faz nada por emoção; é tudo por sentimento de dever.

Alguém elogiou os filhos de alguém dizendo: os teus filhos são sempre tão educados.

Há uma grande proximidade de raciocínio entre ambas as afirmações, pese uma ser uma crítica e outra ser um elogio. E há, também, as expressões nada e tudo, que introduzem no par um contraste interessante. O que une ambos os raciocínios é uma espécie de válvula de segurança social. As válvulas de segurança foram feitas para actuar em caso de excesso de ou em caso de falta de. Existem para garantir - daí o nome - a segurança das instalações, das máquinas, dos órgãos. 

O sentimento de dever e a educação são as válvulas de segurança das instalações sociais e actuam quando há falta de emoção ou falta de simpatia. Obviamente que todos desejaríamos que as coisas (e falamos de coisas boas) fossem feitas motivadas pela emoção, e não pela razão; e todos gostaríamos que fôssemos - ou fossem os nossos - tão simpáticos que não precisariam da educação.

Acontece que não podemos garantir que nos apetece sempre fazer as coisas que devem ser feitas - o sentimento do dever garante, então, que as coisas que devem ser feitas serão feitas. Acontece que nem sempre queremos ser simpáticos com alguém, qualquer que seja o motivo - a educação garante, então, que a socialização se mantém ao nível aceitável.

O pedido de desculpas - já o escrevi neste estabelecimento - é uma tradição mal vista. Muita gente diz que as desculpas evitam-se, não se pedem. Com certeza! Mas o pedido de desculpa - e o que lhe está associado - é uma espécie de sentimento de dever ou educação: existem para colmatar uma falha, não para justificar uma falha. Exigir a permanente emoção ou a permanente simpatia é exigir que uma máquina não aqueça, que não lhe falte nenhuma matéria prima, que não entre em sobre-pressão. Vai acontecer? Não. 

Uma válvula de segurança é um elemento fundamental numa máquina ou numa relação, embora deva ser usada como o cardamomo - com parcimónia. 

JdB 


  

Sem comentários:

Acerca de mim

Arquivo do blogue