Estou espojado numa espreguiçadeira numa praia algarvia. Fruto de uma decisão que não foi implementada nesta praia, o areal á minha frente tem muito pouca gente: quase todos os banhistas levam chapéu de sol, pelo que vão para outra zona.
À minha frente, uma rapariga nova fala ao telemóvel. Não sei se já repararam como algumas pessoas adoptam comportamentos estranhos quando falam ao telemóvel em sítios públicos. Parece que se esquecem de onde estão... Com esta rapariga aconteceu o mesmo. Andava três passos e parava; andava mais dois, gesticulava e voltava para trás. Depois seguia em frente durante 3 metros e, subitamente, voltava para trás. E assim sucessivamente.
A observação desta deambulação não deve prender-se com critérios de comportamento apenas, do tipo pare quieta, rapariga! Há um interesse divinatório que suscita pensamentos científicos de cariz sociológica: o que ouve a rapariga que a faz andar em frente, parar, voltar para trás ou agitar um braço ao vento? Ou ainda, que tipo de informação presta ela ao seu interlocutor que lhe condiciona o azimute, a frequência ou extensão da passada ou mesmo a amplitude de um braço que corta a brisa?
Não tenho uma teoria definitiva sobre o assunto, excepto aquela que está acessível ao comum dos mortais: ri quando ouve algo divertido, comove-se com a bondade ou com a infelicidade, faz movimentos verticais do braço quando quer marcar uma posição ou demonstrar uma indignação. Há, no entanto, algo que, estou certo, a faz parar, porque o movimento nestas circunstâncias é impossível: quando ouve a amiga dizer-lhe, com grande surpresa ou cumplicidade, que o Rúben, casado há muito tempo com a Alberta e a residir em Costas de Cão, tinha ido viver para Cascais com a Pureza, adoptando um casal de Jack Russel chamados Caparica e Estoril.
Uma pessoa pode falar ao telefone na praia e não parar enquanto fala de política, de notas suspensas, do futebol ou de alopécia. Não consegue é caminhar quando a conversa provoca espanto, ou mesmo indignação misturada de excitamento. Vão por mim, sei do que falo.
JdB
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