PAIS DUAS VEZES
Felizmente que nos 365 dias do ano consagrou-se um dia para festejar os avós – o 26 de Julho –, associando à festa dos avós de um neto famosíssimo!...
Nas divertidas colectâneas de conselhos dados por crianças, uma canadiana pequenina aconselhava os amigos a arranjar uma avó, se tivessem o azar de não haver disponíveis na família. De facto, muitas das melhores memórias da nossa infância estão associadas aos avós, aqueles pilares de ternura e de humor, que ajudaram a forjar a nossa identidade. Talvez sejam a memória que escolhemos para criarmos raízes e crescermos saudavelmente, cientes de serem aquele porto seguro, onde podemos abrigar-nos e recuperar forças, sentido até! Um testemunho reconhecível para muitos reza assim: ‘Quando jovem, não tinha tempo para os meus pais, mas amava muito os meus avós. Quando velho meus filhos não têm tempo para mim, mas sou amado pelos meus netos.’ É misterioso por que já só os apanhamos num ciclo mais avançado de vida, mais breve.
As estatísticas confirmam o papel dos avós como educadores, chegando a assumir o papel principal em milhões de famílias, por anos a fio, sobretudo quando os pais precisam de emigrar para outro país ou outra região. Isto sem falar das rotinas mais comuns, de lhes caber ir buscar os netos à escola, de serem os confidentes ideias, além da sua arte para manterem a família unida.
| Relato gráfico do episódio de Timurid, o Conquistador, a procurar o conselho da avó. |
A ARTE DOS AVÓS
«Os avós são mestres de uma arte esplêndida e rara: a arte de ser.
Os avós sabem tornar um mero encontro quotidiano numa apetitosa celebração. Sabem olhar e olhar-nos sem pressas, vendo-nos esperançosamente mais adiante. Sabem dar valor às coisas de nada.
Nunca consideram que quando se entretêm connosco estão a perder tempo, muito pelo contrário. Sabem que o amor dá-se bem com essa gratuita co-divisão.
Os avós são docemente silenciosos, mesmo se muito tagarelas.
Os avós parecem distraídos, e isso é bom.
Os avós caminham a nosso lado sem pressa. Têm tanto de distante como de próximo no arco do tempo. Têm uma sabedoria que se expressa por histórias calorosas e não por conceitos. Têm uma memória que nos parece inesgotável, cheia de aventuras, de bagatelas e de detalhes para divertir. Têm armários carregados de objetos (alguns incompreensíveis) que nos põem a sonhar. Apresentam-nos a gostos e a sabores que passamos a identificar com eles. Os avós já foram muitas vezes aos lugares onde nos levam pela primeira vez.
Chamam a atenção para coisas incalculáveis, como a forma de uma nuvem ou a cor diferente que ganham as folhas. Ensinam-nos com serenidade, colocando-se a nosso lado. Nunca acham despropositada a fantasia, nem os medos, nem o mimo. Têm o sentido das pequenas coisas e colos onde cabem as grandes.
Eles não separam, como o resto das pessoas, aquilo que é útil do que é inútil. Fazem-nos sentir que é assim, que já passaram por isso e que existe uma solução que nos vão revelar, só a nós, como um grande segredo.
Amparam os nossos desequilíbrios com o corrimão invisível e seguro do seu afeto, disponíveis degrau a degrau. Adivinham o que não dizemos sem se confundirem com a nossa confusão.
Quando não estão connosco, pensam em nós, repetem aos amigos as frases que dissemos, disputam-nos, orgulham-se de coisas parvas, como o modo como sorrimos ou respiramos.
Penso que se sentimos tão intensamente que os devemos salvar é porque percebemos, desde muito cedo, que somos salvos por eles.»
Por ocasião do Dia dos Avós, Leão XIV deu cinco recados aos mais velhos: há sempre alguém que nunca os esquece e os ama incondicionalmente, começando por Deus; são muito mais do que a sua provecta idade e as eventuais fragilidades, pois cada indivíduo continua a ser único e insubstituível, exactamente como quando estava na força da vida; nunca é tarde para recomeçarem e tentarem fazer melhor; a vulnerabilidade não devia assustá-los, pois o crescimento interior não é um exclusivo dos novos; por fim, as suas orações são valiosíssimas, assim como marcantes os seus gestos de amor com a família e com outros. A própria Organização Mundial de Saúde emitiu, recentemente, uma recomendação, que valoriza o papel dos idosos, quando desaceleram, recuperando um ritmo tranquilo, capaz de saborear melhor a vida: ‘reduz o risco de demência gastar mais tempo à mesa, com a família e os amigos’ e praticar o diálogo inter-geracional.
J.R. Tolkien recomendava: «Não despreze a tradição que vem de anos longínquos; talvez as velhas avós guardem na memória relatos sobre coisas que alguma vez foram úteis para o conhecimento dos sábios.» E Churchill, aconselhando a recuar às gerações que nos precederam, deixou este conselho lapidar à jovem rainha Isabel II: «The farther backward you can look, the farther forward you can see». Vivam os avós e a sabedoria imensa do seu legado vitamínico!
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