13 agosto 2026

Dos mundos de cada um de nós


Belém, um destes dias ao fim da tarde

Para quê tanta pressa de singrar a todo o custo e em empreendimentos tão desesperados? Talvez quem não acompanha os companheiros marche ao som de outro tambor. Deixemo-lo seguir ao ritmo da música que ouve, por muito lenta ou distante que seja.

(Henry David Thoreau, Walden)

***

Cruzei-me com esta frase muito antes de ter lido o livro. Num certo sentido, li-a sempre de uma forma ascendente, isto é, olhando para aquele que marcha a um ritmo diferente como tendo uma extravagância elevada, na iminência de um pensamento rasgado de originalidade ou, como Thoreau, voluntariamente afastado da vida mundana, cansado da sua frivolidade. Tarde percebi que o meu pensamento estava errado - a frase deve ler-se de qualquer forma, não com admiração, não com desprezo.

Olha-se para uma pessoa que devota todo o seu tempo ao trabalho; olha-se para uma pessoa que dedica todo o seu labor a actividades diversas e caseiras, voltada sobre si própria; olha-se para uma pessoa cujo tema de conversa principal ou quase exclusivo é a sua prole. Para alguém cuja vida não se resume a isto, a estas pessoas o mundo parece passar-lhes ao lado: não leram um livro, não foram a um teatro ou a um concerto, pouco mais conheceram do que o seu quintal, viram apenas os filmes da moda, nunca lhes ocorreu sugerir ou perseguir um programa que alargue horizontes ou expanda a consciência. Para algumas pessoas - e roubo o sub-título de um livro de Juan José Millás -  o mundo é a rua da sua infância. 

Um dia percebi que o mundo não lhes passa ao lado, porque em bom rigor não existe 'o mundo'. Para estas pessoas o seu universo é o trabalho, a agitação, o sangue do seu sangue; o mundo de algumas destas pessoas conjuga-se no verbo fazer, porque é aí que a sua mente ganha distracção ou as suas mãos adquirem conhecimento; o mundo de algumas destas pessoas é a realização - o empreendimento! - pelo que toda a energia do seu pensamento se esgota aí. O mundo destas pessoas não é a literatura, a pintura, a música ou as viagens - são outras coisas, aparentemente mais simples, ou, segundo alguns, menos interessantes ou valiosas. Na verdade, só quem se interessa por literatura, pintura, música ou viagens é que dá importância a estas áreas, ou que classifica o mundo dos outros como pequenino. E só quem se interessa quase exclusivamente por trabalho, labor manual, filhos e netos é que pode valorizar este modo de vida, não mexendo um músculo para outras formas de ocupação do tempo.

Há muitos mundos; cabe-nos escolher o que mais nos interessa, ou aquele a que atribuímos mais importância. Ou conseguir juntar tudo.

JdB   

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