11 março 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 LEGADOS DE PINTORA E DE CHOPIN 

Aos olhos de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1993), pintura é cor. Foi a definição sumária que a pintora portuguesa deu à jornalista francesa sua amiga, Anne Philipe, registada no livro «O FULGOR DA LUZ». Isso explica por que deixou como legado aos amigos uma palete de cores, a melhor que conhecia. Nesse testamento simbólico e informal, descoberto postumamente, desfiou a ligação de cada tom à vida, pois encontrava neles pedaços importantes da realidade, que valia a pena partilhar:  

«TESTAMENT 

Je lègue à mes amis 
Un bleu céruléum pour voler haut 
Un bleu de cobalt pour le bonheur 
Un bleu d’outremer pour stimuler l’esprit 
Un vermillon pour faire circuler le sang allègrement 
Un vert mousse pour apaiser les nerfs 
Un jaune d’or…richesse 
Un violet de cobalt pour la rêverie 
Une garance qui fait entendre le violoncelle 
Un jaune barite: science-fiction, brillance, éclat 
Un ocre jaune pour accepter la terre 
Un vert Véronèse pour la mémoire du printemps 
Un indigo pour pouvoir accorder l’esprit à l’orage 
Un orange pour exercer la vue d’un citronnier au loin 
Un jaune citron pour la grâce 
Un blanc pur: pureté 
Une terre de Sienne naturelle: la transmutation de l’or 
Un noir somptueux pour voir Titien 
Une terre d’ombre pour mieux accepter la mélancolie noire 
Une terre de Sienne brûlée pour le sentiment de durée.»

-- Versão traduzida --  

«Deixo aos meus amigos
Um azul cerúleo para voar alto.
Um azul cobalto para a felicidade.
Um azul ultramarino para estimular o espírito.
Um vermelhão para o sangue circular alegremente.
Um verde musgo para apaziguar os nervos.
Um amarelo ouro… riqueza.
Um violeta cobalto para o sonho.
Um vermelho-vivo garança para deixar ouvir o violoncelo.
Um amarelo do cristal natural de barite: ficção científica, brilho, resplendor.
Um ocre amarelo para aceitar a terra.
Um verde Veronese para a memória da Primavera.
Um anil para poder afinar o espírito com a tempestade.
Um laranja para exercitar a visão de um limoeiro ao longe.
Um amarelo limão para o encanto.
Um branco puro: pureza.
Terra de siena natural: a transmutação do ouro.
Um preto sumptuoso para ver Ticiano.
Um terra de sombra natural para aceitar melhor a melancolia negra.
Um terra de siena queimada para o sentimento de longevidade.»

Manuscrito descoberto nos papéis de 
Maria Helena Vieira da Silva, após a sua morte. 

Talvez este estranho começo de ano, em que se adensa o ribombar dos tambores de guerra, relembrem outros tempos, outras guerras. Recuando à last good war, começada, formalmente, com a invasão da Polónia, no início de Setembro de 1939, é espantosa a última música emitida pela Rádio Polaca, minutos antes de a sede da empresa ser bombardeada pela Luftwaffe. Era o dia 23 de Setembro de 1939 e actuava, em directo, o pianista polaco judeu Wladyslaw Szpilman, tocando o Nocturno nº 20 de Chopin. Szpilman dedicara a actuação daquele dia ao mais conhecido pianista nascido na Polónia – Chopin (1810-1849) – que tivera o condão de encher a música de poesia e de afectividade. Tratava-se de um acto de resistência simbólica do seu povo contra a invasão nazi, através da arte do compositor romântico, que morreu e foi enterrado em Paris (no Cemitério Père Lachaise), mas quis que o coração fosse trasladado para Varsóvia, onde permanece. Naquele dia de Setembro, o edifício radiofónico ficou demasiado danificado e só pôde reabrir cinco anos depois, estreando-se com o mesmo Nocturno de Chopin, tocado pelo mesmo pianista, que o deixara inacabado, em 1939. 

A feliz escolha daquele Nocturno tornara-se especialmente significativa, pois fora composto, em 1830, como uma relíquia de família, para a irmã mais velha – Ludwika. A ponto de Chopin não ter querido publicá-lo, para não turvar o carácter intimista com que fora concebido: 


A vida aventurosa de Szpilman, que conseguiu escapar às perseguições aos judeus, durante a Segunda Guerra, apesar de viver no olho do furacão, em Varsóvia, inspirou o protagonista do filme «O PIANISTA», de Polanski, também ele de origem polaca e judaica, também ele vitorioso a ludibriar o ocupante nazi. O filme foi lançado dois anos depois da morte de Szpilman.

Władysław Szpilman na sede da Rádio Polaca, em Varsóvia, em 1946.

O protagonista de «O PIANISTA», com feições semelhantes ao próprio Chopin.

Mesmo sem ter sido possível antecipar o tsunami tenebroso, que assolaria a Polónia por mais de 50 anos – primeiro, com a invasão nazi; a partir de 17 de Setembro, com o avanço soviético a Leste, cumprindo o pérfido tratado Ribbentrop-Molotov; perto de um ano depois, acolhia o Campo de Concentração mais mortífero do Reich; de 1945 até à queda do Muro de Berlim (9.NOV.1989), como satélite da URSS, à força e ao preço de sangue inocente – é extraordinário o país ter-se despedido da liberdade com uma composição de Chopin transbordante de intimidade familiar. Fora o último som humano antes de um pesado silêncio.

Precocemente, essa longa noite escura conheceu as primeiras brechas (públicas), em Outubro de 1978, com o imprevisto clamor de Esperança que ecoou da varanda da Basílica de S.Pedro, no Vaticano. A voz potente de um polaco de sorriso aberto despertou o Ocidente do torpor céptico e fez estremecer a Cortina de Ferro com a sua convicção: «Non abbiate paura di accogliere Cristo» (Não tenham medo de acolher Cristo). O tempo mostrou quanto aquele sobressalto luminoso e corajoso iria abanar a mais vasta região do mundo, desde a Europa de Leste até à fronteira asiática onde termina a Rússia. Petrificada no tempo, através da vigilância feroz das versões nacionais da KGB, impunha-se como um império inexpugnável, armado até aos dentes… de ogivas nucleares. Quem diria que caberia a um polaco desarmado dar um contributo inigualável para o esboroar de uma super potência militar. Sem tanques, sem tiros, sem ameaças… ajudou a despoletar a mais inacreditável das revoluções pacíficas que o mundo viveu!   

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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