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06 julho 2026

Carta a um anjo

 Nasceste hoje, mas há 32 anos.

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Estes últimos dias fui pensando no que escrever no dia de hoje. Veio-me sempre ao alcance dos olhos a expressão serendipismo (do inglês serendipity). Conheci a expressão há um ror de anos (parece-me até que me lembro de quem ma apresentou) e ela foi ganhando em mim uma actualidade permanente. Ou seja, não é uma expressão datada, localizada num contexto e num momento. E ganhou foros de notoriedade quando, para efeitos da minha tese de doutoramento, entrevistei vários Pais em luto, maioritariamente mães. 

Viktor Frankl (prisioneiro em vários campos de concentração), um autor sobre o qual pensei muito e escrevi muito, partilha a sua experiência em Um homem em busca de sentido: 

[s]enti como transcendia aquele mundo de desespero sem sentido e, vindo não sei bem de onde, escutei um vitorioso ‘Sim’ em resposta à minha pergunta sobre a existência de um sentido último. Nesse momento, numa quinta distante, uma luz acendeu-se e permaneceu no horizonte como se tivesse sido pintada nele, no meio do cinzento miserável de um alvorecer na Baviera. ‘Et lux in tenebris lucet’ - e a luz brilhou nas trevas [...] [e]stive durante horas a tentar escavar o chão gelado. O guarda passou, insultando-me, e uma vez mais comunguei com a minha amada. Sentia a sua presença com cada vez maior intensidade, sentia que estava comigo; tinha a sensação de poder tocá-la, de poder esticar a minha mão para pegar na dela. Esse sentimento era muito forte: ela estava ali. Então, nesse preciso momento, um pássaro voou em silêncio e veio pousar mesmo à minha frente, num monte de terra que tinha escavado da vala, e ficou a olhar fixamente para mim.

Fora já das discussões / entrevistas para efeitos de tese, três mães partilharam comigo os seus episódio de serendipismo. 

A filha de uma delas, e que morrera, tivera sempre uma paixão por França, embora nunca lá tivesse vivido. A mãe, divorciada do seu marido após a morte da filha de ambos, refez a vida com um francês. Impossibilitada de comparecer,  a conservadora que os iria casar delegou a tarefa numa colega que tinha o nome da filha. Na ilha onde tinham decidido passar a lua de mel cruzaram-se com um cartaz turístico: bem-vindos a... Desconheciam por completo que a capital da ilha tinha o mesmo nome da filha que 

O filho de uma outra mãe, fã de um cantor português, identificava uma determinada música como sendo dele e da mãe. Um dia, por alturas do aniversário da morte da criança, a mãe foi a Paris com o marido e o outro filho. Sentada nos degraus de uma igreja, terá pedido um sinal de que o filho estaria “por ali”. Desceu as escadas, palmilhou uma rua e cruzou-se com o tal cantor.

Por último, uma outra mãe contava que gostava muito de pássaros. Numa das missas por alma da filha, num momento de silêncio após a homilia, ouviu-se na igreja o piar de um pássaro. Talvez fosse o mesmo pássaro que olhou fixamente para Viktor Frankl. 

A investigação de Christian Busch (um professor norte-americano que se debruçou sobre estes temas) sugere que “o serendipismo apresenta três características principais. Começa com um gatilho de serendipismo – o momento em que a pessoa se depara com algo invulgar ou inesperado. Em seguida, é necessário ligar os pontos – isto é, observar o gatilho e ligá-lo com algo aparentemente não relacionado, percebendo assim o valor potencial dentro do evento fortuito (por vezes chamado momento ‘Eureka!’). Finalmente, são necessárias perspicácia e tenacidade para prosseguir e criar um resultado positivo inesperado.” 

Há quem diga que a capacidade para perceber estas características é uma faculdade; há quem lhe chame um dom. Acima de tudo é um momento de enorme conforto interior, porque é a evidência de que os nossos filhos andam por aí.

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Na sua bondade sem fim
Quis Deus olhar para mim
Dar-me um pouco do que é seu
Deu-me uma estrela pequena
A quem chamou Madalena
Que é uma das santas do Céu 

JdB, em nome de todos os que te lembram.

06 julho 2025

Carta a um anjo

Nasceste hoje, mas há 31 anos.

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A semana que agora termina abalou Portugal e o mundo do futebol: Diogo Jota e o irmão, André Silva, ambos jogadores de futebol, morreram num brutal desastre de automóvel. 

Um acontecimento deste tipo suscita um olhar imediato de todos: o drama familiar, as qualidades profissionais das vítimas, a falta que fará à selecção ou ao seu clube, a consternação de colegas, políticos, dirigentes, artistas de várias proveniências. 

Um segundo olhar é sobre a precariedade da vida, um tema que me persegue desde há muito. No seu livro O ano do pensamento mágico (um livro sobre a morte súbita do seu marido) diz Joan Didion: [s]entamo-nos para jantar e a vida, tal como a conhecemos, acaba. Num certo sentido, esta frase poderia ser dita por todos os protagonistas da semana que passou: a massa humana que se condoeu com a morte dos dois irmãos poderia dizê-la; as famílias que perderam maridos, pais, filhos, primos, poderiam dizê-la. Mas também poderiam dizê-la o Diogo Jota e o André Silva que se sentaram para uma viagem de carro e a vida, tal como eles a conheciam, acabou. Ironicamente, vem-me à memória o verso de Fernando Pessoa: [a] morte é a curva da estrada.  

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Deambular pela comunidade da oncologia pediátrica, como o faço há 24 anos, é conviver com a frase [s]entamo-nos para jantar e a vida, tal como a conhecemos, acaba. Há um tempo que começa quando os Pais ouvem o diagnóstico de cancro num filho pequeno - e esse tempo que começa marca o fim de uma vida, tal como a conhecemos; há outro tempo que começa - e que marca outro tempo que acaba - quando tudo se suspende num alívio, ou quando tudo termina numa dor. Todos estes tempos são marcados pela precariedade. O mundo no qual [a]inda víamos felicidade e saúde e amor e filhos bonitos como ‘dádivas vulgares' (Joan Didion, Noites Azuis) é um mundo precário, onde uma viagem de carro, uma saída de barco ou um exame que se manda fazer determinam uma tragédia imprevisível: não é suposto morrer-se aos 28 anos, não é suposto morrer-se aos 56 anos, não é suposto ter-se cancro aos 6 anos.

Para a precariedade da vida não há solução. Os desastres de carro não acabarão, as saídas de barco não acabarão, o cancro pediátrico não acabará. À ciência cabe desenhar carros mais seguros, barcos mais seguros, tratamentos mais eficazes. A nós, mortais na condição de Pais, filhos, irmãos, cônjuges, cabe-nos a preparação constante para a precariedade inevitável. Todos os dias teremos de pensar que este dia, este hoje, poderá ser o último para nós, ou para aqueles que amamos. E agir em conformidade. A morte do Diogo Jota e do irmão é um kind reminder (para usar uma expressão moderna) desta necessidade de vigilância afectiva. Por vezes hoje não é o primeiro dia da minha vida, mas hoje poderá ser o último dia da minha vida.  

Termino este texto com uma frase que usei há um ano e que já tinha usado no ano anterior: não somos os mesmos, não seremos os mesmos. A frase aplica-se ao dia de hoje, mas de há 31 anos, mas também se aplica ao dia de hoje, na evidência dramática da precariedade da vida.

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Na sua bondade sem fim
Quis Deus olhar para mim
Dar-me um pouco do que é seu
Deu-me uma estrela pequena
A quem chamou Madalena
Que é uma das santas do Céu 

JdB, em nome de todos os que te lembram.

06 julho 2024

Carta a um anjo

Nasceste hoje, mas há 30 anos.

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O meu percurso académico leva-me a entrevistar Pais de crianças que foram diagnosticadas com cancro e que estão globalmente fora de tratamento há 5 anos ou mais. Um dia mais tarde entrevistarei Pais cujos filhos foram diagnosticados mais recentemente e que, por isso, ainda estão em tratamento. E entrevistarei Pais cujos filhos - na generalidade muito novos, demasiadamente novos - morreram de cancro. Em todos eles ouvirei o mesmo, entre outros aspectos mais individuais: tive pouca gente com quem conversar sobre o tema; muitos dos meus amigos desapareceram.

Se, por um lado, é a vulnerabilidade que une os seres humanos, por outro lado - ironicamente - é essa mesma vulnerabilidade que cria um espaço, tantas vezes intransponível, entre o eu que sofre e o outro que escuta. Ou, porque tudo isto é biunívoco, entre o outro que sofre e o eu que escuta. O desaparecimento de amigos é um problema que afecta estes Pais; é um problema real, mas assente num equívoco. Ninguém desaparece por desinteresse, mas por desacerto. Ninguém desaparece porque não tem interesse em ouvir um Pai a falar de um filho com cancro, mas porque não sabe o que dizer a um Pai que tem um filho com cancro. Somos todos tentados a apresentar uma saída para o sofrimento dos outros, a sugerir ferramentas para que a pessoa siga em frente, tenha pensamentos positivos, procure a sua felicidade. Somos tentados a oferecer soluções, quando os outros talvez queiram dar-nos uma angústia. Estamos menos preparados para escutar, porque o mundo nos impele a resolver. Escutar é uma arte - e não é uma arte fácil.

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Duas décadas de actividade no mundo da oncologia pediátrica ensinou-me quase tudo o que eu quereria - ou precisaria - saber para ser, se o conseguir, um pouco melhor. Ensinou-me que somos todos diferentes, e que isso faz de nós todos iguais. Ensinou-me a importância das histórias, da escuta, da solidão das pessoas, da destruição de relações, do fortalecimento de relações. Ensinou-me a fragilidade de tantos profissionais de saúde, treinados para curar e dar boas notícias, não para serem confrontados com a morte.  Ensinou-me o desacerto desses mesmo profissionais de saúde, que não foram ensinados a olhar para esta comunidade de Pais e doentes com um olhar atento, desprovido da ciência que atenta nos números que se leem, não nas palavras que (não) se ouvem. Ensinou-me a generosidade humana, a vulnerabilidade que liga, a emoção que enriquece, as lágrimas que não se contêm.  

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O meu texto de há um ano acabava com uma frase que me apetece repescar, não como um mantra que nos faz lembrar algo, mas como uma certeza que nos enriquece e que conta a nossa história dos últimos 23 anos: não somos os mesmos, não seremos os mesmos

Na sua bondade sem fim
Quis Deus olhar para mim
Dar-me um pouco do que é seu
Deu-me uma estrela pequena
A quem chamou Madalena
Que é uma das santas do Céu 

JdB, em nome de todos os que te lembram.

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